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4.2.18

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Ficcionando realidades …

 

Djon África é, em apenas um filme, o caminho inverso percorrido pelo Cinema de Pedro Costa, com Miguel Moreira, fiel colaborador da dupla João Miller Guerra e Filipa Reis, a nos servir  um Ventura. Contudo, apesar desta minha declaração, não se iludam em encontrar outros paralelos entre estes referidos cineastas. Aliás, seria preguiçoso cairmos em tais comparações como se porventura o cinema português fosse reduzido a dois, três ou quatros nomes. Mas uma coisa é certa, Djon África, a viagem de um cabo-verdiano radicado em Portugal, que parte numa busca às suas origens num país que nunca conheceu, mas que mesmo assim o vive culturalmente, é mais um registo docudrama, estilo que em Portugal sempre se soube fazer bem.

 

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É a realidade contagiada, ou a verdade encenada, para nos impor uma dimensão osciladora por entre essas visões. Miller Guerra e Reis não são novatos nesse mesmo universo, apesar desta ser a sua primeira longa-metragem - a dupla havia germinado desde então um “ecossistema” fiável por entre a sua filmografia. Personagens salteadas, o retrato de um país marginalizado que se esconde nas sombras, a identidade que se interpela por assuntos de caracter de inserção social, elementos, esses, invocados e fantasmagorizados nesta jornada existencialista e sobretudo etnográfica (muito graças ao argumento de Pedro Pinho).

 

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Miguel Moreira comporta-se como um ser fragmentado pela pessoa que é fora das câmaras e da personagem que veste a pele ocasionalmente, mas acima de tudo é um peão-guia para o espectador, e veículo emocional para os realizadores que trabalham tamanhos sentimentos instintivos como outra viagem para além horizonte (o actor nunca conhecera Cabo-Verde, a câmara capta essa surpresa, fascinação e experimentação). Talvez exista em todo este caso um filme sobre “retornados” e de uma cultura transcendente, mas nem sempre transladada (como a cultura cabo-verdiana persiste em vários bairros sociais portugueses), que nos convida mas que nunca nos conforta totalmente (o espectador é sempre tido como um turista em relação a esta “apropriação cultural”); Miguel, cuja ilegalidade não o faz verdadeiramente português e o seu desconhecimento não o faz cabo-verdiano, um sem pátria recusado pelas duas margens, e que mais cedo ou mais tarde sucumbe numa existencial “prisão invisível”.

 

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Um efeito xamânico que apodera-se da narrativa, transformando o filme, que vai perdendo gradualmente a sua vertente documental, da mesma forma que Miguel se converte integralmente numa personagem fictícia (tendo em conta o que deparamos no cinema de Pedro Costa, Cabo Verde continua a reservar os seus “fantasmas”). “Eu conheço o meu pai. Eu sou o meu pai”, a frase proclamada que define todo o rumo de Djon África, simultaneamente, a trajectória do cinema de Miller Guerra e Reis, o ensaio social que vai adquirido o seu gosto pela “farsa”, a ficção como espelho do seu cinema. Quanto ao resto … fica ao critério do espectador.

 

Filme visualizado no âmbito do 47º Festival Internacional de Roterdão

 

Real.: João Miller Guerra e Filipa Reis / Int.: Miguel Moreira, Isabel Cardoso

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 00:10
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3.2.18

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The Widowed Witch conquista assim o galardão Hivos Tiger, o certame principal do Festival de Roterdão, juntamente com um prémio monetário de 40.000 dólares. Segundo o júri, o realizador chinês Cai Chengjie apresenta como primeira longa-metragem “um filme de dimensões épicas e com uma narrativa acima de uma pessoa ou momento. Valida um ponto de vista feminista através da forte personagem central, que se recusa a ser uma vítima ".

 

The Reports On Sarah And Saleem, de Muayad Alayan, sai do festival com dois prémios atribuídos, por Argumento (da autoria do realizador), e o Prémio de Público Fundo Hubert Bals, acrescentando ainda os valores monetários de 20.000 dólares. Já na secção Bright Future, o brasileiro Tiago Melo vence com o seu Azougue Nazaré.

