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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Crimeia, mon amour

Hugo Gomes, 23.09.14

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Russos na Crimeia! Agora que já consegui a vossa atenção, vou então prosseguir. O que temos aqui não é nenhum filme de teor político sobre o mediático conflito que faz correr tinta nas diversas manchetes da imprensa internacional. Não, em “Name Me”, de uma estreante no território das longas-metragens, a russa Nigina Sayfullaeva, o que encontramos é um drama conflituosamente psicológico que nos remete ao caos como uma força impulsora. Força, essa, motivada por um voluntária, mas não inofensiva, “troca de identidades”. A história remete-nos a duas jovens moscovitas, as amigas inseparáveis Olya e Sasha, que seguem viagem para a região da Crimeia para conhecer por fim o pai de Olya. Mas, quando chega a hora da verdade, esta sente-se insegura quanto ao tão esperado encontro. Assim sendo, Olya pede a Sasha para “trocar de lugar com esta”, visto ser uma rapariga mais espontânea e menos inibida. No início toda esta situação torna-se divertida e gratificante, mas cedo Sergey [o pai] começa a desconfiar do sucedido e as consequências são assim desvendadas.

Acredito que este “Name Me” foi um filme concretizado sem a menor intenção de invocar uma crítica social e política, mas tal e qual como a suposta “brincadeira inocente” dos seus protagonistas, o inevitável é algo que não se consegue contornar e assim sucedem as sequelas. Há duas maneiras de “ler” este filme: a primeira como o enésimo drama da busca pela entidade paternal num conturbado coming-to-age; a segunda, com as personagens e as suas situações a surgir como espelho do panorama atual onde, por mais que a opinião pública discuta o tema, tudo se resume a um conflito ambíguo e de delicada abordagem. Name Me” é um filme vertiginoso em termos emocionais, filmado com um naturalismo que só salienta esses mesmos sentimentos e a dupla vencedora de atrizes (Alexandra Bortich, Marina Vasilieva) revela-se um duo explosivo, quer na interpretação, quer pela evolução a que as suas personagens são submetidas.

Por sua vez, Konstantin Lavronenko (de “The Return”, de Andrey Zvyagintsev), apresenta-nos uma figura negra de difícil interação com o espectador. Porém, a tarefa não é impossível e, quando o consegue, impossível é mesmo largar essa compaixão. Estes “três peões” formam um triângulo aguçado que tendem a comprimir gradualmente sob um cenário que se demonstra frio e por vezes hostil para o efeito. A narrativa os acompanha com uma certa cumplicidade enquanto num tremendo loop de emoções. Esta é uma fascinante primeira obra, que visa uma construção versátil nas suas personagens e a desconstrução da sua ênfase dramática, ao mesmo tempo que tece uma demanda cronista e subliminar do conflito da Crimeia, perceptível a quem pretender ver para além das aparências.

Para onde vão os músicos de intervenção?

Hugo Gomes, 15.09.14

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Por muito tempo pensou-se que os músicos de intervenção eram “figuras” obsoletas, presos a uma época onde a opressão era tida como rotina, e cujos seus actos de rebeldia musical serviriam como ninfas de alento quotidiano. Mas afinal o que acontece a esses mesmos profissionais quando o Inverno que haviam combatido desaparece e automaticamente dando lugar à Primavera (metaforicamente falando)? Será que vale a pena lutar pelas restantes injustiças sociais que por eventualidade surgem? Deve-se continuar a manter a mesma postura revolucionária mesmo quando os tempos que decorrem não requisitam, aparentemente, tal atitude? “Mudar de Vida” não responde diretamente a essas perguntas, mas deixa no ar a sugestão para as suas resoluções.

Um projecto de baixo-orçamento, erguido por um crowdfunding, que centra na personalidade de José Mário Branco, um autêntico homem de sete ofícios: produtor, músico, actor de teatro e activista. Neste momento o leitor deverá estar a interrogar quem será a dita “personagem”, mas a verdade é que o tempo não foi muito sereno para este artista, que após uma luz da ribalta como um dos heróis do 25 de Abril (foi produtor da eterna música de Zeca Afonso, “Grândola Vila Morena”) ficou esquecido e descartado como uma peça inutilizada do chamado novo arco democrático português. Branco tentou de tudo para encontrar um propósito da sua existência nos anos que seguiram, tentou o teatro, a produção de novas músicas e colaborações com novos artistas, mas foi vítima de uma subvalorização e de um desrespeito político como também do desinteresse do “povo”, pelo qual sempre defendeu contra, segundo o próprio, a “tirania da burguesia”.

O Pedro Fidalgo e Nelson Guerreiro converte “Mudar de Vida” numa peça de tributo, retalhista da vida do homenageado, mas acima disso e talvez refletido na própria figura de José Mário Branco, temos um documento sobre as mudanças políticas e sociais de Portugal, oportuno num tempo em que cada vez mais sentimos a necessidade de uma nova mutação. Recheado com raras imagens de arquivo e a narração e condução de José Mário Branco de um jeito espirituoso, “Mudar de Vida” envolve-nos com uma vitalidade pertinente, sabedoria e muita provocação. É um filme corajoso como a figura que presta (figura essa, que é um verdadeiro “trunfo”).

Mudar de Vida é uma questão que não está resolvida

Lingerie de luto

Hugo Gomes, 10.09.14

87902831_661360244609697_755559728905453568_n.jpgDick Tracy: No grief for Lips?

Breathless Mahoney: I'm wearing black underwear.

Dick Tracy: You know, it's legal for me to take you down to the station and sweat it out of you under the lights.

Breathless Mahoney: I sweat a lot better in the dark.

- Warren Beatty e Madonna em Dick Tracy (Warren Beatty, 1990)