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14.5.17

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Kiro Russo conquista o Indielisboa com a sua primeira longa-metragem Viejo Calavera, um olhar naturalista e de pureza cinematográfica a uma comunidade mineira. O realizador boliviano vence o Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa, uma distinção que vai juntar-se às aquelas já conquistadas em edições anteriores do festival na secção de curtas.

 

O brasileiro Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans, ficou-se pelo Prémio Especial, enquanto que Encontro Silencioso, a obra de Miguel Clara Vasconcelos sobre praxes universitárias, recebe a distinção de Melhor Longa-Metragem da Competição Nacional.

 

 

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa

Viejo Calavera, Kiro Russo (Bolívia, Qatar)

 

Prémio Especial do Júri Canais TVCine & Séries

Arábia, Affonso Uchôa, João Dumans (Brasil)

 

Grande Prémio de Curta Metragem

Wiesi/Close Ties, Zofia Kowalewska (Polónia)

 

Melhor Animação –  Curta Metragem

489 Years, Hayoun Kwon (França)

 

Melhor Documentário –  Curta Metragem

The Hollow Coin, Frank Heath (EUA)

 

Melhor Ficção –  Curta Metragem

Le film de l’été, Emmanuel Marre (França, Bélgica)

 

 

COMPETIÇÃO NACIONAL

Prémio Allianz – Ingreme para Melhor Longa Metragem Portuguesa

Encontro Silencioso, Miguel Clara Vasconcelos (Portugal)

 

Prémio Ingreme para Melhor Curta Metragem Portuguesa

Miragem Meus Putos, Diogo Baldaia (Portugal)

 

Prémio Novo Talento FCSH/Nova – Curta Metragem

Flores, Jorge Jácome (Portugal)

 

Prémio Walla Collective para Melhor Filme da Secção Novíssimos

Os Corpos que Pensam, Catherine Boutaud (França, Portugal)

 

 

INDIEMUSIC

Prémio Indiemusic Schweppes

Tony Conrad: Completely in the Present, Tyler Hubby (EUA, Reino Unido)

 

Prémio Árvore da Vida

Ex-aequo:

Antão, o Invisível, Maya Kosa, Sérgio da Costa (Suíça, Portugal)

Num Globo de Neve, André Gil Mata (Portugal)

 

Prémio Amnistia Internacional

Find Fix Finish, Mila Zhluktenko, Sylvain Cruiziat (Alemanha)

 

Prémio Universidades

El mar la mar, Joshua Bonnetta, J.P. Sniadecki (EUA)

 

Prémio Escolas

Le fol espoir/Wild Hope, Audrey Bauduin (França)

 

Prémio do Público Longa Metragem

Venus, Lea Glob, Mette Carla Albrechtsen (Dinamarca, Noruega)

 

Prémio do Público Curta Metragem Crocs

Scris/Nescris, Adrian Silisteanu (Roménia)

 

Prémio do Público IndieJúnior Escolas DoctorGummy

Bichinhos do Lixo/Litterbugs, Peter Staney-Ward (Reino Unido)

 

Prémio do Público IndieJunior Famílias Trina

O Trenó/The Sled, Olesya Shchukina (Rússia)

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 01:24
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10.5.17

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Paul Vecchiali é descrito como um marginal no cinema francês, mas ele próprio considera nem sequer fazer parte dos livros de História. Contudo, a História está a favor deste "Herói Independente".

 

É sabido que quando Vecchiali viu Mayerling (Anatole Litvak, 1936) aclamou euforicamente no final da sessão que iria tornar-se num realizador, de forma criar experiências como aquela. E assim o concretizou. Polivalente por natureza, tendo sido também um actor e muito mais, um produtor que redefiniu e inovou os métodos produtivos do cinema francês, graças à sua segundo produtora Diagonale. O conceito nascia da frase "fazer cinema na diagonal", uma produtora que garantia a liberdade aos seus realizadores de forma a conservar o espírito neles habitado, tendo como única regra o respeito pelo orçamento.

 

Um assumido admirado do cinema dos anos 30, um homem marcado pela urgência de abordar temas irreverentes e politicamente incorrectas no Cinema, os seus filmes falam por si, e sobretudo um realizador sem "papas na língua" no que refere a caracterizar o panorama actual do cinema francês, a crítica e a cada vez mais formatação da Sétima Arte. Algo que tentaria combater e que hoje parece ter saído derrotado, felizmente, a sua postura não é a de um derrotista, mas de um vencedor que acompanhou todo um percurso cinematográfico e que tanto contribuiu para sua diversidade.

 

O Cinematograficamente Falando … teve o privilégio de falar com Paul Vecchiali, durante a sua passagem em Lisboa.

 

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É sabido que o Paul Vecchiali é muito crítico em relação aos guiões de hoje.

 

Acho muito maus, sem imaginação, bastante formatados, na maneira em que não querem surpreender o espectador. As pessoas querem falar como nos filmes que vêm, mas não compreendem nada do que se diz. Ou é "sorry", "I'm sorry", "very sorry" ou "fuck" e tudo derivado disso. A televisão anda a mudar bastante o cinema e a formatação é quase obrigatória. Onde está o cinema?

 

Em relação a sua carreira como produtor tentou de certa forma evitar essa formatação no cinema?

 

Uma vez perguntaram-me se eu era um realizador marginal. E eu respondi “Meu caro, a única coisa marginal que tenho é o facto de nem sequer entrar nas páginas”. (Risos) Eu fiz parte do sistema de um ponto de vista técnico, mas não de um ponto de vista moral. Muitos realizadores franceses pensam que são deuses. Eu vejo isto como uma família, um grupo a quem digo “Faz o teu trabalho o melhor possível” e tentamos fazer o melhor filme possível. Escrevo um argumento, chamo o diretor de fotografia, o engenheiro de som e falamos. Há um filme que fiz e que acho magnífico que é o L'Étrangleur porque resultou de uma concentração enorme de imaginários e de talentos. Mas depois há filmes que são aclamados, como A Vida de Adèle, aquela monstruosidade, que foi considerado um dos melhores filmes do ano pela Cahiers du Cinèma e me fez dizer logo “Não quero mais saber deste cineasta”.

