Data
Título
Take
1.8.17

1264633_Submergence.jpg

Wim Wenders vai abrir a 65ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian com a sua mais recente obra, Submergence. Para além da abertura, o filme também estará a concurso no respectivo festival que terá lugar no 22 a 30 de Setembro.

 

Com produção de Paulo Branco, a obra, que tem como base um homónimo livro da autoria de J.M. Ledgard, seguirá um casal que experiencia, separadamente, situações limite e que só as memórias do romance vivido numa praia francesa servirão de conforto. Alicia Vikander (Ex Machina [ler crítica]) e James McAvoy são os protagonistas.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 13:46
link do post | comentar | partilhar

25.9.16

i-am-not-madame-bovary-feng-xiaogang.jpg

 

 

O chinês I am Not Madame Bovary, de Feng Xiaogang, sai-se como o grande vencedor da 64ª edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian. O drama conquistou a cobiçada Concha de Ouro e ainda o Prémio de Melhor Actriz que foi entregue à protagonista, Fang Bingbing. Por outro lado o coreano Hong Sang-soo arrecada o prémio de Realização pela sua nova longa-metragem Yourself and Yours.

 

Destaque ainda para I, Daniel Blake, o vencedor da Palma de Ouro no último Festival de Cannes, foi o elegido pelo Público no seu respectivo prémio, e Rara, que esteve presente na selecção do Queer Lisboa 2016, premiado na secção Horizontes.

 

1228536_I_Daniel_Blake.jpg

 

Concha de Ouro

I Am Not Madame Bovary

 

Concha de Prata de Melhor Realização

Hong Sang-soo (Yourself and Yours)

 

Melhor Actriz

Fang Bingbing (I Am Not Madame Bovary)

 

Melhor Actor

Eduard Fernández (Smoke & Mirrors)

 

Prémio Especial de Júri (Ex Aequo)

The Giant

The Winter

 

Melhor Fotografia

Ramiro Civita (The Winter)

 

Melhor Argumento

Isabel Peña, Ricardo Sorogoyen (May God Save Us)

 

 

OUTROS PRÉMIOS

Prémio Novos Realizadores Kutxabank

Park

 

Menção Especial

A Taste of Ink

 

Prémios Horizontes

Rara

 

Menção Especial

Alba

 

Prémio Zabaltegi-Tabakalera

Eat That Question: Frank Zappa In His Own Words

 

Menção Especial

The Disco Shines

 

Prémio de Público DSS Capital Europeia da Cultura de 2016

I, Daniel Blake

 

Prémio de Público para Obra Europeia

My Life as a Courgette

 

Prémio Irizar Basque

Pedalo

 

Prémio Juventude Eroski

In Between

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 12:50
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar

1.9.16

Florence - Uma Diva Fora de Tom.jpg

Uma Diva Fora de Tom? Será só a "diva"?

 

Florence, Uma Diva Fora de Tom (título traduzido) centra na história de uma aristocrata que sonha protagonizar uma ópera. Um sonho que poderia ser facilmente cumprido se ela não possuísse a mais "inaudível das vozes" … esperem aí … será que estou a viver um déjà vu! Tal história já não havia sido adaptada ano passado? Mas afinal o que se passa aqui?

 

34CB2AAA00000578-3485639-image-a-54_1464699986103.

 

Não se trata de nenhuma recordação de vidas passadas, mas sim, da resposta norte-americana a Marguerite, um filme francês de Xavier Giannoli que apresentava Catherine Frot como uma aficionada de música que sofre de um grande mal … é desafinada "o quanto farta para cantorias". Mas esse "pequeno" grande defeito é ocultado da protagonista. Como? Com concertos encenados, opiniões forjadas e uma dedicação "martirologica" do seu marido. Mas nada disso impediu que Marguerite Dumont (referência à actriz Margaret Dumont, que constantemente contracenava com os irmãos Groucho) cumprisse a sua intima "fantasia" de ser um "anjo" em palco.

 

Florence-foster-Jenkins-Movie.jpg

 

Marguerite [o filme] foi um êxito, quer financeiro, quer artístico, conseguindo trespassar a sua ideia anedótica para um negro retrato sobre a arte como objecto de ostentação. Pelo meio passava algumas e óbvias incursões de Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses), de Billy Wilder. Contudo, não devo avançar mais, até porque esta é a crítica de um outro filme. Sim, a de Florence, A Diva Fora de Tom, a previsível aposta para a vigésima da nomeação ao Óscar de Meryl Streep (e porque a Academia adora ousadia, óbvia ironia para quem não percebeu), é mais um "biscate" de Stephen Frears. A replicada história, agora, readaptada sob a desculpa de factos verídicos.

 

florence-foster-jenkins1.jpg

 

Pelos vistos existiu na realidade uma "pior cantora de sempre" e que se dá pelo nome de Florence Foster Jenkins, uma herdeira nova-iorquina que conseguiu, nos anos 40, um espectáculo no histórico Carnegie Hall, mesmo tendo como seu grande inimigo uma voz "torturante". Meryl Streep, como sempre, encarna na sua personagem com garra e ousadia (mais que o próprio filme), mas infelizmente é na sua composição que esta produção hollywoodesca falha em todo os sentidos. Florence é demasiado "angelical", sem o pingo de loucura de Catherine Frot e induzida num quadro semi-hagiógrafa. É o problema destes biopics sob constantes piscadelas aos prémios da Academia, tendem em branquear em demasia as suas personalidades centrais (a relembrar o falhado retrato de Margaret Thatcher em The Iron Lady, novamente com Meryl Streep na "calha").

 

primary_simon-helberg-florence-foster-jenkins-xlar

 

Florence, Uma Diva Fora de Tom resume a um produto que falhou em consolidar a sua própria nota musical, tentando dispersar na imensidão cinematográfico, porém, encenando somente a mesma fórmula cinebiográfica. O tom, esse, é mais anedótico que o primo gaulês, encarando a história de Florence Foster Jenkins num prolongado gag de sitcom (demasiado trocista em relação à sua protagonista). A salientar ainda, Hugh Grant em forma e a surpresa de Simon Helberg numa variação muito "pee-wee". O resto é desafinação pura.

 

"Some say I that couldn't sing, but no one can say that I didn't sing"

 

Real.: Stephen Frears / Int.: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, Rebecca Ferguson

 

Florence1.jpg

4/10

publicado por Hugo Gomes às 11:54
link do post | comentar | partilhar

21.5.16
21.5.16

Elle.jpg

 

O desejo é algo indescritível!

 

Durante a sua carreira, ao holandês Paul Verhoeven foram atribuídos diversos "gloriosos" nomes: sexista, homofóbico, voyeurista, sádico, mau gosto, etc. Mas de uma coisa é certa, não lhe podemos negar o adjectivo de ousado e neste Elle, visto como o seu grande regresso ao cinema, a irreverência é o ingrediente que não falta.

