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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Como Akira Kurosawa reflete sobre a efémera existência humana

Hugo Gomes, 30.09.20

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Espreitar o Ocidente sob a lente oriental foi um dos "modus operandi" de Akira Kurosawa na sua jornada pelo estatuto de “maior dos cineastas japoneses”, como se constata pelos diferentes géneros profundamente americanos que “contaminavam” as suas incursões populares até às inspirações literárias e dramatúrgicas, que iam de Shakespeare a Dostoyevsky e até Tolstoy, de onde origina parte deste “Viver – Ikiru”.

Este filme de 1952 tem como contexto o "boom" socioeconómico do Japão pós-Segunda Guerra Mundial, olhado como a primazia da burocracia, e o impacto que este sistema tinha (e tem) na vida social e pessoal dos seus cidadãos. Fora das bandejas neorrealistas e de foro político-social, “Viver” é a história de um velho funcionário público que de sábio nada tem: Kanji Watanabe (Takashi Shimura, um dos colaboradores recorrentes de Kurosawa) está reduzido a uma mera secretária cujo grande orgulho é o de nunca ter faltado, um dia que seja, ao seu serviço durante 30 anos, mas que altera radicalmente a sua perspetiva de vida após lhe ser diagnosticado um cancro no estômago. A forma como este ancião viúvo encara essa notícia e os dias que lhe restam varia ao longo da narrativa, partindo numa autodestruição entre bebidas, festas e mulheres, para chegar à redenção quando se envolve na conceção e construção de um parque público.

Tal como Kanji Watanabe deambula no pêndulo da sua vida, "Viver" tende a moldar-se conforme a ocasião: começa como uma abordagem emotiva e pessoal, com a voz off que antecipa o seu destino, enquanto uma segunda parte é conduzida por relatos de terceiros que tentam apurar como foram os seus derradeiros momentos (um exercício muito ao estilo do seu anterior e incontornável “Rashomon: Nas Portas do Inferno”). Quanto mais próximo do "kanji", que se traduz por "fim", o filme retrai as suas garras quanto às críticas à própria estrutura burocrática, libertando-se pelo drama humano, nas decisões estéticas de Kurosawa para transmitir o estado de espírito do ancião (a neve adquire um manto poético que cobre a Morte) e o expressivo Takashi Shimura a condensar toda uma vida descartável que debate, em modo de epifania, a sua miserável existência.

"Viver – Ikiru" não é apenas uma obra para se ver, mas sim, ao contrário do que fazia o seu protagonista, para se viver. Se possível, no grande ecrã...

Porque acreditar na nossa mera existência ... é pouco!

Hugo Gomes, 25.09.20

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“No que vamos acreditar, se Deus não existir?”
“Sei lá eu, talvez na nossa existência?

O pombo descolou do seu ramo, migrou com promessas de uma primavera vizinha, deixando para trás a Humanidade debatendo sozinha com a sua mortalidade com tamanho absurdismo. Entre perdas de fé à tristeza embaraçosa ou somente a cobiça pelas conquistas dos outros que envergonham as nossas vivências, um “bando” (assumindo a semântica ornitóloga) de infelizes, e zombificados, condenados à tumba, que durante as ditas “férias da morte” promovem os seus problemas de primeiro “mundinho”.

Setes anos depois do seu consagrado filme – “A Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence” – o sueco Roy Andersson traz até nós mais uma colheita de episódios de um humor mórbido, seco e tão familiar para com as nossas “diferentes” peles. Depois da pandemia e as ameaças de uma segunda vaga, este conjunto de quadro-vivos chamado “About Endlessness” resultou numa boa interação com o nosso bovarismo crónico.

Como odiar Antebellum?

Hugo Gomes, 23.09.20

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É possível odiar “Antebellum” sem seguir-se por ideologias políticas de ultra-direitas (para disfarçar o extremismo patético)? Obviamente que sim, até porque todo o filme joga com a abjeção de consciência perante as sequências de “horror” e pelo oportunismo da temática e consequentemente tecer um dispositivo quase demagógico. Porém, é nesse sentido que “Antebellum” consegue inverter a tendência e ser um objeto frágil mas confiante nos seus emotivos gestos (defendo a sua quebradiça postura de importunação). Agora, se odiamos o filme dentro dos quadrantes políticos, bem, isso entramos num território ético do qual não existe discussão possível.

