A Voz do Rei!
Colin Firth demonstrou no ano passado, pela mesma altura, que se trata de um dos mais prestigiados e cobiçados actores britânicos da actualidade, coisa imprevisível há alguns anos tendo em conta que actor participava em fitas como Bridget Jones´s Diary, Love Actuality ou até mesmo What a Girl Wants. Era inverosímil diante de tal filmografia que o actor pudesse oferecer desempenhos tão excitantes e profundamente encarnadas como em A Single Man do estreante Tom Ford. Após perder o Óscar para Jeff Bridges, que interpretava o músico country Bad Blake em Crazy Heart (Scott Cooper), Firth, decidido na caçada da estatueta, protagoniza este drama que passou por imensas dificuldades na sua própria produção.
Para Tom Hopper (o realizador), um estúdio negou o seu financiamento, explicando que não se encontrava interessado em produzir dramas, argumentando simplesmente que é um género que não rende, muito menos um filme envolto da gaguez do rei George VI. O certo é que nessa altura ninguém imaginava que The King’s Speech fosse um dos mais elogiados filmes do ano 2010, recebendo inúmeros prémios pelo caminho e estando nomeado a 12 Óscares de Academia, incluindo as categorias de Melhor Filme, Melhor Actor e Melhor Realizador, acreditando mesmo se tratar do maior dos obstáculos para a vitória de The Social Network de David Fincher na consagração dos mais mediáticos prémios do cinema, e quanto ao rendimento, o biopic de Hopper não se está a sair mal, tendo já arrecadado 170 milhões de dólares em todo o mundo.
Por outras palavras, a gaguez de um rei nunca fora tão falada, nem mesmo Colin Firth, que se encontra apontado como um dos grandes favoritos para a noite dos Óscares. O seu desempenho fenomenal recria um monarca inseguro, futuro rei, que imperativamente precisava de ser a Voz de uma nação em risco de viver tempos negros e conflituosos. O britânico actor é tão convincente no seu papel que mesmo os tiques de gaguez consegue mimetizar, e não falo da “estranha” maneira de falar, mas sim dos movimentos bocais e faciais que transmitem de forma realista a luta do homem contra a sua deficiência oratória.
Por mais estranho que pareça, uma simples ideia, a gaguez de George VI, conseguiu gerar todo ele um complexo plano de fundo, numa brilhante historia que explora as limitações de um homem que nascera para não ser limitado e desenvolve em prol do povo, tornando assim num dos factores fundamentais para a inspiração da mesma nação, que se encontrava em iminente ameaça da Guerra. The King’s Speech é para além de mais a história de amizade entre dois homens de meia-idade, o já referido rei George VI e do australiano Lionel Logue (interpretado pelo magistral e talentoso Geoffrey Rush), o seu terapeuta da fala, o único capaz de ajudar o monarca no combate a sua protagonizada gaguez.
Tom Hopper é a revelação, um realizador com faro para encantar emoções nos seus planos e requintá-los com magnificências visuais, a fotografia (da autoria de Danny Cohen), por exemplo, é fantástica. Depois seguem sequências filmadas com tamanha paixão, como aquelas em que protagonista proclama a sua "Voz", ou as cenas em que a dupla de actores expõe a sua brilhante química. Uma quimica digna de “buddies” da mais alta realeza.
Recentemente a Rainha de Inglaterra, Elizabeth II, filha de George VI, assistiu à fita numa sessão privada e o resultado foi comovente. The King’s Speech conta ainda com Helena Bonham Carter (também ela nomeada ao Óscar), Guy Pearce, Timothy Spall como Churchill no elenco. Um dos raros filmes que tal como o protagonista, possuem realmente uma voz. Mesmo que classicista e modelarmente técnico, The King's Speech é uma proeza dramática, devolvendo novamente a classe à reconstituição de época, e o protagonista auxilia e muito atravessar essa dita qualidade!
“Because I have a right to be heard. I have a voice!”
