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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

A rainha Angelina Jolie regressa para uma sequela que ninguém pediu

Hugo Gomes, 16.10.19

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Vindo diretamente da gaveta das "sequelas que nós não pedimos" chega-nos "Maleficent: Mistress of Evil", a continuação daquela reinvenção de 2014 com enredo centralizado na vilã do famoso conto de Charles Perrault "A Bela Adormecida".

Dirigido por Robert Stromberg, "Maleficent" tentava recriar os acontecimentos e a estética da popular animação da Disney de 1959, para depois empurrar para uma espécie de "confessionário" condescendente da antagónica feiticeira. A escolha de Angelina Jolie foi provavelmente a razão da existência desta versão, mas nada nos preparava para o revisitar daquele “mundo mágico” profundamente tecnológico e povoado por personagens ingénuas e de papelão.

Contudo, vamos por partes. Nesta sequela, sob o pretexto de liberdade criativa (só pelo nome que fica a graça), vemos Maléfica a tentar reconciliar a sua natureza com o instinto maternal gerado pela sua relação com Aurora (Elle Fanning). Com a notícia de noivado da jovem que a feiticeira é impulsionada para um dilema existencial e moral: conviver harmoniosamente com os humanos que tanto odeia ou declarar guerra sobre eles. No meio de isto tudo, surge Michelle Pfeiffer como a rainha Ingrith, pronta para o “braço de ferro” com a dita Mestre do Mal.

Colocando desta maneira, o segundo "Maléfica" parece ser uma atualização do primeiro filme, provavelmente mais rico visualmente e sonoramente, bem como emancipado da estrutura emprestada de "A Bela Adormecida". Mas o que acontece é um crónico vazio artístico: perante o frenesim digital, as criaturas computadorizadas e as paisagens sintéticas de encher olho, nada aqui se resolve.

Na realidade, "Maleficent: Mistress of Evil", com assinatura Joachim Rønning ("Kon-Tiki"), é uma produção condenada à extensão de uma suposta imagem de marca. Por vezes infantilizada no que requer a personagens e as suas ditas emoções (um romance que fraqueja em atribuir ênfase ao suposto tom trágico), transformando conflitos de metaforizada diplomacia internacional em meras e inconsequentes brincadeiras de “faz-de-conta”.

Mas o pior é mesmo um argumento traduzido numa salganhada de lugares-comuns, tópicos apressados e diálogos rudimentares e sem espessura. É um brinde descartável para motivar ainda mais a industrialização da fórmula. E apenas com Angelina Jolie, sedutora e com um certo prazer na sua travessura, é que este “parque de diversões” mira para alguma (e não suficiente) dignidade.

Technoboss: melodia de viagem num dito "cinema português"

Hugo Gomes, 14.10.19

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Voltando à tendência do absurdismo episódico, hoje em voga com a aclamação mundial de Miguel Gomes (mas já antes João César Monteiro o havia feito sob camadas e camadas de humor sardónico), João Nicolau instala-se no registo musical como a sua chave de acesso ao escapismo e com isso uma sensação de liberdade criativa e narrativa. Confesso que em Technoboss existe um ou outro momento digno de nota deste tipo de cinema em constante desenvolvimento semiológico (Miguel Lobo Antunes é um desses curiosos elementos), mas o realizador do anteriormente simpático John From fica-se apenas pelos apalpões aos “cus das lâmpadas”, não encontrando um objetivo definido com toda esta jornada por estrada fora.

Will Smith ao quadrado!

Hugo Gomes, 12.10.19

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Nos anos 90 era este tipo de projetos que vingava nas bilheteiras de todo o mundo, apelando ao público quer pela força do seu “star system” (e Will Smith era a maior parte das vezes um campeão de box-office) quer pela ambição da sua ação, frente às (não) complexidades do guião. Os americanos possuem uma palavra para isto: “cheesy”. Ou seja, um filme que cumpre os mínimos em termos argumentativos, oferecendo espetacularidade no sector exclusivo de Hollywood, aquela que é a sua glamourosa megalomania. Hoje estes projectos são uma espécie em vias de extinção, ridicularizados pelas novas preferências dos espectadores, possivelmente seduzidos pelas propostas canónicas das suas sagas e outros exemplares de cultura popular, ou pela pretensão produtiva que já se transladou para os pequenos ecrãs.

