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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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The Searchers: procurando o "bom" selvagem no "vil" cowboy

Hugo Gomes, 06.11.15

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O cinema de John Ford sempre inspirou os bons valores norte-americanos: o patriotismo não como um fervoroso facciosismo mas como uma conduta correta a exercer. É óbvio que nos tempos que decorrem, onde a liberdade de pensamento e da crítica tem cada vez mais lugar no cinema, principalmente e contrário do que se leva a crer o oriundo de Hollywood, filmes como The Searchers (A Desaparecida, 1956) parecem tornar-se, quer socialmente e politicamente, obsoletos, a começar pela representação do nativo como o antagonista e o "invasor", o popularmente apelidado cowboy, como o herói americano por excelência. Panfletos visuais que se distorceram no seu percurso temporal, dando origem a um dos mais impressionantes westerns do seu tempo. Pois bem, esta obra de Ford mesmo com décadas em cima sobrevive "à poeira acumulada" com um valor fílmico constante.

Primeiro de tudo, porque em The Searchers encontramos uma verdadeira escola de cinema na arte da realização cinematográfica. John Ford é dotado de um olho clínico e de uma sensibilidade estética singular que "remessa" um suposto e vulgar western (que nas mãos de outros serviria de mero enredo para os revisitados lugares-comuns) para o território da obra autoral. Já ninguém filma assim, de forma divinal os desfiladeiros e as paisagens desérticas do Vale dos Monumentos, situado entre Utah e Arizona, e muito mais, em centrá-los sob um jeito simbiótico à ação descrita (a fotografia de Winton C. Hoch é uma mais valia).

Por outro lado, a face purista americana, as nomeadas discriminações étnicas o qual compõem personagens, principalmente a do protagonista, funcionam como um estudo analítico de uma época, estampando-se como uma linguagem reconstitutiva da mesma. Nesse sentido, os valores de outrora se convertem em ambiguidades que crescem na medula deste thriller do oeste. Dito isto, torna-se agora fácil entender porque “raio” nos simpatizamos com um personagem tão odiável como a de Ethan Edwards (aquele que é um dos papeis mais sólidos da carreira de John Wayne), um cowboy racista assumido e desertor que evidencia sem pudor a preferência de matar um membro da sua família do que aceita-lo após uma interação com índios, os ditos "selvagens" que não são como mais como meros reflexos de uma sociedade hipócrita e possante. Isto seria uma tarefa impossível numa Hollywood mais correta, mas John Ford transforma o exemplo "a não seguir" num dos autênticos anti-herói do seu tempo, genuíno nesse contexto de selvajaria do Oeste.

Selvajaria essa, imposta no efeito de sugestão que The Searchers sujeita-se. Talvez seja a censura e a preservação dos bons valores da época que limitou a violência explicita que poderia culminar, quer física, psicológica ou contextual, "abraçando" essa sugestão como uma escapatória formal ao dialeto das imagens. Ou seja, para além de possuir uma estética invejável, luxuriosamente degradante, John Ford ainda requisita e entrelaça o desconhecido, o que as câmaras escaparam e não interessam em captar. Resultado, um filme com mais alusões e evocações do que supostamente aquilo que se expõe gratuitamente, leituras entrelinhas são então necessárias e escalpes são assim retirados como similaridades de dois lados da História do conflito, tão diferentes e ao mesmo tempo tão iguais.

Se tivéssemos que traduzir para miúdos, The Searchers é um "bonito" western sobre "cowboys bons" contra "índios / selvagens maus", mas sob um olhar mais atento, apercebe-nos que o patriotismo e conservadorismo característico de John Ford é um embuste, o que vemos é o desespero índio, sobrevivendo em terras roubadas e o maniqueísmo evidente é burlado e julgado em praça pública. Aí a decisão é nossa, ou encaramos tudo como uma fantasia cinematográfica com direito a final feliz, ou a extinção de um povo, a conquista abordada por um cinismo fílmico e contraditório. Em que ficamos? Conforme seja o nosso senso, a verdade é que The Seachers é um dos grandes do seu género e nisso estamos de acordo, mesmo nos tempos que decorrem, onde supostamente o "western está morto e enterrado".

"Let's go home, Debbie."

 

Anomalisa: quem quer ser Michael Snow?

Hugo Gomes, 05.11.15

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A temática de Anomalisa tem ligação direta com uma das emblemáticas sequências de Being John Malkovich (Queres Ser John Malkovich?, 1999), a obra de Spike Jonze que contou com o argumento do próprio Kaufman. Nesta respetiva cena, o ator John Malkovich, que interpreta ele próprio, vê-se envolvido numa realidade onde toda a gente é … John Malkovich. A sua face, a sua voz e as suas expressões, tudo replicado nos mais diferentes corpos, um efeito doppelgänger (duplo) novamente requisitado, mesmo sob outras intenções, nesta animação de stop-motion preenchido por veias existenciais onde Kaufman firma o seu potencial nas parábolas criativas.

Aqui, os duplos representam a desintegração do mundo que Michael Stone conhece, um conferencista de motivação pessoal e profissional que sofre daquilo que apelidamos de síndroma Fregoli, uma perturbação psicológica que faz com que o portador acredite piamente que todo os outros são o mesmo indivíduo. Stone, sob a voz de David Thewlis, fica hospedado num hotel curiosamente denominado de Fregoli (não é coincidência!), enquanto confronta o seu passado em estado de erupção e a crise existencial que agrava constantemente, é que o seu redor é homogéneo, a mesma cara estampada em todas pessoas que conhece e que vai conhecendo, o mesmo se refere à voz que lhes é atribuída (por Tom Noonan), onde nem sequer a respetiva mulher e filho, os mais próximos de Stone, escaparam desta maldição/ilusão. Porém, algo insólito no quotidiano de Stone acontece, uma voz divergente, um som há muito não ouvido surge na vida do nosso protagonista.

Anomalisa, inspirado numa peça teatral, também ele da autoria de Kaufman, é uma animação adulta, não somente no sentido temático e no grafismo apresentado mas também pela sua narrativa, que demonstra as raízes do seu material de origem, ou seja do teatro, agraciando-nos com um digno trabalho de mise-en-scéne e da performance interpretativa (sabendo que todas estas personagens são uma mistura de tecnologia e "artesanato"). Sob envolvências kafkianas, Anomalisa emana a profundidade das suas questões filosóficas e existenciais, sempre pautado com um humor subtil e ácido e com um toque visual que todos nós reconheceremos como "kaufmanianos", por outras palavras, digno do universo desta interessante mente que se intitula de Charles Kaufman.

Além disso, este é um filme que acentua a banalidade como um raio de pureza, a singularidade como sinónimo de beleza douradora, e é nisso que Anomalisa parte do principio, não como um romance instantâneo mas como uma reflexão às nossas particularidades, e o apelo de reincidirmos à comunidade que nos força a integrá-la. Tal como acontecera com aquela obra de Paolo Sorrentino, onde a personagem de Toni Servillo deambulava em busca da sua "A Grande Beleza", aqui, Michael Stone procura a sua anomalia, o impulsor que o retirará do mundo que se fez coletivo. Tudo ao som de Cindi Lauper e o seu Girls Wanna Have Fun que ecoa como um canto gregoriano (quase … divinal). Sem palavras para descrever a sua tamanha sensibilidade e conceção. Resumindo: mais um episódio feliz da História do cinema em stop-motion.