Data
Título
Take
23.11.16

bac-2.jpg

Premiado com o Prémio de Realização na 69ª edição do Festival de Cannes, Cristian Mungiu apresenta Bacalaureat (O Exame), a sua última obra que remexe novamente em consciências morais e em fantasmas do regime de Ceauseascu. O filme, novamente rígido na sua natureza replicada de realismo, chega às nossas salas após uma passagem pelo Lisbon & Estoril Film Festival. O Cinematograficamente Falando … teve o prazer de falar com um dos grandes nomes da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno.

 

Como surgiu o argumento deste O Exame?

 

Foi uma combinação de vários temas. Durante algum tempo estava determinado em fazer um filme sobre o "envelhecimento", aquele que só acontece quando olhamos para trás e apercebemos que esse mesmo passado não nos agrada, assim encaramos o futuro com outro objectivo. Na altura, não encontrei automaticamente a história certa.

 

Em simultâneo, reflectia sobre a paternidade, a educação, nas minhas crianças e foi então que me surgia em mente, questões como: "o que posso dizer aos meus filhos sobre a sociedade que vivemos? Qual o tipo de futuro que queremos para elas e pode ser proporcionado?" Depois, procurei a melhor forma de expor a sociedade actual, uma relação que compromete-se através de uma sociedade corrosiva. Todos estes temas borbulhavam na minha cabeça, a partir daí decidi combiná-las num só filme, porém, como não tinha a narrativa nem a temática escolhida, peguei no meu computador e lancei-me numa pesquisa por inúmeros artigos de acontecimentos que marcaram a nossa sociedade nos últimos 5 anos.

 

Foram notícias, jornais, revistas, o qual rabisquei, cortei e colei, até conseguir criar um argumento que falasse de todos esses problemas sociais e que tivesse uma certa ligação real, mas que não fosse totalmente baseado em factos verídicos. Como tal nasceu O Exame, um filme que fala sobre o futuro, o crescimento e as nossas próprias decisões.

 

bacalaureat.jpg

 

Bacalaureat

 

É possível educar as nossas crianças com uma educação diferente daquela que obtivemos?

 

Não sei, foi graças a essa questão, pelo qual, eu fiz este filme. Através desse dilema tentei fazer com que O Exame me respondesse. Será possível que o Mundo mude através de uma nova geração, sabendo que essa mesma é educada pelos mesmos ideais e valores de uma geração anterior? Sinceramente, não sei. Só sei que tal não é racional, para o Mundo realmente mudar, era preciso que essa nova geração afastasse dos seus antecessores, teria que haver um espaço ininterrupto que pudesse quebrar a corrente. Quando falo nisto, não digo que devemos negligenciar os nossos filhos, não, teríamos que sim educá-las consoante o mais adequado para uma eventual mudança, e não para o que achamos correcto. Obviamente que com isto não quero afirmar que sou um mau pai, porque uma coisa é fazer da maneira mais racional possível, a outra é comprometer as nossas ligações emocionais com as pessoas que mais amamos.

 

Penso também que fiz este filme sobre as pessoas que são incapazes de lidar com as situações de forma racional, que se deixam levar pelas emoções. Até porque não somos personagens, somos seres humanos que dificilmente acreditamos ou questionamos aquilo que nos acontece em vida.

 

castigatori_cannes_2016_cristian_mungiu_actori_bac

 

Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus e Cristian Mingu

 

O Exame, é no geral, uma reflexão sobre os limites da paternidade?

 

Sim, pode ser um filme sobre os limites da paternidade, sabendo que com a paternidade surgem vários dilemas, muitos deles, não com as respostas correctas. Sabes, por vezes é fácil, enquanto pais, causar danos às nossas crianças, mesmo que isso não seja totalmente intencional, como o encarar a sabedoria como algo hereditário, que passe de geração a geração. É evidente que mesmo com a educação atenta dos nossos pais, praticamos as nossas próprias decisões e cometemos os nossos próprios erros, mas é ao tornar-nos pais que afrontamos a ideia de que podemos realmente moldar os nosso filhos consoante a nossa "educação", ou seja, acabamos por cometer os mesmos erros que os nosso pais, e assim sucessivamente. É uma corrente.  

 

Educamos as nossas crianças tendo como base a educação que os nossos pais nos deram, chegando mesmo a afirmar as mesmas afirmações que os nossos progenitores proclamaram certo dia. Pensamos "nem acredito que estou a dizer isto?". Obviamente, que também pensas como seria bom que as coisas acontecem desta maneira, mas ao mesmo tempo sabemos que não vai seguir o previsto.

 

Se nós estamos a preparar as crianças para a vida real, temos que parar com o habitual discurso moralista de "não mentir", "não roubar", "não trair", "não pisar os outros", esses moldes de doutrinas são, de certa maneira, vistas como ideais de um "falhado nesta sociedade", por outro lado, ensiná-las a ser lutadoras poderia, de certa forma, alterar essa mesma. Mas isso cabe a nós decidir, quais são os verdadeiros limites da paternidade. Conforme seja a nossa decisão, andamos de "mãos dadas" com as alterações da nossa sociedade.

 

bacalaureat-3.jpg

 

Bacalaureat

 

Em O Exame, ficamos com a sensação de que a corrupção, por mais pequena e involuntária que seja, é um acto profundamente natural do Homem moderno.

 

Para responder a essas questões, eu cito inúmeras vezes a realidade, sem necessariamente julgá-la, nem explicá-la por demasiadas palavras. Mas julgo que essa corrupção é muitas vezes confundida com o compromisso, uma espécie de mecanismo de sobrevivência, uma adaptação aos obstáculos que nos surgem, mas ao mesmo tempo, quando somos pais, temos que carregar este "fardo". É essa a diferença do mundo idealista, aquele, pelo qual, preparamos a nossa criança, e o mundo real.

 

O filme tenta investigar aos poucos esta relação, gradualmente aborda as causas da complexidade deste fenómeno [corrupção], que é algo tão fácil de julgar. O Exame diz que nem tudo isto é errado, até porque quando queremos ajudar alguém ou até mesmo combater um regime, praticamos estes actos "imorais", no entanto, os encaramos como uma espécie de luta, até porque as nossas intenções são boas. Nos dias de hoje, o regime já não é mais o inimigo número um, ao invés disso, nós é que nos tornamos a grande ameaça. Nós é que redefinimos os limites da nossa consciência moral.

 

De regresso à sua questão, julgo que as pessoas encontram-se desapontadas devido à dificuldade, ou quase impossibilidade, de mudar algo. As coisas são o que são, e é preciso imensa energia para uma pequena mudança. Quanto à mudança total, é quase "o impossível", que é apenas resolvida com soluções colectivas. O filme refere bastantes essas divergências entre decisões individuais, aquelas que fazemos para nós ou para a nossa família. A imigração é um bom exemplo sobre soluções individuais. Todavia, é necessário existir as ditas soluções colectivas, se não, o "barco" naufraga.

 

000_aw69d.70d84142635.original.jpg

 

Cristian Mingu

 

O Exame entra em paralelismo com um êxito seu, 4 Months, 3 Weeks and 2 Days onde um especifico evento abala e altera toda a personagem. É este o seu modo de narrar as suas histórias, pegar em acontecimentos que drasticamente marcam as suas personagens?

 

Não sabemos o que vai acontecer a estas personagens após o desfecho do filme. Quem sabe? Sim, eu pego em eventos drásticos que as suas personagens vivem, mas se estas vão mudar a conta disso, sinceramente, não sei responder. Julgo que isso não acontece muito na vida real e penso que nós próprios não mudamos assim tanto, mas é com as experiências que aprendemos algo. Algo sobre a vida, sobre si mesmo, sobre a situação, sobre a sociedade, até mesmo de integração. Mas julgo que tal não nos altera em longo termo, ao invés disso, algo morre em nós, perdemos algo muito próximo, e compreendemos que vivemos uma vida, e ta evento poderá ser importante, mas que só durará 3 dias, e depois regressas à tua vida.

 

Por isso, não sei realmente o que vai acontecer a estas personagens, mas o espectador deve entender que eu falo sobre as suas respectivas vidas reais. Por vezes, chegamos a entender o que vivemos através de vidas encenadas no grande ecrã.  

 

No final das sessões dos meus filmes, mais concretamente nos QaA, ouço imensas experiências vividas pelos espectadores. Ou seja, eles, de certa maneira, identificam-se com o que está retratado. É por essas e por outras que existe o Cinema.

 

4-Months-3-Weeks-And-2-Days.jpg

 4 Months, 3 Weeks and 2 Months

 

Então é, em derivação dessa aproximação, o motivo pelo qual os seus filmes deverem muito ao realismo?

