Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"First Reformed" e a epifania do autor incompreendido

Hugo Gomes, 29.06.18

First-Reformed-Review.webp

Paul Schrader sempre fora estudado como um curioso caso isolado. Cinéfilos de gema e com profundos conhecimentos da natureza cinematográfica, por norma, nunca geram grandes cineastas e o invocado é exemplo disso. Por mais esforços que cometa (até mesmo o próprio admite), será relembrado no fim dos seus dias como o argumentista ao invés da sua carreira a solo, esta diversas vezes subestimada na indústria que insere.

Em todo o caso, Schrader é um "outsider'' duma Hollywood que não acredita em si própria, e os seus filmes [dirigidos] são a prova de uma total descrença no sistema como na emanada cinematografia. Contudo, eis que nos chega “First Reformed”, que diríamos ser o fim de uma dificultada maratona, uma corrida de resistência que culmina numa fadiga constante de um autor decepcionante perante os obstáculos que sucedem a (ainda) outros obstáculos. Provavelmente esta é a sua epifania, a desilusão ao tomar conta da figura, e esta projetada no destino da Humanidade por via da sua ferramenta mais íntima.

Sob o protagonismo envolvente de Ethan Hawke (possivelmente o seu papel mais visceral, inerentemente falando), “First Reformed” nos leva, como as palavras indica, a passos cuidadosos para uma igreja secular, o travelling de espera na passagem dos créditos iniciais nos transmite um efeito de reconhecimento perante o cenário que servirá mais que template da narrativa, uma aura fantasmagórica, a ponte invisível entre mortal e o divino imortal. Nela, Hawke, um “pároco” (reverendo Ernst Toller) que perdera o seu filho na Guerra, fustigado por uma angústia silenciosa somente tranquilizada pela fé pregada, ou sem rodeios, uma espécie de analgésico espiritual. Mas é ao encontro de um dos seus “cordeiros”, um ambientalista desesperado pela descrença na tão negligenciada humanidade, que Toller despertará para uma nova realidade, um fosso que parece interligar o seu luto que se revolta para com o estado das coisas que o rodeiam.

Por mais referências que encontremos neste espiritualismo mutilador, de Bresson a Ozu (passando por Dryer e Bergman), que transcrevem os planos e os movimentos destas personagens suicidas, é a autorreferência de Schrader que “First Reformed” triunfa como uma meta atingida. É o “Taxi Driver” do novo século, inserido num mundo no qual têm que partilhar com os imensos “rebentos” do mundialmente conceituado filme de Martin Scorsese (que o próprio Schrader escreveu). É a estrutura intacta a servir de fortalecimento a este grito de ajuda, tal como a igreja que assume -se como vetor narrativo, é a reconstituição moderna perante um “esqueleto” de outros tempos, assim, “First Reformed” sob um tremendo ar bafiento de ’70 (não com isto insinuar que o Cinema precisa diariamente de lufadas de ar fresco) ergue-se numa ousadia modernizada.

Enquanto “Taxi Driver” resumia aos grunhos e ao seu ativismo algo anárquico, esta nova chance de Paul Schrader remete-nos ao ativismo dos sábios. Impulsores divergentes, causas percorridas em iguais pisadas. É na descrença que a verdadeira fé é atingida, poderemos contar com isto num filme religioso, mas a crença não se baseia em teologias fundamentalistas, “First Reformed” olha para o mundo deixado por “Taxi Driver”, e o atualiza, refletindo-o numa dolorosa agonia. É a política, sob as agendas anti-trumpistas, fervorosamente renegando outras politizadas tarefas, como o ambientalismo a fugir dos panfletarismos Al Gore (possivelmente, e em certa parte, o mais sóbrio dos filmes ecológicos).

Não saindo da temática das causas, “First Reformed” liberta-se do filme-ficção para endurecer como a causa que Paul Schrader fervelhava no seu negro íntimo. E sob o reflexo das suas paralelas criações (First’ e Taxi’), eis a redenção encontrada de um autor que nunca se confirmou (até então).

Atenção, daqui fala um anterior cético (à imagem da descrença absoluta de Ethan Hawke) que, também graças à bênção divinal nos braços de Amanda Seyfried, tornou-se num crente. Devastador e destemido. Existem atualmente poucos filmes assim.

