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27.5.13
27.5.13

Quando o predador se torna a presa …

 

Um dos meus receios em relação à Mostra do Cinema Judaico e da sua futura (e espero) longevidade é de uma possível ausência de diversificação de temas, muito derivado a uma cultura fragilizada pelos temores e atrocidades do Holocausto (Shoah). Mas ao ver Lore apercebo que afinal existem filões pouco explorados em paralelo com o tema do cenário de pesadelo da cultura judaica.

 

 

Depois da sua entusiasmante e aplaudida estreia como realizadora de longas-metragens no Festival de Cannes, com Sommersault (Salto Mortal) em 2004, a australiana Cate Shortland adapta uma das três histórias integradas no livro de Rachel Seiffert, que abordam a queda do regime nazi e a perseguição aos apoiantes dos ideais partilhados por Adolf Hitler. Lore (a personagem interpretada magistralmente por Saskia Rosendhal) é uma rapariga nazi, ingénua por natureza que se confronta com uma situação extrema. Tendo os pais detidos após a libertação da Europa pelos Aliados, Lore é a única responsável pelo bem-estar e sobrevivência dos irmãos, tentando levados para um ambiente longe da ruína do “mundo” que conhecera. Perseguidos e expostos às piores das condições, os jovens nazis encontram num refugiado judeu a única esperança de sobrevivência.

 

 

À primeira vista, Lore (o filme) soa como uma desforra, um castigo divino aos indivíduos que mesmo não tendo contribuído directamente, negligenciaram um dos tempos mais obscuros e discutidos da História da Humanidade. Contudo o resultado desta incursão algo alternativa dos territórios comuns dos filmes abordantes do Shoah se revela desde cedo num ensaio do cinema sensorial, Cate Shortland incute na narrativa planos fechados e limitados do meio ambiente, das mazelas reveladas e das sequências impetuosas que transmitem um clima de morte, podridão humana e animalidade na jornada. A realizadora é implacável nas transmissões de tais sensibilidades, a dor e a transição madura dos seus personagens (incluindo Lore) através destas expressões físicas e corporais.

 

 

Outros trunfos da nova obra de Cate Shortland é as suas opções narrativas, o espectador encontra-se no escuro, partilhando tal incógnita com a protagonista, assim sendo os factores desta jornada tornando-se intensas contraindo um impacto desejado, para tal deparamos com desempenhos frios, de teor físico que se revelam como corpos celestes para a emoção quase invisível porém contagiante. Enquanto muito assistem a fuga de um grupo de crianças nazis, outros observam o crescimento gradual, a transição da infância à maturidade, da inocência ao intrinsecamente despedaçado, tudo isto acima de qualquer espectáculo de vínculo vingativo para as personagens que todos adoram odiar.

 

 

Enfim, Lore nos explícita um outro lado do Holocausto, o início do fim da Segunda Guerra Mundial, um desfecho pouco explorado e muitas vezes ignorado por uma senso comum moralista e pouco irreverente. Não dignifica a imagem da juventude hitleriana, dos falsos educandos duma sociedade que fora considerada (erradamente) como o futuro brilhante, como também não mancha às memórias dos milhões de almas perdidas em prol de um idealismo fascista, discriminador e megalómano. Lore é cinema de sensações e raro nos dias de hoje.

 

Filme visualizado na 1ª Mostra do Cinema Judaico

 

Real.: Cate Shortland / Int.: Saskia Rosendahl, Nele Trebs, Kai-Peter Malina

 


 

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Train de Vie (1998)

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 23:43
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