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Título
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13.12.17

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Na roda da desventura!

 

Podemos reconhecer, a partir do ano 2000, dois factores benéficos para a “sobrevivência” do cinema de Woody Allen. A primeira, Scarlet Johansson impulsionou um novo fôlego e dinâmica na cooperação entre actor/autor. É evidente que um dos melhores trabalhos do nova-iorquino nasceu daí, Match Point, um revisitar aos temas de adultério e crimes passionais que havia estabelecido no seu Another Woman(Uma Outra Mulher). E como segundo ponto temos a vinda do director de fotografia Vittorio Storaro, cuja  entrada no universo Woody enriqueceu esses emaranhados de histórias com uma visão preparada, cuidada ,e sobretudo, atribuindo a artificialidade que o seu cinema há muito desesperava.

 

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Nesse sentido, depois de Café Society, este Wonder Wheel (Roda Gigante) é, até à data, o filme que estabelece esse bem cooperativo, a fotografia que enquadra-se no ambiente pseudo-fantasioso de Coney Island e que respira por vontade própria. O artificialismo referido assinala-se como uma leitura dessa mesma fantasia, o escapismo visual que indicia uma transformação. Deste modo, a fotografia de Storaro converte-se do dito requinte estético, o clima que nos transporta ao seu ambiente natural, para uma tendência de expressionismo. Os atores respiram através desta mesma imagem, das cores que nos transmitem, enquanto espectadores, uma atitude reactiva em relação às suas emoções, pensamentos e, porque não, devaneios.

 

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Mas fora do ponto visual, que nos saliva, Wonder Wheel é um filme que curiosamente esclarece a veia de Woody Allen enquanto, sobretudo, argumentista. O seu apetite pela tragédia e a forma como a nos entrega, um exercício de dispositivos narrativos que maltrata as suas personagens. Estas, indiciadas como cobaias desse mesmo tubo de ensaio – a busca pela tragédia propriamente dita e de que forma atingi-la. Se é bem verdade que encontramos na personagem-guia (um nadador salvador com apetite pelo dramático personalizado por Justin Timberlake) um espelho do Allen voyeurista, é também indiscutível que essa mesma raiz o condensa num marco de direcção para o arranque desta desventura. As personagens vivem uma mentira, insinua a certa altura Timberlake, código genético destes peões que habitam no mais “fraudulento” dos locais, Coney Island.

 

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Existe sobretudo uma rivalidade entre essas “mentiras” que disputam pelo quotidiano dos viventes, a feira que assume o decor e o cinema, constantemente trazido à baila, como uma alternativa aquela matéria algo circense. Estas feiras temáticas eram em tempos a prioridade na distracção dos habitantes de Nova Iorque, porém, encontraram-se condenadas pela popularidade crescente das salas de cinema, pelo facilitismo da projecção e pela qualidade da experiência que se poderia experienciar aí.

 

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Apesar da aparente extinção dessa Coney Island levada da breca, o Cinema poupou-o do esquecimento, conservou-o nas suas fitas, um tributo de um entretenimento ao seu antepassado. E acrescento, foi com Coney Island que o cinema norte-americano seguiu em passos  na sua linguagem ao encontro do real, com Little Fugitive (Ray Ashley e Morris Engel, 1953). Contudo, em Wonder Wheel, a narrativa declara o seu fascínio trágico no qual circula ao encontro dessa mesma “ferida”. A tragédia assim proclamada como um substantivo sólido é a combustão dessa mesma trama, e a rainha desta, Kate Winslet, prova ser a maravilha disputada. Talvez em Wonder Wheel deparamos com o inicio de uma nova faceta de Woody Allen. A ver vamos.

 

Real.: Woody Allen / Int.: Kate Winslet, Jim Belushi, Juno Temple, Justin Timberlake

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:58
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Que o jogo comece …

 

Existe uma imagem (uma das muitas é claro) definida naquilo o qual chamamos de senso comum do Cinema. Essa, de que a mulher é vista como uma espécie de engodo, uma distracção útil nas mesas de poker. Assim como o ilusionista precisa da sua assistente para “controlar” os olhos do público, no poker, a mulher instala uma certa desestabilização na mente dos oponentes do baralho. Em Molly’s Game, tendo como base o livro da “intitulada princesa do pokerMolly Bloom, a distracção encontra-se na actriz Jessica Chastain, para além da sua colecção de decotes que pavoneiam como desestabilizadores do olhar do espectador, o seu desempenho serve com isso, deixar em aberto a própria opinião do mesmo em relação do espectáculo que indiciamos.

 

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Porque aquilo que deparamos não é mais que a primeira experiência de Aaron Sorkin (possivelmente o mais conceituado dos argumentistas do activo em Hollywood), no cargo de realizador, o resultado era tudo que se poderia esperar de alguém que dá uso à sua imaginação para idealizar um storytelling, mas nunca a capacidade de materializa-lo no grande ecrã. Nota-se, não o nervosismo, mas a transferência de experiências que condensam a sua noção de narrativa visual. Há uma tendência ao conto “chico-esperto” à lá Scorsese (talvez a pretensão maior de arte cinematográfica fecundada para os lados de Hollywood), atravessando um registo de flashbacks sob o apoio da voz-off que não deixa pormenor algum ao espectador, a abordagem de um negócio ilícito levado como uma doutrina de etapas indulgentes, soando um livro da colecção “para totós” do que relato de vivências. 

 

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Esta suposta transparência tenta dar a Molly’s Game um ar de irreverência, ousadia e rebeldia social em relação à temática, mero engodo que nos encaminha à cedência de uma profunda fábula moralista, com pé carregado no “preto-e-branco”, na lavagem ética da sua protagonista e nas costuras do seu passado, dando uma ênfase psicanalítica das suas ações. Dito isto, Molly’s Game é um mero produto autobiográfico sem condução para mais do que o aproveitamento do “verídico” como marketing ganho.

 

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Em relação à sua protagonista-engodo, Jessica Chastain encontra-se, de facto, em plena forma; porém, mais uma vez referindo, uma distracção que nos atraiçoa, colocando o espectador como um “cego”, frente às irregularidades desta grande “aposta” (o avanço para realizador do argumentista de The Social Network e de Steve Jobs). No final, fica o conselho: Aaron Sorkin … continua como argumentista e mantêm-te nessa posição, se faz favor. 

 

Filme visualizado no âmbito do 11º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Aaron Sorkin / Int.: Jessica Chastain, Idris Elba, Kevin Costner, Jeremy Strong, Michael Cera, Chris O'Dowd

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 15:45
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26.11.17

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Tesnota, do jovem realizador russo Kantemir Balagov, torna-se no grande vencedor da 11ª edição do Lisbon & Sintra Filme Festival.

 

Balagov é considerado um dos autores mais promissores de 2017, o seu Tesnota foi apresentado pela primeira vez na secção Un Certain Regard do último Festival de Cannes tendo sido laureado com o Prémio FIPRESCI. Tendo como enredo um rapto numa comunidade judaica na Rússia, a longa-metragem conquista o Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre, e ainda o Prémio Revelação TAP atribuído à actriz Olga Dragunova. Cocote, de Nelson Carlo de Los Santos Arias, recebe Prémio Especial do Júri João Bénard da Costa. O júri da Competição Oficial foi composto pelos cineastas David Cronenberg, Ildikó Enyedi, a pianista Momo Kodama e as escritoras Hanan Al-Shaykh e Ersi Sotiropoulos.

