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Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Cinematograficamente Falando ...

Quando só se tem cinema na cabeça, dá nisto ...

Em Cuba, sê cubano ... ou qualquer outra coisa!

Hugo Gomes, 07.07.20

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A Netflix decidiu distribuir o mais recente (por enquanto) filme de Olivier Assayas, mas é como estivesse o produzido. Porque tal, como muitos produtos assinalados com “N” escarlate, chegou-nos um objeto anónimo, economizado até às costuras e despachado visualmente como fosse propício a todos os ecrãs.

Vindo do mesmo homem que nos trouxe Carlos, e posteriormente filmes como Clouds of Sils Maria, Summer Hours e (porque não) Personal Shopper, esperávamos mais do que uma mistela de factos históricos sem tomar partido algum (a imparcialidade é um gesto inexistente e despersonalizado) em prolongada espionagem para consigo próprio. Wasp Network soaria melhor em formato documental … pelo menos

Addio alle tue glorie, maestro ...

Hugo Gomes, 06.07.20

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O meu primeiro contacto com Ennio Morricone … mais precisamente com o trabalho, hoje legado, do maestro, aconteceu numa quinzena passada na aldeia das Antas, situado algures nas localidades de Fornos de Algodres (Guarda). Enquanto criança, longe das tentações citadinas entrei em modo de autopunição por um ano letivo vergonhoso, refugiando-me numa antiga coleção de VHS, maioritariamente composta por clássicos populares, portugueses da dinastia de Vasco Santana e António Silva e por alguns westerns spaghettis.

Recordo o dia … não exatamente o dia em questão, mas o sentimento que me atingiu após o longo e animado genérico de The Good, The Bad and the Ugly (O Bom, O Mau e o Vilão). Vibrei com aquela música, que se já era tida como parte irreconhecível da cultura popular, ainda mais na associação automática com o dito género western. Não deixei o filme continuar após o fim dos créditos iniciais, parei a fita, rebobinei e pressionei no “play” e repeti a sinfonia.

Fiquei maravilhado com aquela sonoridade, sem saber (o que viria a confirmar a alguns anos depois, após assumir-me cinéfilo) que aquela composição que marcou aquele meu verão “danado” tinha o dedo de Ennio Morricone. Este foi o meu primeiro “ricordo” com o seu mundo de acordes, sons e melodias … hoje, essa cornucópia musical silenciou-se.

(1928 - 2020)

Stage Fright: "Diz que me amas, Sir Hitchcock"

Hugo Gomes, 05.07.20

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Automaticamente, se tivéssemos que mencionar filmes da torrente carreira de Alfred Hitchcock, nunca passaria pelas nossas cabeças referir Stage Fright. É um dos seus “filmes menores” (Paul Duncan na edição Taschen o chamou de “policial fraco”), perpetuamente esquecido perante muitas das produções posteriores, essa escalada que tornaria, por fim, o britânico no grande “mestre do suspense” (obviamente que tal cognome seria totalmente apreciado tardiamente sob o proposição dos cinéfilos e críticos do Velho Mundo … mas essa não é a história).

Antes da altura do seu lançamento, o que evidenciávamos era um Hitchocock a adaptar-se aos ambientes megalómanos e acelerados da indústria hollywoodesca, desde os tempos de “protégé” do produtor David O. Selznick (Rebecca, Paradine Case) ou dos fracassos cometidos pelos seus “filhos bastardos” como The Rope (1948) e Under Capricorn (1949). Obviamente que resumir a sua estadia norte-americana por esses dois pontos é de uma ingratidão “plus” ignorância, sem esquecer dos felizes exercícios do seu thriller à casa (como o sucesso de Notorious em 1946) que emancipou pouco a pouco, tendo, por fim, o seu nome reconhecido e convertido num selo de qualidade. Mas com Stage Fright, possivelmente, estreado num crucial 1950, cinco anos após o final da Guerra, cinco anos fora dos anteriores bodes expiatórios e de cabeça voltada para novos terrores, desencadearia um dos seus episódios mais recauchutados do seu estilo e composição narrativa.

