Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Os 10 Melhores Filmes de 2016, segundo Cinematograficamente Falando ...

Hugo Gomes, 31.12.16

Como já é habitual, eis a resolução de 2016 com os 10 melhores filmes do ano, segundo o Cinematograficamente Falando … Chineses a aprenderem a serem chineses, juventude inconstante, animações de tira o fôlego, oitos desprezíveis e uma casa e o mais belo filme de guerra (sem guerra) dos últimos anos.

 

#10) Mountains May Depart

12MOUNTAIN-master768.jpg

O agridoce drama de Jia Zhang-Ke prevê um fim da cultura chinesa e o expansão completa do Ocidente globalizado e heterogéneo. Mas para além da sua crítica evidente, principalmente no terceiro acto onde adquire tons de distopia, Mountains May Depart é o reencontro com as raízes que muitos tendem em abandonar. Para além disso, eis a grande ressurreição de Go West, de Pet Shop Boys

 

#09) Kubo and the Two Strings

_methode_times_prod_web_bin_3fe90068-75c0-11e6-8b1

Como já havia escrito, é puro cliché salientar a árdua tarefa de stop-motion e o esforçado trabalho que os estúdios Laika tem vindo a demonstrar nestes últimos anos. Kubo and the Two Strings é mais que um portento técnico-visual, é uma fábula encantada de "triste beleza" que nos dialoga sobre a perda e como superá-la por vias de outras curas. No campo das animações direccionadas para toda a família, tal mensagem é valiosa e por vezes evitada por motivos comerciais.

 

#08) American Honey

Brody-American-Honey-1200.jpg

Os jovens de Dazed and Confused tiveram filhos, e esses "rebentos" povoam agora o universo de American Honey, um país onde a doçura não mora aqui, o que não evita as suas personagens procurá-la. Na América de Trump, estes rebeldes sem causa seguem por estradas milésima vezes caminhadas ao som das suas regras como um tribo de "meninos perdidos" de Peter Pan. Entre os peregrinos encontramos a revelação Sasha Lane, que sob as ordens de Andrea Arnold, desbota uma emoção algo perdido numa demanda ausente de tais vencidos sentimentos. A viagem não será para todos, principalmente para quem ingenuamente acredita que a juventude é sagradas e imaculada na sua inocência.

 

#07) L'Attesa

movies-042916-latessa-superJumbo.jpg

Piero Messina constrói um filme de gestos e de olhares, onde a perda tenta ser lidada por entre os silêncios. Os diálogos são raros, mas a espera é intensa, por entre uma atmosfera magnética e duas actrizes que se complementem numa só causa, L'Attesa (A Espera) é o mais recente filho de Persona, de Bergman, é o cinema de mulheres fragilizadas na descoberta da sua posição anteriormente questionada. 

 

#06) Saul Fia

SAUL_FIA_SON_OF_SAUL_Still.jpg

O horror acontece na porta ao lado, o medo atinge a sala oposta e o pânico é evidente pelo qual o nosso olhar desvia, ignorando o pesadelo que vivemos. Saul Fia (O Filho de Saul) atinge com uma abordagem improvável no cenário do Holocausto, revisitando os Campos de Concentração para uma perspectiva nada pensada anteriormente. Adeus dramalhões de puxar as lágrimas, até breve cinema estampado no preto-e-branco, bem-vindo Filho de Saul, a citar Primo Levi, a busca da Humanidade onde esta parece ter sido abandonada. 

 

#05) Elle

Elle 2.jpg

Isabelle Huppert constrói em cumplicidade com o agora valorizado Paul Verhoeven uma das mais consistentes e complexas personagens femininas do cinema de 2016. Uma mulher refém do seu desejo, mas forte o suficiente para superar qualquer obstáculo inserido, é a carne e a fantasia unidas ao encontro de um só corpo, um thriller que parece emancipara-se das suas próprias raízes e por fim, dignificar a "vitima" e não o predador. Será Elle a obra-prima há muito pedida de Verhoeven? Só um o tempo dirá, novamente. 

 

#04) Anomalisa

Brody-Anomalisa-1200x630-1451402777.jpg

Tendo como inspiração uma peça teatral, Charles Kaufman e Duke Johnson insuflam vida nestas marionetas para a concepção de um enredo de colectividade, onde o individualismo, essa particularidade vivente em cada um de nós, é uma jóia a ser "desenterrada". O Mundo parece igual a si mesmo, todos parecem exibir a mesma face, as mesmas doutrinas, as ideias empacotadas como ovelhas em rebanho. Depois de A Grande Beleza, de Sorrentino, Anomalisa é esse ensaio existencialista que secretamente ansiávamos. 