 

Visto como uma das grandes apostas para os Óscares, Call Me By Your Name (Chama-me Pelo Teu Nome), de Luca Guadagnino, foi o escolhido pelo público para o respetivo Prémio. Em relação às curta-metragens, A Man, My Son, de Florent Gouëlou (La Femis - Paris), triunfa o Prémio, enquanto  que Les Yeux Fermés, de Léopold Legrand (Institut National Supérieur Des Arts Du Spectacule - Bruxelas), e Heimat, de Emi Buchwald (The Polish National Film Television And Theater) recebem uma menção honrosa. O júri era composto pelas realizadoras Bette Gordon, Stéphanie Argerich e Olga Roriz.

 

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publicado por Hugo Gomes às 10:30
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24.11.17
24.11.17

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Harry Dean Stanton morreu! Longa vida a Harry!

 

Lucky metamorfoseou, não durante o seu processo de criação e idealização, mas adaptando locucionariamente o seu discurso para os tempos que o abrangem. E quem o confirma é o próprio realizador, John Carroll Lynch, actor de longa carreira aventurosa na sua primeira longa-metragem. Este concebeu a obra como uma celebração ao actor Harry Dean Stanton, porque em todo ele, uma personagem-tipo, concentrava todos os elementos e aspecto no qual o identificamos acima da ficção, e sobretudo fora da realidade desconhecida, a figura que a cinéfilia nos impôs - o Harry Dean Stanton que o cinema criara.

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Mas a tragédia bateu à porta do ano 2017. O célebre actor de Paris, Texas deixou-nos; uma despedida que transforma o célebre numa melancolia prolongada, a celebração torna-se assim numa homenagem fúnebre, e a personagem-tipo num esboço da memória cinéfila. Provavelmente, com o infortúnio, Lucky adquire uma dimensão que o favorece, o “cowboy” solitário que vive a sua rotina como um “safe place” e que perante o primeiro sinal vindo do ceifeiro questiona todo esse ciclo, é agora uma cuspidela” na cara da Morte”, um sorriso malicioso perante os desfechos incutidos pela sociedade.

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Haverá vida depois da morte?” Para Lucky a vida é única e sem acréscimos, a Morte é o fim e imperativamente aceite. “The only thing worse than awkward silence: small talk” (Pior que o silêncio constrangedor é a conversa barata). Harry Dean Stanton projecta o seu eu” num sofrimento invisível, uma espécie de solipsismo que adereça o seu quotidiano, encarado com uma automatização sacra e uma ironia crescente.

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Sentimos que o actor não esmera em criar algo novo na sua partitura interpretativa, nem há sentido para tal, é a memória funcional a insuflar com vida este “farrapo humano”, um homem posicionado entre a sugestão e o segredo, a coragem e o medo, que tende em ceder por entre fissuras em relação à maior das doenças da Humanidade: a velhice, consequencialmente a solidão e o fim de um legado. A personagem é só, mas o filme não acolhe um sentido miserabilista perante a sua pessoa; é só porque assim o espectador o sente, mais do que as palavras proferida ocasionalmente sobre o assunto. “There's a difference between lonely and being alone" (Há uma diferença entre solidão e estar só), ou dos temas quase paradoxais induzidos num bar de esquina, tendo como parceiros do crime", um ressuscitado James Darren e um David Lynch como consolo da tão referida memória.

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E em orquestração com essa, o encontro com outro parceiro, Tom Skerritt, 38 anos depois de Alien, a invocar a Morte como um vilão pelo qual escaparam e que mesmo assim vivem no receio da eventual riposta. O sorriso aqui aludido que será transmitido nas proximidades do final - a essência que pedíamos após a desintegração completa da rotina vivente. Apela-se à anarquia tardia. Ou será antes rebeldia? O olhar matreiro de Stanton proferindo um último discurso, uma última resposta para o seu fim. Para depois seguir ao seu Paraíso, o leito dos laicos, o deserto que o acolhera no seu apogeu e que tanta vida reminiscente oculta.

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Mesmo que Stanton aposte no “realismo” que acabara de definir (“realism is a thing”), e nas verdades entre indivíduos que nunca corresponde uma verdade absoluta, este cantinho transforma-se o seu Éden, prevalecendo memórias e garantido o merecedor descanso eterno. Isto acontece porque o sentido alterou com o contexto, a celebração aos vivos é agora uma dedicada canção para os mortos. 

 

Real.: John Carroll Lynch / Int.: Harry Dean Stanton, David Lynch, Ron Livingston, James Darren, Beth Grant, Tom Skerritt

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 14:46
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Robert Pattinson estará presente na 11ª edição do Lisbon & Sintra Film Festival. O actor que se tornou mundialmente famoso com o fenómeno Twilight irá apresentar duas sessões do festival. Hoje, pelas 21h00, estará presente no Centro Cultural Olga Cadaval, ao lado do escritor Don Delillo, para apresentar Cosmopolis, a sua colaboração com David Cronenberg que resultou numa atípica versão de um mundo à beira de uma apocalipse económico.

 

No dia 25, Pattinson estará no Cinema Medeia Monumental para a projeção de Good Time, dos irmãos Safdie, obra que concorreu à Palma de Ouro do último Festival de Cannes e cujo seu desempenho foi, acima de tudo, elogiado. A sessão será seguida por um Q&A com o actor.

 

O 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival, decorre em Lisboa (Cinemas Monumental, Nimas, Amoreiras; Teatro Nacional D.Maria II) e Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval, Palácio de Queluz, MU.SA-Museu das Artes de Sintra), até dia 26 de Novembro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 07:36
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17.11.17

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Arranca hoje o 11º LEFFEST – Lisbon & Sintra Film Festival, que decorrerá entre Lisboa (Cinemas Monumental, Nimas, Amoreiras; Teatro Nacional D.Maria II) e Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval, Palácio de Queluz, MU.SA-Museu das Artes de Sintra), de 17 a 26 de Novembro. Nesta nova edição contaremos com grandes destaques a homenagem a Isabelle Huppert, uma das grandes donzelas do cinema francês, e retrospetivas dedicadas aos cineastas Abel Ferrara, Alain Tanner e o português João Mário Grilo.

 

O mais recente filme de Richard Linklater, Last Flag Flying, terá as honras de oficializar a abertura do festival no Monumental. A história de luto e reunião de velhos camaradas tem sido visto como um dos potenciais filmes para a temporada de prémios. Bryan Cranston, Laurence Fishburne e Steve Carrell compõem o elenco desta nova façanha do mesmo realizador de Boyhood e da amada trilogia Antes do Amanhecer. Em paralelo teremos as primeiras obras das ditas retrospetivas, desde a obsessão fetichista de Michael Haneke (A Pianista), inserido no ciclo Isabelle Huppert, ou a projeção das cópias restauradas de A Salamandra, de Alain Tanner, um cocktail de proletariado e fascinação criminal, e ainda a vingança que vira vigilância no feminino com MS. 45, de Ferrara.

 

A contar ainda nesta abertura, agora no Amoreiras que estreia este como espaço para o festival, o regresso da dupla de realizadores Olivier Nakache e Eric Toledano, do muito popularizado Amigos Improváveis, que nos trazem um casamento recheado de surpresas com O Espirito da Festa.

 

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publicado por Hugo Gomes às 11:56
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16.11.17

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O quadrado, objecto de provocação!

 

Ruben Östlund filma os seus filmes com uma certa intenção, uma provocação no qual tenta debater-se com a consciência moral do espectador. Se em Force Majeure (Força Maior), especificaria o medo como uma catarse ao rompimento de uma relação, em The Square (O Quadrado) somos ainda levados ao extremos nessa encruzilhada de decisões. “E se fosse consigo?” - mais do que um programa pedagógico, Östlund perpetua uma tragédia cómica minada de experiências que vai de encontro aos nossos próprios medos, provavelmente o maior dos medos sociais, o de agir na altura certa.

