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22.11.15

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Ambiguidade, coisa rara no cinema revoltado!

 

Em The Hunger Games sentimo-nos enganados, burlados com as etiquetas que são constantemente atribuídas para catalogar os filmes e especificá-los às estatísticas e estudos de mercado. Sentimo-nos desencantados com a própria noção de cinema adolescente, ou até do preconceito envolto do blockbuster, esses filmes de grande orçamentos cujos mais puristas acreditam somente ser “isco” para massas. Não, The Hunger Games é um fenómeno, acima do cinema propriamente dito e nisso podemos evidenciar a influência da sua protagonista, Katniss Everdeen, a Joana D’Arc do novo século, conseguindo movimentar multidões, dentro e fora do ecrã. Na Tailândia, por exemplo, a sua figura e o respectivo cenário motivaram uma nova geração, cansada de sentir oprimida, a rebelarem contra o sistema no qual estão inseridos. É esse tipo de manifestação que faz concentrar réstias de esperançaquanto ao poder do Cinema, não somente como uma força de entretenimento mas sim como uma viabilidade de expressão.

 

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Contudo, é de ficar pasmados pela grandiosidade da produção e a sua simbiose por uma ácida e constantemente cínica teia político-social, até porque The Hunger Games evoluiu, é mais do que romance e acção, é um espelho actualizado que se transforma consoante a nossa ideologia, imaginação e crença. Nesse sentido, Katniss, que para muitos uma heroína, pode ser vista como uma mártir ou até uma equivocada figura antagónica, sem saber ao certo a sua posição. A personagem interpretada por Jennifer Lawrence é um ícone de guerra, manipulada pelos medias e pelas forças politicas que assombram uma distopia futurista. Ela não é omnipresente, eticamente perfeita e incontestável, simplesmente é uma jovem, com todas as conotações e gestos instintivos que isso lhe traz. É um peão num jogo de adultos, um tabuleiro de peças bélicas, onde a verdadeira guerra se faz longe dos olhares dos infantes.

 

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The Mockingjay, a segunda parte que corresponde ao terceiro livro de Suzanne Collins, é uma alegoria de guerrilha cantada sobre pautas matrizadas do cinema mais lúdico e inconsequente, assim sendo temos a nosso dispor as habituais sequências de acção e o romance trágico que qualquer adolescente sonha viver, para além dos elementos dignos da ficção científica que esclarece que todo este palco é pura fantasia, e que qualquer similaridade política é pura coincidência. Novamente com Francis Lawrence encarregue na realização, The Hunger Games avança sorrateiramente no seu percurso narrativo, tentando a todo o custo contornar as personagens descartáveis que surgem neste enredo, sabendo que nem todas podem ser salvas desse anorexismo, até porque a verdadeira atenção encontra-se na nossa estrela, a nossa Katniss que brilha em todos os sentidos. Se a actriz encanta com a sua performance, é nos argumentistas que se evidencia um trabalho esforçado em compô-la.

 

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Do outro lado do conflito, Snow, o assumido “vilão”, um ditador vampírico que parece prover da postura e presença de Donald Sutherland que encontra em The Hunger Games um forma de marcar um dos seus melhores e actuais registos. Uma das improbabilidades que este capítulo conseguiu com garra foi a química emanada por ambos, numa das sequências mais vitais deste enredo, providas de um dos muitos twists que invocam uma acidez e por sua vez, o referido cinismo a nível politico, tão delicioso como reflectivo. The Hunger Games contrai aqui um tom mais pessimista, negro e sobretudo desferidocomo expressionismos melancólicos que opõem o seu eventual “happy ending”, confiantemente prolongado por uma longa elipse. No final de contas, como a própria Katniss afirma em um dos actos “eu também tenho pesadelos”, a desilusão de uma geração que acreditou piamente em mudanças perpétuas e em veracidade nos sistemas governamentais. Sim, essa Katniss é sobretudo parte íntegra de uma vaga, hoje formada pelas crianças de ontem e pelos adultos de amanhã.

 

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Dividido entre o espectáculo corriqueiro de uma Hollywood para massas e as suas ousadias que se espalham como mensagens subliminares, The Hunger Games: Mockingjay Part 2 resulta, até à data, no melhor do franchise, inserindo-se numa versátil crítica politica que desafia as suas próprias definições de maniqueísmo. É que neste tipo de conflitos, não existe nem “bem” nem “mal”, somente escolhas idealizadas.

 

"You love me. Real or not real? / Real"

 

Real.: Francis Lawrence / Int.: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Donald Sutherland, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Sam Claflin, Jena Malone, Stanley Tucci, Jeffrey Wright, Natalie Dormer

 

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Ver Também

The Hunger Games (2012)

The Hunger Games: Catching Fire (2013)

The Hunger Games: Mockingjay Part 1 (2014)

 

8/10
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publicado por Hugo Gomes às 20:28
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1 comentário:
De Frederico Daniel a 11 de Fevereiro de 2016 às 19:25
"The Hunger Games: A Revolta - Parte 2": 5*

Com uma história e ação fogosas, este filme fechou a saga com chave de ouro e recomendo vivamente que o vejam.

Cumprimentos, Frederico Daniel.


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