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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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O Halloween envelhecido

Hugo Gomes, 26.10.18

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Por mais que se escreva sobre Halloween, o original de Carpenter obviamente, há que afirmar que é um filme do seu tempo, e … agora vem a parte da controvérsia … deve estar lá contextualizado. Em relação a esta “prolongação” da "facaria", os primeiros minutos são cruciais para entendermos o quanto “datado” é este Halloween. É que após anos e anos de investigação médica conclui-se que “Michael Myers é puro mal”, ou seja estamos aqui escancarados num autêntico atentado à inteligência do espectador, muito mais tendo em conta que vivemos num mundo-Trump, onde o maniqueísmo primário é servido como reação à lá Pavlov. Obviamente que jogamos por entre uma comédia involuntária, bafienta para com os já conhecidos códigos do slasher movie onde só o final parece redimir, mas encontra-se longe de salvar um filme sentenciado à pena de morte. Depois disto, o tão infamado remake de Rob Zombie possui mais dimensão psicológica. Quanto a Carpenter, o facto de aprovar isto, nota-se obviamente que tem contas para pagar.

O luto que falta!

Hugo Gomes, 22.10.18

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Rithy Panh prossegue na sua demanda pessoal e igualmente identitária de um Camboja que ousa em não ser esquecido, principalmente no seu registo cinematográfico. Depois de “The Missing Picture” e “Exil”, o realizador retorna às suas histórias pessoais para exorcizar o “Karma pesado do Camboja”, os horrores cometidos por um regime intolerante e ditatorial e os testemunhos (para além do seu) que perpetuam o fantasmagórico tecido da ocultação.

São relatos impressionantes e raros, novamente sublinhados pela insaciável busca do autor em conduzir toda uma memória em imagens, que aqui não faltam. Existe a criação dessas, nem que seja pelo diálogo direto da fotografia, as únicas provas de vidas passadas e obliteradas. São pessoas exclusivamente para serem “espancadas e deitadas foras” (o termo segregativo de Vay Tchaol), prisioneiros de quotidianos forçados que as reduzem a objetos viventes, arrastados por uma automatizada noção de sobrevivência (os avisos quanto à necessidade de “comer carne para sobreviver” que levam a não intencionais atos de canibalismo) e contidos aos seus “mundinhos” de miséria (quando o sal se torna a traição de um grupo de subsistência). Elementos que vão contaminando a poesia atentada de Panh que avança em paralelo por cemitérios sem dono, ao encontro de espíritos condenados a uma eternidade em vão. E por entre as florestas, que o próprio evidencia neste documento, habitadas por almas violentadas, as árvores sangram, as mediums choram pelos seus entes queridos e as máscaras confundem cada vez mais com a vegetação.

Lutando com as imagens, continuo a chorar”. “Graves without a Name” é um objeto pessoal, sentido e vivido, e com isso, não desfazendo a sua devoção pelo cinema, Rithy Panh vai além do simples relato, vai atrás da imagem que possa fazer jus a tais palavras. Felizmente, visto que falamos de realizadores vinculados às suas causas e História, Panh não é um Wang Bing, evita a sua passividade nua e aufere dignidade ao seu ativismo.

“Tirei tantas imagens para me esquecer que estava morto”

A esperança está na nova geração

Hugo Gomes, 21.10.18

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De Michael Moore aprecio o seu humor, até porque nunca o considerei um sujeito muito neutro (Sicko é um grande exemplo disso), mas em Fahrenheit 11/9, possivelmente, deparei-me com o seu filme mais ambíguo e pessimista.