 

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Em paralelo com a avalanche de Força Maior, em O Quadrado assistimos a uma particular sequência de uma arte performativa levada ao extremo, a besta que encarna no homem-artista e a manada indefesa que encarna numa multidão intelectualmente homogénea. A situação torna-se tão drástica que nós próprios [espectadores] questionamos a nossa experiência, a impotência nos nossos activismos, e o desprezo pelo próximo como um mecanismo de defesa. Nessas ditas situações, O Quadrado envolve-nos com uma tese psicológica desafiadora, um filme revoltante … silenciosamente revoltante que poderá dizer mais de nós que qualquer divã. E esse quadrado, engenho simetricamente perfeito que reflecte a igualdade de quem o penetra, um produto de museu no qual Östlund manipula como objecto de estudo a outra das questões da sua obra. Até que ponto a arte pode ser considerada arte? Ou simplificando, o que é a arte?

 

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E toda essa arte tem consequências, assim como os actos do protagonista, Christian (Claes Bang), que concentram todos esses confrontos invocados numa só persona. Aquele, e já referido, medo social, âncora das nossas relações afectivas assim como comunicativas, que elevam a um certo grau de passividade. Até porque existe dentro de nós um certo Christian, que se esconde em plataformas para expressar os seus sentimentos mais primários, no sentido em que essas emoções são eventualmente subvalorizadas por uma comunidade artística, pensante que anseia atingir o pedestal da racionalidade, quer do real, quer do abstracto.

 

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O Quadrado é um exemplar de um filme subjugado ao debate dele próprio, pronto para o dialogo com o espectador, entre espectadores e sobretudo depois do seu visionamento. São as questões sugeridas pela obra que nos tornam aptos para as suas interpretações; porém, Östlund tenta acima de tudo obter essa função, fugindo da pedagogia infantil e da essência solipsista que invade a comunidade arthouse, mas foge, também, da objectividade.

 

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O Quadrado prolonga-se até não possuir mais uma questão nova a indicar, torna-se com o tempo obtuso, fácil e previsivelmente moralista, como se toda esta galeria resumisse a uma fábula, citadina e moderna que exorciza a realidade como a vemos. Depois vem a obsessão de Östlund pelas escadas, a técnica e como filmá-las, uma tese na qual não procuramos aqui dar respostas, mas que preenche em demasia uma obra sobretudo comunicativa que oscila pelo simples ilustrativo.

 

 

Real.: Ruben Östlund / Int.: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 17:22
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23.11.16

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Premiado com o Prémio de Realização na 69ª edição do Festival de Cannes, Cristian Mungiu apresenta Bacalaureat (O Exame), a sua última obra que remexe novamente em consciências morais e em fantasmas do regime de Ceauseascu. O filme, novamente rígido na sua natureza replicada de realismo, chega às nossas salas após uma passagem pelo Lisbon & Estoril Film Festival. O Cinematograficamente Falando … teve o prazer de falar com um dos grandes nomes da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno.

 

Como surgiu o argumento deste O Exame?

 

Foi uma combinação de vários temas. Durante algum tempo estava determinado em fazer um filme sobre o "envelhecimento", aquele que só acontece quando olhamos para trás e apercebemos que esse mesmo passado não nos agrada, assim encaramos o futuro com outro objectivo. Na altura, não encontrei automaticamente a história certa.

 

Em simultâneo, reflectia sobre a paternidade, a educação, nas minhas crianças e foi então que me surgia em mente, questões como: "o que posso dizer aos meus filhos sobre a sociedade que vivemos? Qual o tipo de futuro que queremos para elas e pode ser proporcionado?" Depois, procurei a melhor forma de expor a sociedade actual, uma relação que compromete-se através de uma sociedade corrosiva. Todos estes temas borbulhavam na minha cabeça, a partir daí decidi combiná-las num só filme, porém, como não tinha a narrativa nem a temática escolhida, peguei no meu computador e lancei-me numa pesquisa por inúmeros artigos de acontecimentos que marcaram a nossa sociedade nos últimos 5 anos.

 

Foram notícias, jornais, revistas, o qual rabisquei, cortei e colei, até conseguir criar um argumento que falasse de todos esses problemas sociais e que tivesse uma certa ligação real, mas que não fosse totalmente baseado em factos verídicos. Como tal nasceu O Exame, um filme que fala sobre o futuro, o crescimento e as nossas próprias decisões.

 

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Bacalaureat

 

É possível educar as nossas crianças com uma educação diferente daquela que obtivemos?

 

Não sei, foi graças a essa questão, pelo qual, eu fiz este filme. Através desse dilema tentei fazer com que O Exame me respondesse. Será possível que o Mundo mude através de uma nova geração, sabendo que essa mesma é educada pelos mesmos ideais e valores de uma geração anterior? Sinceramente, não sei. Só sei que tal não é racional, para o Mundo realmente mudar, era preciso que essa nova geração afastasse dos seus antecessores, teria que haver um espaço ininterrupto que pudesse quebrar a corrente. Quando falo nisto, não digo que devemos negligenciar os nossos filhos, não, teríamos que sim educá-las consoante o mais adequado para uma eventual mudança, e não para o que achamos correcto. Obviamente que com isto não quero afirmar que sou um mau pai, porque uma coisa é fazer da maneira mais racional possível, a outra é comprometer as nossas ligações emocionais com as pessoas que mais amamos.

 

Penso também que fiz este filme sobre as pessoas que são incapazes de lidar com as situações de forma racional, que se deixam levar pelas emoções. Até porque não somos personagens, somos seres humanos que dificilmente acreditamos ou questionamos aquilo que nos acontece em vida.

 

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Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus e Cristian Mingu

 

O Exame, é no geral, uma reflexão sobre os limites da paternidade?

 

Sim, pode ser um filme sobre os limites da paternidade, sabendo que com a paternidade surgem vários dilemas, muitos deles, não com as respostas correctas. Sabes, por vezes é fácil, enquanto pais, causar danos às nossas crianças, mesmo que isso não seja totalmente intencional, como o encarar a sabedoria como algo hereditário, que passe de geração a geração. É evidente que mesmo com a educação atenta dos nossos pais, praticamos as nossas próprias decisões e cometemos os nossos próprios erros, mas é ao tornar-nos pais que afrontamos a ideia de que podemos realmente moldar os nosso filhos consoante a nossa "educação", ou seja, acabamos por cometer os mesmos erros que os nosso pais, e assim sucessivamente. É uma corrente.  

 

Educamos as nossas crianças tendo como base a educação que os nossos pais nos deram, chegando mesmo a afirmar as mesmas afirmações que os nossos progenitores proclamaram certo dia. Pensamos "nem acredito que estou a dizer isto?". Obviamente, que também pensas como seria bom que as coisas acontecem desta maneira, mas ao mesmo tempo sabemos que não vai seguir o previsto.

 

Se nós estamos a preparar as crianças para a vida real, temos que parar com o habitual discurso moralista de "não mentir", "não roubar", "não trair", "não pisar os outros", esses moldes de doutrinas são, de certa maneira, vistas como ideais de um "falhado nesta sociedade", por outro lado, ensiná-las a ser lutadoras poderia, de certa forma, alterar essa mesma. Mas isso cabe a nós decidir, quais são os verdadeiros limites da paternidade. Conforme seja a nossa decisão, andamos de "mãos dadas" com as alterações da nossa sociedade.

 

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Bacalaureat

 

Em O Exame, ficamos com a sensação de que a corrupção, por mais pequena e involuntária que seja, é um acto profundamente natural do Homem moderno.

 

Para responder a essas questões, eu cito inúmeras vezes a realidade, sem necessariamente julgá-la, nem explicá-la por demasiadas palavras. Mas julgo que essa corrupção é muitas vezes confundida com o compromisso, uma espécie de mecanismo de sobrevivência, uma adaptação aos obstáculos que nos surgem, mas ao mesmo tempo, quando somos pais, temos que carregar este "fardo". É essa a diferença do mundo idealista, aquele, pelo qual, preparamos a nossa criança, e o mundo real.

