Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Quando o romance prevalece como a maior das epopeias

Hugo Gomes, 23.08.14

la-vie-dadc3a8le-chapites-1-2-2013-de-abdellatif-k

lea-seydoux_-bleu.jpg

la-vie-dadele-chapitres-1-et-2-photo-1167447.jpg

Primeiro de tudo esqueçam as polémicas em volta das extensas cenas de sexo (que segundo as más-línguas roçam a pornografia) e concentrem-se na própria simplicidade que “A Vida de Adèle” (“La Vie d'Adèle - Chapitres 1 et 2”), a quarta e triunfante obra de Abdellatif Kechiche, emana. Obtendo o mérito de conquistar a Palma de Ouro do último Festival de Cannes, num ano em que o júri era presidido por Steven Spielberg, “A Vida de Adèle” é baseada numa banda desenhada de Julie Maroh, “Le Bleu est une Couleur Chaude”, a história de amor entre uma jovem subjugada aos seus dilemas emocionais, Adèle (Adèle Exarchopoulos), com uma estudante de Belas-Artes, a lésbica assumida de cabelo azul, Emma (Léa Seydoux).

Este é um filme sobre relações afetivas, os polos positivos e os negativos que irão gerar fervorosas paixões consumidas. Trata-se de um retrato sobre dois seres que desafiam as próprias barreiras das convenções sociais em prol do amor e da cumplicidade, uma relação que é preservada, mas não eterna perante a distância intrínseca que se propaga e evidencia-se durante a narrativa. Ou seja, Abdellatif Kechiche constrói uma obra de velho registo, o clássico “when boy meets girl” (neste caso “when girl meets girl“) que está mais que vendido para o grande ecrã, onde o autor segue para lá do happy ending e provoca assim os próprios cânones cinematográficos, aproximando-o cada vez mais do realismo que não se limita ao estético e interpretativo, mas sim às componentes emocionais.

É que em pouco menos de três horas de duração, o realizador consegue “pintar” um quadro trágico e cru, onde a câmara, que prefere os grandes planos, parece alimentar-se das emoções dos atores, originando uma invasão de intimidade entre o espectador e as personagens. Tal câmara responde a um testemunho que não procura o espectáculo, mas sim o decifrar dos códigos das afinidades afetuosas. Se o realizador é eficaz em tal demanda? Diríamos antes que Kechiche é perfeito no papel de “voyeurista emocional“, onde o seu modus operandis persistente, repetitivo e constantemente impertinente torna-o num implacável produtor ou irradiador de sentimentos, os quais parecem arrebatar todo o ecrã.

Adele (1).jpg

Tudo isto não funcionaria na perfeição se “A Vida de Adèle” não fosse envergada por duas atrizes dispostas a ser submetidas a tal experiência “kechichiana”. São desempenhos poderosos, não no sentido mais estonteante de muitas das prestações oscarizadas de Hollywood, mas sim pela naturalidade que empregam. Apesar de Léa Seydoux ser a sedução em pessoa, é em Adèle Exarchopoulos que os elogios caem em força. A jovem atriz consegue não só esboçar uma personagem carnal, pontuada por um desenvolvimento quase digno do registo literário, mas também pela “penetração” na essência do filme. Com isto quero dizer que derivado à forma diretiva que Kechiche opera, o qual as suas obras são suportadas pelos seus atores que cedem a uma constante “tortura interpretativa”. Exarchopoulos responde ao desafio exposto com uma espontaneidade de “cortar o fôlego“.

“A Vida de Adèle” é um filme belo, não no sentido figurativo nem concretamente visual, mas sim na sua forma experiencial, incutindo e simulando na perfeição uma história que muito bem poderia ser vivida por qualquer um, independentemente das orientações sexuais, etnias, religião e classe social. Um dos grandes filmes do ano, onde as emoções continuam a ser o próprio espectáculo cinematográfico.

Ilo Ilo: sentido o afeto pela primeira vez!

Hugo Gomes, 12.08.14

http___com.ft.imagepublish.prod.s3.amazonaws.jpg

Há mais por onde olhar em Ilo Ilo do que aquilo que a câmara de Anthony Chen nos possibilita. Desde o primeiro momento, a estreante longa-metragem do singapurense (vencedor da Câmara de Ouro do Festival de Cannes em 2013) aufere-nos um rigor em transmitir uma tensão insuportável entre as suas personagens, uma credibilidade de "afiar a faca" entre os membros desta realidade quotidiana, ao mesmo tempo que tece um híbrido entre o emocional e o nostálgico com o retrato social e financeiro de um país em vias de ser "estrangulado".

Trata-se de uma rescrita visual através da memória, uma invocação dos sentimentos e afetos passados do autor, refletidos neste constante soneto. Ilo Ilo decorre nos final dos anos 90, com a crise financeira asiática a avançar com um caçador furtivo se tratasse. No centro deste "mundo suspenso em dominó" encontramos a família Lim que contrata a filipina Terry para ajudar na lida da casa. O impacto inicial entre a "estrangeira" e a respetiva família está longe de ser pacífica, em principal destaque com o filho do casal, um rebelde menino de dez anos chamado Jiale que promete fazer a vida negra à empregada. Contudo, a relação entre os dois acaba por melhorar, nascendo uma ligação especial.

Anthony Chen constrói um filme realista por meio de planos fechados, trémulos e sob o efeito da sugestão. Aos poucos vai tecendo uma veia sentimental que "dispara" no último ato. E mesmo que as consequências nos levem a certos lugares-comuns, Chen nunca baixa em momento algum a guarda e evita requisitar a fábula cinematográfica, mantendo-se e fiel ao realismo das imagens nem que com isso exponha a violência das mesmas. Ilo Ilo é um drama familiar que tem a virtude de se moldar, converter em algo mais o pressuposto, invocando "demónios" sem nunca os exorcizar. Assim sendo, para além do enredo principal, a fita embrulha-se num cenário de época enquanto revela à "luz do dia" os ecos de uma crise financeira e social, que condenou vidas e atrasou objetivos e carreiras promissoras.

Uma estreia faustosa e comovente. Anthony Chen conseguiu captar a nossa atenção neste quadro híbrido de saudade e urgência - estamos interessados em conhecer o que a sua carreira nos reserva.