 

Nina, de Olga Chajdas, conquista o Prémio VPRO Big Screen, que lhe dará automaticamente direito transmissão na televisão holandesa, assim como passagem nos cinemas comerciais da Holanda. The Guilty, de Gustav Möller, é premiado com um também Premio de Público (que lhe garante o valor de 10.000 dólares) e ainda o Prémio Juventude.

 

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O galardão para Melhor Curta-metragem foi para Joy in People, de Oscar Hudson, e à longa-metragem indiana Balekempa, de Ere Gowda, é lhe atribuído o Prémio FIPRESCI.

 

O Prémio KNF Award, atribuído pelo Circulo de Jornalistas Holandeses, segue para Zama, a mais recente longa de Lucrecia Martel. Nervous Translation, de Shireen Seno é considerado o Melhor Filme Asiático desta edição e finalmente, Newsreel 63 - The Train Of Shadows, de Nika Autor, com o Prémio Novo Found Footage, oriundo do Instituto Som e Imagem da Holanda.

 

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24.1.18

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A cidade holandesa acolhe, como poderia esperar, a 47ª edição do Festival Internacional de Cinema de Roterdão. De 24 de Janeiro a 4 de Fevereiro, o primeiro grande festival do Velho Mundo demonstrará uma seleção refinada de novos olhares, novos autores e sobretudo, novas experimentações. É por essas e por outras que o evento é reconhecido como um dos mais experimentais do ramo cinematográfico e este ano parece não fugir à regra. Contudo, a edição de 2018 será marcada por uma forte presença portuguesa, distribuída pelas diferentes secções e espaços do festival.

 

Filipa Reis e João Miller Guerra apresentam a sua primeira longa-metragem ficcional, Djon Africa. Integrado na competição principal do certame, Hivos Tiger Competition, a produção  segue Miguel, um jovem de ascendência cabo-verdiana que procura as suas raízes na terra onde nunca pisara, uma viagem que o transformará em algo mais do que a própria memória, ao encontro de um ser que ele próprio desconhece. Quanto ao termo ficcional, os realizadores de premiadas curtas e médias metragens como Fora de Vida (2015), Nada Fazi (2011) e Cama de Gato (2012) afirmaram ao site C7nema que apesar de ser um passo novo, a ficção era uma elemento bem percetível no seu Cinema. O filme conta com argumento de Pedro Pinho, realizador de um dos filmes mais premiados da nossa filmografia, A Fábrica do Nada que é uma das muitas presenças portuguesas da secção Bright Future.

 

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Quanto ao espaço especializado em dar “tempo de antena” a novas vozes, Susana Nobre é outro nome do documentário português a avançar na ficção, sem com isso emancipar-se por completo do seu Cinema. Tempo Comum fala-nos sobre a maternidade e como ela se conjuga com “lufa-lufa” diário, com as carreiras pausadas e como esta realidade torna-se numa experiência a merecer de ser contada. Para Nobre, é um projeto minimal tendo como referência, para além da experiência enquanto mãe, o dispositivo utilizado em Ten, do iraniano Abbas Kiarostami.

 

Em companhia, estão presentes o russo Tesnota, de Kantemir Balagov, vencedor do último Lisbon & Sintra Film Festival, Meteros, de Gürcan Keltek, galardoado no Porto / Post / Doc e a segunda longa-metragem de Valérie Massadian, Milla, também premiada em Portugal (Doclisboa). Esta última, uma coprodução portuguesa, segue as mesmas pegadas do anterior Nana, onde as personagens encaram o ambiente como um refugio. Se na primeira obra, seguimos uma menina de 4 anos que se vê sozinha após uma tragédia familiar, neste deparamos com dois adolescentes inadaptados que encontram consolo em casa abandonadas.

 

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A curta-metragem Miragem Meus Putos, de Diogo Baldaia, estará em competição na subsecção Ammodo Tiger. Visto na última seleção do Indielisboa, eis um retrato de uma geração através de três narrativas distintas. No Bright Future Short, poderá ainda ser visto o novo trabalho de Filipa César (Spell Reel), que em colaboração com o artista Louis Henderson, concebem Sunstone, um ensaio sobre a relação entre a imagem e o colonialismo.

