23.1.19

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Morreu o cineasta e poeta Jonas Mekas, o "padrinho do cinema avant-garde norte-americano", uma das figuras mais importantes da história do cinema experimental. Tinha 96 anos.

 

De origem lituana, Jonas Mekas e o seu irmão, Adolfas Mekas, abandonaram o país em 1944. Prisioneiros de guerra e condenados a um campo de trabalhos forçados, ambos conseguiram fugir para Dinamarca, o que o levou, cinco anos depois, a emigrar para os EUA. Pouco tempo depois da chegada ao solo norte-americano, Mekas compra uma camara Bolex 16mm e inicia a produção de pequenos e íntimos filmes. Foi o inicio de uma aventura que se inseria numa vaga artística que surgia lentamente (com mimetização numa anterior vanguarda arthouse, datada na década de 20).

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Avançou-se na realização com Guns of the Trees em 1961, um drama experimental sobre uma mulher depressiva que tenta suicidar-se, ao mesmo tempo que estranhos tentam convence-la que a vida merece uma segunda oportunidade. Três anos depois, chega uma das obras mais célebres, The Brig, no qual Mekas tenta jogar com o ultrarrealismo num dos grandes dramas da História das forças armadas norte-americanas. Apesar do contexto diferir, The Brig é um filme com vários cordões intimistas e pessoais. Conquistou o Grande Prémio do Festival de Veneza.

 

Jonas Mekas alia-se a Andy Warhol para conceber a curta Award Presentation to Andy Warhol (1964), que serviu de porta direta para outra colaboração entre os dois, o qual gerou o mítico Empire (1965), documentário de 8 horas tendo como estrutura um plano em tempo real do Empire State Building.

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Entre outras obras, contam-se Diaries Notes and Sketches (1969), Birth of a Nation (1997), As I was Moving Ahead I saw Brief Glimpses of Beauty (2000), Letter from Greenpoint (2005), Sleepless Nights Stories (2011), Out-takes from the Life of a Happy Man (2012) e uma série de 365 curtas que disponibilizou na internet a partir de 2007.

 

Em 1954, os irmãos Mekas criam a revista Film Culture, a qual tornou-se em tempos, uma das mais respeitadas publicações de cinema nos EUA. Em 1958, Mekas torna-se colunista na Village Voice, numa secção intitulada Movie Journal. Passados quatro anos, funde a Cooperativa de Cineastas (Film-Makers' Cooperative) e sucessivamente a Cinemateca de Cineastas (Film-Makers' Cinematheque).

 

Vencedor de vários prémios e presença assídua nos festivais de cinema, Mekas esteve em Lisboa em 2009 para uma masterclass e retrospetiva da sua obra no DocLisboa. Era também conhecido pelos seus trabalhos de poesia e por dar aulas de cinema em estabelecimentos como o MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e a Universidade de Nova Iorque.

 

Jonas Mekas (1922 – 2019)

 

 


publicado por Hugo Gomes às 19:02
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20.1.19

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Andrew G. Vajna, também conhecido por Andy Vajna, conhecido como produtor executivo de filmes como Rambo, Terminator e Total Recall, faleceu aos 74 anos. A sua morte foi confirmada pelo Fundo de Cinema Húngaro, que o relembrou como uma “figura dominante da industria cinematográfica húngara e internacional”, assim como fundador do respetivo fundo.

Nascido a 1 de agosto de 1944, Vjana, em conjunto com o seu parceiro Mario Kassar, fundaram a Carolco, produtora responsável por blockbusters como Terminator 2: Judgment Day (Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento), os primeiros três Rambos e ainda alguns filmes de Paul Verhoeven como Total Recall (Desafio Total) e Basic Instinct (Instinto Fatal).

Para além disso, ainda produziu Angel Heart - Nas Portas do Inferno, DeepStar Six (Terror nas Profundidades), Evita, Judge Dredd (A Lei de Dread), BZ - Viagem Alucinante, Nixon e Die Hard: A Vingança. O seu último trabalho no ramo foi com Terminator: Salvation (Exterminador Implacável - A Salvação) e o ainda inédito School of Scumbags.

Andy Vajna foi ainda fundador e presidente do American Film Marketing Assn, tendo lançado o American Film Market.

Andy Vajna (1944 - 2019)

 


publicado por Hugo Gomes às 19:33
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19.1.19

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Ao virar da esquina …

 

Se a rua falasse, ela diria que Barry Jenkins avançou numa terceira longa-metragem com a confiança que não se encontrava na anterior e premiada obra, Moonlight. O registo tão Sundance é substituído por um ego artístico que contamina uma narrativa sob os tons de um cinema mimético e imagético, é a estética doce a imprimir emoções (há aqui qualquer coisa de Wong Kar-Wai dos tempos de In the Mood for Love), desde a música jazz que ecoa como recordações vitalícias no casal de personagens, cada um deles experienciando um romance que não se conforma nas omnipresenças de Hollywood. É um amor que remexe no trágico da sua natureza sociopolítica, tecendo com isso um mapa de uma América resumida em pontos fulcrais; a discriminação, a religiosidade fervorosa e o corrupto sistema que desfavorece minorias e incentiva um medo justificado pelas autoridades.