 

O filme tenta investigar aos poucos esta relação, gradualmente aborda as causas da complexidade deste fenómeno [corrupção], que é algo tão fácil de julgar. O Exame diz que nem tudo isto é errado, até porque quando queremos ajudar alguém ou até mesmo combater um regime, praticamos estes actos "imorais", no entanto, os encaramos como uma espécie de luta, até porque as nossas intenções são boas. Nos dias de hoje, o regime já não é mais o inimigo número um, ao invés disso, nós é que nos tornamos a grande ameaça. Nós é que redefinimos os limites da nossa consciência moral.

 

De regresso à sua questão, julgo que as pessoas encontram-se desapontadas devido à dificuldade, ou quase impossibilidade, de mudar algo. As coisas são o que são, e é preciso imensa energia para uma pequena mudança. Quanto à mudança total, é quase "o impossível", que é apenas resolvida com soluções colectivas. O filme refere bastantes essas divergências entre decisões individuais, aquelas que fazemos para nós ou para a nossa família. A imigração é um bom exemplo sobre soluções individuais. Todavia, é necessário existir as ditas soluções colectivas, se não, o "barco" naufraga.

 

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Cristian Mingu

 

O Exame entra em paralelismo com um êxito seu, 4 Months, 3 Weeks and 2 Days onde um especifico evento abala e altera toda a personagem. É este o seu modo de narrar as suas histórias, pegar em acontecimentos que drasticamente marcam as suas personagens?

 

Não sabemos o que vai acontecer a estas personagens após o desfecho do filme. Quem sabe? Sim, eu pego em eventos drásticos que as suas personagens vivem, mas se estas vão mudar a conta disso, sinceramente, não sei responder. Julgo que isso não acontece muito na vida real e penso que nós próprios não mudamos assim tanto, mas é com as experiências que aprendemos algo. Algo sobre a vida, sobre si mesmo, sobre a situação, sobre a sociedade, até mesmo de integração. Mas julgo que tal não nos altera em longo termo, ao invés disso, algo morre em nós, perdemos algo muito próximo, e compreendemos que vivemos uma vida, e ta evento poderá ser importante, mas que só durará 3 dias, e depois regressas à tua vida.

 

Por isso, não sei realmente o que vai acontecer a estas personagens, mas o espectador deve entender que eu falo sobre as suas respectivas vidas reais. Por vezes, chegamos a entender o que vivemos através de vidas encenadas no grande ecrã.  

 

No final das sessões dos meus filmes, mais concretamente nos QaA, ouço imensas experiências vividas pelos espectadores. Ou seja, eles, de certa maneira, identificam-se com o que está retratado. É por essas e por outras que existe o Cinema.

 

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 4 Months, 3 Weeks and 2 Months

 

Então é, em derivação dessa aproximação, o motivo pelo qual os seus filmes deverem muito ao realismo?

 

 

Faço esse estilo, porque é a minha definição de Cinema. Porque acredito que o Cinema pode ajudar, não só, a conhecermo-nos, mas também a entender os outros, as nossas vidas, o nosso redor, e para isso temos que praticar um Cinema mais vinculado no realismo, apesar da vida real não ser tão espectacular, nem entusiasmante.

 

E ao seguir esse mesmo estilo, temos que ponderar alguns artifícios bem valiosos no Cinema, um dos exemplos é a edição. Na vida real não há edição, por isso, o meu Cinema tem que possuir o menor uso desse mesmo artificio, toda a cena deve ser filmada num só take. Outro exemplo é a música, não existe bandas sonoras na vida real, tal não poderá existir no meu Cinema. O que tento fazer é captar a emoção através da situação, é uma tarefa árdua, eu sei, sem a utilização desses artifícios, mas é sim que pretendo continuar a fazer Cinema.

 

As edições rápidas, as músicas que entram e saem, as cenas de acção, são tudo factores sedutores. Principalmente para quem deseja fazer entretenimento. Para os meus filmes que falam sobre as vida das pessoas, não pode existir esses meios de manipulação. Para tal, tenho que abdicar desses mesmos artifícios narrativos.

 

Por vezes eu sinto que os meus filmes adquirem um certo padrão de thriller, mas isso é a forma com que sinto em relação à vida. As pessoas estão cada vez mais stressadas, angustiados e decepcionadas.  

 

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Bacalaureat

 

É complicado filmar tudo num só take?

 

Por onde devo começar. Primeiro analiso e escolho a luz, abordo a cena e tento ver qual o ângulo que a filmar, atesto através da perspectiva que anseio contar esta determinada acção. Penso num cenário, durante a escrita, e procuro algo que corresponda ao imaginado. Se não encontro, construo-o. Obviamente que aquilo que imaginas não se aproxima da realidade, mas enquanto não houver mais nada a fazer, adaptas.

 

Depois trazes a equipa técnica, que trazem equipamentos de variados tamanhos e feitos. O Cinema é um processo bastante técnico que parece criativo. A partir daqui, posicionamos todos nos seus devidos lugares, apontamos a câmara para o ângulo desejado, e os actores decoram os seus diálogos e gestos em cenas de 10 a 15 minutos, pelo qual devem efectuar na perfeição. Todo este processo, só numa cena, demora … deixa lá ver … 20 a 40 takes.

 

É cansativo, complicado e no final do dia sentimos absolutamente exaustos, mas igualmente realizados. Todos os dias acabo por falar com cada um dos membros da minha equipa, encorajando-os para mais um round ou reparando certos pormenores. Todo os dias é uma luta, se não conseguimos filmar mais que uma cena num dia, tudo bem, alteramos o  cronograma, e recomeçamos no dia seguinte. Eu consigo fazer isto, até porque sou o produtor dos meus próprios filmes, o que me dá o direito de usufruir esta liberdade.

 

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Tales from the Golden Age

 

Quanto a novos projectos?

 

Não falo sobre novos projectos, porque nunca tenho novos projectos. Penso demasiadas vezes nos meus filmes, naquilo que fiz bem, no que correu não tão lindamente, no que foi importante referir ou o que precisa ser referido. Mas também penso nas pessoas, mais concretamente naquilo que as deprime, que as deixa angustiadas. Tento compreender as suas naturezas, as suas causas, e em consequência disso, por vezes, acabo de encontrar o filme certo, o ritmo certo e a história certa.

 

Muitos pensam que tudo se resume a direcção, mas para mim o mais relevante é o argumento. Procuro sempre o tópico, o tema e como o abordar, e como deve ser abordado.

 

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Beyond the Hills

 


publicado por Hugo Gomes às 20:36
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20.11.16

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"De pequenino torce o pepino!"

 

O actor de 26 anos, Brady Corbet, joga de "cabeça" para a cadeira de realização e a sua proeza de transmitir os elos comuns entre as diferentes infâncias de ditadores é por si, um acto de tirar o chapéu. Esta sua primeira longa-metragem é um perfeito exemplo de como o terror é um género mestiço, sem idiossincrasias que o podem identificar num "só estalo". Com claras influências de The Omen: O Génio de Mal (Richard Donner, 1976) e de Rosemary's Baby: A Semente do Diabo (Roman Polansky, 1968), The Childhood of a Leader (A Infância de um Líder) é um corte dramático que transmite uma atmosfera em total sufoco, onde a tragédia é já uma premonição real e profetizada, e nela as personagens lutam ao sabor dos ventos de mau agoiro para contornar tal marcante destino.

