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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Um coração "Iluminado" ...

Hugo Gomes, 31.10.19

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Agradeço ao Shining por me ter iniciado no género do terror! Foi o meu primeiro filme desse universo longo e duradouro, tinha 11 anos e o deparei por acaso na televisão. Estava sozinho em casa nesse dia … coisas que não se esquecem (até hoje tenho dificuldades em falar do filme).

Por isso o meu afeto pelo filme é demasiado grande, mas mesmo assim esse amor transpassou da mera recordação. Afirmo de “boca cheia”, e apesar do backlash que Kubrick tem em certos circuitos, é uma obra-prima, possivelmente só igualada com Eyes Wide Shut na carreira kubrickiana.

Longa vida ao Danny e Jack Torrance, ao Redrum, às gémeas, ao quarto 237 e porque não ao “Here’s Johnny!”.

 

Caro Pedro Costa,

Hugo Gomes, 29.10.19

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Um avião vindo de Cabo Verde chega ao Aeroporto Humberto Delgado (Lisboa). Uma pista de aterragem fantasmagórica, vazia de mortais. O aeroporto não é mais identificável, é uma peça dentro de uma Lisboa engolida pela escuridão, pelas trevas que povoam o coração dos Homens. A porta abre, de lá um vulto aguarda pelo acesso ao solo português: uma mulher, entregue ao negro do luto (e não é por menos). Ela chegou à terra com 25 anos de atraso. Agora é tarde, a sua vinda é um encontro com a morte e com as forças que a própria desconhece. À sua espera, mulheres aguardam para dar-lhe umas nefastas palavras de boas-vindas: “A casa dele não é a tua casa. Volta para a tua terra.“. Um aviso que a nossa protagonista recém-chegada, Vitalina Varela, ouvirá constantemente: “Volta para a tua terra“, “não há nada aqui para ti“.

Talvez esses mesmos alertas, recambiamentos para Cabo Verde que nunca deveria ter deixado, sejam a verdade santa num cemitério extenso que se chama Lisboa. Varela tem o propósito de reencontrar o seu marido, só que este não é mais um ser vivente, mas uma recordação, e não daquelas recordadas com agrado. A nossa protagonista instala-se na casa do falecido, habitação essa em plena fase de desmoronamento. Ao seu redor, uma comunidade restringida à sua subsistência, aos cavernícolos depósitos a que chamam lar. Até mesmo a igreja, gerida por uma cara conhecida de Varela e do público que acompanha estas jornadas – Ventura –, é um espaço de comunhão com os mortos e não com os vivos. “Os espíritos falam português“, refere Ventura, decifrando a Varela a chave para o contacto com os do além, onde até mesmo os fantasmas se venderam à língua colonial. A mulher, fustigada pela sombria mágoa e erguida com o senso de perdão, comete o esforço de criar um laço com estas entidades. Os espíritos coexistem com o comum dos mortais. Não existe nada de sobrenatural nisto, é somente o “estado das coisas”.

Não choro por nenhum cobarde“, declara Varela, que mais tarde terá resposta do “homem de Deus” – “Bem-amado é aquele que chora” – para depois ceder ao peso de uma vida em vão, constituída somente pela morte sem pré-aviso. Se bem que o filme de Pedro Costa não é mais do que um diálogo entre dois seres, enfaixados num rigor que só o realizador parece ter adquirido nos seus anos de carreira, “Vitalina Varela” [título do filme] é um degrau numa escadaria que vai dar, sabe-se lá onde. Pedro Costa é o autor em Portugal por direito (e no resto do Mundo também), mas dos poucos que se pavoneia com uma constante inovação na sua arte, ao invés de muitos que se restringem ao seu “cinema confortável”.

