O regresso do Homem ao primitivo!
Para um artista tão teatral e excêntrico como Ney Matogrosso, um documentário biográfico fiel aos cânones do modelo mainstream ou do restritamente televisivo soaria como algo deveras herege e ingrato para a personalidade em questão. Para tal, a obra Joel Pizzini assume desde o primeiro sopro como um retrato expressionista e experimental do célebre cantor brasileiro, artista irreverente cujos seus espectáculos são célebres pelas suas performances interpretativas, da vistosa caracterização que se apresenta e pela sua música transversal e poética sempre em busca da sua própria entidade artística.
Olho Nu é um convite irrecusável ao refugio do homem por detrás da "Rosa de Hiroshima", uma proposta o qual, o espectador se sentirá bem-vindo e intrinsecamente ligado a um artista em constante cumplicidade para com a câmara. Um misto de ensaio documental com as imagens de arquivo que estabelecem uma linha cronológica da jornada do artista, Pizzini aposta em recriar o documento mais próximo da aura e carácter de Ney Matogrosso, "abraçando" os seus devaneios e excentricidades afim de concretizar um mosaico pessoal, ao mesmo tempo transvestido e ilusório da figura central.
Não existe aqui espaços para dilemas, questões, aprofundamentos temáticos, apenas o retrato de um homem que se fantasia no primitivo, com a Natureza, "despindo-se" perante preconceitos e pudores para conquistar o lugar vago no selvagem, porém na majestosa face do mesmo. É que na verdade esta pura "brincadeira" de artista, experiência sensorial, chega a seduzir o espectador, conforme seja a sua sexualidade ou até gosto musical.
Contudo reconhece-se que nada disto funcionaria se Ney Matogrosso não fosse o artista completo que se reconhece aos mais diferentes níveis; o legado musical, as perfomance imparáveis e criativas que emanam o mais natural da alma brasileira, a "história de bastidores" e a busca pela perfeição como se um próprio objecto de arte tratasse. Belo à sua maneira, distinto à sua vontade, Olho Nu é a confrontação entre duas entidades do mesmo ser - o Passado que não volta atrás e ausente de arrependimentos e o Presente, com um artista maduro e concreto por detrás.
Filme visualizado no DocLisboa'13
Real.: Joel Pizzini / Int.: Ney Matogrosso
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