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Título
Take
29.3.17
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O efeito negação!

 

Por vezes também acontece o inesperado, um filme medíocre onde as possibilidades de cinema são limitadas pela linguagem televisiva e no virtuosismo académico, que mesmo assim tem a capacidade de gerar um debate para além do visto na grande tela. Denial (Negação), de Mick Jackson, resume-se a um drama de tribunal que tem como anexo uma história verídica (o que não falta por aí são "histórias verídicas", ou seja, a "oeste" nada de novo, o julgamento de Deborah Lipstadt (Rachel Weisz), escritora do livro Denying The Holocaust, da editora Penguin Books, acusada de difamação para com o historiador David Irving (Timothy Spall), um negacionista do Holocausto e um dos maiores estudiosos da vida de Adolf Hitler.

 

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Ao decorrer desta obra, que remexe sem espinhas por entre a sua compostura competente e o elenco de igual adjectivo que faz antever uma boa entrega nesta reconstituição, Denial vai-nos apresentando temas que implodirão como objectivos para uma eventual discussão e reflexão acerca do mundo que assistimos em constante transformação. A ascensão do populismo, com clara ligação aos extremismos, essa propagação, e até que ponto a liberdade de expressão poderá ser abalada, e o quanto abalados poderemos ser em relação à mesma, e por fim, o negocismo como um problema, suavizado por historiadores, como um revisionismo histórico, e por vezes utilizado sob contextos políticos e ideológicos.

 

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Temáticas, essas, que ficam para fora da sala, visto que a obra de Mick Jackson "sensivelmente" toca nos pontos, mas a sua agenda possui uma certa tendência ao moralismo panfletário. Em particular, há que realçar uma sequência dispensável à narrativa, decorrida fora dos réus, que comete a pedagógica alusão do Holocausto como um assunto inesquecível e cuja a abordagem é necessária para evitar réplicas imorais. Uma cena com os propósitos de abalar consciências e criar um signo de "males que vem por bem" no nosso século. Será o Holocausto cada vez mais restrito a um símbolo de erro humano, e custe o que custar teremos que relembrar na consciência como uma porta interdita a reentradas?

 

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Sim, um filme como este, condenado ao esquecimento e sem o brilho da literal categoria cinematográfica, consiga ser um fósforo por entre uma inflamável "fogueira". Talvez seja os tempos "loucos" que nos fazem requerer modéstias como implantes reflexivos e pensativos do nosso século XXI. Esquece-se o filme, fica-se pelo debate.

 

Filme de abertura do 5º Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Mick Jackson / Int.: Rachel Weisz, Timonthy Spall, Tom Wilkinson, Andrew Scott

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 16:58
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20.3.16

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Filmando a História!

 

Os tempos mudaram, ficar impressionado, "espantado" ou emocionado perante relatos de sobrevivência ou desolação do Holocausto é visto como uma tarefa incompleta nos dias de hoje. Há que apostar no intimismo, no veio filósofo sobre o próprio acto humano e o olhar politico que levou o Mundo a conhecer uma das piores facetas da Humanidade.

 

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São os tempos da Banalidade do Mal, essa tese implementada pela filósofa Hannah Arendt após a sua cobertura ao mediático julgamento de Adolf Eichmann, o braço direito de Hitler e o assumidamente orquestrador da Solução Final de Extermínio dos Judeus. Este seu contacto com o dito "monstro", motivou-a à reflexão da condição humana e a raiz do mal, longe dos floreados maniqueísmos vendidos a "torto e a direito", mas sim da capacidade de actuar perante o juízo de cada um, correcto ou errado consoante a perspectiva e a aptidão de que tais "gestos" ou "desumanidades" possam ser replicados até mesmos pelos posteriores agredidos, sem estes perceberem as respectivas consequências.

 

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Enquanto Arendt defendeu que Eichmann não era melhor nem pior que os restantes, apenas alguém que cumpria ordens sob uma submissão crente, o documentarista Leo Hurwitz, ao lado do produtor Milton Frutchman (responsáveis pela transmissão televisiva do dito julgamento), procuram no nazi o seu último reduto de sensibilidade humana, para que esta imagem possa advertir futuras gerações que até mesmo o mais indefeso pode-se converter num fascista e que não existe coisas como "monstros" no mundo real.

 

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Induzido por uma produção de cunho BBC, The Eichmann Show é uma actualização aos horrores narrados de uma Guerra à ética e à moral cada vez mais longínqua, enquanto tudo corre de forma bem oleada como "manda a sapatilha" da produtora. Mesmo assim, sob o comando de um produto a roçar o telefilmíco, Paul Andrew Williams acerta em algumas escolhas na narrativa desta investida doutrinal. O uso das filmagens reais, os relatos que marcaram a História, preservados ao bom uso da intriga e que de raccord assentam nas imagens ficcionais, tornam esta experiência (que se adivinhava maçadora) num ensaio modesto de como uma cinebiografia pode ser verídica em simultâneo com a sua liberdade cinematográfica.

 

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The Eichmann Show faz ponte com o recente Im Labyrinth des Schweigens (apresentado como filme de abertura da edição anterior da Judaica), o qual esboçam uma época onde campos de concentração e genocídio em massa em países "civilizados" constavam imaginações alienadas. Ambos os filmes reconstroem esse embate, o confronto de uma actualidade com um passado pesaroso que nem todos tiveram a insanidade de esquecer. Visto como um produto profissional composto por desempenhos competentes (Anthony LaPaglia), eis um tratamento moderno com indícios reflexivos a um dos temas mais controversos da História do século XX. O julgamento de um assassino ou a vingança judia que funciona como uma compensação por perdas irreparáveis? Fica no critério do espectador.

 

Filme visualizado no 4º Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Paul Andrew Williams / Int.: Martin Freeman, Anthony LaPaglia, Rebecca Front

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 19:43
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17.3.16

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Natalie Portman entre a espada e a parede!

 

A primeira longa-metragem sob a batuta de Natalie Portman resume-se a um esforço hercúleo de uma estrela de Hollywood em "abraçar" as suas origens, enquanto procura dignidade artística dentro de uma indústria cinematográfica. Transcrevendo assim a autobiografia de um dos maiores escritores de Israel, Amos Oz, num registo que acaba por esboçar a sua infância como a relação com a progenitora, A Tale of Love and Darkness (A História de Amor e Trevas) é uma obra orquestrada pelas palavras do seu autor (readaptado pela própria realizadora).

 

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Essa dita verborreia corresponde com etimologia ao visual descrito pelo filme, a fotografia pálida transmite convenientemente o estado espírito do protagonista, e essa relação entre a escrita e a imagem indicia os propósitos herdados pelo pai de Oz "toma atenção à ligação entre palavras". Falando em ligação, é evidente o paralelismo do crescimento do escritor, o menino de ontem, com o conflito israelo-palestino, um cenário bélico e de desolação que contribuirá para a afirmação do homem do amanhã.