 

Poderia comentar a frase que disse numa entrevista “O único produtor francês na atualidade sou eu”?

 

Eu sou um produtor normal, não sou marginal. Não sei se sou um bom realizador, mas sei que sou um excelente gestor. Falo com cada membro e pergunto a altura ideal para fazer determinada cena. Por exemplo, quando é uma cena no exterior explico o meu plano ao diretor de fotografia e pergunto-lhe “Quando é que devo filmar?”. E ele diz-me “devemos fazer a cena às 17 horas…. Devemos fazê-la de manhã”. E eu escuto-o. Até porque um filme não se faz na rodagem, faz-se antes, na pré-produção.

 

Sempre foi visto como um autor provocador pela abordagem dos seus filmes em temas, já por si pertinentes, como a homossexualidade, a SIDA e até mesmo a pedofilia e a pornografia…

 

Não me considero um provocador. Quando tenho questões que preciso de ver respondidas e quero saber como lidar com certos temas digo “Que posso fazer?” e assim nasce um filme. Não é uma provocação.

 

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Estive anos a pensar num filme sobre a pena de morte e um dia tive a ideia de fazer com texto improvisado [La Machine]. É verdade que muitas pessoas defensoras da pena de morte recusaram-se a ver o meu filme, acharam ridículo, mas disse-lhes “Eu é que vos acho ridículos.”. Eles simplesmente usavam argumentos de que os atores improvisavam os textos. Só escrevi uma coisa nesse filme que foi a personagem do psiquiatra e isso diz muito sobre o meu método de trabalho.

 

Sobre a homossexualidade, não aceito o nome “homossexual”. Aceito o adjetivo “homossexual”. Porque para mim não existe “o homossexual”, acho grosseiro. Quando fiz esse filme [Once More], atacaram-me e perguntaram-me se me masturbava a pensar em homens ou em mulheres. Quando nascemos temos todas as possibilidades… há a educação, há os sítios que frequentamos, há a orientação que se forma a pouco e pouco, mas não é um quadro simples. Na minha opinião, quanto mais homofóbicos são os homens, mais problemas têm em assumir o próprio desejo homossexual.

 

Quando se fala hoje do cinema francês há um grande foco de começar a partir dos anos 60, quase excluindo os anos 30, o qual Vecchiali é um grande defensor.

 

 

Para mim, o cinema francês dos anos 60 foi uma mistura do cinema dos anos 30 e da Nouvelle Vague. Farto-me de dizer que tinha a cabeça do segundo, mas o coração do primeiro. Porque a Nouvelle Vague foi isso mesmo: a cerebralidade, enquanto os anos 30 foram a escritura fílmica. É o que permite distinguir Jacques Audiard de mim. As imagens são aquilo a que se chama na matemática de “integral”, não é uma soma elementar, é o trajeto que vai um ponto ao outro, uma sequência. Um filme é como um rio, quando está na montanha é o que se chama a “pré-produção”. Desce e chega ao mar, que é o público. Quanto mais vigoroso for o rio, mais heterogénico ele é. E esta heterogeneidade é a vida. Há cineastas que tentam exprimir a vida de uma maneira falsa e a isso chamamos “homogeneidade”, uma vida idealizada. E todos os meus filmes são heterogéneos.

 

O discurso actual é fazer uma escritura fílmica, pensar o filme… e o que os meus dizem é “Estou-me a borrifar se não entras em mim. Eu quero é entrar em ti.”, tens de ser recetivo e não crítico. Há duas maneiras de falar de um filme: espetáculo e cinefilia. Se for o primeiro, a audiência está-se a borrifar para o que eu tenho a dizer, mas se for o segundo sei que haverá um reflexo analítico. E juro-vos, juro-vos aqui e agora que nunca escrevi uma crítica de um filme sem o ver, pelo menos, quatro vezes. Quando fiz o C’estl’amour houve um crítico que escreveu “É um filme demasiado escrito.” E eu escrevi-lhe um post de Facebook a perguntar “Porquê?” e ele não me soube responder. A crítica negativa não importa mais nem menos que a positiva porque é um outro olhar sobre o trabalho que faço. Mas aprendi que a crítica escreve às vezes sobre os filmes sem percebê-los.

 

Considera o Jean Renoir sobrevalorizado, mas, ao mesmo tempo, não acha irónico que seja considerado como o seu herdeiro?

 

Foi o Truffaut que disse que o único herdeiro do Renoir era eu. Não concordo, mas atenção, adoro o cinema de Renoir! Apenas não compreendo como grandes cineastas como ele ou o Visconti tinham gestos vulgares. No caso do Renoir em La Bête Humaine, há uma cena de amor entre o Jean Gabin e a Simone Simon onde ele faz uma panorâmica horrível. No caso do Visconti, no Rocco e os seus Irmãos há algo parecido. Na altura falava-se da política de autores, mas hoje em dia é necessário bater nessa política! Hoje é preciso dizer-se “há um filme genial com um plano idiota”! Ou então “há um filme de um realizador medíocre com três planos sublimes”! Acho anormal que uma pessoa que trabalhou vagamente num argumento bloqueie o trabalho de 50 outras pessoas. Já me bati no tribunal por situações assim.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:03
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8.5.17

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Há 10 anos estreava entre nós a tragédia shakespeariana Capacete Dourado, que teve como pano de fundo um romance inconclusivo que incendiou os medias portugueses. O filme foi apresentado em Locarno e a sua passagem foi, de certa forma, feliz e elogiada. A técnica por detrás desse filme tornou-se uma carta de amor entre o realizador e a narrativa visual, o plano, a perspectiva e o olhar. Infelizmente tivemos que esperar uma década para este regresso às longas-metragens.

 

Cramez apresenta Amor Amor, uma tragicomédia de paixões proibidas ou simplesmente, procrastinadas pelo bem de uma fraternidade. A decorrer no última dia do ano, Amor Amor que se destaca do resto da Competição Nacional do Indielisboa pelo seu rigor técnico, pela paixão de construir um filme estruturalmente. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador sobre esse regressar e a importância estética por detrás dos seus filmes.