 

 

Faço esse estilo, porque é a minha definição de Cinema. Porque acredito que o Cinema pode ajudar, não só, a conhecermo-nos, mas também a entender os outros, as nossas vidas, o nosso redor, e para isso temos que praticar um Cinema mais vinculado no realismo, apesar da vida real não ser tão espectacular, nem entusiasmante.

 

E ao seguir esse mesmo estilo, temos que ponderar alguns artifícios bem valiosos no Cinema, um dos exemplos é a edição. Na vida real não há edição, por isso, o meu Cinema tem que possuir o menor uso desse mesmo artificio, toda a cena deve ser filmada num só take. Outro exemplo é a música, não existe bandas sonoras na vida real, tal não poderá existir no meu Cinema. O que tento fazer é captar a emoção através da situação, é uma tarefa árdua, eu sei, sem a utilização desses artifícios, mas é sim que pretendo continuar a fazer Cinema.

 

As edições rápidas, as músicas que entram e saem, as cenas de acção, são tudo factores sedutores. Principalmente para quem deseja fazer entretenimento. Para os meus filmes que falam sobre as vida das pessoas, não pode existir esses meios de manipulação. Para tal, tenho que abdicar desses mesmos artifícios narrativos.

 

Por vezes eu sinto que os meus filmes adquirem um certo padrão de thriller, mas isso é a forma com que sinto em relação à vida. As pessoas estão cada vez mais stressadas, angustiados e decepcionadas.  

 

graduation-bacalaureat-cristian-mungiu.jpg

Bacalaureat

 

É complicado filmar tudo num só take?

 

Por onde devo começar. Primeiro analiso e escolho a luz, abordo a cena e tento ver qual o ângulo que a filmar, atesto através da perspectiva que anseio contar esta determinada acção. Penso num cenário, durante a escrita, e procuro algo que corresponda ao imaginado. Se não encontro, construo-o. Obviamente que aquilo que imaginas não se aproxima da realidade, mas enquanto não houver mais nada a fazer, adaptas.

 

Depois trazes a equipa técnica, que trazem equipamentos de variados tamanhos e feitos. O Cinema é um processo bastante técnico que parece criativo. A partir daqui, posicionamos todos nos seus devidos lugares, apontamos a câmara para o ângulo desejado, e os actores decoram os seus diálogos e gestos em cenas de 10 a 15 minutos, pelo qual devem efectuar na perfeição. Todo este processo, só numa cena, demora … deixa lá ver … 20 a 40 takes.

 

É cansativo, complicado e no final do dia sentimos absolutamente exaustos, mas igualmente realizados. Todos os dias acabo por falar com cada um dos membros da minha equipa, encorajando-os para mais um round ou reparando certos pormenores. Todo os dias é uma luta, se não conseguimos filmar mais que uma cena num dia, tudo bem, alteramos o  cronograma, e recomeçamos no dia seguinte. Eu consigo fazer isto, até porque sou o produtor dos meus próprios filmes, o que me dá o direito de usufruir esta liberdade.

 

tales_from_the_golden_age_3.jpg

Tales from the Golden Age

 

Quanto a novos projectos?

 

Não falo sobre novos projectos, porque nunca tenho novos projectos. Penso demasiadas vezes nos meus filmes, naquilo que fiz bem, no que correu não tão lindamente, no que foi importante referir ou o que precisa ser referido. Mas também penso nas pessoas, mais concretamente naquilo que as deprime, que as deixa angustiadas. Tento compreender as suas naturezas, as suas causas, e em consequência disso, por vezes, acabo de encontrar o filme certo, o ritmo certo e a história certa.

 

Muitos pensam que tudo se resume a direcção, mas para mim o mais relevante é o argumento. Procuro sempre o tópico, o tema e como o abordar, e como deve ser abordado.

 

08BEYOND1_SPAN-jumbo-v2.jpg

Beyond the Hills

 


publicado por Hugo Gomes às 20:36
link do post | comentar | partilhar

20.11.16

Infância de um Líder.jpg

"De pequenino torce o pepino!"

 

O actor de 26 anos, Brady Corbet, joga de "cabeça" para a cadeira de realização e a sua proeza de transmitir os elos comuns entre as diferentes infâncias de ditadores é por si, um acto de tirar o chapéu. Esta sua primeira longa-metragem é um perfeito exemplo de como o terror é um género mestiço, sem idiossincrasias que o podem identificar num "só estalo". Com claras influências de The Omen: O Génio de Mal (Richard Donner, 1976) e de Rosemary's Baby: A Semente do Diabo (Roman Polansky, 1968), The Childhood of a Leader (A Infância de um Líder) é um corte dramático que transmite uma atmosfera em total sufoco, onde a tragédia é já uma premonição real e profetizada, e nela as personagens lutam ao sabor dos ventos de mau agoiro para contornar tal marcante destino.

 

childhoood-of-a-leader-2015-002-tutorial-two-shot.

 

Uma criança de perigosos ideais, sob um evidente rancor e golpes vingativos em pleno crescimento no seu intimo, Brady Corbet dirige Tom Sweet (o nome revela-se numa paródia jocosa à sua personagem), que maneja todo este ódio na criação de um "pequeno monstrito" em ascensão para uma ameaça global. No centro deste ódio proeminente, encontra-se Bérénice Bejo num papel que partilha a mesma repudia que a personagem de Sweet, esclarecendo que em cada "psicopata" existe uma ligação umbilical com a sua matriarca. O confronto entre as duas forças faz-se sentir numa narrativa dilacerada em capítulos recorrentes a "birras". O ringue está montado, o espectador é o testemunho desta "origem" maldita com livre inspiração num conto de Sartre, que nos transporta para um ambiente de negligência afectuosa e disfuncional, o berço de um perverso "pensador", que analisa cuidadosamente a sua insaciável vedetta.  

 

1808.jpg

 

Se por vezes a câmara de Corbet revela genialidade com tendências suicidas (existe um dilema à lá Antonioni na sua sequência final, onde esta parece ser autónoma do seu manejador), é na banda sonora composta por Scott Walker que se contrai todo essa suspeita crescente. Apesar da "burguesia" envolto desta infância, tendo em conta que os grandes ditadores e infames lideres não obtiveram tais condições nos seus "verdes anos", A Infância de um Líder é,  apesar disso, uma das mais entusiasmantes e corajosas conversões de realização vista nos últimos anos. Corbet foge a "sete pés" do destino marcado dos actores convertidos a directores e sustenta um filme verdadeiramente assombroso, e o refere da forma mais sugestiva e misteriosa possível.

 

Real.: Brady Corbet / Int.: Tom Sweet, Bérénice Bejo, Robert Pattinson, Liam Cunnigham, Stacy Martin

 

childhood-of-a-leader.jpeg

 

8/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 15:10
link do post | comentar | partilhar

16.11.16

História Americana, Uma.jpg

Todo o cinema é político!

 

Ewan McGregor junta-se à mesma mesa dos actores convertidos a realizadores e ceia através de uma ambiciosa operação de adaptar o romance de Philip Roth, American Pastoral, vencedor de um Pulitzer. É certo, que existe um preconceito, se não antes uma precaução, em relação a estas passagens para o outro lado da câmara, que diversas vezes obtiveram resultados "mais ou menos" desastrosos como Brown Bunny, por Vincent Gallo, e Lost River, de Ryan Gosling, para dar alguns exemplos.

 

maxresdefault.jpg

 

Mas, McGregor, mesmo não deslumbrando, não cede ao desastre egocêntrico e consegue um agradável ensaio de classicismo cinematográfico. O actor / realizador é o protagonista desta história que remexe em consciências obscuras de uma América em extrema rebelião, captando temáticas pouco períodos ignorados como o activismo The Weather Underground, ou do extremismo liberal que em paralelo com a sua oposição, adquirem tons de gravíssimas perturbações de percepção moral. Aliás, como refere a personagem de Dakota Fanning (ressuscitada das sombras, mas não na sua total forma) a certa altura deste enredo de gerações, "a Politica está em todo o lado, até mesmo lavar os dentes é um acto politico".

 

363888.jpg

 

É sabido que o cinema adquiriu a sua faceta politica no preciso momento em que aprendeu a narrar, se já os irmãos Lumière criaram ensaios de tal conotação?  Todo o acto é politico, até o mero entretenimento pode ser visto numa igual vertente. Em relação a American Pastoral, existe uma clara evidência de McGregor disfarçar a politica deste seu cinema com uma emoção vinculada nos desempenhos das suas personagens, porém, sobra-nos uma réstia de impressão nesta busca pela verdade negada.