 

João Canijo e o seu Fátima tomam de assalto a secção Voices, outro importante filme nesse espaço é Western, de Valeska Grisebach. Leonor Noivo regressa com a curta Tudo o que Imagino, uma docuficção presente na categoria Long Distance dos Voices Shorts. Já Teresa Villaverde e a sua nova longa-metragem, O Termómetro de Galileu, encontra refúgio na rúbrica Visions, tendo como “colegas” o mais recente de Philippe Garrel (L’Amant D’un Jour), Wang Bing (Mrs. Fang), Bruno Dumont (Jeannette) e F.J. Ossange (em coprodução franco-portuguesa - 9 Dedos com Damien Bonnard e Diogo Dória como protagonistas. A realizadora de Colo, apresenta-nos, segundo ela, “uma homenagem à arte de viver e à vida dedicada a arte", inspirado no trabalho do realizador italiano, Tonino de Bernadi.

 

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A destacar ainda a produção de Paulo Branco, The Captain, de Robert Schwentke, registado na secção A History of Shadows. O filme que em Portugal esteve estreia no Lisbon & Sintra Film Festival leva-nos aos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, onde um jovem soldado alemão disfarça de oficial da SS, de modo a sobreviver, sem conhecer as consequências de tal ato, principalmente na questão identitária. Também de produção portuguesa, Zama, o mais recente filme de Lucrecia Martel, encontra-se igualmente inserido na secção.

 

De forma a evitar o seu esquecimento, Luísa Sequeira prepara para mostrar às audiências internacionais o seu filme-investigação Quem é Barbara Virgínia?, sobre a realizadora Barbara Virgínia, a primeira a nível nacional e a primeira participação portuguesa no Festival de Cannes. A mulher que tinha tudo para dar ao cinema tornou-se um espectro e os seus filmes, ora desprezados, ora perdidos (como é o caso de Três Dias sem Deus, onde resta apenas 8 minutos sem som). A sessão será antecedida por Aldeia Dos Rapazes – Orfanato Sta. Isabel De Albarraque, curta de Virgínia que serviu de estudo para a sua estreia e derradeira longa.

 

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22.5.17

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Se a Montanha não vai ao Fellipe, o Fellipe vai à Montanha!

 

Por mais que Fellipe Barbosa (Casa Grande) renegue a natureza documental de Gabriel e a Montanha, é perceptível que o realizador utilizou as mesmas ferramentas que se poderia levar a cabo num cinema de investigação. A fronteira entre o documentário e a ficção é um dilema há muito debatido, até mesmo quando o Cinema caminhava a passos largos na sua evolução, mas hoje, tendo em conta a vontade e a facilidade de filmar, as duas dimensões parecem cada vez mais diluídas ao encontro de uma só linguagem.

 

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Bastante divergente da essência docudrama à portuguesa, Gabriel e a Montanha é uma tese documental, a apropriação da trágica história de Gabriel Buchmann, um economista brasileiro que apaixona-se pela África subsariana e determina-se a integrar as mais diferentes comunidades. É um ensaio que tenta responder as questões levantadas desde que o caso tornou interesse dos Media (Gabriel foi encontrado sem vida no Monte Mulanje, no Malawi, em 2009), enquanto impregna uma vertente ficcional que coloca em claro o seu lado biográfico, sempre em conformidade com a encenação fiel dos locais e personagens reais. Sim, foi um trabalho de pesquisa que levou a conceção desta viagem do homem que gradualmente despe a sua ocidentalização, assim como Sean Penn concretizou uma outra descida ao selvagem em 2007 (Into the Wild), este último sob moldes do storytelling.

 

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Porém, não devemos desvalorizar esse lado ficcional perante o árduo trabalho do realizador-investigador, em cumplicidade com o actor João Pedro Zappa a interpretar o derradeiro peregrino. Gabriel e a Montanha explicita um retrato humanista do protagonista, para além de, ao contrário de muitas cinebiografias, não glorificar totalmente a figura, espelhando-a numa logística de complexidades. Fellipe Barbosa apresenta assim uma homenagem, um tributo assim por dizer, que atravessa as mais diferentes fronteiras da linguagem cinematográfica, ora sobre uma perspetiva etnográfica, geográfica e porque não uma experimentação do seu lado documental, de forma implementá-lo como a nova haste de um cinema sem fronteiras de género.