 

Provavelmente toda a gente faz esta mesma pergunta, como foi regressar ao formato das longas-metragens após um intervalo de dez anos?

 

Foi complicado. Era como tivesse passado outra vez por aquela sensação de primeira obra, mas não passando pelos mesmos dramas. Foi difícil esta intermitência de ter que voltar às situações que já deveríamos ter ultrapassado. Porém, sou uma pessoa muito feliz quando filmo, o que é um factor bastante bom porque atenua, de certa forma, esta readaptação. Mas obviamente, temos outras complicações, falo das questões materiais, a produção, o tempo de rodagem, os orçamentos.

 

Mas atenção, eu não parei de fazer filmes durante este período de 10 anos. Conto cerca de 5 ou 6 curtas-metragens da minha autoria, algumas delas financiadas pelo ICA, nem que seja pelo apoio desta, outras produzidas por mim, entre as quais algumas para o MOTELx. Ou seja, não parei de filmar durante esse tempo, nem sequer afastei-me do cinema, em acréscimo tenho ainda trabalhos como anotador, assistente de realização, etc.

 

Em relação à pergunta original, esta experiência foi relativamente boa, mas ao mesmo tempo existe este peso, estas questões que não deveriam sequer existir nesta altura. Tal não existiria se filmasse com maior regularidade.

 

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E que altura decidiu regressar ao formato?

 

Isto tem muitos anos, na realidade, há 10 anos de intervalo entre o Capacete Dourado e este filme. Mas no ano em que obtive apoio para o Capacete', foi no último em que os realizadores podiam submeter mais do que um projecto. Eu concorri com os dois, sendo que, julguei por algum tempo que teria sido o Amor Amor a ser aprovado o financiamento, mas acabou por ser o filme que todos nós sabemos. Ou seja, este novo filme já existia, mesmo em estado embrionário, desde o tempo do Capacete Dourado, e mais, a ideia chega a ser anterior a esse filme.

 

E que altura foi essa?

 

O filme nasceu no inicio dos 90, mais concretamente quando vi a peça do Corneille [La Place Royale ou l'Amoureux Extravagante] na Cornucópia, encenada pela francesa Brigitte Jacques (Benoît Jacquot filmou a sua peça). Fiquei na altura fascinado, pelo que quis extrair essa temática de Corneille e nela depositar o meu universo afectivo como a do meu seio de amigos. Aquelas personagens [a do filme Amor Amor] tem referências na minha vida, a Marta é a Marta, Carlos é o Carlos, o Jorge … pronto sou eu, mas menos bonito [risos]. Todo um filme é um conjunto de alter-egos.  

 

Mas nesse intervalo, propriamente dito, as suas curtas operaram como esboço para este filme, não foi?

 

Sim. Nas curtas experimento aquilo que depois aplico neste filme, ou seja estamos sempre a fazer cinema. E o que o cinema significa para mim? Sei lá, eu tenho 50 anos de cinema em cima, comecei a ver Cinema a partir dos quatro anos de idade. Depois vindo de Angola para Portugal, com os meus 12, 13 anos até aos 25, estava mais tempo na Cinemateca do que noutro lugar. Passava os meus tempos a ver filmes, na Cinemateca via cerca de 3 a 4 filmes, era a descoberta de um Cinema antigo que coliga com o nosso moderno. E depois de sair de lá, ainda ia ver uma estreia qualquer em sala. Penso que os filmes vem daí, é algo muito intuitivo, não sei explicar ao certo

 

Tendo em conta as temáticas de ambas as suas longas, Capacete' e Amor', considera uma pessoa romântica?

 

Não é bem isso. [risos] Interessa-me os dilemas amorosos, mas não sou necessariamente romântico. É uma questão que me interessa, e que é transversal no meu trabalho. Falo de amor e trabalho com o amor.

 

Falando em amor, algo que se nota nos seus filmes é que possui uma certa afeição pelo plano. Como consolida essa narrativa visual, ou planificação, frente ao argumento que dispõe?

 

Sou obsessivo com o quadro, o que é muito óbvio nos filmes. Sou aquela pessoa que depois do director de fotografia, vou lá e fecho o "quadro". Também não te consigo explicar o porquê dessa obsessão, faz parte dessa veia cinematográfica em mim, por vezes imagino um plano antes dele acontecer. É a nossa vida de cinéfilo, vemos e instantaneamente acumulamos referências, estas tornam-se parte de nós, e como gosto muito de pintura e frequento habitualmente museus para ter a chance de olhar atentamente para esses quadros. Isso está presente nos meus filmes. Eles possuem um lado formal, um rigor técnico e visual.

 

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Há quem prefere submeter-se uma câmara à mão, eu nem por isso. Mas em Amor Amor também utilizei esse tipo de planos, inclusive há uma sequência, um dialogo entre Carlos e Jorge na praia, pelo qual utilizei esse método. Mas esse mesmo soa como steadycam e não uma handcam. Devo muito esse profissionalismo técnico a João Ribeiro, o meu técnico de fotografia. O cinema é tudo, e um realizador é a acumulação desse tudo. Mas para mim, ainda mais importante que o plano, são os actores.      

 

Sim, os actores. Cada vez é mais difícil reunir as suas "velhas caras" em novos projectos?

 

Por exemplo, na sessão de apresentação do filme foi muito difícil reunir o meu elenco. A disponibilidade tem sido cada vez mais difícil. Quando não estão a fazer Cinema, estão a fazer teatro ou até televisão que ocupa grande parte dos respectivos tempo. Mas não os censuro, a disponibilidade que eles tiveram para mim foi óptima. Estou grato.

 

Mas continuando na técnica, é de reparar que o Jorge tem um "amor" ao plano-conjunto.

 

Sim, tento evitar os campos, contra-campos, como os morses e os espaços. A minha câmara é muito frontal, muito devedora à perspectiva do espectador. E gosto do plano-conjunto que é uma forma de conseguir captar uma certa reacção instantânea na acção.