Tiago Aldeia “navega” pela Braga noturna em busca dos «Os Conselhos da Noite»

Hugo Gomes, 16.09.20

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Tiago Aldeia e Marta Carvalho em "Os Conselhos da Noite" (José Oliveira, 2020)

Longe do seu mundo e de qualquer afetividade, Roberto é uma espécie de eremita precoce que encontrou no meio rural o seu precioso refúgio. Contudo, uma carta, que surge sem avisar, rouba tudo isso dele, atirando-o para um turbilhão de álcool e noites mal dormidas sob as promessas de uma imortalidade inalcançável. Enquanto procura resquícios do seu passado nas noites de Braga, Roberto afasta-se mais do seu futuro … se isso está realmente predestinado à sua figura pedante?

José Oliveira, cinéfilo de gema e que tem atingido algum reconhecimento na curta-metragem “Longe: Far”, protagonizado pelo ator José Lopes (falecido em dezembro de 2019) e apresentado no Festival de Locarno, aventura-se numa longa-metragem que se veste num ambiente de festiva soturnidade para nos entregar o percurso autodestrutivo de um homem nas estribeiras da sua própria sorte. Estes são os, como o título indica, “Os Conselhos da Noite”.

Para incorporar esse Roberto, está o ator Tiago Aldeia, pouco a pouco a inserir-se no seio cinematográfico após uma carreira sólida na produção televisiva. O ator, que já havia trabalhado com o cineasta Ivo M. Ferreira, é por fim, um protagonista de corpo, alma e de devaneios próprios.

O ator falou com o Cinematograficamente Falando … sobre esta sua relação com o próprio Cinema.

Sobre a sua participação neste filme, o que o levou a trabalhar com o realizador José Oliveira?

Li o guião, encontrámo-nos para uma conversa e foi aí que percebi a sua visão e entusiasmo, a sua abertura a sugestões, e tudo começou. Foi uma real troca de ideias, que se efetivaram na rodagem do filme com cumplicidade.

Queria que primeiro contasse-me sobre a sua experiência naquele que é um dos momentos mais sentimentais do filme, a despedida da sua personagem ao ator José Lopes (o qual, sabemos, que este foi o seu último papel em vida)? E como encara hoje a sua ausência, tendo em preciso momento?

Apenas conheci o José Lopes nesses dias que filmamos no Alentejo, homem generoso, profundo e atento. Acho que a cena passa disso, o que se torna de certa forma uma poética homenagem.

Como concebeu a sua personagem, e de que forma contou com o auxílio de José Oliveira neste processo criativo?

O filme atravessa o percurso emocional do “Roberto”, que está em todas as cenas. Foi indispensável partilhar com o José Oliveira, toda a criação do “Roberto”. Foi uma partilha honesta e intensa, tanto que houve pequenas alterações ao guião para que eu lhe conseguisse dar o “Roberto” com toda a carga emocional que ele me solicitou. Um homem perdido e sem nada a perder, um limbo muito interessante para se trabalhar … Pois tudo pode acontecer a qualquer momento.

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Tiago Aldeia e Adolfo Luxúria Canibal em "Os Conselhos da Noite" (José Oliveira, 2020)

“Os Conselhos da Noite” é um filme que, no fundo, aborda a nossa autodestruição como estado de espírito. As noites e tudo anexado, como um escape das nossas, e íntimas, questões existenciais. Alguma vez se sentiu como esta personagem?

Acho que todos nós, em algum momento da nossa vida, com maior ou menor intensidade, tentamos resolver alguma questão emocional com esse tipo de escapes, esses “pensos rápidos”. Seja para esquecer momentaneamente um problema, provocar “dormência” à dor, inibição, euforia... etc. Mas, felizmente, nunca senti essa necessidade de forma tão profunda e constante como o “Roberto”, muito menos num sentido autodestrutivo que lhe é latente.

Queria-me que contasse a sua experiência em contracenar com Adolfo Luxúria Canibal, o vocalista dos Mãos Morta. No filme, dá-se a entender que se divertiram a filmar estas ditas cenas.

O Adolfo e a sua personagem “Vicente” são de poucas palavras e o “Roberto” extrovertido, eu sou extrovertido... e esta irónica conjugação correu muitíssimo bem! Em cena é clara a cumplicidade, e efetivamente foram das cenas mais divertidas de fazer no filme.

