Data
Título
Take
12.9.17
12.9.17

It.jpg

E tudo começou com um … palhaço!

 

Para entendermos a natureza desta nova versão do êxito literário de Stephen King, devemos inteirarmos numa das sequência-chaves de ambas as conversões, a infame mini-série que foi transmitida em 1990, e o filme que tem culminado num grandiloquente hype.

MV5BMjEyMzM3NjM0NF5BMl5BanBnXkFtZTgwMDQ1NzMzMzI@._

No projecto televisivo, Tim Curry veste a pele desta entidade que assume a forma do palhaço como catalisador de um medo comum e, não só, criar um engodo, uma empatia fraudulenta para com as suas vitimas. Na cena em questão, que intitularemos simplesmente como sarjeta, seguimos Georgie, uma criança que desfruta um dia chuvoso na "companhia" de um barco de papel, fabricado pelo seu irmão mais velho. Enquanto segue as correntes induzidas pela forte precipitação e das eventuais sarjetas que se encontram à berma dos passeios, Georgie perde a sua embarcação numa delas e, desesperadamente, ao tentar reavê-lo, é surpreendido por um palhaço. Existe nele um sorriso amigável, um discurso de promessas, iguarias, dotado de um humor matreiro, mas que para qualquer criança é um comité de confiança. O rapazinho cai na armadilha, assim como muitas crianças cairiam na "conversa de estranhos", esses terrores comuns dos progenitores.

MV5BMTg1NTU5NTgwOV5BMl5BanBnXkFtZTgwMTQ1NzMzMzI@._

Claramente, com possibilidades de censura televisiva, nunca vemos verdadeiramente a criatura consumir a sua presa, tudo cai num cliffhanger de cena, dando lugar ao créditos iniciais. Na versão de 2017, por sua vez, o "palhaço", agora interpretado por Bill Skarsgård (filho do actor Stellan Skarsgård), é uma ameaça evidente, sorriso malicioso, aspecto pomposo, com diálogos arrastados e uma voz asquerosa. Um verdadeiro pesadelo para a "criançada". A sua abordagem é tudo menos engodo, a farsa como um isco, mas sim a persistência, aquela de consumir a sua presa o mais depressa possível. No caso da alimentação, contrariando o repentino corte da mini-série, este IT é explicitamente gráfico. A exposição dos novos tempos do horror acaba por contornar um dos grandes tabus do cinema de horror, isto porque poucos são os que demonstram expressamente a morte de uma criança de forma visualmente macabra.

68-IT-remake-fb.jpg

Apontado por muitos como uma nova faceta do terror contemporâneo, e ainda mais a operar nos grandes estúdios, Andy Muschietti concebeu Mamã há quatro anos atrás (apadrinhado por Guillermo Del Toro). Vencedor do Fantasporto, o filme apresentava um conjunto de nuances na vertente do fantástico e da estética terrorífica de outros tempos. Muschietti é fascinado pelo terror hoje "infabricável", pelo desconhecido como signo e neste IT pelo regresso do carismático vilão do género (algo que não víamos desde a morte de Jigsaw na "longuíssima" saga iniciada por James Wan).

MV5BNDVjMjIxMzEtMGZmNi00ZmM5LWEzN2ItODJkNTRkZjdiYz

Como importante influência na concepção desta ameaça antagónica, Nightmare on Elm Street parece ganhar dimensão nos aspectos visuais e na tentativa de conceder uma atmosfera penetrável. Tal como as criação de Wes Craven, existe um imenso "carinho" pelo vilão, pela entidade maligna que se assume como o derradeiro protagonista de um conto sob contornos comuns do imaginário de King (sim, todo aquele cenário Stand By Me não é meramente déjá vu).

dims.jpg

Nesse sentido, a "palhaçada" tem tendências a estorvar o potencial narrativo do filme. IT desenvolve-se desequilibradamente entre uma preocupação com as personagens (os jovens capazes que se fundem na reconstituição de época) e os jump scares - como manda a agenda (até  Annabelle 2 conseguia ser mais inventivo nessa abordagem)- gratuitos que nada contribuem para um cenário de medo. Aliás, o medo é coisa inexistente por estas bandas.

maxresdefault (4).jpg

Obviamente que somos induzidos a uma produção competente, quer a nível técnico (apesar do excesso do CGI que não se separa do protagonista), quer na narração (saber condizer duas nuances opostas é, em termos industriais, uma bravura). Porém, a competência nunca salvou projectos do esquecimento e em IT existe uma ausência de agressividade na sua abordagem … E não. Não me refiro ao grafismo, mas sim ao inconsciente, o elemento mais tenebroso de todos.  

 

"You'll float, too, you'll float, too, you'll float, too... YOU'LL FLOAT, TOO!"

 

Real.: Andy Muschietti / Int.: Bill Skarsgård, Jaeden Lieberher, Finn Wolfhard

 

Movie-Cast-2017.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 16:00
link do post | comentar | ver comentários (2) | partilhar

11.9.17

die-hoelle-inferno-image-2.jpg

O thriller Cold Hell é o vencedor da 2ª Competição Europeia de Longas-Metragens do MOTELx. Com a conquista do Prémio Melhor Longa Europeia/Méliès d’Argent, o filme de Stefan Ruzowitzky (conhecido por obras como Anatomy e o vencedor ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, The Counterfeiters), fica, desde já, nomeado para o Prémio Méliès d’Or.

 

A representar também o MOTELx estará Thursday Night, a curta-metragem de Gonçalo Almeida, consagrado na sua categoria, arrecadando assim os cinco mil euros de prémio. O júri composto pela atriz Maria João Bastos, o músico Carlão e o realizador Can Evrenol decidiu atribuir o prémio, descrevendo-o como “um filme que nos marcou muito, que consideramos único e que certamente ficará na nossa memória”. A curta Depois do Silêncio, de Guilherme Daniel, recebe uma menção especial.

 

O 11º MOTELx decorreu em Lisboa do dia 5 a 10 de Setembro, apresentando como principal destaque o cinema de terror latino e as visitas de Roger Corman e Alejandro Jodorowsky. O muito esperado IT, de Andy Muschietti, teve as honras de encerrar o festival.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 00:39
link do post | comentar | partilhar

7.9.17

54d42a9aadbc7_-_esq-corman-de.jpg

Com mais de 400 filmes produzidos, Roger Corman é um mito na indústria cinematográfica, um mito vivo que muito tem para ensinar sobre a arte da produção, e sobre o registo da série B o qual ama verdadeiramente. Para Corman, o Cinema não é só box-office, há que persistir num equilíbrio, um veio artístico, uma alma.

 

O Cinematograficamente Falando … teve o privilégio de falar com o “Rei da Série B”, o pai de muitos dos cineastas que formaram a Nova Hollywood, o homem que transformou o imaginário de Edgar Allan Poe num autêntico universo cinematográfico, durante a sua passagem pela 11ª edição do MOTELx. Uma conversa agradável e descontraída que atravessou alguns dos ponto fulcrais da sua vida e carreira, passando por Vincent Price, a reforma e o Cinema jovial que tanto apostou … e que não se arrepende!

 

É a sua primeira vez em Lisboa?

 

Não, eu e a minha mulher já estivemos aqui, mais precisamente numa das primeiras edições do MOTELx. Eu gosto desta cidade, existe um certo ar de romantização nela, aqueles edifícios antigos que preenchem uma paisagem em reconstrução.

 

KjauJbo.png

 

Na sua autobiografia, encontra-se explicito que The Masque of the Red Death, de toda as suas obras, é o seu filme de eleição.

 

Sempre tive carinho por esse filme. A primeira obra baseada em Allan Poe que fiz, House of Usher, era um filme mais contido, e nesse aspeto senti que, de alguma forma, iria confrontar-me com essa mesma contenção. Enquanto os filme de Poe continuavam e eram bem sucedidos, senti-me na obrigação de adaptar o The Masque of the Red Death. Os filmes foram um sucesso em Inglaterra, mesmo tendo sido rodados nos EUA, então um distribuidor inglês propôs-me um orçamento maior para uma produção seguinte, e foi então que com aquelas possibilidades, escolhi The Masque of the Red Death como merecedor desse mesmo “budget”. Julgo, que foi graças a essa “liberdade” que consegui expressar-me de forma mais livre nesse filme.

 

Voltando à sua autobiografia e a The Masque of the Red Death, também referiu que do ciclo Allan Poe foi o que rendeu menos dinheiro, algo que não lhe afligiu porque pretendia que o filme fosse arte. Algo artístico.