 

342104.jpg

 

Com mais de cinquenta anos de experiência no cinema, o anterior e "maldito" realizador de Showgirls vira o jogo num mundo descrito pelo politicamente correcto e sobretudo pela hipocrisia. Essa partida joga a três: Verhoeven, a actriz Isabelle Huppert e o espectador, este último constantemente desafiado através dos outros dois "parceiros" pelos parâmetros maleáveis da demência (socialmente inaceitável) da sua protagonista. Trata-se de uma mulher forte, longe do heroísmo romantizado de Hollywood, ambígua (com o seu "quê" de psicótica) e sexualmente activa. Sim, é essa principal característica que coloca a personagem de Isabelle Huppert à frente de enésimos retratos feministas. Ela é sim uma perversa sexual, ou simplesmente (para não cairmos em julgamentos morais), uma mulher com  necessidades simples (se a personagem de Huppert fosse um homem não suscitaria tanto choque), dependente e independente do "cromossoma Y".

 

eerste-trailer-nieuwe-film-paul-verhoeven-elle.jpg

 

Elle arranca com uma violação, um acto medonho de invasão sexual que automaticamente começa a perseguir Michelle (Huppert) e a tomar as suas próprias fantasias. Ao contrário de uma enésima variação de I Spit on Your Grave, este definitivamente não é um ensaio de vingança nem uma ode justiceira dos direitos das Mulheres oprimidas, trata-se sim de uma longa fantasia, mórbida para os mais sensíveis, que adquire os eventuais toques do síndroma de Estocolmo. Isabelle Huppert veste a pele desta personagem como ninguém, desta forte mulher do cinema, que sob algumas réstias da anterior Catherine Tramell (personagem de Sharon Stone em o Basic Instinct) domina num mundo supostamente dominado por homens. Ela é um hino da verdadeira emancipação feminina, e simultaneamente é a mais frágil vítima desse mesmo estatuto. O trabalho de Paul Verhoeven é definitivo, a criação da personagem assim como a tensão psicológica que a culmina, uma sólida ponte entre o ecrã e o espectador, tornam este thriller sagaz, ritmado e degustável sob variados paladares.

 

verhoeven-hubbert-set.jpg

 

Ora são os momentos dignamente screwball, ora é a veia mais arquitectónica do thriller hitchockiano, ou os devaneios voyeuristas merecedoras do realizador. Porém, em Elle não somos induzidos ao intimismo fácil. A personagem apenas deixa-nos conhecer gradualmente, discreta sob o seu perfil, como uma sedução. Somos "fracos" porque cedemos aos encantos desta mesma personagem e da dedicação de Isabelle Huppert em a trazer à "vida". Verhoeven novamente recorre ao seu método quase pornográfico na exploração intrínseca dos seus peões, o resultado é que depois da sedução cumprida somos intrusos na intimidade desta mulher.

 

elle_7.png

 

Enquanto segue por aí uma fenómeno cinematográfico-literário de Fifty Shades of Grey, onde a mulher é dominada por um homem sob perversões sexuais (apelidando essa vulnerabilidade emocional de "amor", o truque mais barato que pode haver), em Elle, Isabelle Huppert é uma refém dessa perversões, enquanto que, sempre de alguma maneira, tenta resistir a essas ditas fantasias sexuais. Despreocupada, livre, firme e activa, o novo filme de Paul Verhoeven consegue ser o mais recente grito ao papel da Mulher do cinema. Um regresso e "pêras"!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Paul Verhoeven / Int.: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Christian Berkel, Anne Consigny

 

elle-isabelle-huppert.jpg

9/10

publicado por Hugo Gomes às 14:11
link do post | comentar | partilhar

13.5.16

Eu, Daniel Blake.jpg

 

Todo o proletário tem um nome!

 

Ken Loach continua a sua luta pelos direitos da classe operária, tentando denunciar um sistema falível de Segurança Social e o peão dessa sua experiência propagandista é Daniel Blake (Dave Johns, um sério candidato ao prémio de Melhor Actor em Cannes), um carpinteiro de meia-idade sob graves problemas cardíacos que luta contra a burocracia em prol dos seus direitos enquanto cidadão. Neste caso uns "trocos" para a renda semanal era mais que bem-vindo, mas uma realidade cada vez mais difícil perante uma sociedade que não integra nem deixa integrar. Não é mais uma citação de "este país não é para velhos", trata-se sim da busca pelo orgulho do proletário, e toda a propaganda que é assim afinada, não validando, portanto, a emoção dita cinematográfica, quase emprestado aos grandes crowd pleasures de Hollywood.

 

648x415_daniel-blake-ken-loach.jpg

 

No ano passado, assistíamos igualmente na competição de Cannes, La Loi du Marché, de Stephane Brizé, um filme muito apegado ao realismo que reduzia o actor Vincent Lindon ao desespero enquanto desempregado. Ao contrário dessa obra, Ken Loach apela à emoção como veiculo de luta e o seu apoio neste teor contrai maravilhas para o espectador. Em simultaneamente com os vínculos de realidade formal que esboça nesta desesperante jornada de um homem que acima de tudo deseja ser tratado como tal e não, como é referido a certa altura, num cão.

 

i-daniel-blake-cannes-2016.png

 

Mais do que um ensaio precário à lá Laurent Cantent, I, Daniel Blake apresenta-nos outras importantes questão na nossa sociedade, entre os quais a apresentação da tecnologia não como um facilitismo, mas como um obstáculo para a população mais envelhecida, e o facto desses sistemas de Segurança Social apoiarem quase exclusivamente no informático. Existe particularmente uma sequência onde Daniel Blake revela uma cassete de música a uma criança, sendo que esta desconhece por completo tal formato físico. Isto tudo para dizer que os tempos constantemente mudam e não tréguas a quem continua presente no "século passado". Emotivo e igualmente furioso.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Ken Loach / Int.: Dave Johns, Natalie Ann Jamieson, Colin Coombs

1228536_I Daniel Blake.jpg

 

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 08:49
link do post | comentar | partilhar

27.9.15

bdhpah.jpg

A segunda longa-metragem do cineasta islandês Runar Rúnarsson, Sparrow, foi galardoado com a Concha de Ouro da 63ª edição do Festival Internacional de San Sebastian. Enquanto isso, Evolution, de Lucile Hadzihalilovic, sai triunfante com o Prémio Especial de Júri e ainda o de Fotografia, Joachim Lafosse foi galardoado como Melhor Realizador graças ao seu trabalho em Les Chevaliers Blancs. A actriz Yordanka Ariosa viu-se premiada na categoria de interpretação no feminino em El Rey de la Habana, e o masculino foi partilhado por Ricardo Darín e Javier Cámara por Truman, do cineasta catalão Cesc Gay. Na secção de Novos Directores, Rudi Rosenberg foi o vencedor com Le Nouveau e Paulina, o filme de Santiago Mitre, que triunfou na Semana da Crítica de Cannes, conquistou três prémios, o da secção Horizontes Latinos,  'Otra Mirada' e EZAE de la Juventud. Destaque para a mais recente obra de Hirokazu Koreeda, Our Little Sister [ler crítica], que "caiu" nas graças do público.