Sobre esta noite bracarense, inteirou-a por completo? E não questiono somente em termos de personagem.

O Roberto, decididamente, eu ainda tenho que ir mais vezes ao jogo [risos].

Tendo uma carreira maioritariamente televisiva, com algumas paragens no cinema, e agora vendo-se como o protagonista de “Os Conselhos da Noite”, será razão para avançar ainda mais no cinema? Existem projetos novos em vista?

Absolutamente, adoro fazer cinema. Mergulhar intensamente numa personagem “naquele” período de rodagem realiza-me muito. Tenho pena que o nosso mercado seja pequeno e as oportunidades e condições não sejam muitas. Mas tenho algumas ideias a serem trabalhadas... tudo a seu tempo.

Existe uma sequência em “Os Conselhos da Noite”, no qual Roberto vagueia por um centro comercial algo abandonado, e por entre as lojas fechadas há um cinema inoperacional. Ora, pegando no facto de José Oliveira ser também programador do Cineclube de Braga que tem tido um papel fundamental na difusão e exercitação da cinefilia fora dos quadrantes de Lisboa e Porto, como vê este desaparecimento das salas, a ascensão dos multiplexes e a importância dos cineclubes? E o que poderemos fazer para devolver o cinema aos mais diferentes recantos (muitos deles cinematograficamente órfãos deste país).

É uma questão pertinente, o comodismo do streaming veio mudar o paradigma. Para mim é essencial que não se desista destes cinemas, que promovem a cultura e a cinematografia a quem as procuram. Talvez se tentássemos torná-los mais dinâmicos, mais atrativos, eventualmente com bares, restaurantes… Galerias de arte… Ideias criativas que os possam ajudar. No entanto, e independentemente do presente, acredito que no futuro voltarão a estar na moda! Mas até lá, podemos sempre tentar fazer tudo o que pudermos para os manter vivos. A magia de ver um filme num cinema é única.

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Tiago Aldeia e José Lopes em "Os Conselhos da Noite" (José Oliveira, 2020)

Sobre a reabertura das salas? Esta aposta do cinema português numa altura em que o medo de ir aos cinemas ainda é vincado, previsões naquilo que será o cinema português pós-COVID?

Não podemos parar, já é um setor em dificuldades há alguns anos, pelo que temos de continuar a trabalhar para permitir que todos possam ter acesso à cultura! E na verdade, temos que tentar ver o copo meio cheio. Ultrapassado o medo, e porque todas as medidas de segurança e higiene estão a ser rigorosamente aplicadas nas salas de cinema, é uma boa oportunidade para as aproveitarmos, como se fossem nossas! Um verdadeiro luxo. Deixo assim o apelo, vão ao cinema, nunca o barulho das pipocas incomodaram tão pouco.

Tendo uma carreira maioritariamente televisiva, com algumas paragens no cinema (destaco as longas-metragens “Hotel Império” e “Cartas da Guerra”, ambos de Ivo Ferreira, e ainda a curta “Cigano”, de David Bonneville, onde se tornaria, pela primeira vez, protagonista em grande tela), e agora vendo-se como o “cabeça de cartaz” de “Os Conselhos da Noite”, considerará motivo para avançar ainda mais no cinema? Se sim, tem projetos novos em vista nesta área?

Absolutamente! Adoro fazer cinema. Mergulhar intensamente numa personagem “naquele” período de rodagem realiza-me muito. Tenho pena que o nosso mercado seja pequeno, e as oportunidades e condições não sejam muitas. Mas tenho algumas ideias a serem trabalhadas…tudo a seu tempo.

Enquanto ator, que dificuldades ou virtudes trarão estas novas regras de segurança e sanitárias no trabalho e envolvimento com outros colegas e técnicos?

É muito difícil ver qualquer virtude, pois evitar a proximidade numa arte em que a emoção se traduz tantas vezes pelo contacto chega a ser frustrante. Tal e qual como nos é difícil não abraçarmos a família e amigos. E todos nós sentimos falta desse toque!

Um manual básico de sustos sem improvisação

Hugo Gomes, 13.09.20

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Os fantasmas devem andar todos a frequentar a mesma academia, porque em matéria de sustos (mais precisamente o tão vendido dispositivo jump-scare), todos parecem ter aprendido nas mesmas bandas.

