25.5.18

MV5BMDQ0YmEwYmQtOWZlOC00YmVhLWI2NmYtMGYzN2E4MzE5Nz

Traumas e ensaios mentais, golpes de génio.

 

Antes de seguirmos pelos labirínticos registos da existência de Eduardo Lourenço, é preciso falar de Miguel Gonçalves Mendes, realizador que se tem dedicado à evasão do formalismo e o formato academicamente aceite que o documentário português parece ter contraído no sentido em esquematizar “vidas e méritos alheios”. Por sua vez, é também fugaz a distorção dos cânones do docudrama que ultimamente tem caído num poço sem fundo de (não) criatividade. Passando pela lenda de mouras encantadas de Olhão, pela marca pessoal de Cesariny ou do romance que transgride o “eu” artístico e criador de José Saramago, Gonçalves Mendes aventura-se agora, ou deixa-se aventurar, pelos pensamentos de contradições de Eduardo Lourenço, ensaísta, professor e sobretudo “poeta da vida”.

 

35773_49732_941.png

 

Nesta tendência de condensar um livro da autoria de Lourenço, O Labirinto da Saudade (1978), o realizador propõe ao catedrático uma demanda pessoal e pensante pelo seu intimo intelectual e fá-lo através do uso da tecnologia para colocar um velho sábio em perfeita confrontação com as suas ideias. Este é um caso em que a ideologia e o homem se confundem, parindo uma quimera de conscientização dos fantasmas da nossa nacionalidade, enquanto Lourenço se debate pela sua própria existência. A existência de um em paralelismo com o nosso legado enquanto portugueses, viventes de um país traumático, cujas mazelas agora convertidas em lendas e criaturas mitológicas, olharapos da nossa História (“A História é a ficção das ficções”).

 

Sem Título.jpg

 

As questões deparam-se, aguçadas como adagas feudais, no qual Eduardo Lourenço se defende com a serenidade e a lucidez pelo qual é visto, respeitado e venerado. E dentro dessa divindade, Gonçalves Mendes prepara um altar tecnológico, empacotado entre caixotes dimensionais e náutilos, a espiral logarítmica que nos leva ao córtex da sua concretização, mas ao mesmo tempo à sua tragédia. Por entre esses traumas evidenciados, existem dois que se cometem como pessoais, acima da reflexão pensante dos anteriores. A primeira cicatriz do nosso país que Eduardo Lourenço verdadeiramente testemunhou conta com Ricardo Araújo Pereira como o interveniente escolhido para uma exorcização do salazarismo vincado nas nossas raízes (“povo fascista e ‘fascizado’”), ou a análise do “sacerdote falhado”, Salazar em pessoa e a sua cruzada pelo país imaginário ainda hoje invocado com um martirológico saudosismo. O segundo “trauma” experienciado é mais quebradiço, até porque é o futuro que aborda, o futuro da nossa cidadania enquanto europeus, continentais acima de nacionais (“Precisamos mais que nunca ser europeus”).

 

34090680_2022012438052335_1149544900102979584_n.jp

 

Essa questão das questões, a bandeja direta ao apocalipse identitário, guia-nos para o derradeiro dos destinos, no qual Lourenço encontra-se consciente. Nada é eterno, porém, “escrevemos como fossemos eternos”. Quanto à morte, a paragem final, que não aflige a sábios, aliás, porque a “verdadeira morte é a do outro”, nesse campo, Lourenço encontra-se calejado. A tragédia parece se abater nos últimos tempos deste Labirinto da Saudade, mas Miguel Gonçalves Mendes responde com um reencontro a um legado e fá-lo sob o jeito de um antecipado tributo. Fora a figura do sábio, que monta e desmonta a sua sapiência através de passos (planeados pela personificação de Diogo Dória), o filme em si, adverte para um sufocante cerco tecnológico e provavelmente não era preciso tantos “confettis” para celebrar tais ideias.

 

MV5BMGIxOWRiZjQtZjg2Ny00YzkzLWIyZmYtYzNkMzU5YjIxND

 

Contudo, em defesa a Miguel Gonçalves Mendes, esta assoalhada artificial gira em volta da sua figura, portanto, saúda, e ouve atentamente à sua palavra, ao contrário dos textos que se querem fazer ouvir mas que são emudecidos pelas imagens salteadas de quem não sabe pensar além do seu umbigo. Acreditem, existem muitos autores assim, que se escondem por “correspondências”, mas Gonçalves Mendes não é um deles.

 

Real.: Miguel Gonçalves Mendes / Int.: Eduardo Lourenço, Diogo Dória, Ricardo Araújo Pereira, Adriana Calcanhotto, Pilar del Río, Gregório Duvivier, Álvaro Siza Vieira, Sabrina D. Marques

 

MV5BNzE2NTVmNWUtNjVhYy00MzM5LWE2MzQtMTVjNDgwNWNiMT

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 13:34
link do post | comentar | partilhar

17.5.18

MV5BNWU0OGU5NzctNWVjYy00OWUyLWJhMTctY2E4ODM2MmEyNT

Por entre jogos visuais cinéfilos!

 

Estamos convencidos! Graças à sua segunda longa-metragem, Yann Gonzalez revela-se num conhecedor dos códigos de uma cinema reconhecível dos 70’s, transformando essa salada de referências e influências num espelho aos métodos Argento / Bava (a estética sobre a solidez do conteúdo). Sob tais signos é “facílimo” desprezar este Un Couteau dans le Coeur e soltar instintivamente o primeiro grito de “fogo de vista”, mas deixem-nos contemplar estas aplicadas lições de quem tenta guiar-se por uma carreira à base do fascínio e da subjugação do anteriormente feito, comportamento que se poderá revelar numa faca de dois gumes (por outras palavras, o seu maior atributo como a sua fraqueza).

