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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

12 Anos e o Cinematograficamente Falando ... mantêm-se

Hugo Gomes, 25.07.19

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All These Women (Ingmar Bergman, 1964)

Apesar do tempo reduzido e da fraca actualização deste espaço, são vocês, leitores, que me dão forças para continuar com esta pequena “brincadeira”, que automaticamente se converteu num dos refúgios nesta vida. Pois bem, venho por este meio celebrar os 12 anos de Cinematograficamente Falando …, escusado será dizer que passamos a década há muito, mas que continuamos a falar de cinema e seguir de perto a Sétima Arte. Um muito obrigado a todos que me seguem atentamente, são vocês a causa deste blog que tanto cresceu.

Gatos computorizados e assassinos sintéticos: o CGI matou o prático

Hugo Gomes, 22.07.19

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"Cats" (Tobe Hooper, 2019)

Se Hollywood escarafuncha tudo e mais alguma coisa para conseguir o seu próximo lucro, já sabíamos. Que o CGI é utilizado de forma desalmada para que sejam possíveis todas as formas estetizadas ou imaginadas, também conhecíamos. Porém, existe uma dependência e quando isso existe, é necessário haver uma intervenção.

Se existem produções cujo chamariz é a sua inovação tecnológica, seja ela bem-sucedida e por vezes bem-vinda (“Matrix”, “Avatar”, “Terminator 2” e “Forrest Gump”) ou esquecidas (“Speed Racer”, “Sky Captain and the World of Tomorrow” e “Beowulf”), há também a existência de um outro lado, o facilitismo e porque não o lobby de forma a favorecer empresas de efeitos digitais frente aos efeitos práticos.

O veterano Alec Gillis, que trabalhou bem perto com o mítico Stan Winston e hoje é detentor de uma produtora de efeitos práticos [Studio ADI], para além de ser responsável pela criação de alguns monstruosos adereços em filmes como “Starship Troopers: Soldados do Universo”, “Death Becomes Her” e “Tremors: Palpitações”. Constantemente refletindo sobre o seu presente e futuro, os seus pensamentos são tudo menos “felizes”. Recentemente, em conversa no podcast português VHS: Vilões, Heróis e Sarrabulho, Gillis falou sobre a decadência do ramo e o facto dos grandes estúdios optarem facilmente pelo computorizado face ao “manual”. Questões de logística, recursos humanos e sobretudo orçamento são algumas das linhas guias para que as “majors” embiquem pelo artificialismo.

Nesse mesmo programa, ele relatou um episódio algo “trágico” deste confronto entre prático e o computorizado: a forma como a sua equipa, designada para a criação dos monstros da prequela/remake de “The Thing: A Coisa” (Matthijs van Heijningen Jr., 2011), foram descartados. A Universal Pictures decidiu à última da hora minar a sua obra com CGI, deixando todo um trabalho concebido durante meses para trás. A solução encontrada por Gillis, de maneira a evitar o desperdício, foi reutilizar o conteúdo num produto de baixo-orçamento (possível por uma campanha de crowdfunding) dirigido pelo próprio: “Harbinger Down”, com Lance Henriksen no elenco.

A extinção destas empresas é tida como cada vez mais certa, até porque experienciamos atualmente a um assalto à sofisticação de uma nova versão de “The Lion King”, executado quase totalmente num fotorrealismo digital, ou, recentemente, “Cats”, que dispensa a caracterização e os adornos pelo qual o musical original é notório por um híbrido de motion-capture. O trailer, lançado no âmbito da Comic Con San Diego, causou uma repulsa quase generalizada, gerando em simultâneo um debate sobre os limites do artificialismo CGI e a sua fusão na carnalidade dos atores (assim como a razão para tal decisão).

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A equipa de efeitos práticos de "Child's Play" (Lars Klevberg, 2019)

Não querendo seguir as questões trazidas pelo tão pertinente “The Congress”, de Ari Folman, sobre a condição do ator e da validação dos métodos de atuação, o que condiciona este frenesim por criações de bytes e megabytes é uma instantânea dubiedade do que é real e falso. Instantâneo, porque ao contrário dos efeitos práticos, onde atribuem a textura, dimensão e peso ao que quer que seja produzido, o CGI tende em ser uma especialidade de baixa longevidade, diversas vezes atingindo pela vinda de novas definições, pela sofisticação e, sobretudo, pelo olhar cada vez mais experiente do espectador. Desde pequenos somos mesmerizados pelo contingente computorizado, pela escassez da animação tradicional (o Japão resiste como último reduto, convertendo o anime numa prática nacional), e – principalmente – pelos cada vez mais realistas videojogos. É natural que com esta exposição, estas gerações sejam entendedoras do que é e não é criado em chroma key.

Em contraposição, um filme que tem de tudo para ser irrelevante nesta indústria, e até mesmo numa colheita cinematográfica – “Child's Play” –, apresenta-se como contra-natura destas tendências produtivas. Porque a verdade é que o animatrónico Chucky é um símbolo de resistência de 2019 à dominância do vácuo artificial. Enquanto isso, os jovens de hoje continuam deslumbrados pela metamorfose de “An American Werewolf in London”, de 1981. Como diriam os americanos: “CGI Free”.

"Raposa": o meu corpo, a minha experiência

Hugo Gomes, 16.07.19

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Partimos novamente para a docuficção portuguesa e do prolongado conflito interno da nossa produção cinematográfica. Se por um lado, este mesmo subgénero orienta-se como um facilitismo a muitos cineastas (sobretudo jovens) para integrar os convívios do Cinema Português da “elite”, por outro é o processo criativo que desafia o limite da ficção e do documentário pondo à prova o nosso imaginário e ao mesmo tempo ceticismo quanto à falsidade da nossa veia ficcional.