 

E novos projectos? Continuará nas longas?

 

Espero que o filme corra bem para já no próximo ano filmar outro. Terminei o Amor Amor ano passado.

 

Na sua opinião, acha que o cinema português precisa ser salvo?

 

Ele existe e existe bem. Ainda agora vamos ter uma curta de animação [Água Mole, de Laura Gonçalves] e outro da Marta Mateus na Quinzena. A Leonor [Teles] ganhou um Urso há dois anos, o Diogo [Costa Amarante]este ano, o Salaviza ganhou a Palma de Ouro, João Pedro Rodrigues foi premiado em Locarno … Não acho que o cinema português tem que ser salvo.

 

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O cinema continua a existir neste país, continuamos a fazer coisas. Um problema que se pode abordar, mas nem sei como resolver na actualidade, visto que falamos de amor, é o desamor do nosso cinema pelo público português. João César Monteiro fazia quase 10.000 espectadores aqui e se canhar fazia 150 mil em Itália, o Oliveira sempre teve mais espectadores lá fora do que cá.

 

Tem que ser salvo? Não sei. Depois há o lado da politica, e nessa, a politica de apoios. Mas eu não me quero meter nesse assunto, porque normalmente quem mais fala, é quem possui mais subsídios. Não, nem vou por aí. O que mais gosto de fazer é filmar e sou feliz a fazê-lo.       

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:08
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6.5.17

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O desejo de ser o Nada!

 

Eis o magnetismo quase xamânico que o deserto do Arizona parece emanar no Cinema, e não só (assim de repente, recordamos as desventuras alucinogénias do vocalista dos The Doors, Jim Morrison, imagem eternizada pela cinebiografia de Oliver Stone). Aquela força inspiradora que funde as personagens com a aridez do cenário. Um espaço de reflexão existencial, um marco onde as road trips se encruzilham com os vínculos interiores. É a cénica que fala, e cuja oralidade “silenciosa” sobressai, mais do que os dilemas dos seus peregrinos.

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Em Fade into Nothing, a estreia de Pedro Maia nas longas-metragens, longe se está de fugir a tal destino. Um destino que encontramos em territórios já pisados por Wim Wenders e do seu mentor Nicholas Ray, essa paixão pelo correr contra o tempo e do deserto que constantemente invoca um prolongado transe. Sim, esta colaboração do realizador com Rita Lino (direcção artística e fotográfica) e com o artista Paulo Furtado, mais conhecido entre nós como The Legendary Tigerman, que executa de forma espirituosa a este enésimo conto de uma procura existencial em terras californianas, nada faz de diferente.

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Contudo, aqui não se trata de reencontrar ou encontrar o ser interior, ao invés disso é-nos apresentado uma ambiciosa jornada pelo nada, a conversão de um indivíduo cheio de palavras, sonhos, projectos, experiências, todo um recheio que no fim reduzir-se-á a isso mesmo - nada. Abaixo do número unitário e do individuo propriamente dito. Um percurso musicado, filmado como um diário sob o formato de 16mm, como um found footage de um pretendido vazio.

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O nada do filme, é um estado de alma, uma etapa alcançada com a ajuda de estupefacientes, um exercício mental em prol de um transe sem objectivo. Fade into Nothing revela essa mesma fase, um experimentalismo reduzido ao vazio, um vácuo de palavras feitas e desfeitas num ápice, a pretensão do ensaio visual e a performance como estado emotivo de um filme que se joga em território sensorial (há uma tendência quase jodorowskiana em todo este retrato), e não na incutida sobriedade. Certamente, não será Fade into Nothing, o filme que “salvará” o cinema português, mas aí questionamos, precisará o nosso cinema ser salvo? Muito menos por um filme que invoca o nada como a sua arte?

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Pedro Maia / Int.: Paulo Furtado, Rita Lino

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 14:52
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5.5.17

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Só pode ser praxe!

 

Um filme português sobre praxes universitárias? Há certamente um fantasma entre nós, um espectro de uma tragédia que persegue esta contracultura universitária e do seu referido ritual de iniciação como de aprovação. Contudo, esse mesmo “testemunho” poderá dormir descansado, até porque Miguel Clara Vasconcelos não está aqui para fazer uma afronta a tais ciclos “tribais” nem um tributo ao infortúnio evento, realçado pela opinião pública e pelos medias.

 

Encontro Silencioso é uma obra sobre silêncios, e é nesses silêncios que encontramos a grande incapacidade do seu realizador, a sua passividade e a sua mudez. Se a intenção não era fazer uma crítica, muito menos será em atribuir uma personalidade distinta a esta “sociedade secreta”. O que aconteceu foi exactamente o previsto de muitas das novas gerações de realizadores portugueses, a vontade de integrar o mesmo espaço que os demais, os veteranos e inspirações, ao invés de encontrar a sua divergente e particular voz.

 

Nesse aspecto, Miguel Clara Vasconcelos é um mero estudante, um aluno aplicado subjugado a uma intensa praxe, o que resultou na moldagem de um ser homónimo, fascinado pelas coisas que outros amaram e que continuarão a amar. A vontade de abraçar a mise-en-scène como o núcleo essencial da cinematografia, expor a teatralidade, não somente nos desempenhos, mas na forma como constrói e desconstrói esse bando de ritualidades, e por fim, perder-se em espaços temporais, silêncios intermédios e na procura vazia pelo igual vazio.

 

Tínhamos tema? Tínhamos, mas o realizador, que passa agora do documental para a ficção, apenas o “agarrou” com uma luva de latex, fugindo da toxicidade e da sujidade que porventura poderia remexer. Pena que tudo seja resumido a isto, um local remoto apenas presenciado por pessoas remotas, sem ligações com o exterior e um realizador com provas de talento, mas sem a devida integração interior. Este foi o filme da praxe, sendo assim, que venha então uma verdadeira mostra de capacidades.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Miguel Clara Vasconcelos / Int.: Ágata Pinho, Alexander David

5/10

publicado por Hugo Gomes às 22:01
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A sobrenaturalidade é o novo realismo!