Não há como negar que Stage Fright não seja um filme à Hitchcock, com todos os seus “rodriguinhos” de historieta; crimes, “macguffins”, falsos-culpados e investigações por conta própria. Tudo lá, embrulhado sobre um aprumo técnico e de claras impressões que nos guiarão para um twist final (a reviravolta que não é mais do que a "cereja do topo do bolo"), por sua vez, engatado na pequena sofisticação de Hitchcock (o “falso” flashback, ou o flashback traiçoeiro, como o quiserem chamar). Aí, há um caminho andado para o seu culminar (dez anos depois com Psycho), através da introdução de um conceito tão inevitavelmente censurado no cinema hitchcockiano. A palavra não é dita … a nossa heroína (Jane Wyman), cala-se a tempo de o invocar perante a loucura revelada do seu “falso-culpado”. O espectador contemporâneo possivelmente não o irá decifrar, será preciso um tempo-teste, umas quantas barreiras trespassadas e um assassinato acontecido num chuveiro que imortalizaria para todo o sempre, para que fosse possível, automaticamente, concluir esse raciocínio. Por enquanto, a mudez é a ambígua resposta à prolongada tese da culpa no cinema de Hitchcock.

Já o cineasta declarava que Stage Fright era o seu crítico exame à arte da atuação, colocando-o perto a perto com outra arte que o tanto fascina, a do crime. Depois dos desejos de impregnar o homicídio como a oitava arte em The Rope, a busca pelo crime perfeito e sem culpas em Strangers on a Train, o qual iria embarcar um ano depois, este seu “filme menor” instalava-se na teatralidade como uma das armas reconhecidas para essa ideia de assassinato concretizado, e nesse aspeto, os atores como os mais perigosos do ramo devido à sua iniludível capacidade.

Porém, o encenador aqui é outro, Alfred Hitchcock, que expõe a anatomia do crime através de um delicado humor e fascínio (muitas vezes transladados às suas personagens, ao amador detetivesco Alastair Sim) pela óbvia morbidez. Digamos que ele é o verdadeiro patife de todo este rol de criminosos, vitimas e culpados, usufruindo constantemente da sua posição de poder. O cineasta está a uns valentes passos acima do espectador, e tal é demonstrado na introdução da madame Marlene Dietrich a este universo, encarregue de nos apresentar o distintivo macguffin, a desculpa para o nosso embate policial. Tal como a personagem aflita que pede auxilio para remediar um dos seus atos impensáveis, Stage Fright solicita o nosso amor enquanto cinéfilo - “Say that you love me. You do love me, don't you?”.

Isto tudo para afirmar, que mesmo na sua esquecida posição, não saindo da sua menosprezada etiqueta de “obra menor”, Stage Fright foi o importante arranque para a mais consagrada década da carreira de Hitchcock. Depois disto, o rol é incontornável!

«Roman Porno»: Ainda há muito desejo para consumir ...

Hugo Gomes, 03.07.20

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Com toda a dedicação, prosseguimos para terceira parte do ciclo “roman porno” (literalmente traduzido, ciclo da “pornografia romântica”, vindo da designação atribuída por crítico e programador da Cinemateca Francesa Jean-François Rauger), a estratégia de produção dos estúdios Nikkatsu nos anos 70 para conseguirem superar a decadência da indústria da altura, no Espaço Nimas. Chega-nos a vez do quarto filme da série Angel Guts: Red Porno (Tenshi no Harawata: Akai Inga, 1981), de Toshiharu Ikeda, e o não consensual, Anti-Porno (Anchiporuno, 2016), de Sion Sono.

O artifício dimensional perpetuado por “Anti-Porno” (simbolizado, que no seu todo, por um lagarto preso na garrafa, o fatal conformismo pela sua realidade) anula qualquer perversão obtida do exercício sexual, revelando-se um trabalho-tese que finaliza todo um gesto produtivo. Depois deste filme, acreditamos que as vontades (se existissem) de ressuscitar o “roman porno” nos nossos dias não serão mais do que meros devaneios oriundos de homens saudosistas, presos a um passado cada vez mais longínquo. Com o cineasta Sion Sono, o sexo muda de holofote, altera a sua exposição, o seu consumismo e sobretudo o seu olhar e os olhos pelo qual se direciona. O que sobra é a cultura do seguidismo, da veneração dos corpos e a constante batalha campal em salvaguardar o sexo como a divina arte.” Ler artigo completo no Mag.Sapo.

Da Palestina, com amor e poesia ... agora, nas salas!

Hugo Gomes, 03.07.20

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Para quem diz (ou persiste) que não há filme "novos" para colocar nas nossas salas de cinemas neste pós-confinamento, basta meter os olhos nas estreias desta semana.
 