Vivemos em tempos, um espírito rebelde que tentava configurar “a maior invenção do Homem” em “O Sangue'' (1989), a obra inaugural de um cineasta em busca de uma voz, mas com a perfeita noção do seu estado, do querer deixar uma marca, de preferência profunda no panorama português. Partiu para a Ilha do Fogo, Cabo Verde, com a promessa de exorcizar fantasmas de um passado colonialista em “A Casa de Lava” (1994). Veio de lá com uma nova noção de cinema, uma busca pelo exotismo degradante das sombras portuguesas (os marginalizados). Assim, avançou sorrateiramente por um dito cinema etnográfico e calcificado com emergência social em “Ossos” (curiosamente, Catherine Deneuve revelou que era um dos filmes prediletos), porém, Costa sentiu-se defraudado por este seu retrato aos habitantes do (agora extinto) Bairro das Fontainhas e é com o filme seguinte que o reconhecimento global é atingido.

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Ao filmar a demolição de um biótopo em “O Quarto da Vanda” (2000), o realizador prescreve uma encruzilhada de novas histórias e rumos. O caminho decidido encontrou paralelo com a inicial intenção de “A Casa da Lava”, a coexistência de fantasmas com os peregrinos vivos, e assim nasceu “Juventude em Marcha” (2006), onde fomos introduzidos a Ventura e por sua vez um regresso ao “cinema de estúdio” com “Cavalo Dinheiro” (2014). Como o leitor já deve ter percebido, o cinema de Pedro Costa (não contando com os exercícios paralelos como “Onde Jaz o Teu Sorriso?” ou “Ne Change Rien”) é contínuo. Nenhum filme é uma ilha e todos compõem um continente à parte.

Vitalina Varela” prolonga esses passos de Costa e deixa em aberto novas abordagens, histórias, pessoas e locais, e o final é digno disso; um comité para um dito universo partilhado, por sua vez autoral, observacional e rígido na forma. Esta obra culmina os trilhos que caminhamos juntos, onde a fotografia (excecional) de Leonardo Simões encharca os planos, conspirando para os metamorfosear a quadros vivos, algo velasqueanos tendo em conta a sua saliência para com o nosso olhar em fuga; a profundidade, a mise-en-scène que se enquadra num só corpo. Possivelmente, um dos melhores trabalhos de realização do cinema português que há memória (e quiçá, além fronteiras).

Pedro Costa conseguiu o seu filme mais calculado e como tal o mais belo e apaixonado. A partir daqui é só aguardar impacientemente pelas novas oferendas que o realizador tem para nos entregar.

Nem tudo são rosas ...

Hugo Gomes, 19.10.19

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Na Netflix, nem tudo é originalidade e primor! Numa só semana contamos com o lançamento de dois graus de “obras falhadas”, de um lado Wounds, da suposta revelação Babak Anvari, terror sob contornos lovecraftianos que produz um clima de mistério para depois lançar-se “às urtigas” e com ele levando Armie Hammer e Dakota Johnson (possivelmente das piores atrizes da atualidade) ao abismo. Do outro canto, possivelmente a mais alarmante, The Laundromat, o prolifero Steven Soderbergh na denúncia dos Panamá Papers, num objeto sabichão ou diria antes “chico-esperto”, a replicar as tendências da economia para totós de Adam McKay e apresentar a pior das Meryl Streeps. Armado em Robin dos Bosques versão caviar.

Que venham mas é esse Marriage Story e o tão badalado The Irishman, do “verdadeiro” Scorsese, porque a Netflix precisa urgentemente de Cinema nos seus cantos próprios.

 

Technoboss: melodia de viagem num dito "cinema português"

Hugo Gomes, 14.10.19

72449917_10214911871727180_4408377419279368192_o.jVoltando à tendência do absurdismo episódico, hoje em voga com a aclamação mundial de Miguel Gomes (mas já antes João César Monteiro o havia feito sob camadas e camadas de humor sardónico), João Nicolau instala-se no registo musical como a sua chave de acesso ao escapismo e com isso uma sensação de liberdade criativa e narrativa. Confesso que em Technoboss existe um ou outro momento digno de nota deste tipo de cinema em constante desenvolvimento semiológico (Miguel Lobo Antunes é um desses curiosos elementos), mas o realizador do anteriormente simpático John From fica-se apenas pelos apalpões aos “cus das lâmpadas”, não encontrando um objetivo definido com toda esta jornada por estrada fora.