 

Sim, mesmo The Masque of the Red Death ser um dos meus favoritos, ele foi de facto dos que rendeu menos dinheiro, comparando com as obras anteriores. Considero um ensaio artístico, não possui muita das características comerciais porque não aposta de todo no terror físico, quer dizer, continha os seus momentos de horror, é verdade, mas no fundo era uma obra de cariz mais filosófica.

 

139216.jpg

 

Quando encontrava-se na AIP (American International Pictures), na década de 50, deparou-se com o facto do cinema não estar a corresponder com o seu público – os jovens. O Roger foi um dos cruciais realizadores a "ensinar" os filmes a falar essa linguagem jovial.

 

O cinema sempre fascinou o público mais jovem, e aí residia o problema. Quando comecei a minha carreira, os estúdios estavam interessados em produzir filmes com as suas grandes estrelas. Sabendo que uma estrela demora anos a ser “fabricada”, estas eram velhas, então, basicamente tínhamos enredos em que o ator cinquentão ficava com a rapariga, na casa dos 20 anos, e o público-alvo dessas mesmas fitas eram os jovens. Algo estava mal, pensei eu. Foi então que apostei em histórias protagonizadas por jovens, de forma a empatizar com os que assistiam. Felizmente os grande estúdios perceberam da oportunidade no qual estavam a perder, e começaram a olhar atentamente para as camadas mais novas.

 

Hoje, temos milésimas produções dirigidas para essa “fatia”, desde os Marvelscomics e outros. O que significa, e eu tenho pensado bastante nisto, seria uma ótima oportunidade virarmos o jogo. Começar a apostar em cinema dirigido para os mais velhos.

 

De certa maneira, sente-se culpado por estes filmes da Marvel?

 

Culpado não seria bem a melhor palavra [risos], até porque alguns filmes da Marvel são bons, tenho o conhecimento de dois que são realmente de qualidade. Mas digo isto, tecnicamente são do melhor que já vi, estes representam alguns dos efeitos computorizados mais inacreditáveis que alguma vez vi.

 

ff-higher_res.jpg

 

Deixou a realização nos anos 70, época em que os blockbusters expandiam na indústria. Foi essa a causa do seu afastamento?

 

O que aconteceu foi o seguinte, estava na Irlanda a filmar The Red Baron, sobre o famoso piloto alemão da Primeira Guerra Mundial, e simplesmente fiquei … cansado. Todos os dias era um sacrifício ir para o aeroporto filmar, e ainda por cima, lembro-me de anteriormente encarar com algum entusiasmo esse ato. Julgo ter realizado cerca de 59 filmes em 50 anos de carreira, ora bem, eu estava exausto e então decidi que pelo menos tiraria um ano de repouso, que na América chama-se celibato [risos], e depois desse período regressaria novamente à realização. Mas fiquei aborrecido ao longo desse ano, e então fundei esta pequena companhia de produção e distribuição [New World Pictures]. Curiosamente nunca estive envolvido em distribuição antes, e a companhia foi um verdadeiro sucesso, tão bem sucedida que começou a ocupar todo o meu tempo. Então dediquei-me totalmente a essa mesma companhia, e não obtive disponibilidade nem motivação para regressar à realização.

 

E através disso encontrou outra “mina de ouro” que fora o mercado do VHS …

Sim, exatamente.

 

DeathRace2000.jpg

 

Curioso, mesmo com o passar dos anos, as suas produções continuam a ser motivos de celebração. Relembro o frenesim que houve quando produziu a sequela de Death Race.

 

Produzi Death Race 2000 em 1975, foi uma ficção cientifica generosa com toques de distopia e de comentário social como pano de fundo, para além do humor, ingredientes, que juntos culminaram um sucesso. A Universal comprou os direitos para um eventual remake, e desse material fizeram várias versões, mas eles nunca inseriram alguns dos elementos cruciais que levou a minha versão ao sucesso. Certo dia fui falar com eles, e responderam-me o seguinte “então, porque não fazes tu próprio e colocas nele aquilo que achas importante”. Como resposta ao desafio fiz o Death Race 2050, no qual reciclei muito da temática do ‘2000 e atualizei, de forma a estar mais coerente para os dias de hoje.

 

É por estas e por outras que o Roger é chamado de “O Rei da Série B”, já agora o que é que pensa do termo Série B?

 

Gosto desse termo, o da Série B, por várias razões. Uma delas, é o facto de possuíres mais oportunidades de desafio, reinvenção ou criatividade num filme B do que um filme A. Na teoria, posso afirmar que os ‘As são melhores, acima da qualidade dos ‘B, mas se quisermos apostar em algo diferente sem com aquela extrema intromissão do estúdio, então a segunda opção é a melhor das escolhas. Um estúdio não dá liberdades criativas a uma produção com 100 milhões de dólares de orçamento. Contudo, com uma produção de poucos milhões de dólares já são capazes de ceder. É por isso que, de certa maneira, gosto do termo Série B, o de ter aquela sensação e poder de aposta.

 

18-Frankenstein-Unbound.jpg

 

Mas ambos os termos tem um propósito quase hierarquizado, como se o cinema fosse reduzido a castas. Acredita mesmo, excluindo as possibilidades de criatividade de que falou, que a série A é sinónimo garantido de qualidade?

 

Série A pode muito ser melhor filme? Pode ser verdade, ora vejamos, um A é uma produção que terá, especificamente, um melhor cameraman, melhores técnicos, e mais tempo para conceber os cenários, maiores e mais complexos que na Série B. Esse dinheiro adicional que separa as duas séries proporcionará ao A, uma estética mais elaborada, rigorosa e profissional. Mas isso tudo não significa que a ideia seja melhor. Muitas vezes, a ideia, aquilo que priorizo nos meus filmes, é melhor na categoria B.

 

Voltando ao início da conversa, nos dias de hoje é difícil separar os escritos de Allan Poe com as suas adaptações. Porquê esse fascino por Poe e o porquê de ser ele um dos principais signos da sua carreira?

 

Bem, as histórias de Edgar Allan Poe remexem na mente inconsciente, aquilo que Freud explorou alguns anos mais tarde para fins médicos ou científicos. Era um diferente tipo de horror. Diferente daquilo que hoje existe em abundância, que são produções mais gráficas e mais sangrentas.

 

006-house-of-usher-theredlist (1).jpg

 

O inconsciente … O Roger fez-me subitamente recordar a sequência do sonho do seu House of Usher, que também é uma adaptação de Poe. Já agora, a título pessoal, como conseguiu conceber aquele sonho, diria antes, pesadelo?

 

O que fiz com ‘Usher, assim como outros filmes, foi a utilização de diferentes tipos de lentes que distorciam a imagem. Através de “impressões óticas” [optical print] revesti a câmara com diversas cores, dando um efeito rodopiante. Claro que faríamos obviamente melhor nos dias de hoje com a computorização, mas foi o que conseguimos na altura, e julgo, pessoalmente, que aguenta-se bem nestes dias.

 

Quando falamos de Roger Corman, não falamos apenas de si. Falamos também de toda uma geração de realizadores que passaram pelas suas produções e que se assumiram posteriormente como cineastas que tão bem conhecemos: Francis Ford Coppola, Nicolas Roeg, Jonathan Demme, Ron Howard, entre outros.

 

Sim e orgulhoso estou por vê-los crescer. Encaro como um tipo de teste testemunhar as suas respetivas emancipações. Isto tudo faz pensar em nós como uma espécie de escola, depois dela a graduação.

 

vincent-vincent-price-35944932-500-444.jpg

 

Mas não é só de cineastas que o seu Universo é feito, Vincent Price encontrou alguns dos seus papeis mais memoráveis no seu cinema.

 

Vincent era um verdadeiro cavalheiro, e foi um prazer ter trabalho com ele em tantos projectos. Era um homem bastante inteligente, educado, que compreendia as personagens e que as interpretava de maneira distintiva. Se bem que no género de horror ele ostentava um certo humor ligeiro, algo que desenvolvemos juntos em filmes posteriores. Como equipa tentamos numa vertente cómica que separava dos nossos anteriores projectos.

 

Fala-se que Price abandonou gradualmente essa rígida faceta do terror porque encontrava-se constantemente cansado do género. De ser resumido a um arquétipo.

 

Sentimos que estávamos a repetir, sim, da mesma maneira que a comédia acabou por ser uma manobra de diferenciarmos das nossas colaborações anteriores, uma introdução de novos elementos e o público anseia sempre por ver algo novo, e claro, Price teria assim um novo motivo de trabalho.

 

ecb82a14e52bc1523d8d912e1f68578d.jpg

 

É costume perguntar neste tipo de entrevista quanto a ‘novos projetos’, mas no seu caso é mais adequado o ‘pensa em reformar-se?’.