O melhor – comovente, um dos raros filmes com desempenhos "quase" perfeitos
O pior – o seu percurso produtivo é a evidência que filmes como estes estão cada vez mais difíceis de fazer.
Real.: Tom Hopper / Int.: Colin Firth, Geoffrey Rush, Helena Bonham Carter, Guy Pearce, Timonthy Spall
Boxe e família!
De boxe, o cinema está cheio, desde o clássico Body and Soul (1947) com o fantástico, mas esquecido John Garfield até ao comercial Rocky (1976), passando pelo dramático Million Dollar Baby (2004) do realizador Clint Eastwood, o biográfico Ali de Michael Mann e até o corajoso Raging Bull de Martin Scorsese. Em 2011 eis que estreia nas nossas salas, o talvez, novo clássico do cinema de pugilismo, o duplo "biopic" The Fighter, que por cá recebeu o subtítulo de O Último Round.

A premissa deste novo filme de David O'Russell centra-se na verídica história de dois irmãos, unidos pela paixão de boxe, cujo mais velho, Dicky Eklund (um fantástico Christian Bale), tenta direccionar a carreira do seu congénere mais novo, Micky Ward (Mark Wahlberg). Porém a personagem de Bale encontra-se perdida entre a droga que o auto-destrói, enquanto que Ward tenta ascender-se neste mundo.
The Fighter é um projecto pessoal para o actor Wahlberg (Max Payne), que lutou cinco anos para o concretizar, o desejo de adaptar esta formidável história de o “velho sonho americano” advém da sua amizade com o próprio pugilista, Micky Ward. De seguida surgiu Christian Bale que aproveitou as recusas de Brad Pitt e Matt Damon para entrar no projecto, interpretando com ambição o irmão de Ward, Dicky Eklund, que para além de estudar os seus maneirismos, o actor emagreceu para poder encarnar o papel. Depois disto tudo, chegou a altura de escolher o realizador, sendo que Wahlberg recomendou Martin Scorsese a dirigi-lo durante a rodagem de The Departed, assinalando o clássico filme Raging Bull da sua autoria como grande influência da história. Mas ao autor recusou exprimindo que não apenas não se encontrava interessado em realizar outro filme de boxe. O projecto ainda chegou a caiu nas mãos de Darren Aronofsky (Black Swan) que entretanto teve que abandonar, até chegar a David O’Russell (The Three Kings).
De momento The Fighter é um dos mais fortes candidatos ao Óscar deste ano, principalmente na categoria de Melhor Actor Secundário, cujo Christian Bale venceu a respectiva categoria nos Golden Globe. Tal como sucedera a Robert DeNiro em Raging Bull, Bale se exibe como um camaleónico actor que sacrifica o próprio corpo em prol do cinema, demonstrando uma dedicação e paixão rara nos dias de hoje. O seu desempenho é um dos melhores do ano sem dúvida, ofuscando por completo Mark Wahlberg e o seu dito “jogo de sobrancelhas”. No campo das interpretações femininas temos ainda Melissa Leo que se destaca plenamente (nomeada ao Óscar) e Amy Adams que parece uma das predilectas da Academia, recebendo a nomeação para a categoria de Melhor Actriz Secundária por um papel seco e sem brilho.
The Fighter reflecte-se como uma obra invulgar na sua narrativa, exibindo um cariz que mistura habilmente o modelo biográfico com toques de mockumentario (falso-documentário), com influências para novas tendências. As lutas são do mais realista que se pode imaginar no cinema de pugilismo, fazendo mesmo acreditar que estamos perante a uma gravação dos reais combates de Micky Ward. Aliás com The Fighter, o boxe continua a ser o desporto que o cinema conseguiu adaptar e romantizar com toda a perfeição e é com filmes como este que nos exibe esta celestial combinação. E verdade seja dita, por Christian Bale, esta obra vale realmente a pena.
"I'm the one fighting, okay? Not you, not you, and not you."