Contudo, encontrei réstias de esperança na sua "América" que tão bem refletem o resto do mundo. Simplesmente, porque estes ciclos de extremismos e de ódios são apenas isso ... ciclos, e tal como Orwell escrevia no seu 1984 - "A esperança está nos proles" - eu readapto para a "a esperança está nos ‘miúdos’". Ao ver jovens a interessar-se na politica e nas questões sociais com tamanha compreensão e Humanidade me faz pensar que poderemos até contar com um futuro risonho, basta simplesmente que as gerações mais antigas, neste momento os DDT da Vida (Donos Disto Tudo), deixem de existir e “rezar” para que as suas ideologias do “arco da velha” não se transmitem para os descendentes. Enfim, são esses novos que serão num futuro próximo melhores seres humanos que os anteriores (refiro aos mais antigos), sublinhando sobretudo a minha geração o qual ainda testemunho resíduos de ódio irracional e extremismos sem pingo de sobriedade e com absoluta compostura no patriarcado.

Não sou de comentar politicas nas redes sociais (visto que isto anda tudo saturado), faço apenas o apelo a que estes ‘rebentos’ resolvam a tempo as merdas que nós cometemos e que continuamos a cometer.

Pelas fronteiras do vazio!

Hugo Gomes, 21.10.18

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Encaramos como poesia abstrata um homem moldavo [Kolya] que vai ao encontro dos fragmentos de uma antiga nação de forma a promover uma nacionalidade inexistente (Transnístria). Extinção, um dos mais recentes trabalhos de Salomé Lamas (“El Dorado XXI”), depara-se com questões identitárias para se envolver em elementos tão precisos na filmografia da realizadora – os “não-locais”, as ditas “terras de ninguém” – ou seguindo as condutas do cineasta e poeta F.J. Ossang, “o Cinema parte de territórios e de como podemos distorcer essas fronteiras”. Mas essa inteiração de distorção da nossa geografia ou despir o reconhecível com o irreconhecível, parece materializar-se com os dilemas de uma URSS extinta, porém, de espírito assombrado e ansioso por uma silenciosa ressurreição.

Geopolíticas à parte, Salomé Lamas evidencia investigação no terreno e de forma a conduzir-se fora dos formatos estruturais do documentário, encontra no eclético a sua solução. O resultado é um ensaio, um mero artifício visual que desapega do seu corpus de estudo e que abandona, em certa parte, a coerência do seu discurso. Assim sendo, "Extinção" exibe a criatividade do olhar, o reencontro com a ferrugem e a ruína da paisagem captada para metaforizar a decadência de um Império, ao mesmo tempo que adquire a audácia de seguir em fronte a uma investigação nas sombras. Sim, entendemos perfeitamente onde Lamas quer ir e atingir, mas o rodopiante embelezamento leva-nos à instalação acima de uma mostra do seu curso empírico. Continuando então a persistir na alegoria do discurso ao invés da natureza deste, ao perceber que por vezes as imagens operam de maneira autónoma a esse registo (ao contrário do estruturalismo de muitas das vagas de 20 e 60, Salomé Lamas tenta lançar o visual como cúmplice de um discurso).

Infelizmente, “Extinção” prolonga uma passividade que nesta altura do campeonato não prevíamos em Salomé Lamas. Enfim, uma proposta entendida entrelinhas, cuja beleza estética não faz jus à pesquisa elaborada. Que pouca resposta nos dá, mas, mais que tudo, menos perguntas incentiva.

Espaço ... o último sentimento

Hugo Gomes, 19.10.18

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Será que precisávamos de um filme sobre os “inigualáveis” feitos de Neil Armstrong, a sua odisseia até à Lua que culminou no tão imortalizado “um pequeno passo para um homem, um grande passo para a Humanidade”? De biopics formatados e filmes glorificadores até nós andamos saturados perante uma seleção homogénea e de caráter propagandista (diversas vezes), que nos levam a questionar o porquê da existência deste tipo de produções. Para tal, atirávamos de cara à descrição simplista e incisiva de Quentin Tarantino, na qual dizia que as cinebiografias são “desculpa para atores ‘paparem’ Óscares”. Neste caso, salienta-se que Ryan Gosling está longe da cobiçada estatueta de interpretação e, em certo ponto, aleluia por isso pois em “First Man” prevalece um filme sobre um estudo de uma persona e não a mera esquematização do “aventurado” astronauta.