 

Filme visualizado na 56ª Semana da Crítica de Cannes

 

Real.: Fellipe Barbosa / Int.: João Pedro Zappa, Caroline Abras, Alex Alembe

 

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7/10

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27.1.16
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publicado por Hugo Gomes às 14:54
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5.1.16

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A Montanha, a primeira longa-metragem de João Salaviza, estará presente na secção Bright Future do próximo Festival Internacional de Roterdão.

O elogiado filme português sobre um jovem que terá eu lidar com futuras responsabilidades provenientes da morte de um ente querido, irá competir neste certame de jovens promessas ao lado de obras como a co-produção luso-alemã, Fado, de Jonas Rothlaende, a história de jovem médico que viaja para Lisboa afim de reconquistar a sua ex-namorada, Alba, de Ana Cristina Barragán, Of Shadows, de Yi Cui, Kali Blues, de Bi Gan, e o documentário fantasioso do italiano Pietro Marcello, Bella e Perduta [ler crítica], que por cá abriu a passada edição do Doclisboa.

 

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Quanto à competição principal, a cobiça pelo Tigre de Ouro, destaque para uma co-produção nacional com o Brasil. A Cidade Onde Envelheço, de Marília Rocha, é uma obra que segue a jovem portuguesa Rita, que se muda de Lisboa para Belo Horizonte devido a um trabalho temporário. Contudo, começa a nutrir sentimentos pela cidade que a acolhe, desejando não mais voltar à capital portuguesa. O filme terá como concorrentes: History's Future, de Fiona Tan, The Land Of The Enlightened, de Pieter-Jan De Pue, Motel Mist, de Prabda Yoon, Oscuro Animal, de Felipe Guerrero, Radio Dreams, de Babak Jalali, La Ultima Tierra, de Pablo Lamar, e A Woman, A Part, de Elisabeth Subrin.

 

Felizmente as presenças portuguesas não terminam aqui, o realizador Miguel Gomes, dos muitos conceituados Tabu [ler crítica] e a trilogia As Mil e uma Noites, integrará o júri oficial, ao lado da realizadora tailandesa Anocha Suwichakornpong (Mundane History, vencedor do Tigre de Ouro de 2010), o crítico de cinema Peter van Bueren, e Hans Hurch, o director do Festival de Viena.

 

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O Festival de Roterdão que irá decorrer de 27 de Fevereiro a 7 de Março naquela que é a segunda maior cidade da Holanda. Como filme de abertura, o novo trabalho de Boudewijn Koole (Kauwboy [ler crítica], Beyond Sleep, terá as honras de preencher tal papel. Eis um filme sobre legados onde um jovem geólogo parte numa expedição ao encontros de resíduos de um meteoro, continuando assim os passos deixados pelo seu falecido pai que morreu em uma jornada idêntica. 

 

Enquanto isso, Childhood of a Leader (que esteve presente no último Lisbon & Estoril Film Festival), que é livremente baseado na infância de muitos ditadores do século XX, será o filme de encerrado. A obra, que é uma primeira longa-metragem assinada pelo jovem actor Brady Corbet, contará com Robert Pattinson (Twilight, Cosmopolis), Stacy Martin (Nymphomaniac) e Liam Cunningham (Clash of the Titans) no elenco.

 

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Ler Críticas Relacionadas

As Mil e uma Noites: Volume 1, O Inquieto (2015)

As Mil e uma Noites: Volume 2, O Desolado (2015)

As Mil e uma Noites: Volume 3, O Encantado (2015)

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:51
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6.7.15

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Grécia, um palco de emoções e conflitos sociais!

 

Num momento em que a Grécia encontra-se na ribalta dos órgãos de comunicação com um eventual rumo na sua direção politica, o filme A Blast, a segunda longa-metragem de Syllas Tzoumerkas, parece fazer todo o sentido no panorama actual, ao ilustrar uma desesperada emancipação. Deparamos com uma obra cuja temática é a austeridade, e obviamente a situação actual do qual vive Grécia, mas enganem-se quem julga que tudo se contenta em “pintar” um retrato pessimista e decadente.