MV5BNjU3YmYxOTMtNGFkYi00YjZiLWE3ZDYtNGM2ODFhYjFlYT

 

Se o visual torna-se num órgão essencial em toda esta paródia à industria da pornografia gay, esta também é o refletor da nossa paixão / compaixão pelo cinema, hoje citado e revivido através de poucos. Ora bem, para termos em conta a receita prescrita, reunimos os já referidos toques dos dois mestres italianos (para além do “bom olho”, a sua apetição pelo elemento slasher), a proeza do ambiente algo onírico, fantasioso e faustoso (vale a pena referir que há aqui um certo "piscar de olhos" a Brian De Palma). Depois de mexidos junta-se as pitadinhas do humor negro “almodovoriano” e invoca-se o medo politicamente incorreto de William Friedkin e o seu “maldito” Cruising (filme a precisar urgentemente de revisionismo e solidariedade, por isso, voluntários procura-se). Batido e sacudido, esta mistela forma-se por entre a estilização dominante e o sarcasmo evidentemente insertado em medidas grosseiras.

 

MV5BZjljNDllYTUtYWQ2MC00MzZkLWEwNzItYjFjYzZmYmFkNG

 

Eis o resultado, Un Couteau dans le Coeur, um filme série B sobre o cinema como memória, endereçado como uma quimera defeituosa que deslumbra no seu desequilibrado ambiente. Porém, é nos defeitos que por vezes nos fazem amar os filmes, estes corajosos e ricos em uma alma transcendente, por vezes fúnebres, perante os presságios de extinção que veste ocasionalmente. Yann Gonzalez atenta-se nesses requisitos, no cinema faz de conta, alicerçado à nossa imaginação e sobretudo crença. É uma experiencia algo queer (no termo cinematográfico, é óbvio), um exercício visual entendido por muitos como uma homenagem. Provavelmente somos nós a exagerar no caso, até porque é somente isso … um tributo. Mas deixem-nos amá-los, projetar as nossas fantasias cinéfilas realizadas. Um objeto sedutor!

 

Filme visualizado no 71º Festival de Cannes

 

Real.: Yann Gonzalez / Int.: Vanessa Paradis, Kate Moran, Nicolas Maury

 

MV5BNzFkNTRiZGMtZDk2Yy00MmM5LWE5MTEtMGE3NjM3OTUyMD

6/10

publicado por Hugo Gomes às 22:55
link do post | comentar | partilhar

26af401decb73e8fa43bbb8561a20b20cd498493.jpg

Solo se vive una vez!

 

Eis o projeto da Lucasfilm que encheu as manchetes. Em causa estiveram as complicações nos bastidores, mais precisamente quando os realizadores originais, os jovens Phil Lord e Chris Miller (21 Jump Street), foram despedidos em consequência, ainda por mera especulação, de “divergências criativas”. É um sinal de que as grandes majors nada facilitam em preservar as convenções criativas e artísticas dos jovens talentos que ousam sempre repescar para os seus megalomaníacos projetos, e isso veio verificou-se com a vinda de Ron Howard, realizador já calejado nestas andanças, que automaticamente satisfez as necessidades do estúdios Lucasfilm/Disney, segundo o comunicado oficial. Mas se os estúdios ficam agradados com estes velhos artesãos, porque procurar o moço da esquina? Provavelmente os custos são menores tendo um realizador inexperiente e verde, assim como é fácil moldá-lo aos requisitos do estúdio. Visto estes possuírem pouco “poder” na indústria, estes novatos transformam-se em verdadeiros cordeiros nas garras dos esfomeados tigres.

 

MV5BNzQxMjU3MTc5MF5BMl5BanBnXkFtZTgwNzQzNDUyNTM@._

 

Nunca iremos saber como seria realmente o Han Solo versão Lord & Miller, mas em relação à versão de Ron Howard, é um verdadeiro “vira o disco e toca o mesmo”. A Lucasfilm desesperadamente necessita de argumentistas nas suas aventuras intergalácticas, precisa de renovar os códigos do entretenimento e, por fim, surpreender. Neste último aspeto, não é através de cameos inesperados nem de easters eggs para fã ver, é preciso retirar o espectador do conforto, das “image-commodities” segundo o teórico Jonathan Beller, dos lugares-perpetuamente comuns, assim por dizer. Obviamente que todo este discurso cairá como gotas de água numa chuvada para as audiências direcionadas neste tipo de produções, ou quem procura, reduzindo, o mero entretenimento.

 

MV5BMTY2MDI2ODU2MV5BMl5BanBnXkFtZTgwMzU3MTE1NTM@._

 

Han Solo: A Star Wars Story é um filme sem ambições dos ditos canónicos, sendo que com isso lhe é atribuído um certo estado de graça, uma dinâmica na sua compostura e uma sensação falsa de simplismo. Sim, a competência de ser mais um na saga entre galáxias torna-o num desengonçado episódio que queremos estimar porque conhecemos as suas limitações face ao historial de produção por detrás. Infelizmente, carinhos por piedade não fazem filmes e Han Solo não possui força para  vingar nesse ramo.

 

MV5BMjQ1OTg4MjA5OV5BMl5BanBnXkFtZTgwNzkzNTE1NTM@._

 

Porquê? Para além das fraquezas que o generalizam e o confundem nestas produções homogéneas, nenhuma personagem aqui, até mesmo o reconhecível Han Solo (Alden Ehrenreich a mimetizar tiques), possui capacidade de emancipar-se da mera caricatura, o romance convertido a template de resoluções argumentativas, querendo com isto burlar-nos com uma “complexidade insuflável”. A ação, cheia de números circenses neste registo de filmes, não possuiu qualquer tipo de coreografia a não ser as influências do videojogo.

 

MV5BNTMzMTkwNDUwNl5BMl5BanBnXkFtZTgwMjA0NTE1NTM___

 

São encontrões que nos fazem deparar em mais um, mas no caso de Han Solo, assim como em muitas das sequelas, prequelas, spin-offs desta nova fase Star Wars, assim como espelho de muitas outras rotinas dos grandes estúdios, é o sacrilégio de mexer na personagem. Como sabemos e não é novidade nenhuma, a figura de Han Solo, ao longo destes anos, era visto como uma encarnação exclusiva de Harrison Ford na saga original de George Lucas, mas ao revisitar o seu passado e atribuir-lhe uma nova face, perdemos essa associação, esse carinho, essa memória cinéfila. Nenhuma personagem meramente cinematográfica é imune a estes novos tempos, nem sequer os seus passados são deixados à sua sorte. Perde-se a mística, como se perde o nosso imaginário perante uma indústria que nada quer deixar ao espectador. Han Solo: A Star Wars Story não foi o primeiro, nem será o último, mas é um grito de ajuda.   

