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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

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Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

House At The End of the Street (2012)

Hugo Gomes, 30.12.12

Lawrence em busca do estrelato em lixo!


 

Os 600 milhões de dólares rendidos por todo o Mundo de The Hunger Games não deixam espaços para erros, Jennifer Lawrence está condenada a ser uma estrela em ascensão. A jovem e cada vez mais relevante actriz tem os atributos perfeitos para desempenhar a heroína que os adolescentes necessitavam, ela é carismática, talentosa e deveras versátil, coisa que talvez falhe numa por exemplo, Kristen Stewart. Em 2010, Lawrence andou no rasto dos ossos do seu pai no frio mas calculista drama The Winter’s Bones de Debra Granik, o que lhe garantiu uma nomeação ao Óscar na categoria de Melhor Actriz Principal, em 2011 se juntou á equipa de super-heróis mais famosa do Mundo (não, não são os The Avengers) em X-Men: First Class de Matthew Vaughn e por fim é em 2012 que a bela jovem encontra-se frente a frente com um futuro promissor. A sua influência é já tão grande nas bilheteiras que mesmo produtos de tão fraca estabilidade como House At The End of the Street de Mark Tonderai, conseguem vingar nas bilheteiras.

 

 

Este conto algures entre o terror e o thriller é tão desinspirado, insonso e esquizofrénico que é mesmo a actriz Jennifer Lawrence que funciona como o motor da própria narrativa. Imagina-se um resultado completamente desastroso com a ausência da estrela, e é pena sendo que House At The End of the Street não se figura entre remakes nem sequelas do género, mas o seu argumento é um “wanna be” disfarçado que se baseia em inúmeras intrigas já vistas e revistas porém sem definir qual delas quer seguir. A fita de Mark Tonderai nem se preocupa com o climax, nem com o esforço de emanar suspense, tudo se desenrola com um ritmo apático e sem força, nem testes de aprofundamento quer nos personagens como na afinidade entre elas (triste desperdício de relação entre mãe e filha).

 

 

Depois para finalizar temos um final que consegue ser ainda mais “tasteless” que o próprio filme, oferecendo ao espectador um twist sem relevância para aquilo que se acabou de ver. Um objecto para esquecer!

 

“I like the way you see things... I like the way you see me.”

 

Real.: Mark Tonderai / Int.: Jennifer Lawrence, Elisabeth Shue, Max Thieriot



 

Morreu Paulo Rocha

Hugo Gomes, 29.12.12

 

Morreu esta manhã, dia 29 de Dezembro, o cineasta português Paulo Rocha, uma das referências do Cinema Vanguardista Português. O realizador encontrava-se hospitalizado num Hospital Privado do Porto devido talvez aos efeitos de um ataque vascular cerebral que obtiveram há cinco anos atrás, tinha 77 anos e 50 de carreira. Foi assistente de direcção de Jean Renoir e de Manoel De Oliveira, mas foi na realização a solo que se destacou, Os Verdes Anos de 1963 e Mudar de Vida de 1967 continua a ser algumas das obras mais ímpares da nossa cinematográfica. O cinema português ficou mais pobre!

 

Paulo Rocha (1935 – 2012) 

Jack Reacher (2012)

Hugo Gomes, 28.12.12

Reacher: O futuro do herói de acção?


Há coisa de meses, encontrava-se presente nas nossas salas de projecção, uma das mais vastas colecções de heróis de cinema alguma vez imaginada, obviamente não falo de The Avengers e a suas figuras em fato de licra, mas sim The Expendables 2, a sequela visionada por Sylvester Stallone que reunia a maior parte dos “velhinhosaction-mens do anos 80 (e não só). Todos faziam parte do mesmo modelo; figuras imaculadas, invencíveis que pouco tempo têm para demonstrar as suas facetas mais fracas e humanas. Stallone, Schwarzenegeer, Willis e claro, Chuck Norris, fazem parte desse mesmo catálogo onde exércitos não são desafios renhidos e os vilões, sempre de teor megalómano, eram abatidos que nem tordos, por fim tudo terminava com um inevitável abanar da bandeira.