 

Não, nunca irei reformar-me. Continuarei a trabalhar até morrer. Recordo que há uns meses atrás, almoçava com Jon Davidson, que foi um dos meus “graduados”, que mais tarde tornou-se produtor de Airplane!, Robocop, entre outros. Durante o almoço, ele afirmou que ponderava reformar-se e eu rapidamente lhe disse: “Jon, eu vejo-te, como te via há uns anos, uma ‘criança’ no escritório, e agora pensas em reformar” [risos]. Se calhar sou eu que deva reformar?” Ele respondeu: “Não, tu és demasiado velho para reformar”[risos].

 

Para terminar, como encara a indústria de hoje?

 

Hoje, a industria converteu-se integralmente num puro negócio. No cinema, devemos sempre criar um equilíbrio entre o artístico e o comerciável. Revejo nisso no meu Pit and the Pendulum, um filme comercial mas com uma forte componente artística, e o problema é que hoje tornamos a indústria altamente industrial, sem qualquer amor à arte. É preciso apostar em novos conteúdos e ter gosto pelo Cinema, ou se não, é o que vemos, aquilo que está convertido actualmente.

 

272702-horror-the-pit-and-the-pendulum-wallpaper.j

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 12:54
link do post | comentar | partilhar

6.9.17

MV5BNzU0MzgxMjAtYjU0NC00ZWYyLTljZWUtNTRkNzBhZTYwYz

O sentido do terror!

 

A dupla Jeremy Gillespie e Steve Kostanski, que tem vingado no departamento de caracterização (com orgulho poderão exibir o Óscar ganho por Suicide Squad), têm apostado a meio pés de lã na realização e ambos com resultados satisfatórios. Agora, reunidos novamente, avançam num autêntico bolo de camadas, um filme de cerco que depressa evolui para algo mais … demente.

 

MV5BNjM2NDZiZTItZTAzNy00NmNlLThjNWItOTQyYzdmYTQ2Nj

 

Se Gillespie e Kostanski juntam esforços para nos trazer um arranque envolto em cultos satanistas e à limitação dos cercados num hospital no “meio do nada”, depressa recorre-se aos lugares-comuns do seu subgénero, às tendências da fórmula, e à honestidade das referências (assume-se os tributos e escapam, por vias de uma cínica absolvição, à acusações de cópia) -  mas onde os trilhos levavam em becos sem saída, The Void torna-se num marginal, um nostálgico desajeitado.

 

MV5BNmQ0MWNkMmQtOTYyMC00ZGY5LTgwNDgtZWViOTNlNmVhMm

 

Os anos 80 (ou a memória destes) ditam os fluxos sanguíneos deste exemplar em prol de influências óbvias, de Clive Barker e o imaginário infernal do sofrimento via sacra, até Lovecraft e às seitas para além das dimensões reconhecíveis. Esta “descida ao submundo” torna-se num recreio para os devaneios da dupla, a criação das bestas por vias dos efeitos práticos, a obscuridade dos pesadelos trazidos à luz do dia através do “artesanato”. É cinema visual, a estética do horror, o grafismo e o onirismo que faltava numa panóplia rendida ao género -  os psicopatas estéreis aos fantasmas explicados “às criancinhas”.

 

MV5BMmM0MGJkOTktYjViYi00ZmFkLTgwNmItNTE4YjBmMTM1Nm

 

The Void é de certa forma um “fóssil vivo”, uma peça antiquada, mas não obsoleta. É por essas e por outras que perdoarmos mais facilmente o fraco desenvolvimento das personagens, as interpretações fraudulentas e o enredo refém da linguagem puramente visual do que a credibilidade do argumento, até porque o terror não encontra sentido físico. Aliás, o terror é sobretudo abstracto.

 

Filme visualizado no 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski / Int.: Aaron Poole, Kenneth Welsh, Daniel Fathers

 

MV5BNzFiZTBhMGYtNGVjMC00OGM1LTlhYWMtZTdhMDYzNzRiNT

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:36
link do post | comentar | partilhar

MV5BMjA4NzU2ODA5OF5BMl5BanBnXkFtZTgwNTk1ODkwMzI@._

Juventude incontrolável!

 

Facilmente o identificamos como um Stand By Me - Conta Comigo disfarçado, mas fora isso, este Super Dark Times é a típica exibição do melhor e do pior do estatuto de "primeira longa-metragem". É um coming-to-age sob as promessas do macabro, ou é por esse indicio que a atmosfera se adensa, por entre jogos visuais e pequenas provocações lançadas de rompante ao espectador. Jogos visuais? Sim, não esperávamos outra coisa de Kevin Phillips, que após a experimentação em curtas, avança de confiantemente para esta sua nova etapa.  Tendo trabalhado diversas vezes no departamento de fotografia de inúmeras curtas-metragens, é evidente a sua linguagem estética, enquanto tenta emparelhá-la numa narrativa com mais "olhos que barriga".

superdarktimes-h_2017.jpg

Um "pequeno" crime entre amigos, jovens que enfrentam as adversidades da puberdade, leva-os a um turbilhão de violência, um fascínio por si levado como brisa através dos easters eggs de época (visto o filme ser centrado nos anos 90 somos confrontados com o boom dos videojogos ultra-violentos "que jogo é este?"), das paranóias colmatadas por estas personagens, em certo ponto, marginais desta sociedade de rótulos, e da inconsequência destes pensamentos reféns da imperatividade sexual. Mas todo este episódio que tão bem aludiria o Massacre de Columbine, é fragmentado pela inexperiência de Phillips em acertar no tom narrativo, em alargar os horizontes das suas personagens (sem falar da inexactidão do jovem elenco) e atribuir confiantemente coerência ao argumento, dispersado aqui por um prólogo e epílogo demasiado emancipados em simbolismos.

screen-shot-2017-04-19-at-12-36-27-am (1).png

Super Dark Times é então isto: uma promessa que desvanece pela "inexperiência" do seu realizador. Como tal, o desafio foi incumprido, Kevin Phillips não é uma revelação no qual cruzávamos os dedos, nem nada que pareça. É um pretensioso sem o devido rigor.   

 

Filme visualizado na abertura do 11º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror

 

Real.: Kevin Phillips / Int.: Owen Campbell, Charlie Tahan, Elizabeth Cappuccino

 

super-dark-times-photo-jpeg.jpg

 

 

5/10

publicado por Hugo Gomes às 04:53
link do post | comentar | partilhar

26.8.17

maxresdefault (3).jpg

A colectânea de gritos para se fazer ouvir na capital já no próximo mês de Setembro, com a 11º edição do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror em Lisboa. Estão agendadas mais de 70 sessões incluindo filmes, workshops, masterclasses e actividades paralelas a ter lugar no Cinema São Jorge, Teatro Tivoli BBVA, Cinemateca Portuguesa e Júnior, Rua da Moeda, Museu do Berardo, Lounge e Largo de São Carlos (sessões Warm-ups).

 

Como já fora revelado em Julho, o 11º MOTELx terá como temática “O Estranho Mundo do Terror Latino”, com a colaboração do Passado e Presente - Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017 de forma a conduzir o público a explorar "a diversidade do cinema de género produzido na América do Sul e na Península Ibérica." Para além disso, o chileno Alejandro Jodorowsky e o produtor Roger Corman são esperados nesta terrifica mostra de cinema fantástico, inseridos na já "clássica" rubrica Culto aos Mestres Vivos.

 

screen-shot-2017-04-19-at-12-36-27-am.png

 

O MOTELx deste ano abrirá com a obra Super Dark Times, a primeira longa-metragem de Kevin Phillips. Apresentado na última edição de Roterdão e Tribeca, o filme exibe-nos uma forte amizade abalada pela tragédia. A crítica internacional tem o considerado uma espécie de comig-to-age gore. Como encerramento, comprovaremos o hype por detrás da nova versão de IT, de Andy Muschietti, inspirado num livro de Stephen King sobre um grupo de jovens assombrados por uma estranha criatura que assume a forma de palhaço. Espera-se sustos e calafrios num dos mais esperados filmes do ano.

 

Mas tal como é comum afirmar-se, é no "meio que reside a virtude", e Setembro será presenteado com algumas das grandes novidades do género, entre os quais o mais recente capitulo da saga Child's Play (Chucky, O Boneco Diabólico), Cult of Chucky. Ainda o novo filme de Cate Shortland (Lore), Berlin Syndrome, a história de uma jovem que se apaixona na capital alemã e que se torna prisioneira/cativa do seu "apaixonado", um prometedor retrato das complexidades do chamado "síndrome de Estocolmo". O regresso ao rubro da frenética acção indonésia com Headshot, de Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto, protagonizado por Iko Uwais (Raid: Redemption). Amor entre canibais com The Bad Batch, de Ana Lily Amirpour (A Girl Walks Home Alone at Night), que conta com as presenças de Keanu Reeves, Jim Carrey, Jason Momoa e Diego Luna, e zombies coreanos no "demorado" Train to Busain, de Yeon Sang-ho. São estas e muitas outras propostas que preenchem o Serviço de Quartos do festival.

