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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Crítica de Cinema ... no centro das minhas preocupações

Hugo Gomes, 25.10.21

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Que validade tem um crítico de cinema? Uma das muitas perguntas alavancada na derradeira questão das questões – “O que é um crítico de cinema?” – em quasi-slogan para com a minha jornada (insignificante) no Cinema. Mas voltando ao primeiro termo aqui apontado, não é negativo apontar que o próprio Cinema está acima de qualquer crítica, ou de crítico, um papel redundante e fragilizado com a matéria do tempo, porém, a crítica associa-se ao Cinema como uma ferramenta, não a de compreensão para com a obra em si, e sim como um atalho ao pensamento … “O pensar sobre o Cinema”, frase que se tem tornado numa repetição no meu prolongado discurso em defesa de uma arte sem arte e sem evidentes heroísmos. Porquê buscar isto? Simples, nos últimos tempos, tenho refletido sobre a condição deste “cargo”, a sobrevivência, os propósitos, os peões e a sua cada vez mais notada fragilidade. Hoje dei de caras com este meu texto escrito no ano passado, ou seja, problemas diferentes, a mesma preocupação.

O coração de Soho é Joy

Hugo Gomes, 22.10.21

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Continuam a não existir reflexões nesta nova tirada de Edgar Wright, aliás o realizador nunca foi mais além do que as suas imagens (e da sua “playlist”), e em “Last Night in Soho”, mesmo com as tendências narrativas lá embrulhadas, é uma mera variação do seu género vampírico (não o terror propriamente dito, mas a simulação de terror). Objeto com a sua ocasional estética, por vezes deslumbrante graças à sua desconstrução de época (a nostalgia é um engodo enquanto mimetizado) e noutra “sem sal” perante à cedência duma artificialidade tecnologia. Mas no coração deste Suspiria-Repulsa “wannabe” habita Anya Taylor-Joy, a atriz não alheia a acidentadas metamorfoses, de olhos reptilianos e de movimentos economicamente pensados ao seu jeito de graciosidade. Ela (mais uma vez) é o filme que nunca conseguiu atingir.

Um pássaro sem asas não voa

Hugo Gomes, 18.10.21

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Há uns tempos um debate lançado por uma distribuidora (a ex-maior do país) tentou culpabilizar os filmes portugueses pela sua falta de adesão pública. A questão foi "O que os portugueses desejam ver no seu cinema?". Mas antes que haja respostas à pergunta de "milhões", há que entender que os filmes não caem do céu. Muitos necessitam de outros fatores, entre os quais a dita distribuidora falhou ou indiferentemente negligenciou, ou seja, não se faz "omelete sem ovos". O crítico João Lopes utilizou o Diário de Notícias para incentivar esse pensamento ou simplesmente facto.

Aconteça o que acontecer, sempre teremos a Duna Lynchiana

Hugo Gomes, 17.10.21

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Em “Dune” parto do princípio de que é possível admirar a beleza nos fracassos, ou encontrar fascínio nas derrotas. David Lynch deverá ter sentido esse peso ao transpor a saga literária de Frank Herbert ao grande ecrã após a sua visível ascensão na indústria (“The Elephant Man” e a nomeação ao Óscar garantiram esse holofote), com o desafio de criar no limitado e artisticamente rígido seio de uma produção de milhões envolvidos. O próprio considerou não ser fã do bestseller, aliás de nem sequer ter lido uma única página, pelo que a sua presunção iria levá-lo a uma mazela que ainda hoje recupera na distinta reputação.

Mas fora aprovações e reprovações, devo afirmar, ou antes de mais declarar a minha afeição por uma quimera cinematográfica como esta nas proximidades da estreia da versão (prometedoramente mais fiel) de Denis Villeneuve. Posso encaixar “Dune” algures na minha trajetória pela descoberta pelo meu “eu” cinéfilo, até porque bem cedo e durante algum tempo foi este o filme que o encarreguei do estandarte do “mais estranho” visto (talvez influenciado pelos pensamentos destas personagens que acompanhavam-as e que colocavam o espectador no conhecimento das suas aflições).

Como Lynch, não li nenhuma obra de Herbert sequer, mas a imaginação aqui envolvida, uma ópera espacial contra todas as outras óperas espaciais, ou diria mesmo, ópera-rock tendo em conta a muito atípica banda sonora de TOTO, no qual concentrava um design vanguardista em conformidade com efeitos especiais contemporaneamente inovadores e rapidamente antiquados, e uma carnalidade presente e interveniente (a relembrar as marcas lynchianas deixadas pelo seu inaugural “Eraserhead” ou já referido drama de selo de ouro-óscar), uma história de monstros como disse em jeito orgiástico João Bénard da Costa, numa defesa ao realizador em épocas de crucificações e indiferenças geracionais.