O melhor – Christian Bale obviamente
O pior – Mark Wahlberg nunca teve estofo para protagonista
Real.: David O’Russell / Int.: Mark Wahlberg, Christian Bale, Melissa Leo, Amy Adams
Real.: Brian Koppelman, David Levien / Int.: Michael Douglas, Susan Sarandon, Jesse Eisenberg
Filme - Através de más decisões, Ben Kalmen (Michael Douglas), um ex-vendedor de automóveis de sucesso perde o seu negócio. Para poder compensar de tal azar, o cinquentão decide então viver uma vida de eterno mulherengo. Um filme independente impagável que exibe um Michael Douglas no seu melhor e protagonista único de uma série de eventos que tornam esta obra num dos mais discretos e melhores filmes do ano passado.
AUDIO
Inglês Dolby Digital 5.1
LEGENDAS
Português
EXTRAS
Trailer
Distribuidora – Zon Lusomundo
“Dirty” Wayne e a entrada dos anos 70!
Hollywood assistiu nos anos 70 a sua época de adolescência, sua perda de ingenuidade, sua adquirida de irreverência. Todavia mesmo em finais dos anos 60, tal mudança assistia lentamente o cinema norte-americano, o que de forma amedrontava os mais conservacionistas e ortodoxos da velha formula da extinta era de ouro de Hollywood. Nesse momento, a violência, o conteúdo sexual e a exploração de tabus libertava-se trazendo consigo a era que definitivamente mudaria a face do cinema dos EUA e dos grandes estúdios em gerais.
E é certamente por isso que escondo um pouco de desapontamento quando assisti pela primeira vez True Grit de Henry Hathaway, o western que deu o Óscar a John Wayne. É decerto que se sente essas proximidades temporais, como o personagem de Wayne similar ao futuro Dirty Harry de Clint Eastwood, ou da sequência ousada em que um dos criminosos para poder calar o seu companheiro corta-lhe os dedos da mão, mas tirando isso, True Grit é um dos exemplos acabados de um cinema que tenta progredir, alcançando as mentalidades que os espectadores se despertam.
Adaptado do romance de Charles Portis, True Grit centra-se na busca por criminosos em terras índias levada a cabo pelo xerife Rooster Cogburn (John Wayne) e de Mattie Ross (Kim Darby), uma adolescente que tem como desejo apanhar o responsável pela morte do seu pai. É um western de modelos classicistas, mas obsoletos para a época, as interpretações são over-acting, principalmente por parte de Darby e quanto ao lendário Wayne, o Óscar é quase uma homenagem de carreira do que algo verdadeiro merecedor, se o actor lograsse o prémio seria em filmes como The Man who Shot Liberty Valance (John Ford, 1962) ou até mesmo The Searchers (John Ford, 1956). O elenco secundário, excepto o jovem Robert Duvall, também encontra-se contagiado com interpretações exageradas e por vezes ridículas.
A fita, toda ela, é uma dose de irrealismo devido a uma realização ineficaz por parte de Hathaway, isso verifica-se numa produção com inúmeras falhas de lógica, como por exemplo a sequência em que a personagem de Kim Darby lança-se ao rio com o seu cavalo, na cena consegue-se ver que a personagem nada em conjunto com o seu equídeo, porém quando sai da água, as suas roupas encontram-se secas, cenas essas onde erros são evidentes surgem demasia em True Grit. Mas nem tudo é mau nesta poeirenta obra, a fotografia é esplêndida, exibindo derradeiras paisagens únicas na história dos westerns americanos e a música da autoria de Elmer Bernstein é clássica, do tipo que não será ouvida em muitos e muitos anos, todavia a inserção no duelo final de Rooster com o vilão interpretado por Duvall consegue ser inadequada e incomodativa.