Não é coincidência que dois dos grandes filmes do ano chegaram às nossas (poucas) salas. A começar pelas crónicas de um palestino por esse mundo fora, It Must Be Heaven, a quarta longa-metragem de Elia Suleiman, condecorado com uma Menção Especial na última edição o Festival de Cannes (sim, a de 2019):
 
"Com “It Must Be Heaven” (Paraíso, Provavelmente), centramo-nos, até à data, no seu filme mais frustrado, aquele que parece perder todas as esperanças por qualquer intervenção divina, até porque, segundo Suleiman, num encontro em Cannes, a possibilidade de uma utopia entre os dois estados é a mais longínqua fantasia; uma luta para sonhadores que renega o passado tumultuoso da sua coexistência. Assim, partindo no óbvio que nada pode mudar, resta reencontrar o seu espaço no Mundo. O que resta ao palestino nesta geografia? E é então, que o silêncio ativista de duas décadas rompe perante uma resposta, um “statment” que Suleiman não quer deixar emudecido. Há que dizer a tudo e a todos que é o palestiniano antes que a sua identidade se desvaneça em anexos." ler crítica completa no C7nema.
 

"Nunca falei nos meus filmes, até então, pelo que achei que seria uma mudança interessante e inesperada aqui. Como dizes, uso a posse da palavra para mencionar “ Nazaré” e “palestino”, que em certa parte é como não dissesse rigorosamente nada. Não gosto de trabalhar com diálogos, nem sequer monólogos, nos meus filmes. Por um lado é menos trabalho que tenho na conceção destes, mas acima de tudo é porque prefiro centrar-me nas imagens, emoções, e através disso elaboro um diálogo metodológico. Por norma, confundimos linguagem com informação, o que não é verdade. Podemos encher-nos de palavras e dizer rigorosamente nada, e essa presunção leva-nos a minimizar o poder das imagens. Com isto, o que pretendo é construir uma narrativa fílmica com base nessas e não dependente das palavras." segundo Elia Suleiman, na entrevista dada ao C7nema.

E para terminar na angustia de um homem em elevar-se a escritor na (muito) livre adaptação do livro de Jack London, Martin Eden, de Pietro Marcello (e não esquecer a dedicação de corpo e alma do ator Luca Marinelli):
 

"Martin Eden” é, para todos os efeitos, um filme de coração-artista: tumultuoso e inquietante numa sufocante ânsia em criar a todo o custo. É assim a personagem (figura refém do desempenho anárquico e igualmente magistral de Luca Marinelli), é assim a obra que busca livremente os sopros do homónimo trabalho literário de Jack London (de cariz autobiográfico) para proclamarem como seus numa Itália abstrata e enevoada quanto à perceção de século XX." ler crítica completa no Cinema 7ªArte.

 
Pois é, dá gosto ver obras como estas a marcarem presença nos nossos espaços. Ficam as sugestões.
 

Carl Reiner: mortos não pagam dívidas

Hugo Gomes, 30.06.20

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Carl Reiner, o proclamado Mestre da Comédia, como tem sido descrito, nos deixou hoje, aos 98 anos. Dele (enquanto realizador) gostaria de salientar Dead Men Don't Wear Plaid (Cliente Morto Não Paga a Conta, 1982), que confesso, ser dos escassos trabalhos o qual tolero Steve Martin, porém, este não é um filme de ator e das respetivas gags, é sim, uma obra zeitgeist munido de um elenco estrelar, do melhor visto daqueles lados de Hollywood.
 
Se bem verdade que muitos dos “companheiros” de Martin não partilharam, literalmente, o ecrã, mas é nas suas memórias (aquelas registadas) que deparamos num utensilio inventivo e hilariante. Estes atores convertem-se automaticamente em recortes distorcidos nesta ação, e só para mencionar alguns dos rostos e corpos emprestados; Cary Grant, Bette Davis, Humphrey Bogart, Ingrid Bergman, Ava Gardner, Barbara Stanwyck …. Quer dizer … já devem estar a perceber a figura!
 
Mas no fundo é isto: Carl Reiner não foi apenas um artesão em “fazer-nos rir”, foi um entusiasta no riso e na procurar dele através da criatividade, inventividade e engenho. 2020 não está a ser particularmente generoso com a comédia …

São Pedros, São Pedrocas, São Peters, São Pierres e São Pietros

Hugo Gomes, 29.06.20

Hoje, dia de São Pedro, recordo alguns 10 Pedro(s) célebres do Cinema. E para vocês, qual "Pedro" destacaria na lista?