 

#03) El Abrazo de la Serpiente

serpiente2.jpg

Ciro Guerra explora um desconhecido universo. A indomabilidade da Amazónia alastra em todo um filme, conduzindo esta história contada em duas vozes e em dois tempos para territórios místicos, quase pagãos que renegam as culturas e crenças de fora. É o desconhecido que nos espera em cada margem do rio Amazonas, é o caos, a loucura, a peste, a febre e por fim, a harmonia encontrada no segredos dos segredos, residido no mais alto cume. A selva também sabe contar histórias. Histórias essas, que reflectem a actualidade do nosso Mundo e para onde caminhamos como seres humanos. Esquecimento, essa terrível maldição, não será imposta aqui neste brilhante filme.  

 

#02) The Hateful Eight

image-w1280.webp

Podem considerá-lo violento, regido ao universo que ele próprio criou através de "migalhas", nada original, reciclável e até vendido. Podem apelidá-lo do que quiser. Quentin Tarantino merece a atenção. O realizador de Pulp Fiction persiste nos temas focados no seu anterior Django para exercer um western gélido que tem como palco o passado, o presente e o futuro de uma Nação. É como "Um Conto de Natal", neste caso, Um Conto de Tarantino, rodeado de personagens taraninescas que despertam o mais profundo jubilo cinéfilo. Longa Vida a Tarantino

 

#01) Cartas da Guerra

35407_48046_15033.webp

Sei que existe o senso colonialista dentro de nós, mas este não é um filme colonial, nem sequer de guerra. É um romance à distância, a da condição do soldado confinado à sua própria solidão, aquela prisão invisível induzido por politicas de outros. É a extrema luta de manter sóbrio perante um mundo bêbado que nos assiste. Ivo M. Ferreira invoca o verdadeiro soldado, não a máquina implacável de guerra implementada pelos prolongamentos do Call of Duty, mas de um homem "barricado" nos seus pensamentos, na saudade de uma outra vida que não seja aquela, mesmo sabendo que pouco sabemos como vivê-la - A Vida Civil.

 

Menções honrosas: O Ornitólogo, O Boi Néon, Evolution, The Childhood of a Leader, The Lobster, O Olmo e a Gaivota

O credo do assassino ... assim se faz uma adaptação

Hugo Gomes, 27.12.16

FB_IMG_1584297916022.jpg

Sobre o filme de Assassin's Creed? O macguffin é parvo como tudo, as personagens estão somente à mercê do esforço dos actores e os visuais, para além de deslumbrar, são demasiado escuros, o que poderá prejudicar a experiência. Mas ... e porque há sempre um mas, existem atributos invejáveis nesta produção e Michael Fassbender, novamente como o "homem mais sofrido do planeta", vale a ida ao cinema. Não é a pior coisa do Mundo, aliás realça a grande fraqueza do jogo (só joguei 5 min e desisti) que é a vertente de ficção cientifica. Série B, profundamente B.

Star Wars está morto?

Hugo Gomes, 14.12.16

FB_IMG_1584298516266.jpg

O que dizer sobre o novo Star Wars? Um fan film com orçamento milionário, alicerçado em múltiplos fan services, com a Disney e a politica a serem incompatíveis como azeite e água e a tentativa de tragédia grega à lá Vingança do Sith a cair pelo "cano abaixo". O que resta é toda uma oleada fórmula "wanna be". Na saída do visionamento houve quem dissesse que "Star Wars estava morto!"

Há vida para além de "Gremlins"? Uma conversa com Zack Galligan

Hugo Gomes, 10.12.16

zach-galligan-wants-godzilla-sized-gremlin-in-part

"Gremlins" (Joe Dante, 1984)

Olha, lá vai o rapaz dos Gremlins“, Zach Galligan pode não ter tido a carreira mais brilhante, mas orgulha-se de ter um êxito, um culto ainda hoje revisto e celebrado – “Gremlins”. Falei com o ator durante a sua passagem em Portugal, na apresentação de uma sessão especial do famoso filme de 1984 no Espaço Nimas e no evento de cultura pop, Comic Con Portugal.

Mais de 30 anos passaram desde a estreia de “Gremlins”, e o filme continua a gerar um certo culto e sucesso entre gerações. Consegue explicar o porquê deste filme ainda ser relembrado ao fim de tantos anos?