 

Sem querer entrar no território do spoiler, até porque o filme dispõe de certa forma um plot twist que dissipa por fim toda a atmosfera de uma prenunciada catástrofe. Elon, a personagem, é um homem sob uma completa face de negação, que após o desaparecimento repentino da sua mulher, decide procurá-la nos mais prováveis recantos da sua existência. Uma busca ao tentar encontrar a sua amada, que gradualmente o faz desencontrar-se de si próprio.

 

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A câmara segue de forma persistente o actor Rômulo Braga nestas suas andanças malparadas. O espectador é uma testemunha invisível, silenciosa e completamente impotente face aos destinos elididos estampados no grande ecrã. Existe aqui neste registo quase existencial, uma busca e ao mesmo tempo uma voluntária perda do nosso protagonista à realidade que se identifica. Assistimos assim à sua corrupção gradual e aos trilhos que contrapõem o óbvio. Tecnicamente, Elon Não Acredita na Morte é um filme desencantado, regendo-se pelas leis do naturalismo quase neorrealista, as tendências de um cinema ficcional que abraça esse realismo com tamanho afinco.

 

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Elon dialoga ainda (quase esteticamente é certo) com um outro filme, desta feita português, São Jorge, de Marcos Martins. Ambos abordam um certo inferno social, um ambiente precário de vestes cinzas e o sorriso como uma miragem lendária. São filmes que falam de tempos negros, pessimistas, condenados à solidão individual (o biótopo perfeito de um decadente bovarismo) e cada um à sua maneira exorcizam essa mesma "negritude". No caso de Elon, o território é bem outro, parece um misticismo herdado dos antepassados amazónicos, dessas lendas que coabitam com a História brasileira. Se não isso, como explicar a cada vez maior recorrência ao sobrenaturalismo como um novo realismo?

 

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Já vimos tal explorar num Aquarius (por exemplo), e sob o signo do Indielisboa, no não conciso Mata-me Por Favor, de Anita Rocha da Silveira. O cinema brasileiro recente tem coligado a esse passado cinematográfico, que por sua vez são as crenças e a eterna fobia ao mundo dos mortos que sujeitam essas mesmas temáticas (por mais reais que sejam). Será um escape, uma alternativa para "sujar" esse quadro de realismo "perfeito"? A verdade é que Elon vence a muitas outras abordagens da chamada "docuficção" por essa hibridez, uma invocação quase "mizoguchiana" desses dois mundos tão desiguais.

 

Filme visualizado no 14º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa

 

Real.: Ricardo Alves Jr. / Int.: Rômulo Braga, Clara Choveaux, Ricardo Alves Jr.

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 15:15
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2.5.17

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Mais um ano, mais uma edição do Indielisboa. Para sermos mais exactos, o festival lisboeta com especial dedicação ao cinema alternativo e independente vai para o 14º ano de existência. A melhor forma de celebrá-lo é apresentar-nos outra rica selecção, desde as habituais retrospectivas, novidades, experiências e uma das maiores competições de filmes nacionais da História do evento. São seis longas-metragens, desde nomes prontos para saírem do anonimato até o regresso de veteranos, tais como Jorge Cramez, que segundo Mafalda Melo, uma das programadoras do festival, “é uma infelicidade não filmar mais”.

 

Quem disse que não havia Cinema Português?

 

Foi sobre esse signo lusitano que arrancou a nossa conversa com a programadora, que afirma devidamente que é sob a língua portuguesa que a 14ª edição terá o seu pontapé de saída. Sim, Colo, o novo filme de Teresa Villaverde, presente na competição do passado Festival de Berlim, terá a honra de abrir mais um certame, criando um paralelismo com a tão rica Competição Nacional: “É um ano feliz, aquele que sempre poderemos abrir com um filme português

 

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Mas voltando ao ponto de Cramez (Amor, Amor), o retorno do realizador ao formato da longa após dez anos de Capacete Dourado,  é “uma confirmação do seu talento”, que se assume como forte candidato da Competição Nacional e Internacional, no qual também figura. E isto sem  desprezar o potencial dos outros cinco candidatos ao Prémio de Melhor Filme PortuguêsCoração Negro, de Rosa Coutinho Cabral, “uma ficção dura, de certa forma ingénua e verdadeira”, o regresso de André Valentim Almeida ao trabalho “sob a forma de filme ensaio” em Dia 32, a aventura de Miguel Clara Vasconcelos na ficção em Encontro Silencioso, que remete-nos ao delicado tema das praxes universitárias, Fade into Nothing de Pedro Maia, “um excelente road movie” protagonizado por The Legendary Tiger Man, e, por fim, Luz Obscura, onde Susana de Sousa Dias persiste no “registo documental em tempos da PIDE”.

 

Em relação à competição de curtas-metragens, Mafalda Melo destaca algumas experiências neste formato, entre as quais o nosso “Urso de Ouro”, Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante, assim como Salomé Lamas (Ubi Sunt), José Filipe Costa (O Caso J), Leonor Noivo (Tudo O que Imagino) e André Gil Mata (Num Globo de Neve). Ou seja, apesar de serem filmes de “minutos”, nada os impede que sejam “impróprios” para grandes nomes da nossa cinematografia e “uma seleção bastante consistente”.

 

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A Emancipação dos Heróis

 

Para Mafalda Melo, o que une os dois Heróis Independentes deste ano é o seu espírito marginal: “Quando falamos de Cineastas Independentes, quer do Paul Vechiali como do Jem Cohen, não pelas mesmas razões, nem pelas opostas, são dois cineastas verdadeiramente independentes.

 

Jem Cohen é provavelmente o mais fundamentalista a receber este titulo de “Herói”. O nova-iorquino “quando começou a filmar, há cerca de 30 anos, precisou só da sua câmara e ter ideias para fazer filmes. Foi assim que ele trabalhou e continua a trabalhar.” Uma carreira diversificada, que vai desde o documental à música, ao ensaio até à pura experiência que não limita a sua cinematografia, com orçamentos “baixíssimos” até a micro-equipas, um verdadeiro “sentido de independência”. O Indielisboa irá dedicar-lhe um extenso ciclo, incluindo o seu mais recente filme, Birth of a Nation, uma visita a Washington no dia da tomada de posse de Donald Trump: “um filme onde encontramos aquilo que sempre encontrámos na sua filmografia, uma ligação emocional às coisas, aos espaços e aos sítios. Um gesto politico, silencioso, mas igualmente agressivo”.