 

 

Contudo os tempos mudaram, o 11 de Setembro ainda permanece presente no coração de qualquer cidadão americano como do resto do Mundo, que para além de tragédia inesperada e desumana serviu como uma exposição das fragilidades de um país que acreditava constantemente ser dono da verdade e da justiça e fabricante de heróis. A partir dessa data algo negra, as mentalidades mudaram assim como a postura do herói do cinema de acção modificou, tornando-se mais frágeis, mais humanos já que a falha e o fracasso faz parte das suas vidas como também é nisso que lhe aufere forças para continuar as suas respectivas demandas. E é contra essa tendência pós-Bourne que já chegou a contagiar a eterna personagem de Ian Fleming, 007 – James Bond, surge-nos um novo alvo do cinema de acção, Jack Reacher, criação literária de Lee Child, onde o actor Tom Cruise recria sob o signo de Dirty Harry. Ele é implacável e incorrupto, nem lei nem doutrina, nem morais nem reflexões o fazem realmente mover, apenas a justiça pelas próprias mãos como um vigilante se tratasse.

 

 

O actor parece embarcar no estrelato com esta sua nova aparição de ícone de acção, encher a personagem da imaginação de Lee Child com brutalidade, carisma e uma frieza mecânica algo digna das verdadeiras máquinas de matar do cinema, além disso a completa com uma dedução que faz invejar a Sherlock Holmes. Cruise resulta como Reacher tal como o realizador e argumentista Christopher McQuarrie (também escreveu The Usual Suspects de Bryan Singer) concretiza plenamente a transcrição do universo de Child para a grande tela, com ela a invocação de uma figura quase em extinção como também o ambiente digno e ritmado dos thrillers de acção dos anos 70, onde Steve McQueen, Charles Bronson e claro Clint Eastwood ditavam as suas leis nas ruas.

 

 

O início de uma futura saga que promete ser obsoleta nos tempos de hoje, desencaixada da nossa realidade cinematográfica, mas que porém torna-se num filme de acção vibrante e algo nostálgico que tal como protagonista não assume as consequências. Jack Reacher é uma aposta ganha na acção, cujas sequências são nítidas e desempenhadas com espectacularidade e classe. A intriga não irá certamente vencer nenhum prémio de criatividade mas não trata o espectador como idiota e além demais consegue ressuscitar alguns fantasmas indesejáveis, invocando por exemplo os ataques terroristas na Noruega em 2011 recriadas de maneira déjà vu num início assombroso.

 

 

Por fim existe algum humor bem conseguido que descontrai o espectador e um elenco secundário capaz, que vai desde a beleza e charme de Rosamund Pike, as veteranas presenças clássicas de Robert Duvall e Richard Jenkins e Werner Herzog como um vilão sádico e de instinto supérstite. Jack Reacher está aprovado, que venham mais.

 

“You think I'm a hero? I am not a hero. And if you're smart, that scares you. Because I have nothing to lose.”

 

Real.: Christopher McQuarrie / Int.: Tom Cruise, Rosamund Pike, Werner Herzog, Richard Jenkins, Robert Duvall



 

Amour (2012)

Hugo Gomes, 27.12.12

Prova de Amor!


Michael Haneke abandona o thriller psicológico, mesmo que este seu Amour, vencedor da Palma de Ouro do último Festival de Cannes e de uns quantos elogios por esse mundo fora, seja igualmente intenso. A nova obra-mestra do realizador austríaco tão bem conhecido pelo público pelo seu trabalho em Funny Games (1997), Caché (2005) e The White Ribbon (2009) não permanecerá apenas na memória por ser um se não o filme mais aclamado do ano 2012, obviamente não é devido a esses termos. Amour de Haneke merece ser relembrado por ser aquilo que é, um hino com a assinatura do autor ao afecto mais inconsolável e duro de morrer.

 

 

Eis um retrato ausente de sentimentalismo e lamechice que não tenta de certa forma impressionar os mais susceptíveis nem fazer uso do drama “puxa-lagrimas” barato, Michael Haneke pinta uma gradual descida ao infernal beco sem saída que é a morte, mas além de mais o aborda numa perspectiva que os românticos mais incuráveis aclamaram como a prova definitiva de amar. O cineasta invoca as promessas mais difíceis de cumprir, integradas nos votos matrimoniais, onde o qual se pode anunciar: amar e cuidar na saúde e na doença até que a morte os separe, votos, esse que Michael Haneke parece ter levado á risca e na coluna da perfeição com o seu casal descrito.

