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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Posto Avançado do Progresso: Períodos desconhecidos recontados sob descrença!

Hugo Gomes, 15.03.16

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É sabido que Portugal tanto invoca e de maneira gloriosa, os tempos da expansão colonialista o qual apelidamos generosamente de “Descobrimentos”, nomeadamente as conquistas ao desconhecido continente africano, mas pouco se fala da "manutenção" dessas colónias assim declaradas. Enquanto a História nacional tenta apagar desse registo de "ouro" de tão negro período, Hugo Vieira da Silva, um realizador que tem dado nas vistas desde a sua estreia além-fronteiras em 2006, com Body Rice, apela ao retorno a esses capítulos esquecidos, propositadamente, do nosso currículo enquanto país, e o faz através da inspiração do pequeno conto de Joseph Conrad - An Outpost of Progress - publicado em 1897.

Esta transcrição de uma alusiva ficção para outra, indicia-nos um mundo infinito que traduz na mística vastidão da floresta tropical do Congo, hoje descrito como um dos locais terrestres menos explorados e, séculos passados, um lugar povoado por fantasmas e outras fantasias apenas existentes em folclore e na imaginação. Porém, em Posto Avançado do Progresso, os fantasmas são os portugueses, os dois colonizadores que chegam a um entreposto comercial congolense munidos pelos seus fatos brancos que reluzem nas sombras, trazendo consigo ordens e ideologias que não são deste Mundo. Mesmo assim, a dupla protagonista diverge, quanto às suas doutrinas e à respetiva relação com os nativos.

João de Mattos (Nuno Lopes) acredita numa superiorização de "raças" e a urgência de transportar para África o muito da civilização moderna dita europeia, enquanto Sant'anna (Ivo Alexandre) demonstra fascínio por estes mesmos "selvagens", assim como um afeto por estas terras amaldiçoadas. Essas referidas diferenças serão confrontadas com o próprio magnetismo do Congo, assombrando as suas almas com alucinações e distúrbios para além do visível. Outro contraponto do Posto Avançado do Progresso é a imagem exposta dos colonizados, que traduzem uma organização hierárquica diferente daquilo que os portugueses julgam possuir, duas verdades desafiadas que só o espectador aperceberá das particularidades e das limitações dos homens ocidentais em entender a cultura que forçosamente tentam integrar e moldar.

Nesse sentido, Hugo Vieira da Silva induz nas personagens africanas algo mais que apenas apreços etnográficos ou meramente decorativos, e sim em figurações da civilização europeia, dando a entender e a preservar a realeza africana, vista e discutida como uma "casta" inferior, mas eventualmente comparada à hierarquização portuguesa. Esse método reduz-se na referência literária e social da época ou simplesmente histórica, desde Padre António e o misticismo envolto até citações ao escritor Almeida Garret - "O meu nome é Ninguém" - Posto Avançado do Progresso funde dois mundos distintos, divididos pelo Mar Mediterrâneo, porém, intrinsecamente cúmplices do próprio rumo mundial.

A desordem é somente um engodo para que os "intrusos", aqueles que proferem o direito pelas terras "achadas", se percam na vastidão daquele indomável mundo, não pertencente a nativos, nem a forasteiros. E é nesse caos que personifica numa entidade fantasmagórica, abanando dois mundos e afrontando as convenções anteriormente estabelecidas. As alucinações, a possessão selvagem, o desespero, o "progresso" nunca cumprido nem nunca encontrado, elementos que deambulam nas selvas congolenses como animais sedentos pelas suas presas.

Os fatos dos portugueses, sobrenaturalmente cintilantes, perdem o seu brilho, assim como a razão destes viajantes protagonistas. Hugo Vieira da Silva transforma este relato sobre a animalidade do "homem branco" numa demanda cinematográfica cujas referências e homenagens estão presentes como fenómenos. Desde Luis Buñuel, passando pela comédia slapstick muda de um Laurel and Hardy, ou até mesmo a atmosférica sexualidade e estranheza do cinema de João Pedro Rodrigues, tudo amontoa num biótopo criado e erguido pelo mistério, o contra-campo e a sugestão.

Depois de Swans, Vieira da Silva cumpre um retrato compulsivo da nossa ligação inerente com África, o continente arrancado da nossa História através do conflito bélico, mas que mesmo assim produz em nós, um amor proibido, nunca esquecido, mesmo com o decorrer de Gerações. O cinema tem contribuído para esse fascínio, para essa essência magnética, Hugo Vieira da Silva apenas reafirma essa dileção.

Jane Austen conheceu George A. Romero algures!

Hugo Gomes, 13.03.16

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Seth Graham-Smith reinventou o conhecidíssimo clássico literário de Jane Austen, Pride and Prejudice (Orgulho e Preconceito), provavelmente com o intuito de colocar mais "ação" nos recorrentes conflitos da aristocracia britânica do século XIX. O resultado foi Pride and Prejudice and Zombies, um livro que respeitou a estrutura dramática da célebre obra da escritora, ou seja o eventual "quem casa com quem" encontra-se imaculado mas submetido a uma "ligeira" diferença - as personagens vivem aqui um intenso apocalipse zombie.

