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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

O Sangue: um rio transversal a um novo tipo de cinema português

Hugo Gomes, 18.07.14

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Na primeira longa-metragem de Pedro Costa, o rio que surge diversas vezes em cena é consideravelmente uma entidade fantasmagórica, talvez o grande condutor de toda intriga e a certa parte, a artéria sanguínea deste O Sangue. Se o rio é relevante, as suas personagens tornam-se atípicas em relação à intriga que o cineasta em “verdes anos” culmina, mas sempre com um pé atrás em cometer o óbvio.

São relações longe de ser consumidas e pequenos mundos isolados que surgem numa prisão invisível que o realizador constantemente esboça por vias de uma ruralidade contrastada com a vida citadina (que entra no terceiro ato, como um lugar frio e povoado por seres "leprosos"). Um crime oculto é o que une dois seres desencontrados, embora reconciliados entre os segredos e a tragédia, e a ilusão de uma independência anárquica que motiva dois irmãos separados por gerações. "Sabes qual é a maior invenção do Homem?", a questão que ecoa diversa vezes sem uma resposta óbvia, deixando o espectador refletir ao mesmo tempo que aceita a rebeldia da narrativa imposta por Costa.

Neste seu primeiro filme, é evidente desvendar os traços característicos da filmografia do realizador, entre os quais o seu endurecedor pessimismo e a frieza com que são criado os seus personagens, Pedro Hestnes é o boneco ventríloquo dessa "voz". Um embrião solitário do Cinema Novo, O Sangue tem referências ao revitalizador cinema da Nouvelle Vague e a teatralidade de um Alain Resnais, assim como a imprevisibilidade dos seus gestos e os poemas proclamados da vulgaridade. Mas para dizer a verdade existe aqui um paralelismo com Leo Carax, talvez ambos os cineastas elevam um movimento cinematográfico ainda longe de ser ouvido, a rebelião de um cinema despreocupado com julgamentos, onde as ideias se fundem no lirismo das situações e nas características impróprias dos personagens.

A condizer com estes fatores, uma fotografia há muito não vista no panorama português e arrisco a afirmar que estamos perante num dos melhores exemplos do preto-e-branco numa altura em que tal coloração tornou-se obsoleta e propícia à expansão da veia artística. O Sangue é um cinema português camaleónico, expressivo não no sentido literal, mas em forma, descrito por uma fotografia ímpar, conservadora do seu estado de graça, ou seja as alusões que resultam em uma nova "criatura".

 

 

Njinga, A Rainha da Angola: realeza, guerreira e rotineira ...

Hugo Gomes, 10.07.14

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Segundo o novo e ambicioso filme de Sérgio Graciano (Assim, Assim) - Njinga: Rainha de Angola - os colonos portugueses tiveram complicações no seu dito processo de colonização em parte do território angolano (Ndongo e Matamba), em causa estavam tribos ferozes e belicamente astutos liderados por um mulher guerreira e detentora de um espírito indomável, mesmo pelos homens da sua nação. No mesmo filme de Graciano, o povo que insurgiu contra a coroa portuguesa e de igual forma aos seus costumes ocidentais, falam … português, e um português bem moderno e contextualizado sem dúvida.

Contudo, esta não é a única incoerência que Njinga possui, para além de uma rainha letrada, os holandeses que não são mais que portugueses de sotaque e adornos inexplicáveis para as circunstâncias, temos a nosso dispor todo um conjunto de tratamentos novelescos a uma história guerrilheira com promessas fartas de um fulgor épico. Depois é a construção narrativa, cruel para quem desconhece os factos históricos e a cronologia de uma relevante mulher mas absolvida pela banalidade da sua produção (mais interessada em extrair um teor televisivo que apresentar rigor na sua reconstituição). Poderíamos ter suspeitado, visto que por detrás desta produção cinicamente ambiciosa está uma cadeia de televisão angolana – Semba - com claros interesses em transformar toda esta "tarefeira" em série de horário nobre. Enfim, até mesmo como produto de televisão, Njinga é "marcado" por desempenhos dramaticamente baças, conflitos esquematizados e até mesmo sequências de batalhas destinadas ao fracasso teatral.

É pena que Graciano não possuiu "unhas para tocar tal guitarra", o essencial não era somente imprimir imagens mas sim conseguir expressar da maneira mais glorificante para com a figura homenageada e conectá-la com a credibilidade histórica. Mas é certo que o realizador tem um certo toque para com a câmara, chegando mesmo … vejam bem … a esboçar um plano sequência digno do cinema de Antonioni (mal empregue, verdade seja dita). Por fim, há que salientar que Njinga: A Rainha de Angola é de momento a "pedra no calçado" de Rodrigo Leão, o compositor português reconhecido em produções hollywoodescas apresenta aqui o seu pior trabalho. Sobra então a fotografia …