A maldição do morcego de Bela Lugosi!
Bela Lugosi foi durante bastante tempo, uma das faces mais populares do cinema de terror lá para as bandas de Hollywood. Actor húngaro que tornou-se popular graças ao seu marcante desempenho como o tenebroso e trágico Conde Drácula da homónima obra de Tod Browning em 1931. Limitado no seu inglês, o qual não impediu que o actor tentasse expandir em solo norte-americano, porém eternizado como o vampiro-mor, Bela Lugosi não voltou mais a vestir a capa do dito sedento de sangue (sobretudo no cinema de terror), ao invés disso e com alguma pena tentou com esforço esquivar do género cinematográfico que o sempre perseguiu, por algum motivo sempre anexado á série B.
Enquanto os fãs pediam o regresso do seu Conde Drácula, Lugosi contentou a sua legião com o filme The Devil Bat (Jean Yarbrough, 1941), onde desempenha um cientista louco que recria um morcego gigante assassino, e que profere “good night” às suas vítimas do mesmo tom de “good evening” da sua prestação no tão famoso filme de Tod Browning. Trata-se de uma fantasia pueril, ridícula, onde assistimos a um actor cansado que mesmo assim reside o melhor da fita de pseudo-terror. Um morcego gigante abate uma cidadezinha, matando sem um pingo de sangue, obedecendo às ordens de um suposto angustiado cientista sem motivos aparentes para o homicídio. Um repórter intrometediço e com um romance de segunda por uma das familiares das vítimas emane actos heróicos para conseguir capturar o tão infame alado mamífero.
Interpretações toscas sob um argumento sem pinga de credibilidade e nexo, efeitos visuais que partilham o mesmo adjectivo do filme, ridículos e baratos, uma banda sonora rebuscada e por fim, uma realização amadora e sem profissionalismo, por momentos chegamos a pensar que os envolvidos (tal como Bela Lugosi) apercebem daquilo em que estão metidos. Clássico só por antiguidade, The Devil Bat é um reflexo da tão desperdiçada carreira de uma das estrelas mais subestimadas de Hollywood, Bela Lugosi.
Real.: Jean Yarbrough / Int.: Bela Lugosi, Dave O'Brien, Suzanne Kaaren, Donald Kerr
Comprando um sonho!
Benjamin Mee foi um escritor inglês que decidiu num momento crítico da sua vida, comprar um zoo falido e dar-lhe uma nova vida, enquanto tenta fortalecer as ligações com os seus dois filhos e continuar a lutar pela memória da sua falecida mulher. Assim sendo uma história de sucesso e de improvável inspiração, o Parque Zoológico de Dartmoor e esta aventura singular de Mee são no entretanto elementos para um novo filme de Cameron Crowe, que regressa assim no filme mais emotivo desde Jerry Maguire (1996). Obviamente muita coisa se alterou nesta experiencia singular, tudo em prol de um mais acessível espectáculo hollywoodesco e claro uma americanização dos factos, já que a história original passada em Inglaterra é transportada para terras do Tio Sam.
Matt Damon e Scarlett Johansson são protagonistas desta aventura que preserva todos os condimentos do drama familiar, citando livremente todos os factos desse momento crucial da vida de Mee de forma a conseguir cativar as audiências mesmo em terrenos já muito previsíveis para o espectador. É que depois de tentar fazer diferente com Elizabethtown (2005), o que falhou redondamente, Cameron Crowe volta ao mainstream, ao registo clássico que agrada muito e desilude poucos, ao mesmo tempo concentrado fascino na lição de vida de Benjamin Mee e dissecar a alma de tão bela e terna experiência.
Dificilmente, We Bought a Zoo será um filme que se destacará, até mesmo na carreira do cineasta, mas é uma bela composição dos ingredientes “old school” e com um Matt Damon maduro e carismático o suficiente para aguentar a pedalada até ao fim ao lado de um dos desempenhos mais curiosos de Scarlett Johansson. Um filme para toda a família, com tudo no sítio, claro … menos ousadia e audácia. Baseado numa incrível história verídica.