 

Filme visualizado no 71º Festival de Cannes

 

Real.: Ron Howard / Int.: Alden Ehrenreich, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Joonas Suotamo, Donald Glover, Thandie Newton, Paul Bettany, Jon Favreau, Phoebe Waller-Bridge, Ray Park

 

MV5BZDA0ZjFlNWUtOWM3OC00M2MzLTg3MmMtNmJmMzVlMGJlYj

4/10

publicado por Hugo Gomes às 15:51
link do post | comentar | partilhar

12.5.18

thumb_60406_media_image_1280x808.jpg

O lendário cineasta Jean-Luc Godard marcou presença na conferência de imprensa em promoção ao seu mais recente filme, Le Livre d’Images, em competição no Festival. Contudo, não o fez fisicamente, tendo surgido perante os jornalistas via Facetime no smartphone do seu diretor de fotografia Fabrice Aragno.

 

Despenteado e com um cigarro entre os dedos, Godard convocou os jornalista a afilarem-se perante o dispositivo, cada um com uma questão a propor ao realizador de 87 anos. Muito se debateu, desde o filme e a sua natureza, passando pelo futuro do Cinema, assim como se tocou na situação da Rússia, na qual o autor de Pierrot le Fou aconselhou que devemos “ser todos cordiais”

 

Godard respondeu, em jeito bem-humorado, à definição de cinema dando uma equação matemática: “´Voilá´. X + 3 = 1, esta é a chave do cinema. Mas quando dizemos que é a chave, não podemos esquecer da fechadura", como também, de forma mais séria, ao futuro da Sétima Arte e do Cinemas. “Nos próximos 10 anos nós encararemos alguns cinemas que serão bastante vanguardistas. Eles vão exibir os meus filmes assim, como filmes em geral”, tal como a educação cinematográfica. "Não estudei em nenhuma escola de cinema. Sou do tempo em que estudar cinema implicava ver filmes, ir a cineclubes, procurar a relevância e identificação em filmes por vezes obscuros".

 

Godard-Cannes.png

 

Le Livre d’images é descrito como um filme-arquivo onde o realizador trabalhou com um conjunto de imagens providas de filmes e outros materiais. Em relação a este registo e à ausência de atores, Godard afirmou que “na ficção existe o risco do ator estar associado às praticas totalitárias, dependendo das imagens o qual integram”.

 

Apesar do episódio insólito, esta não é a primeira vez que o realizador reinventa a Conferência de Imprensa em Cannes, reafirmando o seu antagonismo para com o evento. Em 2005, na sequência do seu Notre Musique, Godard convidou um representante do sindicato de atores e técnicos do Cinema Francês para responder às questões dos jornalistas.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 14:05
link do post | comentar | partilhar

11.5.18

5168804.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

Diamante bruto ou Ovni do Cinema Português?

 

Gabriel Abrantes (sob aliança com Daniel Schmidt) chega por fim ao universo das longas com uma fábula tramada de um futebolista prodígio que certo dia adquire consciência do seu redor. Eis Diamantino, filmes-paródia cujas rábulas caricaturais servem de espelho para a cada vez mais quebradiça sensibilidade europeia.

 

MV5BOTdkNjY2ZjMtOTlmYi00YjkzLThhY2EtOGVkOThiOTkyYT

 

O jovem realizador virou do dia para a noite num astro da curta-metragem portuguesa, que sob esse mesmo formato concretizou algumas das mais invulgares produções do Cinema Português. Improviso e criatividade são dois elementos certos na sua filmografia, requintada com um humor burlesco e sob um ponto de vista satírico, e este Diamantino não é exceção, preservando todas essas mesmas convicções. É um OVNI, um objeto verdadeiramente insertado num conceito de luso-futurismo (se não existe tal definição, deveria existir) que esclarece a iniciativa da dupla. Contudo, não é preciso pensar muito para se perceber donde veio a inspiração para esta homónima personagem interpretado por Carloto Cota (verdadeiramente impagável). Do visual aos maneirismos e mesmo o dialeto de região autónoma (aqui trocou-se Madeira pelos Açores), assim como o contexto familiar e social, este Cristiano Ronaldo faz-de-conta é mais que uma mera caricatura para fins de jubilo inconsequente ou do alvo preciso à sua figura, é antes disso um atalho que nos levará a uma reflexão à nossa condição enquanto europeu.

MV5BMTlhMzNkMmYtOTg3MS00M2RjLWI5M2QtZTIzOWE3OWExMD

 

Até porque Diamantino [a personagem], o Midas nas quatro linhas perde o seu dom de jogar quanto reconhece que o Mundo não gira envolto do seu umbigo, aprendendo a tal lição através de um acidental contacto com refugiados (ou diríamos antes “fugiadinhos”). A partir daí é a sua determinação de encontrar a si próprio, como uma Europa em crise existencial, ingénua e receosa por medos irracionais. A personagem, a anterior sombra distorcida do craque, é a alusão direta do Velho Mundo, perdido em partidos nacionalistas e solidariedade high moral ground (o privilégio de ser europeu). Pelo meio, encontramos anedotas sob o formato de propagandas quase orwellianas e da metamorfose simbólica do seu personagem/continente, lavados por contornos fabulistas como é o caso das malvadas irmãs “cinderelescas” (as gémeas Anabela e Margarida Moreira).

 

MV5BZjJkMWU4ZDMtYjE3Zi00YjgzLTgxZDYtZmFmY2QwMmMwYT

 

Gabriel Abrantes apodera-se de um filme in loco, rebuscado por natureza, acidamente incorporado num humor capaz, por vezes onírico, e para isso cruza a imagem real com as manipulações tecnológicas, entre o CGI e os efeitos práticos, elementos por si tão próprios do seu trabalho nas curtas (em especial atenção para os seus Humores Artificiais e o segmento Freud and Friends do coletivo Aqui em Lisboa).

 

MV5BMDI3NTFhMGUtODcxMi00MjU2LTgxZmYtMTI2ZmVlNzllNj

 

Contudo, a loucura faz-se em pequenas doses, quase desconjurado devido a um ritmo desequilibrado. A causa? A possível readaptação do formato de longa para alguém conformado com pequenos rascunhos e isso torna Diamantino num sugestivo experimento que por vezes cede à parábola ao invés da sátira ácida. Mas nada que nos faça distrair da confirmação de um dos possíveis grandes nomes do cinema português futuro, que partilha tal como este Diamantino, uma verdadeira crise existencial.

