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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Cinema Morreu porque Godard deixou de acreditar nele.

Hugo Gomes, 11.05.18

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“Porque estás triste?

Porque falas para mim com palavras e eu para ti com sentimentos.

Contigo não se pode ter uma conversa, tu nunca tens ideias, sempre sentimentos

Não é verdade, há ideias em sentimentos!”

Pierrot le Fou (Jean-Luc Godard, 1965)

 

… que poderá ser respondido com “a condição do Homem – pensar com as mãos” neste “Le livre d’image”, onde se confirma o cineasta franco-suíço como um Deus da Destruição, a destruição pelo seu próprio trabalho e pela própria ideologia. Enquanto no anterior “Adieu au langage” esse apetite dizimador era por si previsto no título, o abandono da ideia de Cinema, ou melhor, da linguagem cinematográfica (erro seu, visto que na destruição surge a criação e no filme galardoado em Cannes de 2014, encontramos uma linguagem na não-linguagem), com este novo trabalho, adivinha-se [especulação], portanto, um filme-testamento. E sob esse signo nasce uma lei termodinâmica, a entropia.

O caos, novamente em vigor para nos induzir uma das doutrinas mais antigas de Godard, o valor da imagem, quer desfeita, quer renegada (como a intervenção cruel à sequência de “Johnny Guitar”). Em sua execução, “Le livre d’image” funciona como literatura em estrofes, solicitando ao espectador a tarefa de atribuir simbolismo a toda esta desarrumação, o interpretarmos e o associarmos às nossas ideias e identidade. É um filme que nasce connosco, como também pode morrer connosco, e é essa razão porque a tristeza abala-nos. Godard já não pensa mais em Cinema, não pensa mais em imagens nem aufere carinho por estas, “rasga-as” e as enquadra desordenadamente em contexto nenhum.

O mesmo se aplica à sonoplastia, desde os trechos dos filmes recortados até ao seu monologo que o indicia num mundo aparte (“terrorismo é uma das melhores armas”). Sim, o debitar de pensamentos de um ativismo algo burguês sem ligações aparente que desvanece da mesma forma que as imagens … já disse o quanto maltratadas estão? Se sim, então não é demais repetir. A certa altura pode-se ler num dos intertítulos a palavra Remake, porta direta ao “refazer”, ao “reconstruir”, ao “refilmar”, ao “remontar”. Sim, é um remake, claro e possível de “The Three Disasters”, curta sua que integrou o filme triádico “3X3D”, a continuação de um ego sem fenomenologia, superior … arrogantemente superior.

Com isto me despeço com o sentimento: se o Cinema Morreu foi porque Godard simplesmente deixou de acreditar nele.

Luís Miguel Cintra e o mercado não é para velhos

Hugo Gomes, 09.05.18

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Luís Miguel Cintra no 71º Festival de Cannes

O mercado de trabalho para mim não existe. Não sei o que é. O mercado de trabalho é zero. Portanto, não interessa. O que existe de facto é o trabalho de ator, um trabalho que tem a ver com a própria personalidade. O material de trabalho é a nossa pessoa. Portanto, se a pessoa envelhece provavelmente tem um destino diferente. Mas vamos esperar o quê? Que os mais novos inventem personagens de velhos?  Não conhecem. Não têm conhecimento de como funciona um velho. Portanto, a imaginação deles não vai para velhos. Por isso temos de nos resignar, como em tudo na vida.”. Foram estas as palavras de Luís Miguel Cintra em Cannes, quando respondeu à minha questão sobre como é o mercado de trabalho de um ator a lidar com o envelhecimento.

O ator português marcou presença no Croisette para apresentar “Ilha dos Amores”, de Paulo Rocha, filme que regressou ao festival inserido na seção Cannes Classics da 71ª edição do Festival de Cannes. Sobre esse regresso, trinta e seis anos depois da estreia no festival, Cintra mostrou sensações mistas: “Tem que se pensar que este filme foi feito há trinta e tal anos, quase quarenta. Para mim isso significa uma distância – entre o dia de hoje e da exibição original do filme – de quase a minha vida inteira, da vida ativa, digamos. Portanto, tenho uma emoção negativa, por sentir que já acabou. Passaram estes anos, aproveitei o que pude aproveitar e esse é o sentimento que as pessoas têm quando envelhecem – e é um bocadinho chato. Por outro lado, tenho ao mesmo tempo um orgulho muito grande porque no meio do estado das artes, que é tão desesperante, no sentido que é tudo dominado pelo mercado, um filme como este funciona como uma pérola raríssima. 