Não quer isto dizer que “Gemini Man” seja uma produção que fique longe da sua ambição. O ponto central aqui é a tecnologia utilizada ao serviço de um ator mais que presente na indústria. Estes feitos computorizados, que tentam replicar um rejuvenescido duplo digital a contracenar com a sua atual e envelhecida persona, assumem-se como dispositivo narrativo num enredo que joga com a militarização e os dilemas da engenharia genética (tudo bem explicadinho e resumido para o espectador não se perder). Por outras palavras, é Will Smith contra Will Smith, um mercenário à beira da reforma contra o seu enérgico e vigoroso clone (o ator joga na mimetização das diferentes nuances da sua carreira). Soa a telenovela, mas a trama risível é uma chave de ignição para um filme de ação com uma qualidade invejável dentro do género nos dias de hoje, e basta ver quem está por detrás deste projeto: Ang Lee e toda uma equipa de coreógrafos experientes (Jeremy Marinas e Emmanuel Manzanares), que contaminam as sequências-limite, dando-lhes os ares revitalizadores que Hong Kong sempre incutiu no género.

Felizmente, essa ação encontrou estadia em Hollywood, cujos tiques se tornaram tendências incentivadas pelo culto de John Wick e seus derivados, o que se pode verificar no último “Mission Impossible”, que por sua vez confiava no físico e empenho de Tom Cruise. Com o poder da edição sobre os planos-sequência (e uma certa e emprestada vénia à linguagem dos videojogos), e uma dose explosiva de adrenalina e sobretudo de estilo, estão configurados os ingredientes para muitas das bem conseguidas cenas de pancadaria, tiroteios e perseguições de mota pelas ruas de Cartagena [Colômbia] que “Gemini Man” tem para oferecer.

São cenas máximas em choque com os mínimos transmitidos pelo restante cardápio, mais do que o apetite pela sofisticação de Ang Lee (que juntamente com James Cameron se tem empenhado em consolidar os avanços tecnológicos com o conceito "blockbuster").

Vira para lá isso ...

Hugo Gomes, 11.10.19

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Não querendo repetir excessivamente o alegado conselho de Manoel de Oliveira, aquele que João Botelho declara sempre que tem oportunidade - “Se não tens dinheiro para filmar a carroça, filma a roda, mas filma-a bem”. Tal dica divina poderia Luís Albuquerque ter em conta uma vez na vida, principalmente nessas suas andanças pelo cinema, que já nos “apimentou” com violentos atentados à “indústria” nacional (“Por Onde Escapam as Palavras”, uma ‘coisa’ que não se há de esquecer), agora, sob a aprovação do ICA, tenta converter-se ao épico histórico num desses factos mais virados a lendas, hoje aproveitados enquanto estandarte do nacionalismo primitivo: “Viriato”.

Como já devem ter percebido perante o discurso inicial, é uma ideia sem orçamento que o valha, e o pior é que Luís Albuquerque toma as piores decisões no que requer contornar tais limitações. Querem batalhas? Ele as dá! Querem romanos, centuriões e legiões? Também os dá! Querem sonoridades que emanam epicidades dignas de massivas produções de Hollywood? Os vossos desejos são ordens! Tudo isso, como era previsível, num embaraço, ora de recursos ou falta deles, que até um cego consegue ver e no qual não existe nenhuma personalidade na forma como filma. É o “teatro da aldeia” a entrar pela tela e a fazer-nos acreditar no que vemos. Nada contra a suspensão da credibilidade, mas quando o objeto está isento de alguma manifestação artística, o que resta é o amadorismo, com isso resume-se o que estamos perante. Outra conclusão não é viável.

Porém, há que pensar realmente, tendo em conta os dias que vivemos, com movimentos políticos extremistas e uns quantos populistas que exaltam simbolismos patrióticos, para que raio queriam um filme sobre o “Viriato”?

Há Tempo para degustar o Cinema! Arranca o 4º Close-Up, Observatório de Cinema de Famalicão

Hugo Gomes, 10.10.19

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Les Yeux sans Visage (George Franju, 1960)

O Tempo destrói tudo, isso é mais que sabido, mas ele também constrói. Constrói uma perspetiva, uma noção e acima de tudo a História. Neste caso a História do Cinema, que é novamente revisitada no CLOSE-UP – Observatório de Cinema, neste seu quarto episódio, como é habitual, a ter lugar na Casa das Artes de Famalicão, entre os dias 12 a 19 de outubro.