 

AP_D06_02393.jpg

 

American Pastoral evita o território do thriller que por ventura poderia gerar, assume tons caricaturais do seu tempo descrito para integrar-se precisamente no foro sentimental desta família desfeita (perfeita aos olhos de fora, mas em "cacos" pelos olhos "de dentro"). Contudo, esta emocionalidade poderia tomar proporções furtivas se Ewan McGregor conseguisse controlar a durabilidade do momento, não cedendo aos fade outs estéreis, nem abraçar inteiramente a arte clássica de fazer cinema em Hollywood, que já soa como um guia "para totós".

 

american-pastoral.jpg

 

American Pastoral pode não ser a adaptação perfeita do prestigiado bestseller, mas adquire tudo menos o efeito de desastre. Provavelmente temos em Ewan McGregor um sólido realizador. Veremos se este não será a sua única experiência no ramo. 

 

Real.: Ewan McGregor / Int.: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Rupert Evans, Valorie Curry, David Strathairn

 

t-american-pastoral-ewan-macgregor.jpg

 

7/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 19:50
link do post | comentar | partilhar

15.11.16

Animais Nocturnos.jpg

Será Tom Ford um homem singular?

 

Aviso desde já, que este não é A Single Man, o filme que marcou a estreia do estilista Tom Ford na realização, um ensaio poético sobre a perda dirigido por um Colin Firth na sua melhor forma. Sim, uma obra inesquecível, onde Ford provou capacidade para induzir-se numa carreira cinematográfica, visto que conseguiu evitar, no seu primeiro filme, os erros que muitos cometeriam à primeira.

 

nocturnal-animals-amy-adams-image.jpg

 

Com Nocturnal Animals (Animais Nocturnos), a perda já lá vai, contudo, é o ensaio de uma infelicidade “bovariana” que perdura neste cheesecake cinematográfico, um filme de duas camadas que exorciza fantasmas que o próprio Tom Ford interage, simultaneamente invocando um medo quase irracional a uma América cosmopolita e burguesa, que tal como os créditos inicias indicam, viventes de um país de excessos. Amy Adams, destroçada e vencida pela melancolia, é uma dona de uma galeria de arte que descobre que mesmo tendo tudo ao seu alcance, a sua vida é um mero vazio. Esse vácuo é perpetuado até certo ponto que recebe um romance escrito pelo seu ex-marido. Perdida nas insónias que teimam não a deixar, a personagem de Adams arranca numa leitura a este livro misterioso, o que encontra é uma intriga de vingança e de impotência que parece, gradualmente, confundir com a sua vida em ruínas.

 

screen-shot-2016-09-15-at-8-49-48-am.png

 

O expoente estético de Ford é uma meticulosa arte de engano e desengano, até porque a “beleza” fingida de Animais Nocturnos disfarça a sujidade formal exposta na sua segunda camada do filme, a ficção por detrás da ficção, onde Jake Gyllenhaal é um homem duplamente perturbado, pela desilusão de um homem fraco e indefeso que habita no seu ser até à sede insaciável de vingança que parece alimentá-lo furtivamente. As duas camadas, tão diferentes como água e azeite interpõem-se uma à outra, sucessivamente, e aí que entra a maior falha de Tom Ford neste segundo produto, a ficção ficcionada é mais interessante que a história primária, e o pior é que sentimos que não foi preciso muito esforço para o conseguir.

 

image.jpg

 

Sim, sabemos, Tom Ford quis explorar o vazio do mundo de aparências que o próprio intriga, mas é incapaz de tecer a crítica apropriadamente, mas pelo menos, faz melhor figura que Nicolas Winding Refn e a sua passerelle que fora The Neon Demon, simplesmente porque não cede à provocação fácil, tentando encontrar nos seus becos sem saída, uma eventual escapatória. Como cúmplice desta artimanha montada, está o elenco que consegue descolar dos bonecos que o próprio insuflou, nesse contexto as nossas atenções vão para Michael Shannon, um peixe dentro de água, cujas movimentações levam Gyllenhaal aos seus picos de indecência emotiva.

 

header1-4.jpg

 

Voltando ao ponto inicial, não temos aqui um A Single Man, infelizmente, Ford parece ter tremido por momentos, mas não o suficiente para ceder à pressão. Ele constrói um filme de camadas, como já havia sido referido, e a gosto, coloca o seu “quê” de sugestão. O final inesperado que atraiçoa o espectador e a catch phrase, “um romancista escreve sobre ele próprio”, a persistir após o desfecho dos créditos. Afinal, há aqui margem para explorar!

 

"When someone loves you, you have to be careful with it!"

 

Real.: Tom Ford / Int.: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer, Laura Linney, Karl Gusman

 

noct.jpg

7/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 23:52
link do post | comentar | partilhar

14.11.16

Divã de Estaline.jpg

O homem que a História quer esquecer, mas o Cinema quer cobiçar!

 

Num determinado momento de Le Divan de Staline (O Divã de Estaline), uma fotografia do verdadeiro líder soviético é gradualmente sobreposta por uma imagem da personagem homónima encarnada por Gérard Depardieu. Não existem muitas semelhanças entre os dois (o real e o da ficção), mas somente a vontade de recriar e trabalhar a História, tirá-lo do seu estatuto imaculável e intocável, e fazer o Cinema exercer-se como um poço de criatividade em vias de exploração.

 

stalin-s-couch.jpg

 

O homónimo livro de Jean-Daniel Baltassat (uma perspectiva freudiana a uma das figuras incontornáveis da nossa História) é transportada para o grande ecrã pelas mãos de Fanny Ardant, a emblemática actriz que teima em deixar a sua marca como realizadora. A sua terceira longa-metragem vem inicialmente evitar os "becos sem saída" e o pedantismo "farsolas" de Cadências Obstinadas (Cadences Obstinées). Onde antes havia vazio emocional, agora há um outro sob o desejo de ser preenchido, como uma tela aguardando pelas suas cores. É nesse aspecto que o filme vem ganhando a sua devida forma. Assume-se então uma representação de um pedaço de História vencida, onde o teor psicológico aventura-se acima da veracidade dos factos.

 

490239.jpg

 

Há um regresso à ritualidade de Cinzas e Sangue (Cendres et sang), aquele fascínio pela plasticidade do organismo fílmico e a aspiração pela arma mais potente do teatro: a sua recorrente imaginação, aquele "faz-de-conta" na recriação. Talvez seja por isso que Depardieu funciona simbioticamente como uma alternativa estalineana, mais do que as vestes camaleónicas que um qualquer biopic de Hollywood tentaria culminar.

 

img6.jpg

 

Neste universo, o actor é o perfeito Estaline, numa versão que anseia respirar a breve emancipação. Um homem frio, calculista, inteiramente regido às ideologias criadas por ele próprio e estabelecidas no seu regime, um reinado com tamanho medo. O líder soviético espera aqui o seu momento de fragilidade, a desmistificação dos métodos de Sigmund Freud - a psicanálise - que o próprio considera charlatanices igualmente competentes que "roubam segredos a burgueses ricos" do outro lado da Europa. As sessões improvisadas, ensinadas no momento, servem de catarse para a desconstrução dessa mesma personalidade.

 

img8.jpg

 

Em contracampo, surge Emmanuelle Seigner como Lídia, a referida improvisada "psicanalista", a mulher "privilegiada" no seio afectuoso de Estaline, encarada como uma "ponte quebradiça" entre a emocionalidade resgatada do seu líder. As duas figuras constituem dois vértices de um triangulo formado por ódio / amor / medo, completado pelo pintor Danilov (Paul Hamy), um artista reprimido por uma expirada inspiração. Mas este triângulo é isósceles, dois lados servem como "sessões" de teor psicanalista a uma só figura, e a esta altura o leitor já se apercebeu qual sai beneficiada neste registo.

 

stalin-s-couch (2).jpg

 

Mesmo que a psicologia não esteja no ponto(uma ciência não exacta neste filme) é indiscutível o passo em frente que Fanny Ardant dá na sua carreira de direcção. O Divã de Estaline, é até à data, a sua obra mais completa, concisa e sobretudo, cinematográfica. Acreditando que o Cinema é uma arte de criação desprovida de rédeas, eis a minha saudação a Madame Ardant!

 

Filme visualizado no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Fanny Ardant / Int.: Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Paul Hamy, Joana de Verona

 

stalin-s-couch (1).jpg

7/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 18:42
link do post | comentar | partilhar

14.11.16

Até Nunca.jpg

Um trabalho de actriz!

