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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Uma eterna derrota chamada Cinema Português

Hugo Gomes, 25.05.20

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Quando um realizador de cinema tenta convencer um pugilista profissional a perder perante um ator de pelicula, eis um momento que, não só celebriza The Lovebirds, de Bruno de Almeida, mas como também resume a resistência prolongada do cinema português na sua longevidade. A soturnidade, o saudosismo e o nosso eterno fatalismo, elementos e vários que se aliam dando origem a uma utopia que se dá pelo nome de Portugal cinematográfico. Aqui, o realizador, de cigarro na mão e brandy na outra, é nada mais, nada menos que Fernando Lopes, um dos guerreiros da primeira frente do Cinema Novo e um experiente no que requer ao derrotismo enquanto signo de vivência.

There’s a certain beauty in defeat” – a tradução universal para todo um estado de alma que apenas o português conhece e bem. Gostamos de pensar na derrota porque é através dela que deparamos com a nossa (i) mortalidade.

Na memória de um bon vivant!

Hugo Gomes, 18.05.20

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Michel Piccoli é sobretudo uma figura que nos remete automaticamente às extravagâncias e às luxurias de vida. Sejam as grandes farras como código vivente, seja os segredos das belas do dia que guia-nos a desprezados caminhos à beira-mar, ou as festas defraudadas e chamadas telefónicas que alteram o destino dos seus matrimónios. Memórias foram muitas, aquelas que um gigante como Michel Piccoli me trouxe durante a minha, ainda breve, cinefilia. As segundas-feiras são por si tristes por naturezas, mas esta tornar-se mais acinzentada (contrariando o sol radiante).


Michel Piccoli (1925 – 2020)

Um até já à rainha do mumblecore

Hugo Gomes, 17.05.20

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Um pequeno grande filme que guardo com algum afeto. Estreou entre nós no seio da award season de 2012, aquela temporada fervorosa pelos prémios como atrativos para o público mais distraído (ou preguiçoso), uma história simples embalada numa sensível abordagem sobre a constante metamorfose dos nossos sentimentos e relações.

Falo de Your Sister’s Sister [ler crítica], por cá Entre Irmãs, talvez também conhecido como um dos filmes que fez catapultar a sempre delicada atriz Emily Blunt, um dos melhores exemplares do estado mumblecore da última década. Infelizmente, a sua artesã, Lynn Shelton, deixou-nos inesperadamente nesta sexta-feira aos 54 anos. Mulher de mil ofícios, dividida entre as tarefas de realização, argumentação, produção e até mesmo atuação, Shelton manteve-se quase permanentemente ativa na televisão, mas foi no cinema que conquistou o seu pequeno espaço.

Antes de Your Sister’s Sister, já havia um Humpday com a sua “musa” Mark Duplass, e posteriormente, um inédito no nosso país - Sword of Trust -uma trilogia sobre a confiança que bastou para a colocar como a rainha da comédia independente norte-americana.

 

Lynn Shelton (1965 - 2020)

O Trabalho do Diabo no fascínio e na farsa

Hugo Gomes, 12.05.20

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The Devil's Reject (Rob Zombie, 2005)

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Once Upon Time in Hollywood (Quentin Tarantino, 2019)

 

Incorretamente associado a Charles Manson, a quoteI’m the devil, I’m here to do the devil’s business” foi, desde os tempos do monstruoso homicídio a Sharon Tate, convertido uma das proféticas citações de um certo cinema de género incutido numa determinada cultura popular. Sabemos, sim, que é na sombra de Manson encontramos a influência que redefiniu a metade de um século, que nos fez salivar pela violência descara como atentados aos então estabelecidas condutas moralistas da sociedade corrente. E devido a isso, o fascínio pela sua “ideologia” motivou todo uma vaga de filmes exploitation, sangrentos e distorcidos nos anteriores e estudados códigos de heróis e vilões.

A violência extrema tornou-se o ato corajoso contra uma sociedade “certinha” e aprisionada na sua hipocrisia, pelo menos, é nesse contexto que, por exemplo, Rob Zombie intromete nas suas personagens. Como é o caso do seu Devil’s Rejects (2005), o seu filme mais duro e definidor da sua aura artística, que funciona como uma homenagem ao gangue Manson e as suas novas interpretações familiares. Aqui, as palavras sagradas adquirem exatamente isso, a prece definitiva de um Deus menor, mas pertencente do Mundo Moderno, o palavreado antes de um imperativo fim.

