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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um milagre em Roma!

Hugo Gomes, 05.08.20

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Emblemática imagem, aquela da voluptuosa, mas igualmente iluminada, atriz sueca Anita Ekberg a “banhar-se” na Fontana di Trevi sob o olhar estupefacto de Marcello Mastroianni. Nela, é possível admirar a inocência com que esta encara um mundo negro e decadente, o qual negligencia com todas as forças do seu ser. O nosso protagonista e ator-incorporado de Federico Fellini une-se a ela nas águas retidas no monumento, aproximando-se da estrela que parece “devorar” a atmosfera ancestral de Roma. Marcello tenta beijá-la, hesitando a tempo, apercebendo que, no fundo, nunca possuirá algo semelhante àquele “milagre” na sua vida. A Anita (sob o heterónimo de Sylvia) é a pureza do qual afasta-se dia após dia na sua demanda pela integração numa classe à parte. É o objetivo inatingível. A sua divindade!

Mas desviando da cena crucial que se converteu num ícone ao longo dos tempos, “La Dolce Vita", um dos grandes sucessos de bilheteira e de crítica do maestro Federico Fellini, é o retrato de um cobiçado submundo “romano” onde Marcello (Mastroianni), um jornalista especializado em “gossips”, anseia integrar a “comunidade” que persegue ou explora. O filme faz questão de representar toda essa sua trajetória desde a sua abertura, onde Cristo (uma estátua como é óbvio!), içada por um helicóptero e perseguido por outro (este da imprensa), sobrevoa Roma de braços abertos como um gesto de absolvição pelos pecados aqui reunidos. Pouco ou nada lhe vale, os mortais continuam a viver como bem sabem e Marcello foi o escolhido para representar essa descida infernal, enquanto reflete o seu próprio empobrecimento moral.

Após várias experiências, "La Dolce Vita" marcou o rompimento de Fellini com o estado tradicional do neorrealismo italiano (o movimento que estetiza a realidade de um ponto de vista ideológico) e foi um “bem-haja” ao universo "felliniano" que se prolongou pelos filmes seguintes, principalmente o caráter monstruoso que envolvia as suas personagens, incluindo as protagonistas. Aliás, isso nota-se no hedonismo fervoroso que se entranha em Marcello por entre salões vazios e preenchidos por sombras de uma certa aspiração aristocrática (“vamos caçar gambuzinos?”, proclamando com credibilidade por quem o sugere), figuras "non-sense" que o espectador observa como animais enjaulados. É como se falassem de outra língua, encriptada, em que apenas os convertidos conseguem dialogar.

O final é propício a essa divergência classificativa, com a praia (sempre a praia como palco de epifanias no cinema de Fellini e não só!) onde Marcello não consegue comunicar com a sua “vida anterior” após o encontro com a colossal raia (o “peixe monstro” que arreda os males humanos em todas as suas representações). É a graduação final. Objetivo cumprido! Infelizmente, também é esse trilho que o colocará a milhas do milagre anteriormente testemunhado na Fontana di Trevi.

A festejar uns novíssimos 60 anos, "La Dolce Vita" é uma obra-prima que retoma a "casa", ou seja, à sala de cinema. Para (re)ver e crer!

Grandes promessas do cinema para descobrir em tempos de pandemia com o 16º FEST

Hugo Gomes, 02.08.20

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Jumbo (Zoé Wittock, 2020)

De 2 a 9 de agosto, o FEST - Festival Novos Realizadores - Novo Cinema assumir-se-á como o primeiro grande festival de cinema pós-confinamento do país. Mostra de emergentes autores a descobrir e de um novo tipo de cinema com promessas de perdurar, Espinho regressará ao seu estatuto de capital cinematográfica durante uma semana, sendo que, paralela e posteriormente, Lisboa e Porto receberão esse testemunho. A comédia belga nudista “Patrick”, de Tim Milants, abrirá a mostra, que englobará cerca de 230 filmes, dos quais dez concorrem ao Lince de Ouro e sete são dirigidos por mulheres.

Ainda nas propostas desta 16ª edição poderemos contar com um cinema “drive-in” e um especial foco na filmografia do francês Quentin Dupieux (”Reality”, “Le daim") na secção Be Kind Rewind, e no cinema do realizador letão Aik Karapetian.

Conversei com Fernando Vasquez, diretor de programação, sobre o desafio de programar, gerir e projetar um festival em tempos de pandemia, e ainda uma verdadeira mostra de promessas do cada mais fragilizado cinema português.

Quais foram as dificuldades que o FEST atravessou e enfrentou nesta pandemia?

Os desafios foram muitos, começando logo pelo facto de a pandemia ter chegado numa fase crítica a nível de programação. De um momento para o outro ficamos sem saber se o evento poderia ter lugar ou não, o que dificultou em muito a negociação de algumas obras. O facto do Festival de Cannes, que é o grande barómetro do lançamento e distribuição de filmes na Europa, ter sido adiado, criou um clima de indefinição sem precedentes dentro da indústria, e a própria World Sales [organização de vendas de direitos mundiais] ficou sem saber que medidas tomar em relação a determinados filmes, se deviam ser lançados na mesma, ou se deviam ser guardados para melhores dias. Assim que a situação se tornou mais clara, o trabalho foi reiniciado. O que vinha a ser feito desde Agosto foi praticamente todo anulado e recomeçamos as preparações em tempo recorde. Apesar de todas as dificuldades, estamos muito contentes com a forma como a nossa equipa, e a indústria de uma forma geral, se comportou. E os resultados estão à vista.

