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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Eles são sádicos, escamosos e comem-nos vivos!

Hugo Gomes, 11.07.19

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Quando pensamos em mandíbulas aquáticas enviesadas no universo cinematográfico, somos automaticamente remetidos para tubarões e esqualos à moda de Steven Spielberg. Sim, falo de “Jaws”, ou “Tubarão” (1975), como foi assim intitulado em “praias” portuguesas, o filme que arrasou quarteirões em plena época estival, inaugurando o chamado "blockbuster" de verão, uma nova oportunidade de agenda para os grandes estúdios lançarem as suas apostas milionárias. Obviamente que há que agradecer a Spielberg e o seu método “know how” por ter construído uma obra astuta e reflexiva à histeria coletiva integrado num modelo de filme de monstro, elementos que funcionaram e que estabeleceram parâmetros invejados nesta atualidade. Mas isso são outras histórias e desde essa data, os peixes cartilagíneos tornaram-se estrelas e, hoje, protagonistas de um subgénero à parte.

Passando para outras letais criaturas das profundezas, em 2010, o parisiense Alexandre Aja, um dos precursores da nova vaga francesa de terror, tinha contaminado litorais com cardumes de piranhas pré-históricas no delirante “Piranhas”. Nove anos depois, regressa às águas para nos trazer um pesadelo partilhado pelos locais do estado da Flórida: aligatores. Ao contrário dos seus “colegas” tubarões, crocodilos e seus parentescos nunca se assumiram como verdadeiramente estrelas de cinema. Aliás, sempre ficaram como obstáculos secundários, sendo por poucas vezes o monstro-cartaz. A incursão de Tobe Hooper (realizador de “Texas Chainsaw Massacre”) em “Eaten Alive” (1976) ou até o último grande crocodiliano “Lake Placid” (Steve Miner, 1999) estão entre os escassos "exemplares" que sobressaem desta espécie em vias de extinção. Porém, é incerto que “Crawl” entre nessa galeria com afinco.

Se seguirmos o percurso de Alexandre Aja, compreendemos que o grande erro de “Crawl” está no seu não-assumido escapismo, ao contrário do anterior “Piranhas”. O que acontece é que este modo de sobrevivência é exagerado, desajeitado e acima de tudo, nada credível, quer quanto ao comportamento das personagens em situações limites, quer das criaturas sobrenaturalmente sádicas, compostas por um grotesco CGI (ao contrário dos efeitos práticos utilizados em “Lake Placid”, estes crocodilos estão longe de nos convencer). E à volta desses “brindes” encontra-se um embrulho sobre-dramático e um jogo de gato-e-rato a seguir as pistas deixadas pelo estilo “slasher” (para além das enésimas a “Tubarão”, a começar pelos "travellings" submersos e os acordes musicais de Max Aruj e Steffen Thum).

De forma mais direta e simples, “Crawl” tenta e deseja, mais que tudo, ser levado a sério, contrariando a sua natureza disparatada que só salvaria dentro dos parâmetros da série B. O novo filme de Alexandre Aja é obviamente um sucessivo rol de más decisões e é perante essa ferida que o argumento, infantilizado e sem rigor de espaço e vontade, instala-se como um golpe misericordioso. Até porque deve-se acabar com o sofrimento... veja-se o caso do ator Barry Pepper, que depois disto terá tempo suficiente para repensar a sua carreira.

Israel e o "exército mais moral do Mundo" são convocados para um teste de decência

Hugo Gomes, 07.07.19

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"É ultrajante ver artistas israelitas a contribuir para a incitação da geração mais jovem contra o exército mais moral de todo o mundo, tudo sob o disfarce de arte".

Foi desta maneira que a ministra da Cultura e Artes israelita Miri Regev apelou ao boicote de "Foxtrot", a segunda longa de Samuel Maoz, realizador celebrizado com "Libano" (2009), que levava todo o enredo no interior de um tanque durante a Guerra do Líbano e atingiu os palmarés máximos do mais antigo dos festivais de cinema, Veneza. Soando como um filme de cerco concentrado num teor altamente politizado, "Libano" recorria a um reflexo entre as morais doutrinadas com as instintivas dos militares em missão. São as fragilidades que facilmente poderíamos atribuir aos comuns dos mortais, mas nunca a quem supostamente deve resolver os conflitos bélicos. Um jeito de crítica acentuada numa contemplação no seu próprio sermão que é replicada em "Foxtrot" na dor com que uma família de Telavive terá de lidar após lhe ser revelada a morte do filho, que cumpria serviço militar num posto fronteiriço.