Mesmo tendo o estatuto de clássico, este “A Velha Raposa”, titulo traduzido, é um dos mais fracos filmes protagonizados por John Wayne, uma leitura mal lida do clássico literário de Charles Portis. Vale por muito pouco, mas na sua época foi considerado uma “espécie” em vias de extinção, quer do género, já que o western não continha a mesma força que outrora (falo anos 40 a inicio dos 60) e de Hollywood que estava a mudar de olhos vistos.
O melhor – a fotografia e John Wayne
O pior – pode muito bem ser um clássico, mas é um filme um pouco aldrabado para o seu tempo
Real.: Henry Hathaway / Int.: John Wayne, Kim Darby, Glen Campbell, Robert Duvall, Dennis Hopper
Decidido a fugir do seu papel milionário de vampiro Edward Cullen, o actor Robert Pattinson tem procurado outras formas de estabelecer um sucesso como profissional e não como “prisioneiro de um só filme”. Após Remember Me de Allen Coulter, o actor muito célebre entre as adolescentes se aventura na pretensiosa produção Water for Elephants, baseado no best-seller de Sara Gruen. Pattinson é um jovem aspirante a veterinário que após a trágica morte dos seus pais decide procurar uma nova oportunidade, trabalhando num circo ambulante. Dirigido pelo aclamado Francis Lawrence (I Am Legend, Constantine), a fita que tem estreia marcada no nosso país para dia 5 de Maio conta ainda com o vencedor do Óscar, Christoph Waltz (Inglourious Basterds, The Green Hornet), Reese Witherspoon (Legaly Blonde, Walk the Line) e Hal Holbrook (Into the Wild).
A Vespa Verde e o seu sidekick, contra-atacam!
Poderia ser mais uma das «enésimas» adaptações de BD que irão estrear neste promissor ano, mas o facto do nome Michel Gondry estar anexado á cadeira de realizador, desperta neste produto mainstream algum interesse, sendo a entrada de um autor saído das escolas dos “videoclipps”, principalmente conhecido pelos vídeos de Bjork e Bloc Party, e tão habitual em produções independentes e cheias de vida artística no mundo do cinema industrial. Nós conhecemo-lo vulgarmente como o homem por detrás do singular Eternal Sunshine of a Spotless Mind, onde submeteu o actor Jim Carrey apagar as memórias de uma relação passada, e em Be Kind Rewind onde os actores Mos Def e Jack Black têm a missão de refazer as fitas do videoclube onde trabalham após estas serem magnetizadas.
The Green Hornet, como BD, depois de se tornar num popular e mítica série de rádio, foi já convertido em longa-metragem em 1940, num homónimo filme de Ford Beebe e Ray Taylor, mas o verdadeiro sucesso do legado deu-se em 1966 com a série de televisão que celebrizou o mestre de artes marciais, Bruce Lee, nos EUA. Desde então The Green Hornet sempre ficou relacionado com o lendário actor, sendo que o seu personagem, Kato, merece nesta nova revisão um lugar cativo e memorial em relação ao marcante desempenho de Lee. O escolhido para homenagear foi Jay Chou, que integrou o elenco da luxuosa produção chinesa de Zhang Yimou, The Curse of the Golden Flower, Kato é o sidekick do homónimo herói mascarado, Green Hornet, alter-ego de Britt Reid, interpretado pelo actor Seth Rogen, um jovem e promissor magnata que após o misterioso assassinato do seu pai, decide investigar e combater o crime sob disfarce.
Longe da seriedade e do momento “bigger than life” que os super-herois aos quadradrinhos atravessam nos dias de hoje, Green Hornet apresenta-nos um tom mais descontraído, quer pelos seus gags engenhosos, que se diga por passagem, ou dos momentos de stand-up comedy egocêntrica de Seth Rogen (o pior do filme!). O humor apodere-se de toda a narrativa, mesmo demonstrando uma importante mensagem da importância dos medias no combate ao crime, mas ofuscado pelos artifícios mais comerciais da fita, a já referida comédia e da acção, bem executada sob o pretexto do 3D. Evidenciando que Gondry estudou direitinho a lição de como conquistar multidões e mimicamente disfarçar-se na grande industria. Sabendo que isso lhe irá comprometer a sua identidade como autor.