 

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O filme tende apresentar de forma quase orgástica a criação do Estado Livre de Israel (que no entretanto a narrativa cruza), ao mesmo tempo que "afia as facas" para uma catarse ambígua que determina um inimigo comum de dois povos rivais. Aqui a Europa é vista como uma terra maldita, lares de colonos e nazistas que deixaram a mercê um povo ao abandono de uma nação prometida. É sabido que Portman respeita a ideologia e o contexto histórico de cada palavra proferida por Oz. Todavia é certo, que esse escape através da língua de outro seja visto como uma desculpa para visualizar um lado da Guerra, e assim incutir a tentativa de complexidade poética do lado biográfico da fita.  

 

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A actriz, que também protagoniza sob algumas dificuldades no dialeto, encarou imensos obstáculos até à concepção deste projecto, mas esse percurso "espinhoso" atribuiu a esta realizadora o seu "quê" de pretensiosismo. Aliás, essa ambição de interpretar os pensamentos de Amos Oz assumem como uma gratificante virtude e ao mesmo tempo um pecado carnal para o filme. Portman é uma "workaholic" empenhada, porém, esse dito compromisso intromete nas "asas" que A História de Amor e Trevas poderia adquirir, para além de constantemente ceder a um ensaio narcisista da actriz / realizadora. Nota-se essa vontade de emancipação induzida nas trevas do ego, bem que longe de se tornar na maior "borrada" de um curriculum declara como uma obra actualmente menosprezada, provavelmente valorizada daqui a um par de anos. Talvez aí a ânsia de uma estatuto artístico interrogado seja por fim encontrado.

 

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Por enquanto, Natalie Portman estreia na realização, dirigindo ela própria num dos seus melhores desempenhos recentes. A História de Amor e Trevas é um filme que queremos gostar a todo o custo, infelizmente, é demasiado quebradiço e presunçoso para que nos atinja com o seu objectivo emocional. Esforçado, mas …

 

"You can find hell and also heaven in every room. A little bit of evilness and men to men are hell. A little bit of mercifulness and men to men are heaven."

 

Filme de abertura da 4ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Natalie Portman / Int.: Natalie Portman, Shira Haas, Makram Khoury

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 08:42
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16.3.16

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Arranca hoje a 4ª edição do Judaica – Mostra de Cinema e Cultura, que regressa ao Cinema São Jorge, em Lisboa, até ao dia 20 de Março. Este anos, um dos mais crescentes festivais de cinema do país, tem como principalmente novidade o alargamento da programação para Cascais (8 a 10 de Abril) e Castelo de Vide (5 a 8 de Maio). Belmonte continuará presente na mostra, celebrando a Judaica nos dias 14 a 16 de Abril.

 

O primeiro dia será marcado pela antestreia nacional de A Tale of Love and Darkness (Uma História de Amor e Trevas), a primeira longa-metragem realizada pela actriz Natalie Portman que se concentra como uma adaptação da homónima autobiografia do escritor israelita Amos Oz. Apresentado no último Festival de Cannes, o filme leva-nos ao recém-criado Estado de Israel nos anos 40, salientando os conflitos gerados entre israelitas e palestinos. Natalie Portman frisou a dificuldade em conceber este projecto, sendo que a sua participação como protagonista teve como principal intuito facilitar o financiamento da obra.

 

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Na selecção cinematográfica, destaca-se ainda as produções, Pour une Femme (Por uma Mulher), um filme de Diane Kurys que conta com a actriz Melánie Thierry no protagonismo numa intriga que invoca memórias do Holocausto. The Eichmann Show, de Paul Andrew Williams, a dramatização do julgamento de Adolf Eichmann em Israel, Martin Freeman (The Hobbit) encontra-se no elenco, e Fire Birds, um filme de Amir Wolf (Snails in the Train) que transcreve-se como um policial cosido sobre reflexões pós-Holocausto.

 

Todavia, o Judaica não é apenas composto por filmes, a literatura tomará uma importante fatia na programação do evento. Como já é habitual o festival tende em unificar a visão cinematográfica e os romances literários, um desses exemplos é o filme de encerramento, Fever at Dawn (Febre ao Amanhecer), uma estreia absoluta que contará com a presença do realizador e autor do livro, Péter Gárdos. Em relação ao livro, a sua  venda na tradicional Feira do Livro é garantida.

 

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Outra novidade na edição deste ano é a substituição de uma noite de cinema por um concerto musical. No dia 19, Sábado, o São Jorge será palco para Daniel Kahn & The Painted Bird, uma banda berlinense que mistura a tradicional música Klezmer com outro género de melodias.

 

Para mais informação sobre a programação, ver aqui

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:08
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13.4.15

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A primeira longa-metragem de Giulio Ricciarelli, Im Labyrinth Des Schweigens (O Labirinto das Mentiras), estreia por fim em circuito comercial a partir de próxima quinta-feira, dia 16 de Abril, o filme teve as honras de abrir a 3ª edição do Judaica - Mostra de Cinema e Cultura. O enredo deste thriller centra numa Alemanha que tenta descaradamente ocultar todos os indícios do Holocausto e outros horrores cometidos pelo Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial, um jovem procurador tenta levar a julgamento alguns dos responsáveis pela desumanidade que manchou o passado de uma nação. O Labirinto das Mentiras é baseado no Julgamento de Frankfurt-Auschwitz em 1963, onde 22 ex-guardas do campo de concentração foram constituídos arguidos, num caso que incentivou uma autêntica "caça aos monstros".

 

 

O Labirinto das Mentiras é um filme recomendado pelo Cinematograficamente Falando …, a crítica poderá ser lida aqui.

 

 

Ver Também

Judaica 2015: Assombrações do Passado abrem terceira edição da Mostra!

Arranca amanhã o Judaica 2015: Mostra de Cinema e Cultura!

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:31
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8.3.15

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 Romance à judaica!

 

A comunidade hassídica e a actriz Hadas Yaron parecem permanecer num compromisso matrimonial no cinema. Depois de ter sido consagrada com o prémio de Melhor Actriz no Festival de Veneza com Fill the Void (A Noiva Prometida), um retrato nada acusador dessa sociedade ultra-conservadora judaica, Yaron torna-se a musa de Maxime Giroux e Françoise Delisle nesta obra que incute o romance como um escape quotidiano. Ela é Meira, uma judia hassidica que vive "aprisionada" aos costumes e às rígidas tradições da sua religião, em particular com o seu marido. Do outro lado encontramos Félix (Martin Dubreuil), um homem que tenta superar a morte do pai e que tece um magnético fascínio por Meira. Ambos, dois seres envolvidos na solidão dos seus dias, criam laços e uma cumplicidade entre eles que dificilmente os seus mundos anteriores poderão resgatar.

 

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De certa forma despreocupado com a maneira como lida como o romance, Félix & Meira, centra-se mais como uma mera fórmula de "boy meets girl" e avança com uma fuga labiríntica, onde não falta uma atmosfera doce e melancólica. Este é um filme simples que nos conquista por isso mesmo, pela sua simplicidade sincera e terna (não verificamos nada mais explícito que o simples abraço caloroso), sem demasiadas convenções com a ficção cinematográfica, um pouco como Sofia Coppola conseguiu com o seu Lost in Translation: a "colisão" de dois mundos distintos entregues à aritmética dos sentimentos.

