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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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"Right Now, Wrong Then": será Hong Sang-soo o realizador acertado?

Hugo Gomes, 24.08.15

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Em “Right Now, Wrong Then” existe uma sequência em que o protagonista, Ham Chun-su (Jae-Young Jung), refere as chamadas quebras de rotina como uma essência viável para o percurso do artista. Mais tarde, revela que a ousadia é também um aditivo para esse mesmo estatuto, um estatuto que o cineasta coreano Hong Sang Soo deseja redefinir, mas que se perde no seu conformismo. Curiosamente, estes diálogos impostos pela sua personagem alusiva (visto o protagonista ser também um realizador de cinema a relembrar as suas fragilidades emocionais e matrimoniais) poderiam tão bem soar como auto-conselhos para a sua celebrada carreira, cada vez mais ascendente. Prova disso é o Leopardo de Ouro recebido na última edição do Festival de Locarno.

O filme, artisticamente falando, é tudo aquilo que esperávamos de Sang Soo, ou seja, mais do mesmo, sendo que neste caso a "pintura" denuncia uma certa renúncia dos seus tiques autorais. Provavelmente esta sua posição poderá ser encarada como um cansaço estilístico ou uma vontade em debater os trilhos percorridos até à sua consagração como cineasta. A "maldita" câmara sem objetividade, arquitetada por close-ups desleixados e de variados planos desenquadrados, é em múltiplas vezes deixada para segundo plano, revelando um interesse particular na própria história de “Right Now, Wrong Then”, que se assume de certa forma numa invocação de memórias intimistas e de desabafos emocionais. Hong Sang Soo instala-se em mais uma enésima revisão das gestações de relações afetivas, proclamando-as num mundo onírico de possibilidades, onde os gestos chegam a adquirir uma relevância descartável perante um destino escrito a tinta permanente.

Como cúmplice nesta demanda ao arrependimento e às essências gastas, mas recordadas do autor, temos o ator Jae-Young Jung a compor uma das personagens mais interessantes (se não a mais) deste seu universo, que chega a preencher a intriga com uma humanidade longe da habitual caricatura. Um fator benéfico para aquela que é uma das melhores obras do realizador. Nota-se sobretudo uma evolução em aproximar a obra ao espectador, sem que isso indique qualquer cedência ao mainstream.

A conquistar o público pelos gestos!

Hugo Gomes, 22.08.15

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Assim chegamos a “A Família Bélier” (“La Famille Bélier”), o mais recente "crowd pleaser" importado da França, que, com os seus ares de graça, conquistou o seu país de origem com uma ternura descritiva, tendo sido várias vezes comparado ao fenómeno “Amélie”. Neste filme de Eric Lartigau, seguimos a jovem Paula (Louane Emera), que vive com a sua família numa casa no meio rural. Porém, há uma particularidade: ela é a única do seu seio familiar que não é surda-muda, o que lhe confere uma responsabilidade quase imperativa de cuidar dos seus entes queridos durante os obstáculos do quotidiano. Mas Paula descobre um talento oculto durante a sua aula de coro. Talento esse que a poderá levar a lugares nunca imaginados, mas, por enquanto, coloca a protagonista num dilema problemático.

A temática da linguagem gestual adquire uma especialidade nesta comédia familiar, que, com a exceção desse termo, se aventura pelos lugares comuns do género. Aliás, tudo é feito de propósito para seduzir o espectador mais mundano, aquele que só descansa ao vislumbrar arquétipos hollywoodianos em produções europeias. O resultado de “A Família Bélier" é um filme isento de estilo, ousadia (mesmo com piadas arrojadas de cariz sexual ou spoof do coming-of-age) e costurado por uma realização minada de tiques televisivos. Tudo soa previsível, uma previsibilidade que se torna cansativa ao fim de 10 minutos e nos leva a mais clichês genéricos.