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Sim, Jenkins sustenta toda esta conversa de esquina num retrato crítico e sentido da sua própria comunidade, isto, em tempos em que a administração Trump fomenta ainda mais as desigualdades raciais e legitima a violência e ódio aos mesmos. If Beale Street Could Talk segue as pisadas contextuais de Moonlight (neste caso, transforma a década de 70 numa réplica social dos nossos tempos), mas avança em terrenos mais exóticos que as abordagens anteriores. Assistimos a um homem novo, determinado, sem o medo da pouca especificidade e das deambulações que providenciam como atalhos temporais. A criação de uma narrativa-mosaico sem as requisições do próprio conceito insertado em produções do género, porém, desafiando o espectador a “costurar” os destino destes mesmos protagonistas.

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Barry Jenkins devolve ao livro do escritor e ativista James Baldwin a sua “rua” original, 20 anos depois do francês Robert Guédiguian o ter deslocado para as ruas de Marselha. Mas não se trata somente de um caso de fidelidade, tudo deveu-se à criação de um filme sensível e curioso erguido pelos subtis talentos de Kiki Layne, Stephan James (completamente ignorado nesta award season) e Regina King, convertidos peões nestes quarteirões inspirados pela plasticidade. É sim, o melhor trabalho de um realizador disposto a abandonar a frieza da veracidade encenada no Cinema e aproxima-la à poética das imagens. Mesmo que o resultado não seja totalmente integrado nesse senso, filmes como If Beale Street Could Talk são raros na terras do Tio Sam.

Real.: Barry Jenkins / Int.: Kiki Layne, Stephan James, Regina King, Colman Domingo, Diego Luna, Ed Skrein, Pedro Pascal

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:45
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16.1.19

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Kaboom …

 

Poderíamos entrar aqui em mais umas quantas lengalengas sobre a rivalidade entre o cinema comercial nacional e o dito autoral … poderíamos, mas a esta altura do campeonato, até nós sentimos cansados de o invocar, muito mais em encontrar uma “ponta onde se pegue” num projeto como este Tiro e Queda. Aliás, o titulo condiz na perfeição para com a natureza deste … embrião a filme, um verdadeiro headshot à paciência do cinéfilo e um atentado ao gosto, pelo que se traduz segundo os cabecilhas desta tramoia, num consenso para o grande público.

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Com produção de Leonel Vieira, que nos últimos anos abandonou as faíscas que o poderiam guiar por caminhos mais dignos, hoje (levado da breca), cedido ao inóspito destas anormalidades, confia em Ramón De Los Santos (na sua primeira longa-metragem) para conduzir a dupla humorística de sucesso (Eduardo Madeira e Manuel Marques) num prolongado anúncio publicitário a uma companhia de seguros.

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Por entre o descarado "product placement", Tiro e Queda é a prova de fogo para qualquer espectador, desde a sua transladação da linguagem puramente televisiva (e mesmo dentro dessa linguagem existem “dialetos” mais corajosos), até ao stand-up comedy falhado cujo humor (fácil, demasiado fácil) - possivelmente direcionado à caricatura - apenas ridiculariza o bom senso de quem acredita em milagres vindo destes ventos. Não se trata de ser enfadonho, nem é isso que está em causa na crítica de cinema, nem sequer neste filme. O problema é a sua inaptidão para a indústria portuguesa, sabendo que ela não existe. Porém, com “coisas” como esta, dificilmente existirão razões para a sua existência. No final, ficamos solidários para com a “personagem” de Óscar Branco: “afinal, somos uns cabeçudos aqui”. Haja paciência …

 

Real.: Ramón De Los Santos / Int.: Eduardo Madeira, Manuel Marques, Dinarte de Freitas, Carla Vasconcelos, Óscar Branco

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:00
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9.1.19
9.1.19

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O “Diabo” na Politica!

 

Depois de uma “economia para totós”, Adam McKay providencia algumas lições da politica norte-americana neste biopic costurado em severos tons de sarcasmo. E para quem viu The Big Short, não era de esperar outra coisa. Em Vice seguimos o percurso do mais notório dos vice-presidentes dos EUA, e segundos as “más-línguas” em tom de verdade, um dos mentores da “invasão do Iraque” e da grande mentira do seculo XXI, as armas de destruição massivas nunca encontradas em território de Saddam Hussein. Sim, esse mesmo, Dick Cheney. Vestindo essa pele de lobo sob vestes de cordeiro, Christian Bale em sacrifício físico e em plena capacidade de mimetismos é o “boneco” perfeito para esta analogia de McKay sobre os disfarces da presidência norte-americana.