“You know, sometimes all you need is 20 seconds of insane courage. Just literally 20 seconds of just embarrassing bravery. And I promise you, something great will come of it”
Real.: Cameron Crowe / Int.: Matt Damon, Scarlett Johansson, Thomas Haden Church, Colin Ford, Maggie Elizabeth Jones, Angus Macfadyen, Elle Fanning, Patrick Fugit
Real.: Max Giwa, Dania Pasquini / Int.: George Sampson, Sofia Boutella, Falk Hentschel
Filme – Em 2010, assistimos a resposta inglesa ao fenómeno Step Up, agora passados dois anos vemos que a cópia resultou numa sequela com o dobro da música e do orçamento mas com a metade da criatividade e profissionalismo. É cinema que vive sobretudo das coreografias, sem que tenha algo mais que dizer, Street Dance 2 é puro delírio às audiências mais jovens e amantes do palco de dança, mas sem nenhuma caracter de cinema.
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Inglês Dolby Digital 5.1
LEGENDAS
Português
EXTRAS
Entrevistas
Em filmagens
Trailer
Spot TV
Distribuidora – PRIS, Audiovisuais SA
Morreu na passada Quinta-Feira, dia 18 de Outubro, um dos ícones da libertação sexual dos anos 70, Sylvia Kristel que nos deixou em consequência de um cancro a um dos seus pulmões, tinha 60 anos. Todavia a sua personagem em Emmanuelle (Just Jaeckin, 1974) e nas respectivas sequelas encontra-se imortalizada no apogeu do cinema erótico. Uma mulher que quebrou barreiras e tabus do seu tempo que merece um descanso eterno.
Sylvia Kristel (1952 – 2012)
Real.: Celine Sciamma / Int.: Zoé Héran, Jeanne Disson, Mathieu Demy
Filme – Laure (Zoé Héran) tem 10 anos, com o seu penteado curto e o seu jeito de maria-rapaz, a menina é confundida como um rapaz na sua nova localidade. Contudo Laure não descai do seu disfarce vivendo dia-a-dia como aquilo que sempre adoraria viver, como um mero rapaz. Um filme emotivo e excitante que acompanha uma crise de identidade mesmo sob a flor da idade, conseguindo captar a inocência e o companheirismo de uma infância perdida ou simplesmente iludida. Excelente drama!
AUDIO
Francês Dolby Digital 5.1
LEGENDAS
Português
Distribuidora – DVD Leopardo
Festejar o vulgar!
Depois de celebrar o dia de S. Valentim com um elenco de luxo porém com histórias desinteressantes e triviais em Valentine’s Day (2010), Garry Marshall regressa aos mosaicos românticos narrativos á lá Love Actually e celebra a passagem de ano com pouca mestria. O realizador de Pretty Woman e The Flamingo Kid parece reduzir-se a isto uma narração de histórias banais sem pingo de originalidade e com doses docemente açucaradas elevadas que até chega mesmo a enjoar. No caso de New Year’s Eve, o elenco de luxo manteve-se contando com as participações de Robert De Niro, Hilary Swank, Hale Berry, Ashton Kutcher, Jessica Biel e até mesmo o cantor Jon Bon Jovi a interpretar uma alusão a si próprio. Tentando-se vender por tão pouco e descaradamente, a única coisa de positivo que encontramos neste Ano Novo, Vida Nova é mesmo Michelle Pfeiffer que dificilmente encontramos nos dias de hoje, brilha discretamente ao lado de um … imaginem só … suportável Zac Efron. Um filme festivo que festeja apenas o desperdício de talentos e meios para produzir tão aborrecido produto.
Real.: Garry Marshall / Int.: Katherine Heigl, Robert De Niro, Ashton Kutcher, Sofía Vergara, Zac Efron, Abigail Breslin, Carla Gugino, Jessica Biel, Josh Duhamel, Sarah Jessica Parker, Michelle Pfeiffer, Halle Berry, John Lithgow, Hector Elizondo, Jon Bon Jovi, Hilary Swank, Sienna Miller
Um golpe nas alturas!