No entanto, como já referi, é a representação da deficiência auditiva que atribui um toque de singularidade ao filme, ao mesmo tempo que conduz toda a ênfase dramática para os caminhos certos. Nesse aspecto, é de louvar o empenho dos atores Karin Viard e François Damiens ao manusear a linguagem gestual de forma credível para os seus respectivos papéis. Contudo, só o estreante Luca Gelberg, que interpreta o filho mais novo, Quentin Bélier, é o real surdo-mudo deste retrato. A surdez serve aqui como uma "faca de dois gumes"; as suas personagens são induzidas a comportarem-se como figuras dependentes da sociedade e, ao mesmo tempo, como marginalizados—não pela sociedade, mas por si próprios. É como se os surdos-mudos fossem enfants terribles por natureza, e não seres humanos capazes dos mesmos feitos dos "outros".

Mudando de assunto, nada contra o sucesso popular desta obra guiada pelas tendências da época. Aliás, a música é novamente "o prato" para talentos pessoais (até parece que o mundo se resume a isso), envolvida numa musicalidade que ficará no ouvido logo após o visionamento, quase obrigando-nos a gostar desta experiência que remete para o mais vulgar dos espectáculos, e acreditem, nem sequer é dos mais eficazes. Vale mais salientar que, como produto do género vindo da França, “Intouchables”, continua a detentar o seu estado de graça, e pelo andar da coisa, continuará a fazê-lo por muitos anos.

PS - "Je Vole", a música interpretada por Louane Emera numa das sequências-clímax do filme, é uma canção de Michel Sardou que remete à carta de suicídio de um jovem para os pais. No filme, a letra foi alterada para servir como uma despedida de casa por parte de uma filha para os seus pais.

Dura, dura … e dura

Hugo Gomes, 15.08.15

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Um excelente trabalho de produção, é aquilo que podemos tirar partido desta quinta aventura do agente da IMF Ethan Hunt, novamente envolvido em conspirações globais e golpes sob o adjetivo de “impossível”. Aliás, a estrela, Tom Cruise, é um dos responsáveis pela produção deste “Rogue Nation” (“Nação Secreta”), ao lado de J.J. Abrams, o homem multifunções que atribuiu a esta saga o seu “quê” de modernismo durante o terceiro filme. Ambos convertem-se em artesãos num filão globalizado e preenchido com sequências de ação prolongadas e feitas para perdurar na imaginação do espectador … Pelo menos até poucos minutos após o visionamento.

Trata-se do regresso do absurdismo de “Mission: Impossible II”, porém, sem a marca autoral de John Woo e a sua respectiva sofisticação circense. Como resultado disso, “Rogue Nation” absolve-se como um filme isento de personalidade que se esgota ao fim de 30 minutos de duração; um espectáculo consumido e de digestão fácil que abusa em demasia nos seus atributos tecnológicos, em particular à cumplicidade dos CGI com as sequências de ação, dando um cariz artificial quase digno de alguns dos mais competitivos videojogos. Em tempos em que o regresso de “Mad Max” demonstrou que é possível fabricar acção orgânica para grandes massas, “Mission Impossible: Rogue Nation” é pura batotice, mesmo que Cruise nos apresente esforçado, algo pelo qual é conhecido.

Sucedendo a Brad Bird, Christopher McQuarrie tenta anexar algum humor sarcástico ao protagonista, assim como havia feito em “Jack Reacher”, aquela variação do policial “sem papas na língua” dos anos 70 que resultou num filme despretensioso, fluido e acima de tudo modesto – que infelizmente, não conquistou o público em geral. Este salto para uma produção colossal como este “Mission Impossible” colocou-o no mapa de Hollywood, sem se aperceber que tal pretensioso ato poderá ser, popularmente falando, na morte do “artista”.