A trajetória do quarto filme de Damien Chazelle segue em sentido inverso àquilo que poderemos prescrever num projeto como este, referindo sobretudo o luto, o conflito em que a obra persiste, deixando o memorável feito para eixos secundários. Sem querendo com isto assumir uma variação de “The Right Stuff – Os Eleitos” (os bastidores da NASA a prolongam-se como enquadrantes da personalidade), mas “First Man” (“O Primeiro Homem na Lua”) inicia com um homem determinado a deixar a sua marca para automaticamente se converter na narrativa de um ser solitário que se refugia ao abrigo das estrelas, cercado pelos sentimentos que nem o próprio compreende.

Nisto, eis um filme que deixa transparecer uma camada de frieza, porém, existem sentimentos nesta gélida carapaça e é aí que a inexpressividade de Gosling embate como uma reação física a essas questões semióticas. Possivelmente o filme tenta encontrar um meio termo nessa demanda intimista, de forma a tornar-se perceptível aos demais mortais e através dessa conciliação. “First Man” prolonga-se para além da sua duração necessária, recorre a “maliquices” (o nosso “carinhoso” adjetivo para aspirações a Malick) no seu registo de felicidades familiares (o persistir nos movimentos curvais da câmara e das interações captadas pelos diferentes membros) ou nas recordações-flashbacks de modo a situar o espectador mais distraído. Sim, há aqui todo um nervosismo em narrar a biografia de um “herói” sob um diferente prisma e nisso enfraquecemos uma obra tecida com o tamanho detalhe, quer pré, sob e pós. Há uma investigação que dá frutos, Damien Chazelle e a sua equipa aventuram-se e desventuram-se na biografia pessoal de Neil Armstrong, escrita pelo jornalista James R. Hansen, bem como uma pesquisa autodidata em compreender para depois construir um arquétipo do “verdadeiro” Neil.

O resultado está à vista e não é preciso qualquer telescópio para o ver; a história de um homem que evita o contato, sobretudo afetivo, de forma a tentar decifrar o desconhecido inerente, o pesar que sente e que dificilmente reage. A fórmula contida que encontra na Lua, a isolação como um Robinson Crusoé das estrelas, como a maior das metáforas (e aqui não estamos a julgar quem acredita ou não em tamanha expedição, o que interessa é a força da ficção no seu território simbólico). O último plano é a força disso, desse afeto negado pela falta de apreensão interior.

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Todavia, se em “First Man” deparamos com essa instrumentalização da personalidade de Armstrong, é-nos impossível não falar da composição estrutural desta odisseia pelo espaço, ou, a sua tentativa de sê-lo. Ao contrário de recentes incursões espaciais como “Interstellar” ou “Gravity”, é no filme de Damien Chazelle que deparamos com a fenomenologia da viagem, alicerçada sobretudo na edição, assim como o jovem realizador havia executado num dos trabalhos mais elogiados (“Whiplash”). Ao contrário das batidas sentidas com a frustração e ambição do protagonista do filme de 2014, somos agressivamente “acariciados” com uma câmara refém da sua cápsula, sensível para qualquer movimento induzido pelo dispositivo cénico e com isso, a capacidade de transmissão sensorial.

Diríamos que “The First Man” é um jogo de sensações, orquestrado, não só com o auxílio da edição visual, mas da própria sonoplastia. O aço que tirita, aqueles parafusos que parecem ganhar vida através de emudecidos rugidos, o som ambiente que se reduz à inexistência, a respiração ofegante de Gosling, sentido em embate com o limite do seu capacete. O “Ground Control to Major Tom”, da canção “Space Oddity” de David Bowie ( não está aqui, mas é como estivesse, é a nossa memória a pregar partidas, porque neste momento lado-a-lado com este Neil na sua preparação à viagem e não fora do ecrã a observá-lo como um objeto de exposição. É a maravilha do som, a sua mistura que ecoa na sala de projeção, apenas interrompida, em alguns casos, pelas doces melodias de Justin Hurwitz (partitura suave e de acordes hollywoodianos). Enfim, é a obra que se confunde como uma viagem, aliás, duas, o íntimo e o físico, mas só uma torna-se crucial para este homem, personagem e sobretudo espectador.

