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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Depois da Guerra Fria, continua a Guerra Fria ...

Hugo Gomes, 21.05.18

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As paixões cercam os tempos negros descritos nesta “fábula” a preto-e-branco. Pawel Pawlikowski, o consagrado realizador de Ida, esse melancólico caminhar nas memórias bélicas e dos horrores em vão, vindos de um país vítima/agressor, uma fonte a ser extraída em “Cold War”. Afirmamos que permanece aqui uma espécie de legado, a ida e vinda de um filme que insere-se e confunde por entre as fatídicas recordações de tempos de amor e ódio, de um conflito visto por entre palas, porque o romance, esse amor platónico que poderia servir como salvação (assim ecoam canções de esperança), resulta num mártir, uma silenciosa perda da sua inocência vendida.

Esta Polónia não se fica pela reconstituição, é um país imaginário que se transforma por entre épocas, e se distancia dos seus protagonistas, porém, sob um falso efeito de segurança (até porque os demónios nunca abandonam as paixões a abater). Nessa mesma nação enfatizada por experimentos sociopolíticos, nasce uma improvável aliança, recolhida através de um ato propagandista de uma identidade em vias de extinção. “Cold War'' começa com um dos desses experimentos, a música a servir mais que um consolo, a perpetuar a História enraizada por entre melodias.

Uma equipa contratada pelo Estado lança-se nessa coletânea de sons e vozes angelicais, uma inicial datação das tradições remotas, as réstias de um país “desaparecido”, para se comprometer numa união de esforços na balada de uma só ideia. Esse socialismo imposto servirá como a aresta picotada desse país que vos falo, e, mais, a expressão antagónica que ameaça o romance prescrito nesta experiência. Assim, nasce esse contexto romântico-dramático que seguiremos ano após ano. A distância, a aproximação, o encontro, a trégua e o choque. O mundo não os quer harmoniosos, por outras evidências, o mundo não os quer juntos.

Entendemos os toques shakespearianos, aliás a tragédia acompanha o percurso sem discrição. Pawlikowski apresenta-nos um amor “impossível” (nada de novo!) mas é na sua inserção que encontramos uma memória. Como a invocada em Ida, em “Cold War” somos remetidos à Guerra nunca vista, porque as atenções estão metaforizadas no bélico dos sentidos. O realizador consegue centrar o classicismo da sua formação e instalá-la nesta conjugação de elementos. Há amor, não através dos elos evidentes das personagens, mas por estas personagens. Pawlikowski deixa claro esse sentimento, até aos últimos minutos, em que desvia o olhar de destinos funestos até à chegada dos créditos finais.

Se “Ida” era considerado um filme frívolo, “Cold War” vai além da sua designação; é a extração do calor no gélido panorama. Apaixonamo-nos por estes atores (Joanna Kulig, Tomasz Kot), amamos esta dupla, o simbolismo friccionado nesta relação, a química que nos aquece em frios planos. Há muito tempo que não se via um romance platónico desta dimensão no grande ecrã, assim como não se presenciava uma dança tão orgânica desde que Luchino Visconti respirava. Sim, é um filme com o seu quê de saudosismo pelo já feito, mas bem empregue neste retrato romantizado de uma guerra sem fim. Até porque finais felizes não existem. Estamos simplesmente “condenamos” a não vivê-los.

Sósia de Ronaldo produziu um “objeto estranho”

Hugo Gomes, 20.05.18

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Coloquemos em “pratos limpos” os reais motivos da primeira longa-metragem de Gabriel Abrantes (em parceria com Daniel Schmidt), existir: por debaixo das caricaturas de Ronaldo e do humor deslocado e desvairado, "Diamantino" tende em seguir uma sátira ácida aos movimentos populistas e nacionalistas que tem crescido por toda a Europa (e não só … Portugal não tem sido exceção).

Nesta feita, partimos para um país imaginário num futuro alternativo e não pouco distante da nossa previsão, para encontrarmos o homónimo Diamantino, o maior craque do futebol, um exemplar perfeito do mundo desportivo. O Midas, assim por dizer, perde o seu dom repentinamente, em paralelo com a morte do seu “querido” pai. O protagonista, sem o intelecto necessário para perceber a sua situação, entra num vórtice existencialista e tenta preencher os vazios com atos humanitários, entre os quais adotar uma criança “refugiada” (sem ele saber que é uma agente infiltrada do Interpol) e integrar a campanha de um Partido Político Renovador (que na verdade esconde uma agenda de supremacia nacionalista).