Novamente, uma programação recheada de filmes, concertos, temáticas, round tables e muitos convidados naquela que já é a mais respeitada comunhão de cinefilia do país. E voltando ao Tempo, a História do Cinema que é constante revista, CLOSE-UP contará como prato principal dois acompanhamentos musicais a dois dos grandes clássicos do cinema russo; o sempre incontornável “Battleship Potemkin” / “O Couraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein, com a Orquestra de Jazz de Matosinhos a condizer, e o aclamado filme de Boris Barnet, “The House on Trubnaya Square” / “A Casa na Praça Trubnaya”, onde os Mão Morta assumem uma original banda-sonora. Já nas sessões especiais, a História do Cinema pelos olhos delirantes de Quentin Tarantino, “Once Upon a Time... in Hollywood”, e a antestreia da mais recente obra do filipino Brillante Mendoza, que volta a debruçar-se pela teias criminosas e marginais de Manila em “Alpha: The Right to Kill”.

A fortalecer a temática do Tempo, ainda temos o historial condensado num folhetim imagético em “Le livre d'image”, do sempre intemporal Jean-Luc Godard, ou do tempo enquanto dispositivo manipulável em “John McEnroe: O Domínio da Perfeição” / “L'empire de la perfection”, de Julien Faraut. A Lenda e o Contemporâneo do atual Cinema Francês, dois pontos de partida para uma das secções fundamentais desta anual mostra cinematográfica – Histórias de Cinema – que nos brinda com um Passeio pelo Cinema Francês com dois protagonistas: Agnès Varda e Jean-Luc Godard.

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Halito Azul (Rodrigo Areias, 2018)

Aí, para além dos filmes da cineasta que apaixonou gerações pela sua criatividade e dinamismo e o realizador que continua a fomentar cinefilias, passearemos por alguns dos clássicos ante-Nouvelle Vague de uma das cinematografias mais fortes a nível internacional. Será o brilhante “Les Yeux sans Visage”, de George Franju, ou a viagem pela metrópole americana em “Deux hommes dans Manhattan”, de Melville, ainda as histórias trágicas e tragicómicas de “Le Plaisir”, de Max Ophuls, e até mesmo um dos mais belos casamentos de imagem e música de “Ascenseur pour l'échafaud”, de Louis Malle, a fazer as delícias dos amantes de cinema? A resposta é sim.

Na também habitual Fantasia Lusitana, espaço dedicado aos ascendentes protagonistas do cinema português, conheceremos (ou revisitarmos) o trabalho de Eduardo Brito, realizador, argumentista e fotógrafo, descrito pelo seu olhar perfeccionista e dedicado aos enquadramentos. Aqui deparamos com uma seleção de curtas da sua autoria, incluindo a estreia de Úrsula, como também vídeos experimentais, videoclipes e ainda uma longa-metragem escrita pelo próprio com a realização de Rodrigo AreiasHálito Azul”.

O cinema terror também terá o seu tempo de antena, ao integrar o espaço de Cinema do Mundo, este ano centrado no género profundo (“Mandy”, “The Love Witch” e “It Comes at Night”, compõem o trio de sessões que explicita o terror e o medo na América). Além disso, o CLOSE-UP contará ainda com sessões dedicadas às escolas e de família, com as exibições de “Toy Story 4” e “The Lion King”, como ainda tempo exclusivo para o legado de João César Monteiro, onde serão mostradas algumas das suas curtas como ainda lidas os seus poemas. Para a cadência das suas palavras, Isaque Ferreira será o responsável pela leitura.

"Agnès Varda dava-nos as pistas necessárias para desvendar o seu Cinema." Uma conversa com Rosalie Varda

Hugo Gomes, 08.10.19

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Varda par Agnès (2019)

Varda disse-me que os jovens não são menos curiosos. São apenas mais preguiçosos.

Seguindo as palavras da sua filha e produtora, Rosalie, percebemos o porquê de Agnès Varda ter sido uma das grandes veteranas do Cinema a apaixonar os mais jovens. Primeiro, porque não encontramos nas suas palavras, proferidas em masterclasses, nenhum indício de condescendência para com esta geração. Ao invés, era uma energia jovial aquela que contaminava as suas palestras.