E uma edição 100% online esteve em cima da mesa?

Chegamos a equacionar essa hipótese, mas confesso que ninguém no FEST fez questão de priorizar essa alternativa. Após estudar o impacto dessa alternativa noutros eventos, chegámos rapidamente à conclusão de que não justificava o esforço nem os recursos que teriam de ser empregues. Existe um excesso de conteúdo online e o sucesso destas iniciativas é sempre muito relativo, para não dizer fraco. Nós decidimos que, se o evento fosse ter lugar, teria de ser num formato sempre de uma mais-valia. Se fosse para ser online teria de trazer algo de novo e com grande potencial de melhoria, como foi o que aconteceu com o nosso Pitching Forum, que acontecerá em formato on line, e com uma presença de produtores e investidores ainda maior do que em anos anteriores. Em relação à exibição de filmes, concluímos que o melhor seria multiplicar as sessões, os espaços e as cidades. Desta forma nasceu a ideia da criação de uma sala "Drive-In" e a expansão de algumas das secções competitivas ao Porto e a Lisboa, para além das sessões habituais em Espinho.

O que destacaria na vossa seleção oficial? Que surpresas poderemos encontrar na edição deste ano?

Começando pela competição de longas-metragens, que este ano conta com sete mulheres realizadoras num total de dez filmes, destaco de imediato a presença de “Jumbo”, de Zoé Wittock, uma das mais badaladas obras neste último Festival de Sundance. É exatamente o tipo de filme que queremos exibir, uma obra de uma nova voz sem paralelo na cena mundial, impressionantemente inovador e arrojado. O filme perfila-se já para ser uma dos grandes sucessos do ano.

Destaco ainda o “Babyteeth”, da australiana Shannon Murphy, um dos grandes vencedores em [festival] Veneza, também ele muito arrojado por “brincar” com o cancro e a forma como uma família lida com tamanho problema. O “Pacificado”, de Paxton Winters, grande vencedor da Concha de Ouro em [festival] San Sebastián, também merece uma nota especial, até porque se trata de um "thriller" de favela poderoso e cuja ação se desenrola no período pré-Jogos olímpicos do Rio de Janeiro, o início das transformações sociais e políticas que tornaram o Brasil no barril de pólvora que é hoje. Nos documentários, refiro também "The Earth In Blue as an Orange”, da ucraniana Iryna Tsilyk, que venceu o prémio de realização em Sundance.

A nível de curtas, a qualidade e o tom mantêm-se. O Grande Prémio Nacional merece todo o destaque, com os regressos de cineastas como António Sequeira, Miguel D e João Monteiro.

Quanto às secções temáticas, grande foco para a Letónia, país em evidência na secção Flavours of the World, e em particular o cineasta Aik Karapetian, o grande timoneiro da nova onda letã, que reaparece neste FEST 2020 com duas das suas melhores obras: “People Out There” e “Man in the Orange Jacket”. E claro está, o "Drive-In" é a grande novidade e terá um programa especial, com duas sessões diárias, uma de comédia e outra de cinema fantástico. Enfim, serão exibidas mais de 230 obras nesta edição do FEST, por isso há muito para destacar.

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Babyteeth (Shannon Murphy, 2019)

A extensão da programação em Lisboa e Porto é uma parcela de uma projeção a nível nacional do festival?

O FEST já vem exibindo filmes fora de Espinho há muito tempo. Sempre exibimos obras no Porto e em vários pontos do país e Europa. Mas nunca o tínhamos feito durante a semana do evento propriamente dito. Sempre foi uma ambição, mas tendo em conta a complexidade de todas as actividades que habitualmente organizamos durante o festival, tinha sido sempre impossível fazê-lo nesse período. Agora que o Training Ground, Directors Hub e várias outras iniciativas foram adiadas para 2021, chegou o momento de dar esse salto e permitir que outras comunidades descubram o nosso trabalho, e mais importante ainda, o das grandes referências do futuro do cinema. É obviamente uma extensão que gostaríamos que se prolongasse no tempo.

Que desafios o festival espera encontrar?

Acima de tudo, o mais imperativo é manter as condições de segurança, que serão apertadas, desde o limite de lotação das salas e espaços, à impossibilidade da presença física dos cineastas, afetando o diálogo que é habitualmente mantido com a audiência. Este ano, haverá menos conversa e contacto físico, o que era sem dúvida uma das mais-valias do nosso evento, que sempre se focou muito neste aspeto social. Em 2020, terão de ser os filmes a cumprir essa função e estamos confiantes que são capazes de fazê-lo com grande sucesso. Mas o desafio principal será descobrir até que ponto as audiências nacionais estão prontas para responder à chamada.

Expectativas para o futuro?

Obviamente que ainda é cedo para se tirarem grandes conclusões. O mais importante é sabermos que a nossa estrutura é capaz de aguentar um período tão turbulento como este e que, apesar dos muitos desafios, foi sempre capaz de encontrar uma resposta à altura. Depois do evento vai tudo depender de como a indústria em geral se adaptar ao momento. Estou confiante de que esta experiência do Covid-19, para além dos muitos efeitos negativos que já teve e terá no futuro, a longo prazo vai estimular uma mudança de hábitos por parte da audiência, que no fundo era já um problema precedente à pandemia. 

Espero que se desenvolva um interesse e apetite crescente pela experiência coletiva de cinema em sala. Sei que a maioria das pessoas no nosso setor têm uma perspetiva muito negra em relação a este assunto, mas estou confiante que é exatamente nos momentos de aflição e pressão extrema que as melhores mudanças acontecem.

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