 

Benoît Jacquot não é necessariamente o realizador agressivo que o Cinema necessita, a sua passividade tem vindo a tornar-se, de certa maneira, uma rédea que o encurta de explorar psicologicamente e atmosfericamente as suas personagens. Como tal, esta adaptação de uma das obras mais exquisite de Don DeLillo, Body Artist, foi visto inicialmente como um projecto arriscado e demasiado ambicioso para os dotes de Jacquot. A merecer a bênção do próprio escritor, que supervisionou esta co-produção luso-francesa de Paulo Branco, e a protagonista, Julia Roy, a revelar os seus “truques” no argumento e na construção autodidacta da sua personagem, À Jamais é uma surpreendente nova faceta de um realizador em vias de penetrar territórios nunca antes explorados pelo próprio. Porém, não a sua total entrega carnal.

 

4.jpg

 

A intriga, cenicamente transladada a Portugal, leva-nos a Laura (Julia Roy), uma artista performativa que terá que lidar com o suicídio do seu companheiro (Mathieu Almarich). De forma a lutar contra a perda e a constante saudade que a sufoca, Laura utiliza o seu método artístico para mimetizar os movimentos, os gestos, o dialecto, as rotinas, mais concretamente “ressuscitar” mentalmente o seu amor como um método freudiano enviusado em "mitologia" de Mary Shelley tratasse.

 

ngVdnP1.jpg

 

Não existe um cadáver, uma entidade física onde uma vida pode ser devolvida de forma lazariana, abundam sim, as memórias, e a força destas que são “armas de apelo” da nossa protagonista, “barricada” na casa do seu ente querido, aguardando por fantasmas. Benoît Jacquot filma um trabalho de concepção de uma artista, o método invocado e elaborado como uma manifestação emocional, um saudosismo pesaroso pelo qual Julia Roy espelha no grande ecrã.

 

594471.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

À Jamais vive da actriz, vive do seu trabalho, da sua dedicação, e é nessa força que o espectador contempla, por fim, a fraqueza de Benoît Jacquot por detrás das câmaras, a referida passividade. O realizador revelou que não interferiu no desempenho de Roy, dando a liberdade para a sua criação. O resultado desta saudação à protagonista, é um ensaio psicológico que manifesta e expande para a além da sua atmosfera, mas a isso, devemos inteiramente a Laura Roy.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Benoît Jacquot / Int.: Laura Roy, Mathieu Almarich, Jeanne Balibar, Victória Guerra

 

0.jpg

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 17:12
link do post | comentar | partilhar

13.11.16

last-family-locarno.jpg

The Last Family torna-se no grande vencedor da 10ª edição do Lisbon & Estoril Filme Festival. O filme do polaco Jan P. Matuszynski conquista o Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre, enquanto que The Sand Storm, de Elite Zexer, recebe a menção honrosa. O júri da Competição Oficial foi composto pelo cineasta Jerzy Skolimowski, que foi homenageado no festival, as actrizes Marthe Keller e Valentina Lodovini e o artista visual André Saraiva.

 

O mais recente trabalho de Paul Verhoeven, Elle, que tem arrecadado elogios por onde passa, foi o escolhido pelo público para o respectivo Prémio. Em relação às curta-metragens, The Sleeping Giant, de Laura Samani (Centro Sperimentale de Cinematografia, Itália), triunfa o Prémio, enquanto  que Paul Est Là, de Valentina Maurel (INSLA, Bélgica), recebe uma menção honrosa. O júri era composto pelos realizadores Daniel Rosenfeld e Lola Peploe e pelo actor Stanislas Merhar.

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 20:54
link do post | comentar | partilhar

Belos Dias em Aranjuez.jpg

O cinéfilo limitado e o Wim Wenders recuperado!

 

Qualquer cinéfilo que se preze é incapaz de conformar com as descrições de “arte menor”, ou “não arte”, assim como “mero entretenimento de feira”, o qual são dirigidas ao Cinema em geral. O verdadeiro cinéfilo nega, com todas as suas forças, a franqueza e simplicidade face em comparação com as outras artes. O cinéfilo é impuro, por vezes limitado à sua verdade, mas em isso do que desprezar o amor pela Sétima Arte e nunca abandoná-lo à sorte do menosprezo artístico. E se para muitos o Cinema não possui a profundidade da literatura, o uso imaginativo do “faz-de-conta” do teatro, a contemplação divina e quase artesanal da pintura, ou a monumentalidade da arquitectura, para o cinéfilo é nada mais, nada menos, que a fusões de todas essas plataformas artísticas, o filho bastardo que aos poucos toma o seu lugar.

 

les-beaux-jours-d-aranjuez.jpg

 

Mas abandonada a oligárquica ideologia de cinéfilo, sabendo que o Cinema não é par para a literatura e à dramaturgia, Wim Wenders aventura-se num extremo jogo “faz-de-conta”, experimentando uma adaptação de uma peça de Peter Handke (o dramaturgo tem um pequeno papel neste filme) para superar as limitações que inicialmente o colocaram. Infelizmente, Wenders cede à “burguesia” de um cinema erudito, tentando sobretudo apoiar-se nos textos que, para sua desgraça, não contrai a poética sonoridade nem os ecos de filosofia citada. Se o cineasta alemão tenta percorrer Eric Rohmer neste seu quadro vivo, esta prova auto-rejeita-se, os diálogos não foram o seu forte muito menos a proclamação destas prosas faladas, despejadas sem a orgânica, nem compostura.

 

fc_7206442aa_420515290216.jpg

 

Porém, Wenders brinca com as dimensões, atropela-se nas plataformas artísticas que ele própria cita e tenta dar luzes a uma fértil amostra imaginativa, uma alusão da criação térrea de uma realidade. Assim, são duas que se embatem e dispersem, vidas artificiais pulsadas pelo toque do seu criador na sua máquina de escrever. Jens Harzer é um Deus para estes seres preenchidos por linhas, mecanizadas nas suas palavras, e é então que o improviso surge, os fatos que alteram a cor consoante a vontade do mentor, as falas que são interrompidas pelas mudanças musicais … e novamente a realidade paralela a funcionar quando entra Nick Cave em cena, a música pode ser o nosso álibi imaginativo.

 

172911.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg

 

Mas o nosso leitor questiona neste preciso momento, do que se trata este "Os Belos Dias de Aranjuez"? A resposta esconde-se por entre estes artifícios manipuláveis, Wim Wenders tenta reinventar o seu cinema, colocando e transcendo das suas limitações enquanto criação visual. Obviamente, que esta nova obra não goza desse statment artístico, pelo contrário este retrocedo a um cinema burguês o coloca na pista donde o seu cinema evoluirá. Tal como o relato de uma das suas personagens, durante uma viagem a Aranjuez, a desilusão o tomou ao ver que a chamada “Casa del Labrador” não passava de um anexo no Parque Real, mas é nas groselhas, outrora domésticas, que adaptaram-se ao assilvestrado do meio, expandido e tomando o lugar das amoras e outros frutos que habitavam nos bosques para além do Tejo. Por outras palavras, Wenders descarta o seu cinema, assume a arte de outro e espera que esta toma a sua forma. Trata-se de cedência para mais tarde evoluir. Esperemos que sim.

 

009969.jpg

 

Contudo, o cineasta alemão tem sido dos poucos que tem associado o 3D ao cinema dramático, “despindo” das suas conotações circenses, porém, faltará uma maior emancipação para que sinta o uso dessa mesma tecnológica.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Wim Wenders / Int.: Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave

 

les_beaux_jours_daranjuez_c_donata_wenders_3-h_201

 

6/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 01:20
link do post | comentar | partilhar

12.11.16
12.11.16

Christine_(2016_film).png

"Suícidio on Live"

 

Antonio Campos repesca um dos episódios mais trágicos da televisão norte-americana - o suicídio em directo da pivô e jornalista Christine Chubbuck - para apurar as causas que levaram esta mulher a cometer acto tão grotesco.

Christine.jpg

 

A composição desta personagem misteriosa deve-se muito a Rebecca Hall que subjuga-se a este tormento psicológico num filme que aposta desde cedo na iminência da catástrofe. Obviamente, que o espectador sabe como terminará esta aventura pessoal, assim como um certo filme de James Cameron que "flutuou" nos box-office em 1997, mas o aqui em causa não é um filme válido pelo seu desfecho, e sim, um episódio recorrido em decadência humana, uma tragédia grega que joga o meta-palco da sua criação.  

 

unnamed.png

 

Campos sempre teve um "fraquinho" por personagens torturadas, absorvidas por um ambiente em total decomposição, assim como o destino destas. Rebeca Hall cria em Christine um derradeiro duelo intrínseco entre uma réstia de esperança, uma salvação que o espectador aguarda desesperadamente, porém, sabendo à partida que tudo é em vão. Sim, este é o tipo de obra que qualquer guia televisivo expõe o aviso do "anti-feel good movie", o cinema que reflecte o quão frágeis nós somos, o quão vitimas somos dos nosso próprios objectivos profissionais, ao mesmo tempo, Antonio Campos dá-nos certas luzes sobre a condição e evolução da comunicação social, em certa parte, a forma como o jornalismo adaptou-se às audiências e não o oposto.