 

 

Jean-Louis Trintignant, actor francês algo desaparecido no cinema e refugido no teatro, escolha obvia do cineasta Haneke o qual este salientou ter escrito o personagem a pensar nele, interpreta Georges um octogenário professor de musica que é confrontando com o maior e mais cruel de todo os desafios da sua vida, ver diante dos seus olhos a sua amada esposa, Anne (Emmanuelle Riva) a sucumbir a uma doença que lhe a leva incapacidade e á demência. O sofrimento está presente em toda a sua narrativa que nunca dá descanso ao protagonista nem ao espectador que quase partilha a mesma compaixão, mas Michael Haneke não faz disso um espectáculo, apenas de eterna e conhecedora dor e medo. O receio de perder aqueles que mais ama sem que nada possamos fazer.

 

 

Uma obra sensível, onde os actores dão o melhor de si, sem que isso lhes peça para serem extremamente dramáticos e teatrais, apenas sofredores credíveis numa fita que é executada como uma eterna carta de amor fosse, um suspiro de perdição sem nunca ser correspondido, não por motivos sentimentais, mas porque a morte é o maior dos inimigos. Amour é um filme obrigatório, vindo da alma mais delicada de Haneke e a continuação do seu perfeccionismo.  

 

Real.: Michael Haneke /  Int.: Jean-Louis Trintignant, Emmanuelle Riva, Isabelle Huppert, Rita Blanco



Holy Motors (2012)

Hugo Gomes, 26.12.12

Um olhar cinematográfico de Leos Carax!

 

É estranho? É. É singular? É. Bizarro? Também o é, embora de uma forma criativa. Holy Motors é a nova obra do cineasta Leos Carax, um regresso às longas-metragens treze anos após o seu fracassado Pola X com Guillaume Depardieu e Yekaterina Golubeva. No seu novo e já muito elogiado filme, Carax invoca a sua paixão pelo cinema e decide referenciá-la de uma maneira única, porém, sempre fiel ao seu legado como autor-amante. O cineasta encontra assim refúgio numa sala de cinema, sem qualquer ligação com o mundo exterior.

 

 

Interrogando-se dos porquês e dos acréscimos do seu eterno romance com a sétima arte e exclamando da pulcritude que é entrar num lugar onde todos os seus desvaneios são possíveis, Leos Carax envia o espectador para um universo algo alternativo, onde apenas os fantasmas percorrem as ruas de uma Paris com mais vivência que os próprios vivos que encontra a sua beleza narcisista no acto das suas personagens, reflectidas nas suas acções como o homem por detrás da câmara. Sob um bizarro enredo, surge-nos uma homem de mil faces e almas (Dennis Lavant), vagueando por entre a capital francesa sempre acompanhado pela sua limusine,  que por sua vez se revela num bastidor para o mundo supostamente “real” (não, este não é uma sequela de Cosmopolis de David Cronenberg), preenchendo o seu dia de compromissos que resumem a variadas vidas expostas. 

 

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A personagem de Lavant é um multifacetado, um ser intrinsecamente composto por vácuo que se plenifica debaixo de meios camaleónicos. Sob esse processo, Leos Carax cataloga um leque de personagens bizarras, negras e singulares, em que cada uma dessas invocações, tem como propósito homenagear os diferentes tipos e géneros de cinema, os estilos a metáforas, o clássico e primórdio como o cinema mudo e o ainda recém-nascido até a complexidade visual da era tecnológica moderna (como podemos assistir nas sequencias de motion-capture que capturam uma tamanha beleza e sensualidade), o musical hollywoodesco e emocionante onde a cantora/actriz australiana Kylie Minogue interpreta com alma até chegar à prosopopeia cinematográfica assistida no último tomo, quando a limusine que transporta o nosso “viajante cinematográfico” decide demonstrar a sua personalidade tal como produto digno da Disney / Pixar, o qual o autor o descreve como uma personagem no meio de personagens, salientando-o e destacando-o mais que um simples meio de transporte de características cénicas e glamorosas.

