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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Assédio: Bertolucci filmou um filme fora do seu tempo

Hugo Gomes, 28.11.18

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Depois de Beleza Roubada (1996), Bertolucci avançou para a história original de James Lasdun que aborda as questões dúbias de uma exilada.

O cineasta altera, em consolidação com a escrita da também realizadora Clare Peploe, nacionalidades e ambientes estabelecidos pela imaginação de Lasdun. Enquanto o escritor centrava numa latina que sobrevivia em Londres, L’Assedio apostava numa queniana, interpretada por Thandie Newton, que tenta a sua sorte em Itália, dividindo os seus dias entre a escola médica (uma licenciatura que faz com esforço e dedicação) e do trabalho-a-dias na casa de um pianista (David Thewlis). Quando o artista/patrão começa a interessar-se amorosamente pela rapariga, esta fica dividida pela vida que optou e pelo marido deixado no continente africano, um prisioneiro político. E a partir daí surge uma relação de persistência, desejo e sobretudo, ambiguidade.

Originalmente tido como um projeto televisivo, em L’Assedio o realizador prezou numa intriga salientava o poder da narrativa imagética do que a imperatividade dos diálogos. Como o próprio indicava, após uma série de grandes produções, era o seu desejo conceber um filme como uma “partitura musical”. A crítica dividiu-se entre esta sua decisão de narração, mas elogiaram sobretudo as panorâmicas que centravam a ação numa Roma em ruínas (nos arredores da famosa Piazza di Spagna) e no apartamento onde o poeta e dramaturgo Gabriele D'Annunzio escreveu um dos seus romances mais famosos - Il Piacere.

Atualmente, é visto como um dos filmes mais desprezados da carreira do realizador (possivelmente uma obra que não sobrevive ao teste #metoo de hoje) que na altura se esforçava para o filmar. Bertolucci o rodou sob tamanha dor, sendo que pouco depois do fim das filmagens teve que ser submetido a uma cirurgia a uma hérnia discal. Curiosamente, para o realizador brasileiro Fernando Meirelles, que assumiu L’Assedio ser um dos filmes prediletos, declarou como uma das influências técnicas para o seu Cidade de Deus.

 

Koreeda: O japonês de primeira linha

Hugo Gomes, 22.11.18

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Numa conversa com o Hirokazu Koreeda, o confrontei com a atualidade do cinema nipónico, potência de outrora, hoje reduzido a todo um mercado subjugado à cultura Otaku e a protótipos de formatos ocidentais: “Como vê a industria de cinema no Japão atualmente?”. A resposta, foi de tudo lúcido, sem receio algum de represálias pelos seus conterrâneos.

Está constantemente a piorar. Algo que tenho percebido é que existem cada vez menos participantes japoneses em eventos como Cannes. Há cinquenta anos atrás existiam mais cineastas independentes e distribuidores que gostariam de trabalhar com eles. Atualmente, os grandes estúdios têm uma visão muito limitada e apostam quase exclusivamente no mercado interno. Olhando para o lado independente, encontramos uma vaga talentosa, mas também ela a decrescer devido a isso mesmo, o pouco interesse no mercado japonês. Julgo que o Japão está a tornar-se cada vez mais fechado e isso é algo que devemos impedir e atuar.”

Esta atitude advém do seu jeito observacional, Hirokazu Koreeda surgiu do documentário televisivo e sobretudo da reportagem, é hoje um dos cineastas mais valorizados do Cinema Japonês, se não o principal autor dessa mesma industria. Mas sua corrente enquanto observador do Mundo leva a que os seus filmes interpolam numa espécie de retrato/crítico social, o desvendar de uma Japão longe das vendidas canônes a ocidentais, e um cariz autoral com veia encriptada numa linguagem bastante europeia.

A minha conversa com o realizador decorreu numa das residenciais de Cannes, durante o Festival que o cineasta iria conquistar a tão Palma de Ouro, prémio que não fora atribuído a uma obra japonesa desde 1997, onde Shohei Imamura partilhou o lugar com o iraniano Abbas Kiarostami. Infelizmente, o filme de Kiarostami, O Sabor da Cereja, prevaleceu na memória dos cinéfilos de todo o Mundo, a Enguia de Imamura, restringiu a nichos, sem com isto desvalorizando o filme em si. Koreeda consagra-se então como o realizador de primeira linha, a Palma vem confirmar isso, porque a sua carreira cinematográfica, iniciada com Maboroshi (1995), tem tornar-se numa referência para com o panorama cinematográfico nipónico. De um lado, existe no seu cinema um invocar de gestos passados do Cinema do Japão, passando, evidentemente, pela sensibilidade de Yasujiro Ozu, e como o próprio sugere nesta mesma conversa, Mikio Naruse e Nagisa Oshima.