 

 

Concha de Ouro

Sparrows

 
Prémio Especial do Júri

Evolution


Concha de Prata de Realizador

Joachim Lafosse, Les Chevaliers Blancs


Concha de Prata de Actor

Ricardo Darín e Javier Cámara, Truman


Concha de Prata de Actriz

Yordanka Ariosa, El Rey de la Habana


Melhor Fotografía

Manu Dacosse, Evolution


Melhor Argumento

Jean Marie Larrieu e Arnaud Larrieu, 21 Nuits avec Pattie


Prémio Kutxa-Nuevos Directores

Le Nouveau

 
Prémio do Público

Our Little Sister

 
Prémio Horizontes Latinos

Paulina

 
Prémio EZAE de la Juventud

Paulina


Prémio FIPRESCI

El Apóstata


Prémio Cine en Construcción

Era o Hotel Cambridge

 

Prémio 'Otra Mirada', de TVE

Paulina


Prémio Irízar del Cine Vasco

Amama

 
Prémio do Público - Filme Europeu

Mountains May Depart


Prémio Feroz Zinemaldia

Truman

 
Prémio Cooperación Española

La Tierra y la Sombra


Prémio Sebastiane

Freeheld

 

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 20:51
link do post | comentar | partilhar

23.7.15

Rapariga Magica.jpg

A magia da narrativa sugestiva!

 

Apesar do título, não encontramos nada de verdadeiramente mágico em Magical Girl, somente uma firmeza no seu clima de constante mistério. Eis uma comédia negra que tão depressa se transforma num drama pesado sobre os limites do desespero humano. Após essa passagem emocional, obviamente, tudo perde o seu estado de graça e é acentuado ainda mais o negro da sua compostura.

 

Exito-de-Magical-Girl-y-Musaranas-en-Toronto_lands

 

Com uma narrativa alternada, porém, unida num eventual desfecho que fecha um trágico círculo, Magical Girl remete-nos a um pai desempregado (Luis Bermejo) cuja filha tem os "dias contados" em consequência de uma doença terminal. Entretanto, ele descobre que esta possui um derradeiro desejo: um vestido de cosplay da sua personagem de anime favorita. Para tentar cumprir esta última vontade, e apesar das dificuldades, este homem gasta o que tem e o que não tem. O desespero, apesar das suas boas intenções, levam-no a chantagear a frágil Barbara (Bárbara Lennie), que por sua vez terá que se envolver em perigosos esquemas para "silenciar" o chantagista, mesmo que isso coloque em risco a sua própria vida.

 

magical-girl.jpeg

 

O grande trunfo de Magical Girl é o de nunca ser explícito, ocultando segredos e manter assim, sob as suas limitações, um mundo fora do ecrã (existe algo de "tarantinesco" dos tempos de Pulp Fiction). Depois é a sua teia de referências à actualidade social, um panorama que o espectador evidencia em toda esta jornada polinarrativa. A austeridade e o crescente desemprego é evidentemente um dos pontos críticos da obra, na qual Carlos Vermut bipolariza a sátira e reconstitui o drama diário de muitas famílias sob um tom sério e igualmente desesperante. É um choque que facilmente remete o espectador a uma estranheza deste mundo cínico, tornando-se então perceptível a sua linguagem agressiva e trocista.

 

130_1.jpg

 

Outro ponto que beneficia o clima negro de Magical Girl é a sua adversidade para com o politicamente correcto. O filme explora esse sentido e expõe tal através de julgamentos a um conjunto de personagem sem más intenções, mas deveras repulsivas para as mesmas. Como se essa "mesquinhice" fosse algo desnecessário e sobrevalorizado para os tempos que se vive. Como evidência disso é a invocação de um dos finais mais corajosos do cinema nos últimos anos. Vencedor inesperado da Concha de Ouro do último Festival de San Sebastian e o grande vencedor dos Prémios GoyaMagical Girl é uma tragédia do nosso mundo, ou seja, isenta de qualquer pingo de magia.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Carlos Vermut / Int.: Barbara Lennie, José Sacristán, Marina Andruix, Raimundo de los Reyes, Lucía Pollán, Luis Bermejo

 

magical-girl-still-2.jpg

7/10

publicado por Hugo Gomes às 21:21
link do post | comentar | partilhar

22.5.15

Se as Montanhas Afastam-se.jpg

Perdendo a identidade!

 

Existe mais para onde olhar nesta nova obra de Jia Zhang-Ke do que o drama sobre a criação e preservação de relações afectivas no rumo de um conflituoso triângulo amoroso, como uma subliminar distopia às consequências da globalização e a invasão do Ocidente na cultura oriental. Nesse sentido, os primeiros minutos deste Mountains May Depart arrancam com a crítica estabelecida por Zhang-Ke em toda a sua narrativa. Enquanto vemos os nossos protagonistas jubilantes dançando ao ritmo de Go West, dos Pet Shop Boys, reparamos numa sequência de um dragão chinês pavoneando-se nas ruas da amargura. É a premonição da morte da cultura chinesa, algo que parece contrariar tudo aquilo que se tem dito por este mundo fora: "Os chineses vão invadir o Mundo". A verdade é que Jia Zhang-Ke vai mais fundo nessas palavras e explora a fragilidades de uma identidade cultural cada vez mais decadente.

7befa4de-a5f3-4046-815f-7ecb71a2197c-bestSizeAvail

Relembramos as palavras do argumentista e produtor James Schamus, durante uma convenção de argumentistas em Setembro de 2014, onde declarou que Hollywood encontrava-se de momento apenas interessado em fazer filmes direccionados para adolescentes chineses [devido à importância do país nas receitas globais]. Este depoimento demonstrou sobretudo preocupação nos modelos de produção de alguns dos maiores estúdios norte-americanos e dos riscos que isso implicava. Se por um lado os filmes norte-americanos tornam-se acessíveis às audiências chinesas, por outro, nenhum destes produtos instala-se com respeito cultural. Ao invés, são apontados como injecções de arquétipos dignamente ocidentais nesse mesmo público.

024997.jpg

Obviamente a culpa não é inteiramente do cinema, mas sim dessa globalização, que por sua vez é um beneficio para a própria China, propicia à proliferação dos seus negócios pelo resto do Mundo. Talvez um dia iremos necessitar de escolas especializadas como aquelas que vemos no terceiro ato desta fita, onde num futuro próximo, os chineses residentes da Austrália frequentarão estabelecimentos de ensino para serem relembrados que realmente são chineses. Jia Zhang-Ke constrói esta história sobre um triângulo amoroso dilacerado em três actos temporais, repartidos em décadas diferentes, acompanhando os seus protagonistas e as suas tramas num mundo unificado por antigos sonhos. Sonhos esses que exploram a ausência das fronteiras culturais, quase invocando o conceito de superestados Orwellianos nessas mesmas condições.

Mountains-May-Depart-song-500x333.jpg

Mas acima de tudo, Mountains May Depart revela-nos a crise identitária como um dos maiores medos perante esses mesmos sonhos e o quão urgente é recuperar essa mesma identidade, da mesma foram que devemos preservar as nossas relações familiares e afectuosas. Assim, Mountains May Depart é um exercício desafiante que já se apresenta como um dos melhores filmes do cineasta e um filme obrigatório para todos os seus conterrâneos.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Jia Zhang-Ke / Int.: Tao Zhao, Yi Zhang, Jing Dong Liang

mountains-may-depa.jpg

8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:35
link do post | comentar | partilhar

20.5.15

Assassina.jpg

 

Quando ser belo não chega!