 

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No caso de Vecchiali, “a sua independência garantiu-lhe um lugar à margem das manifestações artísticas da sua época.”. Longe da nouvelle vague, por exemplo, o outro Herói foi actor, realizador, produtor, um homem voluntariamente marginalizado dos eventuais contextos cinematográficos que foram, no entanto, surgindo. Como produtor, Vecchiali mantinha-se fiel ao “espírito do realizador e da obra”. Tal fidelidade resultou na sua produtora, a Diagonale, onde os realizadores usufruíram da mais intensa liberdade criativa, tendo apenas como condição respeitar o “orçamento imposto”.

 

Uma Família Cinematográfica

 

Os métodos de liberdade concebidos por Paul Vecchiali fortaleceram a ideia de “família cinematográfica”, um circulo partilhado pelo Indielisboa que aposta sobretudo na crescente carreira de muitos dos seus cineastas. Melo sublinhou com curiosidade, o regresso constante de muitos autores premiados, como por exemplo das secções de curtas, ao festival com novos projectos entre mãos. É a família, esse revisitar, que alimenta a ideia de que um festival  que é sobretudo mais que uma mera mostra de filmes, um circuito de criadores e suas criações.

 

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Nesse sentido, o 14º Indielisboa conta com três realizadores anteriormente premiados nas secções de curtas, “com filmes seguríssimos que só apenas confirmam os seus já evidenciados talentos”. Quanto a outros convidados, Mafalda Melo destaca a presença dos dois Heróis Independentes, dos realizadores das duas grandes Competições (Nacional e Internacional) que terão todo o grado de apresentar as suas respectivas obras e ainda Vitaly Mansky, um dos documentaristas russos mais aclamados.

 

Mantendo-se Internacionalmente Competitivos

 

São 12 primeiras, segundas e terceiras obras que concorrerão pelo cobiçado prémio. Uma selecção rica, quer em temas, nacionalidades e estilos. A programadora refere novamente Cramez, um português a merecer destaque numa Competição que esteve várias edições fora do alcance do nosso cinema, e ainda as provas de Kiro Russo (Viejo Calavera), Song Chuan (Ciao Ciao), Eduardo Williams (El Auge Del Humano) e a produção brasileira Arábia, de Affonso Uchoa e João Dumans. “Todos estes filmes são descobertas e terem em conta”, acrescentou.

 

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A destacar ainda a união de Lucien Castaing-Taylor e Veréna Paravel, dois investigadores da Sensory Ethnography Lab, de Harvard, que conduziram em 2013 o grande vencedor do Indielisboa, Leviathan, agora remexendo no onírico do letrista nova-iorquino Dion McGregor.

 

O Inferno continua no Indie

 

Mafalda Melo foi desafiada a falar da crescente secção Boca do Inferno, dedicado ao cinema de género e de temáticas ainda mais alternativas, sem mencionar a sensação de Grave (Raw), o filme de canibalismo de Julia Ducournau, que vai mantendo um registo de desmaios, vómitos e saídas repentinas por parte dos espectadores, por onde passou.

 

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Respondendo ao desafio, a programadora falou, incontornavelmente, de Free Fire, o mais recente trabalho de Ben Wheatley (Kill List, Sighseers),uma espécie de Reservoir Dogs da nova geração”. Brie Larson, Cillian Murphy e Armie Hammer são os protagonistas. Mas foi em I Am Not a Serial Killer que se sentiu um maior fascínio: “Um pequeno grande filme sobre um jovem de tendências homicidas que descobre que Christopher Lloyd, o Doc do Back to the Future, é um verdadeiro monstro. Uma obra geek, mas de um humor negro inacreditável.

 

O russo Zoology, “outro pequeno grande filme, sobre uma mulher que descobre que lhe está a crescer uma cauda, não colocará ninguém desapontado”. Estas entre outras “experiências bastante distintas” que alimentaram esta cada vez mais procurada secção.

 

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Director’s Cut: entre Zulawski e Herzog

 

Dois eventos esperados para cinéfilos são a exibição do filme “maldito” de Andrzej Zulawski, On The Silver Globe, e Fitzcarraldo, de Werner Herzog. Em relação a Zulawski,estamos muito satisfeitos por fazer parceria com a White Noise, como resultado iremos exibir uma recente cópia restaurada” de um filme incompleto devido à decisão da época do Ministério da Cultura polaco de vir a comprometer questões politicas e morais.

 

Quanto a Fitzcarraldo, a sua projecção foi motivada por outra projecção, a da curta de Spiros Stathoupoulos, Killing Klaus Kinski, que durante a rodagem do tão megalómano filme, o chefe de uma tribo amazónica que propôs a Herzog o assassinato do actor Kinski de forma a restabelecer a paz.    

 

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Redescobrir o Português subestimado

 

Ainda no Director’s Cut, está agendado um encontro com Manuel Guimarães, o cineasta que tentou incutir o neo-realismo no cardápio cinematográfico português, mas que hoje tornou-se numa figura esquecida e constantemente subestimada. O Indielisboa passará O Crime de Aldeia Velha, uma história sobre inquisições e superstições, que dialogará com o filme de Leonor Areal, Nasci com a Trovada, um olhar atento à figura e os motivos que o levarão a tão triste destino – a falta de reconhecimento.

 

Indiemusic ao Luar!

 

Uma das secções mais habituais do Indielisboa terá um novo fôlego. O Indiemusic abrirá em paralelo com a reabertura do Cineteatro Capitólio/Teatro Raul Solnado. Serão sessões ao ar livre com muito cinema e a música como cocktail. A mostra terá inicio no dia 5, com a projecção de Tony Conrad: Completely in the Present, o documentário que olha o legado incontornável do “padrinho” dos Velvet Underground.

