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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um monarca de “lata” em terra de ninguém

Hugo Gomes, 23.08.20

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Ponto de curiosidade: há uma década atrás (não com isto afirmando sobre um intuito de pena ou revisionismo), surgia entre nós um filme de gangsters ambientado na região de Staten Island, homonimamente intitulado como tal (em terras portuguesas recebeu o título de “Não Há Crimes Perfeitos”), assinado e filmado por James DeMonaco. O realizador e argumentista iria conceber, passando alguns anos, a popular saga de terror “Purge” (“A Purga”), muito dela filmada na região, como se pode constatar pelo reparo das personagens deste “The King of Staten Island” (“O Rei de Staten Island“), emborcados de junk food e “erva”, assistindo a um dos filmes da saga com um intuito de impressionar a um grupo de raparigas que nos seus refúgios ‘pousaram’: “Isto foi filmado cá, em Staten Island!”.

Curiosamente, este “mambo jambo” de referências cine-geograficas tem algo de reflexivo com a forma como Judd Apatow (“The 40 Year Old Virgin”, “This Is 40“) retrata a menos cobiçada área de Nova Iorque. Pelos vistos, muito mudou neste espaço de dez anos, do publicitado “território com mais gangsters por metro quadrado” até à prolongação “do enteado menos apreciado de Manhattan”. Pois bem, Apatow constrói através deste ,mais um, conto de “criança-adulto”, que constantemente renega a sua maturação, num gesto algo observacional ao espaço subúrbio, em ruínas e degradação sócio-económica.

O enredo pisa diversas vezes essa consanguinidade que impede o desenvolvimento regional, enquanto os “últimos” dos jovens residentes anseiam o outro lado da margem (Manhattan como o centro cultural, como é indicado pontualmente) ou esperam a prisão de vez como resultante dos seus escapismos ilícitos. É engenhoso, e ainda mais, vindo de um realizador que tem nos últimos tempos definindo uma escola de comédias grosseiras mas alicerçada ao solipsismos auto-destruidor das suas personagens (bem americanas aliás). Dele, imensos rebentos surgiram, alguns dos quais obtiveram melhor sorte, outros caindo no puro esquecimento (e em certa parte, ainda bem).

Enquanto isso, pormenores ou não, “The King of Staten Island” é um filme à Apatow por direito, condensando as suas marcas e temas-fetichistas, assim como a sua fascinação na irreverência e torná-la parte fulcral de um certo quotidiano. Mas ao contrário de muitos dos seus trabalhos, o realizador tenta encontrar uma génese catártica aos seus medos, muitos deles materializados na sua filmografia. Ao invés do habitual loser quarentão (já sem espaço para sonhar mas que milagrosamente, em jeito de crença no “sonho americano”, adquirem a sua segunda oportunidade para estabilizar aquilo que chamam de vida corrente), temos o jovem encalhado na sua própria procrastinação que o impossibilita … simplesmente de crescer, socialmente falando.

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Aqui, encenado por Pete Davidson (oriundo do universo “Saturday Night Live”), eficaz em criar uma personagem de difícil empatia (sendo esse o propositado grande desafio do filme), seguimos essa afronta à emancipação, comummente endereçado ao sufoco financeiro e à falta de oportunidades de uma sociedade ultra-capitalista e sem compaixão pelos nossos estatutos económicos. Assim, escorraçados às bordas dos ditos e sofisticados centros citadinos, deparamos com isso mesmo, americanos que sonham baixo … ou será, alto? Tendo em conta a sua perspetiva, é bem possível!

Obviamente, que para apreciarmos isto, temos que sujeitar-nos a um comboio-fantasma de um puro delongar narrativo, criando espaço (e mais espaço ainda) para as suas gags de um absurdismo normalizado ou simplesmente na corrente de um bullying perpétuo para com as suas personagens. É um objeto, pondo isto nestes prantos, que dispõe astúcia e (voilá) alguma terna emoção vinda dos esporos mais improváveis, mas para isso há que suportar a viagem, por vezes descarrilada, da degradante comédia negra que os norte-americanos estão mais que habituados nos últimos anos. E verdade seja dita, por culpa de Judd Apatow e dos seus discípulos!