 

train_to_busan_h_2016.jpg

 

A Competição de Longas-Metragens continua, desta vez com 8 filmes a concurso para o Prémio MOTELX – Melhor Longa de Terror Europeia/Méliès d’Argent, incluindo o inglês The Limehouse Golem, de Juan Carlos Medina, o espanhol The Night of the Virgin, de Roberto San Sebastián, e o holandês Prey, de Dick Maas. Na secção Doc Terror é apresentado o 78/52,  desconstrói as 78 posições de câmara e 52 planos da mítica cena do chuveiro de Psycho, e King Cohen, sobre o argumentista, produtor, realizador e rebelde Larry Cohen.

 

Mas antes do festival, temos obviamente o Warm-Up que arranca a 31 de Agosto no Beco da Rua da Moeda (Cais do Sodré) com uma sessão ao ar livre de Jodorowsky’s Dune, o célebre documentário sobre a adaptação de Dune por Alejandro Jodorowsky, que como sabem, nunca chegou a ser feito. A sessão é precedida por um concerto dos Acid Acid inspirado no universo conceptual do realizador.

 

el-vampiro.jpg

 

Enquanto que nos dias 1 e 4 de Setembro, a Cinemateca Portuguesa acolherá o "aquecimento" do ciclo Estranho Mundo do Terror Latino, onde serão exibidos, pela primeira vez naquele espaço, El Vampiro, de Fernando Méndez, e ¿Quién puede matar a un niño?, de Narciso Ibáñez Serrador. Conta-se ainda com a projecção, no dia 1, de um grande clássico de terror brasileiro, À Meia-Noite Levarei Sua Alma, o filme de José Mojica Martins no qual gerou a icónica figuro do Zé do Caixão.

 

Já no Largo de São Carlos, no dia 2, George A. Romero será homenageado, com a exibição de “Dawn of the Dead”. A noite termina no Sabotage com um concerto dos Glockenwise.

 

dawn-of-the-dead.jpg

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 

 


publicado por Hugo Gomes às 10:20
link do post | comentar | partilhar

19.7.17

pjimage_28329-7.jpg

O chileno “psico-mago” Alejandro Jodorowsky e o veterano produtor e realizador Roger Corman serão os homenageados da 11ª edição do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa, a decorrer entre 5 a 10 Setembro.

 

Espera-se a presenças de ambos no decorrer do Festival, porém, recordamos que Corman havia sido anunciado como “homenageado do MOTELx” na edição passada, cuja vinda foi cancelada devido a problemas de saúde.  O mesmo se pode dizer sobre o chileno surrealista, cuja visita a Lisboa (no âmbito da anterior Mostra da América Latina) também fora cancelada por iguais motivos.

 

romero_2728825b.jpg

 

Porém, falando em homenageados, a organização anunciou que irá preparar um tributo a George A. Romero, falecido recentemente, na programação deste ano. Nota-se que o “mestre dos mortos-vivos” esteve presente no MOTELx em 2010, e segundo a equipa do festival “foi a sessão de autógrafos mais longa em 11 anos de evento”.

 

O regresso do MOTELx irá assumir-se como o mais ambicioso até à data, cerca de 14 sessões diárias e mais de 100 filmes inserido numa programação sem precedentes, tendo em conta as palavras dos organizadores durante a conferência de imprensa.

 

the_bar.jpg

 

Para além dos habituais Warm-ups (sessões pré-festival), o infanto-juvenil Lobo Mau, os Prémios MOTELx (Melhor Curta de Terror Portuguesa, Yorn Microcurtas), o 11º MOTELx tem como principal novidade a associação com o Passado e Presente - Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017. No âmbito desta colaboração cultural, seremos presenteados com sessões especiais dedicadas a Jean Garrett, um dos nomes incontornáveis do cinema exploitation brasileiro dos anos 70, e ainda, o “desenterrar” de duas produções ibéricas, raras, que de certa forma tentaram preencher o vazio do fantástico no cinema português nos anos 70.

 

A mostra lisboeta de cinema de terror terá lugar no Cinema São Jorge, Teatro Tivoli BBVA, Cinemateca Portuguesa e Júnior, Rua da Moeda, Museu do Berardo, Lounge e Largo de São Carlos (sessões Warm-ups).

 

game-of-death-1.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 01:08
link do post | comentar | partilhar

28.6.17

the_bar.jpg

A dois meses de arrancar a sua 11ª edição, o MOTELx - Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa divulgou a associação com o Passado e Presente - Lisboa, Capital Ibero-americana de Cultura 2017 de forma a conduzir o público a explorar "a diversidade do cinema de género produzido na América do Sul e na Península Ibérica."

 

Para além da mostra que incluirá "títulos clássicos, filmes menos conhecidos do grande público e produções recentes", o MOTELx apresentará debates, masterclasses e outras actividades paralelas no âmbito da proposta intitulada de “O Estranho Mundo do Terror Latino”.

 

the_untamed_still_2_h_2016.jpg

 

Como grande novidade, o Festival exibirá The Bar, o mais recente filme de Alex de la Iglesia, um dos mais prolíferos e bem-sucedidos autores do fantástico a operar em Espanha. Apresentado no último Festival de Berlim, eis um arquétipo de "filme de cerco" onde um grupo de estranhos ficam presos dentro de um bar.

 

Do outro lado do Oceano, chega-nos The Untamed (La Región Salvaje), de Amat Escalante, visto como um dos nomes mais promissores do cinema mexicano. Trata-se de uma obra invulgar que mistura o tormento e prazer de um casal após o encontro com uma misteriosa criatura vinda do espaço.

 

FB_1487_002.jpg

 

A mostra ainda nos traz algumas raridades, tais como o Excitação, do luso-brasileiro Jean Garrett (do sucesso de A Ilha do Desejo), uma das referência do cinema exploitation paulista dos anos 70 e Crime de Amor, de Rafael Moreno Alba, uma esquecida co-produção de Portugal/México/Espanha. Destaque ainda para a sessão infanto-juvenil O Livro da Vida, uma animação com produção de Guillermo Del Toro, e o ciclo de clássicos do terror latino a ter lugar na Cinemateca Portuguesa, que se alia ao MOTELx durante a proposta Warm-Up que precede o evento.

 

No dia 18 de Julho serão revelados mais detalhes sobre a programação desta 11.ª edição a decorrer entre 5 e 10 de Setembro, no Cinema São Jorge e Teatro Tivoli BBA.

 

2014-10-08-bookoflife.png

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 00:13
link do post | comentar | partilhar

11.9.16

The-Noonday-Witch.jpg.700x399_q85.jpg

 

O checo The Noonday Witch tornou-se no primeiro vencedor da “novíssimaCompetição Europeia de Longas-Metragens do MOTELx. Com a conquista do Prémio Melhor Longa Europeia/Méliès d’Argent, o filme realizado por Jiri Sádek (com apenas 27 anos de idade), irá representar o festival em Lund, na Suécia, durante a Gala Anual da Federação Europeia de Festivais de Cinema do Fantástico.

 

A representar também o MOTELx estará Post-Mortem, a curta de Belmiro Ribeiro, consagrado como a Melhor Curta Portuguesa, arrecadando assim os cinco mil euros de prémio. O júri descreveu o trabalho como possuidor de uma “macabra subtileza”. Enquanto isso, Palhaços, de Pedro Crispim, recebe uma menção honrosa.

 

553280134_1280x720.jpg

 

Porém, estes não foram os únicos prémios atribuídos no 10º MOTELx, o produtor e realizador Mick Garris, que fora um dos primeiros convidados do festival lisboeta e este ano membro do recém-formado júri da Competição de Longas-Metragens, recebe um Galardão Especial. Ruggero Deodato, o realizador do imortal e sempre controverso Holocausto Canibal, não saiu de “mãos abanar” da capital portuguesa, tendo sido laureado com o Prémio Mestres do Terror.

 

Mas o momento emocional destes seis dias de terror aconteceu no penúltimo dia com a entrega do Prémio de Carreira a António Macedo, um dos poucos realizadores a “fazer cinema de género em Portugal”. A cerimónia de entrega decorreu durante a estreia mundial de O Segredo das Pedras Vivas, uma longa-metragem que remexe superstições paleolíticas com bruxaria contemporânea, construído a partir de negativos originais de uma minissérie televisiva filmada pelo próprio há 25 anos atrás. 