 

Filme visualizado na 57ª Semana da Crítica de Cannes

 

Real.: Gabriel Abrantes, Daniel Schmidt / Int.: Carloto Cota, Anabela Moreira, Margarida Moreira, Chico Chapas, Joana Barrios, Abílio Bejinha, Filipe Vargas, Carla Maciel

 

MV5BNGEyYzU2MjctMDJiNS00MTE4LWJkMTEtN2NhY2IwZDBjOW

6/10

publicado por Hugo Gomes às 23:47
link do post | comentar | partilhar

10.5.18

67c1d6ad32ea6665b1c0142442849ca4_XL.jpg

36 anos depois da sua projeção em Cannes, A Ilha dos Amores regressa à Riviera como um dos filme-evento desta 71ª edição. O seu retorno não é em vão, em causa está um trabalho de restauro invejável por parte da Cinemateca Portuguesa, com digitalização 4K com wet gate de interpositivos de imagem e som em 35mm tirados num laboratório japonês em 1996.

 

Com isto, foi conservada na obra de Paulo Rocha a esplendorosa fotografia de Acácio de Almeida e a acústica sonora que nos transporta para um Oriente distante à boleia do eterno trágico-romântico Wenceslau de Moraes, interpretado por um dos “santos” do cinema português, Luís Miguel Cintra. O ator esteve presente na sessão especial ao lado do diretor da Cinemateca Portuguesa, José Manuel Costa.

 

f38adbabe7a5d07e33ac8970b8fa7a26.jpg

 

A imaculada beleza captada pelo olhar clinico de Rocha, desde a simetria cénica até a profundidade que nos convida a um outro filme presento nos espelhos, A Ilha dos Amores preencheu cada espaço do ecrã da Sala Buñuel. Apesar de ser um filme narrativamente difícil de se ver durante a euforia de Cannes, os seus magistrais planos não deixaram ninguém indiferente quanto à restauração.

 

Regressando agora a 2018, à Competição Oficial, que tem por fim, algum dinamismo. A primeira com Leto, retrato punk da juventude inquieta da Leninegrado dos anos 80. Trata-se do novo filme do dissidente russo Kirill Serebrennikov, que para além de ser uma vibrante coletânea musical (Bowie, Sex Pistols, T-Rex, Blondie, etc) apresenta-nos uma bidimensionalidade narrativa que desfaz muito dos formatos de cinebiografia.

 

5acf72fd15e9f97b8136ffd9.jpg

 

Já o segundo filme a demonstrar a sua “garra” na Seleção Oficial é Plaire, Aimer et Courir Vite, de Christophe Honoré, a sua resposta ao êxito de Moonlight. Segundo o realizador de Canções de Amor, o filme galardoado ao Óscar em 2017 apresentava a homossexualidade como uma maldição digna de vitimização. No seu novo trabalho, somos apresentados aos amores e desamores de um homossexual em Paris do inicio dos 90’, no calor da epidemia do HIV. Ao contrário do que poderia suscitar com o contexto histórico, Plaire, Aimer et Courir Vite celebra o amor nas mais diferentes formas, para além de encarar a homossexualidade como algo normalizado, consciente e, porque não, humanista. Até ao fim não existem vitimizações, tudo faz parte do ato de amar e de ser amado. Encontramos a sidequel de 120 Battements per Minute!

 

Já na Quinzena de Realizadores, o último filme do espanhol Jaime Rosales, um experiente no Croisette, divide critica e público. Petra, titulo que também serve de nome à personagem principal (Bárbara Lennie, que também ingressou o elenco de Todos lo Saben, de Asghar Farhadi), é um drama em busca da paternidade que abraça um forte fluxo de tragédia. Rosales evita em toda sua condução, uma emotividade farsante, sendo que a principal característica desse afastamento é a recusa pelo grande plano e pela decopagem técnica. Ficamos a saber, numa entrevista a publicar brevemente, que Rosales foi convidado a trabalhar com a Netflix. Aceitará? Veremos...

 

SORRY-ANGEL-670x370.jpg

 

Hoje teremos o muito antecipado Jean-Luc Godard e o seu Le Livre d’Image, seguido pelo novo de Jia Zhangkee e de Pawel Pawlikowski.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 22:01
link do post | comentar | partilhar

3358168.jpg

Cannes ficou em sobressalto após uma convocatória de última hora do produtor Paulo Branco. A Amazon abandonava a distribuição norte-americana de Dom Quixote, o que levou Branco a manifestar-se frente aos jornalistas que se amontoavam na bancada da Alfama Films, no Marché du Film.

 

Eram 15h00 (hora francesa) e esperava-se a decisão do tribunal em relação à projeção do “filme maldito” de Terry Gilliam no Croisette. Enquanto isso, o produtor português não poupou palavras em direção a Thierry Frémaux e à organização do Festival, acusando-os de calúnia e difamação. Ainda assim, o próprio referiu que caso o tribunal proibisse a exibição do filme no Festival, estaria disposto a negociar a sua projeção, sublinhando a ausência de qualquer transação financeira. Ou seja, estamos perante uma questão de orgulho. Pouco tempo depois, o tribunal de Paris indeferiu o pedido de Paulo Branco. O Festival de Cannes não tem que se preocupar, The Man who Killed Don Quixote (O Homem Que Matou Dom Quixote) continua designado como o filme de encerramento da sua 71ª edição e Thierry Frémaux tem razões para rir.

 

5acf72fd15e9f97b8136ffd9.jpg

 

Em outras notícias, o realizador dissidente russo Kirill Serebrennikov encontra-se detido na Rússia, impossibilitando a sua ida ao Festival para apresentar a sua obra, Leto, em Competição. O delegado referiu que a organização tentou tudo ao seu alcance para trazer o realizador à Riviera Francesa, mas segundo Frémaux, Putin terá lhe dito que “na Rússia, a justiça é independente”, relato que suscitou gargalhadas entre o público.