 

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Para além de tudo, Félix & Meira é bem interpretado. Hadas Yaron prevalece num estado melancólico contagiante e sob um constante olhar de redenção para o cerco que a rodeia. Luzer Twersky, que desempenha o marido de Meira, consegue também conquistar-nos como uma personagem nobre, apesar disso não transparecer inicialmente. A dupla Giroux e Delisle concretiza aqui um filme com fortes relações musicais: ambos os realizadores cresceram com a presença dos videoclipes e isso (sob uma boa vertente) encontra-se bem presente na narrativa e nas emoções das respectivas personagens, basta apenas verificar o efeito que After Laughter (Comes Tears), de Wendy Rene, tem em Meira, ou no desgostoso climax imposto por Famous Blue Raincoat, de Leonard Cohen.

 

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Outras influências que poderão ser encontradas em Félix & Meira é a previsibilidade das influências shakespereanas, não apenas inseridas no romance impossível digno de Romeu e Julieta, mas na atracção de Veneza como um ponto de refúgio (acentuado por uma atmosférica fotografia de Sara Mishara). Porque todo os seres merecerem o seu biótopo, sem amarras que os prendam. Muito mais que um mero romance de pacotilha!

 

Filme visualizado na 3ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Maxime Giroux, Françoise Delisle / Int.: Hadas Yaron, Martin Dubreuil, Luzer Twersky

 

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Ver Também

Fill the Void (2012)

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:17
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8.3.15

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O “anti-Sombras”!

 

Algo tão comum e fácil de ser obtido no Ocidente é quase uma tragédia de arrecadar em Israel. Pelo menos é isso que é demonstrado em Gett: O Processo de Viviane Amsalem, a luta de uma israelita em conseguir o divórcio do marido (divórcio = gett) com que convive há mais de 30 anos, pelo simples motivo de não sentir qualquer amor por este. É um facto que é incompreendido na comunidade religiosa judaica, assim como os conservadores juízes que não poupam nos julgamentos desiguais entre sexos.

 

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Dirigido pela dupla Ronit e Schlomi Elkabetz, Gett fecha uma ousada trilogia de denúncia das "anormalidades" que tal sociedade parece engendrar. Neste caso, o tribunal das disputas matrimoniais é o alvo dessa análise, o limiar do burlesco e do surreal. No centro deste filme, filmado sob quatro paredes (todo o enredo decorre dentro do tribunal, mesmo na passagem dos meses / anos), encontramos a atriz e realizadora Ronit Elkabetz (que há uns anos vimos como protagonista na primeira incursão cinematográfica de Fanny Ardant, Cendres et Sang) e que conduz uma personagem singular, cujas primeiras emoções são expressadas através do seu visual.

 

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Pois bem, por entre os episódios temporais deste demoroso julgamento, a Viviane do título é uma mulher à mercê da perspetiva masculina numa comunidade que sobrevaloriza o homem como o catalisador das decisões e na posse das suas esposas como propriedade. Silenciosamente indignada por esse sistema, é no seu vestuário e cabelo que reside a sua libertação corporal. Por exemplo, em 80% da fita, Viviane ostenta o preto como um luto interminável pela sua liberdade. Nos momentos mais acesos do processo, a vestimenta torna-se vermelha, fortalecendo um conflito que se converte de algo intimo em um verdadeiro palco de guerra. Posteriormente, o branco marca a presença, manifestando uma emancipação emocional de que a protagonista torna-se alvo, numa das actuações mais fortes e explosivas da carreira de Elkabetz. O cabelo também tem o seu papel, neste caso num modo desafiador e guerrilheiro para com o tribunal.

 

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Esta linguagem corporal e visual assenta que "nem uma luva" na direção do par de realizadores, que por sua vez oferecem-nos um filme que desafia o próprio estilo académico (basta ver a quantidade de "saltos ao eixo" que a câmara executa durante os depoimentos). Depois é o modo trocista que os cineastas indiciam em toda a narrativa. A caricatura encontra-se de certa forma presente na descrição do tribunal, nas testemunhas que entretanto surgem em "palco", aludindo a críticas sociais, e no próprio processo ritualizado da simples facultação do divórcio. Visto como um herdeiro de 12 Angry Men, de Sidney Lumet, Gett ainda nos presenteia com um certo tom vintage. Este é um filme do qual será difícil nos divorciar.

 

Filme Visualizado na 3ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Ronit Elkabetz, Schlomi Elkabetz / Int.: Ronit Elkabetz, Simon Abkarian, Gabi Amrani

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 11:40
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7.3.15

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Narrativas e emoções corridas!

 

Baseado numa obra literária do autor israelita Uri Orlev, que por sua vez se baseia em factos reais, em Lauf Junge Lauf (Corre, Rapaz, Corre) acompanhamos "Jurek" Srulik, um rapaz polaco de oito anos que tenta sobreviver aos horrores da Segunda Grande Guerra e à fervorosa caça aos judeus. A maior virtude da relevância da floresta para com os judeus polacos (ficamos tão mal servidos com Defiance, de Edward Zwick) é o afastamento dos lugares-comuns que os campos de concentração se converteram neste tipo de produções, porque de resto temos todo os outros.

 

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Aliás, existe nesta longa-metragem de Pepe Danquart (realizador de Schwarzfahrer, o vencedor do Óscar de Melhor Curta-Metragem em 1993) um certo sabor de "best hits" dos elementos de sobrevivência na Segunda Guerra Mundial. Isso é acentuado por uma narrativa episódica, demasiado esquemática para envolver-se numa ênfase dramática grandiloquente, como se pode verificar a certa altura em que um cão, que acompanhava a jornada do protagonista, é morto a tiro. Nessa determinada sequência, o rapaz chora desalmadamente, mas o que nós sentimos nesse exacto momento é o somente contacto com imagens e não com o conteúdo. É verdadeiramente triste ver um drama deste género que não consegue acentuar mais do que um retrato de telefilme, auferindo uma sensação de desperdício perante uma fotografia ímpar de Daniel Gottschalk, uma banda sonora cativante da autoria de Stéphane Moucha e até mesmo interpretações convincentes para o efeito (destaque para os gémeos Andrzej e Kamil Tkacz, que interpretam Jurek).

 

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O que verdadeiramente sentimos é bons valores de produção tecidos por um frágil fio entre eles, arrastando-se um aos outros de um jeito quase automático. Corre, Rapaz, Corre é como o seu protagonista, um aventureiro irreverente, mas condenado à sua impotência, onde a única solução é mesmo "correr". Uma grandiosa história transformada num filme bem concretizado, mas estruturalmente ineficaz. Mereciam mais estas memórias.

 

Filme visualizado na 3ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Pepe Danquart / Int.: Andrzej Tkacz, Kamil Tkacz, Elisabeth Duda

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 14:09
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Ao reencontro do lar!

 

Vencedor do "Dialogue en Perspective", no Festival de Berlim de 2014, Anderswo (Noutro Lugar) centra-nos na história da jovem israelita Noa (Neta Riskin), uma estudante em Berlim que efectua um dicionário de palavras intraduzíveis como o seu projecto de mestrado. Porém, a Universidade não encontra nada de promissor neste trabalho, negando assim o seu financiamento. Insatisfeita com o rumo que a sua vida parece caminhar, visto que a relação com o seu namorado alemão já havia conhecido melhores dias, Noa regressa à sua terra natal, Israel, para reencontrar a sua família e provavelmente um sentido para tudo o que de momento vive.