 

daa8bdc531109fbd93db6d93bec5e848.jpg

 

 

 

 Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui

 


publicado por Hugo Gomes às 23:08
link do post | comentar | partilhar

9d51dec904bb6ef66048b5d105c762c71463342791_full.jp

E seja quem for que ganhe... nós perdemos … literalmente!

 

Crossovers no género de terror é um truque mais antigo do que aquilo que se julga. Nos anos 40 e por aí fora era comum encontrar este tipo de registo de forma a “despacharfranchises, ícones ou simplesmente combinar dois “clubismos” num só. O resultado, Lobisomens contra Frankensteins, Frankensteins contra Dráculas, Dráculas contra Lobisomens, ou tudo ao “molho” como é o caso de House of Frankenstein (Erle C. Kenton, 1944).

 

SadakoVsKayako-1200x675.jpg

 

Do outro lado do Oceano, os japoneses não ficaram de fora perante esta artimanha, aliás foi essa mesma que serviu de plano de sobrevivência para uma saga sua, Gojira (Godzilla), e os casos mais gritantes como Gojira Vs King Kong (subliminarmente a desforra do resultado da Segunda Guerra Mundial) ou Gojira Vs Gamera. É lógico que passados estes anos todos, “coisas” como Alien Vs Predator e Freddy Vs Jason (este último acaba por ser o mais modesto dos exemplos hollywoodianos) integram a memória do espectador no preciso momento que se fala em crossovers, embates entre duas sagas.

 

a402c195577e009ed8cb1a2b7f1ede99.png

 

Sadako Vs Kayako (de um lado Ringu, de Hideo Nakata, do outro Ju-On, de Takashi Shimizu), são duas “vitimas” do desgaste, sombras do que outrora foram - pioneiros no prolifero subgénero j-horror – encontram a única solução de revitalização num confronto cinematográfico. A quem acredite que todo esta manobra de comércio marque o fim de dois franchises, porém, algo é certo, Sadako Vs Kayako é um “caçador formidável”. Digo isto porque tem a proeza de “matar dois coelhos duma cajadada só”.

 

Screen-Shot-2016-04-22-at-7.53.13-AM.jpg

 

Pois bem, a ideia está à vista de todos, “vamos juntar dois pesos-pesados do cinema de terror nipónico para facturar o que sobra destas espécies em vias de extinção”. Quanto a argumentos? Segundo a “mentalidade” dos produtores, qualquer coisa serve como desculpa (todo este episódio faz lembrar a "matança" a Freddy Krueger ocorrido em 1991). Os actores? Estes serão apenas reduzidos a caricaturas das caricaturas num filme que não consegue encontrar o seu verdadeiro tom. Quanto às poucas sequências de terror que o filme tenta emanar, palavra de honra, puros motivos de chacota para as audiências.

 

SADAKO_v_KAYAKO_2.jpg

 

Estes pesadelos converteram-se em inofensivas imagens, sem força alicerçada, nem sequer rigor para funcionar como sátira, é somente uma produção sem esforço nem vontade, "pastilha elástica" da pior qualidade. Aliás tudo resume-se a uma “palhaçada” com objectivo de extrair o que resta nestas duas sagas em vias de eutanásia. Visto isto, mais valem morrer sozinhas. Abaixo deixo a minha homenagem a estas duas sagas:

 

R.I.P. Ringu: 1998 - 2016

 

R.I.P. Ju-On: 2000 - 2016

 

Real.: Kôji Shiraishi / Int.: Mizuki Yamamoto, Tina Tamashiro, Aimi Satsukawa, Masanobu Andô

 

Sadako-vs-Kayako-2785990crop.jpg

 

Ler também

The Grudge 3 (2009)

The Grudge 2 (2006)

Ju-On: The Beggining of the End (2014)

2/10

publicado por Hugo Gomes às 17:14
link do post | comentar | partilhar

8.9.16
8.9.16

PHoAawdU19QPrv_2_l.jpg

Somos filhos da violência!

 

Será demência sinónimo de genialidade? Para Rob Zombie e a sua nova obra 31, está muito mais em jogo do que a simples homenagem ao cinema "nasty" e "torture" de um Texas Chainsaw Massacre ou de um I Spit in Your Grave. Está sim, o embate com um estilo próprio, de "mau gosto" para alguns, mas verdadeiramente requintado para a proposta que apresenta.

 

19-days-31-rob-zombie.jpg

 

Um cruzamento entre Texas Chainsaw Massacre e The Hunger Games, 31 centra-nos no típico "horror road trip" com demasiados "piscares de olhos" ao eterno filme de Tobe Hooper até chegar a uma delirante trip à lá Devil Rejects. Maniqueísmos estão à "borda do prato", a refeição é crua e indigesta e é nesse tipo de espectáculo que o músico e agora realizador, Rob Zombie, concentra na sua crítica social. Até porque nós todos somos "animais", as personagens que tentam sobreviver num sádico jogo orquestrado por aristocratas até nós, espectadores, que aceitamos a viagem imaculada dos seus acordes.

 

rob-zombie-31-movie.jpg

 

A provocação é aqui facilitada, mas é nesse leque de "nasty things" que a exploração torna-se real para a audiência, tudo se resume a um circo munido por identificáveis peças, nada que não difere dos nossos habituais videojogos, das manchetes sedentas de mediatismo e do fascínio intimo de cada um pela violência. Sim, somos todos filhos da violência e Rob Zombie não é o demónio por nos mostrar isso ao longo da sua carreira enquanto realizador, porém, é o autor que mexe "cordelinhos" desse desejo proibido.

 

Rob-Zombie-31-trailer.jpg

 

A sua câmara que se desloca à velocidade da luz em alturas críticas revela-se numa poderosa aliada em território sensorial, não é todos os dias que vemos um filme de terror que nos desperta adrenalina, uma incomoda sensação de vermos tudo e ao mesmo tempo vermos absolutamente nada. Os maiores episódios de violência estão na mente do espectador, por esta altura Rob Zombie ri-se que nem um perdido perante tal feito.

 

312.jpg

 

O único senão deste retrato é também aquela possível marca autoral do realizador, a sua mulher, Sheri Moon Zombie que nunca nos verdadeiramente convenceu. Mas tal é compensado com as participações de Judy Geeson (Rilington Place, de Fleischer), Meg Foster (They Live, de Carpenter) e Malcolm McDowell (Clockwork Orange, de Kubrick), entre outros, actores que instalam-se como memórias de uma terrifica cinéfila, o "lado negro" admirado pelo próprio Zombie, proclamador do género de terror. Ah, e já me ia esquecendo, Richard Brake a citar-se como um psicopata "campónio", transgredindo o estereotipo pelo qual é submetido.

 

31-rob-zombie.jpg

 

Pormenores que tornam 31 num filme que receamos em venerar, mas a confirmação de que Rob Zombie é um autor de terror, daqueles subvalorizado (tal como Eli Roth) por um cultura subjugada ao cinema de estúdio de um The Conjuring ou do enésimo remake de um clássico qualquer.  

 

"Now, you may think you see a grease-painted performer sitting before you. But trust me - I'm not here to brighten your dismal day; I am here to end your miserable life. You know, all in all, you've had a pretty good run, but deep down inside you must've known it all had to end somewhere - might as well be now."

 

Real.: Rob Zombie / Int.: Sheri Moon Zombie, Malcolm McDowell, Richard Brake, Jeff Daniel Phillips, Meg Foster, Judy Geeson, Pancho Moler, Tracey Walter, Lawrence Hilton-Jacobs, Kevin Jackson

 

lew31temple.jpg

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 19:33
link do post | comentar | partilhar

7.9.16

TheWailing-406x600.jpg

 

O Conjuring coreano!

 

Os coreanos sempre foram assim, ambiciosos e igualmente descontraídos nas suas incursões fantásticas, e quem não se lembra de The Host, de Joon-ho Boong, esse reavivar do cinema kaiju, para dar uma ideia do que lidamos em relação a tons neste The Wailing.   

 

960.jpg

 

Dirigido por Hong-jin Na (The Chaser), este é uma costura de variados “trapos” que consolida o terror com os lugares do suspense policial, o humor até mesmo a um fino drama familiar, sem com isso negar a sua atmosfera de “filme-de-desastre”. A enésima história de possessão teima aqui em não persistir em linha recta, vagueando fantasmagoricamente em outras nuances e complicações argumentativas, chegamos mesmo a pensar que uma simples intriga foi deliberadamente convertida numa pesadão “mastodonte”, a jornada é cansativa e as nossas forças cinéfilas tendem em desvanecer tais como a do nosso protagonista. 