Por sua vez, Quentin Tarantino e o seu Once Upon Time in Hollywood cometem a blasfémia de despir tal citação (ou meia citação) da sua promoção de destino inadiável, aquela ultima sentença. Nesse aspeto, quando o “servente” de Charles Manson (Charles “Tex” Watson) profere a tão abalada tagline, o desenrolar é adulterado, dando, previsivelmente, ala a um descortinar de violência gráfica (e convém afirmar, satisfatória), mas desencadeada do lado oposto. São os hippies que sofrem nas mãos dos “artistas” que representam a ilusão do capitalismo (Hollywood) e não o oposto, marcado a tinta permanente da nossa História. Com esse feito, Tarantino desmonta o misticismo por detrás de Charles Manson e o ridiculariza, não o diretamente, mas através dos seus seguidores, o Grande Outro segundo o filósofo Slavoj Žižek. Essa é sátira perfeita de uma instituição convertida ao sagrado através da fome insaciável dos medias.

E Tarantino é perito nisso, desde a adulteração da queda do nazismo e o seu líder máximo - Adolf Hitler - “metralhado” em Inglourious Basterds (2009), até à troça ao Klux Klux Klan, tendo como alvo certeiro a “relevância fílmica” de The Birth of a Nation (D.W. Griffit, 1915), em Django Unchained (2012).

Mas antes de Once Upon Time in Hollywood, o realizador já havia brincado a esse ritual de matança, através da passagem bíblica transmitida pelo nosso eterno Jules Winnfield (Samuel L. Jackson) em Pulp Fiction (1994). Ou seja, já era evidente a sua sede de atingir a cerne do mal que certamente encantou o audiovisual e nunca mais o largou. Foi preciso esperar 25 anos para que Tarantino vingasse verdadeiramente.

Petra Costa: na vertigem do trauma e da sensibilidade do Brasil

Hugo Gomes, 01.05.20

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Devido aos novos tempos gerados por esta pandemia, muitos dos festivais de cinema optaram pelas edições onlines como alternativa ao cancelamento, uma subsistência que já soa a uma eventual realidade futura. Visions du Réel, na Suíça, foi um deles, disponibilizando a sua seleção de documentários e produções experimentais ao alcance de todos. Uma das experiências obtidas dessa mostra virtual foi à sua maneira bastante física, o “reencontro” com a cineasta brasileira Petra Costa.

Falo de reencontro, porque o meu primeiro contacto com ela (excluindo a grande descoberta com Elena no FESTin) aconteceu durante o Indielisboa de 2016 na apresentação da sua obra “a meias” - O Olmo e a Gaivota – com a dinamarquesa Lea Glob [a entrevista poderá ser lida aqui]. De Olmo’ a 2020, Petra conseguiu um dos seus grandes feitos de carreira, um documentário que expunha a fragilidade de uma democracia sob ameaças diversas, sob o selo da NetflixDemocracia em Vertigem – que conquistou a proeza de nomeação ao Oscar. Nesse sentido, a realizadora adquiriu uma fama global que a automaticamente levou a um estatuto próprio de autoralidade, essa, aproveitada pela recente edição do Visions du Réel que a homenageia com uma retrospetiva integral e o direito de coordenar um atelier. Infelizmente, tendo em conta essa “normalidade” COVID-19, não pude estar presente no decorrer do festival, mas tal não impediu de conversar com Petra Costa sobre este momento na sua carreira.

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A entrevista, dividida por um ecrã, tocou-se nos assuntos principais da filmografia da cineasta; o trauma, a intimidade, a política e o coronavírus como oportunidade.

Os filmes, por um lado, também são tentativas de elaborar traumas; o suicídio de Elena [irmã de Petra Costa] e a sensação de estar a repetir os passos dela (que é próprio do trauma), e no Olmo e a Gaivota é o desafio de morrer para dar a vida ao outro (um trauma muito pouco explorado, as pessoas tentam desmistificar e apagar tudo o que é escuro do processo de gravidez, duma forma bem machista) e no Democracia em Vertigem é evidentemente o trauma político, o de ter a democracia como um dos poucos alicerces certos do qual me poderia posar na sociedade brasileira, ser rapidamente destruídos.” Ler entrevista completa aqui.

Porém, até à data, e não menosprezando o que fora produzido até então, Petra Costa há muito havia atingindo o seu mais enorme feito, um dos filmes mais sensíveis e belos concebidos na última década – Elena [ler crítica]. Fico com a sensação que o fantasma de Elena Costa irá assombrar a sua aura artística.