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Uma comédia dramática sobre costumes e choques culturais que se manifesta como uma muito subtil critica à superação do conflito da Segunda Guerra Mundial, prescrevendo o modo como duas nações o concretizaram. A obra de Esther Amrami expõe a actualidade de dois mundos, investidas em preconceitos, encaminhando-as para algo mais que somente caricaturas e para um pertinente cenário de disputa. De certa forma comparável com uma Gaiola Dourada israelita ou até um Namoro à Espanhola (Ocho Apellidos Vascos)Noutro Lugar incute ocasionalmente um tom irónico e ácido, uma atitude jubilante para o choque, mas é sobretudo um filme que se interliga pela sua mensagem, tentando "cobri-la" com a sua afeição familiar.

 

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As interpretações fazem o resto, não ficando mal perante esta intriga resolvida por redenções e cedências, nomeadamente uma impagável e sarcástica Hana Laszlo, como mãe de Noa, e a própria, Neta Riskin, a liderar através da expressividade. Noutro Lugar resulta parcialmente num aliciante filme intimista e pessoal. Contudo, essa intimidade, ao contrário do dicionário de palavras intraduzíveis de Noa, pode ser traduzido para uma linguagem universal. Em Portugal até temos uma palavra ideal para tal: saudade.

 

Filme visualizado na 3ª edição do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Esther Amrami / Int.: Neta Riskin, Golo Euler, Hana Laszlo, Romi Aboulafia

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 13:01
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6.3.15

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Consolidação com os fantasmas da Guerra!

 

A primeira longa-metragem do actor italiano radicado na Alemanha, Giulio Ricciarelli, Im Labyrinth des Schweigens (O Labirinto das Mentiras), é um thriller jurídico que nos remete a um dos momentos históricos mais marcantes da Alemanha pós-guerra e até mesmo do Mundo. Esta história fictícia, que tem como base o julgamento de Auschwitz, decorrido em Frankfurt em 1963, onde 22 ex-guardas do campo de concentração foram constituídos arguidos e mais de 211 sobreviventes prestaram os seus depoimentos, é acima de tudo um produto cinematográfico que tem o intuito de incentivar o público a não esquecer os actos cometidos naquela época negra e do valor (des)humano que aquele lugar parece transmitir.

 

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Hoje tido como um reduto do mal ou um cemitério símbolo, Auschwitz, localizado na Polónia, foi em tempos uma "pedra esquecida" por uma Alemanha que tentava renascer das cinzas e que sarava com custo das velhas feridas. Os atentados à integridade humana foram assuntos vencidos, prova disso, foi a ignorância das gerações seguintes, desinformadas sobre os actos e o local em questão. Entre elas estava Johann Radman (Alexander Fehling), um jovem procurador. Após questionar a natureza dos crimes cometidos naquele "conjunto de vedações, barracas e postos de vigia", decide encabeçar uma das maiores investigações que a Alemanha testemunhou nos últimos anos.

 

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Assumindo como um produto a roçar o policial, O Labirinto das Mentiras mostra-se como uma colectânea de horrores e personalidades que protagonizaram a "Solução Final" e outras barbáries ao serviço de um regime. À medida que remexe neste passado sangrento, o qual envergonha toda uma geração ( "Nós, alemães devemos vestir o preto para sempre", como é citado a certa altura), Radman abre uma autêntica caixa de Pandora e reivindica um movimento de colisão com os valores recém-estabelecidos da sociedade alemã à visão distorcida por injustificáveis pecados ideológicos, nomeadamente o Holocausto. São os filhos do nazismo, fruto geracional de um legado ocultado, que até mesmo as Nações Unidas encobrem ("os novos inimigos são os russos" refere um dos americanos do consulado dos EUA, quando confrontado com uma solicitação de acesso aos arquivos de Auschwitz).

 

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Visto isto, O Labirinto das Mentiras evita por vezes a fórmula de investigação para explorar uma vertente mais intimista e existencial dessa herança maldita. Questiona o nacionalismo e debate-se sobre a integridade alemã. O desempenho sempre crescente de Alexander Fehling acentua essas fragilidades, assim como os dilemas propostos, apresentando-nos de forma figurativa as gerações enganadas que terão que conviver com os actos monstruosos cometidos pelos pais. Existe aqui uma certa influência das Banalidades do Mal de Hannah Arendt, a questão do dever militar sobre a consciência humana é diversa vezes citada e dissecada durante o embate com estes "monstros com cara de gente".

 

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Contudo, o filme acaba por se perder entre alguns subenredos que se guiem por becos sem saída. Por exemplo, a obsessão do nosso "herói" em deter Josef Mengele, o infame médico alemão (o "Anjo da Morte", como é apelidado), autor de algumas das aberrações médicas cometidas a prisioneiros dos campos de concentração, "empapa" em demasia o fio condutor narrativo da mesma. Porém, não sendo nenhuma obra-prima ou algo transcendental, O Labirinto das Mentiras é um retrato de boas intenções que traz alguma emotividade ao tema, mas acima de tudo ilustra a superação de um povo contra os seus próprios demónios.

 

Filme de abertura da edição 2015 do Judaica: Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Giulio Ricciarelli / Int.: Alexander Fehling, André Szymanski, Friederike Becht

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 16:11
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3.3.15

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Arranca amanhã, dia 4 de Março, a terceira edição do Judaica – Mostra de Cinema e Cultura, que regressa ao Cinema São Jorge, em Lisboa, até ao dia 8 de Março. Tendo como grande novidade o alargamento da programação para Belmonte, um local de grande valor simbólico, de 7 a 10 de Maio, o Judaica apresenta a mais ambiciosa mostra até à data. O festival irá exibir mais de 18 longas-metragens, ficções e documentários, contando com três antestreias nacionais, e ainda oito curtas-metragens e três sessões especiais.

 

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Os 70 anos do fim da 2ª Guerra Mundial serão tema presente neste evento cultural, o Judaica abrirá com um filme remetente a esse tema, acentuando que um Passado tão negro como esse é difícil de esquecer (devendo-se sobretudo nunca esquecer). Trata-se de Im Labyrinth Des Schweigens (O Labirinto das Mentiras), a primeira longa-metragem de Giulio Ricciarelli, um actor italiano radicado na Alemanha. Esta obra levará o espectador a um país que tenta descaradamente ocultar todos os indícios do Holocausto e outros horrores cometidos pelo Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial, um jovem procurador tenta levar a julgamento alguns dos responsáveis pela desumanidade que manchou o passado de uma nação. O Labirinto das Mentiras é baseado no real julgamento Frankfurt - Auschwitz em 1963, onde 22 ex-guardas do famoso campo de concentração foram constituídos arguidos, num caso que incentivou uma autêntica "caça a monstros”.

 

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Outro filme importante sobre o tema que se encontra na programação é Lauf Junge Lauf (Corre, Rapaz, Corre), uma realização de Pepe Danquart (realizador de Schwarzfahrer, o vencedor do Óscar de Melhor Curta-Metragem em 1993) que apesar de persistir em incutir numa perspectiva de uma personagem infantil ao Holocausto, não se resume a um retrato de pura ingenuidade. Adaptação de uma obra literária do autor israelita Uri Orlev, Corre, Rapaz, Corre centra na extraordinária história verídica de “Jurek” Srulik, um rapaz polaco de oito anos que tenta sobreviver entre os horrores da Segunda Grande Guerra e a fervorosa caça aos judeus, comunidade, o qual o protagonista pertence e que constantemente oculta.