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Em tempos de Trump e de uma politica constantemente descredibilizada, um filme como Vice vem servir como uma bandeja de pedagogias para mundanos, realçando o sabido sobre um dos episódios mais negros da História recente dos EUA e como George W. Bush, à luz dos ideais de Oliver Stone, era um mero fantoche de um enorme palco chamado Poder. Visto como um dos seus braços direitos, e quiçá, o grande punho do Governo, Cheney orquestrou todo um jogo de guerra em jeito de Dr. Estranho Amor, e Adam McKay seguiu o seu percurso de ascensão (o mais medíocre dos homens convertido no mais brilhante dos políticos), tentando prescrever os pecados morais desse mesmo ecossistema onde a maioria não tem lugar sob as decisões de poucos.

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Filme cínico que alterna a sua veia de cinebiografia de vista grossa para a award season com uma trocista crítica a esse mesmo subgénero (as difusas utilizações do “cartões”, a deslocação do “final feliz), Vice funciona como um Guia Politico para Totós, enquanto espelha o evidente, usufruindo de uma ambiguidade para desaguar num dos mais ingénuos gestos de maniqueísmo (como se costuma dizer: “quem vê caras não vê corações”). Por um lado é a denuncia de caracter, as más índoles que apoiam a constituição e preenchem lugares no Parlamento, elementos caros para um filme no fundo "chico-esperto" que se orienta por sósias instrumentais (mesmo que se note o esforço de Bale em rasgar a sua figura-cópia).

Real.: Adam McKay / Int.: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Alison Pill, Eddie Marsan, Tyler Perry

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5/10
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publicado por Hugo Gomes às 00:12
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2.1.19

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ROMA foi escolhido como filme do ano pela OFCS (Sociedade de Críticos Online), a qual o Cinematograficamente Falando … integra. Para além do cobiçado estatuto, o regresso de Alfonso Cuarón ao México foi ainda distinguido com os prémios de Melhor Realizador, Filme de Língua Estrangeira e Fotografia.

 

Quanto às interpretações, Ethan Hawke saiu a ganhar na categoria principal masculina em First Reformed, de Paul Schrader, e Toni Collette como atriz em Hereditary. Nas categorias secundárias, Michael B. Jordan (Black Panther) e Regina King (If Beale Street Could Talk) foram os premiados.

 

A destacar ainda prémios especiais atribuídos a Ryan Coogler pela direção de Black Panther e à cidade de Oakland por acolher e gerar algumas das relevantes obras de cariz social e racial nos EUA, como Blindspotting e Sorry to Bother You.

 

MELHOR FILME

Roma

 

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO

Spider-Man: Into the Spider-Verse

 

MELHOR REALIZADOR

Alfonso Cuarón - Roma

 

MELHOR ATOR

Ethan Hawke - First Reformed

 

MELHOR ATRIZ

Toni Collette - Hereditary

 

MELHOR ATOR SECUNDÁRIO

Michael B. Jordan - Black Panther

 

MELHOR ATRIZ SECUNDÁRIA

Regina King - If Beale Street Could Talk

 

MELHOR ARGUMENTO ORIGINAL

Paul Schrader - First Reformed

 

MELHOR ARGUMENTO ADAPTADO

Barry Jenkins - If Beale Street Could Talk

 

MELHOR EDIÇÃO

Eddie Hamilton - Mission: Impossible - Fallout

 

MELHOR FOTOGRAFIA

Alfonso Cuarón - Roma

 

MELHOR BANDA-SONORA ORIGINAL

Nicholas Britell - If Beale Street Could Talk

 

MELHOR PRIMEIRO FILME

Ari Aster - Hereditary

 

MELHOR FILME DE LÍNGUA ESTRANGEIRA

Roma

 

MELHOR DOCUMENTÁRIO

Won't You Be My Neighbor?

 

PRÉMIOS TÉCNICOS

Annihilation – Efeitos Visuais

Black Panther – Guarda-Roupa

Mission: Impossible - Fallout – Coordenação de Stunts

A Quiet Place - Som

A Star Is Born – Músicas Originais

 

TOP 11

  1. Roma
  2. BlacKkKlansman
  3. If Beale Street Could Talk
  4. First Reformed
  5. The Favourite
  6. You Were Never Really Here
  7. Annihilation
  8. Eighth Grade
  9. Hereditary
  10. A Star Is Born
  11. Suspiria

 

PRÉMIO CARREIRA

Roger Deakins

Spike Lee

Rita Moreno

Robert Redford

Agnès Varda

 


publicado por Hugo Gomes às 13:38
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O site C7nema (aqui) revelou a sua lista de melhores do ano, tendo como primeiro lugar do pódio a sensação da Netflix, ROMA. Em segundo lugar ficou a obra de terror Hereditary e Phantom Thread finaliza o top. Nenhuma obra portuguesa figura a lista.

 

TOP 10

1) ROMA

2) Hereditary (Hereditário)

3) Phantom Thread (A Linha Fantasma)

4) You Were Really Here (Nunca Estiveste Aqui)

5) First Reformed (No Coração na Escuridão)

6) Jusqu’à la Garde (Custódia Partilhada)

7) Florida Project

8) Cold War

9) BlackKklansman

10) Call Me By Your Name (Chama-me Pelo teu Nome)

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 13:09
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