 

Descontextualizar um género como o wuxia é uma tarefa um quanto complicada, mas mesmo assim um autor como Wong Kar-Wai executou de forma peculiar o seu Ashes of Time (As Cinzas do Tempo, 1994). Hou Hsiao-Hsien, um autor dotado de um certo respeito pelo realismo e a veracidade do tempo de duração dos planos, desafia ao integrar-se num estilo que não o seu. Estranho será dizer que The Assassin lacrimeja pela sua falta de ritmo, uma frase hipócrita visto que a obra conserva todos os toques dignos do autor. Mas será que o wuxia necessitava de tal tratamento? A resposta deve ser dada com outra pergunta, que tratamento? The Assassin regista-se na mesma liga que Tales of Tales, de Matteo Garrone (também visto na competição oficial do Festival de Cannes); é demasiado técnico e pouco consistente.

17fc34c7d79692062d3a7703399dd1c691312605.jpg

A história leva-nos a uma China do século IX, onde a filha de um general foi abduzida por uma freira que a converte numa perfeita assassina. Treze anos mais tarde, Nie (Shu Qi, vista em Three Times, outro filme de Hou Hsiao-Hsien) falha pela primeira vez uma missão e como castigo a sua mestra decide enviá-la para a sua terra natal, com ordens para abater o homem pelo qual estava comprometida – o seu primo – agora detentor de um extensa força militar. Ao chegar à sua terra, Nie reencontra os seus pais e as memórias passadas, o que a levarão para um derradeiro dilema. Será que Nie é capaz de cumprir a sua missão com êxito?

nie-yin-niang-20153.jpg

Todo este percurso do dever e sangue é concretizado com um câmara "lenta" mas contemplativa para com um trabalho rico na produção e que reconstituiu uma época distinta (provavelmente este seja um dos wuxia mais credíveis dos últimos anos). Com poucas coreografias de acção, até nisso foge da fórmula genérica, evitando o espalhafato do kung fu e a toda aquela suis generis liberdade em "violar" as regras da física. Mas em The Assassin faltam-lhe personagens com que nos possamos identificar, falta conflito, climax, elipses. Por outras palavras, é o dinamismo da narrativa que temos mais saudades. Essa ausência transforma esta obra supostamente em algo mais sério, estilístico e visualmente belo num poço de situações involuntariamente cómicas. O mesmo pode-se dizer dos enredos e subenredos, exaustivamente anorécticos e até mesmo para hora e meia de filme.

Main The Assassin.jpg

Vergonhosamente o filme não consegue atingir a diferença, porque todo este trabalho resultou numa extrema indiferença emocional. Pelos vistos, os wuxia não foram feitos para Hou Hsiao-Hsien, pelo menos não nestes termos. Um dos filmes mais fracos da sua carreira.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Realização.: Hsiao-Hsien Hou / Int.: Qi Shu, Chen Chang, Satoshi Tsumabuki

The-Assassin-Nie-yin-niang.jpg

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 23:38
link do post | comentar | partilhar

18.5.15

621efab6e7564c8409d103fd9285c688.jpg

Temas delicadas sob exposições agressivas!

 

Muitos filmes tentaram abordar o tema, mas de momento Las Elegidas detém a proeza de conseguir uma exposição de um problema tabu com toda a frontalidade e controvérsia. Mas atenção. Fá-lo sem com isso ter de recorrer à exploração gráfica. David Pablos concentra aqui uma história de ouro, não no sentido da originalidade ou complexidade, mas sim no desafio em recriar uma trama que mantém-se a léguas do já visto e revisto na forma de melodrama ou novela.

 

las-elegidas-la-nueva-epoca-de-oro-del-cine-mexica


A prostituição infantil é um dos problemas mundiais que deve ser sobretudo combatido, porém, Las Elegidas não se comporta como um panfleto moralista com fins pedagógicos ou instrutivos. Ao invés disso, o filme joga a sua ambiguidade, sempre pressionada, para reflectir e mobilizar as audiências com a invocação simples do drama. Talvez seja este um dos motivos pelo qual a obra funcione como uma dolorosa experiência visual e emocional.

 

Las-Elegidas-David-Pablos.jpg

 

No seio deste retrato social, seguimos uma adolescente, Sofia (Nancy Talamantes), que se encontra apaixonada por Úlisses (Óscar Torres), um rapaz um pouco mais velho que ela. A jovem é feliz, contudo, está longe de saber que o seu namorado provém de uma família de mafiosos. Família essa que tem como principal negócio o rapto de adolescentes e a prostituição das mesmas. Apanhada nesta teia corrompida, Sofia é agora obrigada a ser uma mercadoria sexual. Gradualmente vai perdendo a esperança de um dia poder rever a sua família, enquanto Úlisses prepara outra vítima para o seu legado familiar.

 

5537de9b0d051Las_Elegidas-foto-4.jpg

 

David Pablos recria um México pastiche, mas não totalmente plástico na sua concepção. A ferocidade com que aborda o tema e o desafio com que executa, algo fora dos parâmetros maniqueístas e facilmente moralistas, torna Las Elegidas numa experiência de outra dimensão. O choque é unânime, visto que Pablos não arrenda pé nessa sua frontalidade e sem se conduzir pelo grafismo, usufrui do poder da sugestão como uma arma de destruição massiva. O repúdio do público perante esta manobra é suportada ainda pelo som, o qual tem aqui uma importância fulcral na conjuntura emocional. Os desempenhos suportam igualmente o peso da narrativa. Incisivo, negro e diversificado no seu olhar, o difícil mesmo é sair do visionamento com indiferença. Poderoso!

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: David Pablos / Int.: Nancy Talamantes, Óscar Torres, Leidi Gutiérrez

ELEGIDAS.jpg

 

9/10

publicado por Hugo Gomes às 18:09
link do post | comentar | partilhar

17.5.15
17.5.15

la-patota-c_6436_poster2.jpg

Activismo de catálogo!

 

Uma verdade tem sido dito sobre Paulina, é que o filme de Santiago Mitre tem a capacidade de abanar consciências, mas é certo que nem todas as consciências são iguais nem sequer a sensibilidade do espectador. Como tal é fácil apontar o dedo e referi-lo como um fruto do activismo feminino ou da emancipação da mulher enquanto figura idealista e convicta dos seus próprios actos. Mas o que vemos é uma simples "embirração" entre pai e filha e é com base nisso que a obra prefere desculpar-se perante o cenário aqui exposto.

 

4401668_walter-salles-videofilmes-boards-santiago_

A intriga segue uma mulher que luta contra a vontade do seu progenitor de fortes vínculos patriarcais, assim, sob um jeito desafiador, parte para uma localidade rural algures entre a fronteira argentina e paraguaia para leccionar os mais necessitados dessa região. O encontro com essa comunidade torna-se, no que aparentemente seria uma experiência fortalecedora, num desagradável choque cultural. É que na verdade os seus alunos encontram-se tudo menos interessados nos debates sugeridos por Paulina e a desordem é o habitual nestas aulas, mas o pior estava para vir. Numa noite, sozinha e a caminho de casa, Paulina é atacada e estuprada por um grupo de jovens locais. A partir desse violento episódio, a nossa protagonista terá que viver com os traumas induzidos e manter intactas as suas ideologias desde então formadas.