 

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Judaica ainda destaca dois filmes portentos do ano 2014, Felix & Meira e Gett. O primeiro apesar de soar como um impossível romance de Shakespeare, é acima de tudo um retrato choque entre culturas divergentes e opostas. Ele (Martin Dubreuil) é um homem em pleno sofrimento com a perda do seu pai, e ela (Hadas Yaron), uma judia hassidica, regida por um quotidiano ortodoxo deveras rígido e intolerante. Eis uma obra que coleccionou elogios por onde passou, nomeadamente no último Festival de San Sebastian, e vencedor do Prémio de Melhor Filme Canadiano no Festival de Toronto. Em jeito de curiosidade: antes de Felix & Meira, a actriz Hadas Yaron já havia interpretado anteriormente um membro da cultura hassidica em Fill the Void (A Noiva Prometida, ler crítica), de Rama Burshtein, onde acabou por ser consagrada com o Prémio de Melhor Actriz no Festival de Veneza de 2012. Uma imperdível obra do realizador estreante Maxime Giroux.

 

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Gett (O Processo de Viviane Amsalem) é uma das grandes apostas do Festival. Tendo sido o candidato israelita aos Óscares e arrecadou uma nomeação na mesma categoria nos Golden Globes, Gett funciona como um retrato alarmante da inexistência do divórcio civil em Israel. Quem o diz é Viviane Amsalem (Ronit Elkabetz), uma mulher que se vê envolvida numa tremenda batalha judicial para concretizar algo que é tão inteligível no Ocidente, um simples divórcio. Como sabem, em Israel apenas as conservadoras autoridades religiosas tem o poder de autorizar tal procedimento ou, como nas maiorias do caso, impedir. Foi premiado como Melhor Filme do Festival Internacional de Cinema de Jerusalém. A sessão contará com a presença do realizador (Shlomi Elkabetz).

 

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Outras ficções a merecer destaque na programação é o thriller político de produção venezuelano-argentina, Esclavo De Dios (O Escravo de Deus), inspirado no real atentado ao Centro Comunitário Judaico de Buenos Aires (AMIA), ocorrido em 1994. Realizado por Joel Novoa, O Escravo de Deus acompanha um agente especial argentino-israelita que vive obcecado em descobrir os responsáveis por tal acto terrorista, ao mesmo tempo que foca em dois homens completamente diferentes que vivem em situações limite. Vencedor do Excellence in the Art of Filmmaking em Palm Beach em 2013 e prémios e passagens por festivais como Mar del Plata, Huelva e Gramado. Por fim, Mr. Kaplan, uma comédia de produção alemã-uruguaia que acompanha as atrapalhadas aventuras de um pacífico cidadão de origem judaica, Jacobo Kaplan (Héctor Noguera), que vive no Uruguai desde a Segunda Guerra Mundial. Acreditando ter descoberto um antigo líder nazi a residir numa praia uruguaia, Jacob une esforços com um antigo policia para revelar a sua identidade e por fim, captura-lo. Realizado e escrito por Álvaro Brechner (Mal Dia para Pescar), Mr. Kaplan é uma sátira ao “payback” que sucedeu depois do Holocausto. Candidato uruguaio ao Óscar e premiado em Mar del Plata, Huelva e nomeado a um Goya, para além de dominar os prémios uruguaios de 2014, Mr. Kaplan encerrará o Judaica sob a forma de um extenso sorriso.

 

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O documentário também terá um papel importante na programação do Judaica, o Cinematograficamente Falando … recomenda Natan, uma realização de Paul Duane e David Cairns que tenta "ressuscitar" a memória de Bernard Natan, aquele que fora considerado um dos pais do cinema francês, como também um dos realizadores mais prolíferos da indústria cinematográfica nos anos 20 e 30. Contudo, os feitos destes encontram-se actualmente "apagados" da História e a sua imagem unicamente associada ao cinema pornográfico gay e ao sadomasoquismo. Mas afinal o que aconteceu? Quem está por detrás desta conspiração de denegrir uma importante personalidade da 7ª Arte? Este documentário seguirá as pistas e explora uma verdade escondida. Será que conseguirá resgatar Natan das sombras?

 

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O Judaica manterá ainda a sua Feira de Livros, e no âmbito da literatura convidará a renomada romancista Myriam Anissimov e o crítico literário Pedro Mexia a integrar um debate em torno do escritor Romain Gary e o seu livro As Raízes do Céu, a história de Morel, um francês que vive na África Equatorial Francesa e que pretende combater o massacre de elefantes para o tráfico do marfim. Ainda haverá a apresentação do roteiro Caminhos Judaicos, da autoria de Esther Mucznik, que conta com o apoio Turismo de Portugal e a Rede de Judiarias de Portugal, atravessando o país percorrendo os caminhos da presença judaica em Portugal ao longo da História. E ainda, uma sessão especial sobre a dieta Kosher: Uma Dieta para a Alma e um debate que se debruçará sobre o Judaísmo, o Islão e o Laicismo: As Pegadas Recuperadas.

 

O Cinematograficamente Falando … acompanhará pelo terceiro ano consecutivo, o decorrer deste sempre crescente Festival de Cinema em Portugal.

 

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Mais informação sobre a programação, ver aqui

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:00
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3.4.14

Dançar com o Inimigo

 

Dancing in Jaffa é o típico documentário que é erguido por uma ideia inicial, promissora aliás, mas que "cai" sobre um manto de incoerências e a sugestão de manipulação narrativa de que é alvo e tendo em conta no Mundo em que vivemos, difícil é mesmo ser ingénuo. A premissa é a seguinte: Pierre Dulaine, tetracampeão do Mundo em danças de salão, regressa à sua terra natal, Jaffa (Israel), para implementar um programa de ensino de danças às crianças da cidade. Contudo este programa tem certos requisitos, tudo porque Dulaine ambiciona juntar pares mistos entre crianças judias e crianças palestinas (ou seja, a expressão "dançando com o inimigo" é aqui valida).

 

 

Evidencia-se algo de valioso aqui, de pedagógico a educativo, contudo o documentário sob a direcção de Hilla Medalia segue-se por trilhos novelescos, chegando à exploração da "miséria humana" até a detalhes meramente gratuitos e de veracidade duvidosa. A verdade é que após entregue a pacifica temática, somos surpreendidos por um concurso de dança (isto não vinha nos planos). Como sabem a competição não é sinonimo de harmonia e derivado a isso as fragilidades do dito programa são assim descobertas e colocadas ao relento - desde a rivalidade entre os das próprias "tribos" até à fraude dos resultados da tão interveniente competição.

 

 

Dancing in Jaffa é um bombista suicida, autodestrói-se em menos de nada e descarta toda a sua potencialidade e estima. Para "coisas" como estas já bastam os enésimos programas de dança que reinam as nossas grelhas televisivas, onde um prémio monetário é o único objectivo a atingir e não a "paz mundial", o qual promete Pierre Dulaine e que Hilla Medalia teima em fantasiar. 