Por isso, deixem-me defender o Damien Chazelle (que tão crucificado fora pela incompreensão à volta de “La La Land”). Deixem-me sublinhar o seu nome como um dos jovens mais talentosos de Hollywood na atualidade. Simplesmente deixem-me, porque o ‘moço’ tem também uma grande viagem a fazer.

Todos desejamos ser "felizes como Lázaro". Uma conversa com Alice Rohrwacher

Hugo Gomes, 15.10.18

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Lazzaro Felice (2018)

Podemos ser todos felizes como Lázaro? A personagem, encarnada com total doçura por Adriano Tardiolo, é o pedestre de uma Itália convencida por uma ilusão, um saudosismo que o impede de olhar para o futuro e renascer das suas anteriores cinzas.

Por outras palavras, é a perspetiva de alguém que entende o confuso espírito do seu país. Alice Rohrwacher, atriz que tem se aventurado na realização, que com esta sua terceira longa-metragem confirma a sua posição como uma das mais pessoais cineastas de Itália. “Lazzaro Felice” é acima de tudo um conto sobre os estilhaços de uma Itália em crise existencial.

Falei com a realizadora sobre o seu filme, as referências e os seus sentimentos enquanto mulher no Cinema.

Em “Lazzaro Felice” deparamos com um filme tão próprio de si, assim como saudosista aos imensos mestres italianos, desde Ettore Scola a Fellini, passando por Ermanno Olmi. Quer falar sobre as suas influências?

É muito difícil falar sobre as influências diretas, tudo soa inconscientemente. Porém, é ainda mais violento e doloroso falar do “maestro” [na altura desta conversa, Ermanno Olmi tinha falecido há uma semana]. Sinto uma grande tristeza ao pensar no que aconteceu. Tinha uma grande admiração pelo Ermanno.

O título serve-nos para entender a composição da personagem de Lázaro, há algo nele que faz pensar que “quanto mais ‘idiotas’ somos, mais felizes somos”. A dita felicidade é algo inatingível a quem raciona e reflete sobre a sua própria vida?

Eu penso que no filme, tal não é o ingrediente-chave para a felicidade individual, possivelmente uma tentativa de atingir a felicidade coletiva, o qual percebemos ser impossível porque estas pessoas estão deslocadas dos seus sítios originais  Não diria que Lázaro seja feliz, diria antes que é sereno, o que faz com que a coisa acabe por não lhe correr bem.

Lázaro não é a solução, é a possibilidade de olhar para a inocência e lembrar-nos que ela existe nos seres humanos. Ou seja, é um memorando.

Em comparação com o seu “Le Meraviglie”, existe em “Lazzaro Felice” uma tendência de aproximação ao tradicional storytelling do que a narrativa docudrama do seu filme anterior. Contudo, em ambas as obras há como uma hibridez de tons, quer da fantasia, quer da mitologia algo histórica de Itália. Sem contar com a sempre presente crítica aos tempos modernos.

Não tenho a certeza que seja tão diferente do anterior, possivelmente a história seja na verdade, mas ambas as obras foram feitas pelas mesmas pessoas, eu e os meus colaboradores. Por isso, se tiver que comparar com o “Le Meraviglie”, diria que este “Lazzaro Felice” é mais livre de certa maneira, porque nos levou a aprofundar a história do protagonista e da sua inocência.

A ideia do realismo que combina com o folclore mágico deriva de dois elementos que constituem o núcleo da minha cultura- Itália – a nossa História, de certa maneira. Diria que a História e a Mitologia interceptam-se durante o tempo. Trata-se de um país com uma enorme quantidade de camadas na História. Por exemplo, é costume irmos a um posto dos correios e ao lado encontrarmos um túmulo de séculos passados ou monumentais ruínas. Tudo está misturado. Tudo está compactado.

