![18725402_573eP.jpeg]()
A curta-metragem “LUX” é de tal forma intensamente preenchida por simbolismos que até mesmo o seu macguffin não é mais que uma metáfora figurativa que propriamente um dispositivo narrativo.
Dirigido por Bernardo Lopes (a sua curta, “Yuan Yuan”, integrou a programação do último FEST) e por Inês Malveiro, ambos alunos do Curso de Cinema da Universidade da Lusófona, eis o loop gerado por um escritor em crise existencial e criativa, Pedro (Sérgio Moura Afonso), isolado no seu mundo apropriado - o seu lar - e testemunho de um insólito fenómeno que por si o conduzirá à raiz dos problemas inerentes. Fenómeno, esse, a multiplicação das lâmpadas, que surge misteriosamente (e de um certo jeito divino), por via de um gesto trivial. O objecto fundamenta ligações ilustrativas da ideia, o funcionamento desta e o processo criativo até à concepção de uma. Nesse ponto chegamos ao "mar de lâmpadas", representado durante a narrativa, que revela assim, as ideias soltas emaranhadas no oblívio, coletadas e organizadas, por via do trabalho de colaboração entre indivíduos externos.
Por outras palavras, a ideia gerada por LUX é simples, a concretização pessoal como um veículo directo ao estado da essencial criatividade e o trabalho colectivo como uma facilidade no percurso desse caminho. Em termos estruturais, a obra decorre inteiramente no interior da habitação de Pedro, uma "ilha" entre quatro paredes que o limita intelectualmente e artisticamente, ao mesmo tempo que o prende às suas emoções, sendo que o clímax obtido é implementado numa varanda, o ponto mais próximo da sugestão fora-de-campo que a obra deseja transparecer.
O trabalho de Lopes e Malveiro insere-se como uma alusão a tudo e a todos, onde o espectador é auto-recreativo, detentor de todo o simbolismo e conhecedor dos atalhos que tais podem incensar na reflexão. Inspirado no conto de Leonardo Da Vinci - A Aranha e o Buraco da Fechadura - “LUX” desenvolve-se mais como um exercício narrativo, imposto por uma moral subliminar, que propriamente um trabalho dignamente dramático de um "coming-of-age" disfarçado. De certa maneira, o que se pretende aqui é uma fábula humanizada e lírica no seu sentido mais visual. A curta-metragem “LUX" foi para além de mais o vencedor do Prémio de Melhor Filme no Over & Out 2015 e prepara-se para seguir numa futura jornada, assim como os seus autores, esses artistas inspirados!
Como surgiu a ideia do projecto, e das suas relações com o conto de Leonardo Da Vinci?
O “LUX" foi produzido em âmbito académico, como curta-metragem de final de curso da licenciatura em Cinema, da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, e o tema deste ano eram os contos populares. Depois de ler uma extensa lista de contos que foram propostos pelos professores, fiquei fascinado com a estrutura narrativa de “Uma Aranha no Buraco da Fechadura”, do Leonardo Da Vinci: breve e sucinto; com um único personagem; num único espaço; eu vs. o mundo, é o conflito que dá dimensão à história. Senti que estes quatro elementos eram, todos eles, compatíveis com a estrutura de uma curta ou média-metragem. Resolvi, por isso, usá-los como um ponto de partida para a história que ia escrever.
![18725418_aLgmj.jpeg]()
"Nenhum homem é uma ilha", mais do que um retrato sobre a natureza da criatividade e o processo de gestação destas, LUX nos remete ao isolamento voluntário do protagonista. Acredita que existem muitos "Pedros" na sociedade actual?
Sim, sem dúvida. Enquanto estudante de cinema tive a oportunidade de conhecer muitos colegas como o Pedro. Até sinto que já fui como o Pedro, daí ter tido a capacidade de o retratar no “LUX”, mas percebi que na nossa área não podemos abordar o processo criativo desta forma. Não podemos, porque a troca de impressões e de ideias é mais produtiva e interessante do que a individualização da criação. Ainda assim, e mesmo tendo em mente tudo o que referi, pergunto: numa sociedade rotulada e uniformizada como a nossa, que artista é que não tem vontade de se isolar?
O artista é muitas vezes definido como um individualista mental. Mas no filme sugerem o oposto, a necessidade dos outros e dos factores externos para a dita criação. Acredita que o artista pode ser também um ser colectivo?
O artista não só pode, como deve ser um colectivo. Nem que seja, pelo menos, com o seu público e com os colegas de profissão. Não há espaço para egos num país tão pequeno como o nosso. Por divergirmos e nos isolarmos uns dos outros é que não somos capazes (nem seremos) de criar uma indústria nos nosso país. Devemos ter a capacidade de partilhar conhecimento e ideias. De nos ajudarmos e de nos promovermos uns aos outros. Só assim é que o público português ganha a vontade e impulso de escolher aquele filme português entre tantos blockbusters americanos. A própria cultura tem de se solidificar e apresentar-se como uma marca fiel e de qualidade, que já o é, em alguns casos, mas que não o transparece.
O que é para si o Cinema?
O cinema é o meio que arranjei para poder recriar a realidade. Há imensas artes que o fazem, é verdade, mas o cinema tem uma característica que o distingue de todas as outras: apela ao realismo. Daí o espectador entrar muito facilmente nos “sonhos” que a indústria americana produz. Contudo, o cinema que pretendo fazer é distinto dessa abordagem. Eu quero que os meus filmes inquietem o espectador. Que a composição esteja acima da linearidade. Que a poesia esteja acima da prosa. Mas que o real esteja exaustivamente presente em tudo.
Como se vê no futuro? Quais os seus próximos projectos?
O futuro do “LUX” está, felizmente, muito bem encaminhado. Não só estamos prestes a estrear o filme nacionalmente e internacionalmente no circuito de festivais, como acabámos de assinar um protocolo com a nossa universidade para dar início ao projecto Lux Road Trip. O Lux Road Trip é um evento que vai fazer com que o “LUX” seja exibido em todo o país, a partir de um circuito de distribuição alternativa, a acontecer em Maio de 2016. Pessoalmente, encontro-me a acabar de escrever, em parceria com um colega, a minha próxima curta-metragem, "Epílogo", que será produzida no próximo ano.
![18725414_OjcE3.jpeg]()
Bernardo Lopes e Inês Malveiro
Sobre o ensino cinematográfico? Para si qual é a importância das Escolas de Cinema para o acto de fazer Cinema? E é possível fazer Cinema sem o dito ensino?
É possível fazer cinema com ou sem ensino, seja em Portugal ou no estrangeiro. Agora, o ensino deu-me três coisas que nenhum cineasta terá se não seguir estudos cinematográficos. Primeiro, é na universidade que encontras a tua equipa. Sei que vou trabalhar, sempre que possível, com um grupo sólido que se criou na universidade. Crescemos juntos como pessoas e profissionais, e isso fez com que, como equipa, nos tenhamos tornado coesos e conscientes do trabalho que fazemos em grupo. Segundo, a universidade dá-te a oportunidade de poderes falhar.
Durante o meu curso fiz projectos bons e outros menos bons. Mas só os pude fazer porque me foi dada a hipótese de poder falhar sem que isso tivesse repercussões de maior, o que não acontece quando entramos no meio. E isso fez de mim um melhor argumentista e realizador. Um melhor profissional. Terceiro, obrigou-me a saber lidar com o meio. Por ter ido estudar cinema, fui obrigado a criar relações com as pessoas que me rodeavam. Colegas e professores, nomeadamente. E houve colegas com que me dei melhor, e outros com que me dei pior. Houve professores com que me dei melhor, e outros com que me dei menos bem. Estabelecer relacionamentos com pessoas do nosso meio pode parecer simples, mas tem muito que se lhe diga. O cinema é uma área onde se trabalha em equipa e quem não o sabe fazer, vai ter dificuldades em se tornar num bom profissional.