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Título
Take
5.3.17
5.3.17

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A antologia do biopic!

 

Em Neruda, a promessa de uma biopic convencional do poeta e activista politico é em vão. Pablo Larraín esmiúça-se sobre outro Pablo, e através desta união invoca uma liberdade que não parece encontrar lugar no subgénero. É como se Neruda fosse idealizado pelo próprio Neruda, uma evasão ficcionada que facilmente se encontraria no imaginário do homenageado, mais do que a visão do espectador.

 

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Existe nesta metragem uma desfragmentação de todos os códigos assim aprendidos e instantaneamente abandonados pelo realizador desde o muito consensual Não, ou até do toque mais intimista e reservado de El Clube. Em Neruda o que está em jogo é a narração, mais do que a própria narrativa, quanto à fidelidade histórica, non troppo, o ficcionar de vidas estabelecidas, inserindo neste jogo personagens inexistentes e explicitar a biografia da existência memorial, acima da existência física. Sim, Larraín joga-se aos retalhos com a ferocidade de um esquartejador. O golpear de diálogos em prol de um raccord soluçante, os planos reféns de uma profundidade quase "velazquiana", a falsa narração de personagens ausentes e até mesmo um twist que desafia a própria natureza do registo. Tudo com a graça e encanto de um elenco capaz de disfarçar esta tão deliciosa farsa (a estrutura policial) sob condimentos políticos, e deveras de salientar, acidamente politizados.

 

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Luis Gnecco apresenta essa figura de um ego do tamanho do Mundo [Neruda], o burguês que secretamente integra o partido comunista, como uma força inesperada no combate a um regime, onde a sua palavra funciona como a mais poderosa das suas armas. Seguindo de perto, um Gael Garcia Bernal que o persegue sem perceber que como perseguidor converte-se no mais indefeso perseguido. Egocentrismo e ciclos experimentais de não-lugares e não-personagens, tópicos que afrontam em Neruda, e aos dois Pablos, a anti-sintetização da memória, não como uma formatização, mas como uma página em branco a merecer da escritura.

 

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Enquanto isso, indicamos um dos grandes equívocos das distribuidoras, lançar Neruda depois de Jackie (visto que o filme foi produzido antes da biografia com Natalie Portman), o esboço da sua oficializada entrada no mercado de Hollywood. Mesmo assim, Neruda é digno do seu próprio feito. 

 

Real.: Pablo Larraín / Int.: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:56
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6.2.17
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Histórias de Camelot!

 

Há quem refira Jackie como um retrato de luto, a persistência no estatuto e o trago de futilidades ao serviço de uma utilidade, essa, a dignidade até ao último tomo. Pois bem, para além da mulher representada, submetida a uma longa entrevista que por si ironiza a natureza da biopic convencional, este é a entrada de um dos mais prolíferos realizadores do nosso tempo - o chileno Pablo Larrain - ao mercado de Hollywood. No mesmo ano em que nos havia apresentado Neruda, um enredo que ligava marcos na vida do poeta e activista político Pablo Neruda, Larrain avança com uma história tão yankee, e a despe dessa ocidentalidade em prol do seu olhar cinematográfico. Jacqueline Kennedy, relembrada nos livros de História como a mulher de JFK, é agora elevada a protagonista, tornando-se na "boneca" desta experiência, assim o chamaremos. 

 

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Enquanto que Neruda foi o esboço, Jackie é "a prova dos nove". Neruda foi a desfragmentação, e em Jackie encontramos a fragmentação. Enquanto que um usufruía da liberdade em ficcionar, o outro tende em encontrar liberdade por entre a agenda de Hollywood. Mas Jackie, em todo os casos, é um oásis nesse deserto que têm sido os biopics da "award season". É a catarse da História escrita e difícil de rescrever, Larrain usufrui dos seus falsos raccords que atropelam a fluidez dos diálogos, e de certa maneira, ainda bem. Existe camadas sobrepostas e interpostas nesta narrativa que remexe em prol de um vórtice e esse mesmo, sob leve cinismo, gradualmente cedido à dor oficializada da protagonista.

 

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Natalie Portman é essa mulher, sujeita a uma culpa egocêntrica pelo movimento desta caldeira memorial. Não importa a veracidade do campo narrativo, a fidelidade com as personalidades e os eventos, marcantes, reduzidos a cenas e mais cenas. Não, o que torna Jackie devidamente conquistador, é a sua resistência na tradução dessa mesma veracidade, metamorfoseado. Pena que Natalie Portman funcione como uma mimetização, algo representativo, onde serve de rebelião o olhar para com a rigidez da sua personalização.

 

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Dito isto, ficamos com uma biopic autoral devidamente inserida no universo de Larrain, e que é enfraquecida pelas suas tentativas de assumir-se na convencionalidade de estúdio. Portanto, esperemos com agrado pelos desenvolvimento da carreira do chileno em terras de Hollywood, cuja estreia, os derradeiros suspiros da última família real norte-americana, o qual tornou a Casa América na tão requisitada Camelot do Rei Artur.

 

"I believe the characters we read on the page become more real than the men who stand beside us."

 

Real.: Pablo Larrain / Int.: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 20:05
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Malick não anda bem. Não acho que seja preguiça. S...
Vi. Infelizmente. Ridículo. Excalibur de John Boor...
Um grande ator também do teatro brasileiro.
A Sônia Braga é fantástica! Esperemos que seja mel...
Mais um filme estrangeiro para a lista!
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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