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15.11.13

 

O cinema não é só Hollywood, e a quem pensa e limita-se a tal reflexão tem uma ideia completamente distorcida do que é a 7ª Arte. Há que defender um cinema diversificado e multicultural, intrínseco perante o seu autor, tese e acima de tudo ao seu país de produção. Talvez cada vez mais “discriminados” pelas nossas distribuidoras que tentam satisfazer o espectador em somente apresenta-los ao puro mainstream, modelo hollywoodesco e até mesmo a estrutura comercial, o cinema fora dos EUA tenta sobreviver à custa de festivais e mostras cinematográficas, onde por vezes enchem de elogios que incentivam o público à sua descoberta, salientando nestes uma ausência de iniciativa própria. Ainda é possível assistir com algum esforço o cinema europeu, sul-americano e até (com mais esforço ainda) asiático, mas o cinema africano tem sido cada vez mais discernido do público geral e por diversos motivos.

 

Sendo um continente pouco afluente em obras cinematográficas, os "intermináveis" conflitos político-sociais e a (muito) desequilibrada gestão de fundos confinam o cinema a ser um ramo de privilegiados para privilegiados, um bem fútil e dispendiosos com ausência de recursos para que os chamados "países do Terceiro Mundo" possam aprecia-los. Ou seja, existe pouca variedade, como também pouco profissionalismo neste ramo, por vezes incapazes de sustentar e expor a sua sétima arte às comunidade, mas mais grave, a ausência nas apostas e riscos em introduzi-las ao mercado internacional. Feito com demasiada dedicação e orçamento quase nulo, e com alguma experimentalidade técnica e narrativa, o cinema africano sobrevive no nosso país graças a co-produções intercontinentais ou como neste caso no catálogo das diferentes mostras e festivais.

 

Servido como filme de abertura do Festival de Cinema de Luanda em 2012, um dos poucos "poços" de cinema na África de língua itinerante portuguesa, Rastos de Sangue de Mawete Paciência (em Portugal foi apresentado na 1ª Mostra de Cinema Angolano: Olhares sobre Angola) é um dos casos onde a dedicação sobressai ao profissionalismo, porém é de elogiar os valores técnicos e a narrativa energética neste tipo de produções. E como é inerente no cinema africano, principalmente das ex-colónias portuguesas, os efeitos da Guerra e dos eventuais conflitos sociais que se sente, tornam Rastos de Sangue num eco desse estado de violência, os "fantasmas" presentes, as feridas abertas e por fim a visão esperançosa que enxerga uma luz no fundo do túnel. Não há que negar que existe uma certa aura envolto do cinema africano e com isso a aceitação das debilidades em prol de um esforço, que espelhado com tal panorama é pura arte. Por isso, voltando ao exemplo ao filme de Mawete Paciência, os desempenhos algo amadores, os erros de montagem que em muitos casos fílmicos nunca seriam motivos para redenção, os diálogos pobres e sem força e o uso extremo de maniqueísmos não prejudicam os fragmentos de alma que são depositados nestes projectos, munidos de uma força intrínseca, sabendo que cada filme é uma batalha a ser travada.

 

Em suma: enquanto o cinema norte-americano (em geral) procura o seu público e o rendimento envolto, o cinema europeu a sua perfeição nos diversos campos, o cinema africano quer somente a sua oportunidade de ser difundido, por outras palavras, ser ouvido. 

 


publicado por Hugo Gomes às 01:36
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