 

the-wailing-1.jpg

 

O herói, interpretado por Do Won Kwak, bem poderia ser uma personagem extraída de uma comédia, um policia trapalhão cujo porte físico é representado por uns quilinhos a mais, bem, uma chacota digna lá para os lados de Hollywood. Contudo, é o exemplo de heroísmo acidental, sem com isso branqueá-lo do lado negro habitual do ser humano. É na construção deste protagonista que The Wailing demarca de muitas outras produções de terror, é nos seus laivos competentes de teor que chegamos curiosamente a dar uma espreitadela a esta sombra que paira numa tradicional cidade, assombrada por espíritos florestais e receosa por superstições arcaicas.  

 

wailing60.jpg

 

Não negando o charme de The Wailing, há, no entretanto, uma infelicidade em encontrar nesta produção sul-coreana uma replicada ambição de ser um The Conjuring (aviso desde já que o filme de James Wan é aqui inserido não sob forma de elogio). É como já havia referido, a costura de vários “trapos” é também reciclado, e a reciclagem teima em ser homenagem a um cinema de género. De The Exorcist até aos terrores amaldiçoados do J-Horror, passando pelo policial feroz de Fincher e até certo ponto um side-by-side de I Know What you Did in Last Summer, é novamente a impotência de não saber o que fazer com tantos lugares-comuns. Ganhou-se um sólido filme de género, mas perdeu-se uma eventual obra-prima.

 

Real.: Hong-jin Na / Int.: Do Won Kwak, Jun Kunimura, Jung-min Hwang, Woo-hee Chun

 

thewailing_trailer1.jpg

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 23:09
link do post | comentar | partilhar

7.9.16

file_748570_Demonrev3.jpg

 

 

Por entre um demoníaco caos!

 

Desde o primeiro momento que o espectador pressente um iminente caos. Todo o redor é estranho, indiferente e demasiado abrupto, até que por fim dá-se a verdadeira assombração. A juntar a isso, um casamento organizado no tempo de um viagem entre Inglaterra e Polónia, a união de facto que gradualmente torna-se num festival caótico, onde os espíritos, já muito moribundos, não querem ficar de fora do matrimónio, porque essa é a sua única oportunidade de pedir auxilio.

 

0eb0b8c4a44774874e7cbe47d76ff55e_XL.jpg

 

A sensação de assistir Demon, o filme de Marcin Wrona, é idêntica a uma espreitadela a The Shinning, de Stanley Kubrick, a loucura vai tomando posição ao longo da intriga e o bizarro acontece em segundo plano, um filme por detrás do nosso filme. Mas não é somente  um paralelismo encontrado com a famosa obra com Jack Nicholson que nos deparamos, na realidade, não há que negar, Demon vai beber a água da mesma fonte, ora se o twist final tem muito de “replicado”, é na banda sonora que encontramos o elo mais tingivel, Krzysztof Penderecki, o compositor que havia trabalhado com Kubrick em 1980 em tal partitura, faz aqui a sua colaboração.

 

demon2.jpg

 

Coincidências? Não creio. Contudo, as referências não terminam aqui, na carreira de Penderecki existe outro filme que merece a menção neste olhar a Demon, The Exorcist. Em relação ao celebrizado filme de William Friedkin a questão não está no exorcismo, nem em possessões (no caso de Demon a variação é judaica), mas sim na manifestação demoníaca que a entidade possuída parece comportar na presença de multidões até chegarmos a um embate ideológico entre ciência medicinal e teologia.

 

demon_3__large.jpg

 

Wrona pactua essa enésima incorporação espiritual com um humor negro corrosivo e um surrealismo que vai ganhando dimensão, maneirismos quase dignos do cinema imparável e inventivo da Nova Vaga e dos seus predecessores. Depois temos Itay Tiran a conseguir uma duplicidade invejável para com o ritmo do filme.

 

demon-4.png

 

Hilariantemente diabólico este Demon, um filme que se constrói com o “esqueleto” de fantasmas passados, mas nunca esquecidos, invocados sob a forma gasosa neste requintado exercício de extremos. 

 

Filme visualizado no 10º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Marcin Wrona / Int.: Itay Tiran, Agnieszka Zulewska, Andrzej Grabowski

 

40c9d780-1860-4891-b036-dc7824840bef.jpg

8/10

publicado por Hugo Gomes às 19:08
link do post | comentar | partilhar

unnamed.jpg

Como já era previsto, muitos foram aqueles que seguiram em massa para a abertura do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Aliás não são todos os dias que um festival lisboeta consegue chegar às 10 edições, sendo que, segundo os organizadores que discursaram na sessão de arranque, 2016 será um ano em festa, não apenas como data comemorativa (os por fim dois dígitos), mas pela apresentação de grandes novidades dentro da programação.

 

Dentro desse ramo, a Competição de Longas-Metragens é um feito, um sonho desejado pelo MOTELx durante os 10 anos de percurso que teve por fim concretizado. Esperemos, partilhando o mesmo desejo que os programadores, a hipótese de vermos longas-metragens de terror nacionais em competição num futuro próximo. Nas Curtas-Metragens existe também superações, o prémio da Competição é o maior de sempre no que refere a festivais nacionais, 5.000 euros serão dados à curta elegida pelo júri. Os resultados, por enquanto, só dia 11 de setembro, a data que marca um encerramento de mais uma “invasão” terrorífica na capital portuguesa.

 

Depois de apresentados os “brindes” deste MOTELx 2016 é então que é exibido o descrito filme-sensação Don’t Breathe (Nem Respires), que tem vindo a conquistar o box-office dos EUA durante duas semanas consecutivas, destronando o Suicide Squad. O público parece ter admirado com força a esta proposta de Fede Alvarez, o homem que cometeu a “loucura” de refazer o tão amado Evil Dead em 2013. Contudo, mesmo com óptima recepção por parte da audiência, uma sessão divertida e interactiva que contou com imensos aplausos, risos e até mesmo inquietações. Mas para o lado do Cinematigraficamente Falando … o fascínio parece ter ficado à porta.

 

dont-breathe-1.jpg

 

Nem Respires possui mestria técnica, nisso Fede Alvarez tem a minha saudação, os movimentos de câmara servem como “bengala de Hoover” para condensar o espaço sugerido do cenário e a sonoplastia é um acessório perfeito para acolher o ambiente claustrofóbico. Mas então o que falhou?

 

De Fede Alvarez, de todo o frenesim impulsionado pela crítica norte-americana, muito mais com as intermináveis aclamações da palavra “original”, esperava-se isso mesmo, uma proposta sobretudo criativa. Ao invés disso temos a confirmação dos problemas que tem vindo a abalar os filmes de estúdio, os receios de apresentar-nos personagens sem motivos (o medo dos EUA pelo ateísmo já é deplorável), implantam-nos maniqueísmo que nos leva aos acérrimos lugares-comuns. Aqueles momentos chaves desengonçados que apenas alimentam uma narrativa que ficaria dotada no minimalismo.

 

Nem Respires revelou-se numa proposta perdida no enxugado subgénero do home invasion, o enésimo caso do terror é sodomizado pelos estúdios e pela fórmula crowd pleasure. Deixou-se de lado as lições aprendidas em See No Evil (1971) e Wait Until Dark (1967), e até mesmo de You’re Next, de Adam Wingard, que encerrou uma edição do MOTELx com grande estilo.

 

You-re-Next-Stills2.jpg

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui


publicado por Hugo Gomes às 18:44
link do post | comentar | partilhar

5.9.16

Dont-Breathe-Dylan-Minnette-Stephen-Lang.jpg

Ruggero Deodato, o realizador do incontornável Cannibal Holocaust, estará presente na comemorativa 10ª edição do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Nesta edição, para além da homenagem ao autor do controverso filme que serviu de modelo para a geração seguinte de terror, visto nos dias de hoje como o pai do found footage, teremos ainda como grande novidade a primeira edição da Competição de Longas-Metragens, um certame dotado de sete filmes oriundos dos quatros cantos da Europa que certamente irão povoar os nossos mais profundos pesadelos.  

 

O festival arrancará amanhã (6 de Setembro) com a sensação de Fede Alvarez, Don't Breathe (Nem Respires), que tem vindo a dominar o box-office norte-americano nas passadas duas semanas. O realizador do remake de Evil Dead apresenta-nos três jovens assaltantes dispostos a executar um último, mas perfeito golpe. A tentativa de assaltar a casa de um velho cego abastado revela-se automaticamente num mórbido pesadelo.

 

Existe muito por onde olhar, por outras palavras, "assustar" nesta nova mostra de terror, desde o resgate crítico de Walerian Borowczyk, o excêntrico realizador polaco radicado na França, que será representado por duas das suas perversas obras (La Béte, Docteur Jekyll et les Femmes), até à estreia mundial de O Segredo das Pedras Vivas, uma obra de produção complicada do mestre da fantasia lusitana, António de Macedo, a marcar a já habitual secção Quarto Perdido.

 

Para ver mais sobre a programação, cliquem aqui.

 

maxresdefault (1).jpg

 

Ver também

Cinema de terror em grande com o MOTELx!

Dez anos de MOTELx! Vejam as primeiras novidades da esperada edição! 

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui


publicado por Hugo Gomes às 17:29
link do post | comentar | partilhar

24.8.16

dont-breathe-1.jpg

Don't Breathe, a nova sensação do terror norte-americano de Fede Alvarez (Evil Dead), vai abrir a décima mostra de Cinema de Terror em Lisboa, por outras palavras, MOTELx. Descrito como um novo fôlego no subgénero home invasion, Don't Breathe apresenta-nos três ladrões que deparam-se com tenebrosos obstáculos quando tentam orquestrar o "perfeito golpe".  

 

A programação, agora completamente revelada (ver aqui), esconde algumas novidades curiosas e esperadas no circuito do cinema de terror. Entre as quais, poderemos contar com 31, o novo e badalado filme de Rob Zombie, o ex-músico dos White Zombie tem-se revelado cada vez mais num particular autor "por estas bandas". O mais recente filme de Olivier Assayas, Personal Shopper, o vencedor do prémio de Melhor Realizador no último Festival de Cannes, também estará presente na programação. A história centra em Maureen (Kristen Stewart), uma mulher com dons sobrenaturais que trabalha como "personal shopper" para personalidades de discreto "profile". A juntar a isto ainda temos The Wailing, do sul-coreano Na Hong-jin, um exercício de terror que evoca The Exorcist.

 

19629591_GTBFC.jpeg

 

Mas a grande novidade desta décima edição é o lançamento da Competição de Melhor Longa-Metragem Europeia, uma iniciativa que tende em promover e divulgar cinema fantástico europeu, e quem sabe, até mesmo português. Ruggero Deodato, o realizador do mítico Holocausto Canibal, que para além de ser um dos convidados especiais do festival, será o presidente de júri, que tem como restante formação: o realizador e produtor Mick Garris e Fernando Ribeiro (vocalista da banda Moonspell).

 

O 10º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa decorrerá no Cinema São Jorge, Cinemateca e Teatro Tivoli BBVA, entre 6 a 11 de Setembro.

 

 

Ver Também

Dez anos de MOTELx! Vejam as primeiras novidades da esperada edição!

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 15:29
link do post | comentar | partilhar

26.7.16

13871738_10206657422411106_270707142_n.jpg 

Como já é tradição, Lisboa vai voltar a ser invadida pelo terror a partir do mês de Setembro, mais concretamente entre o dia 6 e 11.

 

Trata-se do MOTELx, um dos festivais lisboetas que mais cresceu nos últimos anos, e falando em anos, vale a pena salientar que temos “à porta” a 10ª edição do Festival Internacional de Terror de Lisboa. A grande novidade, que começará a ser implantada nas edições posteriores, é a tão esperada Competição Nacional de Longas-Metragens, que segundo a organização servirá como incentivo para o preenchimento de um lote tão vago no nosso cinema, o género terror e fantástico.

 

Mas as novidades são muitas, entre elas a vinda de Ruggero Deodato, produtor e realizador de uma das mais badaladas obras de terror dos anos 80, Cannibal Holocaust. Relembro que o filme que remete a um grupo de documentaristas em busca de um perdida tribo amazónica, acabando por se tornar o “prato principal” deste seio canibal, foi um dos precursores do found footage de terror que originou produtos tão célebres como Blair Witch Project, [REC] e Paranormal Activity. Para além de mencionar que a obra foi proibida em inúmeros países e a sua estreia foi tão controversa que Deodato teve que provar em tribunal que os actores encontravam-se vivos e bem de saúde.

 

SadakoVsKayako-1050x591.jpg

 

Entre a selecção, a secção Serviço de Quarto, existe um dedicada preocupação pela geografia e pela diversidade desta, ao mesmo tempo presenteando ao espectador uma vasta gama de obras asiáticas que não fossem este tipo de iniciativas, de certo demorariam ou provavelmente nunca chegariam ao nosso país. Entre os revelados para preencher a programação do MOTELx estão; o êxito nipónico Sadako Vs Kayako, o crossover de duas importantes sagas de J-Horror (Ringu e Ju-On), o regresso de Kyoshi Kurosawa (Journey to the Shore) ao género de terror com Creepy, o exercício de medo vindo directamente do Irão, Intitulado de Under the Shadow e a homenagem vampírica, The Transfiguration, que fora apresentado no último Un Certain Regard, em Cannes.

 

Na secção de documentário poderemos encontrar o muito elogiado DePalma, a conversa entre o realizador de Carrie e Scarface com Noah Baumbach e Jake Paltrow que tem servido como um dispositivo de reavaliação de um homem apontado como o herdeiro de Hitchcock. E o muito esperado Tickled, uma investigação a um jogo de cócegas que se revela num autêntico filme de terror.

 

la-1465491824-snap-photo

 

Em O Quarto Perdido, secção que visa em recuperar pérolas e filmes perdidos da nossa cinematografia, vai contar com a estreia mundial de O Segredo das Pedras Vivas, uma obra de produção complicada do mestre da fantasia lusitana, António de Macedo. Enquanto isso, em paralelo, um ciclo dedicada ao excêntrico e alienado Walerian Borowczyk, um realizador polaco radicado na França que foi o autor de obras oníricas, fantasias quase buñueliana recheados de erotismo e bizarria. Borowczyk faleceu em 2006, a partir daí seguiu-se um trabalho de restauração do seu legado e a reanálise da sua visão cinematográfica. As sessões (La Béte, Docteur Jekyll et les Femmes) serão apresentadas na Cinemateca sob uma iniciativa da White Noise.

 

Destaque ainda para o visual e spot deste ano, um fantasma de uma das mais lendárias personalidades da nossa História, D. Sebastião, o rei que nunca voltou a casa, mais um trabalho prometedor da Take It Easy / Easy Lab, com realização de Jerónimo Rocha.

 

O 10º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa decorrerá no Cinema São Jorge, Cinemateca e Teatro Tivoli BBVA.  

 

nIEUuBk.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 23:09
link do post | comentar | partilhar

16.5.16

Personal Shopper.jpg

 

Um Sexto Sentido!

 

Kristen Stewart é uma "personal shopper", Maureen, uma mulher que se dedica às compras de quem possui um "profile" discreto. Porém, ela é mais que uma mera servente, é uma médium. Os seus "talentos", consideramos assim, sempre a levaram para os mais inesperados encontros com o outro mundo, um lado espiritual que todos duvidam a existência, mesmo ela própria, mas que providenciam fascínio. Quando o seu irmão gémeo - que também partilhava o dom - morre, Maureen adquire uma nova rotina com base numa promessa feita entre os dois. O primeiro a morrer teria que enviar uma mensagem a declarar se existe ou não vida para além da morte, mas para a receber terá que passar as noites na antiga e abandonada casa.

 

Personal-Shopper-620x379.png

 

Depois do fabuloso estudo da natureza da interpretação em Clouds of Sils Maria, a dupla Olivier Assayas / Kristen Stewart aposta num thriller sobrenatural que navega impreensionatemente no território autoral. Com um pé sobre esse mesmo registo já estabelecido pelo cinema de Assayas e outro nos lugares-comuns do cinema de terror mainstream, Personal Shopper explicita um cinema diversificado, sem géneros, sem categorias nem audiências definidas.

 

Personal-Chopper-vai-ser-exibido-em-Cannes.jpg

 

É uma ode à transgressão e nesse sentido o desempenho de Stewart eleva tal definição. Será este o melhor filme de terror dos últimos anos? Para responder a isso teria que seguir tudo aquilo que a obra desaprova (a categorização), não é nem nunca será um terror de estúdio, nisso estamos certos, e os elementos desse mesmo território são reproduzidos por uma técnica repercussiva. Os clichés tem consequências e é sob essas mesmas que Personal Shopper faz todo o sentido, para além de Assayas ser um conhecedor do medo interior do espectador.