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Alice Rohrwacher na rodagem de "Lazzaro Felice" (2018)

Mas devo dizer que há qualquer coisa de retrato da crise dos refugiados nesta sua “fábula”.

Vivemos num momento preciso da História e como tal desenvolvi este desejo de fazer um filme político decorrido em Itália, mas que possa ser identificado com a situação vivida em imensos países do Ocidente. Ou seja, quis abordar o receio e medo da vinda de outros e, claro, que o Cinema pode ser bastante direto, assim como expressivo e simbólico, sendo possível abordar histórias do nosso passado ou vindas diretamente da nossa imaginação e fazê-las comunicar com o nosso presente.

Tinha esta imagem que era o medo tido pelos migrantes, milhares que diariamente chegavam à Itália. Através disso, pensei nas possibilidades da migração ser sobretudo doméstica, do próprio país, o que não estava inteiramente longe da realidade italiana. Espero que com estas imagens de camponeses e agricultores limitados a um rio  – e da polícia perplexa, que os questiona “porque simplesmente não o atravessam" expresse esse medo vivido nos dias de hoje. Essa imagem tem como eco as imensas que abundam nos telejornais e jornais sobre os refugiados e as vagas migratórias. O Cinema é muita coisa e ser uma ferramenta política é uma delas.

Obviamente que na teoria isto seja tudo um conto negro, mas a iluminação trazida por Lázaro converte este filme politizado num conto de fadas alicerçado ao território espiritual.

Não é só em Lázaro que encaramos como um signo de uma Itália sem perceção do seu espaço, assim como na personagem de Tancredi, o filho da dinamarquesa, deparamos como uma alusão a um país decadente mas que nega essa mesma decadência.

Sim, em certa parte existe um simbolismo de Itália. Estamos a falar do filho de uma dinamarquesa, um rapaz de uma hereditariedade privilegiada que colapsa. Através desse mesmo colapso, perdendo os anteriores privilégios, tenta cortar as ligações de todas as pessoas que explorou. O símbolo aqui opera diferentemente em diversos níveis e o filho da dinamarquesa acaba por destruir todo um legado.

Mas falando em Tancredi, curiosamente, é o nome de uma personagem de “Il Gattopardo”, de Visconti. Há aqui algo mais que uma mera coincidência?

Sim, Tancredi é o nome da personagem de Alan Delon nesse filme, mas também é o nome de um cavaleiro francês cujos feitos são relembrados pelos cânticos dos trovantes em praças públicas. Foram essas glórias que levaram a Marquesa a batizar o seu filho mimado, mas infelizmente para ela, este é incapaz de lhe dar tais renomes.

Para Lázaro, o mistério do filme é ser um filme e não apenas um mistério. É simplesmente chamar as coisas pelos seus devidos nomes. São muitos precisas as referências, por que tal como sabemos, Lázaro é alguém que ressuscita e o local onde ele habita chama-se Inviolata. Tomamos a simplicidade como se tudo fosse explicado para crianças.

Em relação à Competição de Cannes? O facto de ser uma das três realizadoras integradas no certame, e atualmente a importância que é dada nessa representação.

Já estive 3 vezes em Cannes e sempre me perguntaram como é ser uma realizadora, uma mulher nesta indústria. Na última vez [“Le Meraviglie”], tal questão vinha normalmente de revistas femininas ou da imprensa cor-de-rosa, mas atualmente tornou-se, finalmente, numa pergunta séria. O festival começou a tratar o problema da representação feminina com seriedade.

As mulheres têm uma herança de 4 mil anos ou mais de abusos, opressão e marginalização. Era impossível estudarmos, ou sequer termos uma expressão própria. Por isso é importante, sobretudo do ponto de vista político, encarar o feminino com a devida seriedade.

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