No elenco invariável destaca-se obviamente Christoph Waltz, a aquisição hollywoodesca após o êxito de Inglourious Basterds de Quentin Tarantino, trabalho que lhe valeu um Óscar. Ele é o vilão de serviço, um pouco semelhante ao seu anterior papel, mas o seu carisma é o que basta para hipnotizar o espectador, verdade essa que ele é o verdadeiro astro do filme e o protagonista dos verdadeiros momentos do filme. Cameron Diaz, porém encontra-se limitada ao seu ego, Tom Wilkinson mesmo acorrentado a personagem descartável é verdadeiro como actor da velha guarda e mesmo Jay Chou garante a homenagem. Destaque também pelo cameo inicial de James Franco.
The Green Hornet é assim, uma entrada descontraída do ano 2011 nos cinemas. Um objecto comercial que aspira a nostalgia, infelizmente não consegue oferecer muita. Ficamos por um sessão sem preocupações e sem pretensões aos Óscares e um grande actor, Waltz, novamente a brilhar no cinema norte-americano. Apenas Seth Rogen não foi o homem certo para o papel, that’s all!
O melhor – um homem chamado Christoph Waltz
O pior – o over-acting de Seth Rogen
Real.: Michel Gondry / Int.: Seth Rogen, Jay Chou, Cameron Diaz, Christopher Waltz, Tom Wilkinson, Edward Furlong, James Franco
Depois de os vampiros receberem a sua dose de romantismo em Twilight, a realizadora Catherine Hardwicke decide então criar uma nova visão do clássico conto dos irmãos Grimm, sim a celebre história do Capuchinho Vermelho. Relembro que esta não é a primeira vez que o conto recebe uma nova variação, sendo a mais famosa a visão de Neil Jordan no seu conceituado The Company of the Wolves (1984), onde a historia ditamente para crianças foi tratada como uma alusão ao mito dos lobisomens e às fantasias sexuais proibidas. The Red Riding Hood, a contar pelo trailer e pela premissa, não é mais que um vertente romântica “á lá Twilight” que nos remete ao caso amoroso e proibido do Capuchinho Vermelho, aqui desempenhado por Amanda Seyfried (Mamma Mia!, Chloe) e do suposto “lobo mau”, interpretado por Shiloh Fernandez (Dead Girl). O filme de Hardwicke tem estreia para 12 de Maio em Portugal, no elenco podemos ainda contar com Luke Haas (Brick), Gary Oldman (The Dark Knight), Billy Burke (Twilight), Virginia Madsen (Number 23) e Julie Christie (Awat From Her). Esperamos mesmo que este The Red Riding Hood não seja mesmo o próximo Crepúsculo!
Um Lago dos Cisnes memorável!
Nina (Natalie Portman) é uma bailarina dedicada e exigente que tenta de tudo para entrar na peça “O Lago dos Cisnes”. Ao conseguir o feito, terá que lidar com o rigor do seu coreógrafo, Thomas Leroy (Vincent Cassel), que a acusa de não preencher os requisitos da peça. Nina é obrigada a desempenhar dois papéis diferentes com característicos movimentos de dança, o angelical e frágil Cisne Branco, que a protagonista encaixa perfeitamente, e a sedutora e obscura Cisne Negro, que irá despertar na bailarina um dos lados mais negros e desconhecidos.