 

Mas a piada acabou, apesar de tudo, por ser outra. O filme Yomeddine, a primeira longa-metragem do egípcio A.B. Shawky, encontra-se em Competição, um filme manipulador e sobretudo ofensivo. O porquê? Porque o jovem realizador decide contar a história de um leproso viúvo que viagem pelo Egipto em busca do pai que o abandonou. Ao seu lado conta com a companhia de um burro e de um menino órfão. A viagem é atribulada e desafortunada, com todos os tiques para o espectador de condescendência do seu protagonista, o qual deve-se salientar que é um não-ator que sofre das reais “deformidades”. Para além deste sentimento de pena, junta-se um perfeito desleixo na realização, fraca aptidão no tratamento das personagens e uma banda sonora omnipresente para os efeitos previstos: emocionar imperativamente. No final houve aplausos … tímidos … mas, houve.

 

Rafiki, o romance lésbico queniano que faz História, trata-se do primeiro filme desse país selecionado para o Festival, uma honra que levou a realizadora Wanuri Kahiu, em palco, a gritar “We are proud to be Kenyan”. Quanto ao filme em si, bem, as boas intenção não fazem Cinema, sendo que ao contrário de Yomeddine, o grande problema de Rafiki é a sua ingenuidade, o que por sua vez o leva a caminhos panfletários que prejudicam as personagens e até mesmo as suas relações.

 

Se a Seleção Oficial ainda não mostrou a prometida garra, a Quinzena dos Realizadores abre com audácia e furtividade requerida. O colombiano Ciro Guerra regressa à secção com Pajaros de Verano (realizado com a colaboração de Cristina Gallego), uma trama de gangsters e narcotráfico sob um cenário indígena tribal. Recordamos que Martin Scorsese encontrou-se presente na abertura para receber a La Carrosse d’Or.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 02:55
link do post | comentar | partilhar

9.5.18

MV5BNjFjNmVmNWYtOTc2Mi00YzhmLWE3NmQtOWI4ZDZlMzgwMD

A sensibilidade como prova humana …

 

A primeira longa-metragem do egípcio de A.B. Showky caí sobre nós como um teste endereçado a uma hipocrisia gritante. Seremos capazes de odiar uma personagem tão desafortunada como este Beshay (Rady Gamal), um leproso (o ator detém tais deformidades) viúvo que parte numa jornada ao lado de um órfão, em busca do pai que o abandonou numa "colónia"? Pois bem, Yomeddine desarma-nos. Questionamos quão humanos somos ou, na realidade, se somos seres frígidos sem qualquer compaixão. A verdade é que nunca não passa de uma manipulação. Ou isso, ou sou na realidade um corpo ambulante sem coração. Passo então a explicar: a certa altura deste episódio, o nosso protagonista reúne com um clã de "aberrações" (designação dada por este grupo) que o acolhe como membro de uma longa e família solidária (onde a diferença de cada um os une).

 

Stills_YD_promo_1_821_1_jpg_preset_600.jpeg

 

Como cinéfilo, a nossa mente transporta-nos diretamente a Freaks, de Tod Browning, o controverso filme interpretado por verdadeiras "monstruosidades". Contudo, mesmo envolvido em contornos do horror clássico (muito à frente do seu tempo e do nosso) e a uma essência de crueldade, Freaks tem a capacidade de causar no espectador a compaixão, sentimento que Yomeddine é incapaz de indiciar.  Aliás, o filme torna-se mais incapacitado que o próprio protagonista, vítima de uma condescendência profunda por parte da audiência, uma "delicadeza" de etiqueta no qual somos inertes em esconder.

 

yomeddine-abu-bakr-shawky-movie.jpg

 

Com um enredo perfeitamente banalizado, sem a criação de um universo trágico-caricato, como o fornecido, por exemplo, por um Kusturica (filmografia cujos elementos testemunhados poderiam nos levar), o filme peca sobretudo pela falta de ênfase dramática necessária para insuflar o discurso do nosso Beshay ("Eu sou um ser humano"). John Hurt atingiu esse pico com O Homem Elefante, mas convém salientar que o fez derivado a uma composição trabalhada por David Lynch em relação ao guião e na emotividade das suas personagens. Essa maturidade é inexistente em Yomeddine.

 

yomeddine-cannes.jpg

 

Contabilizamos hora e meia, nada mais, nada menos, de ganchos narrativos sem espessura, uma realização oscilante incapaz de amar o plano, a montagem amadora e improvisada que ostenta um automatizado desleixo. É um monstro, no sentido de apresentar um cinema nulo que nos apela ao lado samaritano. Diríamos que estamos perante de um filme desumano, que falsamente nos engana com intenções desencorajadas por profecias de solidariedade.

 

Filme visualizado no 71º Festival de Cannes

 

Real.: A.B. Shawky / Int.: Rady Gamal, Ahmed Abdelhafiz, Osama Abdallah

 

520c1e5cb14bd0d0571fd5e4c2e7f1f0-h_2018.jpg

2/10

publicado por Hugo Gomes às 23:55
link do post | comentar | partilhar

31961906_1887986224555638_903430771392380928_n.jpg

O júri chefiado por Cate Blanchett tem uma tarefa herculana e tal ficou evidenciado na sua apresentação à imprensa, na qual não faltaram questões sobre a representação das mulheres na competição e ainda sobre Jean-Luc Godard.

 

A atriz norte americana, galardoada com dois Óscares da Academia, referiu que na questão de existirem apenas três mulheres a concorrer à Palma de Ouro “é” um avanço positivo, mesmo assim, visto que em anos anteriores o número era relativamente mais baixo e em alguns casos mesmo inexistente.

 

Outro dos temas discutidos foi o facto da Competição deste ano estar recheada de realizadores jovens, muitos deles a contar com a sua primeira longa-metragem, que confrontam nomes experientes como Jean-Luc Godard. A intervenção do jornalista tentava conhecer como o júri iria encarar a análise de filmes adereçados a experiências diferentes. Cate Blanchett referiu que o que a preocupava eram os filmes e não os nomes. Contudo, no caso do Godard, teria que estar ciente da sua carreira, referindo ainda como cada filme do incontornável nome da Nouvelle Vague era uma experiência própria.

 

32072697_1887986241222303_7535126581568602112_n.jp

 

Recorde-se que as mulheres dominam o júri da 71ª edição do Festival de Cannes. No júri do certame, e para além de Blanchett, estão Ava DuVernay (realizadora), Robert Guédiguian (realizador), Andrei Zvyagintsev (realizador), Denis Villeneuve (realizador), Chang Chen (ator), Léa Seydoux (atriz), Kristen Stewart (atriz) e Khadja Nin (cantora).