Entre Guido e Federico, entre o cinema e as mulheres

Hugo Gomes, 20.08.20

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Em "Fellini 8 1/2" (1963), aos 43 anos, o realizador contempla-se (e privilegia-se, digamos assim) com a capa fictícia de Guido (interpretado por Marcello Mastroianni, quem mais?) para o ajudar a refletir sobre o seu percurso e sobre a relação com o cinema que o envolve. Através dessa figura nasce o sempre enigmático “8 ½”, uma autobiografia de foro extensivamente existencial sobre um realizador num perplexo conflito de inspiração.

No centro desta procrastinação, surgem as mulheres, um signo que o remete para os mais variados desejos, sejam lascivos, amorosos ou simplesmente invocações do seu “amarcord” (o equivalente italiano a ‘saudade’, neste caso de casa, Rimini, aquela praia e aquele assombrado refúgio da figura de Saraghina). Sim, o feminino é o centro vital da vida de Guido e consequentemente dos atalhos memoriais do próprio Fellini, que concede “8 ½” como o auge do seu palanque felliniano, o estilo que compõe e liberta no auge da indústria italiana, proclamando como seu por direito.

Três anos após “La Dolce Vita”, onde esmiuçava um estilo de vida romanesco e claramente burguês, Fellini continuou a sua demanda pelas futilidades e pelas vontades inconsumíveis do ser mais insaciável, nós. O “eu” artístico não é mais que uma desculpa para alcançar essa genealogia da mortalidade. Mas voltando ao dito “felliniano”: é o onirismo provocatório que alicerça a fantasia masculina e insegura de Guido, os contornos que colocaram esta obra na vanguarda do seu autor. A partir daqui a relatividade do adjetivo criado adquirirá a sua aura e perderá para sempre a sua fisicalidade. Por outras palavras, foi com “8 ½” que o intrínseco do sonho molhado é experimentado e superado na sua mais devaneia forma. O resto, digamos, a carreira de Fellini, pairou no limiar da fronteira deste território com outros desejos na mente, como o de escapar à sua própria realidade. As memórias não serão esvaziadas totalmente aqui, continuarão anos largos e em outras produções de respeito da pauta de Fellini (entre as quais, “Amarcord”, lançado dez anos depois).

Mas voltemos ao universo estabelecido em “8 ½”, pondo de parte as “sequelas” causadas por esta introspecção. O filme assume-se como um bloco de palavras soltas, reorganizadas na tendência de um homem de chicote (literalmente) e é através destas mesmas palavras, diríamos decifradas por sequências e personagens passageiras, que o espectador se move em direção à “obra mestra”. O mono arquitetónico que culminará com a verdadeira fuga do artista: “para os produtores, um filme falhado é um fator económico, para o realizador representa a beira de um fim”.

Já aqui, desenhava-se a força motora da indústria cinematográfica italiana, dos lentos, mas contínuos processos de rivalidade (ou diluição) com Hollywood que, por um lado o iriam guiar para a sua decadência, nunca mais contrariada desde o final de 70. Mas por enquanto, Fellini interage com o seu lugar no cinema e cria a sua própria parábola.

Até ver o "Fim do Mundo" ...

Hugo Gomes, 19.08.20

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Depois do místico “Até ver a Luz”, Basil da Cunha continua a dar palco às vozes marginalizadas, num conto de náufragos sem vitimizaçõe, nem heroísmos. Estes são os nossos “Miseráveis”, os nossos subúrbios, a continuação do biótopo à desmoronar como um certo Quarto’, que hoje acreditamos ter mudado a face do cinema português para o novo milénio, avançou. Mas não se deixem colar pela menção, há aqui, neste “O Fim do Mundo”, artificio calculado, engenho e verdadeiramente, Cinema com sangue na guelra. Depois da sua estreia mundial em Locarno no ano passado e com chegada marcada para os cinemas em setembro (sem antes fazer a sua visita no Indielisboa), será este o filme português do ano (mesmo sendo coprodução)? Bem, confesso que estou maravilhado com este universo.

«Ghost of the Golden Groves»: Os fantasmas divertem-se no incógnito da existência

Hugo Gomes, 17.08.20

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 “Quão bom é essa liberdade?