“O 3.º Andar: Terror na Rua Malasana” (“Malasaña 32”) riposta no clássico filme de assombração, com um apartamento de um prédio madrileno a assumir palcos dos terrores materializados, após a chegada de uma família rural nos anos 70 (contextualizando a transição do franquismo para a nova democracia espanhola). Aqui, os ditos espectros recorrem aos mais variados truques, todos eles contrafeitos e retirados de vários “clássicos” do género, investido nos mais inúmeros clichés e adornos-cúmplices dessa criação fantasmagórica … ah, e o auxílio da sonoridade delatora que nos lança pré-avisos quanto à chegada dos tais pop-ups.

Sim, nada de relevante ou inventivo poderemos encontrar neste arraçado de “Poltergeist” com tiques / tendências de “The Conjuring: A Evocação” e dos seus primos afastados, a não ser o seu próprio twist, um quase whoddunit fantasmagórico que vem ao delinear uma crítica à sociedade intolerantemente patriarcal da época, mas novamente, são territórios que o terror enquanto veículo subliminar para com temáticas atuais incentivava-nos desde sempre.

Agora, inserindo-o no contexto da indústria espanhola, e fechando os olhos à “invasão” produtiva na Netflix, uma certeza assombrosa nos atinge – os espanhóis já demonstraram, sobretudo em tempos dos iniciais fracassos da Filmax ou das ocasionais incursões do antes e do paralelo dessa mesma produtora, mais ambição e obviamente mais afinco na sua condição de entretenimento terrífico-passageiro. No fim de contas é isto, o filme assinado por Alberto Pintó (“Matar a Dios” em colaboração com Caye Casas) é um esboço daquilo que poderia ser se este não estivesse ao pendurão das trendys do seu subgénero.

Été 85: o verão de um "condenado" amoroso

Hugo Gomes, 11.09.20

MV5BOTM4ZTg5ZjItNzdhNy00M2E1LThkOTUtODAyMzdiZjJjMjFalou-se aqui de um “Call Me By Your Name” francês, sendo que a única coisa que tem de comum (para além do óbvio romance homossexual) é o saudosismo para com a época descrita, transformando músicas pirosas em marcos da nossa emotividade e paixonetas estivais por amores shakespearianos com a sua pitada de macabro. É um (pequeno) grande passo de Ozon após o certinho e igualmente deslavado “Grâce à Dieu”, evidenciando aqui um jeito algo tosco em salivar por velhos temas existenciais e eternos gestos autorais. É um filme com a sua personalidade, mesmo que por vezes seja levado pelas ondas ("como uma onda no mar", já dizia o 'outro')

Já falta pouco para os 30 ...

Hugo Gomes, 05.09.20

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Em 2014, Adriano Mendes estreava na secção Novíssimos um pequeno e genuíno filme chamado “O Primeiro Verão”. Realizador, argumentista, protagonista, editor de som, um trabalho hercúleo que resumiu numa experiência estival de paixões e afetos tecidos pela atriz Anabela Caetano. Seis anos depois, regressa ao Indielisboa com uma segunda longa-metragem, mais madura e isenta do positivismo jovial. Em "28 1⁄2", Anabela Caetano não é mais a doce razão de sorrir de Adriano Mendes, é antes disso uma jovem no limiar da sua juventude, tendo de resistir às adversidades do qual nunca esteve preparada. Um filme na porta da maturidade, um ensaio de defraudações cujo sorriso é uma mera miragem. O mundo é impiedoso, bem nós sabemos, e Adriano Mendes parece saborear isso mesmo, essa crueldade silenciosa.

Catarina Wallenstein: "Dentro de mim podem existir 50 pessoas diferentes, mas a questão é quantas delas quero conhecer"

Hugo Gomes, 05.09.20

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Um Animal Amarelo (Felipe Bragança, 2020)

Há um animal, grande, felpudo e tons amarelos que traz consigo memórias amaldiçoadas e poeira cintilante, que é um convidado de honra no Indielisboa.

