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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"Quero Viver!"

Hugo Gomes, 28.05.17

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Descansa soldado, a luta interrompe para o provisório repouso.’ Eles são os militantes ACT UP, defensores do slogan “Quero Viver”, mais que isso, um ativismo fortemente instituído numa sociedade discriminatória que prefere olhar de lado do que atentamente perceber o seu redor (a questão dos seropositivos na entrada de 1990, subjugados às negligências e ao desdém político-social). São os soldados dessa luta inglória, até porque aquilo que rogam é simplesmente uns anos mais, uns dias mais, ou, para menor das causas, umas horas a mais. Mas agora tal não interessa. A batalha intervalou. Recomeça amanhã. Os corpos dos combatentes bailam freneticamente ao som do escapismo, a “batida” que lhes invade as mentes, conforta o espírito, e porque não, o físico vigilante, preparado para mais uma ronda. Mas o corpo destes não é mais que um mero velcro, um casulo onde moléculas interagem, vivem, nascem, morrem, ou simplesmente presenciam o Momento. Com a respetiva vida por um fio, o viver o momento é o mais forte dos prazeres.

Por entre folias e o percurso de punhos erguidos, “120 Battements par Minute” faz-se por um ritmo inconstante, uma partitura de guerra onde o rancho dos soldados tombados, ou em vias de tombar, adquire uma importância dimensional neste eterno confronto. Depois de “Eastern Boys”, o franco-marroquino Robin Campillo regressa ao universo Queer (talvez nunca tenha saído de lá), palavra que os meros adeptos de etiquetas persistem em catalogar. Mas o que vemos não é um enésimo caso “armareado”, é um coletivo retrato de todos nós. Fora géneros e orientações, “120 BPM” é um filme sobre a celebração da vida e o quanto queremos residir nesse “bailado”. Até a morte, maioritariamente induzida como assombração, revela-se uma celebração quando surge, anunciando a chegada de uma nova etapa. Se a vida é na realidade uma compostura de etapas, daquelas que nos comprometem com novos desafios, objetivos e porque não, amores, “120 BPM” usufrui desta metamorfose cíclica de forma a estruturar uma narrativa aberta, sem a recolha de moralismos-objetivos, mas o de simular a vida em mudança através do seu ritmo desalinhado.

Desalinhado … e sob a luz de diferentes cocktails. A hibridez dos teores ocasionalmente nos proporciona uma transposição de imagens, transportando o espectador para além das dimensões. A danceteria que se converte gradualmente num ensaio de moléculas, representações viventes que se estabelecem ou desintegram. A beleza desta experimentação estética condensa a sentença destes guerreiros condenados que se refugiam, temporariamente, numa bolha social.

Determinados em defender a igualdade, a possibilidade de conservar a vida que possuem em prol das mudanças do seu sistema social, uma contradição vista que “120 BPM” é uma obra de extremo contágio com os solavancos da longevidade (o destino que nos espera ou que nos faz esperar), e que encontra em Nahuel Pérez Biscayart o melhor dos peões, nessa submissão pelas mesmas e gritantes nuances. E assim, depois do conflito que intercala esse mesmo trilho, os soldados repousam mais uma vez. Não basta somente combater. Há que aproveitar esse sabor de utilidade e instituir nele um código. A vida tem destas coisas e, de certa maneira, o Cinema também.

O homem que quis ridicularizar Godard

Hugo Gomes, 23.05.17

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Há que admitir a coragem de Michel Hazanavicius em “biografar” aquele que para muitos é um Deus vivo da 7ª Arte. A repudia é iminente, visto que este estudo de um homem que decide reinventar-se, mais do que ele próprio, o seu cinema, soa como uma heresia de tal tamanho, e maior, tendo em conta o tratamento acordado nesta demanda antipessoal.

Encarnado por Louis Garrel, filho de um dos realizadores que mais estima tem por Godard, Philippe Garrel, o cineasta-representação é uma espécie de clown, um herdeiro indigno do slapstick do Buster Keaton ou das vontades de ridicularização de um Monty Python. Ele é uma “pinatta”, pronta a ser verdascada por Hazanavicius e pelo público. Cuspido como uma caricatura, uma imagem generalizada do gigantesco ego, porém, é aqui que reside o maior trunfo deste “Le Redoutable”, a ousadia de transfigurar algo divino, algo intocável, não ceder ao “crowd pleaser” de veneração ao ídolo.

Em entrevista, Hazanavicius falou que por vezes grandes artistas são péssimas pessoas. Não cabe a nós julgar Godard à distância, mas a História é a favor do criador de “Le Redoutable”. A sua instabilidade, o seu narcisismo, a sua obsessão pela afirmação no circuito artístico e político, elementos que contribuíram para a criação de novas linguagens cinematográficas, novas visões para além da narrativa, e ao mesmo tempo o levaram gradualmente ao registo eremita que os seus últimos filmes tem indiciado (convém salientar que não o perdoamos pela crueldade causada a Agnés Varda, captado em “Visages, Villages”).

Mas a crítica ácida e de coñojes termina aqui. O filme entra num registo de autodefesa, uma auto-humilhação para ser mais claro. Enquanto tenta estabelecer uma espécie de meta-cinema para esse propósito, assim como a personificação de Louis Garrel aclama tratar-se de um “ator” e não o “verdadeiro Godard” (reforçando com “ainda por cima um mau ator”), Le Redoutable adquire uma insegurança em seguir avante a sua ideia, em recear o culto godardiano munido de tochas e forquilhas pronto para o tumulto.

Depois há ainda a tendência de mimetizar os maneirismos dos filmes do “homenageado”, remetendo a um “La la Land” referencial, a um doce tranquilizador das fúrias estabelecidas. O resultado dessa brincadeira de parecenças é insuficiente, “espertalhona” e ao mesmo tempo míope, reduzindo toda uma cinematografia (anos 60) para adereços bibelôs. Porém, acima dessa leveza, existe Stacy Martin que se afigura como a atriz Anne Wiazemsky, a relação perturbada de Godard, e cujo esforço trespassa a previsível caricatura.

Poderia ao menos mudar de amante por um dia?

Hugo Gomes, 19.05.17

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Se o objectivo era uma comédia sobre dignidades traídas pelo adultério, se seguirmos por esse prisma, então o novo filme de Philippe Garrel - L'amante d'un Jour - é capaz de resultar. Entretanto não é por essa vertente que o realizador seguiu. Fazer o mesmo filme durante anos não será considerado um perfeito acto de conformismo? Nesse caso, que se lixe a politica de autores.

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