 

Filme visualizado no Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Hilla Medalia / Int.: Pierre Dulaine, Alaa Bubali, Yvonne Marceau

 

 

Ver Também

Le Métis de Dieu (2013)

Die Lebenden (2012)

Rózyczka (2010)

The MatchMaker (2010)

L'Attentat (2012)

Falando com Ziad Doueiri, realizador de L'Attentat

 

3/10

publicado por Hugo Gomes às 16:18
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1.4.14

Dividido entre crenças!

 

Um telefilme de gema (produzido pela Arte France) que obteve um currículo semelhante a qualquer outra obra cinematográfica, integrando a programação de inúmeros festivais de cinema e chegando a possuir uma distribuição limitada nos EUA. Le Métis de Dieu remete-nos à singular história de Jean-Marie Lustiger (Laurent Lucas, Harry: Um Amigo ao Seu Dispor), filho de emigrante judeus polacos que se converteu ao catolicismo e com isso a vontade de servir a sua crença através de uma carreira clerical. Contudo ,nunca esquecendo as suas raízes judaicas sendo, mesmo com a nomeação a Arcebispo por parte do Papa João Paulo II (Aurélien Recoing, L'Vie D'Adèle), continuou a afirmar ser igualmente católico como judeu, algo que o próprio orgulhosamente comparava aos apóstolos de Cristo. Devido a esta dualidade, Jean-Marie Lustiger gerou vários inimigos em ambas as instituições religiosas no seu caminho a cardeal.

 

 

É uma viagem míope aos bastidores da Igreja Católica, mas não sendo essa a sua intenção, Le Métis de Dieu conserva-se como um filme de espírito audacioso sobre um homem dividido e comprometido à preservação da sua memória cultural. Como pano de fundo, servindo de arranque para esse confronto inerente, deparamo-nos com a disputa de Auchswitz e a renegação tardia da Igreja Católica em relação ao Holocausto. Ilan Duran Cohen é competente na sua direcção, mas não se consegue "desviar" de eventuais esquematizações, uma das fragilidades mais comuns dos filmes de teor biográfico.

 

 

Ainda assim, Le Métis de Dieu funciona não somente pela força do seu tema, surpreendente e inédita (quase desconhecida aliás), ou pelos pequenos e ousados ataques ao órgão hierárquico do Vaticano (provavelmente nunca mais veremos o Papa João Paulo II retratado desta forma), mas sim pelo desempenho e empenho de Laurent Lucas e, acima de tudo, recria em Jean-Marie todos os requisitos essenciais de um herói cinematográfico. Por fim, os pequenos laivos de humor que tornam a fita numa proposta cativante. A sua grande falha é um final apressado e forçadamente branqueador da imagem até então negra de João Paulo II.

 

Filme de encerramento do Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Ilan Duran Cohen / Int.: Laurent Lucas, Aurélien Recoing, Audrey Dana

 

 

Ver Também

Die Lebenden (2012)

Rózyczka (2010)

The MatchMaker (2010)

L'Attentat (2012)

Falando com Ziad Doueiri, realizador de L'Attentat

 

7/10

publicado por Hugo Gomes às 21:53
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Mais morto que vivo!

 

Os Mortos e os Vivos (titulo traduzido), de Barbara Albert (não, não é nenhuma variação das criaturas de George A. Romero), é um obra concebida sob uma perspectiva despretensiosa e algo juvenil sobre os "fantasmas" do Holocausto, remetendo à história da jovem Sita (Anna Fischer) que durante a festa do 95º aniversário do seu avó depara-se com uma foto no qual ele se exibe com vestimentas de oficial da SS na Segunda Guerra Mundial. Esta imagem desperta em Sita uma vontade de desvendar o passado da sua família, até então misterioso, de forma a encontrar laços redentores para os eventuais terríveis segredos que a esperam.

 

 

Esta jornada de auto-descoberta soaria como tentadora, mas infelizmente demonstra ser um exercício de espírito adolescente (rebelde mas sem a razão de o ser) desequilibrado, enviusando na sua trama principal diversos subenredos sem força nem destaque e que apenas interrompem a fluidez da narrativa, e com isso a atenção do espectador em concentrar-se e interessar-se no principal. São amores passageiros, doenças que surgem e desaparecem sem dar-mos conta e personagens acessórias descartáveis como "lenços de papel" que tentam desviar o nosso olhar da investigação levada a cabo pela protagonista, de caracterização insonsa e sem objectivos verdadeiramente definidos como personagem principal. Para complicar a visualização, Die Lebenden compromete a sua narrativa com uma realização instável de uma "handycam" (idêntico a tantas séries da MTV) sem que haja uma correspondência do drama e criando mesmo a ilusão de uma aproximação ao realismo cinematográfico.

 

 

Ou seja, esta nova fita realizada e escrita por Barbara Albert (Fallen, 2006) é um filme falhado quer sua atenção dramática, quer na construção dos seus personagens, em consequência disso somos incapazes de sentir verdadeiramente a tragédia que nos é desde início sugerida. Vale pela banda sonora dinâmica e moderna, que nos evidencia mais a ideia de cinema tipicamente direccionado a adolescentes, onde a leveza dramática é requerida em prol de uma muito movimentada e multi-direccional narrativa (para não se fartarem!).

 

Filme visualizado no Judaica: 2º Cinema e Cultura

 

Real.: Barbara Albert / Int.: Anna Fischer, Hanns Schuschnig, August Zirner

 

 

 

Ver Também

Rózyczka (2010)

The MatchMaker (2010)

L'Attentat (2012)

Falando com Ziad Doueiri, realizador de L'Attentat

 

4/10

publicado por Hugo Gomes às 18:44
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Nome de Código: Rosinha!

 

Rózyczka transporta-nos para uma época negra da Polónia, onde os "fantasmas" do Holocausto ainda existentes numa sociedade envolvida em secretismos, em "capas" que revelam desejos obscuros e de um anti-semitismo ainda presente, irá originar consequências drásticas para a vida de milhões. Estamos no final dos anos 60 (Março de 1968), período marcado pela violenta revolta estudantil e pelo exílio de inúmeros judeus, marginalizados pela nação que os havia acolhido.

 

 

No centro deste crucial momento histórico encontramos uma história que poderia muito bem aludir aos enésimos enredos de espionagem, uma variação de Mata-Hari, onde a sensual e ingénua Kamila (Magdalena Boczarska), a fim de satisfazer o seu namorado, o coronel dos serviços secretos Roman Rózek (Robert Wieckiewicz), infiltra-se na vida do intelectual professor e respeitado escritor Adam Warczewski (Andrzej Seweryn), sob o nome de código: Rosinha. Esta operação tem como intuito confirmar as suspeitas em relação a Warczewski, que o apontam como um revolucionário sionista, uma mente livre e pensadora que constitui um perigo para o Governo polaco.