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Eu e Luís Miguel Cintra no 71º Festival de Cannes

“Uma relação absolutamente sincera e um desejo profundo das pessoas que participaram naquilo, de quererem fazer uma coisa que nunca tinham visto feita, que não sabiam como se fazia e estavam a tentar com a confiança e respeito de que todos eram pessoas com valor; os diretores de fotografia, a música do Jorge Peixinho, os diálogos da Luísa Neto Jorge, os cenários da Cristina, os atores que estavam a representar. A própria figura do Wenceslau, um artista também, que escrevia livros, que era um escritor para além de ser um oficial da marinha. Depois estava-se a fazer uma coisa que partia da ideia do abandono da pátria (…) em busca de uma pátria ideal que não tinha a ver com nacionalismos, mas com o lugar da verdade ou o do coração, ou qualquer coisa desse género. Soa muito a coisas que foram espezinhadas durante muitos anos. Mas a gente continua a acreditar que a história continua. Que umas coisas acabam para começarem outras novas. Só agora mais velho consigo ter essa sensação. Por isso eu tiro daqui o proveito pessoal que me interessa. Não tenho nada a ver com produção, não tenho nada a ver com carreiras. Tem a ver com o gosto de ter feito uma coisa que era muito importante para nós e que fazíamos como algo que queríamos dar ao público”.

Visivelmente emocionado, Cintra não tem problemas em dizer que tem “pena de não ter ainda mais tempo para fazer ainda mais coisas” e que “tem a certeza que daqui para a frente” poderá fazer muito pouco. Ainda sim, mostra-se orgulhoso do seu último trabalho no Cinema: “Tenho muita honra em fazer figuração, uma passagem que não demora um minuto sequer, no filme do Sérgio Tréfaut que estreou  agora [“Raiva”]. Gosto muito do filme. Gosto muito das pessoas que estão no filme, que é fotografado por um velho, o Acácio. Um fotógrafo absolutamente genial com quem comecei; o primeiro filme que fiz tinha a fotografia do Acácio de Almeida, por isso quando o encontro tenho sempre uma ternura muito grande por ele. E fiquei contentíssimo em ver que ele fez uma fotografia tão linda para o filme do Sérgio que estreou agora no Indie. Colocam-me no lugar de ancião sábio. Eu disse que gostava de ser menos sábio“.

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Ilha dos Amores (Paulo Rocha, 1982)

O filme de Paulo Rocha foi exibido numa cópia recentemente restaurada pela Cinemateca Portuguesa-Museu do Cinema, que teve origem na digitalização 4K com wet gate de interpositivos de imagem e som em 35mm tirados num laboratório japonês em 1996. A correção de cor digital foi feita por La Cinemaquina usando como referência uma cópia de distribuição de 1982. O restauro digital da imagem foi feito pela IrmaLucia Efeitos Especiais.

Era uma vez ... em São Paulo

Hugo Gomes, 06.05.18

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Curiosamente, “As Boas Maneiras” entra em concordância com um outro filme estreado entre nós no mesmo ano, “Shape of the Water” (“A Forma da Água”), não pelos prémios recebidos (um foi o Óscar, o outro o Prémio de Júri de Locarno), mas pela intenção social explicita através do dispositivo-fábula. A criação de um imaginário fantástico ao serviço do mundo inserido e reconhecido do espectador, por palavras mais cômodas, uma profunda metáfora do real.

Esta comparação não fica por aí, ambos lidam com os seus monstros, literalmente falando, seres inadaptados de uma sociedade antagónica e hostil. Efeito que reflete no contraste entre as “monstruosidades” cometidas pelas criaturas (os gatos são nos dois casos, as vítimas desses instintos primários) para com a agressividade do meio que os envolve. Contudo, as comparações poderiam parar por aqui, mas o referido efeito-fabulação encontra-se presente com tamanha força, e nela expele o ridículo que o tutti-frutti de tons emanado poderia apresentar.

Enquanto num é a América discriminatória sob um diferente prisma, o outro é uma São Paulo emaranhada num registo fantástico (a fotografia de Rui Poças realça como condutor dessa virtude de fantasia),  o conto de fadas a tomar conta da grande cidade do Brasil. Porém, reconhecemos-o como um país distorcido e sobretudo verdadeiro para com essa mesma distorção. Trata-se da utopia entre o mundo realizado e o fabulado e o monstro, o menino-lobo digno de um folclore universal, fruto proibido de concepção herética, é a representação de uma sociedade que ousa em separar as divergências com tamanho pudor. Um Brasil onde cada um guarda o seu segredo, em compartimentos ocultos, em correntes quotidianas e em peregrinações noturnas, e esses mesmos segredos são passados como compromissos assumidos, um jeito anti-natura assim como as ditas “boas maneiras” são para com a natureza humana (a via de transformar os nossos comportamentos).