Mas é nesse último ponto que ressalto na minha revisão, uma aura carnal que povoa em toda uma ficção cientifica steampunk, desde o “barão voador”, o nosso grande e asqueroso vilão (Kenneth McMillan), com mórbida sede pelos corpos de jovens ou das fantasias nunca materializadas para com o seu sobrinho, um Adónis assassino-nato interpretado por Sting, ou da sugestão de um incesto edipiano entre o nosso protagonista (um jovem e “verde” Kyle MacLachlan, futuro muso lynchiano) e a sua mãe (uma magnética Francesca Annis) e posteriormente o nascimento de um prematuro para desligar-nos da lógica natural das ‘coisas’, sem referir no meio disto uma criatura fetal que parece ter sido arrancada dos pesadelos paternais de “Eraserhead”. Esta ode ao físico sexualizado e fluído das personagens e relações, são meras manobras distrativas da cerne deste Duna Lynchiano, porque nela encontramos uma entranhada e aos poucos desvendada teologia, o reconto messiânico num universo crente de Deus e que em nome Deste se prega uma nova ordem (passando a ideia da carne ser mera futilidade pecaminosa que será substituída pela limpeza do espírito e do metafisico).

“Dune” falhou o seu objetivo, o de se tornar num êxito instantâneo e duradouro, e com isso a sua oportunidade de se converter numa nova Bíblia cinematográfica, a de um rebelde ideológico contra a tremenda força imperialista (Jesus Cristo é sempre fonte do nosso imaginário). Falhou, porém, a viagem por esta desconjuntura e por vezes esquemática tragédia leva-nos a repensar na definição de “fracasso”, ou a (im)possibilidade de os amar, mesmo conhecendo os seus irremediáveis defeitos e despejos. Mas voltando a referir Bénard da Costa, tal como ele, é naquele prólogo, com uma jovial e cintilante Virginia Madsen a jogar-se pelo ecrã estrelado (à boa maneira de Lillian Gish em “The Night of the Hunter”) e a contextualizar por palavras, sublinha-se, este universo que iremos num ápice penetrar, o qual deparamos na essência deste filme-bastardo, o seu “faz-de-conta”.

Em tempos que a ficção científica requereu a sua seriedade absoluta, (re)ver “Dune” retira-nos do nosso realismo omnipresente e faz-nos acreditar na artificialidade com que se narra uma epopeia.

Ferrovias pelo destino do "Cinema Puro"

Hugo Gomes, 11.10.21

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Nestas demandas pelo absolutismo da definição “o que é o Cinema”, deparo com um registo memorial, a preservação de imagens em uma frágil cápsula do tempo. Nessas mesmas, reúnem pessoas, culturas, lugares e arquitetura, e acima disso tudo, um tempo … um específico tempo.

No caso de “The Wonder Ring” (1955), filme-encomenda de Stan Brakhage e Joseph Cornell, 6 minutos concebidos para apelo de registar a estrutura do comboio da Terceira Avenida de Nova Iorque (ligando Manhattan a Bronx), construído entre 1875 a 1878, antes da sua eventual demolição. Contudo, a proposta é ainda mais saudosista do que um mera esquematização, pedagogia ou imagens estáticas para fins acadêmicos ou de trivialidades informativas, o convite dos seus “maquinistas” foi a de uma última viagem, de uma última paragem e de uma última vista pela cidade banhada pelo sol frio, acompanhada pelas faces de quem normalizou a sua rotina como intemporal carrasco.

O filme é sensorial, o espectador em poucos minutos simula a sua experiência nos caminhos-de-ferro suspensas, porém, outro elemento do Cinema é subtilmente colocado à prova. Toda a viagem de Brakhage e Cornell é amontoada por vidros, vidraças, metais e chapas organizados, madeiras intrusivas e reflexos sobrepostos que os impede de atingir um olhar a nu pelas imagens, uma contradição visto que os próprios, em exercício do seu cinema, operam com uma lente que capta essa mini-odisseia. Mas a câmara, essa, anseia pela pureza do seu olhar, um esforço hercúleo e em vão, visto que a objetiva é poluída pelo seu redor. É bem verdade que Brakhage, experimentalista de segunda fornalha e underground de primeira, praticamente confrontou a sua teoria de um “cinema puro” no descarte do objeto que sempre assumimos como dissociável – a câmara – porém, tal é outra viagem.

Quando as revoluções falham, o que sobra?