 

 

Rózyczka de Jan Kidawa-Blonski funciona como um olhar contemplativo a um período negro para a cultura semita, infelizmente esquematizado em prol de uma intriga que tanto pisa os terrenos do thriller como do melodrama, esboçando um triângulo amoroso desequilibrado mas por vezes vertiginoso. Neste último ponto, isso é sustentado pela actriz Magdalena Boczarska, numa combinação trágica de sensualidade e astúcia, representando esta o único fio condutor de toda a ênfase dramática de um filme que na sua ausência se encontraria despido e seria rigorosamente frio e calculista.

 

 

Contudo, em Rózyczka o verdadeiro trunfo é o seu trabalho de montagem, a forma como combina o real com o fictício num modo operativo que sugere alguns dos primeiros trabalhos do cineasta russo Sergei M. Eisenstein (a multidão como um herói emancipado). Mas ao contrário da acentuação de uma ideia (a mensagem ou sentimento) como é o caso do trabalho do realizador do mítico O Couraçado Potemkin (1925), Jan Kidawa-Blonski tem o intuito de estabelecer uma aproximação entre as duas dimensões fílmicas: imagem de arquivo intercalada com o registo cinematográfico da intriga, a sequência dos confrontos entre estudantes e polícias salienta-se como um dos momentos altos de Rózyczka, o climax assim por dizer.

 

Filme visualizado no Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Jan Kidawa-Blonski / Int.: Magdalena Boczarska, Andrzej Seweryn, Robert Wieckiewicz

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 10:00
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30.3.14

O amor como recordação!

 

No verão de 1968 em Haifa, uma cidade a norte de Israel, o jovem Arik (Tuval Shafir) arranja trabalho como "espião" ao serviço do casamenteiro Yankele Bride (Adir Miller), um misterioso homem que sobreviveu ao Holocausto. Ingénuo e amante de livros de detectives, Arik vai descobrindo através de Bride os diversos segredos acerca do amor e da conquista, sem saber que tais sentimentos acabariam por "bater na sua porta" durante esse Verão.

 

 

The Matchmaker, de Avi Nesher (Doppelganger, The Secrets), vencedor da Placa de Prata no Festival de Cinema Internacional de Chicago em 2010, é um típico filme "coming-of-age", ou seja, um retrato sobre a transição etária e a transmissão de experiências que irão determinar no futuro da personalidade do protagonista. Sob esse signo de aventura cinematográfica, a fita baseada no best-seller When Heroes Fly, de Amir Gutfreund, é rica em nostalgia, extraindo e usufruindo de um tom de tragicomédia que o torna subtil e dinâmico em termos narrativa. Para além disso instala-se de um jeito referencial ao noir, cuja narração ditada pelo protagonista invoca, não só a sua paixão literária, mas também um tributo algo aguado a esse estilo cinematográfico.

 

 

Mas apesar de ser agradável em diferentes aspectos, auxiliados por uma fotografia de cores quentes (que para além de situar o espectador na estação onde a acção decorre, ainda lhe aufere um conforto visual), em The Matchmaker sente-se a falta de um verdadeiro conflito, uma ênfase dramática capaz de movimentar as suas personagens e torná-las mais independentes do que meras figuras de flashbacks. Mas tudo isso é compensado por interpretações favoráveis (o carismático Adir Miller e uma fragilizada Maya Dagan) em cumplicidade com personagens bem construídas e todo um conjunto de situações que o espectador mais velho, ou até mesmo aqueles que vivem na flor da idade, conseguirão identificar. Tal como Proust, uma simples madalena é capaz de nos transportar ao longínquo da nossa juventude.

 

Filme visualizado no Judaica: 2º Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Avi Nesher / Int.: Adir Miller, Maya Dagan, Tuval Shafir

 

 

6/10

publicado por Hugo Gomes às 18:48
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28.3.14

 

O Cinematograficamente Falando … conversou com o cineasta libanês Ziad Doueiri, que se encontra em Portugal para apresentar a sua última obra, L'Attentat (O Atentado), o filme de abertura do Judaica: 2º Mostra de Cinema e Cultura (27 - 30 de Março) para depois estrear nas nossas salas de cinemas a partir do dia 3 de Abril. Oriundo da capital libanesa, Beirute, Doueiri seguiu com 20 anos para os EUA para formar-se em Cinema pela Universidade de San Diego.

 

 

Iniciou-se no ramo em 1987 como electricista na comédia de Tina Hirsch, Munchies, para depois destacar como operador e primeiro assistente de câmara em inúmeras produções de Hollywood, nomeadamente os diversos filmes de Quentin Tarantino, o qual é diversas vezes denominado por "Tarantino Protege" (The Hollywood Report). Face a tal titulo, o autor pediu para não o associarem ao realizador de Pulp Fiction, chegando a sugerir a utilização de uma t-shirt com "I'm not associate to Tarantino" impresso para as futuras entrevistas, contudo confrontando com a questão "como foi trabalhar com o cineasta norte-americano", Doueiri revelou que era apenas um "tecnical guy", mas que adquiriu boas experiências nessa sua fase. Depois dos referidos trabalhos técnicos, Ziad Doueiri estreou-se como realizador a solo em 1998 com West Beirut, uma obra tremendamente elogiada que contou com um vistoso currículo no circuito dos festivais  de cinema, tendo consagrado com o Prémio François Chalais no Festival de Cannes desse ano. O realizador voltaria a dirigir em 2004 com Lila Says, também ele bastante elogiado, ambas as obras o tornaram confiante e possivelmente apto de adaptar um livro tão delicado como L'Attentat de Yasmina Khadra, a história de um médico palestino, Amin Jaafari (Ali Suliman, Paradise Now), que tenta provar a inocência da sua falecida mulher, acusada de atentado suicida, nem que para isso tenha que descer às "profundezas" do fanatismo religioso.

 

 

O filme que se assume como um drama intimista com toques de thriller, expõe ao espectador inúmeros dilemas do foro social, politico e religioso, mas Ziad Doueiri desaprova essa "perspectiva politica" ao invés disso o autor refere uma visão dramática, a criação de uma ênfase dramática arrebatadora sobre um homem em busca das varias vertentes da verdade, nada mais. Salienta a força do enredo e do actor em conjunto com a sua personagem, que de optimista se converte num "moralmente falecido", sendo possível "sentir o personagem face à sua decrescente jornada". Em relação ao optimismo inicial do protagonista, Ziad Doueiri não partilha a tal visão em relação ao seu país de origem, porém esta foi a única sugestão politico-social que declarou durante toda a conversa, tendo negado as supostas segundas intenções no seu drama.

 

 

O realizador afirma que o seu trabalho foi sincero, incapaz de enviar tais mensagens ao espectador, aliás como o próprio acrescenta "nem eu sei que mensagem devo enviar". Segundo este, a ideologia que muitos espectadores, críticos e jornalistas constataram no seu filme advém simplesmente das personagens e da trama forte que conseguiu construir, referindo Oliver Stone como um dos exemplos deste seu modus operantis, "uma sólida história e personagens frente a uma mensagem". O realizador ainda abdica da coragem de que foi apontado, "não sou corajoso, nem é a coragem que preenche a minha agenda como realizador", mas adianta que "filmes como estes não são fáceis de fazer", e confrontando com o facto de vir a surgir eventuais consequências em remexer sensibilidade sociais, a religião é e sempre será uma "dor de cabeça", revela não sentir qualquer receio em relação a isso.