Marco Dutra e Juliana Rojas, a dupla que por si representa uma pequena fatia daquilo que poderemos apelidar de nova vaga do cinema de género brasileiro, compõem aqui, em sua espécie, uma sátira ao modelo Disney acomodada pelos valores do legado da Universal Pictures (os tumultos da população remete-nos ao imaginário transposto por essa Hollywood povoada por monstros clássicos). Os realizadores entendem sobretudo as nuances envergadas pelo trabalhado cinema de género, as respostas para estes fins instalados nas suas influências e não encarando a um género definido e isolado nas suas idiossincrasias.

Mas todo este registo tende a apresentar os seus cansaços, até porque “As Boas Maneiras” instala-se como uma perfeita referência a esse mesmo mundo e, assim, prevalece diversificado (ou “bom” esquizofrénico) até ao seu final. Porém, existe um veio que parece quebrar a narrativa da mesma forma que replica os atos temporais, um “evangelho bíblico” aludido , marcado pelo nascimento de um “messias” (novamente incompreendido). Nesse registo, notam-se dois filmes independentes congregados através de um momento musical. Infelizmente, dois filmes díspares em cumplicidade com enredos de bestas e bestialidades, de monstros e “boa educação”. Contudo, não serão mesmo estes elementos como o Brasil é hoje visto, dentro e fora?

Um barão à beira de um ataque de nervos

Hugo Gomes, 05.05.18

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Não deixem-se enganar pela estética plastificada digna de um quadro - “Zama” - a quarta longa-metragem da argentina Lucrecia Martel (que regressa após 9 anos de ausência) é um filme cruel para com o seu protagonista, o homónimo barão que cede à deterioração existencial e social perante os desejos longe de se cumprir.

É a espera que cai sob colossal peso na consciência da personagem encarnada por Daniel Giménez Cacho, respeitado oficial da Coroa Espanhola destacado num posto fronteiriço de Paraguai, que anseia pela transferência para Buenos Aires a fim de estar reunida com a sua família, que vive cada dia sob tremenda eternidade e um silencioso desespero. Se em “Zama” encontramos o registo de martirologia, é bem evidente que a hostilidade emanada pela realizadora reflete de igual maneira na subtileza visual. Perfeitamente encabeçada nos enquadramentos gerais, Martel é uma cineasta que prioriza o visual acima da narrativa convencional, mas é ao invisível que recorre, afrontando a visibilidade e questionando com isso,as suas próprias imagens. Tal como fizera com o seu anterior “La mujer sin cabeza”, o filme decorre sobretudo na inerência do seu protagonista.

Neste “Zama”, para além de se focar nas miragens fantasiadas pelo protagonista, Martel afirma uma conscientização de um terreno além-visto, desde os fantasmas, literalmente falando, até à assombração do mortal Vicuña Porto, cujas as exaustivas referências o transformam num espectro do mal representado, passando pelas fantasias idealizadas (desde o desejo de Buenos Aires até ao corpo idolatrado de Lola Dueñas). É por isso que por mais ordenado e formalista “Zama” se identifique, o filme tende em ser outro, vagueando por pântanos subtropicais até se transformar em algo mais, a possibilidade de descartar a sua importância estética (não desfazendo o belo trabalho do português Rui Poças no departamento de fotografia) em prol de um lirismo quase etéreo - Martel filma os colonizadores da mesma forma que os colonizados e os animais para diluí-los numa universo igualitário.

Por cá, caem comparações com “Jauja”, do conterrâneo Lisandro Alonso, o colonialismo invasor versus a América mística que sobrevive em derradeiros redutos (nem que sejam os imaginários), e o esoterismo captado pelas lendas duradouras e falsamente inseridas em sociedades em transição. Em ambas as obras, o El Dorado é procurado, cada um à sua maneira e em contextos térreos divergentes.

Juliana Rojas: "temos dificuldade a chamar o horror de Cinema"

Hugo Gomes, 04.05.18

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Marco Dutra e Juliana Rojas são a dupla do momento no que se refere ao cinema fantástico do Brasil. "As Boas Maneiras", filme que a própria realizadora descreve como o seu trabalho mais complexo, é uma fábula tentadora de um universo paulista alternativo, a história de um monstro que queria ser um menino de verdade e de uma mulher que encontra a inserção na companhia deste.

Vencedor do Prémio Especial do Júri no último Festival de Locarno, "As Boas Maneiras" comporta-se como uma revisão dos principais elementos do cinema de terror e não … passando pelo mundo da Disney e do cinema de carácter social. Falei com Juliana Rojas sobre o projeto que tem conquistado a crítica, público e um lugar no panorama fantástico brasileiro.