 

1200.jpg

Existe aqui, evidente inspiração aos dotes dramáticos de Network, de Sidney Lumet, à hipocrisia implementada pela "caixinha mágica" e a sua interacção com o exterior. Contudo, como biopic, se é que Christine anseia afirmar-se como tal, o filme tende em afastar-se desses lugares comuns de agenda award season, apostando da ênfase dramática e na criatividade desse sentido nas suas personagens. A depressão é um efeito secundário e o complexo desempenho de Rebecca Hall a principal medida.   

 

"Yes, but …"

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Antonio Campos / Int.: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts

 

christine-2.jpg

 

8/10
tags: , ,

publicado por Hugo Gomes às 15:55
link do post | comentar | partilhar

6.11.16

El-futuro-perfecto.jpg

Perfeito, perfeito … era inovação!

 

Vamos por partes, a esta altura do campeonato, cruzar ficção com documentário, o docudrama que os portugueses tão bem sabem fazer, já não possui ciência nenhuma, muito menos quando os objectivos de um filme como este El Futuro Perfecto não sejam sobretudo claros.

 

el_futuro_perfecto (1).jpg

 

Dirigido por Nele Wohlatz, alemã radicada na Argentina, este é um filme onde a evidente intenção é apresentar a condição do imigrante e demonstrar que mesmo em perseguição de um “better place”, sonham e aspiram por um "futuro perfeito". A língua é também um importante vinculo identitário e até certa altura El Futuro Perfecto aposta nas palavras soltas, ensinadas sob a intenção de sobrevivência e sem um mínimo despejo emocional. Mas também é sob esse tratamento frio e encoberto que nos descortina uma mensagem perigosa e por vezes nacionalista, será que este grupo de personagens que cede à cultura de fora é característica de tamanha inexpressividade, será que uma língua oposta aquela que nós dialogamos as tornam em relativos "humanóides robóticos".

 

el_futuro_perfecto_3.jpg

 

Emoção, é decerto, aquilo que a obra de Wohlatz não ostenta, e como prova dessa falta de interacção humana, empatia é algo que nos falha enquanto espectador. Mas enfim, o que dizer do resto deste exercício de hibridez documental? El Futuro Perfecto esgota a sua virtude experimental em minutos, depois do "I get it", tudo é recorrido para crise identitária por parte da personagem principal, a jovem chinesa Xiaobin, que auto-intitula-se de Beatriz e até certa altura de Sabrina. A rapariga, que entra em restaurantes para poder ler o respectivo menu, em busca de uma ligação carnal com as palavras em dialecto latino, vive um romance imaginário que a coloca no trilho da sua escapatória emocional.

 

el_futuro_perfecto.jpg

 

Essa dita relação é vazia e penosa de assistir, a culpa é diversa, ou os actores (não-actores) não possuem a aptidão de ultrapassar as palavras, ou a realizadora não procurava qualquer foro emocional para não cair no erro de ceder ao telenovelesco. Conforme tenha sido a decisão, este é o romance (se poderemos chamar assim), mais "gelado" dos últimos anos. El Futuro Perfecto fica-se pelo exercício, mas uma experiência vista e revista vezes sem conta. Esperemos que o futuro de Nele Wohlatz soe melhor que isto.

 

Filme visualizado no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Nele Wohlatz / Int.: Xiaobin Zhang, Saroj Kumar Malik, Mian Jiang

 

el_futuro_perfecto_2.jpg

4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:08
link do post | comentar | partilhar

5.11.16

leffest_gala_de_abertura_leffest16_581dab334c752 (

Considerado por muitos, uma das mulheres mais belas do Cinema, Monica Bellucci é uma das presenças de honra deste 10ª Lisbon & Estoril Film Festival. Na sua passagem pelo mediático festival lisboeta, a actriz foi convidada a escolher um filme para apresentar nesta programação, a sua decisão caiu em Málena, o filme de Giuseppe Tornatore o qual interpretava uma mulher que desperta sexualmente um jovem. A representação da musa feminina que leva “bambinos” à fase adulta, é para Bellucci um dos papeis cruciais da sua carreira.

 

Málena foi “importante para o meu processo de trabalho como actriz”, argumenta Bellucci perante a questão da escolha deste filme, “Impulsionou a minha carreira internacional. Enquanto atores, procuramos sempre algo, mas nunca sabemos ao certo o que procuramos. Hoje vejo melhor o que estava a procurar e penso que tenha encontrado na minha experiência em Málena. Existiu aqui algo no meu processo de trabalho.

 

7AnyXIa6M55ZRT7kMvy10umEcD7.jpg

Julgo o que procurava e que acabei por encontrar neste filme foi o poder da feminidade e isso sempre reflectiu na escolha dos meus papeis, pretendia personagens com feminidade, frágeis e igualmente fortes.” Ainda sobre Málena, Bellucci situou o filme e o entusiasmo geral suscitado na altura da sua estreia [no ano 2000] com a indústria cinematográfica italiana, “Sempre tivemos nomes importantes no nossa cinematografia: Sicca, Vischonti, Fellini, mas depois isso perdeu-se, e nesse período interessou-me trabalhar com realizadores de outras nacionalidades, desde a americanos, franceses e até sérvios (risos). Málena, por outro lado, demonstrou que o cinema italiano ainda pode ter visualização global na actualidade”. 

 

Mas Málena não será o único filme presente no Festival com a participação da actriz, em estreia nacional vamos ser presenteados com On the Milky Road, a sua colaboração com o sérvio realizador Emir Kusturica, também em retrospectiva neste evento. Bellucci afirmou que o seu processo de trabalho no filme de Tornatore tem “uma continuidade com On a Milky Road”.

 

milky-road-first-look-option.jpg

 

No filme de Kusturica, a actriz é novamente uma atracção amorosa, mas desta vez para um leiteiro interpretado pelo próprio realizador. “Fiquei maravilhada com o seu talento. Emir Kusturica é um talentoso artista, é realizador, músico, compositor, actor, é um poeta interior, mesmo com a sua aparência algo rude.”Em relação à linguagem, visto que Bellucci fala sérvio em On a Milky Road, a actriz referiu o apoio que teve durante a rodagem, salientado que inicialmente tinha medo de apostar numa língua tão desconhecida para si. “Foi difícil de inicio. Não sabia o que fazer.

 

A actriz, com a sua invejável beleza aos 52 anos, falou com os jornalistas sobre a relevância da beleza nas actrizes, e visto que essa opressão estética esteja a mudar na indústria, “As novas formas de amar uma mulher e actriz. Devemos passar da beleza exterior para a beleza interior.” Sobre o seu confronto com um eventual envelhecimento, Bellucci referiu que “muitas actrizes são belas, mas há que aceitar que a beleza jovial facilmente desaparece e quando isso acontecer temos que aceitar um outro tipo de beleza. A beleza muda e o envelhecimento é por si, belo, e as interpretações vem da alma e não da aparência.

 

SPECTRE-summ-image-xlarge.jpg

 

Como não podia deixar de ser, as questões sobre Portugal e a sua adaptação à capital lisboeta. “A primeira vez que estive em Portugal foi há 14 anos, e automaticamente fiquei apaixonada pelo país, sobretudo pela cidade de Lisboa. Quando fui convidada a fazer um anúncio aqui, mentalizei-me do seguinte, ‘um dia vou comprar uma casa aqui’, e assim foi.” Quanto ao cinema português, revela que “estou na fase de descobrir, mas obviamente, que um dia, se tiver oportunidade, irei integrar um filme português.

 

Monica Bellucci irá fazer parte do elenco da série Mozart in a Jungle, ao lado de Gael Garcia Bernal, sobre o papel da televisão nos dias de hoje, a actriz reconhece o crescimento e a diversidade da aposta, “actualmente, como actriz posso interpretar grandes papeis na televisão, e mesmo assim não ter barreiras para o cinema”. Mas em contradição, diz que a televisão tem limitações e que nunca tirará lugar à Sétima Arte, “acredito que no Cinema, as imagens sobrepõem às palavras. As imagens falam por si.”

 

Mas existe algo certo no futuro de Monica Bellucci, é que a nossa diva do Cinema nunca apostará na realização, palavras suas. “Neste momento tenho um projecto onde serei actriz e produtora, nunca chegarei a realizadora, é uma área que sinceramente não tenho qualificações, nem interesse.”.