Assim sendo, toda a donzela tem que "orientar" face a um confronto com os respetivos mortos-vivos (obviamente tendo o casamento como principal objetivo). Os seus dotes vão para além da dança, da boa etiqueta e da conversa de "chacha", as artes orientais de defesa e o manuseamento de mortais armas são tópicos acessos na educação destas garotas de berço de ouro. Um cruzamento fantasioso que em boas mãos resultariam num entretenimento dignamente "camp", mas tal não aconteceu. Esse cobiçado teor "trash" é um estatuto que forçosamente o filme assume, porém, o contratempo é real … tudo é encarado de forma demasiado séria.

Os enredos matrimoniais desta nobreza decadente e fútil ostentam uma dramatização de difícil escapatória, um empate para o segundo plano, esse que envolve "demónios comedores de cérebros humanos", que no fim acaba por perder-se no seu dito entusiasmo, adquirindo assim um severo tom constrangido. Pride and Prejudice and Zombies  (o título português troca insolitamente Zombies por Guerra) tenta ainda invocar as afluências feministas do trabalho da escritora com um ativismo misândrico, o "rebento" desta relação é uma equivoca sobrevalorização da Mulher apenas adereçado a belas esculturais munidas de adagas e sabres. Novamente os produtores a confundir "guerreirices" com feminismo propagandista.

Tudo indica que Burr Steers (Charlie St. Cloud) desejava adaptar (mais uma vez) o clássico integral de Austen para o grande ecrã e que este projeto foi a única solução para concretizar a sua entrada em tal matéria, só que artes marciais e zombies estavam no contrato, sendo que não haveria outro "remédio" do que embarcar esses acessórios. Melhor destino teve a anterior obra de Seth Graham-Smith, Abraham Lincoln: The Vampire Hunter, que nas mãos de Timur Bekmambetov desfrutou de uma produção mais confiante e uma seriedade que funcionou no seu contexto. Quanto a Pride and Prejudice and Zombies, banhada é a palavra mais correta.  

 

"To succeed in polite society, a young woman must be many things. Kind... well-read... and accomplished. But to survive in the world as WE know it, you'll need... other qualities."

O Horror dividido / O Horror por inteiro

Hugo Gomes, 09.03.16

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O ecrã literalmente é dividido! É o split-screen que vem dar o último golpe ao reinado da narrativa estabelecida, o espectador pode por fim escolher por quem torcer. Quer nos agressores automaticamente destroçados e rebaixados a vítimas, ou na vítima que torna-se no mortal opressor. Os papéis invertem, “Carrie” demonstra a crueldade da vingança como a do vingador, assim como Sissy Spacek consegue automaticamente passar da doce e ingénua menina que vive o seu sonho na infernal “bruxa” que muitos pintaram … ou diríamos mesmo, num S.Sebastião com uma última palavra.

Stephen King pode retorcer quantas vezes quiser, o seu desdém por esta adaptação assim como aquela de Kubrick que tanto nós sabemos são a prova viva que nem sempre os escritores possuem o paladar criativo que transcenda entre artes.

Viva o nosso grande De Palma!

Deadpool, o Pestinha

Hugo Gomes, 04.03.16

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Como um miúdo mal comportado, Deadpool anseia pela atenção, quer como personagem, quer como filme, usufruindo da sua classificação "Rating R" para o efeito. Um dos anti-heróis mais "queridos" e marginais da Marvel, cuja fama tem sido cada vez maior com o decorrer dos anos e das constantes petições e revoltas de fãs pelo seu tratamento no muito sofrível X-Men Origins: Wolverine.

Eis que por fim surge a versão mais fiel da personagem, conservando a sua loucura, disfuncionalidade e deslocação para com o ambiente vivido pelas conversões de comics para grande ecrã. Até porque este novo alter-ego de Ryan Reynolds, a quarta barreira é constantemente quebrada, criando uma improvável empatia do espectador com o nosso … em todo o caso … herói. Mas sob a desculpa do "R", das piadas lançadas a 100 a hora e das referências invocadas de forma descuidada, metralhando a todos os sentidos, Deadpool remonta o mais puro e vulgar do cinema dos super-heróis.

Trata-se de uma obra de origem como tantas outras, com cruzamentos não muito definidos ao universo de X-Men, provavelmente o franchise que integrará um futuro próximo, e com um humor de curto rastilho visto que uma história de dever heroicos e de salvamento a "damas em apuros" tem que ser contada. Isto em tempos em que Kick-Ass havia invocado tal ambiente, porém, o sucesso nem teve um terço desta aposta da Marvel / Fox, Deadpool é um ensaio "outsider", pelo menos assim tenta ser o quanto ao universo omnipresente dos super-heróis no cinema. Não, não é nada de original como havia sido descrito, nem algo como criativo que James Gun, realizador de Guardians of Galaxy, defende perante a nova teima dos estúdios em requisitar o “maiores de 17” para futuras adaptações.

Aliás neste último terço, há que aplaudir a ousadia de Deadpool em "abraçar" tal indesejada classificação e mostrar que os super-heróis também enquadram-se num território mais adulto. Lúdico, ocasionalmente divertido, Ryan Reynolds tem a sua "mina de ouro" e a personagem que o irá acompanhar por muitos anos, visto que as sequelas já estão a caminho!

 

"You're probably thinking "This is a superhero movie, but that guy in the suit just turned that other guy into a fucking kebab." Surprise, this is a different kind of superhero story."