O indie intencionado!
Noah Baumbach levou a Nouvelle Vague para Hollywood, uma influência tão presente na sua forma como a perseverança da fotografia monocromática digna de um dos melhores exemplares de Woody Allen, Manhattan. Contudo Frances Ha não é somente estilo e experimentalidade, é sim um filme que reserva uma mensagem tão pessoal como activa na sociedade actual que vivemos. A maturidade cada vez mais tardia e a independência pessoal consecutivamente adiada encontram-se vincadas na personalidade da homónima protagonista, Greta Gerwig no seu melhor.
Ela compõe um personagem de difícil interacção com o público, uma figura caótica e auto-destrutiva, uma jovem sem planos definidos cujo seu egoísmo (por vezes a ausência dele) e a conformidade com que encara o seu quotidiano, são como "armas maciças" que versa a sua jornada pessoal. Talvez o facto de ser uma personagem demasiado estranha para o espectador e a narrativa algo alternativa auferida por Noah Baumbach, não tornam Frances Ha em nenhum sintetizador de emoções. Mas mesmo assim, nada impede que a obra, perante tal extensa máscara, não consiga demonstrar o seu lado mais sentido, espelhado um retrato que se revela identificar com cada um de nós, o auge da concretização pessoal descrita nos primeiros passos emancipadores da protagonista. É que minutos após do seu desfecho, deparamos nós próprios com uma autónoma vontade de mudar, batalhar pelo destino negado e acima de tudo, crescer. Sem o auxilio de qualquer artificio que manipule o sentimento do espectador, Frances Ha se exibe como um sincero "mensageiro".
Nada de emoções bacocas, ênfases dramáticas ou de formatações baratas e revistas no cinema mais académico, tudo a cru e "despido" que até mesmo a referida fotografia, da autoria de Sam Levy, se revela como uma exposição quanto a sua falta de intrusão para com os sentimentos do espectador. Aliás, minto, o único momento que nos sentimos verdadeiramente manipulados (porém sem sendo algo de nocivo) é na maravilhosa sequência em que assistimos a por vezes graciosa Greta Gerwig, correndo e pulando de jeito sincronizado ao som do vibrante Modern Love de David Bowie (uma clara referência a Mauvais Sang, de Leos Carax), como um musical anos 80 se tratasse. É por estas e por outras que Frances Ha consegue ser um portento trabalho de direcção. Um dos melhores indies que temos o privilégio de assistir.
"Sometimes it's good to do what you're supposed to de when you're supposed to do it."
Real.: Noah Baumbach / Int.: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver
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C7nema / «Frances Ha» por Hugo Gomes
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