Hugo Gomes, 28.09.21

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Não sou o maior defensor de “Nova Ordem” de Michel Franco, há algo que se esgota e que facilmente distorce a dita distopia para uma realidade comum e reconhecível (e por vezes pastiche), mas é uma tese emborcada que confronta o nosso reacionarismo. E é óbvio, tendo em conta a reação obtida, de que somos apegados à sensação de permanente conforto, essa que é destabilizada num filme como este, apelando aos pólos extremistas e à ausência empática que temos contraindo em relação às causas.

Toda a estrutura de “Nova Ordem” é baseada numa simplista questão sociopolítica, o filme a esconde por vias de uma jornada martirológica. Um mártir, um sacrifício ou simples vaivém para essa torturante demanda, um pretexto para Franco denunciar a romantização por detrás da ideia de Revolução, esquecendo de um prolongado exemplo histórico de que elas partem das meras ilusões, chegando a um ponto de se tornar somente uma alternância dos dominantes e dos dominados. Não é um filme de esquerda, nem de direita, é um filme que reage aos extremismos desfazendo essa mesma romantização, suplicando pelo nosso empirismo.

O desafio está no seguinte: aos privilegiados são lhe dados um motivo, uma relação, um holofote, preocupamos com eles … caímos assim no engodo … pelo que o filme desfoca os “invisíveis”, os esmagados e os escorraçados. Eles são o mal, a patologia, e dessa forma “Nova Ordem” nos engana em fazer-nos acreditar em tal crença. Aliás, é nas crenças que nascem as revoluções. Será que elas realmente se concretizam? Ou caem por terra como a enxada de “Torre Bela”?

As questões vêm com uma certeza, por mais que se tente, o capitalismo sempre será o vencedor convicto. Ou como diz recorrentemente Slavoj Žižek“É mais fácil imaginar o fim do Mundo do que o fim do Capitalismo.”

O cancro maligno do terror de degustação

Hugo Gomes, 18.09.21

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Sublinho que James Wan é um tecnicista. É necessário que, para o seu cinema vingar em tela, exista alguém que reforce a sua genica, empurrando-o e incentivando-o criativamente. Seja Leigh Whanell ou o produtor Jason Blum, cúmplice necessário para transcrever uma técnica em prol de uma estética e consequentemente com um conteúdo. Nada contra, existem muitos “autores” que se vingam pela forma como se posicionam ou narram as ditas desventuras, só que “Malignant” parece ser eventualmente essa afirmação autoral acima de uma verdadeira orgânica da essência.
 
A esta altura, muito foi escrito e descrito sobre o filme, supostamente independente, de um dos mentores de “The Conjuring” e “Saw”, duas importantes sagas do género de terror do século XXI que redefiniram exatamente isso para as mesmas gerações. “Malignant” é somente a citação de um legado, um giallo prescrito e homenageado pelo próprio, o qual tenta transladar uma certa sujidade e artesanato a uma indústria de requinte propícia a “copy and past”. Nesse sentido, as referências, aquelas “piscadelas” no olhar do aficionado ou do cinéfilo mais saudosista, são dilacerados e misturados numa papa pronta a servir. O que basta é comer, saborear e automaticamente sermos invocados numa espécie de proustiana sensação de reciclagem. Sabendo nós, que o terror, nada ou pouco parece reinventar hoje em dia, o legado persiste na fórmula adequada de propagação, James Wan comete o erro da fanfarrice na sua recitação, não deseja inovar, nem sequer ser o tal e formado James Wan, apenas sentar na mesma mesa posta com os outros ditos mestres, seja Dario Argento, seja Brian De Palma, seja Luci Fulci ou Wes Craven (possivelmente o maior dos signos desta obra), tudo, aspirações (não inspirações) para o nosso malaio indiciar nestas jornadas de calafrios.
 
Mas como havia refiro no início do texto, Wan é um tecnicista, e como tal é na técnica que se vinga, trabalhando, como sempre, os espaços e transformando-os em palcos de assombrados gags, ou colocar o espectador no centro da ação, como o travellingant farm” com finalidade de nunca nos deixar à deriva dos jumpscares, mas, por infelicidade do próprio Wan, tal tem sido um truque recorrente na saga que o próprio criou (sim, falo desses Conjurings e Annabelles da vida). Contudo, é essa ambição de Wan em tentar envergar pelos mestres do costume, que não o separa de outro James querido da crítica - o Gray - que por si é também mais tecnicista que autor. Aliás, hoje em dia, a noção de autor do cinema encontra-se mais acorrentada à recriação de gestos antigos do que propriamente a um universo próprio.