 

Assim arrancou mais uma edição do Festival de Cannes, que se prolongará até dia 19 de maio e cuja Seleção Oficial abrirá com a mais recente obra do iraniano Asghar Farhadi, que filmou em Espanha o casal maravilha Penélope Cruz / Javier Bardem numa trama de segredos e revelações.

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:56
link do post | comentar | partilhar

MV5BYmRlMTc0ZGEtMjE0ZS00OTY5LThlN2ItYTM1ODJiMDU5Zj

A Separação …

 

Em 2016, durante uma das suas visitas à Cinemateca Portuguesa, o cineasta húngaro Béla Tarr referiu que, por vezes, para fazer Cinema bastava filmar uma simples reunião de pessoas e esperar que a “magia” acontecesse desse mesmo ajuntamento. Pegando nesse conceito simplista, mas não totalmente um falso conselho, verificamos que o despertar de muitas tramas do storytelling cinematográfico advém da união de indivíduos, a relação entre eles fará o resto. Quanto maior o número de envolvidos, mais espinhosa poderá tornar-se essa mesma intriga, uma teoria do caos que Asghar Farhadi parece praticar nesta sua migração por terras de Almodóvar.

 

Sem_Titulo_23.jpg

 

O realizador dos consagrados A Separation e The Salesman não é estranho nessas ditas viagens identitárias (recorda-se a sua ida para a França ao serviço de um retrato de matrimónios e divórcios em Le Passé). Como tal, o seu dispositivo de experimentação das personagens e quiçá do espectador é conservado, diria mesmo transladado neste Todos lo Saben. Mas a passagem pela alfândega influenciou-o; as moralidades impostas no seu Cinema, marcas evidentes, são ultrapassadas perante uma serventia ao guião (da sua autoria), por sua vez fundamentado através dos chamados plot twists que se identificarão como ganchos para o vinculo entre espectador e filme.

 

MV5BYjkyNzI1ZjQtOGNlOC00MWYyLThhMDktNzQ5YzFjMTFjMW

 

Mas o leitor questiona até aqui o porquê da menção daquele ponto-de-vista do cineasta húngaro, essa reunião em prol do sentido cinematográfico? Em Todos lo Saben entendemos que um casamento, a desculpa para um coletivo de personagens, funciona como ponto central, ou vetor, do mesmo guião. É necessário causar um “choque” entre os mesmos para impulsar a intriga, assim como a combustão, uma abordagem algo académica mas funcional. E se a cerimónia matrimonial é apenas uma solução arranjada para a colocação destas “cobaias”, a verdadeira experimentação “farhadiana” ocorre quanto um sequestro tem lugar [o implantado conflito, base de todos os outros]. O suposto drama submete-se às fixações do thriller, que por sua vez acaba por ser interrompido com uma questão “telenovelesca”.

 

MV5BZmYyMzQyNTYtODdkZS00N2I2LTgwMjMtNmRhYmFiOTllZj

 

Novamente, reafirmamos que esta devoção pelo enredo prejudica inúmera vezes o ritmo da obra; s atores andam à deriva em personagens excessivamente barrocas, mártires induzidos nos clichés do miserabilismo e do romance de cordel. Devido a essa insuflação algo exagerada, a sobre-informação destila num só golpe, não aparando a queda destas mesmas personagens no ridículo. Enquanto gritam, choram, enquanto debatem em conflitos facilmente interrompidos com a passividade deste grupo de seres, os atores pouco conseguem erguer os seus “bonecos” longe dos requisitos da soap opera espanhola. O underacting de Javier Bardem é inadequado à sua personificação, sendo o exemplo mais gritante dessa descida pela caricatura involuntária (podem rir à sua conta).

 

MV5BOGUxODU5Y2QtY2JlMy00ZDg3LTg5NjAtNTA0YjMzNTkwYT

 

No meio de toda esta “espanholada”, encontramos alguns resíduos da intervenção de Farhadi (o menos mal). A palavra adquire novamente a sua importância divina e, consequentemente, o julgamento de outros e a redenção perante o tribunal do povo. São essas as leis humanas quanto ao nosso conceito de comunidade e Todos los Saben percebe esse termo a tempo, explicitado no seu final ambíguo. Infelizmente é um filme mais dependente das suas ações do que das suas palavras.

 

Filme de abertura do 71º Festival de Cannes

 

Real.: Asghar Farhadi / Int.: Penelope Cruz, Javier Bardem, Ricardo Darín, Bárbara Lennie, Inma Cuesta

 

MV5BYjU1ZmE5MmQtYzVjZC00MjJkLTg4ZTMtMGJiY2NjM2MxZT

5/10

publicado por Hugo Gomes às 10:48
link do post | comentar | partilhar

cb76744d10c26bc80b0f00d8a0bd0dfd011f9a04.jpg

Pourquoi t’as l’air triste?”, pergunta Jean-Paul Belmondo a Anna Karina numa das muitas cenas fulcrais de Pierrot le Fou, ao que ela responde: “Parce que tu me parles avec des mots, et moi je te regarde avec des sentiments”. Não é por menos que o beijo entre os dois atores/personagens, o Ferdinand (Belmondo) e Marianne (Karina) encontra-se imortalizado no cartaz desta 71ª edição de Cannes. Eles levaram o Cinema por outros caminhos e sobretudo por outros sentimentos, estes que são relembrados com tamanha nostalgia.

 

Depois da feira das vaidades do tapete vermelho, o Grand Théâtre Lumière aplaudiu serenamente este trecho de uma das obras-mestras de Jean-Luc Godard, que foi seguido por um monólogo especial por parte de Edouard Baer, o mestre de cerimónias, com acompanhamento do piano de Gérard Daguerre, tributo que tocou no coração da própria Anna Karina, presente num dos balcões.