 

DHS-_Monica_Bellucci_in_Shoot_Em'_Up.jpg

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.


publicado por Hugo Gomes às 19:30
link do post | comentar | partilhar

4.11.16

hacksaw-ridge-2016-andrew-garfield.jpg

O soldado pacifista contado por Mel Gibson arrancará o 10º Lisbon & Estoril Film Festival, uma edição que apesar de destacar as últimas e aclamadas produções vinda dos maiores festivais internacionais tem como principal foco uma extensa homenagem ao franco-suíço Jean-Luc Godard. Um dos grandes impulsores da Nouvelle Vague, um amante incondicional do Cinema, pronto para construí-lo e desconstruí-lo, tem aqui a sua carreira de 60 anos condensada em somente 10 dias.

 

Mas por enquanto, o primeiro passo do festival se dará com a antestreia de Hacksaw Ridge, a história verídica de Desmond Doss, um jovem que fora recrutado para combater na Segunda Guerra Mundial, mas que sempre recusara matar ou até mesmo pegar numa arma. No final da guerra, foi condecorado inúmeras vezes por gestos de bravura e de sacrifício humano devido às suas extraordinárias tarefas como médico em pleno cenário bélico.

 

hacksawridge_markrogers_d0a9525.jpg

 

Mel Gibson regressa a direcção, dez anos depois de Apocalypto. Acusado diversas vezes de ser explicitamente violento, o realizador decide abordar uma história de um homem ligado à paz, um homem ligado à paz, quer espiritualmente, quer fisicamente, mesmo que o filme recorra sob fortes tons bélico. Andrew Garfield (The Social Network, The Amazing Sipder-Man) foi o escolhido para interpretar Doss, numa prestação que se adivinha chegar às nomeações aos Óscares, assim como o próprio filme que tem sido encarado como a reconciliação de Gibson a Hollywood.

 

Hacksaw Ridge tem estreia prevista para dia 10 de Novembro nos cinemas portugueses.

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui.

 


publicado por Hugo Gomes às 17:10
link do post | comentar | partilhar

13.10.16

Jim_Jarmusch_Photos_03.jpg

Jim Jarmusch estará em Portugal por alturas do 10º Lisbon & Estoril Film Festival para apresentar as suas duas mais recentes obras - Gimme Danger e Paterson. O anúncio seguiu da própria organização, cujo realizador norte-americano irá integrar a lista de convidados do festival, que conta ainda com as actrizes Anna Karina e Nicoletta Braschi, o actor Jean-Pierre Leaud, e o realizador e escritor Atiq Rahimi.

 

É de salientar que Golshifteh Farahani também estará presente no festival, a actriz iraniana célebre pelos seus desempenhos em About Elly e em Body of Lies, de Ridley Scott, é uma das protagonistas de Paterson, ao lado de Adam Driver, sobre um motorista de autocarro que escreve poemas. Enquanto isso, Gimme Danger é uma viagem documental à banda de rock-and-roll The Stooges, de Iggy Pop.  

 

As seguintes sessões apresentadas pelo realizador terá lugar:

 

Paterson 
5ª feira, 10 Novembro, às 22h00 
Cinema Medeia Monumental, Sala 4 


Gimme Danger 
Sábado, 12 Novembro, às 21h30 
Centro Cultural de Belém, Grande Auditório

 

Ver também

American Honey, Elle, Kusturica, muitas novidades no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival!

 


Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui


publicado por Hugo Gomes às 21:54
link do post | comentar | partilhar

11.10.16

american-honey-2016-sasha-lane-shia-labeouf1.png

Depois das confirmadas homenagens a Jean-Luc Godard e Jerzy Skolimowski e ainda a retrospectiva à cineasta portuguesa Teresa Villaverde, eis que é divulgado a programação da décima edição do Lisbon & Estoril Film Festival.

 

Entre os destaques contam-se ainda as retrospectivas a Emir Kusturica, que condensa a carreira do célebre realizador de Black Cat, White Cat,  com algumas das suas obras mais emblemáticas. As homenagens não ficam por aqui, deixando espaço para o realizador e argumentista Pascal Bonitzer e o casal mais sofisticado do cinema mundial, Jean-Marie Straub e Daniele Huillet.

 

a085140a2ecd221c3b6ad78a6926bdd0.jpg

 

Enquanto isso, 14 é o número de filmes que constituirão a secção Competitiva. A concorrer para o grande prémio do certame estão os muito elogiados Elle, de Paul Verhoeven, e American Honey, o primeiro trabalho norte-americano de Andrea Arnold, os polémicos Nocturama, de Bertrand Bonello, e Bangkok Nites, de Katsuya Tomita, e ainda  Kôji Fukada (Harmonium) e Allan Eddine Slim (The Last of Us).

 

Fora de Competição, tudo estará ao rubro com os novos filmes de Mel Gibson (Hacksaw Ridge), Cristian Mungiu (Graduation), Jim Jarmusch (Gimme Danger, Patterson), Wim Wenders (Les Beaux Jours d'Aranjuez) e ainda a muita esperada segunda longa-metragem de Tom Ford (Nocturnal Animals).

 

O 10º Lisbon & Estoril Film Festival decorrerá entre 4 a 13 de Novembro. A programação completa poderá ser vista na totalidade aqui.

 

 

Ver também

Godard e Skolimowski com homenagens no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

 

Acompanha-nos no Facebook, aqui, e no Twitter, aqui


publicado por Hugo Gomes às 15:10
link do post | comentar | partilhar

28.5.16

Vendedor.jpg

O correcto acto da vingança!

 

Asghar Farhadi é um moralista, mas é o nosso tipo de moralista. Ao contrário do conto moral propagandista que muita da Hollywood faz e refaz, o cinema de Farhadi é de uma delicadeza articulada a espaços limitados, a mistérios "antonianos" não resolvidos e a dramas humanos impulsionados através de um olhar crítico e abrangente, e essa dita moralidade ocorre, não como uma lição a ser aprendida, mas sim num reflexo de múltiplas contemplações.

 

the-salesman.jpg

 

Contudo, em O Vendedor, premiado com a distinção de Melhor Argumento no Festival de Cannes, possuímos um episódio competente na linha dos seus anteriores manifestos, mas perde-se numa loop de repetição autoral. Para o espectador ainda não inserido no universo deste badalado e consagrado cineasta iraniano (A Separation, Le Passé), este paralelismo entre a ficção e as encenações teatrais de Morte de Um Caixeiro Viajante, de Arthur Miller, revela-se numa fascinante experiência de juízo de valores, até estabelecer num climax narrativo que desagua facilmente em território de elipse.

 

forushande-2.jpg

 

É um tipo de cinema que nos faz debater sobre a nossa própria moralidade, é aquele "mundo" longe ao nosso alcance, aqueles seres de uma civilização distante que não se afastam, rigorosamente nada, dos nossos quotidianos. Aliás, essa persistente comparação entre o drama de vingança e o teatro que vem adquirido contornos algo caóticos, remetem-nos a um elo cultural que interliga essa constante separação anunciada entre Ocidente / Oriente.

 

maxresdefault (1).jpg

 

É um exercício meticuloso, devidamente empregue à mercê dos seus actores que tudo fazem para adereçar a ênfase dramática nos conformes deste conceito de realismo. O Vendedor aproxima-se em passos personalizados ao território de Alain Resnais, a esse erudito estado de alma, sem como tal abandonar as suas heranças, quer culturais, cinematográficas e pessoais. No fim, a moralidade nos joga como uma força que nos embate consequencialmente, mas sem nunca constituir uma só verdade. A moral nasce, cresce, vive e morre em cada um de nós, o cinema Farhadi apenas providencia essas ferramentas.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Asghar Farhadi / Int.: Shahab Hosseini, Taraneh Alidoosti, Babak Karimi

 

The-Salesman-Cannes-copy.jpg

7/10

publicado por Hugo Gomes às 13:59
link do post | comentar | partilhar

21.5.16
21.5.16

Elle.jpg

 

O desejo é algo indescritível!

 

Durante a sua carreira, ao holandês Paul Verhoeven foram atribuídos diversos "gloriosos" nomes: sexista, homofóbico, voyeurista, sádico, mau gosto, etc. Mas de uma coisa é certa, não lhe podemos negar o adjectivo de ousado e neste Elle, visto como o seu grande regresso ao cinema, a irreverência é o ingrediente que não falta.

 

342104.jpg

 

Com mais de cinquenta anos de experiência no cinema, o anterior e "maldito" realizador de Showgirls vira o jogo num mundo descrito pelo politicamente correcto e sobretudo pela hipocrisia. Essa partida joga a três: Verhoeven, a actriz Isabelle Huppert e o espectador, este último constantemente desafiado através dos outros dois "parceiros" pelos parâmetros maleáveis da demência (socialmente inaceitável) da sua protagonista. Trata-se de uma mulher forte, longe do heroísmo romantizado de Hollywood, ambígua (com o seu "quê" de psicótica) e sexualmente activa. Sim, é essa principal característica que coloca a personagem de Isabelle Huppert à frente de enésimos retratos feministas. Ela é sim uma perversa sexual, ou simplesmente (para não cairmos em julgamentos morais), uma mulher com  necessidades simples (se a personagem de Huppert fosse um homem não suscitaria tanto choque), dependente e independente do "cromossoma Y".

