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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

No coração dos "dois" Garrel(s)

Hugo Gomes, 19.04.18

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Quem lida comigo conhece perfeitamente os meus sentimentos em relação à obra de Philippe Garrel, nomeadamente à ultima fase (ainda a decorrer). Contudo, ao rever o "Le Coeur Fantôme" ("O Coração Fantasma") deparei ainda mais com o porquê dessa “repudia” aos seus últimos trabalhos.

Em "Le Coeur Fantôme", Garrel filma expressões, as personagens tem, por fim, uma face a preencher a tela, e nela, sem o uso de qualquer palavra, comunicam emocionalmente com o espectador (o olhar de Luís Rego diz tudo e mais alguma coisa). Uma “mania” perdida com um Garrel que começou a filmar as relações de longe, ingenuamente de longe.

Mas o que mais me fascinou neste revisitar fantasmagórico foi o peito cheio de masculinidade, sem receio às “balas” apontadas. Sim, "Le Coeur Fantôme" é um filme masculino, e ao mesmo tempo um filme sensível sem tentar produzir faíscas de empatia com o género oposto. Fala-nos de amor e ao mesmo tempo interroga esses mesmos afectos. Porquê amamos? Será que amar tem prazo de validade? Ou, teremos a necessidade de amar?

Questões … e questões … questiono … intrigado, porém, questiono .

Um Milhões em cada um de nós

Hugo Gomes, 13.04.18

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Quando era aluno de Cinema comecei, quase por gozo, por escrever um guião (salienta-se - o qual nunca terminei), de um suposto filme sobre o Soldado Milhões. Pretendia desmistificar a Lenda de Heroísmo que hoje chegue como estandarte das nossas Forças Armadas, deixando a nossa mercê o homem que realmente foi.

Ano passado quando recebi a primeira notícia de que esta personalidade iria figurar uma obra cinematográfica, receei, contava que a Lenda nunca iria descolar do tão ilustre Aníbal Augusto Milhais. Mas confesso, que o filme em si, está bastante longe de envergonhar-nos e melhor, evita recitar as "primitivas" cantigas de Deus, Pátria, Família que o Soldado foi anexado em campanha propaganda de Salazar, o próprio militar recusava esse estatuto de Herói.

Por outro lado, como ex-militar, sinto satisfeito que o verdadeiro e proclamado Herói do “meu exercito” tenha sido um soldado raso … raso, não um cabo, não um sargento, não um oficial, não um general … um raso soldado transmontano.

Bem, isto não foi uma crítica ao filme em si, guardarei isso para breve … muito breve. Só queria dizer viva os meus camaradas, amigos e irmãos de armas que conheci em 7 anos de serviço militar!

 

«Cuori Puri»: corações vedados

Hugo Gomes, 10.04.18

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Nem sequer repousamos dos créditos iniciais e a perseguição acontece. Ela corre desalmadamente. Ele a persegue. Uma vedação impede que a corrida se prolongue. Estes dois seres finalmente conhecem-se mesmo que as circunstâncias não sejam as favoráveis, mas foi a compaixão de um que tornou aquele momento … especial. Este início irá de certa forma dialogar com o seu desfecho, porém, o cenário será inverso, mas a vedação lá estará para impedir que as fugas se estendam, rompendo com o seu destino.

Ela, Agnese, vive sob a promessa de celibato, uma decisão crucial, constantemente pressionada pela muito religiosa progenitora. Ele, Stefano, tem o ingrato trabalho de proteger um parque de estacionamento de um supermercado dos ciganos que se encontram do outro lado da vedação, sublinhando-se mais uma vez a presença destes cercos. O mundo deste … é um mundo de violência, que anseia tê-lo como seu retornado, acrescendo ainda o facto dos seus progenitores serem autênticos “pedintes”, e cujas súplicas monetárias atrasam qualquer progresso na emancipação de Stefano. Sim, a esta altura o espectador está familiarizado que ambos estão cercados pelas suas “vedações”, estas mesmas partilham os seus respetivos ADN – a família que se assume como condutora das suas próprias vidas, ou simplesmente os filhos subjugados aos pecados dos seus pais.

“Cuori Puri” é um conto citadino de contornos algo shakespearianos que opera sob a tendência de um cinema marginalizado e sob magnetismos do seu realismo formal. Além do romance “proibido”, consumado pelo desejo de rebeldia, a primeira longa-metragem de Roberto De Paolis comporta-se ao sabor das correntes tendenciosas de um certo cinema italiano que transforma os velhos ensaios neorrealistas em novos retratos humanitários quanto à condição do imigrante / minorias (neste caso a etnia cigana a servir de subenredos antropólogos). Como tal, parece existir uma profundidade de campo neste jogo de flirts e canções de engate confundidos como juras amorosas. Todavia, essa mesma profundidade não adquire a densidade necessária para evadir do universo destes dois apaixonados uma claustrofobia solipsista com pretensões para mais.

Tal como acontece com muitas das primeiras longas, De Paolis tropeça nas suas “virgindades”, mas é a sua recusa pelo celibato cinematográfico que nos leva a crer que teremos algumas alegrias num futuro próximo. Veremos. Contudo, o realizador demonstra uma exímia dedicação no trabalho dos atores, com Selene Caramazza e Simone Liberati a aprofundarem as suas personagens, enriquecendo-as com apaixonadas motivações.