É sabido que a ideia deste filme nasceu a partir de um sonho de Marco Dutra. Como desenvolveram um filme a partir daí?

Sim, a base do filme surgiu nesse sonho, mas tinha poucos elementos, nós trabalhamos nessa imagem, essa sensação transmitida e atribuímos contornos. O que ele sonhou foram apenas duas mulheres num lugar isolado que criaram juntas uma criança monstruosa. Dessa primeira imagem desenvolvemos a história, o de duas mulheres coexistindo numa sociedade onde também habita uma criança monstro, que evolui para um lobisomem.

O porquê da escolha de um lobisomem?

É uma criatura muito próxima da nossa cultura, aliás, muito popular no Brasil, principalmente nas zonas rurais. Além disso é uma criatura metade humana, metade besta, simbolizando um conflito interior, uma dualidade que serviu de inspiração para vários aspetos do filme. Como alusão a essa mesma dualidade, desenvolvemos um filme em duas partes, traçada pelo nascimento, cujo primeiro encontramos duas mulheres de realidades opostas, uma da periferia, outra do centro, uma pobre, outra rica, uma branca e a outra negra. "As Boas Maneiras" é um filme que fala sobre os opostos, essas sanções, os conflitos que existem e que são quase naturais de São Paulo.

Mas de certa forma o lobisomem é um “monstro” universal, este enredo passa-se em São Paulo, mas poderia decorrer em qualquer outro lugar do Mundo.

Sim, é uma lenda universal. Existem várias culturas “assombradas” por esta criatura mítica. Temos histórias deste género na Europa, na Ásia, e na América do Sul, para além de não envolverem apenas lobos. Existem outras lendas de criaturas meio humanas, meio animais, que perpetuam uma fascinação pela metamorfose.

Falando em metamorfose, há pouco falava das duas partes, porém, em "As Boas Maneiras" está presente um tom de constante transformação.

Sim, é um filme que metamorfoseia devido à nossa preocupação de tornar isto numa espécie de fábula. Na nossa obra sempre tentamos explorar esses caminhos - o cinema de género. Principalmente salientando o fantástico e o horror, sempre ligados a um universo de tensões sociais, mas os “Boas Maneiras” é um filme onde realmente queríamos assumir esse tom de fábula. Então criamos um universo fantástico, a forma como compomos a obra, desde a fotografia até ao body painting que usamos nas paisagens. Essa metamorfose tem a ver com isso, uma maneira lúdica de como se estivéssemos contando uma fábula para além do visível, e isso permite transitar por vários géneros. É dessa matéria que as fábulas são feitas; comédia, romance, elementos fantásticos …

 … e musical.

Sim [risos], musical também, principalmente nos desenhos animados da Disney.

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Marco Dutra, Marjorie Estiano, Juliana Rojas, Isabél Zuaa

Então existem aqui influências desse mesmo universo?

Nós tivemos bastante influência nesse Mundo Disney, principalmente da “Bela Adormecida” e da “Cinderella”, mas ao mesmo tempo fomos buscar influência das peças de Brecht, a sua maneira de trazer o ponto de vista da personagem à tona, conservando um aspeto crítico e irónico. Resumidamente, "As Boas Maneiras" bebe um pouco desses dois mundos, o lado lúdico vindo diretamente da Disney e o teatro épico de Brecht.

A Juliana juntamente com Marco Dutra têm sido os nomes, não diria mais relevantes, mas destacáveis do cinema de género brasileiro. Pelo menos do que chega a território internacional. A minha pergunta é como vê atualmente a indústria de cinema de género no Brasil?

Sempre houve cinema de género no Brasil e até mesmo o de horror, apesar de muitas vezes estar embebido num estilo mais barroco que certos filmes possuem. Consigo arranjar o exemplo de Macunaíma de Joaquim Pedro de Andrade, uma visão do Brasil enquadrado num olhar de fantasia que não se encontra necessariamente inserido nos códigos do horror. Temos ainda o José Mojica, o nosso Zé do Caixão, uma figura notória que levou este tipo de cinema para o resto do Mundo, mas que obteve pouco reconhecimento formal pelo grande público. Só que as pessoas voltaram a querer ver e a fazer filmes do género, e aí entram nomes como Gabriela Amaral, que realizou algumas curtas interessantes e a longa “O Animal Cordial”, Guto Parente com “O Clube dos Canibais” e Rodrigo Aragão, que tem feito obras como “Mangue Negro” e “A Noite dos Chupacabras”.