Há Tempo para degustar o Cinema! Arranca o 4º Close-Up, Observatório de Cinema de Famalicão

Hugo Gomes, 10.10.19

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Les Yeux sans Visage (George Franju, 1960)

O Tempo destrói tudo, isso é mais que sabido, mas ele também constrói. Constrói uma perspetiva, uma noção e acima de tudo a História. Neste caso a História do Cinema, que é novamente revisitada no CLOSE-UP – Observatório de Cinema, neste seu quarto episódio, como é habitual, a ter lugar na Casa das Artes de Famalicão, entre os dias 12 a 19 de outubro.

Novamente, uma programação recheada de filmes, concertos, temáticas, round tables e muitos convidados naquela que já é a mais respeitada comunhão de cinefilia do país. E voltando ao Tempo, a História do Cinema que é constante revista, CLOSE-UP contará como prato principal dois acompanhamentos musicais a dois dos grandes clássicos do cinema russo; o sempre incontornável “Battleship Potemkin” / “O Couraçado Potemkin”, de Sergei Eisenstein, com a Orquestra de Jazz de Matosinhos a condizer, e o aclamado filme de Boris Barnet, “The House on Trubnaya Square” / “A Casa na Praça Trubnaya”, onde os Mão Morta assumem uma original banda-sonora. Já nas sessões especiais, a História do Cinema pelos olhos delirantes de Quentin Tarantino, “Once Upon a Time... in Hollywood”, e a antestreia da mais recente obra do filipino Brillante Mendoza, que volta a debruçar-se pela teias criminosas e marginais de Manila em “Alpha: The Right to Kill”.

A fortalecer a temática do Tempo, ainda temos o historial condensado num folhetim imagético em “Le livre d'image”, do sempre intemporal Jean-Luc Godard, ou do tempo enquanto dispositivo manipulável em “John McEnroe: O Domínio da Perfeição” / “L'empire de la perfection”, de Julien Faraut. A Lenda e o Contemporâneo do atual Cinema Francês, dois pontos de partida para uma das secções fundamentais desta anual mostra cinematográfica – Histórias de Cinema – que nos brinda com um Passeio pelo Cinema Francês com dois protagonistas: Agnès Varda e Jean-Luc Godard.

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Halito Azul (Rodrigo Areias, 2018)

Aí, para além dos filmes da cineasta que apaixonou gerações pela sua criatividade e dinamismo e o realizador que continua a fomentar cinefilias, passearemos por alguns dos clássicos ante-Nouvelle Vague de uma das cinematografias mais fortes a nível internacional. Será o brilhante “Les Yeux sans Visage”, de George Franju, ou a viagem pela metrópole americana em “Deux hommes dans Manhattan”, de Melville, ainda as histórias trágicas e tragicómicas de “Le Plaisir”, de Max Ophuls, e até mesmo um dos mais belos casamentos de imagem e música de “Ascenseur pour l'échafaud”, de Louis Malle, a fazer as delícias dos amantes de cinema? A resposta é sim.

Na também habitual Fantasia Lusitana, espaço dedicado aos ascendentes protagonistas do cinema português, conheceremos (ou revisitarmos) o trabalho de Eduardo Brito, realizador, argumentista e fotógrafo, descrito pelo seu olhar perfeccionista e dedicado aos enquadramentos. Aqui deparamos com uma seleção de curtas da sua autoria, incluindo a estreia de Úrsula, como também vídeos experimentais, videoclipes e ainda uma longa-metragem escrita pelo próprio com a realização de Rodrigo AreiasHálito Azul”.

O cinema terror também terá o seu tempo de antena, ao integrar o espaço de Cinema do Mundo, este ano centrado no género profundo (“Mandy”, “The Love Witch” e “It Comes at Night”, compõem o trio de sessões que explicita o terror e o medo na América). Além disso, o CLOSE-UP contará ainda com sessões dedicadas às escolas e de família, com as exibições de “Toy Story 4” e “The Lion King”, como ainda tempo exclusivo para o legado de João César Monteiro, onde serão mostradas algumas das suas curtas como ainda lidas os seus poemas. Para a cadência das suas palavras, Isaque Ferreira será o responsável pela leitura.