Penso que o principal motivo do sucesso é simplesmente porque Gizmo é uma personagem fofa e adorável, e todos parecem adorá-lo. Mas “Gremlins” não se resume a Gizmo. É também um filme que apela a diferentes grupos de pessoas, até porque a noção de seguir e quebrar regras é um conceito universal que as audiências sempre se interessaram, muito mais quando são jovens, que não gostam de regras, ou simplesmente não entendem a sua existência.

Em "Gremlins'', ao quebrá-las trazemos o caos e a destruição, por isso é imperativo sermos corretos. Temos que respeitar as regras. “Gremlins” é, no fundo, um filme moralista, e todos nós gostamos de filmes desse género.

Depois há a noção de que uma criatura tão amigável como Gizmo, tenha a possibilidade de se tornar em algo tão maléfico. Os seres humanos sentem-se dessa maneira, podem ser boas pessoas, mas dentro delas existe aquela possibilidade de revelar um lado negro e destrutivo. Tudo é possível no ser humano, no nosso íntimo temos a coabitação da luz e trevas, o yin e o yang.

Seria possível recriar o original Gremlins na atualidade?

O filme parece, nos dias de hoje, um pouco inocente e julgo que a inocência não tem grande papel na sociedade atual. Cada vez mais evitamos a inocência, seja ela através da internet, das redes sociais, smarthphones, nas mensagens, [risos] vermos pornografia com somente nove anos de idade. Por isso não sei se esse tipo de inocência teria lugar hoje, e se teria passaria por algo bobo e deslocado, ou, na melhor das hipóteses, seria como no caso da série “The Stranger Things”, cuja inocências nos faz desejar regressar a esse período de produção, onde tudo parecia menos complexo e menos complicado.

E como foi o seu casting?

A diretora de casting, Susan Arnold, deu-me uma cena de audição,  a de um rapaz a propor um encontro a uma rapariga. Nada relacionado com os “Gremlins”, era um cena que poderia pertencer a qualquer filme. Por isso aceitei.

No dia seguinte conheci o produtor, era para me encontrar com Joe Dante, mas este estava de “plane sick” (com doença de avião), por outras palavras, não gostava de voar. Ou seja, estava mesmo doente [risos]. O produtor gostou daquilo que fiz e combinou comigo para aparecer depois no âmbito de contracenar com uma atriz. O propósito era existir uma química entre ambos.

Esperei por uma resposta, e como estava de férias, voei até a Flórida e nesse mesmo dia soube da aprovação. Nunca mais esqueci desse dia [risos]. Tive que esperar pelo dia seguinte para voar de volta. Depois tive que assinar um contrato, sem ao menos ter lido o guião.  Foi algo assustador, ter que assinar para um filme, do qual não sabemos nada, mas tive que confiar, visto ser uma produção de Spielberg. Então assinei e li, por fim, o argumento “top secret”.

MV5BZDEzM2U1ZDItZTA0Ny00NjFmLTg3ZDQtNjU0ZDg1OTk3ZT

"Waxwork" (Anthony Hickox, 1988)

Foi aí que percebeu que iria entrar num filme sobre pequenos monstros.

Exacto [risos].

Numa Hollywood tecnológica como aquela em que vivemos, muitos dos atores têm que contracenar com um fundo verde, que no entanto servirá como palco para criaturas CGI. Mas em “Gremlins”, Zach contracenou com animatrônicos. Era uma tarefa difícil interpretar lado-a-lado com criaturas mecanizadas?

Algo que um ator deve ter, é muita imaginação. Faz parte do nosso trabalho. Imaginem a atriz “fulana tal”, o qual não conhecemos de lado nenhum, a interpretar a minha mulher num filme. Teria que fazer cenas íntimas com ela, como por exemplo, segurar-lhe a mão, beijá-la ou a dizê-la que a amo, e na realidade, não passa de uma desconhecida para mim. Existe muita artificialidade na atuação, seja com uma “criatura” ou com uma pessoa que não conhecemos.

Mas quanto à criatura – Gizmo – esta era bastante credível, fazia sons mecânicos, movimentava-se como um animal, parecia estar vivo. Podia até mesmo improvisar com ele. Por exemplo, ao tocar-lhe o nariz, ele reagia. Ou seja, não foi praticamente difícil acreditar que Gizmo era real, até porque os efeitos eram totalmente convincentes.

Então, nos dias de hoje, com a “expansão” do CGI, o trabalho de ator torna-se muito mais difícil?