 

eerste-trailer-nieuwe-film-paul-verhoeven-elle.jpg

 

Elle arranca com uma violação, um acto medonho de invasão sexual que automaticamente começa a perseguir Michelle (Huppert) e a tomar as suas próprias fantasias. Ao contrário de uma enésima variação de I Spit on Your Grave, este definitivamente não é um ensaio de vingança nem uma ode justiceira dos direitos das Mulheres oprimidas, trata-se sim de uma longa fantasia, mórbida para os mais sensíveis, que adquire os eventuais toques do síndroma de Estocolmo. Isabelle Huppert veste a pele desta personagem como ninguém, desta forte mulher do cinema, que sob algumas réstias da anterior Catherine Tramell (personagem de Sharon Stone em o Basic Instinct) domina num mundo supostamente dominado por homens. Ela é um hino da verdadeira emancipação feminina, e simultaneamente é a mais frágil vítima desse mesmo estatuto. O trabalho de Paul Verhoeven é definitivo, a criação da personagem assim como a tensão psicológica que a culmina, uma sólida ponte entre o ecrã e o espectador, tornam este thriller sagaz, ritmado e degustável sob variados paladares.

 

verhoeven-hubbert-set.jpg

 

Ora são os momentos dignamente screwball, ora é a veia mais arquitectónica do thriller hitchockiano, ou os devaneios voyeuristas merecedoras do realizador. Porém, em Elle não somos induzidos ao intimismo fácil. A personagem apenas deixa-nos conhecer gradualmente, discreta sob o seu perfil, como uma sedução. Somos "fracos" porque cedemos aos encantos desta mesma personagem e da dedicação de Isabelle Huppert em a trazer à "vida". Verhoeven novamente recorre ao seu método quase pornográfico na exploração intrínseca dos seus peões, o resultado é que depois da sedução cumprida somos intrusos na intimidade desta mulher.

 

elle_7.png

 

Enquanto segue por aí uma fenómeno cinematográfico-literário de Fifty Shades of Grey, onde a mulher é dominada por um homem sob perversões sexuais (apelidando essa vulnerabilidade emocional de "amor", o truque mais barato que pode haver), em Elle, Isabelle Huppert é uma refém dessa perversões, enquanto que, sempre de alguma maneira, tenta resistir a essas ditas fantasias sexuais. Despreocupada, livre, firme e activa, o novo filme de Paul Verhoeven consegue ser o mais recente grito ao papel da Mulher do cinema. Um regresso e "pêras"!

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Paul Verhoeven / Int.: Isabelle Huppert, Virginie Efira, Christian Berkel, Anne Consigny

 

elle-isabelle-huppert.jpg

9/10

publicado por Hugo Gomes às 14:11
link do post | comentar | partilhar

21.5.16

Ma Loute.jpg

Quando a tragédia tem o seu humor!

 

Bruno Dumont é o senhor do burlesco, a pitoresca caricatura que adquire a absoluta forma cinematográfica, e conseguiu transmitir tal aura em Petit Quinquin, uma mini-série que tentou a sua sorte como longa-metragem (uma longa, mas relevante metragem da sua carreira). Ma Loute, por outro lado, segue a passos essa marca estabelecida, remetendo-nos a um enredo de Belle Epoque, onde o início do século parecia revelar-se num magnifico quadro de aristocracias mecanizadas, porém, iludidas a uma miragem. E essa mesmo, resultando sob ecos de Revolução Francesa, o poço cada vez mais fundo que separa classes. Tema que persegue o espírito "gaulês", os franceses teimam em focar nas suas fitas a divergência recorrida no Cinema e Ma Loute não é excepção. Só que, vejamos, a linguagem é simplesmente outra.

 

ma-loute.jpg

Em 1928, Louise Brookes, actriz norte-americana, chegaria à Europa para se concentrar num novo rumo da sua carreira. Entre os filmes que desempenhou no Velho Continente, destaca-se Pandora's Box, onde interpretava uma sedutora, uma verdadeira "man-eater" nos primórdios crescentes da imagem da femme fatale. A sua arma de sedução era uma, o seu método de desempenho, algo vincado no realismo dos actos que entra em contraste com o drama teatral dos actores europeus da altura. E foi nesse contraste que soube-se criar uma nova linguagem narrativa, a linguagem derivada da interpretação. Anos mais tarde, Federico Fellini concentrou em atribuir um tom quase alienígena para a burguesa pseudo-cultural representada em La Dolce Vita, seres estranhos que se destacavam do resto do Mundo em constante decadência pelos seus respectivos e gravitacionais egos que os isolavam às suas fantasias anteriores.

slack-bay-image-1.jpg

Em Ma Loute, a tal linguagem narrativa encontra-se perfeitamente estabelecida nesta diferença de classes, nota-se o "underacting" dos camponeses deste vilarejo costeiro, e o "overacting" da aristocracia que eventualmente surge em cena, com Fabrice Luchinie e Juliette Binoche à cabeça. O ridículo das sequências protagonizadas servem, não como um veiculo de comédia, mas como uma reflexão de um grupo em vias de extinguir, portanto perdoa-se os veios oníricos e a paradoxismo que se escuta como brisa marítima neste filme em se resiste à sua memória. A memória de um cinema sem medo da reprovação do espectador, um cinema que ergue a visão do seu autor em prol de uma mensagem, do que providenciar um género, neste caso, como fora caído em erro, a comédia como um circulo fechado. Não, Ma Loute espelha uma diversidade de tons que desaguam para um exercício de alienação interpretativa, aliás o foco dessa crítica é tão evidente, a burguesia iluminista é somente uma espécie extinta, só que ainda não haviam percebido tal desaparecido.

MALOUTE_STILL_3.jpg

Porém, nem tudo é perfeito, Dumont tende em cansar com o seu registo, os tons perdem fôlego e a partir daí é o óbvio que dialoga cada vez mais alto. É então, que sem conseguir segurar a tragicomédia de gostos no seu carris, Ma Loute verga-se pela caricatura fácil, principalmente no seu grande comic relief, que à imagem do anterior Petit Quinquin, é uma homenagem aos clowns que perpetuam na nossa memória cinéfila. Se em Quinquin era a alusão a Marxs Brothers a resultar na autoridade, em Ma Loute são os clássicos Laurel e Hardy sob iguais causas. São momentos deliciosos, envolvido num humor de camadas que vai desde o godardiano acaso de um Pierrot Le Fou, até ao inglês non sense e absolutamente metafórico de um Month Python. Sim, é um doloroso sorriso que nos faz esquecer por momentos que a tragédia vive em nós, ou será antes, a tragédia num novo tipo de comédia?

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Bruno Dumont / Int.: Fabrice Luchini, Juliette Binoche, Valeria Bruni Tedeschi, Brandon Lavieville, Raph

 

Ma-Loute-recensione-centro.jpg

6/10

publicado por Hugo Gomes às 00:26
link do post | comentar | partilhar

19.5.16

Exame, O.jpg

Cristian Mungiu coloca a sua graduação fílmica em prática!

 

Bacalaureat (O Exame) é indiscutivelmente um filme de Cristian Mungiu, nota-se a "léguas", desde o seu vincando realismo inserido em longos takes até ao gradual desafio em que as suas personagens são submetidas nas mais drásticas situações, passando por uma atmosfera rodeada por fantasmas oriundos dos tempos de Ceauseascu.

 

61 - Cópia.jpg

 

O realizador romeno, um dos braços fortes da sua Vaga Cinematográfica que tido cada vez mais presença nos festivais mundiais, é um homem sob um constante olhar para a condição humana, o encarando como um entusiasmante retrato da vida mundana. Os seus "heróis" não são mais que meros mortais, prevalecidos por seus actos involuntários e pela natureza que os rodeia e que os obriga a camuflar. Neste mesmo Cinema, não existe maniqueísmo, somente personagens sem passado definido e muito mais, sem futuro à vista do espectador.

 

bacalaureat.jpg

 

Em O Exame, o retrato segue ao encontro dos limites da paternidade, da educação que damos aos nossos "rebentos", o mundo idealizado que queremos os inserir. Porém, a realidade é mais violenta e "suja" que essa mesma idealização, e a inadaptação é o que espera a esta geração iludida. A jornada de um pai para preservar o futuro pretendido para a sua filha, o leva para os cantos mais obscuros e psicanalistas da consciência moral. Aliás, não existe o certo nem o errado, somente escolhas, aquelas decisões que agimos sem pensar em um momento que seja. Será a corrupção uma característica mais que natural do ser humano do que a imagem que o moralismo social nos quer fazer acreditar?