 

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Uma criança de perigosos ideais, sob um evidente rancor e golpes vingativos em pleno crescimento no seu intimo, Brady Corbet dirige Tom Sweet (o nome revela-se numa paródia jocosa à sua personagem), que maneja todo este ódio na criação de um "pequeno monstrito" em ascensão para uma ameaça global. No centro deste ódio proeminente, encontra-se Bérénice Bejo num papel que partilha a mesma repudia que a personagem de Sweet, esclarecendo que em cada "psicopata" existe uma ligação umbilical com a sua matriarca. O confronto entre as duas forças faz-se sentir numa narrativa dilacerada em capítulos recorrentes a "birras". O ringue está montado, o espectador é o testemunho desta "origem" maldita com livre inspiração num conto de Sartre, que nos transporta para um ambiente de negligência afectuosa e disfuncional, o berço de um perverso "pensador", que analisa cuidadosamente a sua insaciável vedetta.  

 

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Se por vezes a câmara de Corbet revela genialidade com tendências suicidas (existe um dilema à lá Antonioni na sua sequência final, onde esta parece ser autónoma do seu manejador), é na banda sonora composta por Scott Walker que se contrai todo essa suspeita crescente. Apesar da "burguesia" envolto desta infância, tendo em conta que os grandes ditadores e infames lideres não obtiveram tais condições nos seus "verdes anos", A Infância de um Líder é,  apesar disso, uma das mais entusiasmantes e corajosas conversões de realização vista nos últimos anos. Corbet foge a "sete pés" do destino marcado dos actores convertidos a directores e sustenta um filme verdadeiramente assombroso, e o refere da forma mais sugestiva e misteriosa possível.

 

Real.: Brady Corbet / Int.: Tom Sweet, Bérénice Bejo, Robert Pattinson, Liam Cunnigham, Stacy Martin

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:10
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16.11.16

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Todo o cinema é político!

 

Ewan McGregor junta-se à mesma mesa dos actores convertidos a realizadores e ceia através de uma ambiciosa operação de adaptar o romance de Philip Roth, American Pastoral, vencedor de um Pulitzer. É certo, que existe um preconceito, se não antes uma precaução, em relação a estas passagens para o outro lado da câmara, que diversas vezes obtiveram resultados "mais ou menos" desastrosos como Brown Bunny, por Vincent Gallo, e Lost River, de Ryan Gosling, para dar alguns exemplos.

 

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Mas, McGregor, mesmo não deslumbrando, não cede ao desastre egocêntrico e consegue um agradável ensaio de classicismo cinematográfico. O actor / realizador é o protagonista desta história que remexe em consciências obscuras de uma América em extrema rebelião, captando temáticas pouco períodos ignorados como o activismo The Weather Underground, ou do extremismo liberal que em paralelo com a sua oposição, adquirem tons de gravíssimas perturbações de percepção moral. Aliás, como refere a personagem de Dakota Fanning (ressuscitada das sombras, mas não na sua total forma) a certa altura deste enredo de gerações, "a Politica está em todo o lado, até mesmo lavar os dentes é um acto politico".

 

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É sabido que o cinema adquiriu a sua faceta politica no preciso momento em que aprendeu a narrar, se já os irmãos Lumière criaram ensaios de tal conotação?  Todo o acto é politico, até o mero entretenimento pode ser visto numa igual vertente. Em relação a American Pastoral, existe uma clara evidência de McGregor disfarçar a politica deste seu cinema com uma emoção vinculada nos desempenhos das suas personagens, porém, sobra-nos uma réstia de impressão nesta busca pela verdade negada.

 

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American Pastoral evita o território do thriller que por ventura poderia gerar, assume tons caricaturais do seu tempo descrito para integrar-se precisamente no foro sentimental desta família desfeita (perfeita aos olhos de fora, mas em "cacos" pelos olhos "de dentro"). Contudo, esta emocionalidade poderia tomar proporções furtivas se Ewan McGregor conseguisse controlar a durabilidade do momento, não cedendo aos fade outs estéreis, nem abraçar inteiramente a arte clássica de fazer cinema em Hollywood, que já soa como um guia "para totós".

 

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American Pastoral pode não ser a adaptação perfeita do prestigiado bestseller, mas adquire tudo menos o efeito de desastre. Provavelmente temos em Ewan McGregor um sólido realizador. Veremos se este não será a sua única experiência no ramo. 

 

Real.: Ewan McGregor / Int.: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Rupert Evans, Valorie Curry, David Strathairn

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 19:50
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15.11.16

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Será Tom Ford um homem singular?

 

Aviso desde já, que este não é A Single Man, o filme que marcou a estreia do estilista Tom Ford na realização, um ensaio poético sobre a perda dirigido por um Colin Firth na sua melhor forma. Sim, uma obra inesquecível, onde Ford provou capacidade para induzir-se numa carreira cinematográfica, visto que conseguiu evitar, no seu primeiro filme, os erros que muitos cometeriam à primeira.

 

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Com Nocturnal Animals (Animais Nocturnos), a perda já lá vai, contudo, é o ensaio de uma infelicidade “bovariana” que perdura neste cheesecake cinematográfico, um filme de duas camadas que exorciza fantasmas que o próprio Tom Ford interage, simultaneamente invocando um medo quase irracional a uma América cosmopolita e burguesa, que tal como os créditos inicias indicam, viventes de um país de excessos. Amy Adams, destroçada e vencida pela melancolia, é uma dona de uma galeria de arte que descobre que mesmo tendo tudo ao seu alcance, a sua vida é um mero vazio. Esse vácuo é perpetuado até certo ponto que recebe um romance escrito pelo seu ex-marido. Perdida nas insónias que teimam não a deixar, a personagem de Adams arranca numa leitura a este livro misterioso, o que encontra é uma intriga de vingança e de impotência que parece, gradualmente, confundir com a sua vida em ruínas.

 

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O expoente estético de Ford é uma meticulosa arte de engano e desengano, até porque a “beleza” fingida de Animais Nocturnos disfarça a sujidade formal exposta na sua segunda camada do filme, a ficção por detrás da ficção, onde Jake Gyllenhaal é um homem duplamente perturbado, pela desilusão de um homem fraco e indefeso que habita no seu ser até à sede insaciável de vingança que parece alimentá-lo furtivamente. As duas camadas, tão diferentes como água e azeite interpõem-se uma à outra, sucessivamente, e aí que entra a maior falha de Tom Ford neste segundo produto, a ficção ficcionada é mais interessante que a história primária, e o pior é que sentimos que não foi preciso muito esforço para o conseguir.

 

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Sim, sabemos, Tom Ford quis explorar o vazio do mundo de aparências que o próprio intriga, mas é incapaz de tecer a crítica apropriadamente, mas pelo menos, faz melhor figura que Nicolas Winding Refn e a sua passerelle que fora The Neon Demon, simplesmente porque não cede à provocação fácil, tentando encontrar nos seus becos sem saída, uma eventual escapatória. Como cúmplice desta artimanha montada, está o elenco que consegue descolar dos bonecos que o próprio insuflou, nesse contexto as nossas atenções vão para Michael Shannon, um peixe dentro de água, cujas movimentações levam Gyllenhaal aos seus picos de indecência emotiva.

 

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Voltando ao ponto inicial, não temos aqui um A Single Man, infelizmente, Ford parece ter tremido por momentos, mas não o suficiente para ceder à pressão. Ele constrói um filme de camadas, como já havia sido referido, e a gosto, coloca o seu “quê” de sugestão. O final inesperado que atraiçoa o espectador e a catch phrase, “um romancista escreve sobre ele próprio”, a persistir após o desfecho dos créditos. Afinal, há aqui margem para explorar!

 

"When someone loves you, you have to be careful with it!"

 

Real.: Tom Ford / Int.: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon, Aaron Taylor-Johnson, Isla Fisher, Armie Hammer, Laura Linney, Karl Gusman

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 23:52
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14.11.16

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O homem que a História quer esquecer, mas o Cinema quer cobiçar!

