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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Cadences Obstinées ... a obstinar “talento”

Hugo Gomes, 31.03.14

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Cadences Obstinées marca o segundo trabalho da atriz Fanny Ardante como realizadora, a última das musas de François Truffaut e o motivo de vénia no La Grande Bellezza de Paolo Sorrentino, quatro depois da sua estreia em Cendres et Sang. Enquanto no seu primeiro produto, a diva usufruía das influências teatrais para esboçar um filme metódico e agarrado a ciclos (onde a estética é acima de tudo valorizada), nesta pseudo-intelectualidade remetida a “parte alguma” assenta puramente no artístico das suas imagens sem possuir decerto, palavras para o preencher.

É a história de amores perdidos, entregues com paixão mas dissipados pelo tempo e pelo ócio, que nos transporta para um triângulo amoroso a régua e a esquadro onde personagens e interesses são substituídos por “bonecos” automatizados sob consciências vazias. Em Cadences Obstinées, produzido por Paulo, tudo soa a falso, a presunção intelectual escorrida sem mensura, a citação de frases algures entre a pretensão poética ou o somente “pacóvio” sem dó nem piedade, os atores náufragos (Asia Argento por outro lado comete jogging sem compaixão) e uma intriga esgotada a fim de 10 minutos.

Sim, é tudo perda de tempo, é o caminhar sob disfarces e mantos com Fanny Ardant a autoproclamar-se de autora, sem o conhecido básico de sê-lo nem as razões para tal, a esconder-se no improviso experimental a fim de evitar a sua inutilidade. Ao menos poderia ter tirado partido da sua experiência enquanto esteve ao lado de cineastas de vanguarda como Truffaut, Resnais ou Varda, assim saberia verdadeiramente transgredir as regras pelo qual muito vezes o cinema encontra-se acorrentado, mas “bolas!” nem oito nem oitenta.

Sem ou com crachá

Hugo Gomes, 07.03.14

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Como já dizia Jack Nicholson em The DepartedWhen I was your age they would say we can become cops, or criminals. Today, what I'm saying to you is this: when you're facing a loaded gun, what's the difference?”, conselho que parece fazer sentido face a um filme como este Street King, em que policias e criminosos pouco ou nada se distinguem. Uma mistela cada vez mais usual para se expor como uma denuncia a essa diluída equação binária. Porém, muitos seguiram estas mesmas pisadas, a quebra do fascínio da violência e do vigilatismo de ‘70 e o choque frontal com 11/09/01, levaram a América, neste caso a Hollywood, a dissecar o seu próprio sistema de combate à criminalidade com um olhar não tão ingénuo assim.

É o auscultar das “cicatrizes interiores”, é a ambiguidade como veste para a conceção de “novos heróis” … ou mais precisamente a desconstrução dos velhos e do próprio conceito. Antoine Fuqua e agora este emancipado David Ayer, um novo subgénero dentro do formatado policial. Pena, que em Street Kings, a permanência de um estilo não o resgata da “garras” do corriqueiro.