 

1-La-Patota-1.jpg

 

O vencedor da Semana da Crítica de Cannes, Paulina corresponde a um filme de fortes traços de realismo formal, um tom que é injectado neste assumido remake de La Patota (Desonra sem Passado). A outrora obra de contornos classicistas e novelistas do muito "populacho" Daniel Tinayre, é agora convertido num embrião de I Spit in Your Grave, sem os óbvios artifícios gore. Contudo, o "plot" vingativo mantém-se, não como um confronto directo, físico e sangrento aos seus agressores, mas emocional ao próprio progenitor. É tudo uma questão de provocação e pelo meio uma distorção dos padrões sociais e dos maniqueísmos que reflecte na sua personagem (brilhantemente interpretada por Dolores Fonzi), mas que o filme confunde essas ideologias próprias da homónima figura com o registo narrativo, sendo que a dita aliciação acaba por ser dirigida ao espectador.

 

paulina-cannes-film-festival-2.jpg

Até aqui tudo parece bem, mas Paulina é incapacitada em manusear e diferenciar a personagem do filme propriamente dito, acabando tudo por ser uma "traquinice" de uma rapariga mimada e mal comportada. Santiago Mitre, realizador de El Estudiant e colaborador habitual de Pablo Trapero, tenta incutir uma obra cujo instinto é descartado, sendo que a rebeldia contra os vínculos passados é o seu maior objectivo. No final, é tudo se resume a uma tentativa de ser politicamente incorrecto, enquanto só se sabe ser politicamente correcto.   

 

Filme visualizado na 54ª edição da Semaine de la Critique em Cannes

 

Real.: Santiago Mitre / Int.: Dolores Fonzi, Oscar Martínez, Esteban Lamothe

 

tumblr_inline_nowxx2P0IZ1qmqbpc_1280.jpg

5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:00
link do post | comentar | partilhar

16.5.15

173020.jpg

O quarto da mãe!

 

Com Mia Madreuma coisa podemos ter a certeza: Nanni Moretti perdeu o seu toque e mesmo quando invoca o seu estilo sentimo-nos defraudados com o seu (não confirmado) cansaço. Nesta sua nova obra, somos apresentados a Margherita (Margherita Buy), uma realizadora cuja sua vida ultimamente tem levado violentos golpes. A sua mãe sofre com uma doença terminal, a morte é eminente, mas Margherita prefere não aceitar isso. Para além do mais, a sua filha adolescente está demasiado confusa e perdida, e o filme, que se encontra a rodar, está a tornar-se num autêntico caos, um cenário que piora ainda mais com a vinda de Barry (John Turturro), uma estrela de Hollywood egocêntrica, dotada de muita conversa e pouca acção.

 

madre-di-nanni-moretti-656585.jpg

 

Nanni Moretti transformou Mia Madre num objecto pessoal, personificando-se numa mulher que parece ter perdido o controlo na sua vida. Margherita interpreta um alter-ego do próprio Moretti e a sua anterior "capa" Michele Apicella, mas o drama incutido pelo cineasta parece sufocar a personagem, mais do que as tramas nas quais ela está envolvida. Muitas delas soam mesmo a evocações a um dos êxitos passados do autor, O Quarto do Filho, no qual aborda a ausência como um estado de espírito atormentado. Demasiado anoréctico para a sua veia existencialista, Mia Madre parece apenas ter encontrado a sua força no desempenho de John Turturro, um "comic relief" que se transforma num must. O actor desencadeia um dos momentos musicais mais deliciosos dos últimos tempos, muito devido ao seu carisma, aqui em pleno estado de graça.

 

Mia-Madre.jpg

 

De resto, tudo é empacotado com as referências de Moretti, que aqui surge também na interpretação como se tratasse do "grilo-consciência" do Pinóquio. Nisto, Mia Madre vale a visualização por dois motivos únicos: um actor secundário com uma estima igual ou maior que o próprio filme, e a confirmação de que até mesmo um dos realizadores mais frontais de Itália tem o seu "quê" de bloqueio criativo.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Nanni Moretti / Int.: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti

 

 MargheritaBuyNanniMoretti.jpg

 

Ver Também

Habemus Papam (2011)

5/10

publicado por Hugo Gomes às 11:09
link do post | comentar | partilhar

15.5.15

Homem Irracional.jpg

 

Os Crimes de Woody Allen!

 

Os golpes sempre fizeram parte do cinema de Woody Allen, mas desta vez o cineasta pegou no livro de receitas de Hitchcock e sob o seu signo incutiu Stranger in a Train (1951)  como a mais evidente influência. É que a busca pelo crime perfeito, aquele que segundo o "mestre do suspense" é isento de culpa, já vinha no vocabulário de Allen (nota-se, por exemplo, o seu negro Match Point), mas nunca analisado de maneira mais meticulosa que as anteriores abordagens.

 

55413b77db753b82389c9f47_emma-stone-irrational-man

 

Contudo, com isto não esperem nada de exaustivamente sério por aqui. Allen brinca com as suas próprias fórmulas e o existencialismo irónico e cínico das suas personagens são os seus brinquedos predilectos. O tratamento destas aufere um tom quase caricatural, mas a caricatura aqui é mais densa do que se julga, e nisto sente-se a própria marca autoral do cineasta, pois todas essas personagens têm algo de seu. Nota-se por exemplo que Joaquim Phoenix é uma personificação fantasiosa de um Woody Allen psicologicamente hipocondríaco, o qual fala de sentimentos e que tenta incuti-los com tragédias passadas, sendo assim um ser interminavelmente infeliz que encontra a experiência na transgressão do corretamente cívico. Ou seja, somos induzidos por uma rebeldia inerente do realizador, o qual deposita nas personagens um regresso ao seu espirito adolescente, desafiante e revoltado com o posicionamento da sociedade.

 

download.jpg

 

Se por um lado o filme é um "abaixo" as morais formalizadas, por outro é um debate sobre o maniqueísmo imposto pelas mesmas. Nesse sentido tudo é resolvido, de certa forma, com uma referência a Hannah Arendt e à sua Banalidade do Mal. Mas se Joaquim Phoenix mostra-se versátil, o melhor é mesmo "espreitar" a confiante Emma Stone, que se encontra cada vez mais emancipada num protagonismo, sem falar do seu contagiante carisma do qual é impossível desviar o olhar.

 

Irrational-Man-8.jpg

 

Porém, fica a questão. Será este um "bom" Woody Allen? Na verdade é apenas "morno". O que encontramos é um filme pontuado com o seu característico humor, com tudo aquilo que poderíamos esperar de um regresso do cineasta nova-iorquino, mas onde se nota que a imaginação começa a faltar-lhe. Isso é sentido principalmente nas resoluções arranjadas à última da hora para encontrar um desfecho para a intriga. Desfecho que parece ter sido concretizado para funcionar como uma anedota, onde a grande piada reside no seu final.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Woody Allen / Int.: Emma Stone, Joaquin Phoenix, Parker Posey

 

irrational-man-emma-stone-joaquin-phoenix.jpg

 

 

Ler Críticas Relacionadas

Magic in the Moonlight (2014)

Fading Gigolo (2013)

Blue Jasmine (2013)

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:24
link do post | comentar | partilhar

13.5.15

MV5BMjA3MzgxMTk2Nl5BMl5BanBnXkFtZTgwMzEwMDc2NTE@._

Fraternidade segundo Koreeda!