 

pierrot-le-fou.jpg

 

Pierrot le Fou entra novamente em cena, desta vez com a mítica sequência em que Belmondo dirige-se aos espectadores, quebrando a quarta barreira. São tempos em que o Cinema comunicava diretamente connosco, sem filtros nem rodeios, e - condizendo com a cena inaugural da cerimónia - olhava para os espectadores com sentimento. Coisa rara no Cinema de hoje, mas o Festival de Cannes é sobretudo feito disto - uma busca incansável pelo Cinema que nos “fala” de forma emocional - e que melhor pessoa para rastrear tais “pegadas” que Thierry Frémaux, o qual tem demonstrado nos últimos tempos uma paixão cinematográfica cega, porém, apaixonada por causas algo perdidas. Ora as guerras com a Netflix e mais recentemente o seu olhar desconfiado às séries de televisões, o delegado artístico de Cannes tende usar como escudo a sua cinefilia, para o bem e para o mal. É um amante de cinema à moda antiga e durante 11 dias queremos acreditar que sim.

 

Com isto, Frémaux subiu ao palco, apresentou um a um o seu Júri de 2018, com especial homenagem à sua presidente, Cate BlanchettMadame, madame … and monsieur”, assim se dirige a atriz ao público. A cantora Juliette Armanet sobe ao palco para cantar Les Moulins, música que ecoou no grande teatro. Foram visíveis algumas lágrimas perante a melosa melodia.

 

 

E é então que chega-nos outro convidado, Martin Scorsese, o qual relembro que irá receber o Le Carrosse d’Or na Quinzena de Realizadores, que teve as honras, ao lado de Blanchett, em dar como aberto mais um Festival de Cannes. O 71º ano que arranca já com uma tremenda desilusão.

 

Asghar Farhadi tornou-se nos últimos anos num dos mais respeitados nomes do chamado world cinema e não é para menos. Um Urso de Ouro acolá e dois Óscares conquistados, uma mão cheia de obras que têm sobretudo seduzido a crítica e público cinéfilo, o iraniano tinha tudo para fazer deste Everybody Knows (Todos Lo Saben) num fascinante thriller dramático. Resultado, uma telenovela encurtada cujo o enredo provocou gargalhadas no visionamento de imprensa, um humor involuntário perante personagem barrocas fragilmente construídas e Javier Bardem a falhar o alvo dramático. Esperamos que este equivoco não se reflita no resto da Competição, até porque contamos com uma remessa refrescante de Cinema com muito a provar e, claro, “caras conhecidas” que não desejem ficar para trás. Por enquanto, Farhadi mostrou que até mesmo os “campeões” não são imunes à derrota.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 02:14
link do post | comentar | partilhar

8.5.18

20180508_125722.jpg

A 71ª edição do Festival de Cannes arranca hoje com Asghar Farhadi à prova de fogo. Será que o iraniano consagrado, um dos nomes favoritos do Croisette, conseguirá estar à altura de tal tarefa? Recordamos que ano passado, Arnaud Desplechin e o seu Les fantômes d'Ismaël (Os Fantasmas de Ismael) silenciaram a imprensa com indiferença. Mas no caso do filme de hoje, Everybody Knows (Todos lo Saben), Farhadi contará com um dos casais mais queridos do cinema atual, Penélope Cruz e Javier Bardem, para um drama em jeito thriller a partir de uma reunião familiar - assim se pode ler na premissa e no trailer já divulgado há alguns meses.

 

É de relembrar que este ano as sessões de imprensa dos filmes da Competição decorrerão em simultâneo com a gala. Segundo Thierry Fremaux, esta decisão tem como objetivo “proteger os filmes”, recordando muitos dos exemplares “destruídos” pela crítica furtiva (à cabeça vem-nos os recentes Sea of Tree, The Last Face e Lost River).

 

 

Contudo, existe um fantasma que percorre os corredores do Palais. Todos questionam o que será de The Man who Killed Don Quixote do norte-americano Terry Gilliam. A decisão jurídica será revelada a partir de amanhã, estando Paulo Branco otimista em relação à justiça. Será que veremos o tão esperado e antecipado filme aqui em Cannes, ou haverá mudanças de última hora? Qualquer que seja o resultado, Portugal de certa forma entrou na discussão de muita da imprensa e críticos. Existe um medo, sim, e sobretudo uma espera. A espera de uma resposta.

 

Quando ao festival, este decorre até dia 19, contando com uma competição rica e, este ano, plena em descobertas, caras novas que contrastarão com veteraníssimos do cinema. Sim, falamos de Jean-Luc Godard e a possibilidade de vermos Le Livre d’Images como o seu “filme-testamento”, até porque existe também aqui uma espera. A queda de um gigante.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 10:37
link do post | comentar | partilhar

7.5.18

4097c75a2ae44c9ffa12ddb6154d2815_XL.jpg

Morreu aos 86 anos, o realizador italiano Ermanno Olmi, autor de obras como O Emprego (1961) e A Árvore dos Tamancos (1978), vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Olmi faleceu esta segunda-feira (7/5) após ter sido internado devido ao agravamento do síndrome de Guillain-Barré, que o mantinha paralisado durante meses.

 

Tendo iniciado o cinema na década de 50 com um rol de curtas-metragens, Olmi aventurou-se no universo das longas em ’59 com Il Tempo Si È Fermato, mas foi com a segunda obra, Il Posto (O Emprego, 1961) que destacou-se a nível internacional. O retrato de um jovem em busca de uma oportunidade para trabalhar numa grande empresa foi o impulsor para uma carreira reconhecida e premiada. Neste último ponto realça-se a Palma de Ouro de Cannes com A Árvore dos Tamancos (L'albero Degli Zoccoli, 1978) e o Leão de Ouro de Veneza com A Lenda do Santo Bebedor (La leggenda del santo bevitore, 1988), filme que contou com o protagonismo de Rutger Hauer.

 

Da sua obra, destaca-se ainda Por Muitos Anos e Bons (Lunga vita alla signora!, 1987), A Profissão das Armas (Il mestiere delle armi, 2001), Cantando por Detrás das Cortinas (Cantando dietro I Paraventi, 2003) e Vedete, sono uno di voi (2017), este último uma biografia do cardeal Carlo Maria Martini, ex-arcebispo de Milão. Venceu por três vezes o Donatello (o equivalente italiano dos Óscares) de Melhor Realizador e honrado com um Prémio de Carreira no Festival de Locarno em 2004.