Varda por Agnès, até ao momento o último trabalho do importante nome da “bancada de esquerda” (left bank) da Nouvelle Vague, expira esse mesmo toque, uma “velhota” que fala dos seus filmes como uma adolescente cheia de genica. É através dessa motivação que vamos de encontro com um legado, a merecer perpetuação nas futuras gerações.

Tive o privilégio de conversar com Rosalie Varda, fruto do relacionamento da realizadora com o ator Antoine Bourseiller (mas legalmente adotada pelo cineasta Jacques Demy) sobre esta sua produção, e sobretudo sobre a sua mãe que infelizmente nos deixou.

É sabido que foi você que trouxe a ideia deste filme para Agnès Varda?

Sim, era a ideia de um filme sobre a sua interação com o público. Como ela trabalha e como ela faz o seu Cinema. Seria um projeto marcado por duas partes: a primeira, antes do ano 2000, com Varda a operar grande câmaras e a trabalhar com a película; a segunda, depois do novo milénio com a “descoberta” da câmara digital, e como o digital tornou possível um envolvimento ainda maior dela na área do documentário. É que, com essa câmara, Varda conseguiu aproximar-se das pessoas sem que parecesse intrusiva.

Ao mesmo tempo queria mostrar que nos primórdios da sua carreira, ela era uma fotógrafa e como tal foi crucial para o seu desenvolvimento enquanto cineasta. A experiência do olhar adquirido por essa área tornou-a atenta e a realizadora perfeccionista que conhecemos. Da mesma forma que o digital a levou a desbravar a arte contemporânea, a inserir-se nas instalações artísticas. Ou seja, temos vídeo, foto, arte … Agnès Varda era tudo isso. Todos esses temas.

Portanto, 11 anos depois de “Les Plages d'Agnes", este seria o definitivo filme do seu legado?

Legado é uma palavra que não aprecio, mas o filme dá-nos as ferramentas para entendermos ainda mais o Cinema.

Quer dizer que “Varda per Agnès” é mais que um tributo e, sim, um filme sobre o Cinema.

Sim, como o Cinema funciona. Ela estava interessada em três palavras – inspiração, criação e partilha – e esse trio é misturável. Porém, é através dessas palavras que Varda pôde ser a realizadora diversificada que sempre foi. Atenção, ela nunca se repetia, facilmente conseguia partir do documentário para a ficção e de seguida para uma curta, sem replicar a narrativa. Mas o mais importante de tudo isso era a facilidade com que ela era capaz de falar sobre o seu trabalho. Sabes uma coisa, daqui a um ano ou dois, ou mais, continuarão a fazer documentários sobre ela. Repito, Agnès Varda dava-nos as pistas necessárias para desvendar o seu Cinema.

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Rosalie Varda e Agnès Varda

Mesmo nos últimos anos, Agnès Varda mantinha um olhar jovem, mesmo abordando os seus filmes mais antigos, ao mesmo tempo que adquiriu a maturidade para falar deles melhor do que na altura que os fizera. Acredito que este foi o momento perfeito para decifrar o seu “La Pointe-Courte”, bem mais precisa do que quando estava a filmá-lo, porque ela experienciou a Vida. Como qualquer pessoa que ao longo dos anos solidifica a sua perspetiva em relação a um tema que tão bem conhece. Acima de tudo, “Varda per Agnès” exibe energia criativa que reflete nas pessoas dando-lhes o desejo de ver e pensar.

Foi uma honra produzir os filmes da sua mãe?

Sempre fomos boas parceiras. Eu tentava protegê-la acima de tudo e ela protegia-me. A nossa relação era muito boa, diria mesmo, facilmente boa. É curioso que, ao contrário de muitos outros realizadores do seu tempo, o público de Varda era maioritariamente jovem. Como explica este fenómeno? Diria mais uma referência. As audiências jovens tem interesse nela e nos seus filmes porque ela era livre. Varda tinha liberdade, nunca cedeu à publicidade, à grande indústria, manteve-se sempre no limiar disso tudo.

Os jovens, por sua vez, adquirem a sensação de que a compreendiam perfeitamente. Nunca a encararam como uma “velha” a falar dos seus filmes, mas sim uma artista, uma cineasta. Nunca sentiram que Varda fosse geracionalmente distante para partilhar alguma coisa. Os jovens querem extrair dela todo o conhecimento.