 

Mais uma prova de que Hirokazu Koreeda é o herdeiro directo de Yasujiro Ozu, mesmo que tente em cada filme afastar-se do estilo formalizado e reconhecido. Umimachi Diary (Our Little Sister), baseado na manga de Akimi Yoshida que nos remete à história de três irmãs adultas que acolhem a desconhecida pequena meia-irmã, é um poço de delicadeza e sensibilidade que aborda as complexidades das relações afectuosas de um jeito desarmante na sua simplicidade.

main-620x315.jpg

Tal como Ozu, o toque emocional é poderoso, conservando a força do último ato e preservando os valores familiares que tendem em ser invocados exaustivamente. Mas estes aspectos não são as únicas comparações com o mestre de Tokyo Monogatari (A Viagem a Tóquio), cujo seu legado fez escola no cinema nipónico, proliferando igualmente no resto do Mundo. Ocasionalmente, Koreeda expõe uma planificação seguindo algumas matrizes de Ozu, com os seus dignos saltos de eixo e a essência cénica, como por exemplo a importância das refeições no decorrer da trama, ou a presença do bar, assim como da cerveja, que conduz aos mais variados diálogos. Portanto, ver um filme de Koreeda é de certa maneira revisitar as memórias do artesão Ozu, embora as saudades pelo mesmo não sejam (felizmente) totalmente consumidas.

Our_Little_Sister_3-620x434.png

Koreeda reserva a sua própria marca, enunciado o que aprendeu e que demonstra saber ao mesmo tempo que constrói personagens ricas, sensibilizando-as a nunca se desvanecerem nos registos formatados e nos lugares-comuns. A ênfase dramática pode ser um desafio para quem aposta em dramas familiares tensos e fortes, mas em Our Little Sister é o toque fraternal que nos faz amar este relato de amizade, compaixão e redenção, e sobretudo construção de novos laços. Depois, temos o quarteto de actrizes, tão belas como emocionantes, tão humanas como afáveis para com o espectador (destaque para Suzu Hirose).

umimachi-diary1.jpg

Dotado de uma poesia visual e de uma narrativa acolhedora, Hirokazu Koreeda tem aqui mais um importante trabalho da sua filmografia. Mas mesmo que belo e terno, é importante que um realizador como este consiga superar as comparações que tem sido alvo e aposte num estilo próprio, visto que no talento em manusear as emoções ele é um sábio!

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Hirokazu Koreeda / Int.: Haruka Ayase, Masami Nagasawa, Kaho, Suzu Hirose

 

aramajapan_umimachi-diary.png

 

 

Ver Outros Filmes de Hirokazu Koreeda

Like Father, Like Son (2013)

Still Walking (2008)

 

Ver Filmes de Yasujiro Ozu

Tokyo Monogatari (1953)

Higanbana (1958)

Sanma no Aji (1962)

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:37
link do post | comentar | partilhar

5.12.14

Conto da Princesa Kaguya.jpg

 

Animação: trespassado a fronteira da "bonecada"!

 

Eis a última obra de Isao Takahata, bem que o seu afastamento teve um timing quase certeiro com a "despedida" de outro "mestre da animação", Hayao Miyazaki, que após Wind Rises confirmou a sua "reforma" na produção de animações pela Ghibli Studios. Talvez seja esse anuncio que  faz The Tale of the Princess Kaguya detentor de uma fantasmagórica aura de melancolia, ao mesmo tempo uma doce despedida.

 

2sQ9FYvkIS8TYSvD3tUJahI5OQ4 (1).jpg

 

Narrando a lenda de uma rapariga miniatura encontrada numa cana de bambu e que se converte numa princesa que cativa tudo e todos, esta animação proclama como uma arte pouco convencional ao panorama actual e verdade seja dita, é o seu grafismo, encantador e subtil como lápis de carvão que nos distancia do real e transporta-nos literalmente a um belo mundo de "faz-de-conta". Neste conto que se estende a um épico animado encontramos o rigor, o calculo das imagens, onde ínfimo pormenor não é deixado de lado, sobressaindo por uma vertente de fábula visual. Vale a pena não esquecer da emoção imposta nesta animação, que por sua vez é exposta ao espectador, são sentimentos que não nos envergonham, de uma linguagem universal e fora do preconceito de animação e da "lavagem" Disney de que o género foi alvo durante a sua criação. Takahata criou aqui uma obra-prima, o seu legado de um trabalho contributivo na animação, por vezes ofuscado com a aclamação geral do seu conterrâneo e colega Miyazaki, mas não nos enganemos, não o devemos encarar como um menor na sua arte.

 

eab1f9239ed3d59f7b156ff2aea87325.jpg

 

Aliás é arte aquilo que correctamente devemos apelidar este The Tale of the Princess Kaguya, um festim de "paladares" para o olhar que arremata a lenda e a emancipa, adquirindo forma e vida própria em tela. Tocante, viciante, a história interminável, a fantasia possível pela animação, que por sua vez possível pela visão deste mestre. Um adeus terno, Isao Takahata deixará imensas saudades, e se vai.     

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Isao Takahata / Int.: Aki Asakura, Takeo Chii, Kengo Kora

 

1373552252_princess.png

 

Ver Também

The Wind Rises (2013)

10/10

publicado por Hugo Gomes às 18:26
link do post | comentar | partilhar

27.11.14

Desaparecimento de Eleanor Rigby - Eles.jpg

Vida depois do Amor!

 

Eleanor (Jessica Chastain) e Connor (James McAvoy) são um casal excepcional e apaixonado, pelo menos é isso que julgam e invejam as pessoas em seu redor. Mas quando a tragédia surge, o par rompe a sua ligação, apercebendo-se que o amor proclamado por ambos não é tão forte como suponham. Ele, abatido com a separação, tenta recuperar o seu amor perdido, com a esperança de que a distância é somente uma mera ilusão passageira. Ela tenta acima de tudo esquecer a sua vida anterior, por outras palavras, desaparecer.

 

68fea7_005f0d30c5fb487884b72225aa60b500.jpg

 

Um projecto dinâmico de Ned Benson, a sua primeira longa-metragem, que tenta consolidar as diferentes perspectivas de cariz sexual e ideológica do fim de uma relação. Tal como Rashomon, de Akira Kurosawa, aqui a verdade possui demasiadas versões e a fidelidade de Benson a esse veredicto resultou em dois filmes envolvidos em ângulos opostos, Ele e Ela, a visão de Connor e a de Eleanor, respectivamente. Ambas versões salientam a natureza e a divergência da guerra entre sexos proposta, supondo a superação como uma característica própria de cada ser e o amor, não como algo inabalável como se crê nos romances em geral, mas uma reacção natural, por vezes ardente e corrosiva, mas não intransponível. Porém, existe ainda outra versão, um terceiro filme, que tem como proclamação a de ser a definitiva visão, de ser a verdade absoluta – Eles (Them) – a obra que fora apresentado na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes e no último Lisbon & Estoril Film Festival.