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Contudo, “Rogue Nation” reserva-nos uma pequena sofisticação, que por si só cairá no modelo do marketing propagandista: a aposta nas personagens femininas que, ao invés de servir, como acontecera nos capítulos anteriores, em protótipos de “bond girl”, evidenciamos mulheres fortes ao comando da ação,: Rebecca Ferguson (que foi tal mal aproveitada em “Hercules”) é um deleite que transforma Tom Cruise na verdadeira “dama em apuros”. Mesmo assim, os desperdícios são vários: Simon Pegg está limitado ao sidekick cómico; Ving Rhames está demasiado delimitado para continuar; Jeremy Renner, que possuía algum potencial em “Ghost Protocol”, revela-se uma personagem fragilizada e ausente; Sean Harris é um vilão promissor, envolvido num anticlímax decepcionante (J.J. Abrams havia concretizado melhor a relação entre herói / vilão).

Nisto, verdade seja dita. Alec Baldwin é acima de tudo Alec Baldwin, por mais que se tente denegrir o homem, ele é puramente carismático. São poucos os atributos que o espectador poderá contar neste produto industrializado. E falando em organizações secretas de “maus da fita”, “Mission Impossible: Rogue Nation” funciona de certo modo como uma compensação precoce para quem aguarda impacientemente por “Spectre”, essa quarta aventura de Daniel Craig na pele do mais célebre agente secreto da história do cinema.

A luta pela emancipação da ideia: falando com Bernardo Lopes, um dos realizadores de "LUX"

Hugo Gomes, 14.08.15

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A curta-metragem “LUX” é de tal forma intensamente preenchida por simbolismos que até mesmo o seu macguffin não é mais que uma metáfora figurativa que propriamente um dispositivo narrativo.

Dirigido por Bernardo Lopes (a sua curta, “Yuan Yuan”, integrou a programação do último FEST) e por Inês Malveiro, ambos alunos do Curso de Cinema da Universidade da Lusófona, eis o loop gerado por um escritor em crise existencial e criativa, Pedro (Sérgio Moura Afonso), isolado no seu mundo apropriado - o seu lar - e testemunho de um insólito fenómeno que por si o conduzirá à raiz dos problemas inerentes. Fenómeno, esse, a multiplicação das lâmpadas, que surge misteriosamente (e de um certo jeito divino), por via de um gesto trivial. O objecto fundamenta ligações ilustrativas da ideia, o funcionamento desta e o processo criativo até à concepção de uma. Nesse ponto chegamos ao "mar de lâmpadas", representado durante a narrativa, que revela assim, as ideias soltas emaranhadas no oblívio, coletadas e organizadas, por via do trabalho de colaboração entre indivíduos externos.

Por outras palavras, a ideia gerada por LUX é simples, a concretização pessoal como um veículo directo ao estado da essencial criatividade e o trabalho colectivo como uma facilidade no percurso desse caminho. Em termos estruturais, a obra decorre inteiramente no interior da habitação de Pedro, uma "ilha" entre quatro paredes que o limita intelectualmente e artisticamente, ao mesmo tempo que o prende às suas emoções, sendo que o clímax obtido é implementado numa varanda, o ponto mais próximo da sugestão fora-de-campo que a obra deseja transparecer.

O trabalho de Lopes e Malveiro insere-se como uma alusão a tudo e a todos, onde o espectador é auto-recreativo, detentor de todo o simbolismo e conhecedor dos atalhos que tais podem incensar na reflexão. Inspirado no conto de Leonardo Da Vinci - A Aranha e o Buraco da Fechadura - “LUX” desenvolve-se mais como um exercício narrativo, imposto por uma moral subliminar, que propriamente um trabalho dignamente dramático de um "coming-of-age" disfarçado. De certa maneira, o que se pretende aqui é uma fábula humanizada e lírica no seu sentido mais visual. A curta-metragem “LUX" foi para além de mais o vencedor do Prémio de Melhor Filme no Over & Out 2015 e prepara-se para seguir numa futura jornada, assim como os seus autores, esses artistas inspirados! 