Recordo que numa entrevista, você expressou que não sentiu que fosse a sua mãe a partir, mas uma “figura pública”.

Sim, quando morreu Agnès Varda senti que morreu uma figura pública. As pessoas vinham ter comigo e davam-me os pêsames e diziam-me o quanto “gostavam de Agnès“. Mas eles só conheciam a sua Agnès, a empática artista, não a minha. Por algum tempo senti que a minha mãe não morreu, mas sim outra pessoa, uma artista, alguém diferente.

Mas consegue separar essas duas figuras?

Sim, eu consigo separar o trabalho dela com a minha mãe. Não é a mesma coisa.

O filme foi apresentado pela própria Agnès Varda em Berlim este ano. Acha que “Varda per Agnès” alterou, inconscientemente, o seu tom?

Pelo facto de ela não estar cá?

Sim.

Não, os artistas são luxo, mas a arte está viva. Varda morreu em março e mesmo assim olhamos para o filme e ele não está morto, está sim vivo. “It’s Alive!

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Jane B. par Agnès V. (1988)

Antes de virar produtora, trabalhou na área da figuração …

Sim, trabalhei como figurinista por mais de 20 anos. Trabalhei com Varda, com Jacques Demy e muito mais gente, em espetáculos de dança e óperas. Depois dessa experiência adquirida cheguei ao pé de Agnès e disse: “Quero trabalhar contigo” [risos]. Ela respondeu: “Sim. Sim, boa“. E foi então que viramos parceiras.

O seu primeiro trabalho de produção foi com a primeira longa-metragem do seu irmão Mathieus Demy, O Americano. Sente-se que de certa forma tem que proteger a sua família?

Sim, exato. Todos os meus filmes são as minhas crianças. Eu tenho uma grande família. Mas sim, enquanto produtora sinto-me na obrigação de proteger todos esses meus projetos, como tenho o dever de proteger todos os filmes da minha mãe. Tenho que proteger o “Cléo de 5 à 7”. Tenho que proteger “Le Bonheur, etc. É interessante porque preocupo-me com a educação, batalho por ela. E a educação não é só Televisão, é também Cinema. Por isso é meu dever levar as pessoas para o Cinema.

Não querendo mencionar a palavra Legado [risos], mas como está responsável pelo espólio de Agnès Varda, será que iremos contar no futuro com projetos nunca concretizados pela mesma? Talvez guiões inéditos…

Eu não sei, não é o melhor dia para falar disso. Sabes, de momento estamos a tentar reunir tudo e … temos muita coisa. Por isso, quer dizer, este não é o tema de agora. O tema de agora é reunir tudo nos nossos arquivos. E temos muito.

Provavelmente já lhe perguntaram isto imensas vezes após a morte da sua mãe, mas tendo em conta aquilo que vimos no final de “Visages Villages”, qual é a sua opinião sobre as palavras de Jean-Luc Godard sobre a sua mãe, dias depois do seu falecimento?

Ele disse alguma coisa?

Disse que ela era das “uma das melhores” …

Ele apenas enviou-me uma pequena colagem. Eu não ouvi nada.

“Avenida Almirante Reis Em 3 Andamentos”, ontem, hoje e amanhã pelo caule de Lisboa

Hugo Gomes, 07.10.19

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Entramos pela Avenida Almirante Reis adentro através de um travelling de outros tempos no cadente relato das suas origens extraído de um programa televisivo de ’82.  Aquela que é uma das principais artérias da cidade de Lisboa tem por fim o “filme que merece“, palavras que a realizadora e montadora Renata Sancho deseja acentuar como a natureza deste projeto – “Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos” – que encarou como uma oportunidade de “vasculhar os arquivos e entrar na História da Avenida que tão bem conhecia“.

E não o fez sozinha. Ao seu lado esteve o geógrafo Aquilino Machado Ribeiro que procurava por essas mesmas bandas o “eixo republicano, vilas operárias e as raízes da implementação da república“. Ambos uniram esforços para conceber este vaivém pelo passado, presente e com um vislumbre do futuro da avenida.