 

Num determinado momento de Le Divan de Staline (O Divã de Estaline), uma fotografia do verdadeiro líder soviético é gradualmente sobreposta por uma imagem da personagem homónima encarnada por Gérard Depardieu. Não existem muitas semelhanças entre os dois (o real e o da ficção), mas somente a vontade de recriar e trabalhar a História, tirá-lo do seu estatuto imaculável e intocável, e fazer o Cinema exercer-se como um poço de criatividade em vias de exploração.

 

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O homónimo livro de Jean-Daniel Baltassat (uma perspectiva freudiana a uma das figuras incontornáveis da nossa História) é transportada para o grande ecrã pelas mãos de Fanny Ardant, a emblemática actriz que teima em deixar a sua marca como realizadora. A sua terceira longa-metragem vem inicialmente evitar os "becos sem saída" e o pedantismo "farsolas" de Cadências Obstinadas (Cadences Obstinées). Onde antes havia vazio emocional, agora há um outro sob o desejo de ser preenchido, como uma tela aguardando pelas suas cores. É nesse aspecto que o filme vem ganhando a sua devida forma. Assume-se então uma representação de um pedaço de História vencida, onde o teor psicológico aventura-se acima da veracidade dos factos.

 

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Há um regresso à ritualidade de Cinzas e Sangue (Cendres et sang), aquele fascínio pela plasticidade do organismo fílmico e a aspiração pela arma mais potente do teatro: a sua recorrente imaginação, aquele "faz-de-conta" na recriação. Talvez seja por isso que Depardieu funciona simbioticamente como uma alternativa estalineana, mais do que as vestes camaleónicas que um qualquer biopic de Hollywood tentaria culminar.

 

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Neste universo, o actor é o perfeito Estaline, numa versão que anseia respirar a breve emancipação. Um homem frio, calculista, inteiramente regido às ideologias criadas por ele próprio e estabelecidas no seu regime, um reinado com tamanho medo. O líder soviético espera aqui o seu momento de fragilidade, a desmistificação dos métodos de Sigmund Freud - a psicanálise - que o próprio considera charlatanices igualmente competentes que "roubam segredos a burgueses ricos" do outro lado da Europa. As sessões improvisadas, ensinadas no momento, servem de catarse para a desconstrução dessa mesma personalidade.

 

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Em contracampo, surge Emmanuelle Seigner como Lídia, a referida improvisada "psicanalista", a mulher "privilegiada" no seio afectuoso de Estaline, encarada como uma "ponte quebradiça" entre a emocionalidade resgatada do seu líder. As duas figuras constituem dois vértices de um triangulo formado por ódio / amor / medo, completado pelo pintor Danilov (Paul Hamy), um artista reprimido por uma expirada inspiração. Mas este triângulo é isósceles, dois lados servem como "sessões" de teor psicanalista a uma só figura, e a esta altura o leitor já se apercebeu qual sai beneficiada neste registo.

 

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Mesmo que a psicologia não esteja no ponto(uma ciência não exacta neste filme) é indiscutível o passo em frente que Fanny Ardant dá na sua carreira de direcção. O Divã de Estaline, é até à data, a sua obra mais completa, concisa e sobretudo, cinematográfica. Acreditando que o Cinema é uma arte de criação desprovida de rédeas, eis a minha saudação a Madame Ardant!

 

Filme visualizado no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Fanny Ardant / Int.: Gérard Depardieu, Emmanuelle Seigner, Paul Hamy, Joana de Verona

 

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7/10
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publicado por Hugo Gomes às 18:42
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14.11.16

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Um trabalho de actriz!

 

Benoît Jacquot não é necessariamente o realizador agressivo que o Cinema necessita, a sua passividade tem vindo a tornar-se, de certa maneira, uma rédea que o encurta de explorar psicologicamente e atmosfericamente as suas personagens. Como tal, esta adaptação de uma das obras mais exquisite de Don DeLillo, Body Artist, foi visto inicialmente como um projecto arriscado e demasiado ambicioso para os dotes de Jacquot. A merecer a bênção do próprio escritor, que supervisionou esta co-produção luso-francesa de Paulo Branco, e a protagonista, Julia Roy, a revelar os seus “truques” no argumento e na construção autodidacta da sua personagem, À Jamais é uma surpreendente nova faceta de um realizador em vias de penetrar territórios nunca antes explorados pelo próprio. Porém, não a sua total entrega carnal.

 

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A intriga, cenicamente transladada a Portugal, leva-nos a Laura (Julia Roy), uma artista performativa que terá que lidar com o suicídio do seu companheiro (Mathieu Almarich). De forma a lutar contra a perda e a constante saudade que a sufoca, Laura utiliza o seu método artístico para mimetizar os movimentos, os gestos, o dialecto, as rotinas, mais concretamente “ressuscitar” mentalmente o seu amor como um método freudiano enviusado em "mitologia" de Mary Shelley tratasse.

 

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Não existe um cadáver, uma entidade física onde uma vida pode ser devolvida de forma lazariana, abundam sim, as memórias, e a força destas que são “armas de apelo” da nossa protagonista, “barricada” na casa do seu ente querido, aguardando por fantasmas. Benoît Jacquot filma um trabalho de concepção de uma artista, o método invocado e elaborado como uma manifestação emocional, um saudosismo pesaroso pelo qual Julia Roy espelha no grande ecrã.

 

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À Jamais vive da actriz, vive do seu trabalho, da sua dedicação, e é nessa força que o espectador contempla, por fim, a fraqueza de Benoît Jacquot por detrás das câmaras, a referida passividade. O realizador revelou que não interferiu no desempenho de Roy, dando a liberdade para a sua criação. O resultado desta saudação à protagonista, é um ensaio psicológico que manifesta e expande para a além da sua atmosfera, mas a isso, devemos inteiramente a Laura Roy.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Benoît Jacquot / Int.: Laura Roy, Mathieu Almarich, Jeanne Balibar, Victória Guerra

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:12
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13.11.16

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The Last Family torna-se no grande vencedor da 10ª edição do Lisbon & Estoril Filme Festival. O filme do polaco Jan P. Matuszynski conquista o Prémio Melhor Filme Jaeger-LeCoultre, enquanto que The Sand Storm, de Elite Zexer, recebe a menção honrosa. O júri da Competição Oficial foi composto pelo cineasta Jerzy Skolimowski, que foi homenageado no festival, as actrizes Marthe Keller e Valentina Lodovini e o artista visual André Saraiva.

 

O mais recente trabalho de Paul Verhoeven, Elle, que tem arrecadado elogios por onde passa, foi o escolhido pelo público para o respectivo Prémio. Em relação às curta-metragens, The Sleeping Giant, de Laura Samani (Centro Sperimentale de Cinematografia, Itália), triunfa o Prémio, enquanto  que Paul Est Là, de Valentina Maurel (INSLA, Bélgica), recebe uma menção honrosa. O júri era composto pelos realizadores Daniel Rosenfeld e Lola Peploe e pelo actor Stanislas Merhar.

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:54
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O cinéfilo limitado e o Wim Wenders recuperado!

 

Qualquer cinéfilo que se preze é incapaz de conformar com as descrições de “arte menor”, ou “não arte”, assim como “mero entretenimento de feira”, o qual são dirigidas ao Cinema em geral. O verdadeiro cinéfilo nega, com todas as suas forças, a franqueza e simplicidade face em comparação com as outras artes. O cinéfilo é impuro, por vezes limitado à sua verdade, mas em isso do que desprezar o amor pela Sétima Arte e nunca abandoná-lo à sorte do menosprezo artístico. E se para muitos o Cinema não possui a profundidade da literatura, o uso imaginativo do “faz-de-conta” do teatro, a contemplação divina e quase artesanal da pintura, ou a monumentalidade da arquitectura, para o cinéfilo é nada mais, nada menos, que a fusões de todas essas plataformas artísticas, o filho bastardo que aos poucos toma o seu lugar.