 

bacalaureat-3.jpg

 

Cristian Mungiu consegue um forte drama ambíguo, envolvido numa melancolia cautelosa, até porque esta Roménia ainda é conduzida por espectros, as vivências de tempos negros, aquela "prometida" Idade do Ouro. Como veiculo emocional (ou não) deste O Exame, está Adrian Titieni, uma das caras mais reconhecidas do cinema romeno recente, o qual tem vindo a provar estofo para exercer o papel de anti-herói em sociedades replicadas à nossa. Não sendo a melhor obra da Cristian Mungiu, este é um filme certamente para ver e reflectir, sem a imperatividade do sentimento manipulado.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Cristian Mungiu / Int.: Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus, Rares Andrici

 

graduation-bacalaureat-cristian-mungiu.jpg

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 20:00
link do post | comentar | partilhar

17.5.16

Bosque dos Quincóncios.jpg

Como é (des)encantado este bosque!

 

Paulo Branco convida-nos a entrar neste La Forêt de Quinconces (Bosque dos Quincóncios), apostando em Grégoire Leprince Ringuet como um imerso talento do cinema mais autoral. Protagonizado pelo jovem realizador, este é, um romance pouco convencional que se vai gradualmente afastando do realismo que o mesmo inicialmente arranca.

 

lfxzks-HC.jpg

 

A separação violenta de um namoro prolongado anos a fio, o desespero que aproxima o nosso protagonista aos efeitos do conto de fadas e das maldições folclóricas. Envolvendo-se em pedantismo reflexivos quanto à natureza dos seus gestos e as consequências que seguem à deriva das suas decisões. É o cinema que folga os lugares-comuns do realismo formal e segue avante para um território povoado por outros autores, porém, maduros, como é o caso de Christopher Honoré (uma evidente referência neste musical tragicómico). Mas comparar o inexperiente Ringuet a Honoré é quase visto como um sacrilégio. É preciso muita "fruta" para os colocar lado a lado, principalmente na segurança em conduzir este universo nada palpável.

 

410061.jpg

 

Bosque dos Quincóncios peca por isso, pela insegurança, pelo sufoco de uma réstia de talento que poderia germinar neste mesmo mato. A genialidade não são meras faíscas provocadas pela fricção do enredo e dos conhecimentos cinematográficos que Ringuet parece por em prática (entre as quais uma vibrante sequência a musical a marcar espaços entre as melhores selecções do cinema recente).

 

XVM93d5ca3a-37a4-11e6-9cea-f8927012e605.jpg

 

As interpretações são, também elas, meras variáveis. O nosso jovem é nervoso quer na direcção, quer em ser dirigido … pelo próprio, obviamente. Por fim, existe um certo snobismo algo presunçoso que nos faz estremecer, querendo encontrar a saída deste mesmo bosque, olhando para trás, na busca de possível vislumbre que remeta-nos à luz autoral. Se Grégoire Leprince Ringuet será, ou não, um nome a ter conta neste mesmo universo cinematográfico, só o tempo dirá. Mas a previsão após este filme-maçarico são de variabilidades baixas.

 

Filme visualizado no 69º Festival de Cannes

 

Real.: Grégoire Leprince Ringuet / Int.: Grégoire Leprince-Ringuet, Pauline Caupenne, Amandine Truffy

 

la_foret_de_quinconces_3.jpg

4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:24
link do post | comentar | partilhar

16.5.16

American Honey.jpg

 

Na rota do Novo Mundo!

 

Andrea Arnold estreia em terras norte-americanas com esta "road-trip" sob toques coming-to-age centrado numa América profunda, os EUA "white trash" onde residem os potenciais apoiantes das campanhas eleitorais de Donald Trump. Mas este American Honey, título inspirado numa música de Lady Antebellum, está acima de qualquer ideologia politica. Aliás, de ativismo nada tem, apenas rebeldes sem causa, quase enxertados dos filmes de Nicholas Ray ou do tremendo Badlands, de Terrence Malick (uma provável inspiração), onde o percurso vale mais que o seu próprio destino, se no caso de existir algum...

 

thumb_5177_media_image_586x370.jpg

 

Arnold tem uma "queda", uma fascinação por criaturas raras, personagens que dificilmente captam a simpatia do público. Quando o conseguem, este é um efeito dignamente carnal. São estes jovens que acompanhamos impulsivamente numa direção algo intrusiva e "empestada" por uma colectânea musical que atribui o espírito indomável e hedonista ao grupo. No centro desta jornada a "nenhures", Star (Sasha Lane), uma rapariga de 18 anos, decide certo dia, após o contacto com um grupo de jovens viajantes, largar a sua vida "aprisionada" numa família disfuncional e desfragmentada para embarcar no desconhecido. O desconhecido leva-a a várias cidades do interior dos EUA, tendo como objetivo desta mesma viagem em "família", a venda de inscrições para revistas, uma tarefa inicialmente difícil para Star devido à sua perturbada natureza.

 

708.jpg

 

Depressa o grupo revela-se numa espécie de tribo, conduzido por regras e "tradições", sendo que entre elas contam-se a imperativa reação a uma música da Rihanna, ou o combate, algo agressivo, dos dois membros mais fracos desse mesmo grupo, tudo em concordância com uma ordem, ou um desordem marginal como quiserem apelidar. O espectador fica a mercê desta "mini-sociedade", "irmãos de sangue e de sémen" sem qualquer perspectiva sócio-politica, até porque a grande veneração aqui é "gozar" os curtos anos de jovialidade, a "frescura" de um mundo ainda por descobrir e de sentimentos ainda por sentir. Serão estes os "meninos perdidos" de Peter Pan?

 

1401x788-american-honey00.jpg

 

Se o grupo é isento de qualquer resistência, seja ela qual seja, já Andrea Arnold tenta a espaços colmatar as suas ideias, reduzido-as a aspetos cénicos, técnico e sensoriais. Os imensos point-of-view de insectos estabelecem um ponto de contacto com uma sociedade indulgente e futílmente insignificante, e a relação destes com a protagonista provam a sua gradual procura intrínseca, no final a "coisa" evolui, entre as suas mãos já não existe invertebrados, mas sim uma tartaruga como símbolo de uma nova etapa na ainda "verde" vida.

 

AmericanHoney.jpg

 

No meio desta jornada, ainda deparamos com uma curiosa sequência que liga a Star com o seu lado mais afetivo e emocional, tudo ao som de Bruce Springsteen e o seu "Dream, Baby, Dream", o provável único momento em que o espectador tem a certeza absoluta que a nossa protagonista é mais que uma somente adolescente vazia quase dilacerada de Spring Breakers, de Harmony Korine. Talvez seja algo mais, porém, a sociedade não auxilia qualquer desenvolvimento nas questões da sua identidade. Para finalizar, Shia LaBeouf está em grande, provando que Hollywood não é o único caminho para a eventual imortalização.

 

Filme visualizado na 69ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Andrea Arnold / Int.: Sasha Lane, Shia LaBeouf, McCaul Lombardi, Arielle Holmes, Riley Keough

 

90.jpeg

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 00:51
link do post | comentar | partilhar


sobre mim
pesquisar
 
arquivos
2017:

 J F M A M J J A S O N D


2016:

 J F M A M J J A S O N D


2015:

 J F M A M J J A S O N D


2014:

 J F M A M J J A S O N D


2013:

 J F M A M J J A S O N D


2012:

 J F M A M J J A S O N D


2011:

 J F M A M J J A S O N D


2010:

 J F M A M J J A S O N D


2009:

 J F M A M J J A S O N D


2008:

 J F M A M J J A S O N D


2007:

 J F M A M J J A S O N D


recentemente

Falando com Cristian Ming...

The Childhood of a Leader...

American Pastoral (2016)

Nocturnal Animals (2016)

Le Divan de Staline (2016...

À Jamais (2016)

The Last Family é o grand...

Les Beaux Jours d'Aranjue...

Christine (2016)

El Futuro Perfecto (2016)

últ. comentários
...e nem sequer incluem uma música dos Linkin Park...
Ben Kingsley é o Rei dos Sotaques, juntamente com ...
A resposta é Michael Keaton e Christian Bale. Desc...
Eu percebo que o Pátio das Cantigas foi uma coisa ...
Não se vêem muitos destes. Em anos que não se viu ...
Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
stats counter
HTML Hit Counter
counter
links
mais comentados
12511335_1084470088250815_732384524_o
subscrever feeds
blogs SAPO