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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

“Slow cinema” com alma?

Hugo Gomes, 31.08.20

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Dentro do mercado de cinema de autor, Tsai Ming-liang é um apogeu do tempo enquanto barro a ser moldado. Em “Rizi” (“Days”), apresentado na Competição do último Festival de Berlim, é uma obra que apela à paciência do espectador como o seu grande cúmplice, repensando os gestos quotidianos como elementos de impasse para um (re)encontro terno e sentido. Depois da subsistência de “Stray Dogs”, o malaio a operar em Taiwan abocanha” a solidão como base do seu cinema e como fio condutor da nossa sensibilidade. Somos ligados a isso e através disso mesmo é que “Rizi” funciona como um fascinante e desafiante retrato da nossa atualidade. Talvez nos tenhamos convertido em seres cada vez mais impacientes para apreciarmos a sinfonia do “slow cinema” com alma.

Madame de ...

Hugo Gomes, 27.08.20

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Um dos grandes destaques da 17ª edição do Indielisboa foi a retrospetiva integral do cineasta e escritor senegalês que certo dia pegou numa câmara para poder comunicar com os seus conterrâneos, Ousmane Sembène. Desse ato nasceu todo um cinema rico em linguagens e com preocupação além daquelas imprimidas no Primeiro Mundo. Em “La Noire de …” (o título pode muito bem ser entendido como uma provocação a uma certa obra de Max Ophuls) seguimos uma apropriação que se camufla com os resquícios do colonialismo a partir do momento em que uma jovem senegalesa é convidada a trabalhar na Riviera Francesa. Inicialmente entusiasmada com a hipótese, segundo ela, de “trabalhar com os brancos”, a experiência transforma-se radicalmente num fantasma da propriedade humana. A jovem torna-se prisioneira dos seus patrões, “incentivada” a servir em todas as suas necessidades. Sembène constrói um filme com base em memórias que ditarão os sentimentos vividos no fingido cativeiro, uma epifania a um estatuto de poder nunca perdido. Neste caso não interessa o individualismo da trama, porque a nossa “noire” (negra) assume o corpo e a vontade no coletivo, ela representa todas as mulheres em idênticas situações e vivências. Uma obra-prima de um dos intelectuais mais esquecidos da nossa História branca.

Quantos Nolans cabem em Tenet?

Hugo Gomes, 24.08.20

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À espera de Nolan … assim estão algumas cadeias de cinema que olham para este blockbuster de quase 200 milhões de dólares de orçamento como a salvação de um negócio em ruínas. E quanto a nós, espectadores? O que podemos esperar de Nolan e o seu Tenet? Fácil, o cinema equacional, simples mas distorcido num quebra-cabeças chapado só para nos dar o seu ar de pseudo-intelectual. Pesado enfarta-brutos dramático com ação como se última de ponta fosse. Nolan a ser Nolan e a esquecer que é preciso menos Nolan para aguentar esta quantidade de Nolan.

 

Até ver o "Fim do Mundo" ...

Hugo Gomes, 19.08.20

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Depois do místico “Até ver a Luz”, Basil da Cunha continua a dar palco às vozes marginalizadas, num conto de náufragos sem vitimizaçõe, nem heroísmos. Estes são os nossos “Miseráveis”, os nossos subúrbios, a continuação do biótopo à desmoronar como um certo Quarto’, que hoje acreditamos ter mudado a face do cinema português para o novo milénio, avançou. Mas não se deixem colar pela menção, há aqui, neste “O Fim do Mundo”, artificio calculado, engenho e verdadeiramente, Cinema com sangue na guelra. Depois da sua estreia mundial em Locarno no ano passado e com chegada marcada para os cinemas em setembro (sem antes fazer a sua visita no Indielisboa), será este o filme português do ano (mesmo sendo coprodução)? Bem, confesso que estou maravilhado com este universo.

"A Impossibilidade de Estar Só": mas por vezes vale mais do que estar mal-acompanhado

Hugo Gomes, 07.08.20

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Começaremos com o óbvio: “A Impossibilidade de Estar Só” é um fantasia açucarada de quem julga que a juventude é o fim das emoções – a epifania das epifanias – de quem encara a vida como uma autêntica ficção mercantil com o desejo de ser maior que as próprias circunstâncias. Contudo, nada de mal com isso, se não fosse o facto deste projeto ser no mínimo embaraçoso.

Sérgio Graciano (do inesquecível [pelas piores razões] “As Linhas de Sangue” e o limitadamente competente “Assim, Assim”) estreará este ano [2020] três longas-metragens, incluindo a esperada cinebiografia de Salgueiro Maia, porém, no pacote está incluído este road trip romanceado de uma jovem, diagnosticada com uma doença rara, que se aventura, juntamente com a sua melhor amiga e contra as indicações dos médicos e dos seus pais, pela costa vicentina na demanda do seu pretendente.

Uma “aventura” (colocar as aspas para não sermos mal interpretados), onde os adultos são meras vozes ou corpos imparciais e a música de Lúcia Moniz acompanha os intermináveis slow-motions (autênticos videoclipes de narrativa deitada fora). Este é o tipo de produção cujas boas intenções não pagam barqueiros, tudo ambicioso mas igualmente entregue a uma estética académica e inexperiente, com Sérgio Graciano provando mais uma vez, que os tiques televisivos que ostenta não são mais que meros “know hows” de mau tarefeiro. Já vimos trabalhos escolares com melhor aspeto que isto.

Pelo meio deste turbilhão … previsível aliás (até existe uma clara apropriação de guião e decisões estéticas a replicar “Everything, Everything”, fábula de amores “teenagers” de Stella Meghie) … desperdiça-se talentos (imaginamos estas atrizes sob outra direção), vontades e até mesmo caridades. É novamente o protótipo de um cinema que não existe de todo, e para além disso, é tão embaraçosamente artificial … tão “impossivelmente” meloso!