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Peter Sellers, ator de “Dr. Strangelove” e da saga “The Pink Panther

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"Pierrot, Le Fou" (Pedro, O Louco), filme de Jean-Luc Godard com Jean-Paul Belmondo e Anna Karina

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Peter Lorre, ator de "M", "Casablanca" e "The Man Who Knew Much"

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Peter O'Toole, ator de "Lawrence of the Arabia" e "Venus"

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Peter Weller, ator de "Robocop" e "Naked Lunch"

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Pedro Almodovar, cineasta de "Pain and Glory", "All About My Mother" e "Women on the Verge of a Nervous Breakdown"

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Pedro Costa, realizador de "Vitalina Varela" e "Quarto da Vanda"

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Peter Cushing, ator de "Star Wars" e vários títulos da Hammer

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Peter Weir, realizador de "The Mosquito Coast", "Truman Show" e "Picnic at Hanging Rock"

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Peter Bogdanovich, realizador de "The Last Picture Show" e "Paper Moon", um dos responsáveis pela conclusão de "The Other Side of the Wind", de Orson Welles

«Roman Porno»: Onde o sexo continua a ter lugar ...

Hugo Gomes, 26.06.20

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Continuando na nossa viagem pelos sentidos com o “roman porno” (literalmente traduzido, ciclo da “pornografia romântica”, vindo da designação atribuída por crítico e programador da Cinemateca Francesa Jean-François Rauger), a estratégia de produção dos estúdios Nikkatsu nos anos 70 para conseguirem superar a decadência da indústria da altura, no Espaço Nimas. Nesta segunda parte do ciclo, chegamos às “mulheres-gatos” com Night of the Felines (Mesunekotachi no yoru, 1972), de Noboru Tanaka, e a modernizada versão, Dawn of the Felines (Mesunekotachi, 2017) de Kazuya Shiraishi.

"Nasce aqui uma espécie de triângulo amoroso, sem as ditas arestas reconhecíveis, que irá culminar numa viragem sexual ao som de cantos gregorianos a explorar territórios não-binários da sexualidade de cada um. Digamos que se descobre que as mulheres têm algo de gato dentro delas, independentes, matreiras e nunca devidamente domesticadas, enquanto os homens, meramente ridículos do debaixo das suas propositadas capas de masculinidade (ou como, no caso de Makoto, sensibilidade à flor-da-pele), abrem portas para um universo, ainda que secreto, da homossexualidade da altura em Tóquio." Ler artigo completo no Mag.Sapo.

As tuas palavras, Martin Eden, serão as minhas!

Hugo Gomes, 25.06.20

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Ainda estou arrepiado! Degusto devagar e de forma prazenteira os sentimentos que este Martin Eden me convocou. Pelo menos, com este filme (pensando bem, rasuro, e troco pela palavra “obra”, adequa-se mais) de Pietro Marcello fez-me acreditar, por breves momentos, que o Cinema Italiano está de boa saúde. Pelo menos isso … Isso e um ator chamado Luca Marinelli (culpa minha, já devia ter reparado há tempos).

Perdão pelas palavras vazias, mas é o calor do momento. Brevemente tento domar as palavras de Martin Eden como minhas.

Regressando ao Cinema. De regresso à capital.

Hugo Gomes, 24.06.20

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Convidado pelo site Cinema Sétima Arte a partilhar o meu "desconfinamento" cinematográfico, que em certa parte está associado ao meu regresso a uma cidade que tanto afeto nutro.

"Porque foi com “A Cidade Branca” que regressei ao cinema e simultaneamente à cidade que tanto amo e que, infelizmente, me permite viver à sua porta. É a tela a dialogar diretamente comigo, a comunicar da única maneira que bem sabe, através de imagens e sons aparelhadas numa narrativa, ou numa não-narrativa, assim como tão bem pretenderem. Enquanto crítico, sempre tive a necessidade de coletar esses visuais e sonoridades na promessa de desvendar o hieróglifo decriptado do meu quotidiano e, através da branca cidade na perspetiva de Tanner, redescobri uma Lisboa “selvagem” que deseja sobretudo voltar a ser explorada (e filmada)." Ler texto completo aqui.

Obrigado.