Brett Ratner nunca foi muito dado á criatividade, conhecido pelos lados de Hollywood como uma espécie de “tapa-buracos”, substituiu Ridley Scott em Red Dragon (2002), o terceiro filme da personagem Hannibal Lecter e Bryan Singer no último e derradeiro capítulo da trilogia X-Men (2006) e por fim dirigiu Pierce Brosnan na sua reforma de 007 no vulgaríssimo After the Sunset (2004). Aliás o mais parecido que tem de sua marca é mesmo a trilogia Rush Hour – Hora de Ponta que reúne os actores Jackie Chan e Chris Tucker, o qual foi orientado pelo realizador desde raiz, e devido a estes motivos o anúncio de um novo filme de Ratner, e ainda por cima no campo da comédia / cinema de golpe ao lado dos actores Ben Stiller e Eddie Murphy nos principais papéis, não era visto com bons olhos. Mas na verdade é que Tower Heist acaba por ser melhor que a encomenda, Ben Stiller parece sobressair do seu ego, os quais os seus confrontos verbais com Alan Alda são o melhor da fita, Eddie Murphy controla-se devidamente e o argumento até revela-se de não ser “burro” de todo, garantido bons momentos dentro do cinema de golpe, sendo que depois da experiencia em After the Sunset, Brett Ratner parece adaptar-se muito bem ao subgénero. Porém no que se poderia revelar na melhor obra dentro da filmografia de Ratner perde-se quando este mesmo tenta incutir comédia, com gags fracos e interpretações ruinosas (Casey Affleck e Matthew Broderick) e o mal aproveitamento de Gabourey Sidibe que como desempenho e personagem que não limitam prejudicialmente o suposto potencial de Tower Heist – Alta Golpada. Fica-se pelo mesmo.
Real.: Brett Ratner / Int.: Ben Stiller, Eddie Murphy, Casey Affleck, Alan Alda, Matthew Broderick, Téa Leoni, Michael Peña, Gabourey Sidibe
Obsessão, voyeurismo e crime!
The Resident - Perigo à Espreita é o primeiro título de uma Hammer ressuscitada e pronto atacar o sector do terror / thriller. Nesta fita de Antti Jokinen (Purge) encontramos invocações ao estilo de Hitchcock nomeadamente presenta nas suas personagens de cariz obsessiva, neste caso presente no papel de Jeffrey Dean Morgan. A história se centra de uma jovem medica, Juliet (Hilary Swank), separada do marido,
que procura nova vida em Brooklyn, dando de caras com um apartamento de sonho e de preço acessível. Porém o que ela desconhece é mesmo a natureza daquele apartamento, que se revela num refúgio á depravação e do fetichismo e voyeurismo. Com a bem sucedida fotografia de Guillermo Navarro (Pan’s Labyrinth), The Resident se revela bem cedo num thriller com uma atmosfera característica e bem-sucedida, oferecendo também um desempenho forte de Hilary Swank (cada vez mais perdida neste tipo de produções), e marcado pelo regresso de Christopher Lee aos estúdios Hammer (porém desaproveitado). A grande fraqueza da fita é mesmo a sua falta de originalidade, previsível graças a um argumento limitado de Antti Jokinen e Robert Orr (Underworld: Rise of the Lycans) e Jeffrey Dean Morgan a resultar num erro de casting. Esperemos que as futuras obras desta renovada Hammer se revelam algo mais digno do estúdio.
Real.: Antti Jokinen / Int.: Hilary Swank, Jeffrey Dean Morgan, Christopher Lee
Vidas Passadas de um só homem!
Em Mr. Nobody seguimos então Nemo (Jared Leto), um idoso com os seus 118 anos que vive num mundo onde todos os seres humanos são aparentemente imortais com a excepção dele. Nemo é agora um ser moribundo que poderá vir a tornar-se na última pessoa a morrer sob condições de velhice. Os medias porém vêem a situação com algum mediatismo, sensacionalismo e interessados nos segredos que o protagonista poderia conter começam a entrevista-lo, mas o passado que este narra está longe de lúcido.
Parecia de início uma obra condenada ao circuito direct-to-video devido aos constantes atrasos, mas felizmente as nossas distribuidoras obtiveram alguma consciência e decidiram por fim lançar Mr. Nobody de Jaco Van Dormaele, um filme que foi apresentado, aclamado e aplaudido no 66º Festival de Veneza. O argumento (escrito pelo próprio Van Dormaele) não é de fácil compreensão sendo que as suas múltiplas narrativas que a história emana pode transbordar confusão para o espectador mais desatento.