Mas ao mesmo tempo, Koreeda era o que faltava nessa indústria, uma compilação das tendências europeias, traduzindo-as num registo nacional. Por outras palavras, as histórias condensadas pelo realizador, que tão bem transpiram a sociedade japonesa, tendo como foco uma desconstrução da sua natureza e sociedade, proclamando o moderno ainda invisível para o Mundo afora, são de uma linguagem universal para com os demais. A prova encontrou-se no final da apresentação da sua última obra, o triunfante Shoplifters, o qual contexto teve a conversa acima referida. Projetado no Grand Lumiere Theatre, a sessão termina sobre um forte aplauso por parte do público. Em sala, a atriz australiana Cate Blanchett, presidente do júri desta seleção, não consegue esconder as suas lágrimas, a câmara capta o momento … o momento em que a mais importante membro dos jurados emociona perante um filme de uma realidade distante.

A partir deste momento, tendo arrecadado ótimas críticas e apresentando-se nas comités de críticos como o favorito ao prémio principal, o que veio a confirmar poucos dias depois, Koreeda sai-se vitorioso e sem o descanso algum parte para a sua primeiro obra internacional, onde irá trabalhar com atores como a francesa Catherine DeNeuve e o norte-americano Ethan Hawke, numa altura de holofote graças ao seu desempenho com First Reformed (de Paul Schradder).

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O frágil som da alma

Hugo Gomes, 18.11.18

46508138_10212775043547811_3905543852517228544_o.jHoje presenciei e participei num workshop de performance e a minha memória automaticamente me transportou para o esquecido … reformulando … muito esquecido Before We Go, de Jorge León. Filme-ensaio que passou em Lisboa, meio despercebido numa edição do Indielisboa, é um retrato do fim de vida, uma eutanásia aos nossos projetos e ambições, erguido sob o formato de uma prolongada performance. Os corpos decadentes em contraste com a jovialidade dos descendentes e os anjos, entidades que ecoam singles de Nick Cave, a pronunciarem uma segunda e derradeira juventude.

Um filme assombroso que nos toca delicadamente nas nossas respetivas carapaças, endurecidas mas não imunes à fragmentação. Somos humanos porque sentimos, e sentimos porque somos humanos.

Há cinco anos que encontrei o meu lugar ...

Hugo Gomes, 16.11.18

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Cinco anos passam e nem sempre passam furtivamente, mas ao lidar com certos fantasmas apercebo dos sacrifícios cometidos, aqueles que só uma pessoa apenas fez e faz por mim.

Penso desculpa por estar a ser críptico. Não quero me expor a nu.

Quanto à foto, Visita ou Memórias e Confissões de Manoel de Oliveira, numa das cenas chaves para o filme, assim como para a minha "persona".

 

Uma lágrima para Koreeda

Hugo Gomes, 12.11.18

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Na obra de Hirokazu Koreeda assim como no seu recente Shoplifters, em particular, a palavra-chave encontra é LÁGRIMA. Aquele vestígio de sentimento que guardamos com a maior das reservas até ser libertada após as desamarras dos nossos passivos demónios. Uma. Basta apenas uma só, que dita toda uma costura de subtileza e sensibilidade para com o retrato concebido de um Japão fora dos canónicos ficcionais de hoje. E é essa lágrima, tida como dentro [nas personagens] e igualmente de fora [no espectador] que nos encarrega de guardá-la com a maior das confidências.

Suspirando por grandiloquências

Hugo Gomes, 05.11.18

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Luca Guadagnino quis chocar, referencia os óbvios desse universo, mas ainda lhe falta muita papa. Aliás, Suspiria, a sua visão, é um filme que condensa todo esse desejo para providenciar o prolixo e sobretudo a falta de estrutura narrativa. É um objeto de camadas gordurosas, o que resulta num exercício de estilo ocasional e uma trapalhona mescla por vezes. Entre o amor e o ódio, Guadagnino ficou-se pelo marketing e o subliminar gesto politizado.

"Um filme a sério" by Orson Welles

Hugo Gomes, 02.11.18

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"(...) teremos o nosso filme. Um filme a sério!" Ver The Other Side of the Wind neste momento é desbravar um espelho infinito, um filme dentro de um filme dentro de outro filme, a premonição de um futuro ou as réstias autobiográficas que estão depositadas nesta prolongada entropia (a desordem e transforma-se numa ordem). O filme inacabado. O filme a sério como é gritado, ganhou forma, vida aliás, e transformou-se num monstro.

Dou graças por estar vivo e testemunhar este evento.