"Um Animal Amarelo", o mais recente trabalho do jovem cineasta brasileiro Felipe Bragança, centra-se na história com ecos coloniais de um aspirante a realizador que decide refazer a sua vida como “caçador de riquezas” em Moçambique, sempre acompanhado pelo fémur dos seus antepassados e por um "espectro animalesco".

Conversei com Catarina Wallenstein, atriz que tem ganho nome na produção nacional em trabalhos de Manoel de Oliveira, João Botelho e Sérgio Tréfaut e que, do outro lado do oceano, tem trabalhado com Felipe Bragança numa reconstrução identitária brasileira, primeiro com "Tragam-me A Cabeça de Carmen M.", sobre uma atriz portuguesa que se acha perfeita para interpretar o papel de Carmen Miranda, e agora com o filme que encerra esta 17ª edição do festival IndieLisboa.

No IndieLisboa do ano passado, vimos "Tragam-me A Cabeça de Carmen M.”, que codirigiu com Felipe Bragança. Agora, chega-nos “Um Animal Amarelo”, mas sem a Catarina creditada na realização.

Na verdade, "Um Animal Amarelo” foi rodado antes do “Tragam-me A Cabeça de Carmen M.”, um filme menos ambicioso. Conheci o Felipe durante a rodagem do “Um Animal Amarelo” e decidimos trabalhar no “Carmen” durante a sua pós-produção, para estar pronto como filme-reação. Para existir com maior prontidão. Normalmente nos filmes aplicamos um maior desenvolvimento, aquele tempo todo para escrever, mas “Tragam-me A Cabeça de Carmen M.” foi uma experiência mais artesanal, um processo mais imediato com o momento presente, uma convulsão tão rápida para com esse tempo. Quisemos reagir e, por isso, já estamos a pensar fazer outro.

Em termos políticos, havia qualquer coisa de atualizado em "Tragam-me A Cabeça de Carmen M." em relação a este.

Um Animal Amarelo” é um filme de camadas sobre a identidade brasileira, que é atravessada pelos tempos. Nós, portugueses, também albergamos essas questões, visto que o filme lida com o colonialismo presente na sua sociedade. Quanto a essa atualização, é bem verdade que os tempos estão a mudar e muito rapidamente, mas "Um Animal Amarelo" aborda questões que não desatualizam em um ou dois anos. O Felipe começou a trabalhar nos filmes antes da eleição de Bolsonaro. Em 2017.

Em “Um Animal Amarelo”, as televisões têm importância para o seu contexto temporal. Quando o protagonista embarca na sua aventura africana, notamos que o Brasil está atento ao "impeachment" da presidente Dilma Rousseff.

Exatamente! Foi uma localização temporal e como o Brasil atravessa durante estes anos, em particularmente desde o golpe. Penso que devemos chamar os bois pelos nomes. Porque do "impeachment" ao golpe existe uma mudança do "status quo" que vai da irresponsabilidade de uma pessoa a uma engrenagem de um movimento ainda maior. Aliás, a Dilma já foi ilibada do que fora acusada, ou seja, ela poderia concorrer outra vez. Só que o seu processo de destituição deu espaço a este atual governo que está a desmantelar o Brasil.

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Tragam-me A Cabeça de Carmen M. (Felipe Bragança & Catarina Wallenstein, 2019)

 

No fundo, “Um Animal Amarelo” é uma fabulação da consciência colonial, quer do Brasil como também de Portugal?

Como cidadãos portugueses temos muito que olhar para a nossa História. “Um Animal Amarelo” é uma coprodução luso-brasileira que foi filmada em Rio de Janeiro, Beira (Moçambique) e Lisboa, criando uma rota comum com a da Escravatura. Permitindo aos dois países repensar o passado que carregamos nas costas. Mas isso depende de cada um e julgo que poucos estão abertos para o fazer.

Mas começa a questionar-se nos manuais escolares a nossa história colonial, nomeadamente a chamada Era dos Descobrimentos.

Sim, começa a existir, mas de forma simplificada. Aliás, um dos problemas de hoje é a facilidade de acesso à informação bastante simplificada, que traz pouca densidade de pensamento. Nós temos que olhar para tudo isto de forma mais complexa e não sermos abatidos pela culpa, porque esta não interessa para nada. O que interessa saber é de onde se vem e para onde vai e o nosso papel de causa-consequência efetivo no desenvolvimento socioeconómico de vários países.