Darren Aronofsky é uma das faces da nova vaga de autores do cinema norte-americano do novo século, todos os seus filmes conseguem causar grande impacto no público e crítica, mas também na criação de atmosferas pesadas, pessimistas e psicologicamente envolventes, sendo Black Swan um dos maiores exemplos da sua arte. Iniciou em 1991 com projectos escolares nunca distribuídos, sendo a sua primeira produção meramente profissional, Pi (1998), um cerebral filme de culto sobre um génio da Matemática que tenta decifrar os segredos por detrás do número incógnito. Depois seguiu-se o muito elogiado Requiem for a Dream (2000), uma descida ao submundo da droga que garantiu a nomeação de Ellen Burstyn ao Óscar (naquele que é considerado um dos melhores desempenhos de sempre do mundo da 7ª Arte), passados seis anos surge The Fountain com Hugh Jackman e Rachel Weisz, ao contrario dos seus antecessores a recepção mais divida.Com The Wrestler (2008), a ressurreição do actor Mickey Rourke num filme pseudo-biográfico, Darren Aronofsky volta a estar nas bocas do Mundo num trabalho inigualável de direcção de actores, sendo este Black Swan a confirmação do seu espírito em extrair aos seus actores os melhores e mais distintos perfomances de suas carreiras.
Portman venceu o Golden Globe de Melhor Actriz Principal e encontra-se actualmente nomeada para o Óscar, com claras chances de vencer a estatueta. A actriz celebrada em Closer (primeira nomeação ao Óscar) e revelada em Leon de Luc Besson, encontra-se imaculada numa interpretação negra, frágil, bipolar, onde a sua personagem Nina não intencionalmente consegue recriar. Black Swan conta ainda com grandes desempenhos de Vincent Cassel, que é por natureza um actor de carisma forte, a nomeada ao Golden Globe de Melhor Actriz Secundária Mila Kunis e Barbara Hershey numa impressionante mãe psicótica e obsessiva.
Thriller alucinante, com raízes de grandes obras do género como The Shining de Stanley Kubrick e Misery de Rob Reiner. A narrativa Black Swan cresce gradualmente e intrinsecamente, invoca a carga dramática e a agressividade quase perturbadora dos momentos que inspiram terror, ou seja a luta inerente dos dois lados da personalidade de Nina resultam num confronto que vai para além do onírico. Darren Aronofsky nos apresenta um filme controlado pelo espírito do bailet, numa convencional visão da obra-prima musical de Tchaikovsky que se converte num ensaio sobre o medo, paranóia e exploração da personalidade humana realçando a dualidade psicológica e de consciência. Algum tempo que não se assistia a um filme de terror assim, um clássico do género. Darren Aronofsky marca pontos e Portman também!
"I was perfect ..."
O melhor – A transformação da personagem de Portman
O pior – não fazerem muitos filmes de terror assim
Real.: Darren Aronofsky / Int.: Natalie Portman, Mila Kunis, Vincent Cassel, Barbara Hershey
Real.: Erik Poppe / Int.: Pál Sverre Valheim Hagen, Trine Dyrhome, Ellen Dorrit Peterson
Filme - Jan Thomas (Pál Sverre Valheim Hagen) esconde um trágico segredo, cometeu um crime que levou à morte de uma criança. Após cumprir a pena, Thomas decide recomeçar a sua vida como tocador de órgão, mas o passado parece ter deixado marcas e não abandona o protagonista de maneira nenhuma. Um drama norueguês de grande qualidade quer na realização ou na história, os actores tem garra para os papéis conseguindo assim uma imensa carga dramática.
AUDIO
Norueguês Dolby Digital 5.1
Dinamarquês Dolby Digital 5.1
LEGENDAS
Português
EXTRAS
Trailer
Distribuidora - Prisvideo
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Eastwood vira vidente!
Clint Eastwood é um dos maiores e mais clássicos artesãos de Hollywood, iniciou a sua carreira no mundo do cinema em 1955 com um pequeno papel no filme de ficção cientifica de Jack Arnold, Revenge of the Creature, desde então cresceu tendo participado em inúmeras peças televisivas e pequenos filmes até chegar ao género que lhe concedeu a fama – o western.