 

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Um festival a crescer!

 

Ao longo de 14 anos, o Indielisboa tem se tornado um festival cada vez mais “acarinhado por parte do público”, o que corresponde a mais espectadores, mais secções. Mas para Mafalda Melo, o “Indie não se fechou, mas sim expandiu fronteiras ao mesmo tempo manteve-se fiel ao seu espírito independente. Conseguimos ao longo destes anos uma mostra esperada dentro deste circuito, uma plataforma para a descoberta. E é isso que temos mantido, esta evolução gradual ao longo dos anos, o dever de apresentar cineastas e filmes que as pessoas desconhecem.

 

O Indielisboa acontecerá no Cinema São Jorge, Cinema Ideal, Cinemateca Portuguesa Museu do Cinema, Cineteatro Capitólio e a Culturgest, prolongando-se até ao dia 14 de Maio.

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:04
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4.4.17

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O Indielisboa'17 vai apresentar uma das maiores competições de produções portuguesas no seu historial enquanto festival. Serão no total mais de 6 longas-metragens (5 delas em estreia mundial) e 18 curtas-metragens, com especial atenção à remessa lusitana de Berlim incluindo o galardoado Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante. A contrário de muitas edições anteriores, esta mostra de cinema falado na Língua de Camões será maioritariamente obras de ficção.

 

Amor, Amor de Jorge Cramez será um dos destacados na selecção portuguesa, não só pela sua presença na competição nacional mas também pela sua hipótese na grande competição internacional. "Desde 2013 que não tínhamos um filme português em competição", revelou Mafalda Melo, uma das programadoras do festival, que ainda confessa ter visto mais de "2.000 filmes desde o fecho da última edição", com o propósito de apresentar durante 3 a 14 de Maio, uma programação onde os filmes funcionam de forma conjunta. O tema encontrado nesta mostra, segundo Melo, foi a raridade. "Estes filmes são raros, e raros encontrá-los".

 

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Enquanto que a Competição Internacional é feita por inúmeras primeiras longas-metragens e nomes em ascensão, é na secção Silvestre que encontraremos alguns veteranos e confirmações. Nas propostas é evidente o regresso de Jean-Gabriel Périot [ler entrevista], que após o ciclo dedicado na edição passada, possui um novo filme (Lumières d'été). Alex Ross Perry, célebre pelo aclamado Queen of Earth, marca presença com Golden Exits, protagonizado por Emily Browning, o romeno Radu Jude com Inimi Cicatrizes, Lea Glob afasta-se de Petra Costa [ler entrevista] e reúne com Mette Carla Albrechtsen para nos entregar Venus, e ainda, a obra póstuma de Michael Glawogger (falecido em 2014), o documentário Untitled, com o apoio de Monika Willi.

 

Na secção Silvestre, em foco está a dupla Gusztáv Hámos e Katja Pratschke, ele húngaro, ela alemã, que apostaram em inúmeros ensaios com base no vídeo e nos filmes-espelhos (num formato de instalação dentro de um filme. Quantos aos Heróis Independentes (como já havíamos noticiado aqui), Jem Cohen e Paul Vecchiali marcarão posição. A presença de ambos está acima de tudo confirmadíssima.

 

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A IndieMusic não poderia faltar, com documentários sobre a banda Oasis (Oasis: Supersonic, Mat Whitecross) e o Frank Zappa (Eat that Question - Frank Zappa in His Own Words, de Thorsten Schütte), e ainda, com especial atenção, Tokyo Idols, de Kyoke Miyaki, um mergulho pelo mundo das girls band e cantoras pops japonesas, jovens que despoletam fenómenos de popularidade que levam a consequências obsessivas.

 

O Indiejunior mantêm-se e como Mafalda Melo salientou a importância deste espaço, o de revelar filmes alternativos aos meus pequenos, uma variação do seu gosto cinematográfico. "Estamos a formar novos públicos, novos cinéfilos e novos adultos". No Director's Cut existe um especial destaque à memória de Andrzej Zulawski, motivado pela reposição da sua obra de 1988, On the Silver Globe.

 

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Miguel Valverde, também programador e director do festival, recomendou a obra de Luís Filipe Rocha, Rosas de Ermera, uma viagem pelas memórias do músico e activista Zeca Afonso. O filme será exibido em sessão especial. Por fim, A Boca do Inferno, a ainda "verde" secção", uma apresentação de obras de género e de carácter ainda mais alternativo e ousado, onde se destaca este ano a entrada do novo trabalho de Ben Wheatley (Free Fire) e o mediático Raw (Grave), o filme de canibalismo de Julia Ducournau, que tem feito manchetes por onde fora exibido, desde as desmaios a saídas repentinas dos espectadores na sala.

 

A 14ª edição do Indielisboa arrancará com o filme de Teresa Villaverde, Colo, que esteve em competição no Berlinale deste ano. O festival dará o seu pontapé de saída com o documentário de Raoul Peck, I Am Not Your Negro. O carinhosamente apelidado Indie acontecerá no Cinema São Jorge, Cinema Ideal, Cinemateca Portuguesa Museu do Cinema, Cineteatro Capitólio e a Culturgest. Esta última tem sido parceira do festival desde 2008, porém, Miguel Lobo Antunes, administrador do centro cultural irá reforma-se, saído do seu cargo e deixando esta cumplicidade me aberto em futuras edições.

 

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A programação completa poderá ser vista aqui

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:04
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30.3.17

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Colo, o novo filme de Teresa Villaverde que se encontrou presente na Competição do último Festival de Berlim, terá as honras de abrir o 14º Indielisboa. Recordamos que a obra é descrita como um retrato realista de uma família no limiar da pobreza.

 

O festival de cinema independente de Lisboa decorrerá entre 3 a 14 de Maio,  tendo ainda revelado o seu filme de encerramento, I Am Not Your Negro, um documentário de Raoul Peck sobre a luta pelos direitos civis nos EUA. O filme contou com uma nomeação ao Óscar de Melhor Documentário.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:15
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21.3.17

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Paul Vecchiali, realizador e produtor francês conhecido pela sua irreverência, e Jem Cohen, prolifero cineasta norte-americano, serão homenageados na próxima edição do IndieLisboa na categoria de Heróis Independentes.