Em relação ao cinema, os franceses “abriram” mais rápido essa desconstrução colonial, enquanto o português ainda vai em pequenos passos.

Sim, só que eles não passaram por uma ditadura de 40 anos que exaltava sentimentos de patriotismo de forma abnegada e pouco explicada. Como alguns “F” que nos ajudaram a construir uma identidade muito básica. A exaltação da bandeira através dos “futebóis” e dos seus respetivos clubismos. Reduzir a identidade nacional somente ao “Fado". Faz parte dela, mas nós não somos apenas isso. Não sou só a Catarina, não sou só uma atriz, não sou só uma mulher e não sou só uma portuguesa. Dentro de mim podem existir 50 pessoas diferentes, mas a questão é quantas delas quero conhecer, dentro da minha história, da minha família. Acho que devíamos ter um pouco mais de vontade de ser curiosos e deixar-nos surpreender.

Outro fator que julgo ser a essência das aventuras deste “herói” é que todo o filme traça um quadro geral do privilégio branco.

Talvez sobre o ridículo e a impossibilidade da utopia do "privilégio branco". O herói branco de “Um Animal Amarelo” é um anti-herói e o facto de ser um privilegiado branco não o faz dele heroico. Não é de todo uma boa pessoa, é um anti-herói que vivencia acasos e onde ele nem sempre é louvável. Isto é uma história onde os negros nem sempre os "bonzinhos", o branco não é nem o "bonzinho" nem o "mauzinho". Por outras palavras, nós não somos uma camada e o filme em si não recorre ao maniqueísmo, apenas desafia o que é "normalizado" para entendermos que existe uma faceta trágica em cada um de nós.

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Um Animal Amarelo (Felipe Bragança, 2020)

No fundo, este “anti-herói” brasileiro, como a Catarina lhe chama, que generaliza a ideia de privilégio branco, é um homem ridículo. O privilégio branco é, isso mesmo, “ridículo”?

Sim. Contudo, julgo que, na cultura portuguesa, não temos essa capacidade de auto-deboche, de ridicularizar-nos e, no fundo, penso que seria algo que individualmente nos enriqueceria bastante. Desde 1500 que andamos a exaltar e a glorificar os nossos feitos, o que é muito ridículo porque somos um país muito pequeno, muito provinciano e, ao mesmo tempo, com mil e uma qualidades. Não sou nenhuma traidora da pátria por constatar defeitos ou fragilidades no meu país. Trazia-nos a complexidade que falta ver essas contrariedades e não somente vermo-nos como um povo simplificado de valores tatuados pela ditadura. A nossa geração ainda é herdeira do Estado Novo, ainda somos medrosos. Não nos posicionamos ainda porque ainda temos medo do que o outro pensa, fruto de anos e anos de denúncias e do constante peso da Igreja. É uma carga gigantesca que carregamos às costas e não queremos falar.

Abordemos o futuro, mais especificamente o cinema e a COVID-19. Acredita nessa coexistência nestes novos tempos?

O cinema continuará a existir depois da COVID-19. Não me preocupa verdadeiramente o cinema, tendo em conta a falta de sustentações políticas culturais que alimentem um setor que não só está desnutrido como é necessário à boa saúde da nossa democracia. Evidentemente que o Estado tem que ter um papel importante no apoio da criação plural, independente e diversificada. Não podemos todos depender de plataformas, marcas, curadorias empresariais para estarem a criar produtos massificados, todos parecidos uns com os outros, só porque sabe-se à partida que vai resultar a nível de bilheteira.

Catarina Vasconcelos: "o que de extraordinário tem o cinema é a sua capacidade de repensar o mundo"

Hugo Gomes, 04.09.20

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Com "A Metamorfose dos Pássaros", premiado no Festival de Berlim, a artista Catarina Vasconcelos vai ao encontro das mulheres do seu passado que nunca conheceu: a mãe e a avó, Beatriz, carinhosamente apelidada de Triz.

A realizadora aborda a sua família como uma galeria de quadros animados e de natureza morta, um gesto de criação poeticamente visual que desenha um legado enriquecedor para contagiar emocionalmente os espectadores.

Conversei com a artista que encontrou no cinema o seu possível vínculo com memórias e afetos. A Metamorfose dos Pássaros” chegou finalmente a terras lusas através da 17ª edição do Indielisboa.