Como realizador, praticou a modalidade pela primeira vez em 1971, numa curta documentaria de nome The Beguiled – The Storyteller, sobre o realizador Don Siegel que trabalhou em Dirty Harry (que lhe ofereceu um dos seus papeis mais célebres) e a longa-metragem Play Misty for Me. O seu trabalho atrás das câmaras fora reconhecido inúmeras vezes quer pelo público, pela crítica e pelos galardões, nomeado três vezes ao Óscar de Melhor Realizador, pela primeira vez em 1993 com Unforgiven, Mystic River em 2004 e em 2005 com Million Dollar Baby (onde venceu a categoria, também foi nomeado para Melhor Actor).
Recentemente Eastwood dirigiu a sua chamada auto-retrospectiva com Gran Torino (2008) e o seu olhar aos acontecimentos de 1995, o Campeonato Mundial de Râguebi na África do Sul e a importância da figura de Nelson Mandela em Invictus (2009), nesta ultima obra trabalhou com o actor Matt Damon, o qual volta a cooperar neste novo projecto – Hereafter. O actor que ficou marcado pelo grande público na sua encarnação Jason Bourne na sua trilogia de sucesso, desempenha um homem que trabalhou como vidente, mas que repugna essa vida próxima da morte, é uma das peças chave deste filme mosaico que retrata com certa curiosidade do autor no tema de vida após morte e da proximidade dela nos seres vivos.
O argumento foi escrito por Peter Morgan (The Queen, Frost/Nixon) em influência da perda de um amigo, que o levou a questionar as finalidades da morte e de certa forma entrar nas “perguntas sem resposta” que muitos questionam – “será que existe algo mais para além do suposto fim?”. Os escritos foram lidos por Steven Spielberg que logo após do sucedido recomendou Clint Eastwood a dirigi-lo, já que o autor sempre exteriorizou o tema da morte na sua filmografia, lembremos por exemplo o medo de envelhecimento de Walt Kowalski em Gran Torino e a eutanásia em Million Dollar Baby, mas nunca o interiorizou de forma literal, sendo esse território desconhecido para o autor. Hereafter – Outra Vida pode ser equiparado como uma obra menor de Eastwood, tudo porque o realizador não consegue sentir a aura sobrenatural e incógnita do tema, ao invés disso tenta humanizar os factos, sendo tal factor o seu forte, o de trazer profundidade dramática aos seus personagens.

Matt Damon tem um desempenho dramático, mas fora do extraordinário, o actor conhecido entre o público é controlado pelo seu ego inseguro e ainda imaturo para o papel. A fita ainda conta com as actrizes Bryce Dallas Howard, com a sua melhor prestação desde Manderlay de Lars Von Trier, é verdade que mesmo estando de certa forma ofuscada não se compara o ensombramento que tem sido alvo em fitas recentes como Spider-Man 3 ou Terminator, e por fim Cécille De France, uma das actrizes de maior sucesso da França, tendo participado nos êxitos L’Auberge Espagnole (Cédric Klapisch, 2002) e Haute Tension (Alexandre Aja, 2003), também esteve presente na produção hollywoodesca Around the World in 80 Days (Frank Coraci, 2004), sendo Hereafter o regresso ao cinema americano, e com a melhor interpretação do filme. Destaque também para os jovens gémeos McLaren que compõe Marcus e Jason, uma das forças centrais do drama desta película.
Curiosamente a obra de Clint Eastwood é uma das primeiras grandes produções norte-americanas a referenciar a tragédia de 2004, o tsunami que abalou a Indonésia. Os efeitos visuais que retratam o fenómeno natural de colossais dimensões foram nomeados para o Óscar de efeitos visuais devido á sua aterradora e realista caracterização. Hereafter é para todos os efeitos um filme de Clint Eastwood, mas não o que estamos habituados.
O melhor – A coragem de Eastwood em aventurar-se em géneros que não lhe pertence
O pior – sabendo que o veterano autor já fez bem melhor
Real.: Clint Eastwood / Int.: Matt Damon, Bryce Dallas Howard, Cécille de France, Frankie McLaren, George McLaren
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