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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Poderia ao menos mudar de amante por um dia?

Hugo Gomes, 19.05.17

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Se o objectivo era uma comédia sobre dignidades traídas pelo adultério, se seguirmos por esse prisma, então o novo filme de Philippe Garrel - L'amante d'un Jour - é capaz de resultar. Entretanto não é por essa vertente que o realizador seguiu. Fazer o mesmo filme durante anos não será considerado um perfeito acto de conformismo? Nesse caso, que se lixe a politica de autores.

"Elon não Acredita na Morte": quando o fim é só o meio de transição, uma figura de estilo

Hugo Gomes, 14.05.17

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Sem querer entrar no território do spoiler, até porque o filme dispõe de certa forma um plot twist que dissipa por fim toda a atmosfera de uma prenunciada catástrofe. Elon, a personagem, é um homem sob uma completa face de negação, que após o desaparecimento repentino da sua mulher, decide procurá-la nos mais prováveis recantos da sua existência. Uma busca ao tentar encontrar a sua amada, que gradualmente o faz desencontrar-se de si próprio.

A câmara segue de forma persistente o ator Rômulo Braga nestas suas andanças malparadas. O espectador é uma testemunha invisível, silenciosa e completamente impotente face aos destinos elididos estampados no grande ecrã. Existe aqui neste registo quase existencial, uma busca e ao mesmo tempo uma voluntária perda do nosso protagonista à realidade que se identifica. Assistimos assim à sua corrupção gradual e aos trilhos que contrapõem o óbvio. Tecnicamente, "Elon Não Acredita na Morte", de Ricardo Alves Jr., é um filme desencantado, regendo-se pelas leis do naturalismo quase neorrealista, as tendências de um cinema ficcional que abraça esse realismo com tamanho afinco.

Elon dialoga ainda (quase esteticamente é certo) com um outro filme, desta feita português, "São Jorge", de Marcos Martins. Ambos abordam um certo inferno social, um ambiente precário de vestes cinzas e o sorriso como uma miragem lendária. São filmes que falam de tempos negros, pessimistas, condenados à solidão individual (o biótopo perfeito de um decadente bovarismo) e cada um à sua maneira exorcizam essa mesma “negritude”. No caso de Elon, o território é bem outro, parece um misticismo herdado dos antepassados amazónicos, dessas lendas que coabitam com a História brasileira. Se não isso, como explicar a cada vez maior recorrência ao sobrenaturalismo como um novo realismo?

Já vimos tal explorar num "Aquarius" (por exemplo), e sob o signo do Indielisboa, no não conciso "Mata-me Por Favor", de Anita Rocha da Silveira. O cinema brasileiro recente tem coligado a esse passado cinematográfico, que por sua vez são as crenças e a eterna fobia ao mundo dos mortos que sujeitam essas mesmas temáticas (por mais reais que sejam). Será um escape, uma alternativa para “sujar” esse quadro de realismo “perfeito”? A verdade é que Elon vence a muitas outras abordagens da chamada “docuficção” por essa hibridez, uma invocação quase “mizoguchiana” desses dois mundos tão desiguais.

"King Arthur: Legend of the Sword": Camelot, esse lugar "parvo"!

Hugo Gomes, 12.05.17

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A Espada era a Lei, mas nas mãos de Guy Ritchie só vemos a desordem. Eis um tratamento puramente estilístico da velha história de espadas cravadas em rochas, senhoras do lago e magos repletos de profecias que esbarram com o tom caótico do realizador britânico. Nesse sentido, é difícil não assumir que estamos perante um filme da sua autoria: os slows vaivéns, as lutas corpo-a-corpo e os voluntariamente atrapalhados planos de golpes sob a consciência do humor negro, tendem em marcar posição na enésima narrativa de A a B com “escolhidos” pelo caminho e uma narrativa despedaçada pelo constante “fast forward”.

O que funcionou em “Sherlock Holmes” (mais no capítulo inaugural que na sequela, sejamos sinceros) falha redondamente nesta jornada a Camelot, uma obra aplicadíssima às temáticas e linguagem dos modelos de entretenimento atual, contraindo uma estrutura endereçada aos videojogos (depois deles invejarem o Cinema, é a vez deste último cobiçar a plataforma do primeiro). Convém dizer que Charlie Hunnam (que encontrou melhor sorte em “The Lost City of Z”, de James Gray) não é certamente o nosso tão procurado monarca, nem sequer um herói com que devidamente nos preocuparíamos, onde é evidente a sua falta de carisma. O resto da equipa, estes cavaleiros da távola redonda, é pura e dispensável palha para contribuir para duas horas de vazio; histórias mais antigas que o tempo e que mesmo assim, não se assumem expiradas. Guy Ritchie fracassa e com essa sua incapacidade desperdiça uma aventura que salienta uma preocupante falta de ideias.