Carloto Cotta, ator habituado a aventuras foras dos habituais contextos do cinema português (como as obras de Miguel Gomes e o esquecido "Paixão", de Margarida Gil), veste com genica este suposto heterónimo de Cristiano Ronaldo, invertendo alguns maneirismos e distorcendo o seu biotipo (as suas irmãs “malvadas”, interpretadas pelas gémeas Anabela e Margarida Moreira), sem nunca se afastar da proposta caricatural.

Obviamente que essas similaridades são chamarizes para que o espectador embarque na corrente da crítica social e política desta rábula de humor direcionado que dispara com jovialidade e encanto de um visual over-the-top. Aliás, é na sua estética (e digamos, um trabalho astuto no campo dos efeitos visuais), o qual Gabriel Abrantes trabalhou para o conceber na sua jornada pelo universo das curtas-metragens [ver com especial atenção “Humores Artificiais” e o segmento “Freud and Friends” do coletivo “Aqui em Lisboa”], que “Diamantino” parece ganhar um propósito na história do nosso cinema. Um fruto, há muito esperado, diga-se de passagem, das novas gerações e dos olhares (longe de um suposto niilismo) frescos quanto à posição da nossa “indústria” para com o país e com o Mundo.

Se há motivos de celebração, “Diamantino” está longe de ser um exercício perfeito. A ausência de dinamismo na sua concepção e da farsa, que tende em dissipar-se no decorrer da narrativa, tornam-no um objeto frágil como um castelo de cartas. Mas face a estas marés “velhacas” da arte do "storytelling", o filme de Abrantes e Schmidt é um autêntico OVNI que promete, sobretudo, futuras reavaliações.

Há muito tempo que não se via um filme português assim … tão … estranho!

O Cinema Morreu porque Godard deixou de acreditar nele.

Hugo Gomes, 11.05.18

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“Porque estás triste?

Porque falas para mim com palavras e eu para ti com sentimentos.

Contigo não se pode ter uma conversa, tu nunca tens ideias, sempre sentimentos

Não é verdade, há ideias em sentimentos!”

Pierrot le Fou (Jean-Luc Godard, 1965)

 

… que poderá ser respondido com “a condição do Homem – pensar com as mãos” neste “Le livre d’image”, onde se confirma o cineasta franco-suíço como um Deus da Destruição, a destruição pelo seu próprio trabalho e pela própria ideologia. Enquanto no anterior “Adieu au langage” esse apetite dizimador era por si previsto no título, o abandono da ideia de Cinema, ou melhor, da linguagem cinematográfica (erro seu, visto que na destruição surge a criação e no filme galardoado em Cannes de 2014, encontramos uma linguagem na não-linguagem), com este novo trabalho, adivinha-se [especulação], portanto, um filme-testamento. E sob esse signo nasce uma lei termodinâmica, a entropia.

O caos, novamente em vigor para nos induzir uma das doutrinas mais antigas de Godard, o valor da imagem, quer desfeita, quer renegada (como a intervenção cruel à sequência de “Johnny Guitar”). Em sua execução, “Le livre d’image” funciona como literatura em estrofes, solicitando ao espectador a tarefa de atribuir simbolismo a toda esta desarrumação, o interpretarmos e o associarmos às nossas ideias e identidade. É um filme que nasce connosco, como também pode morrer connosco, e é essa razão porque a tristeza abala-nos. Godard já não pensa mais em Cinema, não pensa mais em imagens nem aufere carinho por estas, “rasga-as” e as enquadra desordenadamente em contexto nenhum.

O mesmo se aplica à sonoplastia, desde os trechos dos filmes recortados até ao seu monologo que o indicia num mundo aparte (“terrorismo é uma das melhores armas”). Sim, o debitar de pensamentos de um ativismo algo burguês sem ligações aparente que desvanece da mesma forma que as imagens … já disse o quanto maltratadas estão? Se sim, então não é demais repetir. A certa altura pode-se ler num dos intertítulos a palavra Remake, porta direta ao “refazer”, ao “reconstruir”, ao “refilmar”, ao “remontar”. Sim, é um remake, claro e possível de “The Three Disasters”, curta sua que integrou o filme triádico “3X3D”, a continuação de um ego sem fenomenologia, superior … arrogantemente superior.

Com isto me despeço com o sentimento: se o Cinema Morreu foi porque Godard simplesmente deixou de acreditar nele.