A “Raposa” insere-se na segunda opção, com a realizadora Leonor Noivo em cumplicidade com a atriz Patrícia Guerreiro (“Quem és Tu?”, “Alice”) a incorporar uma figura / personagem com a qual se debaterá com ela própria, ao mesmo tempo com a canonização do formato. Persona, essa, que chamaremos de Marta, uma anorética que disponibiliza-se em convidar o espectador para o seu incómodo mundo de constante racionamento.

Há um sentimento tremendo de culpa quando estou debaixo de água quente e que me sabe bem. É como se eu não merecesse esse prazer que é sentir água quente na pele“, o senso de mártir, repudia pelo bem-estar e auto-destruição do seu próprio corpo. É assim que “chocamos” com esta conversão, a capa que a atriz veste em prol da experiência de ramo. E por mais que sentimos este quotidiano que retrata o desespero existencial desta condição, a verdade é que o feito de “Raposa” é nos fazer acreditar nesta camuflagem, restaurando a fé na atuação e no método com que a atriz subjuga-se em nome da arte.

Leonor Noivo é a sua parceira de crime, decompondo um filme em 16mm maioritariamente estruturado por planos fechados, de ponto-de-vista ou grande planos sufocantes do seu corpo em desistência com a anorexia. Da mesma forma que a primeira cena do filme simboliza – um baú metodicamente organizado e o voz-off do diálogo entre estas duas mulheres, espelhando o universo meta que iremos penetrar – “Raposa” é um experiência que debate sobre os limites da ficção e do documental, do real e do encenado, do artista e da sua personagem.

Disney canibal de memórias fartas

Hugo Gomes, 12.07.19

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Estão a ver aquele filme de animação de 1994 com o selo Disney que conquistou uma geração, para além do grande êxito de bilheteira que se tornou? Estão? Pois, fiquem com ele bem juntinho ao coração, porque esta "modernice", aliás objeto oportunista, é somente fogo-de-vista. A Disney e o seu constante ato de canibalismo.

Israel e o "exército mais moral do Mundo" são convocados para um teste de decência

Hugo Gomes, 07.07.19

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"É ultrajante ver artistas israelitas a contribuir para a incitação da geração mais jovem contra o exército mais moral de todo o mundo, tudo sob o disfarce de arte".

Foi desta maneira que a ministra da Cultura e Artes israelita Miri Regev apelou ao boicote de "Foxtrot", a segunda longa de Samuel Maoz, realizador celebrizado com "Libano" (2009), que levava todo o enredo no interior de um tanque durante a Guerra do Líbano e atingiu os palmarés máximos do mais antigo dos festivais de cinema, Veneza. Soando como um filme de cerco concentrado num teor altamente politizado, "Libano" recorria a um reflexo entre as morais doutrinadas com as instintivas dos militares em missão. São as fragilidades que facilmente poderíamos atribuir aos comuns dos mortais, mas nunca a quem supostamente deve resolver os conflitos bélicos. Um jeito de crítica acentuada numa contemplação no seu próprio sermão que é replicada em "Foxtrot" na dor com que uma família de Telavive terá de lidar após lhe ser revelada a morte do filho, que cumpria serviço militar num posto fronteiriço.

O que está agora em questão? Não é só a pregação da ética e a sua desconstrução nos soldados israelitas que são contagiados pelas suas "aventuras" no Líbano. A própria essência dos espaços limitados é aqui, acima de tudo, induzida e teorizada. Não reduzindo a intriga a um só cenário, mas distorcendo o cenário à sua limitação. Também nunca evidenciamos o ecossistema dos familiares sofredores, expostos a um sistema burocrático e em constante serventia a uma Nação através de um funeral homogéneo. Ao invés disso é o lar que se transforma num cativeiro que aprisiona as réstias de esperança destes seres. A começar pelo foco do plano médio, dos olhares congelados pelo incrédulo momento de choque e os rabiscos de fundo que formam uma pitoresca arte abstrata pregada ao hall de entrada (uma das primeiras imagens que o espectador tem oportunidade de assistir). Tal como esse mesmo objeto de adorno, o luto é abstrato, inconformado e ilegível.

Com o funeral em ação do seu "caído", partimos para o segundo ato, o onirismo da sua fronteira. Saímos do domicílio para entrar numa outra “casa” - a casa da guarda. O posto militar é rodeado de culpa, de frustração, de desilusão quanto aos sonhos não cumpridos. Estes soldados não são mais que "crianças", singelos ignorantes na arte de viver, que serão testados numa prova de fabulação. O filme de cerco que estava a ser "Foxtrot" transforma-se: não é mais uma prática entre quatro paredes, é agora um beco sem saída quanto às projeções do futuro de cada um.

Com "o exército mais moral do mundo", a ministra quis fazer uma limpeza ética aos seus peões, mas a crítica encenada em "Foxtrot" não é dirigida apenas a uma nacionalidade. Existe aqui uma universalidade na sua mensagem e o mesmo se aplica ao destino trocista. O humor é negro e ácido, até porque a tragédia é isso mesmo ... uma questão de etimologia (trágico + comédia). E mais uma vez, por entre desertos e terras áridas onde bestas vindo do nada surgem da escuridão, a dança marca-se como um prenúncio de morte entre Israel e Líbano. Com a “Waltz with Bashir” (título da magnífica animação de 2008 de Ari Folman) e agora o foxtrot, que se afasta do alfabeto fonético para se materializar como um sincronizado movimento bélico.