"Agnès Varda dava-nos as pistas necessárias para desvendar o seu Cinema." Uma conversa com Rosalie Varda

Hugo Gomes, 08.10.19

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Varda par Agnès (2019)

Varda disse-me que os jovens não são menos curiosos. São apenas mais preguiçosos.

Seguindo as palavras da sua filha e produtora, Rosalie, percebemos o porquê de Agnès Varda ter sido uma das grandes veteranas do Cinema a apaixonar os mais jovens. Primeiro, porque não encontramos nas suas palavras, proferidas em masterclasses, nenhum indício de condescendência para com esta geração. Ao invés, era uma energia jovial aquela que contaminava as suas palestras.

Varda por Agnès, até ao momento o último trabalho do importante nome da “bancada de esquerda” (left bank) da Nouvelle Vague, expira esse mesmo toque, uma “velhota” que fala dos seus filmes como uma adolescente cheia de genica. É através dessa motivação que vamos de encontro com um legado, a merecer perpetuação nas futuras gerações.

Tive o privilégio de conversar com Rosalie Varda, fruto do relacionamento da realizadora com o ator Antoine Bourseiller (mas legalmente adotada pelo cineasta Jacques Demy) sobre esta sua produção, e sobretudo sobre a sua mãe que infelizmente nos deixou.

É sabido que foi você que trouxe a ideia deste filme para Agnès Varda?

Sim, era a ideia de um filme sobre a sua interação com o público. Como ela trabalha e como ela faz o seu Cinema. Seria um projeto marcado por duas partes: a primeira, antes do ano 2000, com Varda a operar grande câmaras e a trabalhar com a película; a segunda, depois do novo milénio com a “descoberta” da câmara digital, e como o digital tornou possível um envolvimento ainda maior dela na área do documentário. É que, com essa câmara, Varda conseguiu aproximar-se das pessoas sem que parecesse intrusiva.

Ao mesmo tempo queria mostrar que nos primórdios da sua carreira, ela era uma fotógrafa e como tal foi crucial para o seu desenvolvimento enquanto cineasta. A experiência do olhar adquirido por essa área tornou-a atenta e a realizadora perfeccionista que conhecemos. Da mesma forma que o digital a levou a desbravar a arte contemporânea, a inserir-se nas instalações artísticas. Ou seja, temos vídeo, foto, arte … Agnès Varda era tudo isso. Todos esses temas.

Portanto, 11 anos depois de “Les Plages d'Agnes", este seria o definitivo filme do seu legado?

Legado é uma palavra que não aprecio, mas o filme dá-nos as ferramentas para entendermos ainda mais o Cinema.

Quer dizer que “Varda per Agnès” é mais que um tributo e, sim, um filme sobre o Cinema.

Sim, como o Cinema funciona. Ela estava interessada em três palavras – inspiração, criação e partilha – e esse trio é misturável. Porém, é através dessas palavras que Varda pôde ser a realizadora diversificada que sempre foi. Atenção, ela nunca se repetia, facilmente conseguia partir do documentário para a ficção e de seguida para uma curta, sem replicar a narrativa. Mas o mais importante de tudo isso era a facilidade com que ela era capaz de falar sobre o seu trabalho. Sabes uma coisa, daqui a um ano ou dois, ou mais, continuarão a fazer documentários sobre ela. Repito, Agnès Varda dava-nos as pistas necessárias para desvendar o seu Cinema.

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Rosalie Varda e Agnès Varda

Mesmo nos últimos anos, Agnès Varda mantinha um olhar jovem, mesmo abordando os seus filmes mais antigos, ao mesmo tempo que adquiriu a maturidade para falar deles melhor do que na altura que os fizera. Acredito que este foi o momento perfeito para decifrar o seu “La Pointe-Courte”, bem mais precisa do que quando estava a filmá-lo, porque ela experienciou a Vida. Como qualquer pessoa que ao longo dos anos solidifica a sua perspetiva em relação a um tema que tão bem conhece. Acima de tudo, “Varda per Agnès” exibe energia criativa que reflete nas pessoas dando-lhes o desejo de ver e pensar.