Jaco Van Dormaele recria o passado do dito Mr. Nobody (Sr. Ninguém) através de uma multi-narrativa nada linear que foca acontecimentos através das escolhas difíceis do seu personagem. Com isto consegue-se um trabalho de narração experimental enquanto recria diferentes eventos e destino de um só homem. Nas mãos erradas, este trabalho de enquadramento cronológico poderia resultar em algo demasiado trabalhoso para o espectador compreender ou esforçar para tal, mas o cineasta é capaz de captar alguma fluidez numa narrativa que não o é, unindo o final com um twist em queda para a surreal. Assim dizendo, este é o The Butterfly Effect para um público menos acessível e sempre em encontro com novas formas de como recontar novas histórias no grande ecrã.
Eis um trabalho meticuloso, convicto e cheio de alma que nos exibe um “desaparecido” Jared Leto (depois da sua afixação pela musica são poucas as vezes que o vemos no cinema) que se ergue das sombras, demonstrando uma versatilidade no seu papel, principal quando este supõe ter mais de um século. Uma mensagem bela envolvida num filme de igual adjectivo. De um visual bem conseguido a roçar o onírico, uma bela banda sonora, Mr. Nobody é das obras mais extraordinárias actualmente nas nossas salas de cinema. Porque por vezes a vida é feita de escolhas difíceis!
“In chess, it's called Zugzwang… when the only viable move… is not to move.”
Real.: Jaco Van Dormaele / Int.: Jared Leto, Sarah Polley, Diane Kruger, Linh Dan Pham, Rhys Ifans
Cuidado com a Besta!
Baseado na lenda da Besta de Gevaudan, que aterrorizou a França em meados do seculo XVIII, tendo mesmo atraído as atenções do Rei Luís XV, Le Pacte des Loups é aquilo que podemos apelidar de “salada russa cinematográfica”. Oportunista na aclamação de ser inspirados em factos verídicos, a fita de Christopher Gans reúne os mais variados elementos de entretenimento e exausta a narrativa, sendo que isso origine uma fita que não sabe ao certo se é “carne ou peixe”. Sendo assim que terror, drama, thriller, épico e artes marciais lutam sem pudor para ter a sua vez na influência no filme.
Gans, um anterior critico de cinema, parece aclamar que quanto mais aborda mais a conceituação, mas nisso este ilude, primeiro “pare” um “mastadon” (custou mais de 200 milhões de euros) demasiado longo, rebuscado (com Mark Dacascos a desempenhar um índio com mais queda para artes marciais digno dos monges de Shaolin que a sua espiritualidade nativa) e com isso um vazio no que refere às suas personagens. Trata-se de tudo um “show” pretensioso, involuntariamente disparatado que pega numa lenda sagrada da França e a transforma num enredo barroco hollywoodesco e novelesco, enquanto se integra num visual reconhecedor mas com desvaneios de um slow motion sempre presente e sem razão de ser nem noção de estilo.
Com as participações de Samuel Le Bihan, Vincent Cassel e Monica Bellucci, Le Pacte des Loups foi um enorme sucesso para uma produção francesa a nível internacional, uma obra que encontrou mesmo assim a sua legião de fãs e que o realizador Christopher Gans de certa forma conseguiu atrair as atenções de Hollywood, pelo que foi contratado para adaptar ao grande ecrã o videojogo Silent Hill em 2006, que resultou num filme mais sóbrio que o seu êxito original. Um blockbuster á francesa!
Real.: Christopher Gans / Int.: Samuel Le Bihan, Vincent Cassel, Émilie Dequenne, Monica Bellucci, Jérémie Rénier, Mark Dacascos, Jean Yanne, Jean-François Stévenin, Jacques Perrin
Real.: Rupert Sanders / Int.: Charlize Theron, Kristen Stewart, Chris Hemsworth
Filme – Uma incursão algo diferente do amado conto dos irmãos Grimm, Branca de Neve. Depois da versão colorida e ligeira de Tarsem Singh (Mirror, Mirror), é a vez do estreante Rupert Sanders tratar a “velhinha” historia num ensaio épico de fantasia. É óbvio que o ponto forte desta fita algo desequilibrado é Charlize Theron com um desempenho fenomenal de uma angustiada Rainha Má, ofuscando mesmo, a versão “twilight” de Branca de Neve por parte de Kristen Stewart. Não sendo uma obra-prima do género, apresenta algumas ideias graciosas e um visual estonteante que pelo menos fazem desta versão algo superior á anterior variação de Tarsem Singh, e verdade é que Theron “abafa” Julia Roberts no seu próprio papel.
