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27.1.14

Confronto de gerações!

 

Vivemos numa sociedade onde a distância entre gerações é cada vez mais diferenciada e isolada entre elas, provocando nestas adversidades uma incompatibilidade sociável que é gradualmente notada nos avanços e na modificação do quotidiano que como tal conhecemos. Ozu ilustrava há 60 anos uma longitude geracional que se bem empregaria nos tempos que decorrem, tudo num retrato deveras alusivo e exaustivo em simbologias presentes nos seus diálogos quotidianos, na monotonia dos actos, nos laços familiares que recorria e por fim na multiplicidade de sentimentos.

 

 

Falo obviamente de A Viagem de Tóquio (Tokyo Monogatari), onde já se mostrava o confronto entre épocas, ambientado num Japão em plena reconstrução, quer social e económica, após a humilhante derrota na Segunda Grande Guerra. O enredo da obra é deveras simples: um casal de idosos oriundos de uma calma e pequena cidade costeira "ozuesca" viajam para a capital nipónica com fins de visitar os seus filhos e confirmar como se estão saindo fora das suas "alçadas". Durante esta jornada de reencontros familiares, os "velhotes" apercebem-se que os tempos mudaram e as suas anteriores crianças já não são mais crianças que necessitam dos pais, são agora adultos feitos e de família formada que tentam sobreviver numa cidade competitiva. De natureza ocupada e sempre dotados de uma certa frieza em relação à visita dos seus progenitores, os filhos tentam mantê-los ocupados com actividades dos quais não requerem a suas presenças, fazendo com que estes tenham as merecidas férias mas não as pretendidas. Porém a ironia das ironias, é que a única pessoa que os recebe com a tal devida atenção e respeito durante a viagem é a nora viúva, que demonstra tamanho afecto, principalmente no tremendo climax que Ozu aguarda para o último acto.

 

 

Uma trama simples, interligada pelas mais diferentes rotinas familiares onde pouco ou nada parece surgir no ecrã. Contudo este é o filme que mais sintetiza o próprio estilo e inerência do cineasta. Não apenas a nível técnico; os falsos raccords e os planos a poucos centímetros do chão que se adapta aos próprios costumes dos nipónicos (esses planos viriam ser academicamente apelidados de “planos-Ozu”), mas a forma como transcreve o quotidiano e a dita rotina social em histórias de vida, em enredos que consolidam a tradição com o moderno e os valores com emoção entre os diferentes laços familiares. São pouco os realizadores que conseguem transcrever tais minuciosidades "banais" em termos cinematográficos, e  transforma-los em verdadeiros "palcos" para os seus peões e mais … para as suas histórias. Apelidado de o mais "japonês" dos realizadores japoneses, Ozu faz jus a tal cognome, demonstrando acima de tudo uma sensibilidade em retratar o seu património cultural e expressar o mundo em constante mudança que o rodeia.

 

 

Quanto a Tokyo Monogatari,  eis uma obra de beleza inigualável onde Ozu tece um confronto de gerações e "coze" discretamente qualquer veia sentimental mas que as difunde nas proximidades do final, onde nos deparamos com uma orquestrada inerência em transmitir sob um signo nobre, uma ênfase emocionante, de beleza triste e súbita, capaz de difundir uma poderosa moral. Claramente esta é a obra-prima do cineasta, um quadro subtil, bem-intencionado e sempre munido de mensagens ocultadas nos cenários e nas triviais conversas entre personagens. A Viagem de Tóquio foi durante a sondagem de 2012 da revista Sight & Sound considerado o terceiro melhor filme de sempre entre os críticos e o primeiro entre os realizadores, distinção discutível mas que se reconhece ser de certa forma merecida: esta é uma das obras que nos "tocam" pela sua simplicidade em emoções que ecoam por toda a eternidade.   

 

"Isn't life disappointing?"

 

Real.: Yasujiro Ozu / Int.: Chishu Ryu, Chieko Higashiyama, Setsuko Hara, Haruko Sugimura, Sô Yamamura, Kuniko Miyake, Kyôko Kagawa

 

 

10/10

publicado por Hugo Gomes às 22:37
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