Apresentado na edição de 2018 do Doclisboa, “Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos” nasceu da ideia de mapear, quer geograficamente, quer historicamente, uma rua tão pessoal para a realizadora, habitante orgulhosa desta meia veia que atravessa a “burguesaAlameda até o cada vez mais centralizado Intendente. Tendo fundado em 2013 a produtora de cinema independente Cedro Plátano, que encontrou neste seu trabalho um feito de atingir por fim o circuito comercial, questionou primeiramente como levar a Avenidaa uma sala de cinema“. “É um filme de cinema, os enquadramentos foram feitos para o Cinema, a duração dos planos adequada para Cinema“, reforçou.”O filme tem 66 minutos, porque, segundo o Google, descer ou subir a rua dá exatamente 66 minutos.

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O ARQUIVO, A AVENIDA E O ALMIRANTE.

Há alguns dias, saía no jornal Público uma entrevista com Nicole Brenez, uma das curadoras da Cinemateca Francesa, no qual esta declarava o Cinema como o salvador das imagens. Afirmação curiosa que se translada para a iniciativa de Sancho. A realizadora, que fundou em 2013 a Cedro Plátano, concordou com esta migração de conceitos durante a nossa conversa, não na Almirante Reis, mas num café situado na Avenida Fontes Pereira de Melo: “o Cinema pode realmente salvar os arquivos“. De seguida, acrescentou que apesar de “todas as dificuldades que isso aplica, de acesso, financeiras, etc, os arquivos deveriam ser salvos através dos cuidados com os mesmos. Ou seja, pelo trabalho nos arquivos que os investigadores já o fazem pela vias da investigação, como também o próprio Arquivo como uma corrente de trabalho no contemporâneo dos artistas.

Para Renata Sancho, o trabalho de investigação foi dificultado pela falta de registos e a preservação dos materiais existentes. A realizadora salientou principalmente um vazio na década de 40 da Avenida, cuja disponibilidade de fotos iria transformar o filme noutro que não estava inicialmente idealizado: ”Ficou muita coisa de fora, mas não mudaria. Um filme acabado é um filme acabado. Acabou.” Revelando-se desapontada em relação aos arquivos da Avenida no Estado Novo, o qual apenas resumia a “Alameda, Alameda, Alameda, Areeiro e dois segundos do novo elétrico“, a sua pesquisa ficou-se somente pela colheita nacional: “não procurei nos arquivos estrangeiros“.

Uma das imagens mais marcantes do filme são os registos do Primeiro de Maio, em ’74, poucos dias depois da Revolução de Abril, estreitamente absorvidas do filme “As Armas e o Povo”, do Colectivo de Trabalhadores da Actividade Cinematográfica. Nelas era possível ver a Alameda invadida por um “mar de gente” que comemorava um sonho idealizado. À porta do Cinema Império, hoje cedido à Igreja Universal do Reino de Deus (“se houvesse um referendo, eu votaria contra“), é visível um enorme cartaz de “O Couraçado de Potemkin”, filme de Eisenstein que antes do 25 de Abril rodava pelos cineclubes marginais sem o conhecimento do regime, cópia essa adquirida por António da Cunha-Teles. Por entre a multidão era mais que certo encontrar caras reconhecíveis como Mário Soares, João César Monteiro, Margarida Gil e Fernando Lopes.

O som dessas imagens desapareceu e por minha decisão apresentei-as sem qualquer tipo de som. Isto pode ser problemático para muitas pessoas, que pensarão que estou a silenciar o Primeiro de Maio, o que não estou. (…) poderia ter colocado som sincronizado ou manipulado, mas montei-as de maneira na qual ouvíssemos o som. (…) os arquivos são de som direto quando existem editados com o som direto. (…) Uma razão muito performativa aqui, é que a Avenida Almirante Reis é das avenidas mais barulhentas de Lisboa, e aqueles 4 minutos e meio de silêncio antes de entrarmos para o presente é precisamente uma sensação muito boa.