 

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Mas abandonada a oligárquica ideologia de cinéfilo, sabendo que o Cinema não é par para a literatura e à dramaturgia, Wim Wenders aventura-se num extremo jogo “faz-de-conta”, experimentando uma adaptação de uma peça de Peter Handke (o dramaturgo tem um pequeno papel neste filme) para superar as limitações que inicialmente o colocaram. Infelizmente, Wenders cede à “burguesia” de um cinema erudito, tentando sobretudo apoiar-se nos textos que, para sua desgraça, não contrai a poética sonoridade nem os ecos de filosofia citada. Se o cineasta alemão tenta percorrer Eric Rohmer neste seu quadro vivo, esta prova auto-rejeita-se, os diálogos não foram o seu forte muito menos a proclamação destas prosas faladas, despejadas sem a orgânica, nem compostura.

 

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Porém, Wenders brinca com as dimensões, atropela-se nas plataformas artísticas que ele própria cita e tenta dar luzes a uma fértil amostra imaginativa, uma alusão da criação térrea de uma realidade. Assim, são duas que se embatem e dispersem, vidas artificiais pulsadas pelo toque do seu criador na sua máquina de escrever. Jens Harzer é um Deus para estes seres preenchidos por linhas, mecanizadas nas suas palavras, e é então que o improviso surge, os fatos que alteram a cor consoante a vontade do mentor, as falas que são interrompidas pelas mudanças musicais … e novamente a realidade paralela a funcionar quando entra Nick Cave em cena, a música pode ser o nosso álibi imaginativo.

 

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Mas o nosso leitor questiona neste preciso momento, do que se trata este "Os Belos Dias de Aranjuez"? A resposta esconde-se por entre estes artifícios manipuláveis, Wim Wenders tenta reinventar o seu cinema, colocando e transcendo das suas limitações enquanto criação visual. Obviamente, que esta nova obra não goza desse statment artístico, pelo contrário este retrocedo a um cinema burguês o coloca na pista donde o seu cinema evoluirá. Tal como o relato de uma das suas personagens, durante uma viagem a Aranjuez, a desilusão o tomou ao ver que a chamada “Casa del Labrador” não passava de um anexo no Parque Real, mas é nas groselhas, outrora domésticas, que adaptaram-se ao assilvestrado do meio, expandido e tomando o lugar das amoras e outros frutos que habitavam nos bosques para além do Tejo. Por outras palavras, Wenders descarta o seu cinema, assume a arte de outro e espera que esta toma a sua forma. Trata-se de cedência para mais tarde evoluir. Esperemos que sim.

 

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Contudo, o cineasta alemão tem sido dos poucos que tem associado o 3D ao cinema dramático, “despindo” das suas conotações circenses, porém, faltará uma maior emancipação para que sinta o uso dessa mesma tecnológica.

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Wim Wenders / Int.: Reda Kateb, Sophie Semin, Jens Harzer, Nick Cave

 

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6/10
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publicado por Hugo Gomes às 01:20
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12.11.16
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"Suícidio on Live"

 

Antonio Campos repesca um dos episódios mais trágicos da televisão norte-americana - o suicídio em directo da pivô e jornalista Christine Chubbuck - para apurar as causas que levaram esta mulher a cometer acto tão grotesco.

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A composição desta personagem misteriosa deve-se muito a Rebecca Hall que subjuga-se a este tormento psicológico num filme que aposta desde cedo na iminência da catástrofe. Obviamente, que o espectador sabe como terminará esta aventura pessoal, assim como um certo filme de James Cameron que "flutuou" nos box-office em 1997, mas o aqui em causa não é um filme válido pelo seu desfecho, e sim, um episódio recorrido em decadência humana, uma tragédia grega que joga o meta-palco da sua criação.  

 

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Campos sempre teve um "fraquinho" por personagens torturadas, absorvidas por um ambiente em total decomposição, assim como o destino destas. Rebeca Hall cria em Christine um derradeiro duelo intrínseco entre uma réstia de esperança, uma salvação que o espectador aguarda desesperadamente, porém, sabendo à partida que tudo é em vão. Sim, este é o tipo de obra que qualquer guia televisivo expõe o aviso do "anti-feel good movie", o cinema que reflecte o quão frágeis nós somos, o quão vitimas somos dos nosso próprios objectivos profissionais, ao mesmo tempo, Antonio Campos dá-nos certas luzes sobre a condição e evolução da comunicação social, em certa parte, a forma como o jornalismo adaptou-se às audiências e não o oposto.

 

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Existe aqui, evidente inspiração aos dotes dramáticos de Network, de Sidney Lumet, à hipocrisia implementada pela "caixinha mágica" e a sua interacção com o exterior. Contudo, como biopic, se é que Christine anseia afirmar-se como tal, o filme tende em afastar-se desses lugares comuns de agenda award season, apostando da ênfase dramática e na criatividade desse sentido nas suas personagens. A depressão é um efeito secundário e o complexo desempenho de Rebecca Hall a principal medida.   

 

"Yes, but …"

 

Filme visualizado no 10º Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Antonio Campos / Int.: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts

 

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8/10
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publicado por Hugo Gomes às 15:55
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6.11.16

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Perfeito, perfeito … era inovação!

 

Vamos por partes, a esta altura do campeonato, cruzar ficção com documentário, o docudrama que os portugueses tão bem sabem fazer, já não possui ciência nenhuma, muito menos quando os objectivos de um filme como este El Futuro Perfecto não sejam sobretudo claros.

 

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Dirigido por Nele Wohlatz, alemã radicada na Argentina, este é um filme onde a evidente intenção é apresentar a condição do imigrante e demonstrar que mesmo em perseguição de um “better place”, sonham e aspiram por um "futuro perfeito". A língua é também um importante vinculo identitário e até certa altura El Futuro Perfecto aposta nas palavras soltas, ensinadas sob a intenção de sobrevivência e sem um mínimo despejo emocional. Mas também é sob esse tratamento frio e encoberto que nos descortina uma mensagem perigosa e por vezes nacionalista, será que este grupo de personagens que cede à cultura de fora é característica de tamanha inexpressividade, será que uma língua oposta aquela que nós dialogamos as tornam em relativos "humanóides robóticos".

 

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Emoção, é decerto, aquilo que a obra de Wohlatz não ostenta, e como prova dessa falta de interacção humana, empatia é algo que nos falha enquanto espectador. Mas enfim, o que dizer do resto deste exercício de hibridez documental? El Futuro Perfecto esgota a sua virtude experimental em minutos, depois do "I get it", tudo é recorrido para crise identitária por parte da personagem principal, a jovem chinesa Xiaobin, que auto-intitula-se de Beatriz e até certa altura de Sabrina. A rapariga, que entra em restaurantes para poder ler o respectivo menu, em busca de uma ligação carnal com as palavras em dialecto latino, vive um romance imaginário que a coloca no trilho da sua escapatória emocional.

 

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Essa dita relação é vazia e penosa de assistir, a culpa é diversa, ou os actores (não-actores) não possuem a aptidão de ultrapassar as palavras, ou a realizadora não procurava qualquer foro emocional para não cair no erro de ceder ao telenovelesco. Conforme tenha sido a decisão, este é o romance (se poderemos chamar assim), mais "gelado" dos últimos anos. El Futuro Perfecto fica-se pelo exercício, mas uma experiência vista e revista vezes sem conta. Esperemos que o futuro de Nele Wohlatz soe melhor que isto.