 

 

Quanto aos estereótipos árabes nos filmes ocidentais, Ziad Doueiri afirma que os "americanos estão a mudar a sua perspectiva em relação aos árabes" e que por isso a invocação de tais estereótipos é completamente descabida mesmo em Hollywood. Para finalizar o realizador anunciou, sem aprofundar, pormenores acerca do seu futuro projecto, L'Insulte, que será filmado em Beirut, "um drama de tribunal que estou a escrever com a minha mãe", sendo o Direito algo geracional para ele, revelando oriundo de uma família quase toda ela ligada ao ramo, a mãe é advogada e os tios que são juízes.

 

Entrevista cedida pelo Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

 

Ver Também

Vem aí o Judaica: a 2ª Mostra de Cinema e Cultura

L'Attentat (2012)

 


publicado por Hugo Gomes às 20:42
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Revisitando "fantasmas"!

 

O já muitas vezes apelidado de “prodígio de Tarantino (devido ao seu trabalho que exerceu como assistente de câmara em inúmeros filmes do realizador nos anos 90), Ziad Doueiri adapta o polémico best-seller de Yasmina Kadhra para o grande ecrã, convertendo a jornada de um homem às profundezas de uma sociedade regida pela religião fervorosa e pelo ódio entre culturas num thriller intimista que apela a pertinentes questões e que nos outorga respostas através da emoção.

 

 

A terceira longa-metragem de Doueiri como realizador a solo (marcando 14 anos desde a sua aclamada estreia com West Beirute onde aborda a Guerra Civil do Líbano, a nacionalidade do realizador, nos anos 70), é um filme que começa sob um signo esperançoso, retratando a cidade israelita Tel Aviv como um último reduto para israelitas e palestinos. Mas com o desenrolar de um enredo que nos traça uma matriz de alusão ao thriller mainstream, L’Attentat nos atenta num vazio existencialista enquanto o espectador em cumplicidade com o protagonista “abraça” o derrotismo que surge após um "choque" com um "mundo subliminar". Ali Suliman (Paradise Now) desempenha assim um médico cirurgião palestino que renega as suas raízes para sobreviver numa sociedade cada vez mais no limiar, mas que é forçado a invoca-las para entender com que razões levaram a sua amada mulher a cometer um atentado suicida que vitimou uma dezena de israelitas. Uma verdade crua e dura que integra como "fraca" na alma deste homem atormentado, deixado ao abandonado e marginalizado pelos dois lados da sociedade que habita.

 

 

O olhar de Doueiri não é denunciante, nem sequer engendra o panfletarismo ou usufrui do tema para requisitar maniqueísmo, um quadro neutro porém forte nas suas convicções e na sua mostra, iniciando debates mas nunca termina-los com opiniões definidas. L'Attentat joga com a sugestão das ocorrências e dos actos, mas no fundo o filme funciona como um potente drama sobre um homem em busca da consciência. Uma obra corajosa que encontra-se de momento proibido de ser exibido em grande parte dos países árabes incluindo a origem do realizador, Líbano.

 

Filme de abertura do Judaica: 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 

Real.: Ziad Doueiri / Int.: Ali Suliman, Reymond Amsalem, Evgenia Dodena

 

 

8/10

publicado por Hugo Gomes às 17:31
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27.3.14
27.3.14

 

Ver toda a programação aqui

 

 

Ver também

Vem aí o Judaica: a 2ª Mostra de Cinema e Cultura

 


publicado por Hugo Gomes às 11:10
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11.3.14

 

Em 2013 decorreu pela primeira vez no Cinema São Jorge com o apoio da EGEAC e a Câmara Municipal de Lisboa, a Judaica: mostra de cinema e cultura judaica que visou e realçou uma cultura presente porém adormecida na sociedade portuguesa. Após o êxito da mostra que nos presenteou com algum dos mais dramaticamente poderosos filmes que tivemos o privilégio de assistir ano passado, seguimos então o 2º ano com a promessa de uma maior abrangência de temas como também internalização. Apesar desta última característica que salienta algumas pretensões na Judaica, Elena Piatok (directora executiva da mostra) afirma que a sua maior preocupação “é escolher os filmes que os portugueses gostam”, diversificando-os com “mais temas actuais do que de época, estes filmes estão à procura de identidade.”. A 2ª edição do Judaica decorrerá entre o dias 27 e 30 de Março e apresentará uma mostra com mais de 15 filmes incluindo longas-metragens aplaudidas em todo o Mundo, curtas, documentário e outras propostas cinematográficas que revelaram temas quase insondados na nossa sociedade.

 

 

A selecção terá como abertura L'Attentat (O Atentado) de Ziad Doueri, que por sua vez é o realizador convidado desta edição, esta co-produção franco-libanesa que apesar das aclamações e dos prémios arrecadados em diferentes festivais de todo Mundo (Prémio Especial de Júri no Festival de Cinema Internacional de San Sebastián), continua como restrito em território árabe devido à delicadeza do seu tema. Como encerramento a tarefa estará encarregue do peculiar Le Métis de Dieu (O Cardeal Judeu) de Ilan Duran Cohen, uma longa-metragem francesa que nos remete à surpreendente história de Jean-Marie Lustiger, o Arcebispo de Paris sob a alçada do Papa João Paulo II que apesar de “abraçar” o catolicismo, manteve as suas raízes e identidade cultural judaica. Em destaque na selecção encontramos o documentário Ksiezyc To Zyd (A Lua é Judia) de Michal Tkaczynski sobre Pawel, um antigo skinhead que se converte ao judaísmo ortodoxo (a passar no dia 27 de Março) e The Last Flight of Petr Ginz (O Último Voo de Petr Ginz) de Sandra Dickson, uma produção do Programa de Cinema Documental da Universidade de Wake Forest e do Instituto de Documentários da Universidade da Flórida integrado no Programa de Divulgação das Nações Unidas (será exibido no dia 28 e 30 de Março).

 

 

O Judaica ainda contar com as presenças do escritor Richard Zimler (que apresentará a sua curta-metragem O Espelho Lento), Jorge Patrão (Secretário Geral da Rede de Judiarias de Portugal), Kimberly Mann (directora do Programa das Nações Unidas para o Ensino do Holocausto) e entre outros, que participarão em sessões especiais e debates os quais destaca-se a Homenagem a Jan Karski (29 de Março), um dos grandes heróis da Segunda Grande Guerra, protagonista de uma das maiores missões resistência contra os Nazis. Por fim teremos a nosso dispor nestes quatros dias de puro tributo á cultura judaica, uma feira do livro e convidativas provas de vinho e degustação de chocolates.

 

 

Mesmo tendo apenas dois anos de vida, a Judaica prova que com dedicação e esforço é possível concretizar um dos maiores comitês a esta cultura que é a matriz da sociedade europeia, nomeadamente a portuguesa (este ano conta pela primeira vez com alto patrocínio com a Presidência da República). “Há muitos festivais de cinema judaico por este mundo fora” afirma Elena Piatok. Esperamos que esta mostra lisboeta seja num futuro próximo uma das referências internacionais desta cultura cinematográfica. A não perder.

 

Para mais informação ver aqui

 


publicado por Hugo Gomes às 17:33
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Takes
10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
0/10 - Nulidade
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