 

Ermanno Olmi (1931 – 2018)

 


publicado por Hugo Gomes às 12:27
link do post | comentar | partilhar

xcannes-poster-uncropped.jpg.pagespeed.ic.MoDptgW3

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 08:48
link do post | comentar | partilhar

5.5.18

baronesa-filme-01.jpg

 

Júri da Competição Internacional de Longas Metragens

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa

EX-AEQUO

Baronesa, de Juliana Antunes

Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre

 

Prémio Especial do Júri canais TVCine & Series

EX-AEQUO

Baronesa, de Juliana Antunes

Lembro Mais dos Corvos, de Gustavo Vinagre

 

Júri da Competição Internacional de Curtas Metragens

Grande Prémio de Curta Metragem

Solar Walk, de Réka Bucsi

 

Prémio Silvestre para Melhor Curta Metragem

Braguino, Clément Cogitore

 

Prémio Turismo de Macau para Melhor Animação

Rabbit's Blood, de Sarina Nihei

 

Prémio Turismo de Macau para Melhor Documentário

La bonne education, de GuYu

 

Menção Honrosa

Coqueluche, de Aurélien Peyre

 

Prémio Turismo de Macau para Melhor Ficção

Matria, de Álvaro Gago

 

Júri da Competição Nacional

Prémio Allianz para Melhor Longa Metragem Portuguesa

Our Madness, de João Viana

 

Prémio Dolce Gusto para Melhor Curta Metragem Portuguesa

Os Mortos, de Gonçalo Robalo

 

Prémio Melhor Realizador para Longa Metragem Portuguesa

André Gil Mata pela A Árvore

 

Prémio Novo Talento FCSH/Nova

Amor, Avenidas Novas, de Duarte Coimbra

 

Prémio Novíssimos Walla Collective + Portugal Film

Infância, Adolescência, Juventude, de Rúben Gonçalves

 

Menção Honrosa

Fauna, de Lúcia Pires

 

Júri Silvestre

Prémio Silvestre para Melhor Longa Metragem

O Processo, de Maria Augusta Ramos

 

Júri IndieMusic

Prémio IndieMusic Schweppes

Matangi/Maya/M.I.A, de Steve Loveridge

 

Júri da Amnistia Internacional

Prémio Amnistia Internacional

Waste N0.5 The Raft of the Medusa, de Jan Ijäs

 

Júri Árvore da Vida

Prémio Árvore da Vida para Filme Português

Russa, de João Salaviza e Ricardo Alves Júnior

 

Menção Honrosa

Bostofrio - Oú le Ciel Rejoint la Terre, de Paulo Carneiro

 

Júri Escolas

Prémio Escolas

Tremors, de Dawid Bodzak

 

Júri Universidades

Prémio Universidades

An Elephant Stings Still, de Hu Bo

 

Júri do Público

Prémio Longa Metragem

O Processo, de Maria Augusta Ramos

 

Prémio Curta Metragem

Stay Ups, de Joanna Rytel

 

Prémio do Público IndieJúnior DoctorGummy

Professor Sapo, de Anna van der Heide

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 23:13
link do post | comentar | partilhar

3.5.18

Em outubro passado, numa entrevista ao site C7nema, o realizador francês Arnaud Desplechin adiantou que a sua futura obra entrará “em território desconhecido” na sua carreira e que todo o enredo tem ecos hitchcockianos.

 

Com a chegada do Marché do Film em Cannes, vieram à baila novos detalhes sobre o filme. Com o nome Roubaix, A Light,  o projeto vai contar com Roschdy Zem como Daoud, um chefe de polícia experiente e sensato na cidade de Roubaix, no norte da França, que investiga o brutal assassinato de uma mulher por duas mulheres vizinhas e amantes, rotuladas como alcoólatras e viciadas.

 

Recorde-se que ainda em declarações ao C7nema, Desplechin afirmou que se inspirou “num artigo de jornal. Um homicídio, para ser mais exato.”. Desplechin falou-nos que apenas interessa “focar nos factos … somente nos factos.” O filme “será um objeto completamente seco, despido do lado ficcional, mas ao mesmo tempo devedor do estilo imposto por um The Wrong Man (O Falso Culpado), de Hitchcock.”, chegando mesmo a comparar “com o livro In Cold Blood (A Sangue Frio), de Truman Capote, apenas a narração do real, do facto, não havendo espaço para imaginação e pelo suposto.” Quanto a mais pormenores, Desplechin retratará ainda “a condição da mulher nos dias de hoje”, esperando com isso “uma atmosfera bem sociopolítica, nada parecido com o que fizera anteriormente.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 19:14
link do post | comentar | partilhar

1.5.18

MV5BNTAwNDU5MjQyMF5BMl5BanBnXkFtZTgwMDkwMDk1NDM@._

No calor do sucesso de The Avengers: Infinity War, foi divulgado um novo trailer Ant-Man and the Wasp (Homem-Formiga e a Vespa), a aposta da Marvel Studios para o verão. Peyton Reed regressa à realização.

 

O filme continuará a jornada heroica de Scott Lang (Paul Rudd), o Ant-Man ao serviço do Dr. Hank Pym (Michael Douglas). Desta feita contará com a ajuda de Wasp (Evangelien Lilly). No elenco contaremos ainda com o retornado Michael Peña, e as adições de Michelle Pfeiffer como Janet Van Dyne e Laurence Fishburne como Dr. Bill Foster, que nos comics é um dos assistentes, quer de Pym, quer de Tony Stark. O ator Walter Goggins será o vilão de serviço (Sonny Burch).

 

Estreia prevista para julho deste ano.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 17:31
link do post | comentar | partilhar

sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2018:

 J F M A M J J A S O N D


2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Trailer de Green Book: Pe...

Wes Anderson prepara novo...

The Darkest Minds (2018)

Patrick Stewart regressa ...

Mission: Impossible - Fal...

Priyanka Chopra em Cowboy...

Cinematograficamente Fala...

Gotti (2018)

Linhas de Sangue (2018)

Robert De Niro em Joker?

últ. comentários
Acho que será muito bom. O Joker é um personagem ...
Para quem leu o livro, que diga-se de passagem é u...
Gritos 4: 5*Um filme que traz novas regras, novos ...
Bel Ami: 3*A meu ver é fiel ao livro, gostei do qu...
Gritos 3: 5*Que filme excelente e fenomenal, adore...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
25 comentários
20 comentários
13 comentários
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
SAPO Blogs