 

Filme visualizado no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival

 

Real.: Nele Wohlatz / Int.: Xiaobin Zhang, Saroj Kumar Malik, Mian Jiang

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 19:08
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5.11.16

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Considerado por muitos, uma das mulheres mais belas do Cinema, Monica Bellucci é uma das presenças de honra deste 10ª Lisbon & Estoril Film Festival. Na sua passagem pelo mediático festival lisboeta, a actriz foi convidada a escolher um filme para apresentar nesta programação, a sua decisão caiu em Málena, o filme de Giuseppe Tornatore o qual interpretava uma mulher que desperta sexualmente um jovem. A representação da musa feminina que leva “bambinos” à fase adulta, é para Bellucci um dos papeis cruciais da sua carreira.

 

Málena foi “importante para o meu processo de trabalho como actriz”, argumenta Bellucci perante a questão da escolha deste filme, “Impulsionou a minha carreira internacional. Enquanto atores, procuramos sempre algo, mas nunca sabemos ao certo o que procuramos. Hoje vejo melhor o que estava a procurar e penso que tenha encontrado na minha experiência em Málena. Existiu aqui algo no meu processo de trabalho.

 

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Julgo o que procurava e que acabei por encontrar neste filme foi o poder da feminidade e isso sempre reflectiu na escolha dos meus papeis, pretendia personagens com feminidade, frágeis e igualmente fortes.” Ainda sobre Málena, Bellucci situou o filme e o entusiasmo geral suscitado na altura da sua estreia [no ano 2000] com a indústria cinematográfica italiana, “Sempre tivemos nomes importantes no nossa cinematografia: Sicca, Vischonti, Fellini, mas depois isso perdeu-se, e nesse período interessou-me trabalhar com realizadores de outras nacionalidades, desde a americanos, franceses e até sérvios (risos). Málena, por outro lado, demonstrou que o cinema italiano ainda pode ter visualização global na actualidade”. 

 

Mas Málena não será o único filme presente no Festival com a participação da actriz, em estreia nacional vamos ser presenteados com On the Milky Road, a sua colaboração com o sérvio realizador Emir Kusturica, também em retrospectiva neste evento. Bellucci afirmou que o seu processo de trabalho no filme de Tornatore tem “uma continuidade com On a Milky Road”.

 

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No filme de Kusturica, a actriz é novamente uma atracção amorosa, mas desta vez para um leiteiro interpretado pelo próprio realizador. “Fiquei maravilhada com o seu talento. Emir Kusturica é um talentoso artista, é realizador, músico, compositor, actor, é um poeta interior, mesmo com a sua aparência algo rude.”Em relação à linguagem, visto que Bellucci fala sérvio em On a Milky Road, a actriz referiu o apoio que teve durante a rodagem, salientado que inicialmente tinha medo de apostar numa língua tão desconhecida para si. “Foi difícil de inicio. Não sabia o que fazer.

 

A actriz, com a sua invejável beleza aos 52 anos, falou com os jornalistas sobre a relevância da beleza nas actrizes, e visto que essa opressão estética esteja a mudar na indústria, “As novas formas de amar uma mulher e actriz. Devemos passar da beleza exterior para a beleza interior.” Sobre o seu confronto com um eventual envelhecimento, Bellucci referiu que “muitas actrizes são belas, mas há que aceitar que a beleza jovial facilmente desaparece e quando isso acontecer temos que aceitar um outro tipo de beleza. A beleza muda e o envelhecimento é por si, belo, e as interpretações vem da alma e não da aparência.

 

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Como não podia deixar de ser, as questões sobre Portugal e a sua adaptação à capital lisboeta. “A primeira vez que estive em Portugal foi há 14 anos, e automaticamente fiquei apaixonada pelo país, sobretudo pela cidade de Lisboa. Quando fui convidada a fazer um anúncio aqui, mentalizei-me do seguinte, ‘um dia vou comprar uma casa aqui’, e assim foi.” Quanto ao cinema português, revela que “estou na fase de descobrir, mas obviamente, que um dia, se tiver oportunidade, irei integrar um filme português.

 

Monica Bellucci irá fazer parte do elenco da série Mozart in a Jungle, ao lado de Gael Garcia Bernal, sobre o papel da televisão nos dias de hoje, a actriz reconhece o crescimento e a diversidade da aposta, “actualmente, como actriz posso interpretar grandes papeis na televisão, e mesmo assim não ter barreiras para o cinema”. Mas em contradição, diz que a televisão tem limitações e que nunca tirará lugar à Sétima Arte, “acredito que no Cinema, as imagens sobrepõem às palavras. As imagens falam por si.”

 

Mas existe algo certo no futuro de Monica Bellucci, é que a nossa diva do Cinema nunca apostará na realização, palavras suas. “Neste momento tenho um projecto onde serei actriz e produtora, nunca chegarei a realizadora, é uma área que sinceramente não tenho qualificações, nem interesse.”.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:30
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4.11.16

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O soldado pacifista contado por Mel Gibson arrancará o 10º Lisbon & Estoril Film Festival, uma edição que apesar de destacar as últimas e aclamadas produções vinda dos maiores festivais internacionais tem como principal foco uma extensa homenagem ao franco-suíço Jean-Luc Godard. Um dos grandes impulsores da Nouvelle Vague, um amante incondicional do Cinema, pronto para construí-lo e desconstruí-lo, tem aqui a sua carreira de 60 anos condensada em somente 10 dias.

 

Mas por enquanto, o primeiro passo do festival se dará com a antestreia de Hacksaw Ridge, a história verídica de Desmond Doss, um jovem que fora recrutado para combater na Segunda Guerra Mundial, mas que sempre recusara matar ou até mesmo pegar numa arma. No final da guerra, foi condecorado inúmeras vezes por gestos de bravura e de sacrifício humano devido às suas extraordinárias tarefas como médico em pleno cenário bélico.

 

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Mel Gibson regressa a direcção, dez anos depois de Apocalypto. Acusado diversas vezes de ser explicitamente violento, o realizador decide abordar uma história de um homem ligado à paz, um homem ligado à paz, quer espiritualmente, quer fisicamente, mesmo que o filme recorra sob fortes tons bélico. Andrew Garfield (The Social Network, The Amazing Sipder-Man) foi o escolhido para interpretar Doss, numa prestação que se adivinha chegar às nomeações aos Óscares, assim como o próprio filme que tem sido encarado como a reconciliação de Gibson a Hollywood.

 

Hacksaw Ridge tem estreia prevista para dia 10 de Novembro nos cinemas portugueses.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:10
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13.10.16

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Jim Jarmusch estará em Portugal por alturas do 10º Lisbon & Estoril Film Festival para apresentar as suas duas mais recentes obras - Gimme Danger e Paterson. O anúncio seguiu da própria organização, cujo realizador norte-americano irá integrar a lista de convidados do festival, que conta ainda com as actrizes Anna Karina e Nicoletta Braschi, o actor Jean-Pierre Leaud, e o realizador e escritor Atiq Rahimi.

 

É de salientar que Golshifteh Farahani também estará presente no festival, a actriz iraniana célebre pelos seus desempenhos em About Elly e em Body of Lies, de Ridley Scott, é uma das protagonistas de Paterson, ao lado de Adam Driver, sobre um motorista de autocarro que escreve poemas. Enquanto isso, Gimme Danger é uma viagem documental à banda de rock-and-roll The Stooges, de Iggy Pop.  

 

As seguintes sessões apresentadas pelo realizador terá lugar:

 

Paterson 
5ª feira, 10 Novembro, às 22h00 
Cinema Medeia Monumental, Sala 4 


Gimme Danger 
Sábado, 12 Novembro, às 21h30 
Centro Cultural de Belém, Grande Auditório

 

Ver também

American Honey, Elle, Kusturica, muitas novidades no 10ª Lisbon & Estoril Film Festival!

 


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publicado por Hugo Gomes às 21:54
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