Quando é que Hollywood vai aprender a lição? Ou melhor, quando é que vão terminar estas ditas produções suicidas? Não estará o espectador cansado destas sofisticações que não são mais do que mofo cinematográfico? Sendo assim, mais vale seguir os conselhos dos Monty Python na busca pelo Cálice Sagrado: “On second thought, let’s not go to Camelot, ‘tis a silly place” (“Pensando melhor, não vamos para Camelot, é um sítio parvo”).

O genuíno conto underdog

Hugo Gomes, 11.05.17

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Como acabar o domingo da melhor maneira? Rever o primeiro e original Rocky (a "verdadeira" continuação surgiu 30 anos depois).

O tango / pugilista cinematográfico que veio redefinir o conto do "underdog" para o grande público e não só. Há que constatar que para além dos elos emocionais, da ascensão do proletariado contra um sistema capitalista de "fachada", metaforizado num combate que demora a chegar, John G. Avilden compôs um autêntico retrato do quotidiano de uma Filadélfia em decomposição (poderíamos estampar aqui o Springsteen e o seu Streets of Philadelphia), um camada à deriva de uma América pós-Vietname.

Obviamente, fora isto, e querendo não entrar em "filosofares" de segunda, Rocky, filme e personagem, são bombas sentimentais do catano!

Música ... ¿Por qué no te callas?

Hugo Gomes, 10.05.17

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A música toca e toca em modo playlist, continuamente, imperativamente e ritmicamente perante as imagens que funcionam num vórtice de corpos vazios, que bailam ao som das mesmas de forma dessincronizada. A música, segundo Malick, é a alma de Austin, esse paraíso liberal num estado tão fechado como o Texas, e a única alma verdadeiramente sentida, por a arte invocada por estes ritmos diversos não engendrar com a narrativa visual que o realizador “tímido”, agora prometendo uma maior assiduidade na indústria, gera.

"Song to Song" é a sua nona longa-metragem, a terceira da fase pós-2011 (sem considerar o seu documentário "Voyage of Time"), e a nova evidência de que os autores, por mais inconfundíveis que sejam, também cedem ao mais profundo conformismo. O “culpado” desta presença repentinamente está no digital, a infinidade e o facilitismo que as tecnologias atribuíram ao Cinema, mas para Malick é o prenúncio do seu fim enquanto ser misterioso da indústria, é o cansaço em pessoa de quem não tem mais nada de novo para contar. Triste realidade, "Song to Song" é mais do mesmo em doses malickianas, são as “maliquices” levadas até ao fim e o seu cinema tão “autoral” converteu-se na mais perfeita caricatura, a loucura da repetição e dos problemas de primeiro mundo como base de um prolongado sofrimento de personagens. Esse sofrimento entra em loop, na persistência dos mesmos planos “over and over”, e das frases sussurrantes cada vez menos inspiradas e cedidas a uma lamechice de pacotilha. Será Malick o Pedro Chagas Freitas cinematográfico?

"Song to Song" começa com um triangulo amoroso (Michael Fassbender, Ryan Gosling e Rooney Mara), um ménage de "Dreamers", de Bertulocci, com os mesmos “joguinho” sexuais e de foro emocional. Tais vértices vão-se afastando dando origens a trilhos cada vez mais paralelos entre as diferentes personagens. Sim, é triste chamar isto de personagens, até porque Malick brinca com o vazio, com os movimentos erráticos e circulares destas, nos diálogos impostos num falso-raccord. Não existe espaço para personagens, tudo são bonecos que se pavoneiam perante um autor que se assume desorganizado, espontâneo e refém do seu instinto.

Será isso bom? Não será a Arte um veículo pensante? Ou um instinto humano de comunicar? Conforme seja a escolha, a verdade é que o sedentarismo é um veneno e para Malick esperemos que encontre a cura. "Song to Song" é um som incorrespondido com a narrativa visual, é a prova de depois de Tree of Life, Malick não demonstra qualquer sinal de revitalização, mas sim de preguiça no mais incurável sentido.