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Francês
Castelhano
Catalão
LEGENDAS
Português
Inglês
Francês
Castelhano
Holandês
Catalão
EXTRAS
O bando : Os anões
Comentários do realizador e outros
Distribuidora – Zon Lusomundo
Ver também
Snow White and the Huntsman (2012)
Tóquio visto de cima!
Em relação a Gaspar Noé, ou se ama ou odeia, não existe meio-termo na sua filmografia, e a prova é mais evidente com a chegada de Enter The Void, a sua nova obra, que estreia nos cinemas portugueses após dois anos de atraso. Noé ficou nas bocas do mundo com Irréversible em 2002, que acendeu uma discussão no meio da comunidade cinéfilo devido ao seu conteúdo como também do seu modelo narrativo. Foi uma fita de cujo conteúdo foi de enorme teor de violência gráfica e sexual e tudo em doses generosas, entre os quais apresentou uma repugnante, detalhada e longa sequência de violação á personagem de Monica Bellucci, o qual obviamente fora referenciada e analisada por fins críticos e de aclamação.
Em Enter the Void, que entre nós apresenta o subtítulo português de Viagem Alucinante, titulo que não se encontra muito longe da verdade no que refere a caracterizar a fita, reúne todo os ingredientes já usuais da carreira do cineasta, todos encenando um teatro de morte sob o olhar atento da câmara ao estilo God’s Eye (plano visto do tecto), na segunda parte e na primeira pessoa na parte inicial. Gaspar Noé concretiza uma viagem metafisica e explora a inexplorável vida após morte de uma forma pouco atraente, dolorosa, deprimente e também decadente, citando com força o Livro Tibetano dos Mortos e sublinhando conforme a história do seu protagonista, Óscar (Nathaniel Brow), um jovem traficante de drogas que vive em Tóquio e fica interessado no conteúdo do dito livro. Porém é morto pela polícia nipónica quando um dos seus clientes o denunciou. A partir daí, como se a alma de Óscar vagueasse sobre aqueles que lhe estão mais próximos, somos apresentados a ocorrências do passado, presente e futuro, demonstrando todo o modelo de pós-morte ditado por Livro Tibetano dos Mortos.
Eis uma experiencia que não deixará ninguém indiferente, sendo que na minha humilde opinião a primeira parte narrada na primeira pessoa seja a incursão mais inteligente e interessante de todo o filme. Um dos feitos bem conseguidos é quando Gaspar Noé aproveita desse conceito narrativo para garantir a falada viagem alucinante que havia prometido aos espectadores, o qual sob o efeito fictício de drogas dá um “show” visual mais próximo da realidade quer a nível de visualização como atém mesmo sensorial. Na segunda parte caímos em território de Noé, o qual a depressão invade as audiências perante uma decadência humana e um desespero sem fim enquanto o cineasta brinca com modelos narrativos e com o experimental técnico.
Ninguém garante que Enter the Void é um “feel good movie” nem algo de belo e visualmente maravilhoso, se existisse um género oposto obviamente a ultima obra de Gaspar Noé estaria dentro do grupo. Todavia esta Viagem Alucinante, que as distribuidoras portuguesas venderam e bem, é uma “trip” a uma Tóquio sob o efeito de alucinogénios, uma profunda analise às crenças mortuárias que definem a vida e a julgam inconscientemente. Um muito pesado filme (e longo) para ver e acender a discussão.
“Do you remember that pact we made? We promised to never leave each other.”
Real.: Gaspar Noé / Int.: Paz de la Huerta, Nathaniel Brown, Cyril Roy, Olly Alexander, Masato Tanno
Ver também
Um país descrito no seu cinema!
Nos últimos anos deparamos com um cinema grego revoltado, oprimido, bizarro e por vezes metafórico. O reflexo de um país que se sente na cauda da Europa, num poço sem fim e na austeridade, e nisso influencia uma cinematografia que tem mais para dizer do que simplesmente entreter. Nos Óscares de 2010, o candidato grego á categoria de Melhor Filme de Língua Estrangeira foi a distinta obra de Giorgos Lanthimos, Canino (Kynodontas, titulo original), que surpreendentemente foi um fita dentro dos parâmetros do art house que figura muitos dos problemas como também medos sociais de um país forçado a viver sobre a linha. Tudo isto representando num bizarra família que controlava o crescimento dos seus filhos e os privava ao mundo exterior, distorcendo as leis e as lógicas para assim os progenitores conseguiram molda-los a sua maneira, realçando o seu instinto animal. Como podem ver, Canino é um exemplo raro numa gala de distinções quase conformista e mainstream, porém o mais estranho é que o filme de Giorgos Lanthimos tinha sérias hipóteses de levar a estatueta para casa, mas antes disso tinha rendido a crítica em geral.