“Vamos falar sobre o teu futuro”

Hugo Gomes, 26.06.18

sicario-2-day-of-the-soldado-movie-Stills-1-e15215

Com Denis Villeneuve de fora, sem Emily Blunt e Jóhann Jóhannsson (este último por motivos fatídicos), a sequela de “Sicario” avança entre nós com algum ceticismo. Contudo, vale a pena salientar que este “Day of the Soldado” segue o mesmo registo acinzentado do original. Sublinhando mais uma vez – demasiado cinzento – inclusive para os nossos dias, cuja consciência política parece ter atingido tamanha sensibilidade.

O italiano Stefano Sollima é o novo mestre do leme, trocando uma guerra, anteriormente a máfia “cefalópode” em “Suburra” e na série “Gomorra” por um outro palco bélico –  o verdadeiro confronto armado oriundo do outro lado da fronteira – aproveitando com benefício toda a situação que se vive desta crise de migração ilegal mexicana e dos constantes escândalos fronteiriços da administração Trump. Mas vamos por partes quanto ao dito tom cinza neste prometido thriller de ação.

A primeira sequência tem de tudo para agradar uma certa fantasia trumpista, os terroristas islâmicos vindos da rota dos bad hombres e toda a consciência de um perigo real que cerca a tão “agraciada” América. Sim, é uma pertinência de ideias políticas bastante à direita, ou republicana tendo contexto o universo político norte-americano, é o mediatismo, o medo real ou irracional perante uma aproximação globalizada graças aos medias e a “cachoeira informativa” o qual deparamos constantemente. Através desse “cavalo de Tróia que arrasa os valores democratas, “Sicario” circula para uma outra via, a da militarização, percorrendo os bastidores; um desencantado “Doutor Estranho Amor” que vai “contagiando” o medo maniqueísta criado até então. Os “heroicos” americanos convertem-se nos verdadeiros catalisadores, sob o desejo de um mundo aos seus pés e de uma guerra iminente, incentivada por interesses políticos.

Sollima filma todo o percurso, uma não-discreta “invasão”, como se um filme de guerra tratasse, tão próximo daqueles exemplares decorridos no Golfo Pérsico ou das outras e inúmeras variações em solo árabes. Sim, já perceberam, “Sicario” é, em generalizada designação, um filme de guerra. O Soldado do título resume-se às soluções projetadas para um termino de um conflito imaginário, a Guerra como plano final como se materializa-se no popularizado provérbio de “combatendo o fogo com fogo”.

O realizador responde com confiança ao lugar deixado por Villeneuve (digam o que dizer, “Sicario” era o seu melhor filme), de mão firme nas sequências de ação e dos muitos zenits filmados com a graciosidade dos drones (a inovação e a possibilidade destes mesmo planos graças a este tipo de tecnológica). A realização, é sim, adaptativa aos maneirismos do original, porém, falta-lhe o toque à Michael Mann que o filme de 2015 concretizava com aprumo (mais Mann que muitos filmes do próprio Mann, como verificamos na pertinente cena do trânsito), e à banda sonora da autoria de Hildur Guðnadóttir, a ferocidade monstruosa de Jóhann Jóhannsson.

“Day of the Soldado'' é assim uma continuação esforçada em acompanhar o ritmo estabelecido, tecendo as diferentes ideologias em prol de um realismo teorizado, impondo questões e nunca respostas substantificadas. Se o início é pura urticária a democratas, com os reflexos das últimas demências de Eastwood, já o final encontra essa consolidação política, desde uma emotividade pedagógica que amolece as personagens, passando por momentos finais tenebrosos, negros e repescados a uma ambiguidade sem igual.

Sollima passou o teste de Hollywood, é lúcido que baste e com isso mexe e remexe no argumento de Taylor Sheridan (que vem provando ser melhor guionista do que realizador) com bravura e energia.

"Blue My Mind": a pequena "sereia"

Hugo Gomes, 20.06.18

bmm.jpg

Com os seus 15 anos feitos, Mia terá que lidar com as transformações do seu corpo perante a primeira vinda do período. Diríamos nós que é o “prato-de-cada-dia” de qualquer adolescente e que este “Blue My Mind”, a primeira longa-metragem da suíça Lisa Brühlmann, é mais um no vasto território dos coming-of-age. Todavia, as transformações que esta rapariga de olho azul terá que lidar são bem diferentes que aquelas vividas por jovens triviais. O seu corpo está a metamorfosear. Sim, nós sabemos, mas em algo que nem ela própria consegue explicar.