O seu filme foi uma intenção de “resgate” ou de criação de memórias, sendo que a Catarina as resolve num terno poema visual. Foi uma forma de criar um certo refúgio para que o espectador não possa “infiltrar-se” esse intimismo?

Há dois aspetos importantes que devo mencionar. Primeiro, não estudei cinema, sou de Belas Artes, e isso é crucial na forma como me aproximo do cinema. Venho desta estrada, portanto todo o universo que trago para o cinema é de arte, um tratamento algo plástico, como de "tableau vivant", de quadro, de pintura. Ao mesmo tempo, quando comecei a fazer o filme, que foi há cerca de seis anos — e tem toda a razão em usar a “palavra” resgate — foi porque o meu avô teve a necessidade de queimar a correspondência entre ele e a minha avó Beatriz.

Na altura, esse seu ato chocou-me e muito, até porque nunca cheguei a conhecer a minha avó e estava crente que iria conhecê-la melhor através dessas mesmas cartas. Portanto, tive essa ideia de resgatar alguém que nunca conheci, e durante esse processo, comecei a ir mais fundo. Seja através de entrevistas aos meus familiares, como ao meu pai. Embora tenham sido muitos generosos, tive sempre a singular sensação de que não estavam a contar-me tudo. Escondiam-me algo. Foi algo de que me fui apercebendo e apelidando de ‘mistério das famílias’, os “não ditos”, o que não é contado. Não por mal, mas que são uma espécie de regra de ouro entre famílias.

Como tal, acabei por ter muito espaço em branco. Tinha que preencher esses espaços! Por um lado, senti alguma frustração, por outro foi uma espécie de carta-branca para criar, inventar o que não sei. Com isso, o filme foi adquirindo esses contornos, entre o documental e a ficção, e de um momento para o outro existiam ‘coisas’ que eram fabuladas, repensadas, até porque não se sabia como eram verdadeiramente. Como eram os meus pais e tios quando eram novos, apesar de ter relatos do que eram famílias e mulheres a viver nos tempos da ditadura. O que mudava na essência dessas famílias. Esse carácter do filme entre as memórias resgatadas e de uma poesia que gira à volta disso tem a ver com o processo de construção do filme. Um não vive sem o outro. Hoje penso "que bom que não disseram-me tudo". Para que fosse possível criar esta linguagem, toda esta não só poesia, não seria só sobre esta família, mas partindo dela mesmo para abordar elementos ainda maiores.

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No preenchimento dos espaços em branco, existe também toda uma criação de um panorama sociopolítico da juventude dos seus avós, pais e tios, como o retrato do Portugal pré-25 de Abril. Queria que me falasse sobre essa reconstituição.

Esta família cresceu entre os anos 50, 60 e 70 [Estado Novo]. Para mim era importante abordar, primeiro, a família e o seu desenvolvimento, mas também do que se passava à volta deles. Reconstruir um panorama político. Por isso utilizei a coleção de selos do meu avô Henrique e percebi que, olhando através deles, conseguiria traçar, de modo geral, a história de um país e das suas ditas colónias ultramarinas. Como se pode constatar no filme, quase todos os selos oriundos de Angola ou Moçambique tinham uma alusão a António Oliveira de Salazar, seja através de barragens, pontes ou outras construções, o que dá uma ideia do sufoco vivido na época. Tudo que este homem tocava, automaticamente ganhava o seu nome.

Tentei implementar essa ideia no filme para transmitir a juventude asfixiante de Jacinto e dos seus irmãos. Outro elemento que tento abordar é o dito choque geracional. O meu avô nasceu em 1926, no início do Estado Novo, enquanto o meu pai nasceu em 1950. E como tal, desencadeará um desajuste geracional e político, não com isto afirmando que os meus avós eram pró-Salazar, mas a verdade é que nunca conheceram outra realidade sem ser aquela. E os meus pais e tios já estavam atentos ao que se estava a passar em França, Bruxelas [Bélgica], entre outros [países], tendo um termo de comparação que suscitou consciências políticas. Em “A Metamorfose dos Pássaros” tentei, com pormenores, criar um conjunto de apontamentos do cenário político-social desta família, uma espécie de pano de fundo para o enredo.