Como surgiu a ideia do projecto, e das suas relações com o conto de Leonardo Da Vinci?

O “LUX" foi produzido em âmbito académico, como curta-metragem de final de curso da licenciatura em Cinema, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, e o tema deste ano eram os contos populares. Depois de ler uma extensa lista de contos que foram propostos pelos professores, fiquei fascinado com a estrutura narrativa de “Uma Aranha no Buraco da Fechadura”, do Leonardo Da Vinci: breve e sucinto; com um único personagem; num único espaço; eu vs. o mundo, é o conflito que dá dimensão à história. Senti que estes quatro elementos eram, todos eles, compatíveis com a estrutura de uma curta ou média-metragem. Resolvi, por isso, usá-los como um ponto de partida para a história que ia escrever.

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"Nenhum homem é uma ilha", mais do que um retrato sobre a natureza da criatividade e o processo de gestação destas, LUX nos remete ao isolamento voluntário do protagonista. Acredita que existem muitos "Pedros" na sociedade actual?

Sim, sem dúvida. Enquanto estudante de cinema tive a oportunidade de conhecer muitos colegas como o Pedro. Até sinto que já fui como o Pedro, daí ter tido a capacidade de o retratar no “LUX”, mas percebi que na nossa área não podemos abordar o processo criativo desta forma. Não podemos, porque a troca de impressões e de ideias é mais produtiva e interessante do que a individualização da criação. Ainda assim, e mesmo tendo em mente tudo o que referi, pergunto: numa sociedade rotulada e uniformizada como a nossa, que artista é que não tem vontade de se isolar?

O artista é muitas vezes definido como um individualista mental. Mas no filme sugerem o oposto, a necessidade dos outros e dos factores externos para a dita criação. Acredita que o artista pode ser também um ser colectivo?

O artista não só pode, como deve ser um colectivo. Nem que seja, pelo menos, com o seu público e com os colegas de profissão. Não há espaço para egos num país tão pequeno como o nosso. Por divergirmos e nos isolarmos uns dos outros é que não somos capazes (nem seremos) de criar uma indústria nos nosso país. Devemos ter a capacidade de partilhar conhecimento e ideias. De nos ajudarmos e de nos promovermos uns aos outros. Só assim é que o público português ganha a vontade e impulso de escolher aquele filme português entre tantos blockbusters americanos. A própria cultura tem de se solidificar e apresentar-se como uma marca fiel e de qualidade, que já o é, em alguns casos, mas que não o transparece.

O que é para si o Cinema?

O cinema é o meio que arranjei para poder recriar a realidade. Há imensas artes que o fazem, é verdade, mas o cinema tem uma característica que o distingue de todas as outras: apela ao realismo. Daí o espectador entrar muito facilmente nos “sonhos” que a indústria americana produz. Contudo, o cinema que pretendo fazer é distinto dessa abordagem. Eu quero que os meus filmes inquietem o espectador. Que a composição esteja acima da linearidade. Que a poesia esteja acima da prosa. Mas que o real esteja exaustivamente presente em tudo.

Como se vê no futuro? Quais os seus próximos projectos?

O futuro do “LUX” está, felizmente, muito bem encaminhado. Não só estamos prestes a estrear o filme nacionalmente e internacionalmente no circuito de festivais, como acabámos de assinar um protocolo com a nossa universidade para dar início ao projecto Lux Road Trip. O Lux Road Trip é um evento que vai fazer com que o “LUX” seja exibido em todo o país, a partir de um circuito de distribuição alternativa, a acontecer em Maio de 2016. Pessoalmente, encontro-me a acabar de escrever, em parceria com um colega, a minha próxima curta-metragem, "Epílogo", que será produzida no próximo ano.

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Bernardo Lopes e Inês Malveiro

Sobre o ensino cinematográfico? Para si qual é a importância das Escolas de Cinema para o acto de fazer Cinema? E é possível fazer Cinema sem o dito ensino?