Sim, completamente, porque simplesmente não temos nada à nossa frente, somos dependentes da nossa imaginação o tempo todo. Temos que improvisar uma criatura à nossa frente, nuvens, um cenário, o quer que seja, termos que imaginar ao invés de simplesmente reagir com algo. Sim, bastante mais difícil.

Como considera a sua carreira fora dos Gremlins?

A minha carreira fora dos “Gremlins” tem sido quase idêntica à de muitos atores. Temos sucessos, o vazio, altos e baixos, trabalho durante 5 a 6 anos, depois já não temos, as pessoas acabam por nos esquecer e de um momento para o outro, nos redescobrem.

Muitos neste ramo tem uma carreira ditada por alguns altos e baixos, períodos de pouca e alta atividade. Relembro o caso de Jackie Earle Haley, que nos anos 70 fez êxito com “The Bad New Bears” (“Que se Lixe a Taça”) e “Breaking Away” (“Os Quatro da Vida Airada”), depois desapareceu, regressando com “The Little Children” (“Pecados Íntimos”) e depois “A Nightmare on Elm Street”. É uma carreira de vaivém, cuja ausência é sucedida a um período de redescoberta e idem, idem.

Somos o “hot topic” do momento, de seguida já não o somos. O que devemos fazer é não ficar aborrecidos com este fenómeno e pensar que provavelmente temos versões melhores de nós próprios. Julgo que uma versão quarentona é boa, mas um “eu” cinquentão é melhor, e provavelmente, um sexagenário meu seja bem melhor que estes que referi.

Tenho uma expressão, o qual utilizo nas minhas aulas de atuação, a carreira de um ator é uma maratona e não um sprint. É uma longa caminhada, e só nos sentiremos realizados ou devidamente reconhecidos quando chegarmos ao fim, um pouco antes de desistirmos na área.

Contudo, tenho o privilégio de dar aulas quando não estou a atuar, por isso, não passo pela experiência de servir mesas ou arranjar pequenos trabalhos para poder sobreviver. Como vês, estou com 52 anos e tenho-me safado bem.

zach-galligan-gremlins-2.jpg

"Gremlins 2: The New Batch" (Joe Dante & Chuck Jones, 1990)

Não fica ofendido, nem sequer desapontado que até à data seja conhecido somente como o ator dos “Gremlins”?

Não. Na minha conta de Twitter eu tenho como “Gremlin’s Guy”, sou o ator dos “Gremlins”! “Olha, lá vai o rapaz dos Gremlins!” Houve tempos em que tal aclamação aborrecia-me profundamente, mas longo encarei o seguinte: ou somos famosos por algo ou somos famosos por nada, e ser famoso pelo filme dos “Gremlins” não é absolutamente mau.

Tenho um ator amigo, o qual não posso dizer o nome, que tem uma carreira brilhante. Certo dia, estava a observar a sua vasta coleção de filmes em que participou, e eu exclamei “Uau, quem me dera ter uma carreira como a tua, ter trabalhado com estes atores fantásticos e com estes realizadores de topo”, logo ele respondeu “pois é, mas tu tiveste um hit”. Ou seja, eu tive um sucesso, muitos atores tem uma carreira estável e nunca conseguem isso. Dou graças por ter um hit e ser relembrado por isso.

Ouve-se falar de um terceiro Gremlins, ou até de um remake. O que pode dizer sobre isto?

Não há remake, isso não irá acontecer. Mas sim, haverá um terceiro filme. Será um projecto novo, provavelmente bastante parecido com o espírito de “Jurassic World” e de “Star Wars: Force Awakens”. Um update, e se forem astutos trarão velhas personagens, assim como a criação de algumas novas. Será um pouco, como trazer o melhor de dois mundos.

Era tudo menos um homem de “Brandos Costumes” ...

Hugo Gomes, 10.12.16

ng7972329.jpg

Morreu o ideólogo do Cinema Novo, o crítico convertido a cineasta e até à data um dos notórios do movimento que alterou para sempre a tradição cinematográfica portuguesa. Passou pelas publicações revistas Imagem, Seara Nova e o O Tempo e o Modo, enquanto escritor e pensador, dirigiu “Brandos Costumes” (a sua mais célebre produção), “Gestos e Fragmentos”, "Mal" e “Rapariga de Mão Morta”, esteve presente no coletivo “As Armas e o Povo”, viu um país em mudança, contudo, antecedeu-lhes à sua idealização. Portanto, não sejamos ingratos em reduzir-lhe a uma mera homenagem, e antes deixar um “obrigado” e consequentemente um “Vamos ter saudades tuas”.