Gostaria que me explicasse o porquê da escolha da realizadora Cláudia Varejão (“Amor Fati”, “Ama-San”) como incorporação da sua avó.

Primeiro que tudo, tem uma voz extraordinária. Depois, porque é uma pessoa muito próxima e este é um filme feito com relações emocionais. Todas as pessoas que foram trazidas possuem uma proximidade. Certo dia estava a ouvir a Cláudia na rádio e nunca tinha ouvido assim a voz dela, dessa maneira, e fiquei impressionada. E admiro o trabalho da Cláudia, aliás, admiro a Cláudia. Portanto, ter ela no meu filme a interpretar a avó que não conhecia, mas pela qual era fascinada, marcou-me enquanto realizador, mulher e portuguesa.

Existe um momento curioso: quando o seu pai, Henrique, confronta-a com o porquê da sua mudança de nome no filme para Jacinto. Este diálogo tem como finalidade romper o lado “verídico” da obra, dando a ideia que aqui há espaço para a criação ficcional.

O que de extraordinário tem o cinema é a sua capacidade de repensar o mundo. “E se isto fosse assim” ou “se o meu pai se chamasse assim”. Todas estas possibilidades são-nos dadas com enorme generosidade pelo cinema. Ao mesmo tempo, essa mesma generosidade e capacidade de construção são notórias se as desfizermos. A única forma que tinha para mostrar essa mesma construção no filme era se se desconstruísse um "bocadinho" … e esse confronto com o meu pai foi real [risos].

Por um lado, percebo o lado dele, estou a fazer um projeto sobre a família e altero o nome dele! Achei interessante incorporar essa sua reação e de certa forma vai ao encontro com a natureza de "A Metamorfose dos Pássaros", a diluição do que é verdade ou ficcionado. Esta sequência é crucial para entender que existe essa vertente. Creio que toda essa construção/desconstrução, o de mostrar e esconder, percorre em todo o filme.

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E porquê Jacinto como nome fictício?

Uma coisa que percebi da minha avó Triz é que existia um amor à Natureza, às plantas, uma capacidade extraordinária de fazer nascer e crescer "coisas". Senti-o em várias fotografias, nas plantas que plantou. Era algo que sabia dela, não foi preciso contarem-me. Às tantas, certamente queria usar esta metáfora para batizar o primogénito de Jacinto, um filho com raízes em terra enquanto o marido está constantemente no mar. Essa explicação acontece no início para que no fim ocorra a desconstrução. E o mais, já bastava a confusão que era ter dois Henriques [avô e pai] na história. Era o fim da picada!

A situação pandémica alterou por completo o calendário de estreias. Veremos “A Metamorfose dos Pássaros” nos cinemas portugueses?

Gostaríamos muito que o filme estivesse estreia comercial. Aguardamos pelas datas para verificar qual a mais apropriada. Seja este ano ou no próximo, mas como referiu, com esta situação muitos filmes ficaram com as suas estreias atrasadas, o que causou uma espécie de linha de espera. Anteriormente, as pessoas já iam pouco aos cinemas, atualmente têm que trabalhar ainda mais e pensar em novas estratégias para novamente levá-las às salas.

O que pensa do streaming como solução de estreia?

“Ninguém” gosta que os seus filmes sejam vistos em streaming porque são feitos para serem vistos no cinema. As salas são as casas para os filmes. Mas neste caso especial, se o filme está selecionado num festival, mais vale acontecer, porque imaginamos que, para o ano, estas obras de 2020 não terão o devido espaço e outras mais recentes. Não se deve matar a carreira a estes filmes, apesar de não terem as estreias dignas projetadas pelos seus autores, produtores e todos os envolvidos. Sei que é um tema que tem dado discussão de certa forma fraturante na nossa comunidade, mas creio que isto foi tentar dar uma resposta rápida a uma situação que ninguém previa. Este cenário do streaming garantiu o destaque a filmes de 2020 que, de certa forma, não entrariam nos festivais do ano que vem.

E quanto a novos projetos?

O que tenho é mais uma ideia de filme, ou seja, está em fase de escrita. Foi um processo intenso a da produção de “A Metamorfose dos Pássaros”. De certa forma, esta quarentena serviu para me obrigar a parar um bocadinho e repensar. A ideia já está formada, o filme vai acontecer, só que, aviso, vai demorar um tempo.

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