É possível fazer cinema com ou sem ensino, seja em Portugal ou no estrangeiro. Agora, o ensino deu-me três coisas que nenhum cineasta terá se não seguir estudos cinematográficos. Primeiro, é na universidade que encontras a tua equipa. Sei que vou trabalhar, sempre que possível, com um grupo sólido que se criou na universidade. Crescemos juntos como pessoas e profissionais, e isso fez com que, como equipa, nos tenhamos tornado coesos e conscientes do trabalho que fazemos em grupo. Segundo, a universidade dá-te a oportunidade de poderes falhar.

Durante o meu curso fiz projectos bons e outros menos bons. Mas só os pude fazer porque me foi dada a hipótese de poder falhar sem que isso tivesse repercussões de maior, o que não acontece quando entramos no meio. E isso fez de mim um melhor argumentista e realizador. Um melhor profissional. Terceiro, obrigou-me a saber lidar com o meio. Por ter ido estudar cinema, fui obrigado a criar relações com as pessoas que me rodeavam. Colegas e professores, nomeadamente. E houve colegas com que me dei melhor, e outros com que me dei pior. Houve professores com que me dei melhor, e outros com que me dei menos bem. Estabelecer relacionamentos com pessoas do nosso meio pode parecer simples, mas tem muito que se lhe diga. O cinema é uma área onde se trabalha em equipa e quem não o sabe fazer, vai ter dificuldades em se tornar num bom profissional.

Meu rico "Gaiola Dourada"!!

Hugo Gomes, 13.08.15

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Do outro lado do Oceano, “A Date With Miss Fortune” (“Um Encontro com o Destino”) tem sido comparado exaustivamente com “My Big Fat Greek Wedding”, tudo porque ao nosso dispor temos a enésima visão pitoresca dos estrangeiros em culturas norte-americanas, onde mais uma vez são retratados como famílias profundamente tradicionais e caricaturalmente bizarras.

Em Portugal, o filme de John L'Ecuyer recebe previsivelmente o cognome da “Gaiola Dourada” canadiana. Porém, em comparação com a obra de Rúben Alves que tanto sucesso fez no nossos país, a modéstia referencial é substituída por estereótipos extremistas, elaborados em traços que induzem-nos fanatismo religioso como patriótico e até mesmo um dotado cariz fascista (e não estamos a falar de nazis). Sim, são estas as características que estão implantadas nas personagens portuguesas que compõem este retrato cómico-amoroso de John L'Ecuyer sobre um encontro acidental que resultou num romance acima do esoterismo e dos vínculos culturais. São filmes como estes que nos fazem perdoar “Love Actually”, de Richard Curtis, e nos fazem realmente questionar que imagem é que o mundo tem de Portugal. Uma questão interessante, contudo, de difícil explicação quando deparamos com o facto da filha de emigrantes açorianos, Jeannette Sousa, ter sido uma das autoras do argumento, para além de protagonizá-lo ao lado do canadiano Ryan Scott.

Mas pondo estas vertentes, que soam a nacionalismo, de parte, o filme resume-se a uma comédia romântica com um promissor ponto de partida a nível narrativo, mas que depressa converte-se num emaranhado de clichés do género. John L'Ecuyer não consegue engrenar no dito registo e quando menos se espera deixa cair a sua imagem profissional e acarreta um protótipo de uma sitcom criada exclusivamente para a internet (até parece que tudo resume-se a um mau episódio piloto de um websérie).

Sem um pingo de graciosidade e genica nas suas gags, em “Um Encontro com o Destino” soma o carisma de Jeannette Sousa, que parece ser a única razão para que este filme tenha sido concebido. No fim disto tudo, temos mais um registo falhado de Joaquim De Almeida em além fronteiras.

Não há nada melhor que Casa

Hugo Gomes, 10.08.15

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“Porquê que me estás a filmar?” “Porque quero mostrar que não existe distância no mundo“. O diálogo é entre Chantal Akerman, na altura vivendo em Oklahoma (EUA), e a sua mãe, residente na Bélgica – e dá-se enquanto ela filma uma videochamada entre ambas. Trata-se de uma distância física dissipada na sua transposição para a dimensão cinematográfica, onde tudo é possível.

No Home Movie” é, como o título indica, um filme sem lar, longe deste, mas erguido sob a saudade do mesmo. Akerman decide por via dessa poética linguagem que o cinema atribui aos sentimentos e à corporalidade, “fabricar” uma declaração de afeto pela sua progenitora, salientando a sua história de vida, a sua personalidade e adaptando o seu grande amor afetivo que, mesmo nos limites da sua própria vida, encontra-se disposta a retribuir. A cineasta volta a tecer uma obra “pendurada” através do seu rico olhar para com a rotina, a solidão e a melancolia, que atinge e nunca deixa de persistir.

É o seu retorno mais pessoal e novamente descrito sob uma ligeira frescura jovial, bastando relembrar os seus tempos áureos em que citava e redefinia o conceito “godardiano” de cinema. Porém, enquanto Godard, o seu assumido “ídolo” cinematográfico, expôs uma faceta mais liberal e simultaneamente desleixada à linguagem cinemática, Akerman reproduz esse mesmo “adeus linguístico” e, sob o seu signo, o enverga nesta sua “carta de amor” bem personalizada.

Um exercício documental em que a cineasta, uma das mais importantes da sua geração e da conduta do cinema modernista dos anos 70, convida o espectador mais vivido a regressar à sua cinematografia. Porém, tal como aconteceu com Godard nos dias de hoje, esse cinema encontra-se mais que “dedilhado”, sendo possível constatar a conversão dos anteriores vanguardistas em isolados conformistas, intatos como corais perante a maré. "No Home Movie" é isso, uma homenagem sentida à figura matriarcal, requisitada pelos previsíveis desvaires autorais. Possivelmente mais relevante para a própria cineasta (recentemente falecida) do que para História e experimentalidade do Cinema.

Em Terra Estranha, a areia vermelha é sinónimo de loucura

Hugo Gomes, 09.08.15

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Nicole Kidman regressa ao seu país de origem – a Austrália – longe dos cenários plastificados da homónima aventura de Baz Luhrmann, mas próximo do território desconhecido e repleto de misticismo quase aborígene, o qual este “Strangerland” (“Em Terra Estranha”) nos apresenta desde o primeiro instante. A primeira longa-metragem de ficção de Kim Farrant ostenta uma atmosfera misteriosa constantemente alimentada pelas características paisagens “aussies” filmadas com o auxílio de drones e de uma sonoplastia envolvente que nos levam ao encontro dos mesmos feitos de David Lynch na década de 90 – o enigmático envolvido em concordância com a sonoridade.

No centro deste retrato enfeitiçado do deserto vermelho e das terras que albergam lendas em que as serpentes são autoras do mundo que tão bem conhecemos, deparamo-nos com a história de um disfuncional casal que atravessa o maior obstáculo da sua respectiva relação no preciso momento em que os seus dois filhos desaparecem sem deixar qualquer rasto. Nicole Kidman é a “dona de casa desesperada”, perturbada por um perfil psicológico que nos é dado gradualmente no desenrolar da intriga, e o seu marido, Joseph Fiennes, é um homem negligente que acaba por ser consumido pelo arrependimento.

Como “intruso” desta relação em plena queda, Hugo Weaving desempenha um agente dedicado em encontrar os tais desaparecidos, ao mesmo tempo entranhado num autêntico turbilhão de emoções despoletadas pela personagem de Kidman. Neste filme temos ao nosso dispor um trio inconformado de atores todos eles dando, à sua maneira, frágeis e traumatizadas personagens que atingem os seus picos de loucura quando menos esperamos. E é nestes momentos que reencontramos o “fenómeno”, uma Nicole Kidman resgatada da sua carreira decrescente e agora sujeitada a um longo transe, em acordo com a narrativa incutida pela fita.