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Renata Sancho

 

“Ó GENTE DA MINHA TERRA”

As imagens arquivadas compõem uma estrutura óssea na narrativa deste documento, que é preenchido pelo registo quase etnográfico e arquitectural da zona. Durante a nossa conversa, foi salientada a natureza dessas mesmas imagens captadas, uma colheita pelo multiculturalismo da rua em si, que entra em choque com a homogeneidade trazida pelo passado aí inserido: “O que faço no filme, com as imagens atuais, é mostrar a diversidade que a Avenida tem“. Nessa mesma instância, “Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos” entra em acordo com a visão de Sérgio Tréfaut em “Lisboetas” (2004), o qual explicitava as mudanças da capital através da vinda de várias comunidades, tentando espelhar as definições não assertivas do que é ou não português. Renata Sancho, de certa forma, nega esse intuito no seu olhar pela diversidade da Avenida: “Não há aqui uma intenção política de definir o que é português e o que não é, existe apenas convivência.”.

De certa forma, a cineasta revela essas preocupações identitárias hoje servidas como base nos discursos da extrema-direita quando é mencionada a frase célebre de Almirante Reis proferida na Câmara dos Republicanos, após testemunhar uma iminente queda da sua causa republicana em 3 de outubro de 1910 – “Já não há portugueses” – “era uma frase que quando o ouvi, decidi que era com ela que iria abrir o filme, só não se tornou título porque obviamente poderia suscitar interpretações duvidosas e eu tento evitar esses caminhos.

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O FUTURO DA AVENIDA: NOVOS PROJETOS.

Renata Sancho prepara-se para regressar ao “Porto de Leixões”, documentário escrito em 2009/2010, dividido em duas partes e, cuja primeira, “muito experimental“, já trabalhada, obteve apoio da Gulbenkian. Com este projeto a realizadora poderá “voltar ao arquivo“, tendo na sua posse “material fotográfico do Porto de Leixões em que era projetado como uma grande epopeia“.

Curiosamente, o Porto de Leixões foi inaugurado em 1908, a Avenida Almirante Reis em 1908. Há qualquer coisa com o ano 1908 [risos]“, decidida a retornar à Avenida que sempre a acompanhou, Sancho revelou que para o seu filme deixou de parte imenso material – “os arquivos são uma espécie de casting” – e que muita dessa matéria, incluindo depoimentos recolhidos, poderão gerar um livro. Contudo, a realizadora tem noção dos desafios que a esperam:  “editar um livro não é o mesmo que construir um filme.

Existe ainda um projeto sobre o escritor Aquilino Ribeiro, avó de Aquilino Machado Ribeiro [argumentista de “Avenida Almirante Reis em 3 Andamentos”], que novamente trabalhará com a realizadora. Esta assumirá a produção, pelo que também dirigirá a convite do seu parceiro: “Estou a começar agora a trabalhar e a ler obras do Aquilino.

Uma outra América na pele de Jamie Bell

Hugo Gomes, 05.10.19

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Poderíamos falar de movimentos de extrema-direita, do ódio irracional que parece traduzir os nossos dias ou até as comparações (injustamente) incontornáveis com a «America History X», sobre outro skinhead racista que vira as costas ao ódio e à violência. Podíamos, mas não seria a mesma coisa, porque no coração deste “conto de violência embalado em humanismo” deparamos com um dos atores mais subvalorizados da atualidade: Jamie Bell.

Tendo conquistado corações no seu primeiro papel - quem se lembra do eterno Billy, o rapazinho que escapava das aulas de pugilismo para o ballet em “Billy Elliot” - Bell não seguiu de todo um caminho fácil pela indústria cinematográfica, arriscando e com isso fugindo da maldição de “jovem estrela”. Escapando ao esquecimento, tornou-se emancipado a partir do bélico de Michael J. Basset (“Deathwatch”), recuperando o fôlego com as incursões de Thomas Vinterberg (“Dear Wendy”), David Gordon Green (“Undertow”) e no desprezado “The Chumscrubber” de Arie Posin, e por fim quase se restringindo a secundário de sustento nos mais diferentes géneros: fantástico ("Fantastic Four”, “King Kong”), guerra (“Flags of our Fathers”), épico (“The Eagle”) ou ficção científica (“Snowpiercer”). Mais recentemente, reconquistou o protagonismo no curioso “Film Stars Don’t Die in Liverpool”, ao lado de Annette Bening, mas o filme não chegou aos laureados cantos da temporada de prémios e o mesmo se pode dizer do seu empenho neste “Skin”, validando uma certa ideia de ignorância (para não apontar o lobby) das academias.