 

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A Blast é sim, uma motivação desarmante e de vórtice emocional acentuada, tudo isto integrado num crescendo quase musical, que salienta a isenção do sentimento de esperança e muito mais a vontade de se “despir” dos anexos das nossas vidas passadas. De certa forma alienado, cru e duro, o filme de Tzoumerkas é uma verdadeira montanha russa emocional que concentra numa coragem em nunca ceder ao moralismo nem sermões indevidos. Frases como “tu és um fardo!”, dirigidas a um pai pela própria filha, revelam a extrema força de culpar um passado irresponsável, ao invés de assumir as culpas e arrecadar os erros cometidos por esse legado. Contudo, são frases como essas que evidenciam essa irreverência, urgente no seu acto e apenas conseguido para quem vive dentro desse mesmo “aquário” social.

 

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Nesse biótopo construído e desconstruído à medida que a narrativa evolui para um tudo menos “moral relief”, encontramos uma actriz (Angeliki Papoulia, que também será vista em The Lobster, de Yorgo Lanthimos [ler crítica]) capaz de oferecer com tamanha garra, a alma para esta vertiginosa viagem, onde os julgamentos por parte do espectador são sobretudo ignorados. Aliás este é um dos poucos filmes em que a sua protagonista pouco ou nada importa na exposição sentimental, e é nessa dita disposição que o público consegue aceder, que a controversa instala. Fria, animalesca, individualista ou libertadora, a perspectiva altera mas as imagens ficam com tal agressividade que até dói. Eis um filme avassalador e pujante.     

 

Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Roterdão 2015

 

Real.: Syllas Tzoumerkas / Int.: Angeliki Papoulia, Vassilis Doganis, Maria Filini

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 11:38
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17.3.15

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Tragédia em plena harmonia com o Cinema!

 

Apesar do titulo, a primeira longa-metragem do tailandês Jakrawal Nilthamrong (Patterns of Transcendence) não tem qualquer relação com o filme de culto que Richard C. Sarafian concretizou em 1971, ainda que em ambas as obras as viaturas marquem presença de uma forma crucial na narrativa, embora, como é óbvio, sob divergentes abordagens. Nilthamrong executa um obra pessoal que transfere para o grande ecrã uma dor intima: é uma tragédia de família ocorrida a 17 de Setembro de 1983, onde os pais do realizador sofreram um desolador acidente de viação, evento que marcou para sempre a história da família.

 

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Vanishing Point arranca com fotos do jornal do acidente, uma ocorrência que logo Nilthamrong tenta exorcizar através de um enredo fictício, contemplativo, sobre dois homens que tentam lutar contra as suas dores interiores. O cineasta tailandês disse que fazer um filme é como tocar jazz, pois o improviso é a combustão de toda a melodia, energia que este tenta transmitir numa obra onde essa mesmo energia está ausente, mas que glorifica a emancipação da câmara. Tal como Antonioni, Nilthamrong centra-se num enredo acentuado pelas suas pausas e pela derivação no mundo em redor, suplementado por um olhar de um documentarista, evidenciando os anteriores trabalhos do realizador. Contudo, mesmo dotado de uma câmara fluida e articulada com mestria, Nilthamrong falha em conseguir tecer um propósito para toda a intimidade.

 

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As primeiras cenas, uma encenação masturbatória para com o crime em si, são desvanecidas por imagens vazias. O misticismo também faz parte desta fantasia torturante e fetichista, como se o cineasta a tornasse um escape para a dor real que vive constantemente e que dificilmente esquece. É pessoal, mas esta auto-interpretação prejudica demasiado o seu talento, acabando por demonstrar uma ausência de um objectivo mais definido do que somente em captar o desgosto alheio.

 

Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Roterdão 2015

 

Real.: Jakrawal Nilthamrong / Int.: Ongart Cheamcharoenpornkul, Drunphob Suriyawong, Chalee Choueyai

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 13:19
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13.2.15

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Processando … vidas!

