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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Dia em que se reencontrou a Humanidade!

Hugo Gomes, 16.05.15

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Do estreante realizador húngaro László Nemes, Saul Fia (O Filho de Saul) é uma autêntica adversão aos lugares-comuns impostos pelo popularmente apelidado cinema de Holocausto. Aqui, sob uma câmara que dificilmente descola do protagonista, o espectador é inserido numa descida aos “infernos”, num retrato tenso e perturbador que nunca invoca o explícito, mas que investe numa jornada em busca da humanidade restante em cenários desoladores, um pouco como uma alusão à filosofia incutida por Primo Levi no seu bestseller - Se Isto É um Homem.

Em Saul Fia, seguimos Saul (Géza Röhrig), um membro do Sonderkommando, prisioneiros judeus encarregues do “trabalhos sujos” no campo de concentração de Auchswitz, como forma de prolongarem as suas respetivas vidas. Saul tornou-se num espectro, isente de compaixão e de solidariedade com os demais com que partilha o trágico destino, a palavra de ordem, aquela que acate todo os dias é a pura lei da sobrevivência. Contudo, num incontável dia, um acontecimento o marca, e nesse determinado momento, o nosso protagonista indiferente aos horrores que o envolve é submetido a uma demanda a essa mesma escuridão que tanto evita, de forma a concluir o seu último ato de humanismo, aquilo que o diferenciará dos demais encarcerados.

Se o espectador ousa pensar que Saul Fia é o enésimo arquétipo dos territórios comuns do cinema de Hollywood referente a tal tema, então deve-se dizer que esta é a sala errada. Descrito como um anti-Lista de Schindler, Lászlo Nemes (sob um argumento da sua autoria) escusa de procurar um final feliz no centro desta "selvajaria", ao invés disso, invoca um pedaço de História morta (sucumbida, mas bem presente nas nossas heranças) para salientar um ensaio existencialista puro e duro da nossa regressão ao instinto primitivo. Um instinto que todos conhecem bem e que faz estremecer neste atmosférico cenário.

O fulgor épico, falsamente enxertado, bem poderia ingressar numa das páginas da Divina Comédia de Dante Alighieri, porém, neste caso, sem Virgil nem outro guia, Saul enfrenta sozinho esta injustificável gruta de Minos. Saul Fia funciona como um realismo vincado que transborda a narrativa e que desvia-nos do olhar mediático que o cinema por vezes parece indiciar na desolação de outrem. Assim sendo, o espectador está à mercê da sua imaginação, do seu julgamento e da intima interpretação quanto à Humanidade perdida e novamente achada, ingloriamente desafiada pelas nossas próprias convenções. Os horrores persistem, e a nossa consciência é que tais afrontas existem e decorrem na sala ao lado, a metros do nosso protagonista e na interação deste com as audiências, não diretamente (sem quebrar a quarta barreira), mas confessando-nos, suplicando pela nossa cumplicidade.

Uma primeira grande obra distinta, invejável e corrosiva na sua filosofia interiorizada. Com filmes assim, contornando todos os possíveis clichés, é normal o Holocausto continuar a assombrar-nos para toda a eternidade. Poderoso!