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28.2.14

O desafio da vida!

 

Tal como um dos personagens principais (o actor e argumentista Johan Heldenbergh), The Broken Circle Breakdown revela a sua adoração ao estilo norte-americano, nomeadamente o seu distinto melodrama. Contudo, e novamente em consolidação com o seu protagonista, vai-se divorciando dessa tal afinidade e estabelecendo as suas fronteiras, a do realismo europeu e a da fantasia onírica americana. Por outras palavras, é fácil identificar os elementos que comummente se visualizam nas enésimas obras americanas. Porém, tudo se resume a uma mimetização sarcástica desses mesmos lugares-comuns, ao mesmo tempo que o espectador evidencia um gradual afastamento em prol de um território europeu, realista até à medula e sim, como muito do seu cinema, deveras pessimista.

 

 

Mas é nesse pessimismo que encontramos a verdadeira beleza do novo filme de Van Groeningen (baseado numa peça de Johan Heldenbergh e Mieke Dobbels), uma vingativa descida à eterna melancolia da vida celebrada com pequenos rasgos de graciosidade. Neste drama são muitos os momentos emocionantes e deveras poderosos, tudo graças ao par protagonista que desempenha fervorosamente os seus papéis (Veerle Baetens prestes a torna-se numa imagem de marca do cinema belga). Porém, e talvez o mais triunfante em The Broken Circle Breakdown, é que em nenhum momento sentimos pena deste casal, sentimos o roçar da lamechice e, mais infamemente, nenhum acto de esperança.

 

 

É um amor completo que gera uma família feliz, ambiente propício para esse tão cobiçado sentimento, mas traído pelo próprio ciclo de vida e culminando em desgraças capaz de converter o mais ou menos crente dos sujeitos. Tal como o título traduzido alude, é um Ciclo Interrompido pelo infortúnio, desfragmentado como a sua narrativa mergulhada entre o passado e o presente (um exercício narrativo a lembrar 21 Grams de Alejandro González Iñárritu), onde a clara divergência entre estas duas linhas temporais é a fotografia, simbiótica com o tom do momento. É um debate reflectivo sobre a natureza do revés e o sentido de uma vida que, por vezes, soa irónica e recheada de malvadez que nos faz questionar os propósitos de Deus.

 

 

Mas sem querer entrar nessa disputa religiosa que a promoção do filme parece forçadamente vender, o filme é uma faustosa melodia, um exemplo pesaroso que nos revela sintonia mas que de maneira ingrata retira-nos esse brilho. Apesar de tudo, é de forma apaixonada que Felix Van Groeningen aborda a desilusão no seu The Broken Circle Breakdown, o que se apostava ser mais um "by the book" do final feliz e que se torna numa envolvente obra sobre paixão e decepção, que aos poucos se tatua na sua própria narrativa.

 

"I always knew. That it was too good to be true. That it couldn't last. That life isn't like that, life isn't generous. You mustn't love someone. You mustn't become attached to someone. Life begrudges you that. It takes everything away from you and it laughs in your face. It betrays you."

 

Real.: Felix Van Groeningen / Int.: Veerle Baetens, Johan Heldenbergh, Nell Cattrysse

 

 

 

9/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:32
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1 comentário:
De Carina MP a 11 de Março de 2014 às 01:08
Adorei uma prova de que o cinema europeu não é inferior de holywood, pelo contrario até chega em alguns casos a ser superior. grande obra <3


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