 

140912_MOV_McAvoyHader.jpg.CROP.promovar-mediumlar

 

Esta interligação baseia-se simplesmente no mesmo conceito utilizado em Blue Valentine – Só Tu e Eu, de Derek Cianfrance, o fim da relação, o fim de tudo, mas ao contrário da menção anterior, The Disappearance of Eleanor Rigby é levado por um tom mais agridoce, e até ao final, esperançoso numa eventual reconciliação. Já que falamos em referências, a obra de Ned Benson ajusta-se como uma distorcida versão de Un Homme at une Femme (Um Homem e uma Mulher, 1966), de Claude Lelouch, o que não por acaso, pois frequentemente vemos o respectivo poster no quarto de Eleonor Rigby, como a definição de espelho numa pintura flamenga, a alma do "pintor" em questão.

 

the-disappearance-of-eleanor-rigby.jpg

 

Este também é um filme que não se envolve amorosamente com a dor dos seus protagonistas, mas que acrescenta um mundo em redor destes – algumas personagens secundárias, mesmo sem grande espaço de antena, são uma delícia necessária para desanuviar o melancólico que a fita poderia reger. Uma delas é a indispensável Viola Davis. Talvez o mundo dela seja mais interessante e propício do que dele neste "universo partilhado", mas é ele que nos leva a iludir enquanto aos propósitos do filme, ao mesmo tempo que é imperativo perdoa-lo por essa sua fantasia que certamente não terá um final feliz.

 

transferir.jpg

 

Se James McAvoy encontra aqui um dos seus melhores desempenhos, é verdade que é Jessica Chastain a "engoli-lo" com uma deslumbrante performance. A actriz prova mais uma vez que está a caminhar afincadamente para o título de uma das melhores da sua geração, principalmente a actuar na indústria norte-americana. Ela é emotiva o suficiente, sem com isso recorrer ao bacoco nem ao overacting. A dor da sua personagem consegue transcender e chega a ser partilhada pelo público. Quanto à química de ambos, a culpa de não vê-los definitivamente juntos começa a sentir-se gradualmente.

 

rigby.jpg

 

Mesmo que possa a não vir a ser a proposta aliciante das versões de Ele e Ela, o capitulo Eles funciona como um cativante e delicado drama que tenta contrastar com a definição do cinematograficamente romântico. Aliás, o que temos aqui é um filme isento dos moldes "hollywoodianos", mais envolvente e apaixonante, devo dizer, que um cinema mais marginal e autoral sobre a intimidade amorosa. Uma proposta para fazer-nos apaixonar pela triste beleza da separação!

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2014

 

Real.: Ned Benson/ Int.: Jessica Chastain, James McAvoy, William Hurt, Bill Hader, Viola Davis, Isabelle Hupert, Ciarán Hinds

 

the-disappearance-of-eleanor-rigby-jessica-chastai

 

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 19:35
link do post | comentar | partilhar

22.11.14

bdff159c3549aeccabb32e2724c5d2a633c4a.jpg

O divertido lado animal!

 

Diria inicialmente que estamos perante numa revelação e ao mesmo uma afirmação do cinema argentino na indústria cinematográfica. Relatos Salvajes (dirigido e escrito por Damían Szifrón) é um filme que compromete a condição do cinema mosaico como drama embutido e o explicita com uma comédia de fortes tons negros, ou como a certa altura foi comparado, um tributo latino à episódica narrativa emaranhada com influências de Woody Allen. Este conjunto de seis histórias completamente diferentes, todas elas remetendo ao desespero e à natureza negra do ser humano em condições extremas (ou não tão extremas), abre com um segmento hilariante sob contornos de um particular cinema do cineasta espanhol Pedro Almodóvar (um dos produtores da fita). Esta introdução (intitulada de Pasternak) funciona como o segmento mais curto da obra e é marcado pelo burlesco cómico em função de uma sátira negra que funciona como um refrescante comité de boas-vindas para que o aí vem.

 

25_Aug_2014_17_42_07_relatos.jpg

Depois seguem os temas: vingança, manipulação e conformismo, todos eles indiciados e entranhados e que constituem estes relatos selvagens, propriamente ditos. São situação do quotidiano que servem como absurdo para os enredos detidos por um olhar inteligente e astuto na sua crítica e evocação da caricatura. Entre esses tomos, destaca-se obviamente o quarto (Bombita) e o sexto, e último (Hasta que la Muerte nos Separe). O primeiro por possuir um tema tão comum que é "deliciosamente" transformado num pesadelo cómico, interpretado por Ricardo Darin; o último por exibir uma perícia e técnica de Szifrón por trás das câmaras, ao mesmo tempo que executa uma atmosfera pesada em termos psicológicos.

 

relatos_salvajes.jpg

 

Obviamente, como grande parte das obras compostas por este tipo de dispositivo narrativo, o desequilíbrio entre as várias é evidente. Porém, no seu todo, Relatos Salvajes resulta numa comédia forte e sem desleixo algum no intelecto do espectador e provavelmente temos aqui o melhor exemplar do género do ano. A destacar ainda a banda sonora de Gustavo Santaolalla, em especial a música de abertura que invoca uma essência animalesca sob tons latinos, e na fotografia de Javier Julia, que contribui e muito na criação de uma atmosfera envolvente, nomeadamente na última e grandiosa parte. Pois é. Como é tão divertido por vezes conhecer a face mais selvagem do ser humano.

 

Filme visualizado na 62º edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian

 

Real.: Damían Szifrón / Int.: Ricardo Darín, Darío Grandinetti, Leonardo Sbaraglia, Rita Cortese, Julieta Zylberberg, Nancy Dupláa

 

 

520185.jpg

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 11:18
link do post | comentar | partilhar

18.11.14

20,000 Dias na Terra.jpg

Na caverna do Nick!

 

Por norma, quando se pretende concretizar um documentário sobre uma personalidade musical (e não só), facilmente se recorre à modelização narrativa numa alternância entre testemunhos / imagens de arquivo e vice-versa. Com 20,000 Days on Earth, tal matriz seria desrespeitosa e automaticamente transformada numa oportunidade desperdiçada face a um homem tão curioso como Nick Cave, o líder dos Nick Cave and Bad Seeds, que no cinema ficou célebre como o autor do argumento de um dos mais envolventes filmes australianos dos últimos anos (The Proposition, de John Hillcoat).

 

20000-days-on-earth.png

 

Nesta obra que celebra a criatividade e a multifacetada forma do documentário, a dupla Ian Forsyth e Jane Pollard acompanham um Nick Cave autónomo e autodidático, um poeta ilusionista que profere vulgares "ordinarices" e que descaradamente transforma-as em prosa graças à sua voz carismática e sapiência. Mas acima de tudo, em 20,000 Days on Earth o artista em questão revela-nos e convida-nos a entrar no seu íntimo, ao mesmo tempo que o oculta do espectador. Invocando palavras soltas sob a atmosfera boémia e confortante da noite, Cave demonstra os "pequenos prazeres da vida" num pleno egocentrismo, daqueles que se assumem como Deus sob uma quinta das formigas. Diria antes que Nick Cave funciona como a perfeita anarquia e, contraditoriamente, no alicerce para toda a execução deste documentário em constante moldagem.