O habitante do remoto vilarejo questiona ao “estranho” que o aborda. Pelas trajes, higiene e a sua constante expressão de repúdio e reprova para com os demais daquele meio rural, denuncia as suas origens de um meio oposto, o da Cidade. Não poderia estar mais certo, aqui Promotho (Joyrak Bhattacharjee), o que será o protagonista da primeira das duas histórias, aparentemente distantes de “Ghost of the Golden Groves”, tinha chegado há um dia de Calcutá, aventurando-se pela selva de Bengala, tentado decifrar o mistério que o atormentava desde a sua estadia.

Eram as estranhas luzes, misteriosas entidades cintilantes que o incomodavam. Tal como o próprio insinua, de tons esverdeados, um esforço que o espectador terá que fazer perante a fotografia monocromática e o constante negacionismos dos que povoam aquelas terras. Ao encontro desse fenómeno inexplicável, Promotho embate numa aldeia intocável pelo tempo, com as constantes citações dos mestres da nova vaga japonesa dos anos 60 – “Seijun Suzuki, Kaneto Shindo, Teshigahara” – ou pela indiferença com que estes “espectros” encaram a sua visita e o seu modo vivente. A partir daqui, o mistério adensa ainda mais, com os espíritos polimorfos, assim como são descritos, a o convidar para os seus incómodos rituais.

Objeto concretizada a quatro mãos por Aniket Dutta e Roshni Sen, “Ghost of the Golden Groves” é no seu instante um exercício de exotismo e de um misticismo ancestral que coloca-nos à prova, enquanto espectador ocidental, das suas próprias idiossincrasias, sem com isto abdicar do seu quê de estranheza.

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Sim, esta é uma história de fantasmas e espíritos arcaicos prometidos a assombrar “forasteiros” ao som de um tecno dance que contrasta com certos elos de slow-cinema, porém, nada são mais do que meras aparências. Se é bem verdade que diante da sua natureza eclética, o seu surrealismo pacato que o calcifica como um ensaio experimental de puro júbilo estético e sonoro, encontramo-nos uma prova de um ascendente nicho de cinema indiano (já ano passado [2019], o Festival Slamdance recebeu um dos mais interessantes deste conjunto – “Cat Sticks”, de Ronny Sen), autoral que desbrava por esses “novos mundos” [os festivais de cinema] para enriquecer a visão anti-bollywood (ou das grandes indústrias que comumente chegam a nós).

Tudo parte da sua estranheza, e com essa, o nosso convite de embarque para um filme diversificado de paladares e de referências obtusas e de simbolismos refugiados da sua exposição. Não é crime nenhum desconhecer, como os aldeões que não saborearam, de forma alguma, a liberdade vendida pelos os de fora. Aqui, presos às suas superstições e às vidas predestinadas, passo a passo, conhecendo apenas o abstrato o qual outros denominam de existência. E um pouco de abstrato nunca nos fez mal!

"Golpe de Sol": Um Vicente com novos pontos de alma

Hugo Gomes, 13.08.20

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Nove anos separam este Vicente Alves do Ó do seu hitchcockiano “Quinze Pontos de Alma” (a sua primeira longa-metragem em 2011), a ainda imbatível “obra-prima”, e tendo em conta essa linha direta que reúne comédias disparadas e biografias do foro artístico é que questionamos, o que ficou do velho Alves do Ó e o que podemos contar com o novo?

A verdade é que o realizador, que encontrou sucesso em “Florbela” (a segunda longa-metragem que posteriormente se converteria numa série televisiva), é um homem constantemente assombrado pela sua existência, quer vindo das memórias do passado, quer do presente que o atormenta, quer o futuro o qual deseja vincar. É quase, em jeito de má-língua, um Almodovar de marca branca, no sentido com que idealiza as suas pessoalidades e que as impõe nas suas obras, nunca escondendo a sua natureza emocional, afetiva e sexual (tal como o cineasta espanhol).

Com “Golpe de Sol”, o realizador encontra-se ciente que este filme é uma desculpa para uma introspecção, uma psicanálise autoinduzida, e como tal, reparte a sua alma em quatro personagens aparentemente distintas, mas igualmente confundíveis nos propósitos e nas suas géneses. Convém salientar que não há artista algum que não trabalhe o seu íntimo, e quem não o faz arrisca-se a ser um mero técnico / tarefeiro. Por mais que se adore ou odeie Alves do Ó (ele tem a capacidade de alimentar essas duas esferas), nunca o poderemos acusar de falta de personalidade ou de isenção artístico-criativa.

Porém, com esta obra … esta, mesma, longe dos seus piores trabalhos (refiro às suas falhadas experiências cómicas como “O Amor é Lindo … Porque Sim!” e “Quero-te Tanto!”), é o filme que mais revela as suas arestas a merecer ser limadas enquanto realizador de corpo e alma. Entre as quais, o completo ego retraído que invalida de uma total entrega emocional nas personagens – quatro adultos prontos a conviver numa residência da costa vicentina, numa tremenda espera por um quinto elemento que lhe trará assuntos pendentes.

Nessa questão, a das personagens, nota-se a dedicação dos atores em construí-las e enraizá-las neste mesmo universo, com especial atenção a Ricardo Pereira na sua demanda pela transgressão de estereótipos já ultrapassados (mas que no nosso audiovisual ainda somos presenteados, graças à escassez da representação), e o alicerce valioso do qual se assume a banda-sonora (“bullseye”) – o artista brasileiro Johnny Hooker – a implementar a ênfase dramática que Alves do Ó não consegue de forma alguma (os atores parecem reconhecer isso, porque os seus gestos são sincronizados com a cadência do cantautor).

Ele próprio afirmou que se sente, por vezes, megalómano, e essa megalomania o atrapalha em tentar resolver trabalhos simples e quase niilistas como este “Golpe do Sol”. Por isso, respondendo à pergunta pontapé de saída que coloquei, a grande diferença está nessa aproximação com o futuro que o espera. Enquanto “Quinze Pontos de Alma”, indiciamos um realizador a emancipar-se perante o panorama que se inseria, em “Golpe de Sol”, testemunhamos um homem preocupado com o seu legado, e aquilo que as futuras gerações o poderão interpretar.

10 Anos depois ... Nolan sonhou, a obra concretizou

Hugo Gomes, 12.08.20

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A regressar aos cinemas antes da estreia do novo "Tenet", o primeiro "blockbuster" da era COVID-19, “Inception” (“A Origem”) parte da extensão de um certo gesto autoral vindo do realizador Christopher Nolan, que dentro de um sistema industrial megalómano tem vindo a demonstrar um toque pessoal conciso na ressurreição da grande produção "hollywoodesca", que vem da trilogia “The Dark Knight”.

Estamos a referir-nos à sua temática de tempo & memória, aqui evidentemente esboçada no contexto dos sonhos servidos de objetivo a um mímico "filme de golpe". E assim começamos com o plano engendrado num elenco de luxo (Leonardo DiCaprio, Cillian Murphy, Marion Cotillard, Ellen Page, Michael Caine, Tom Hardy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe), que funciona no seu coletivo enquanto Nolan trabalha para lhes conceder um cenário de ação física e hiperativa, jogando igualmente com as equações matemáticas que se difundem na narrativa.

Passados 10 anos, “A Origem” continua a demonstrar a força convicta de uma produção arriscada, de um uso generoso de efeitos visuais (nunca cedendo à artificialidade computadorizada) e da banda sonora de fulgor épico-pop, como parece ser habitual vindo da assinatura de Hans Zimmer. Não nos enganemos: esta megaprodução opera os lugares cobiçados do cinema espetáculo a grande escala, mas assume essa grandeza sem nunca perder um norte.

Há uma década, vimos em “A Origem” um tipo de ensaio operático que não se testemunhava há “séculos” na Sétima Arte. Chegou no preciso momento em que o facilitismo entrou porta adentro na cadeia produtiva (sublinhamos a “pornografia” CGI, mas também a exploração do filão 3D pós-"Avatar"), com os autores no cinema, estivessem ou não sincronizados com as tendências de público, a serem esmagados pelos ditames do marketing planeado por comités anónimos. Nesse sentido, é fácil de encontrar o ponto de fascínio deste tremendo "blockbuster" que é "A Origem": nunca ceder à padronização do espectador e tentar, mesmo dentro dos acordes do que encaramos como espetáculo, criar um exercício de engenho pronto a ser interpretado ou encriptado.

