Terça-feira, 24 de Dezembro de 2013
24.12.13

Entre samurais e mestiços!

 

Um visual impressionante, dinâmicas sequências de acção e efeitos especiais de topo não chegam para esconder o maior dos defeitos de 47 Ronin, a sua incoerência histórica e a sua descarada liberdade artística. Fazendo passar-se por um filme série B com um colossal orçamento de 200 milhões de dólares (contradições à parte), a primeira longa-metragem de Carl Rinsch é baseada na mais amada e tradicional lenda japonesa, a história dos 47 ronins (samurais sem dono) que se reúnem para engendrar um plano de vingança, em memória do seu falecido senhor feudal, que havia sido condenado a cometer o suicídio (seppuku).

 

 

Lenda, essa, que aborda temas dignamente nipónicos como honra, sacrifício e persistência e que nesta produção norte-americana é servida aos propósitos do maniqueísmo. Onde encontramos senhores feudais justos e sábios, com um coração estimado e os vilão tão "ruins que nem serpentes", algo que contraria a mensagem transcrita pelo mito, o contagiando com os "nobres" ideais dos EUA. Depois temos as heresias; Keanu Reeves como um halfbreed ("mestiço"), o improvável protagonista de uma história completamente japonesa em vias de integrar no código de honra dos samurais, e todo um conjunto de fantasia pueril e pouco oriental.

 

 

Ou seja, como adaptação da lenda dos 47 Ronins (Kenji Mizoguchi concretizou em 1941, uma visão mais fiel e … "japonesa"), esta produção é um total fracasso e desrespeito cultural, porém eis que nos surge - e se tivermos disposto a isso - um exercício divertido e visualmente sedutor, enriquecido com algumas das melhores sequências de acção do ano (com e sem uso de CGI). Mas para que isto aconteça há que simplesmente desligar o cérebro, ignorar a lenda e censurar os ideais e a predominância norte-americana, e assim sim é provável que tenhamos uma dos rudimentares e modestos blockbusters do ano, e reparem que tem sido cada vez mais algo raro nos panoramas de hoje.

 

 

Por fim, uma banda sonora energética por parte de Ilan Eshkeri e uma Rinko Kikuchi expressiva como a central figura antagónica resultam nesta fita destinada ao entretenimento mas prejudicada pelas suas imensas liberdades. Pelo menos funciona como "guilty pleasure".

 

Real.: Carl Rinsch / Int.: Keanu Reeves, Rinko Kikuchi, Hiroyuki Sanada, Kô Shibasaki, Cary-Hiroyuki Tagawa

 

 

5/10
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publicado por Hugo Gomes às 17:40
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