 

20000-Days-On-Earth-bilde-6.jpg

 

Poesia visual é o registo acentuado numa alegoria que prova que é possível materializar um documentário de cariz musical sem o uso do academismo. Depois disto tudo, é Nick Cave, a figura central e o actor de um palco imenso, o único capaz de transformar o interior de um automóvel num confessionário e a televisão, não como um gesto de banalização e de sedentarismo, mas numa vontade de aproximação familiar. Tudo é possível neste relato que tornará os mais ávidos fãs hipnotizados pela aura desta personagem dentro de uma personagem. Quanto aqueles que nunca ouviram falar de Nick Cave, a vontade insaciável de conhecer o homem por trás de Push the Sky Away nascerá após o último crédito. De distinto requinte.

 

Filme visualizado na 62º edição do Festival Internacional de Cinema de San Sebastian

 

Real.: Ian Forsyth, Jane Pollard / Int.: Nick Cave, Susie Bick, Warren Ellis, Ray Winstone, Kylie Minogue

 

20k-3.jpg

 

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:34
link do post | comentar | partilhar

11.11.14

Carvão Negro, Gelo Fino.jpg

China sob carvão e gelo!

 

A aparente história de um detective aposentado e alcoólico que regressa cinco anos depois de um incidente (o actor Liao Fan teve que engordar 20 kg para este papel) para investigar um caso de serial killer, chegando a apaixonar-se por uma das principais suspeitas, é um embuste. Por outras palavras, algo que finge e cuja verdadeira natureza diverge dessa "falsidade inerente". Segundo o realizador Diao Yinan, viver na China actual é conviver diariamente com a absurdidade em simultâneo com os constrangimentos ditados e relembrados constantemente. Talvez seja por isso que o cinema comporta-se como o caminho mais viável desse despertar expressivo, o confronto da "película" com o surreal social que emerge.

 

Black-Coal_-Thin-Ice_web_LIAO_Fan_01.jpg

 

Em Black Coal, Thin Ice (Carvão Negro, Gelo Fino), o inesperado vencedor do Urso de Ouro do último Festival de Berlim, a essência dessa China encontra-se estampada nas personagens melancólicas, errantes e atípicas, em conformidade com situações constrangedoras que posicionam o espectador em embaraçosos momentos. Será isto tudo um ensaio de humor negro ou apenas comédia involuntária? Um registo de teor crítico que esparge nesta atmosférica China do norte, industrializada e revestida numa capa de frieza que receia transparecer.

 

20143347_7_IMG_FIX_700x700.jpg

 

Eis um pseudo-thriller com mais preocupações com a elaboração de mensagens subliminares do que propriamente criar um fio condutor narrativo sustentável. A investigação, aparentemente digna de qualquer policial cinematográfico, o amor de poucas palavras e de pouco gestos que tanto relembra Wong Kar-Wai (a fotografia soa por momentos dilacerada de In the Mood for Love), tornam este filme numa expressão contagiada por diversos estilos cinematográficos, paciente nos seus devaneios (Diao Yinan expressa sem pudor) mas frenético em invocá-los.

 

Black-Coal-Thin-Ice2.jpg

 

Diria antes que existe muito por onde pegar nesta obra mas, infelizmente, os seus propósitos nem sempre são os mais esclarecidos ou perceptíveis e a certa altura instala-se um autêntico confronto em estabelecer o que é mainstream ou não. Sim, existe algo de fascinante aqui neste retrato socialmente satírico, mas Black Coal, Thin Ice fraqueja em procurar pretensiosismo na sua descontracção.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Diao Yinan / Int.: Fan Liao, Lun Mei Gwei, Xuebing Wang

 

1189544_Black Coal, Thin Ice 2.jpg

 

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 18:24
link do post | comentar | partilhar

9.11.14

Variações de Casanova.jpg

O último dos românticos!

 

Não é nenhum erro afirmar que The Casanova Variations (As Variações de Casanova) é um híbrido entre duas artes (uma delas pura, outra, citando João Botelho, "vampírica") e não o banalíssimo título recorrente de "teatro filmado", ao mesmo tempo que se concentra como uma filosofia da eternidade de uma figura romanesca, talvez o último da sua espécie, o libertino e sedutor Giacomo Casanova (1725 - 1798).

 

968full-variações-de-casanova-screenshot.jpg

 

Filmado totalmente em Portugal, esta produção de Paulo Branco remete-nos a um mundo metafísico, um "faz de conta" quanto às realidades expostas. Derivado a isso, é constante o desafio ao espectador de integra-las, ou seja, por momentos encaramos a peça (a Ópera de W. A. Mozart, adaptada do livro A História da Minha Vida - do próprio Casanova), noutros vivemos a história da peça e depois há ainda a realidade que engloba essas mesmas duas realidades. Esta "trilogia" é disposta a uma matriz narrativa que tanto invoca a essência dramaturga como o misticismo da ópera. Mas o austríaco Michael Sturminger opera como o elo mais fraco, não conseguindo totalmente cativar a audiência com a sua câmara e perspectiva. Por outras palavras, o artificialismo de As Variações de Casanova é diversas vezes abalroado com uma constantemente tremida e irrequieta câmara que assenta ocasionalmente numa crueza técnica.

 

866410.jpg

 

No centro desta utopia, encontramos a estrela - John Malkovich – que se deixa à mercê da maré destas realidades expostas. Se por um lado ele é o próprio e ninguém recusa a proposta (vem-nos à mente Being John Malkovich?, de Spike Jonze), simultaneamente o actor figura-se perfeitamente na pele de Giacomo Casanova, mas dotado somente pela sua automatização egocêntrica, que funciona, aliás, não como um desempenho transcendente e trabalhado, mas por fazer-nos acreditar numa eventual encarnação (ou reencarnação). Como o seu alicerce está Veronica Ferres, a frígida capa da tragédia pessoal, que exerce as tarefas de o Fantasma do Passado de Charles Dickens, em relação ao nosso multi-identitário protagonista.

 

thumb.jpg

 

As Variações de Casanova é uma proposta desafiante de cinema, um recuo a uma das suas origens lado a lado com a inovação narrativa e de metamorfose fílmica. John Malkovich é o rei deste mundo, ou diríamos antes, a viva alusão de Casanova, a dissecação de uma personagem imortalizada ao mesmo tempo que se enquadra na condição de actor.

 

Filme visualizado na 62ª edição do Festival de Cinema Internacional de San Sebastian

 

Real.: Michael Sturminger / Int.: John Malkovich, Veronica Ferres, Fanny Ardant, Tracy Ann Oberman, Maria João Bastos, Miguel Monteiro

 

casanova_variations_6_2880x1620px_Kopie_2.jpg

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:47
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Novo filme de Wim Wenders...

Vejam os vencedores do 64...

Florence Foster Jenkins (...

Elle (2016)

I, Daniel Blake (2016)

Conheçam o palmaré do 63º...

Magical Girl (2014)

Mountains May Depart (201...

The Assassin (2015)

Las Elegidas (2015)

últ. comentários
Muito bom o teu blog, Hugo! Continua com o excelen...
Boas biopics são os verdadeiros e honestos retrato...
Boa Tarde; enviei-lhe um email para o seu email. O...
Uma Jóia do Cinema. O Kubrick sempre foi muito sub...
Já tinha visto este trailer e antes de ver fiquei ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO