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27.7.17

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas.jpg

O progenitor da space opera!

 

Uma adaptação de Valerian em pleno século XXI arrisca-se a repetir os mesmos contornos do anterior flop John Carter. Eis dois filmes que vieram muito depois do seu tempo, projectados numa altura em que a cultura pop e o reino do space opera encontra-se intrinsecamente embebida pelas suas próprias influências (muitas vezes sem ter a percepção que os referencia). No caso da publicação franco-belga, Valerian & Laureline, criado por Pierre Christin, a sua importância serviu de base para muita da “ficção cientifica” hoje tida como fenómeno cinematográfico e cultural, nomeadamente Star Wars, o qual o seu mentor, George Lucas, sempre assumiu ser fã da banda-desenhada e cujas referências o auxiliaram na criação do seu tão amado universo.

 

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Desde a primeira publicação, em 1967, contam-se sensivelmente 50 anos, e Luc Besson, sempre desejoso em converter este legado para o grande ecrã, experienciou tais templantes com o seu Fifth Element (Quinto Elemento, 1997). Sendo um projecto por si arriscado, no seu contexto mercantil (vender space opera fora do conceito Star Wars é uma tarefa quase hercúlea para as audiências estivais), Valerian poderá ser induzido a erro pelas gerações mais novas, o de ser ultrapassado pelos seus descendentes, e equivocamente reduzido a um “frankenstein de ideias”, uma vistosa e histérica criação oportunista. Mas, longe dessa miopia envolvente ao fenómeno Star Wars, que hoje parece ter encontrado os seus piores dias de criatividade com o cunho da Disney, Besson encontra em Valerian mais que o jeito homenagem, o jubilo recorrente à fertilidade de uma imaginação interestelar, como se por momentos o realizador francês propusesse um regresso aos seus tempos de juventude, ao imaginário febril daqueles seus "sonhos molhados” envoltos de naves espaciais e criaturas from outer space, anteriormente apenas possíveis no formato quadradinhos.

 

valerian_and_the_city_of_a_thousand_planets-HD.jpg

 

Se é certo que em Valerian and the City of a Thousand Planets deparamos com a típica produção destinada ao fracasso comercial (nem o orçamento ajuda a contrariar a premonição), é bem verdade que se esperava uma autêntica catástrofe qualitativa por entre galáxias. Toda esse “segurança”, poderemos assim chamar, advém da sua natureza, despretensiosa e ciente das suas inverosimilhanças. Tudo recorre ao estilo de uma auto-paródia, quer com a matéria-prima, quer com a própria filmografia que Besson astutamente brinca nas entrelinhas. Para além de fazer uma constante perpendicularidade com o seu anterior Quinto Elemento, um caso de “pescadinha rabo-na-boca”, onde o filho torna-se o pai e o pai torna-se no seu próprio filho.

 

valerian2.jpg

 

E como é óbvio, 250 milhões de dólares investidos aqui resultam de um visual exuberante que nos remete ao pitoresco e à glória do burlesco criativo. Mas nesse aspecto, Besson é tão próximo de Cameron, tão ligado a esse vínculo tecnológico que suporta a estética do projecto, sempre numa jornada em busca do artificialmente credível, constantemente em confronto com o maior dos seus inimigos – o tempo que nos traz o obsoleto. E é então que o realizador segue os ideais de outro, George Lucas, e o seu paradigma da tela branca, dando asas à criatividade possibilitada pelo CGI e assim adiante, conceber um mundo de raiz. Essa “criação” é nos trazida a largos passos pelos créditos iniciais onde Space Oddity de David Bowie ecoa no profundo espaço, uma montagem de um futuro próximo, atingível daqui a um par de anos, que distancia até dar lugar a este tutti-frutti espacial.

 

Valerian.jpg

 

Enfim, Besson sabe o que faz, apesar do argumento o atraiçoar por diversas vezes e o elenco ser mais apelativo para gerações novas e não os eventuais fãs do original “Valeria & Laureline”, sem com isto negar a química existente entre Dane DeHaan e Cara Delevingne, ou da sedução natural de Rihanna num papel desvanecido de ênfase (vista como uma solução argumentativa que qualquer outra coisa). E como se trata de um filme de Luc Besson, existe sempre a tendência de sermos polvilhados com deliciosos pormenores … e porque não, encontrar no meio deste lunatismo, uma metáfora estrelar ao transgenerismo? Fica o desafio.

 

Real.: Luc Besson / Int.: Dane DeHaan, Cara Delevingne, Clive Owen, Rihanna, Ethan Hawke, Alain Chabat, Rutger Hauer, Benoît Jacquot, Louis Leterrier

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 20:40
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26.8.14
26.8.14

 

Ela vai chegar aos 100%, isso é uma certeza!

 

Nos tempos que decorrem, de Luc Besson não se espera “grande” coisa, muito menos algo alusivamente astuto como se tornou este Lucy. Mas para entender este “out of box” dos blockbusters de Verão deveremos recuar uns valentes anos e afastarmos do cinema. Em 1973, uma equipa de arqueólogos que buscavam artefactos sobre a origem humana na Etiópia, depararam-se com um fóssil de um hominídeo, na altura desconhecido para o Mundo, bastante mais antigo que os fosseis descobertos até então. Semelhante a um chimpanzé, mas com o crânio muito mais desenvolvido, teorizando que este mesmo animal possuiria uma intelecto superior que o do referido primata, os ossos ainda evidenciavam o surpreendente, este animal conseguiria caminhar “erecto”, uma posição que ditou para sempre a evolução do Homem, fazendo com que largássemos as florestas arborizadas e caminhássemos pelas vastas savanas. O leitor de momento estará a perguntar o que de relacionado tem este facto paleontólogo e antropólogo com o filme protagonizado por Scarlett Johansson, bem esse mesmo hominídeo, tendo em conta os ossos da pélvis, era uma fêmea e curiosamente foi baptizada de Lucy. Reza a “lenda”, que na altura da sua descoberta passava na rádio o single Lucy in a Sky with Diamonds” dos Beetles.

 

 

Pois bem, Lucy foi a Eva da Ciência, a primeira Mulher descoberta e a sua relevância para o conhecimento de onde viemos e como chegamos até aqui é crucial. Agora no mundo cinematográfico, Lucy será a primeira mulher, se não personagem, a atingir os 100 % de uso cerebral, regendo por especulações cientificas e pelo bom nome da sci-fy, um ridículo “what if” que surpreendentemente torna-se num produto munido duma inteligência experimental e ao mesmo tempo lúdica. Assim iniciamos com a sequência de um primata a “matar” a sua sede num lago, nesta altura o cinéfilo apanhado de surpresa identifica tal cena com uma similar na incontestável obra-prima de ficção científica de Stanley Kubrick, 2001: A Space Odyssey.

 

 

Porém o leitor já deve aperceber e tendo em conta a longa divagação desta critica que tal animal é Lucy, o dito hominídeo fêmea, o filme encarrega-se mais tarde de identificar a criatura, mas entretanto somo apresentados à nossa Lucy, uma vistosa Scarlett Johansson que nos primeiros minutos tem a difícil missão de entregar uma maleta de conteúdo desconhecido a um sujeito de iguais características numa redacção de hotel em Taiwan (a “piscar” os olhos ao mercado asiático). Neste momento o espectador sente que algo não está bem e que depressa acontecerá o inevitável, um dispositivo que nos guie automaticamente ao enredo da fita. Luc Besson aufere assim a expressão a esta inicial sequência, usufruindo de uma montagem intercalar - enquanto que Lucy se aproxima do seu “alvo”, as imagens duma gazela a ser encurralado por uma chita intervêm sem aviso – invocando a memória das experiências executadas pelos cineastas russos de Bolchevique (à memória surge-nos Sergei Eisenstein e o seu Stachka - A Greve, a constante mudança entre conflitos de trabalhadores / autoridades com imagens de matança de um bovino).

 

 

Depois do enredo principal ser então arrancado, Morgan Freeman entra em acção em modo interveniente, situando o espectador à promessa do filme, os ditos controlos cerebrais e suas consequências (ou dádivas). Como é óbvio a narração de Freeman é carismática, confortante e acima de tudo sábia, ele é o gamekeeper deste ensaio futurístico e é com ele que se inicia a contagem crescente ao propósito do filme. Escusam de negar, a verdadeira intenção de Lucy foi apresentada muito antes de ser visualizado, quer no poster ou trailer, as condições de contrato deste novo produto de Besson é visualizar um exercício de possibilidades e nada mais, a chegada dos 100% e a criação quase “shelleana” que se gerará. Scarlett Johansson vagueia por essa mesma jornada, a demanda pelo conhecimento tal como a “primitivaLucy deu aos estudiosos em 1973. A capacidade de assistir ao próximo passo da evolução humana. Obviamente que tudo não passa de uma sugestão cinematográfica ou da teoria do mais fértil e imaginativo geek, mas o filme sabe “controlar” essa vertente e com isso um espectáculo visual e por vezes narrativo.

 

 

E em segundo plano são convocados todos os elementos dignos do já estabelecido cinema de Luc Besson. Os tiroteios, lutas corpo-a-corpo, perseguições e como não poderia faltar, uma França vista pelos olhos dos americanos, ingredientes que tão bem sabem à “reinvenção bessiana”, mas em doses menores e facilmente doseáveis que as obras anteriores. Mas Lucy prevalece como uma “ovelha negra” dentro desse mesmo rebanho, um previsto videoclipp que acaba por se tornar numa vistosa e desafiante fantasia científica. Por fim vale a pena salientar Min-sik Choi, visto no excelente Oldboy de Chan-wook Park, um arrepiante e magnético “vilão de serviço”, um complemento frenético com uma sedutora e fria Johanson.

 

"Life was given to us a billion years ago. Now you know what you can do with it."

 

Real.: Luc Besson / Int.: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Min-sik Choi, Amr Waked

 

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 23:40
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