Para além disso, o “território estranho” que o título sugere está muito longe da imagem cénica apresentada, e sim dos lugares desconhecidos e inexplorados que a intriga caminha sob uma forma conturbada, sem nunca envolver-se em explicações de última hora, nem suspeitos em mente. Nada aqui é o que parece, e o óbvio não tem lugar na incondicionalidade deste thriller intimista. No geral, “Em Terra Estranha” é um filme de atores induzidos por uma futura cineasta, cruel para com o seu leque de personagens. Uma obra hipnótica, desconcertante e, à sua maneira, experimental. O enigma da Austrália e os efeitos do seu passado ancestral em cumplicidade com a psicologia das suas personagens.

"Ó Evaristo, fora com isto!"

Hugo Gomes, 04.08.15

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Não é que “O Pátio das Cantigas" seja um clássico absoluto do cinema mundial. Foi, sim, um objeto do regime salazarista que caiu atualmente nas boas graças do povo português e ainda hoje integra parte do nosso diálogo e tradições. Quando se fala de “O Pátio das Cantigas”, se menciona, obviamente, filmes como “A Canção de Lisboa”, “O Leão da Estrela”, “O Costa do Castelo”, entre outros e, com exceção de O Pai Tirano, todas elas comédias ditas populistas que tiveram o favor de transladar um humor de revista e de rádio para o grande ecrã. Foi como o cinema português deu os primeiros passos “corretos” no sentido do que julgava ser cinema comercial.

Por outro lado, eram filmes moralistas, adeptos dos bons costumes e de conteúdos limitados em consequência do regime político que se vivia. Nota-se, por exemplo, a célebre sequência do tumulto no arraial do “Pátio das Cantigas”, em que a personagem de Vasco Santana leva um grupo de crianças para um recanto obscuro e aclama: “aqui não lhes acontece mal nenhum“, no mesmo local onde se vê uma tabuleta com a inscrição SALAZAR. Sim, sempre existiram mensagens subliminares nestes filmes que respeitavam os chamados “três Fs” de Salazar. Porém, a ideia de um remake ou “homenagem”, como cobardemente se quer auto-intitular este filme, é uma manobra arriscada e que dificilmente nos diz algo sobre a época em que vivemos. Leonel Vieira conduz um grupo de atores, todos formados na escola da televisão, imagem adversa do elenco original, “extraído” da rádio e do teatro, que suportam personagens por vias de meras caricaturas e confronto entres egos ou, como no caso de Miguel Guilherme, uma descarada imitação do Evaristo de António Silva. Até a melhor atriz do elenco, Anabela Moreira, encontra-se num desperdício herege.

Como referência à digna “caixa-maravilha”, este “O Pátio das Cantigas” tresanda a todo um registo televisivo, especialmente com o seu humor descartável, pouco imaginativo e, por vezes, de mau gosto. Existem mesmo sitcoms nacionais mais sofisticadas que toda esta lavagem “pseudomoderna”, já que o modernismo fica-se pelo “pastiche” e pelo product placement que controla o quotidiano das suas personagens e não o contrário. É um pátio míope, sem textura nem dimensão e, pior, sem vida, para além daquela incutida artificialmente para “português ver”.

Da mesma forma, enquanto produtos mais originais e ousados da nossa cinematografia são desprezados pelo seu público, são “coisas” como estas que auferem o seu título de filmes “populistas”. Por fim, se eu tiver que nomear algo de bom neste exercício travestido de comédia, é que Leonel Vieira consegue ser mais sóbrio a nível técnico e de planificação em comparação com Nicolau Breyner e o seu “híbrido “7 Pecados Rurais”. Cinema? Não, autocolante televisivo. Homenagem? Não, simplesmente oportunismo.