Passados 2 anos eis que surge no nosso país, Attenberg, título alusivo a um mau pronunciado David Attenborough, um famoso documentarista de vida selvagem cujos seus trabalhos são elogiados em todo o mundo. Attenberg de Athina Rachel Tsangari utiliza esse fascínio envolto nos relatos ao mundo animal para criar uma sensação de sufoco, onde deparamos com um leque de personagens bizarras que quase parecem ter saído de um reino taxonómico completamente diferente. Sem um argumento aparentemente coerente, o filme parece documentar essas jactâncias comportamentais, fundido o mundo animal com os seres humanos figurativos.
E é assim que seguindo a história de uma jovem adulta que tenta descobrir a sua sexualidade enquanto lida com os últimos dias de vida do seu pai, somos apresentados a uma repugnância corporal e uma mise en scené rebuscado, surreal e sim, por vezes ridículo. Quanto a assexualidade da sua protagonista (interpretada por Ariane Labed) é uma alusão ao estado social de um Grécia por vezes perdida e em crescente busca de sua identidade. Attenberg é obviamente uma obra com muito para dizer, mas que o representa e o afirma de um modelo quase circense, individualista e egocêntrico, mas que mesmo assim consegue invocar algum espírito do cinema francês que Robert Bresson concretiza nos anos 60. Resumindo e concluindo a nova fita de Athina Rachel Tsangari vem reunir com Canino de Giorgos Lanthimos no retrato analista num país em pedido de socorro.
Real.: Athina Rachel Tsangari / Int.: Ariane Labed, Giorgos Lanthimos, Vangelis Mourikis
Ia sendo um remake, mas não foi, graças …
Essa moda de refazer filmes de terror com um estatuto quase lendário já não é novidade para ninguém, muito menos para os lados de Hollywood, porém o que é surpreendente nos dias de hoje é um abandono da ideia de remake e uma direcção de produção que transforma numa cópia numa prequela. Assim sim! A Universal Pictures sentiu-se incapaz de mexer com o clássico de 1982 de John Carpenter e o que inicialmente era uma manobra de enriquecimento barato transforma-se numa homenagem, se podemos chamar assim.
Matthijs van Heijningen Jr. aborda o que realmente aconteceu no acampamento norueguês que dá início á obra de Carpenter, e tenta á sua responder algumas das dúvidas dos fãs do original, sendo assim seguimos a ida de uma paleontologista norte-americana, Mary Elizabeth Winstead (que vem a contradizer umas das singularidades de The Thing de Carpenter, que é um elenco exclusivamente masculino), a uma campo de investigação da Noruega, na Antárctida, para estudar aquele que muitos consideram o achado do seculo, restos de vida alienígena que misteriosamente caíram naquele local. Mas dando continuidade ao legado de 1982, aquilo que parecia uma maravilha científica se converte rapidamente numa “caixa de Pandora”.
The Thing de Matthijs van Heijningen Jr. é um caminhar pelos mesmos ingredientes e pelos mesmos horrores já transmitindo anteriormente, porém o autor parece revelar-se frio no assunto e consegue esquivar de falsos trilhos. É que mesmo já visto e revisto, somos encarados com uma formula de suspense á moda antiga e uma prevalência de “pouca dura” aos efeitos práticos. A homenagem está servida de um forma clássica e por vezes arrepiante. O seu verdadeiro defeito é mesmo querer ser “bigger than life” com a proximidade final, revelando um twist insatisfatório e deveras hollywoodesco. Mas já que se fala em homenagem, devo garantir que de The Thing de Matthijs van Heijningen Jr. o consegue, não de uma maneira majestosa nem nostálgica, mas até profissional e requintada. Com excelentes desempenhos de Mary Elizabeth Winstead e Ulrich Thomsen, um ambiente arrepiante e um pouco de claustrofobia, fazem desta obra que complemento ao grande clássico da ficção científica.
Real.: Matthijs van Heijningen Jr. / Int.: Mary Elizabeth Winstead, Joel Edgerton, Ulrich Thomsen
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