 

"O Fim está próximo". Pelo menos é o que é aclamado no início de Videofilia (y otros síndromes virales), um filme experimental que incute uma mensagem que a esta altura do campeonato todos têm conhecimento, mas que infelizmente grande parte ignora. Refiro-me à ausência de contacto físico como resultado dos avanços tecnológicos, nomeadamente a internet, essa "maldita invenção" que tem servido de alternativa a muitos dos nossos gestos quotidianos, até mesmo em questões sexuais. Contudo, nesta obra de Juan Daniel F. Molero, a mensagem não é oferecida ao espectador como algo adquirido ou uma moralidade que antecede o "The End". O objectivo aqui não é o de recriar um panfleto pedagógico mas colocar quem assiste numa experiência sensorial e subliminar, mesmo que os "alvos" sejam mais que evidentes.

 

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Mas então o porquê a citação do "Fim"? Qual a razão do Apocalipse que é mencionado na cena inicial? Os eventos proferidos por um jovem, gravando para a posteridade essa inesperada ocorrência, que, segundo este, marcará a sociedade como nós as conhecemos? Os Maias profetizaram esse derradeiro desfecho, mais tarde lido como uma transição para uma Nova Era. Por mais que tentamos descredibilizar esse dom de adivinhos e profetas, estes realmente desvendaram essa mudança, um futuro negro, mais individualista, constrangido e isolado no seu sedentarismo tecnológico. Mas o "Fim" não é esse, mas sim a alusão presente num dos "castigos divinos" que o filme incute lá bem para o seu final.

 

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Enquanto isso, somos presenteados com uma narrativa inventiva e psicadélica, que brinca com "glitchs", pop-ups e pixéis para tornar menos perceptível a actual diferença entre Cinema e o mundo da informática. Talvez essa fusão seja o futuro da Sétima ArteVideofilia um dos incompreendidos pioneiros dessa linguagem visual. Violento nessa abordagem, Juan Daniel F. Molero conseguiu um assombroso ensaio cinematográfico cuja mestria não está no seu conteúdo, mas sim na forma como o expõe. Uma experiência!

 

Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Roterdão 2015

 

Real.: Juan Daniel F. Molero / Int.: Liliana Albornoz, Caterina Gueli Rojo, Rafael Gutiérrez

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 11:04
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25.1.15

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De novo o fascínio pelo novo realismo!

 

Na sua teoria, o enredo de A Corner of Heaven é o seguinte: um garoto de 13 anos é abalado pelo desaparecimento repentino da sua progenitora. Algum tempo mais tarde, recebe uma carta sobre o seu paradeiro, lançando-se numa jornada por uma China desoladora em busca da mãe. A meio do caminho, "tropeça" num covil de "meninos-perdidos" (algo quase dilacerado da imaginação de J. M. Barrie) que tentam emancipar-se do mundo dos adultos.

 

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Depois da teoria, seguimos agora para a prática! Tudo aquilo que fora contado acima não chega sequer para preencher uma hora e meia de longa-metragem. Aliás, isso não parece ser problema para Miaoyan Zhang, cuja resolução encontrada está na inserção de "longuíssimos" planos-sequência que nos remetem à transformação da China. Trata-se de mais uma evidência de que a nova geração de cineastas chineses adquiriu um sintoma que tão depressa não consegue largar: o invocar o chamado novo realismo, o manusear do tempo para contrariar o formalismo desse realismo, talvez influenciados pelo cada vez prestigiado Wang Bing. O tempo, esse, é aqui jogado e concentrado, mas o que se nota é a inutilidade dos planos para a narrativa e o desperdício do enredo, que na sua teoria funcionaria em mais um "coming-of-age". A demanda desta criança em busca da sua infância perdida ou da afeição de que nunca fora alvo, está longe de admirar, até mesmo a técnica utilizada encontra-se a léguas de impressionar.

 

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Ou seja, A Corner of Heaven (titulo traduzido à letra como Um Canto do Paraíso) é um revisitar ao estilo já visto e revisto, sem com isso tenha nada de novo a salientar, tornando a fotografia, um preto-e-branco detentor de uma certa beleza, em algo banalizado e pouco concreto. Nada de novo nem de relevante aqui. Se isto é o Paraíso, mais vale residir no Inferno.

 

Filme visualizado no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Roterdão 2015

 

Real.: Miaoyan Zhang / Int.: Guo Xinjiang, Huo Xuehui, Bai Haonan

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 18:22
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8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
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3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
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