O que está agora em questão? Não é só a pregação da ética e a sua desconstrução nos soldados israelitas que são contagiados pelas suas "aventuras" no Líbano. A própria essência dos espaços limitados é aqui, acima de tudo, induzida e teorizada. Não reduzindo a intriga a um só cenário, mas distorcendo o cenário à sua limitação. Também nunca evidenciamos o ecossistema dos familiares sofredores, expostos a um sistema burocrático e em constante serventia a uma Nação através de um funeral homogéneo. Ao invés disso é o lar que se transforma num cativeiro que aprisiona as réstias de esperança destes seres. A começar pelo foco do plano médio, dos olhares congelados pelo incrédulo momento de choque e os rabiscos de fundo que formam uma pitoresca arte abstrata pregada ao hall de entrada (uma das primeiras imagens que o espectador tem oportunidade de assistir). Tal como esse mesmo objeto de adorno, o luto é abstrato, inconformado e ilegível.

Com o funeral em ação do seu "caído", partimos para o segundo ato, o onirismo da sua fronteira. Saímos do domicílio para entrar numa outra “casa” - a casa da guarda. O posto militar é rodeado de culpa, de frustração, de desilusão quanto aos sonhos não cumpridos. Estes soldados não são mais que "crianças", singelos ignorantes na arte de viver, que serão testados numa prova de fabulação. O filme de cerco que estava a ser "Foxtrot" transforma-se: não é mais uma prática entre quatro paredes, é agora um beco sem saída quanto às projeções do futuro de cada um.

Com "o exército mais moral do mundo", a ministra quis fazer uma limpeza ética aos seus peões, mas a crítica encenada em "Foxtrot" não é dirigida apenas a uma nacionalidade. Existe aqui uma universalidade na sua mensagem e o mesmo se aplica ao destino trocista. O humor é negro e ácido, até porque a tragédia é isso mesmo ... uma questão de etimologia (trágico + comédia). E mais uma vez, por entre desertos e terras áridas onde bestas vindo do nada surgem da escuridão, a dança marca-se como um prenúncio de morte entre Israel e Líbano. Com a “Waltz with Bashir” (título da magnífica animação de 2008 de Ari Folman) e agora o foxtrot, que se afasta do alfabeto fonético para se materializar como um sincronizado movimento bélico.

"Os videoclubes morreram!"

Hugo Gomes, 04.07.19

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Recentemente, Dave Bautista repudiou a ideia de entrar na saga "Fast and Furious” sob o pretexto de apenas “preferir entrar em bons filmes”. Ironicamente, chega às nossas salas um "desmentido".

Vale a pena recordar que filmes como “Escape Plan: The Extractors” eram lançados exclusivamente para mercado "direct-to-video" como forma de progredir no circuito dos videoclubes e nos seus nichos. Como os tempos mudaram, os videoclubes “morreram”, o mercado do "home video" está pelas ruas da amargura e o "streaming" está aí à porta a entregar-nos propostas mais aliciantes, sente-se que este filme de John Herzfeld vem ocupar um lugar não lhe pertence por direito: a sala de cinema. A verdade é que “Ghost Story” ou "Disobedience" (para nomear alguns exemplos recentes e gritantes) foram "despachados" para o "video-on-demand", enquanto que “Escape Plan: The Extractors" chega com o seu direito privilegiado de projeção. Porém, isso são outras histórias e nada disto importa agora para a qualidade do filme.

Falemos então dele: sob fórmulas de evasão prisional, a saga "Escape Plan" começou em 2013 como um pretexto para reunir as estrelas de ação Sylvester Stallone e Arnold Schwarzenegger. Era um produto que apelava mais pelo "star system" do que propriamente pela ideia não tão criativa que se apresentava, o que não impediu que surgisse um segundo tomo, datado de 2018, com Stallone a repetir o papel e tendo como novo parceiro Dave Bautista.

Ambos regressam agora para este protótipo de ação que condensa apenas os requisitos mínimos narrativos e imaginativos. Exibindo toda uma seriedade ou pretensão dramática que evita que o filme avance por territórios "camp" ou simplesmente escapistas, mesmo que o seu desenvolvimento não seja capaz de complexidades ou sintomas do género. E acrescenta uma pose sedutora para com o mercado chinês… quem diria? Não há nada de grave em “Escape Plan: The Extractors". Não é este tipo de produções "paraquedas" que são o atual “cancro” da indústria. E tendo em conta a qualidade do seu desempenho, Sylvester Stallone demonstra que tem a perfeita noção do projeto em que se insere. Se não havia fé nisto, queriam o quê? Milagres!?

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