Alberto Seixas Santos (1936 - 2016)

A «Cantar!» para todos os males espantar

Hugo Gomes, 09.12.16

MV5BMTA2Njc1NjAyMzheQTJeQWpwZ15BbWU4MDA5NTg3ODAy._

Confortavelmente sentamos na cadeira para visualizar mais um filme de animação. No nosso interior, esperemos que seja o último do ano, visto que 2016 suou ter sido um ano bem animado, no bom como no mau sentido da palavra. Assim, a sessão começa, entra o logo – Illumination – com os “Minions”, esses “bonequinhos” marketing a fazer das suas. Deste lado, o pior se espera, visto que foi a Illumination que produziu “The Secret Life of Pets”, um ode à violência sem sentido e uma violação à premissa prometida que revelou-se num autêntico êxito de bilheteira (Why?). Do outro lado da sala, ouve-se um “shhhhiiiiiiuuuu”, o filme vai realmente começar.

As portas do Grand Theatre de “nenhures” abrem, um sítio que o espectador mais atento irá aceitá-lo como um anexo de “Zootopia”. Sim, mais um filme de animais antropomorfos! Começa a narração, a voz-off, o qual identificamos como Matthew McConaughey a fazer de tudo para disfarçar o seu sotaque sulista. O ator é um Koala, um pequeno peludo que assiste à sua primeira obra teatral, uma espécie de espetáculo da Broadway, onde uma diva em forma de ovelha “grita” pelos seus pulmões, anunciando todo este flashback prefixo num autêntico “mar de rosas”.

Depois da velha cantiga de cumprir sonhos e afins, chegamos à actualidade, o nosso Koala é agora um produtor desta Broadway, mas um falhado produtor. Antes que alguém invoque o filme de Mel Brooks, é sabido que este marsupial tem um truque na manga, a sua chance de sair da “bancarrota”, aquele buraco, pelo qual se meteu após produções desastrosas e fiascos com “F” grande. Essa iluminação é a premissa de toda esta nova jornada animada, um concurso de talentos musicais.

Enquanto que a sua noção de novo projecto nos parece banal e mais que vendido, como animação, um concurso vocal parece de momento afastá-lo do território básico, mas não tão longe. A partir desta disposição são nos apresentados um diverso leque de personagens que sonham ocultamente ter os holofotes apontados em si. Pequenos backgrounds das personagens aqui e ali para nos situar e contribuir para este “world building”, para depois seguirmos a um casting, mais divertido que aqueles episódios de pré-seleção dos eventuais programas que esta animação alude. Mas obviamente, que esta animação é dirigida a um público específico e bastante abrangente, por isso, deixemos de “concursos” e passemos então à fórmula.

É previsível que após a aplicação da Lei de Murphy, um momento de humilhação algures e voilá, esquecemos as diferenças e todos os anteriores concorrentes se reúnem em prol de um objectivo comum. O final é essa façanha concretizada, com mais resoluções moralistas por metro quadrado que todas as produções de animação deste ano. Mas é uma “viagem” que compensa? Posso levar os meus filhos? Ao menos, diverte? Pergunta o leitor e muito bem.

Sabendo que este tipo de animações industriais tem um propósito principal – money – através da conquista dos nossos “pequenotes”. Mas tendo em conta o lote que tivemos este ano, desde o banalissimo “Finding Dory”, passando pelo desperdiçado “Zootopia”, até ao emocionante “Kubo”, e claro, o engodo chamado “The Secret Life of Pets”, “Sing” é um produto bem intencionado, que não os envergonha e com uma selecção musical que poderá, de maneiras devidamente doseadas, surpreender os mais cépticos. Não, não é dos piores. Não senhor!

Corpses, Corpses ... corpses everywhere!

Hugo Gomes, 08.12.16

553062.jpg

Eva no Duerme (Pablo Aguero, 2015)

deadgirl.jpg

 Deadgirl (Marcel Sarmiento & Gadi Harel, 2008)

the-corpse-of-anna-fritz-1.jpg

 El Cadáver de Anna Fritz (Hèctor Hernández Vicens, 2015)

army.jpg

Swiss Army Man (Dan Kwan & Daniel Scheinert, 2016)

WeekendAtBernies_184Pyxurz.jpg

Weekend at Bernie (Ted Kotcheff, 1989)

General-Zod-Batman-V-Superman-Movie-Michael-Shanno

 Batman V Superman: Dawn of Justice (Zack Snyder, 2016)

The-Autopsy-of-Jane-Doe.jpg

The Autopsy of Jane Doe (André Ovredal, 2016)

Pág. 1/2