Foi uma honra produzir os filmes da sua mãe?

Sempre fomos boas parceiras. Eu tentava protegê-la acima de tudo e ela protegia-me. A nossa relação era muito boa, diria mesmo, facilmente boa. É curioso que, ao contrário de muitos outros realizadores do seu tempo, o público de Varda era maioritariamente jovem. Como explica este fenómeno? Diria mais uma referência. As audiências jovens tem interesse nela e nos seus filmes porque ela era livre. Varda tinha liberdade, nunca cedeu à publicidade, à grande indústria, manteve-se sempre no limiar disso tudo.

Os jovens, por sua vez, adquirem a sensação de que a compreendiam perfeitamente. Nunca a encararam como uma “velha” a falar dos seus filmes, mas sim uma artista, uma cineasta. Nunca sentiram que Varda fosse geracionalmente distante para partilhar alguma coisa. Os jovens querem extrair dela todo o conhecimento.

Recordo que numa entrevista, você expressou que não sentiu que fosse a sua mãe a partir, mas uma “figura pública”.

Sim, quando morreu Agnès Varda senti que morreu uma figura pública. As pessoas vinham ter comigo e davam-me os pêsames e diziam-me o quanto “gostavam de Agnès“. Mas eles só conheciam a sua Agnès, a empática artista, não a minha. Por algum tempo senti que a minha mãe não morreu, mas sim outra pessoa, uma artista, alguém diferente.

Mas consegue separar essas duas figuras?

Sim, eu consigo separar o trabalho dela com a minha mãe. Não é a mesma coisa.

O filme foi apresentado pela própria Agnès Varda em Berlim este ano. Acha que “Varda per Agnès” alterou, inconscientemente, o seu tom?

Pelo facto de ela não estar cá?

Sim.

Não, os artistas são luxo, mas a arte está viva. Varda morreu em março e mesmo assim olhamos para o filme e ele não está morto, está sim vivo. “It’s Alive!

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Jane B. par Agnès V. (1988)

Antes de virar produtora, trabalhou na área da figuração …

Sim, trabalhei como figurinista por mais de 20 anos. Trabalhei com Varda, com Jacques Demy e muito mais gente, em espetáculos de dança e óperas. Depois dessa experiência adquirida cheguei ao pé de Agnès e disse: “Quero trabalhar contigo” [risos]. Ela respondeu: “Sim. Sim, boa“. E foi então que viramos parceiras.

O seu primeiro trabalho de produção foi com a primeira longa-metragem do seu irmão Mathieus Demy, O Americano. Sente-se que de certa forma tem que proteger a sua família?

Sim, exato. Todos os meus filmes são as minhas crianças. Eu tenho uma grande família. Mas sim, enquanto produtora sinto-me na obrigação de proteger todos esses meus projetos, como tenho o dever de proteger todos os filmes da minha mãe. Tenho que proteger o “Cléo de 5 à 7”. Tenho que proteger “Le Bonheur, etc. É interessante porque preocupo-me com a educação, batalho por ela. E a educação não é só Televisão, é também Cinema. Por isso é meu dever levar as pessoas para o Cinema.

Não querendo mencionar a palavra Legado [risos], mas como está responsável pelo espólio de Agnès Varda, será que iremos contar no futuro com projetos nunca concretizados pela mesma? Talvez guiões inéditos…

Eu não sei, não é o melhor dia para falar disso. Sabes, de momento estamos a tentar reunir tudo e … temos muita coisa. Por isso, quer dizer, este não é o tema de agora. O tema de agora é reunir tudo nos nossos arquivos. E temos muito.

Provavelmente já lhe perguntaram isto imensas vezes após a morte da sua mãe, mas tendo em conta aquilo que vimos no final de “Visages Villages”, qual é a sua opinião sobre as palavras de Jean-Luc Godard sobre a sua mãe, dias depois do seu falecimento?

Ele disse alguma coisa?

Disse que ela era das “uma das melhores” …

Ele apenas enviou-me uma pequena colagem. Eu não ouvi nada.

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