Em teoria, "Blue My Mind" lida com a transformação da criança em adulto, usufruindo dos elementos fantásticos como recorrentes metáforas materializadas. Nesse aspeto, Mia tem na sua própria consciência duas mudanças: a visível (o corpo como falamos); e a invisível (a questão existencial, afetiva e sobretudo sexual). O espectador é a testemunha silenciosa dessas mesmas “anomalias”, assistindo em direto da perceção da sua personagem, partilhando um segredo para com os demais. Brühlmann encontra, sim, uma maneira inteligente de dialogar com as crises de adolescentes, sensível com o universo feminino e com as suas complexidades, que em equação somatória com as “complicações adolescentes” nos levam à porta interdita da “juventude eterna”. Mesmo que esta abordagem careça de originalidade e furtividade, esta é uma obra dotada de perversidade, onde a realizadora cria uma ligação fenomenológica para com o espectador, que reconhece cada drama (mesmo diluído no campo do body horror) como seu.

Até porque serão as jovens raparigas desta geração as sirenas dos novos tempos, inteiradas numa sociedade de estéticas e de prazeres ao virar da página, o autorreconhecimento dos seus corpos e dos seus íntimos, tudo embalado no cinzento da ambiguidade (nesse sentido, apesar das similaridades, é um filme menos onírico que "The Lure", da polaca Agnieszka Smoczynska). Juntamos a jovialidade e a anarquia da atriz Luna Wedler como Mia, revelando-se na estrutura fortalecida deste retrato de passagens de estações.

Dancemos, porque a derrota é inevitável!

Hugo Gomes, 01.06.18

MV5BZTA1M2ExZDgtMGE2My00OTViLTljNmMtMmU3Yzk5YzNjOG

“Existe uma beleza triste na derrota”, Fernando Lopes numa das suas viradas a ator, neste caso, em uma presença num dos filmes de Bruno de Almeida [“The Lovebirds”], condensou toda uma obra a um singelo e sentido reparo. Foi nas recordações ao seu “Belarmino” que Lopes, envergado a personagem-tributo, falou-nos do boxe com uma “vivaça melancolia”, um fado essencial, mas destruidor da alma humana. Não é preciso ser pugilista para encarar o boxe como o mais romantizado dos desportos no cinema e Bruno de Almeida guardou para si tais signos para impor a sua investigação no projeto seguinte – “Bobby Cassidy” – um documentário por si vergado em melancolia e compaixão a “Belarmino”.

De boxe e pugilistas o seu novo filme nada tem, mas o desporto de “murraças” e “ganchos” é somente uma aura metaforizada neste “Cabaret Maxime”, o tango entre dois e o pesar do derrotado, não pelo ringue, mas pela vida, mais precisamente, as mudanças que o atingem. Porém, foi no exato filme que Fernando Lopes debitou tal citação, que Michael Imperioli, entre o quotidiano lisboeta, é encantado por uma das sereias da cidade, Ana Padrão. O encontro dos dois levará ao desfecho do filme-mosaico de 2007. O casal reencontra-se, ou diríamos antes, nós o reencontramos, agora envelhecidos e cansados. Ele, Imperioli, o gerente de um cabaret em vias de extinção, mas que resiste arduamente às “modernizações” da noite hedonista. Ela, Padrão, é agora uma “velha” estrela de palco, Stella (“que significa estrela”), perdida e sem norte, por entre o passado glorioso e o futuro incerto.

O casal “brilhante” de “The Lovebirds” é transformado agora em dois seres autodestrutivos que deambulam por entre um Cais do Sodré convertido a “não-lugar”. Atmosférico e sobretudo fascinado pelo seu próprio universo, Almeida assume-se como náufrago nestas andanças noturnas, por entre o veludo vermelho que compõe o pano do seu espetáculo e pelos novos freaks que se pavoneiam em iluminações-holofotes. São os circos dos novos tempos … correção … dos tempos passados. Se existe em “Cabaret Maxime” a apetência de recriar um biótopo que nos agarre enquanto espectadores, sem esquecer pelo meio as menções do cinema narrativa (storyteller como muitos gostam de “estrangeirar”), existe também uma melancolia derrotista que nos confronta, mais do que confortar (apesar de desejarmos que a nossa vida contenha as intervenções de John Ventimiglia). É deixar para trás os vestígios de épocas expiradas para prevalecer o modernismo ou o modismo de ocasião, temática que parece afrontar as divagações de Imperioli por entre a montra de bares e danceterias.

O grande senão destes convites irresistíveis por ambientes povoados de criaturas fora de horas é o fascínio em demasia de Bruno de Almeida na sua criação cénica – não continuando, sobretudo, essa experimentação sensorial sem cortes nem espaços para acolher a dita narrativa, completamente enfaixada em finais fáceis. Porque tal como acontece nos contos da noite, o fácil não é propriamente a palavra que nos acompanha nestas ruas da “amargura”.