 

kristen-stewart-is-now-labeled-indie-film-queen-as

 

Existem sequências assustadoras, aparentemente vulgares, todavia glorificadas por um impressionante conhecimento no uso e na simbiose do som, da escuridão e por fim, com a sua actriz. Por outro lado, a atração quase adolescente pela espiritualidade, onde um iPhone serve de tábua de ouija em contato com os mais aterrorizantes espíritos ou os "não-vivos", conforme quiserem apelidar.

 

personalshopper2.jpg

 

Essa referência da tecnologia e da comunicação sempre estiveram ligados ao Cinema de Terror nos mais recentes anos, desde as maldições invocadas em Ringu, de Hideo Nakata (recuso a falar da vendida versão norte-americana com Naomi Watts) ou no veia umbilical entre vitima e agressor de um Scream: Gritos, de Wes Craven. Essa remodelação dos códigos, que com o prazo de validade expirado passaram a se denominar de clichés, desafiam Stewart no seu método interpretativo, à constante improvisação da sua perfomance e ao naturalismo do seu ego. Será este o empenho mais ousado da atriz? Só o tempo dirá!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Olivier Assayas / Int.: Kristen Stewart, Anders Danielsen Lie, Lars Eidinger

 

personal-shopper-large_trans++NJjoeBT78QIaYdkJdEY4

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 23:35
link do post | comentar | partilhar

15.9.15

Green Room.jpg

Os monstros aqui são outros!

 

De “Ruína Azul” para o “Quarto Verde”, Jeremy Saulnier persiste no seu percurso por esta América profunda e nada recomendável. Uma faceta negra de um país egocêntrico que tem nos últimos tempos a revelar-se numa ameaça que qualquer "outra coisa", sim, refiro à ascensão de Trump na política que tem, por fim, dado voz a esta faixa social.

 

the-green-room-patrick-stewart-skip.jpg

 

Ambos os capítulos tem em comum a sua violência, quer gráfica, e a intrinsecamente “acarraçada” nas suas personagens. Em Blue Ruin (Ruína Azul), a situação tendia em subliminarmente criar um episódio de carácter violento, enquanto que em Green Room, sob uma profunda fotografia verde que automaticamente nos transporta para as atmosferas mais sombrias dos filmes de terror, concretiza-se um exercício dessa mesma vertente, o acto da explosão versus a procrastinação paciente. Mas que exercício é esse? Green Room é definitivamente mais um filme de cerco, personagens encurraladas que a todo o custo tentam sair do enclausuramento, porém, sob a ameaça de monstros. Contudo, estes monstros são mais reais do que aquilo que se pensa … por outras palavras … temos neonazis do outro lado da porta, à espera para nos desmembrar.

 

background_home.jpg

 

Saulnier brinca aos “wannabes” de John Carpenter, replica Assault on Precinct 13 (Assalto à 13ª Esquadra) e prolonga-se para os pontos definidos do subgénero. A corrida contra o tempo faz-se por essa violência tremenda, nem que para isso transforma-se homens em maniqueísmos automáticos ao serviço de um agenda de correcta politica contra esta América Proibida. Se o leitor automaticamente, perante estas palavras, recordou o famoso filme de Tony Kaye onde Edward Norton é uma figura respeitada de um movimento neonazi, não é por menos, a nova obra de Saultner interliga-se moralmente a esse dito produto mainstream. É demasiado “moralista" em relação às ideologias básicas das suas personagens, tornando-se na mais pura evidencia que o cinema norte-americano precisa de uma suástica tatuada no ombro continua para personifica o puro mal. Patrick Stewart, é em todo o caso, o vilão perfeito para se odiar, mas novamente, um embrião de América Proibida (America History X) em força, a traição do líder perante a força ideológica do movimento que lidera.

 

960.jpg

 

Contudo, há que prezar algumas tendências bem aprumadas deste Green Room, a urgência de descartar abomináveis criaturas fantásticas para se emergir numa crítica social, por vezes tão totalitarista que os seus mesmos antagonistas. Violência com violência se paga, a enésima catarse da sua animalidade interior, quer com nazis ou não. Enfim, não é a sétima maravilha que se fala por aí.

 

Filme visualizado no 9º MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Jeremy Saulnier / Int.: Anton Yelchin, Patrick Stewart, Imogen Poots, Alia Shawkat, Mark Webber

 

fDCpcRwECUEISrZkHRehx8ge4BF.jpg

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 01:29
link do post | comentar | partilhar

14.9.15

Knock Knock - Perigosa Tentação.jpg

Brincadeiras (quase) perigosas!

 

Foi numa noite tempestuosa quando duas beldades bateram à parta de Evan Webber (Keanu Reeves), um devoto esposo e pai de família, pedindo auxilio e abrigo. Para Webber, o difícil foi dizer que não, vergado pelo espírito solidário, mas também de macho dominante que aproveita a situação para seu perfeito jubilo. Contudo, esta decisão trará consigo consequências inimagináveis.

 

15347-2-1100.jpg

Curiosamente, Knock Knock, a refilmagem do quase desconhecido Death Game, de Peter S. Traynor, arranca como uma fantasia masculina para dar lugar a uma "home invasion" com mais tendências à vaga fermentada por Funny Games, de Michael Haneke, do que propriamente com a matéria original datada de 1977. Eli Roth demonstra mais uma vez que é um conhecedor das matrizes e códigos do género de terror, uma evidência vistosa com as claras reviravoltas que uma intriga aparentemente simples converte-se.

 

knock-knock-keanu-reeves.jpg

Porém, o realizador exibe outro dote, o da ousadia. É que esta invasão doméstica, claramente doseada com um certo humor negro, é instalada como uma alusão social em defesa dos homens enquanto seres facilmente puníveis pelo sistema de justiça e pelo senso comum. Isso, rebeldia em pessoa, frente a uma imensa onda politicamente correcta e a crescente preocupação por parte do cinema norte-americano em dar voz à luta pela igualdade social das mulheres. Nesse sentido, Roth parece ter aprendido com David Slade e o seu curioso - mas não suficientemente capaz - Hard Candy. Mesmo com análises críticas por parte de um realizador que está pouco "marimbando" para opiniões alheias, Knock Knock sustém por influências dignamente trash, nunca cedendo ao espectáculo sério que os grandes estúdios tentam a todo o custo lançar, nem com aspirações para ser o próximo "big thing" do género, tal como fora, por exemplo, o seu díptico Hostel.

 

knock-knock-image-3.jpg

Por outro lado, há que aplaudir Roth de conseguir, num só filme, extrair em Keanu Reeves expressividades raramente vistas no cinema por parte deste. É óbvio que a estrela de Matrix não nos brinda com um desempenho digno de Óscar ou de um registo pintado sob tinta permanente, porém, funciona na perfeição como a representação masculina requisitada para o filme.

 

"Death? Death? You're gonna kill me? You're gonna fucking kill me? Why? WHY? Because I fucked you? You fucked me! You fucked ME! You came to MY house! You came to ME! I got you a car, I brought you your clothes, you took a fuckin' BUBBLE BATH! You wanted it! You wanted it! You came on to me! What was I supposed to do? You sucked my cock, you both fucking sucked my cock! It was FREE PIZZA! Free fuckin' pizza! It just shows up at my fuckin' door! What am I supposed to do? "We're flight attendants. Come on, fuck us! No one will know. Come on, fuck us!" Oh, twosomes, threesomes. It doesn't matter! Starfish! Husbands! You don't give a fuck, you'll just fuck anything, you'll just fuck anything! Well, you lied to me, I tried to help you! I let you in, I was a good guy, I'm a good father! And you just fucking fucked me! What? Now, you're gonna kill me? You're gonna kill me? Why? Why? 'Cause you fucked me? What the fuck-FUCK-FUCK, this is fucking insane!"

 

Filme de encerramento da 9ª edição do MOTELx: Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa

 

Real.: Eli Roth / Int.: Keanu Reeves, Lorenza Izzo, Ana de Armas, Aaron Burns

 

18775460_jYNfy (1).jpeg

6/10

publicado por Hugo Gomes às 17:06
link do post | comentar | ver comentários (1) | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

IT (2017)

Cold Hell é o grande venc...

Falando com Roger Corman,...

The Void (2016)

Super Dark Times (2017)

MOTELx 2017: O terror lat...

Alejandro Jodorowsky e Ro...

MOTELx apresenta rubrica ...

MOTELx 2016: The Noonday ...

Sadako Vs Kayako (2016)

últ. comentários
como e que eu vejo este filme não estando ele já n...
Viva Hugo! Boa análise do It. Gosto de ver a críti...
Tudo bem, Hugo? Falando em palhaços :DDê uma olhad...
Finalmente o Donald Sutherland recebe alguma coisa...
Olá, eu assisto todos os filmes neste site https:/...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
2 comentários
1 comentário
1 comentário
1 comentário
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO