Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

"Right Now, Wrong Then": será Hong Sang-soo o realizador acertado?

Hugo Gomes, 24.08.15

e7faa18dbbaa6bac63c2fa9fbd8607d9d0d98eb32fc8d0e30e

Em “Right Now, Wrong Then” existe uma sequência em que o protagonista, Ham Chun-su (Jae-Young Jung), refere as chamadas quebras de rotina como uma essência viável para o percurso do artista. Mais tarde, revela que a ousadia é também um aditivo para esse mesmo estatuto, um estatuto que o cineasta coreano Hong Sang Soo deseja redefinir, mas que se perde no seu conformismo. Curiosamente, estes diálogos impostos pela sua personagem alusiva (visto o protagonista ser também um realizador de cinema a relembrar as suas fragilidades emocionais e matrimoniais) poderiam tão bem soar como auto-conselhos para a sua celebrada carreira, cada vez mais ascendente. Prova disso é o Leopardo de Ouro recebido na última edição do Festival de Locarno.

O filme, artisticamente falando, é tudo aquilo que esperávamos de Sang Soo, ou seja, mais do mesmo, sendo que neste caso a "pintura" denuncia uma certa renúncia dos seus tiques autorais. Provavelmente esta sua posição poderá ser encarada como um cansaço estilístico ou uma vontade em debater os trilhos percorridos até à sua consagração como cineasta. A "maldita" câmara sem objetividade, arquitetada por close-ups desleixados e de variados planos desenquadrados, é em múltiplas vezes deixada para segundo plano, revelando um interesse particular na própria história de “Right Now, Wrong Then”, que se assume de certa forma numa invocação de memórias intimistas e de desabafos emocionais. Hong Sang Soo instala-se em mais uma enésima revisão das gestações de relações afetivas, proclamando-as num mundo onírico de possibilidades, onde os gestos chegam a adquirir uma relevância descartável perante um destino escrito a tinta permanente.

Como cúmplice nesta demanda ao arrependimento e às essências gastas, mas recordadas do autor, temos o ator Jae-Young Jung a compor uma das personagens mais interessantes (se não a mais) deste seu universo, que chega a preencher a intriga com uma humanidade longe da habitual caricatura. Um fator benéfico para aquela que é uma das melhores obras do realizador. Nota-se sobretudo uma evolução em aproximar a obra ao espectador, sem que isso indique qualquer cedência ao mainstream.

Não há nada melhor que Casa

Hugo Gomes, 10.08.15

images-w1280.webp

“Porquê que me estás a filmar?” “Porque quero mostrar que não existe distância no mundo“. O diálogo é entre Chantal Akerman, na altura vivendo em Oklahoma (EUA), e a sua mãe, residente na Bélgica – e dá-se enquanto ela filma uma videochamada entre ambas. Trata-se de uma distância física dissipada na sua transposição para a dimensão cinematográfica, onde tudo é possível.

No Home Movie” é, como o título indica, um filme sem lar, longe deste, mas erguido sob a saudade do mesmo. Akerman decide por via dessa poética linguagem que o cinema atribui aos sentimentos e à corporalidade, “fabricar” uma declaração de afeto pela sua progenitora, salientando a sua história de vida, a sua personalidade e adaptando o seu grande amor afetivo que, mesmo nos limites da sua própria vida, encontra-se disposta a retribuir. A cineasta volta a tecer uma obra “pendurada” através do seu rico olhar para com a rotina, a solidão e a melancolia, que atinge e nunca deixa de persistir.

É o seu retorno mais pessoal e novamente descrito sob uma ligeira frescura jovial, bastando relembrar os seus tempos áureos em que citava e redefinia o conceito “godardiano” de cinema. Porém, enquanto Godard, o seu assumido “ídolo” cinematográfico, expôs uma faceta mais liberal e simultaneamente desleixada à linguagem cinemática, Akerman reproduz esse mesmo “adeus linguístico” e, sob o seu signo, o enverga nesta sua “carta de amor” bem personalizada.

Um exercício documental em que a cineasta, uma das mais importantes da sua geração e da conduta do cinema modernista dos anos 70, convida o espectador mais vivido a regressar à sua cinematografia. Porém, tal como aconteceu com Godard nos dias de hoje, esse cinema encontra-se mais que “dedilhado”, sendo possível constatar a conversão dos anteriores vanguardistas em isolados conformistas, intatos como corais perante a maré. "No Home Movie" é isso, uma homenagem sentida à figura matriarcal, requisitada pelos previsíveis desvaires autorais. Possivelmente mais relevante para a própria cineasta (recentemente falecida) do que para História e experimentalidade do Cinema.