O que quero dizer é que estamos a viver um momento em que o público procura o cinema de género e este tem tido repercussões comerciais. Aliás, é tudo um ciclo, que funciona como no resto do Mundo. Os filmes de horror surgem com sucesso depois quase desaparecem, até reaparecem com igual força. Porém, existem sempre fiéis. Neste momento estamos num ciclo próspero, não só no cinema, mas também na televisão.

A verdade é que o facto de um filme como "As Boas Maneiras" ter vencido um prémio num festival como Locarno é um indicador de uma valorização do Cinema de Género. Aliás, querendo acrescentar, um filme como “The Shape of Water” ter conseguido arrecadar o Óscar de Melhor Filme e o prémio máximo em Veneza é uma evidência a que estamos a assistir numa reviravolta quanto ao estatuto do cinema de género.

Ainda é um género que sofre com algum preconceito. Alguns filmes de terror que começaram a circular em festivais de renome e a conseguir aclamações por parte da crítica obtiveram uma espécie de título, os “pós-terror”, isso denota o preconceito de que um filme de horror não poderá ser um bom filme. O horror continua a ser um género, e um género mutável, multifacetado. Ora, temos o terror com tons de comédia, ora temos com perfil de thriller psicológico, dramático, ou simplesmente o slasher. O problema é que temos dificuldade a chamar o horror de Cinema, para alguns não passa de um subgénero. Mas existe a mudança, não falo apenas da premiação do meu filme ou da “The Shape the Water”, mas em Locarno houve uma retrospectiva do Jacques Tourneur, que era um cineasta que na sua época fazia o cinema B e hoje é homenageado num dos maiores festivais de arte do Mundo.

Só o conceito de “cinema de género” é um pouco denegridor.

É, porque tudo é um género. O drama é um género, o problema é que quando se fala de género automaticamente dirige-se ao horror. É como se o drama fosse a derradeira normalidade.

Voltando agora ao filme "As Boas Maneiras", gostaria que salientasse os efeitos visuais tendo em conta os recursos que obtiveram.

Nós tivemos uma coprodução do Brasil com a França e recebemos um fundo francês de inovação tecnológica que nós direcionamos para os efeitos especiais. Então foram duas empresas francesas responsáveis pelos efeitos. Uma chama-se Atelier 69, que concretizaram os efeitos práticos e a outra, Mikros, teve responsabilidade nos computorizados.

Aí eles colaboram connosco no argumento de forma a discutir as maneiras mais fiáveis de implantar tais efeitos e que tipo se enquadraria em determinadas sequências. Ajudou bastante esta proximidade com os departamentos de efeitos que nos arranjaram soluções criativas para cada situação, tudo dentro das possibilidades da produção. "As Boas Maneiras" foi o nosso filme mais complexo, que exigiu um detalhado planeamento, principalmente na visibilidade da emoção de cada personagem.

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Em relação à fotografia, da autoria de Rui Poças?

Foi muito bom trabalhar com o Rui. Nunca trabalhamos juntos, mas como primeira vez foi uma experiência incrível. O Rui é uma pessoa sensível, colaborativa e que teve uma boa relação com Fernando Zuccolotto, que era o nosso diretor de arte. A parceria dos dois resultou em algo fundamental para construir este mundo fantástico. Uma cidade de São Paulo com uma paleta bem diferente de cores, mas este universo e sua criação foi bastante discutida entre todos, principalmente na utilização da dualidade de ambientes, diferenciadas estéticamente. Para nós essa divergência visual da periferia com a cidade é uma alusão ao castelo e a floresta de qualquer fábula, o que apenas foi possível com esta união de forças entre a fotografia e a direção de arte.

Novos projetos?

Eu e o Marco estamos a desenvolver uma nova ideia, a história de uma casa assombrada. Contudo, ambos temos projetos individuais, o Marco vai dirigir um filme juntamente com Caetano Gotardo, o realizador do “O que se Move”, que se intitulará de “Todos os Mortos”.

Tendo em conta que "As Boas Maneiras" é uma fábula, o Brasil de hoje é também uma?

[risos] O Brasil de hoje? Nem sei se é uma fábula ou um pesadelo. O país está numa situação muito difícil em termos políticos. É muito preocupante e surreal de que este cenário encontra-se tão escancarado, porque existe obviamente uma perceptível manipulação dos factos e na condução dentro dos atos do Governo e da Judiciária para beneficiar quem está no poder. Isso leva-nos a uma sensação de impotência.

Este ano vamos ter eleições e ninguém sabe o que realmente irá acontecer, nem sequer sabemos ao certo quem são os candidatos.