Ao chegar a esta longa-metragem de Guy Nattiv (vencedor de um Óscar com a curta de mesmo nome) compreendemos que, enquanto ator, Bell é dotado em construir conflitos num registo silencioso, personagens conturbadas aprisionadas ao seu inerente. Em “Skin”, ele vive a pele (melhor palavra para referir esta personagem) de Byron Bab’ Widner, um membro de uma comunidade enraizada nos ensinamentos vikings, obviamente fermentada por ideologias de supremacia branca e de masculinidade tóxica. Jamie Bell apropria-se então dessa pele para costurar a sua própria camada epidérmica, resultando num homem encaminhado para becos sem saída, cercado por um ódio implementado. Mas ao contrário do portento Derek Vinyard, o neonazi arrependido encarnado por Edward Norton em “America History X”, Byron sempre se sentiu desencaixado no ecossistema de ódio diluído que é a sua família e convertidos. Para a personagem, toda esta violência é normalizada e, como consequência, para além da pregada ideologia, a sua expressividade é descompensada por um instinto quase animalesco.

Não se trata de encontrar em “Skin” um reflexão para este fenómeno de doutrinação, e novamente (pedimos desculpas ao leitor pela constante recorrência) comparando com “America History X” (filme que o próprio realizador, Tony Kaye, renega), não pretende solucionar com respostas simples um retrato absolutamente maniqueísta (há que encarar a extrema-direita e incentivos de ódio como algo mais complexo). Guy Nattiv aposta na individualidade da sua proposta: Byron é um objeto de estudo, não no sentido sociológico, mas emocional, a superação como virtude de um humanismo hoje desvalorizado.

Pegar em farrapos humanos e devolvê-los à sua humanidade”, o objetivo proferido pela personagem de Daryle Jenkins (Mike Colter) é também o objetivo do filme, e o faz com a cumplicidade de Jamie Bell, menino-prodígio de ontem, o homem do presente que procura o seu merecido holofote. Está aqui, sem dúvida, um dos melhores desempenhos da sua carreira.

Uma Varda lágrima

Hugo Gomes, 03.10.19

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Até há data só houve três mulheres do Cinema que me fizeram chorar!

A primeira, aconteceu em Cannes de 2018, no Theater DeBussy, quando após a transmissão do excerto de Pierrot le Fou - “Pourquoi t’as l’air triste?” / “Parce que tu me parles avec des mots, et moi je te regarde avec des sentiments” – fomos levados diretamente ao rosto lavada em lágrimas de Anna Karina que se encontrava timidamente no meio do público. A outrora bela face da Nouvelle Vague já não apresentava mais aquela jovialidade e vitalidade que paralelizava com um cinema que emergia sob novas ideias e sobretudo novos dispositivos narrativos. Era agora uma cara envelhecida. Anna Karina confrontava com as recordações dos seus tempos áureos, e nós, espectadores fomos empurrados para esse mesmo saudosismo.

A segunda ocorreu no dia 27 de janeiro de 2017, ao rever Hiroshima Mon Amour depois de ter sido noticiado com a morte de Emmanuelle Riva. Segundo consta, ela nada sabia sobre a tragédia de Hiroxima e portanto nós também não.

A terceira deu-se novamente em Cannes, em 2017, sentadinho no meu banco aguardava um eventual e esperado reencontro. Recordo de ver Agnès Varda dirigindo-se alegremente, quase a saltitar, para a casa de Jean-Luc Godard. Contudo, a promessa não foi cumprida, na porta encontrava-se um recado, o realizador de Pierrot le Fou e Vivre sa Vie não estava disposto a recordar os velhos tempos. Varda, a sempre alegre “piolha” não consegue esconder a sua desilusão, uma lágrima solta-se e corre pela sua face. Um momento duro, mas de uma sinceridade que dificilmente poderia ser falseada. Visages Villages foi essa emenda.

Com isto para dizer que ao ver novamente Varda no documentário-legado e certa forma, autobiografado, em Varda por Agnès, é de um triste consolo. A sua energia, criatividade, expressividade e sabedoria, Agnès Varda era uma artista, não de palmo e meio, mas de corpo inteiro, e sobretudo de um humanismo único. Vê-la, ou direi corretamente, revê-la no grande ecrã numa espécie de retrato a nu, porém, de uma nudez controlada pela própria, foi uma das experiências mais emocionantes deste ano no Cinema.

Ficamos sem Varda. Longa Vida a Agnès.