 

 

Holy Motors englobe muitas variantes, muitos requintes e muitos géneros, tornando-o quase inclassificável dentro do seio cinematográfico. Um OVNI assim por dizer, Leos Carax se comporta como um visionário, um homem expressivo e distinto no seu amor por esta diversificada arte. Singela e pura paixão que nos traça algo nunca visto e rico.

 

Real.: Leos Carax / Int.: Denis Lavant, Edith Scob, Eva Mendes, Kylie Minogue, Michael Piccoli

 


 

Morreu Charles Durning

Hugo Gomes, 25.12.12

 

Nomeado a dois Óscares e com uma participação extensa em mais de 100 filmes incluindo The Sting (1973), Dog Day Afternoon (1975) e Tootsie (1982), Charles Durning acaba de falecer na passada segunda-feira, dia 24 de Dezembro, Véspera de Natal, na sua residência em Nova Iorque. Tinha 89 anos e para trás deixa um legado invejável. Um dos actores mais queridos dos EUA acaba de tornar o cinema em geral mais pobre!

 

Charles Durning (1923 – 2012)

Life of Pi (2012)

Hugo Gomes, 25.12.12

A Extraordinária vida de um náufrago!

 

O cinema é indiscutivelmente a Sétima arte, e tal como as outras sete tende o objectivo de transmitir as mais variadas emoções e comportar-se de acordo com as suas características artísticas, um objecto criado fruto da imaginação e personalidade do seu criador. Em relação à nova obra de Ang Lee, Life of Pi, baseado no homónimo romance de Yann Martel, eis um insólito relato à deriva do oceano Pacifico entre o jovem Pi (Suraj Sharma)  e um tigre de Bengala, sobreviventes do naufrágio de um cargueiro japonês donde seguiam a caminho do Novo Mundo, personalidade pode não existir na sua integra forma, mas emoções, isso sim, e com fartura.

 

 

O autor taiwanês reconhecido pelo épico de artes marciais, Crouching Tiger, Hidden Dragon (2000)  e do polémico mas belíssimo romance entre os dois cowboys Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, Brokeback Mountain (2005), aventura-se numa peregrinação em alto mar, onde segundo consta pela personagem principal, anos depois da ocorrência que auferem forma à fita, “eis uma história que fará o mais céptico dos cépticos acreditar em Deus”. Dito isto nasce automaticamente no espectador um receio de suposta evangelização, mas é nisso que erram, porque tudo se resume à mais pura das ilusões. O enredo não promove a crença religiosa, conforme seja a dita religião, mas sim, e nisso cumpre, comove  através de um elaborado mise-en-scené digital, onde a sobrevivência e a bizarra e improvável relação de camaradagem que gradualmente cresce entre o grande felino e o jovem indiano toma conta dos planos.

 

 

Confirma-se que Life of Pi é inspirador e terrivelmente belo, uma fantasia motivadora que se destaque sobretudo pelos seus valores técnico, desde o sonoro ao visual. Quanto a esta última, os efeitos visuais são incríveis na reprodução do vasto oceano e dos animais transpostos que dificilmente consegue-se distinguir do real do digital, mas infelizmente estes devaneios especiais controlam a narrativa, o que nos levam a percorrer um longo e belíssimo mundo onírico que termina no pior dos finais, deixando um seco sabor de burla perante os verdadeiros intuitos da obra.

 

 

Parece que, e voltando ao início do tópico, Ang Lee prometeu um convívio com Deus e não o cumpre, conseguindo apenas um enredo que só o cinema poderia oferecer, todavia são essas emoções que prevalecem e que salvam Life of Pi do fracasso que realmente poderia ter sido. É belo, sim senhor, inspirador com certeza, mas faltava-lhe um pouco mais de alma. Enquanto isso, é ideal para esta época! Uma experiência visualmente deslumbrante, só isso!

 

“All of life is an act of letting go but what hurts the most is not taking a moment to say goodbye.”

 

Real.: Ang Lee / Int.: Suraj Sharma, Irrfan Khan, Adil Hussain, Gérard Depardieu, Rafe Spall

 


 

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