O seu dúbio final continua a suscitar debates, teorias e fórmulas para o tentar decifrar. Ao fim destes anos, não tenhamos dúvidas que o filme mantém o seu impacto, nos espectadores e na indústria, uma raridade que se destaca entre as cada vez mais débeis produções de grande escala das "majors" de Hollywood. Sem negar a importância de “A Origem” no rumo do cinema atual (na conceção circense ou meramente na moldável natureza da indústria, além da estética de epopeia agora cobiçada até à sua exaustão), como aconteceu com o "Jaws" de Spielberg há 45 anos, Christopher Nolan revolucionou uma forma de se fazer e vender filmes para massas, sem nunca desprezar o seu intelecto.

Essa tem sido a sua grande obra, mesmo que o ego tenha caído para a exibição pura nas posteriores “escapadelas” por diferentes géneros, da ficção espacial de “Interstellar” ao bélico frenético de “Dunkirk”. No balanço, “A Origem” continua a ser um dos belíssimos "blockbusters" do século XXI.

Pela estrada fora ...

Hugo Gomes, 11.08.20

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“Quando nasces. Quando morres. Quem sabe? Não, eu não sei qual é o propósito desta pedra, mas ela deve ter um, porque se esta pedra não tem propósito, então tudo é inútil. Até as estrelas! Pelo menos, acho que sim. E tu também. Tu também tens um propósito.” - O Louco

A Estrada” [“La Strada”] do título não é mais do que um percurso entre duas trágicas figuras que se complementam através do comum das suas inocências. É mais do que uma alusão à vida, como se esta fosse um trilho predestinado, por vezes curto, ou longo, incansável ou movimentado. E é sob esse veio que o destino dos dois farrapos errantes se unem, os de Gelsomina (Giulietta Masina) e Zampanò (Anthony Quinn). Não por amor, mas pela visão que cada um tem dessa mesma... estrada.

Antes de voltarmos ao caminho de malas prontas e de mente determinada em seguir este desconhecido horizonte, devemos contextualizar o seguinte: o realizador Federico Fellini participou de forma ativa na definição e estabilização do movimento neorrealista italiano (a estética da realidade de um ponto de vista ideológico), encorajando-o enquanto argumentista (por exemplo, foi um dos colaboradores de "Roma città aperta"). Com “A Estrada”, Fellini comunicou diretamente com esse jeito de estar e pensar em relação aos seus personagens, criando com isto um filme em constante mudança, e igualmente fiel aos propósitos da estética concebida pelo Neorrealismo.

Esta é uma obra de rua, de marginalizados e de detalhes sociais que pontuam a austera vida do sul italiano (o tal maneirista e suadamente festivo sul), em contraste com o norte comedido e “privilegiado” (que perdura até hoje, mais de 65 anos após a estreia do filme). Mesmo assim, “A Estrada” é também um importante manifesto de uma das marcas de Fellini na sua demanda cinematográfica: a farsa. Seja a encoberta pelos trajes circenses (melhor cenário de ilusões não poderia haver), seja a de tom irónico (aliás, cruelmente irónico) perante os seus peões, obrigados a viver nos parâmetros de uma fábula recontada.

Fellini sonhava com a distância do Neorrealismo que ajudou a criar, mas de pavio curto. Deparou-se com encruzilhadas e desfechos diferentes que o levaram ao encontro de um novo tipo de autor. Foi assim que nasceu o termo "felliniano", que remete para a mentira prolongada e dos contornos bestializados das personagens que encenam num tremendo palco. "A Estrada”, o possível Fellini consensual, é a emotiva e triste moral resolvida nas areias da praia (a praia comumente representado como o fim do drama "felliniano", aqui e nos filmes seguintes).

Contrariando o nosso senso, e inspirado no discurso esfarrapado do Louco (a personagem de Richard Basehart que servirá sacrifício para o anti clímax), há um propósito destas inutilidades, destes vagabundos relacionados pelos seus próprios miserabilismos. "A Estrada" é uma viagem de apenas ida, complementada com a emblemática sonoridade de Nino Rota (o compositor predileto de Fellini), também ele participante desta peregrinação a nenhures. E por fim, os iluminados e tristes olhos de Giuletta Masina, que hipnotizam e nos fazem rever a compaixão destes “inúteis”...

"A Impossibilidade de Estar Só": mas por vezes vale mais do que estar mal-acompanhado

Hugo Gomes, 07.08.20

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Começaremos com o óbvio: “A Impossibilidade de Estar Só” é um fantasia açucarada de quem julga que a juventude é o fim das emoções – a epifania das epifanias – de quem encara a vida como uma autêntica ficção mercantil com o desejo de ser maior que as próprias circunstâncias. Contudo, nada de mal com isso, se não fosse o facto deste projeto ser no mínimo embaraçoso.

Sérgio Graciano (do inesquecível [pelas piores razões] “As Linhas de Sangue” e o limitadamente competente “Assim, Assim”) estreará este ano [2020] três longas-metragens, incluindo a esperada cinebiografia de Salgueiro Maia, porém, no pacote está incluído este road trip romanceado de uma jovem, diagnosticada com uma doença rara, que se aventura, juntamente com a sua melhor amiga e contra as indicações dos médicos e dos seus pais, pela costa vicentina na demanda do seu pretendente.

Uma “aventura” (colocar as aspas para não sermos mal interpretados), onde os adultos são meras vozes ou corpos imparciais e a música de Lúcia Moniz acompanha os intermináveis slow-motions (autênticos videoclipes de narrativa deitada fora). Este é o tipo de produção cujas boas intenções não pagam barqueiros, tudo ambicioso mas igualmente entregue a uma estética académica e inexperiente, com Sérgio Graciano provando mais uma vez, que os tiques televisivos que ostenta não são mais que meros “know hows” de mau tarefeiro. Já vimos trabalhos escolares com melhor aspeto que isto.

Pelo meio deste turbilhão … previsível aliás (até existe uma clara apropriação de guião e decisões estéticas a replicar “Everything, Everything”, fábula de amores “teenagers” de Stella Meghie) … desperdiça-se talentos (imaginamos estas atrizes sob outra direção), vontades e até mesmo caridades. É novamente o protótipo de um cinema que não existe de todo, e para além disso, é tão embaraçosamente artificial … tão “impossivelmente” meloso!

O sofrimento de uma avó num sofrível trabalho de um autor

Hugo Gomes, 06.08.20

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É difícil de olhar para este “O Adeus à Noite” (“L'adieu à la nuit”), de forma a negligenciar o seu autor – André Téchiné – crítico de segunda vaga da Cahiers Du Cinéma que se aventurou (à imagem dos seus companheiros) nas odes da realização, sendo que em 1985, graças ao impacto de “Rendez-Vous” (filme que nos apresentou Juliette Binoche), construir aquilo que seria uma formatada idéia de cinema autoral até aos dias de hoje.

Pois, foi com esse realismo poético que o desfasou dos seus anteriores romanescos thrillers (“Paulina s’en va”, “Barocco”), que o colocaria no mapa como um dos mais respeitados realizadores francófonos. Mas ultimamente, o seu paladar sofisticado parece não ser mais que uma receita replicada e com isso anonimizada. Voltando a “O Adeus à Noite”, que tão bem poderia pertencer a um tarefeiro qualquer, é de uma indiferença técnica e criativa, pegando num tema cada vez mais abordado por esta indústria (o fundamentalismo islâmico) e esvaziá-lo de qualquer caracter reflexivo do mesmo.

Se é verdade que Techiné está interessado em assumir o efeito ISIS como um mero dispositivo narrativo que desafia a relação entre uma avó (Catherine Deneuve, a atriz-fetiche do realizador) e um retornado neto (Kacey Mottet Klein), cuja sua “nova” fé é encarada como uma patologia a ser mencionada, é também desleal que o retrato feito a essa radicalização é um conjunto de semióticas reconhecíveis de um certo medo coletivo. Mas fora esses temas cortantes, o que mais aflige em “O Adeus à Noite” é a sua profunda displicência, nada mais do que o expectável, a singela competência que se verifica aqui.

Se é sabido que atualmente, Téchiné não é mais do que uma sombra daquilo que fora (que dor é o de relembrar a estranheza inconfortável de “Rendez-Vous”, e que boa sensação era!), é um claro facto que a sua transladação ao não-identificável é um sinal destes tempos, onde a autoralidade é constantemente despida. E os velhos mestres ao abandono da morte lenta.

Como tal, ficamos com mais um palco para Catherine Deneuve brilhar … sim, mais um!