O primeiro contará com uma longa retrospectiva a ser projetada na Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema. Tal será composta por algumas das suas mais importantes obras, incluindo o seu mais recente trabalho, Le Cancre, que fora exibido no Festival de Cannes em 2015, numa Sessão Especial. Conhecido pelo carácter provocador e a sua natureza polivalente, para além de realizador e produtor (destaca-se a sua colaboração com os primeiros anos de Jean Eustache), Vecchiali contribui com alguns, mas importantes artigos, para a Cahiers du Cinema.

Em relação a Jem Cohen, o Indielisboa sempre manteve uma relação intima e atenta para com a obra deste artista que conta com mais de 70 trabalhos, desde longas a curtas, instalações e fotografias, todos eles marcados por uma veia indie, que o festival tem vindo apoiar desde os primórdios da sua existência.

Indielisboa chegará a partir do dia 3 de Maio, prolongando-se até 14 do mesmo mês.
 
 
 

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publicado por Hugo Gomes às 16:32
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1.5.16

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Mesmo com a suas cinco horas de duração, Jia, conquistou o júri principal da 13ª edição do Indielisboa, tendo sido laureado com Grande Prémio da Cidade de Lisboa, o filme de Shumin Liu tem sido referenciado durante o certame como um possível sucessor de "A Viagem de Tóquio", de Yasujiro Ozu.

 

 

Enquanto isso, Kate Plays Christine, de Robert Greene, consolou-se com o Prémio Especial de Júri, e na Competição Nacional, Treblinka, de Sérgio Tréfaut, foi o grande vencedor.

 

 

 

PALMARÉS INDIELISBOA 2016

 

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
Jia/The Family, Shumin Liu (Austrália, China)

 

Prémio Especial do Júri Canais TV & Séries
Kate Plays Christine, Robert Greene (EUA)

 

Grande Prémio de Curta Metragem
Nueva Vida, Kiro Russo (Argentina, Bolívia)

 

 

Menções Especiais
Animação

Velodrool, Sander Joon (Estónia)

 

Documentário
La impresión de una Guerra, Camilo Restrepo (Colômbia, França)

 

Ficção
Another City, Lan Pham Ngol (Vietname)

 

Prémio Allianz – Ingreme para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Treblinka, Sérgio Tréfaut (Portugal)



Nescafé Dolce Gusto – Ingreme para Melhor Curta Metragem Portuguesa
The Hunchback, Gabriel Abrantes, Ben Rivers (Portugal, França)

 

Prémio Novo Talento Fnac – Curta Metragem
Campo de Víboras, Cristèle Alves Meira (Portugal)

 

Menção Honrosa
Viktoria, Mónica Lima (Alemanha, Portugal)

 

Prémio FCSH/NOVA para Melhor Filme na secção Novíssimos
Maxamba, Suzanne Barnard, Sofia Borges (Portugal, EUA)

 

Prémio RTP para Longa Metragem na Secção Silvestre
Eva no duerme, Pablo Agüero (França)

 

Prémio FIPRESCI (Primeiras Obras)
Short Stay, Ted Fendt (EUA)

 

Prémio Format Court (Silvestre Curtas)
World of Tomorrow, Don Hertzfeldt (EUA)

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Ascensão, Pedro Peralta, Portugal

Menção Honrosa

Jean-Claude, Jorge Vaz Gomes (Portugal)

 

Prémio IndieJúnior Árvore da Vida
Le nouveau, Rudi Rosenberg (France)

 

Prémio Amnistia Internacional
Flotel Europa, Vladimir Tomic (Dinamarca, Sérvia)

 

Menção Honrosa
Balada de Um Batráquio, Leonor Teles (Portugal)

 

Prémio Culturgest Universidades
Flotel Europa, Vladimir Tomic (Dinamarca, Sérvia)

Prémio Culturgest Escolas
Le gouffre, Vincent Le Port (França)

 

 

Júri do Público


Prémio Longa Metragem
Le nouveau, Rudi Rosenberg (França)

Prémio IndieMusic Schweppes
Sonita, Rokhsareh G. Maghami (Alemanha, Suíça, Irão)

Prémio Curta Metragem Merrell
Small Talk, Even Hafnor, Lisa Brooke Hansen (Noruega)

Prémio IndieJúnior Trinaranjus
The Short Story of a Fox and a Mouse, Camille Chaix, Hugo Jean, Juliette Jourdan, Marie Pillier, Kevin Roger (França)

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:06
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A superioridade humana das "Coisas Selvagens"!

 

Até podia ser a adaptação de um conto qualquer de H.P. Lovecraft. Podia, mas não o é. E permitam-me que o diga, esta não-adaptação é mais lovecrafteana que as próprios conversões do legado do escritor norte-americano, ponto. A francesa Lucile Hadzihalilovic, colaboradora de Gaspar Noé, regressa ao seu cinema de sugestão, o terror é mero elemento do desconhecido, esse, abraçado pelas profundezas oceânicas e deslumbrado por um simbolismo utópicos, indo directamente dos mitos gregos das Amazonas até às lendas "atlântidas".

 

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Nesta fábula negra, somos levados a uma ilha remota habitada somente por mulheres e as suas respectivas crianças, todos eles rapazes. No seio dessa comunidade encontramos Nicolas (o estreante e revelação Max Brebant), que tal como todos os habitantes desta ilha, possui uma forte ligação ao mar. Um dia descobre um corpo de um menino nas profundezas e é a partir desse incidente, que Nicolas apercebe-se que algo estranho e inumano acontece diariamente no seu lar, longe dos seus olhos, mas muito perto do seu corpo.

 

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Hadzihalilovic transforma o silêncio em algo ensurdecedor, incomodo como um "tentáculo" que nos leva para um mundo de possibilidades, porém, mortiferamente convidativo. Evolution (Evolução) funciona num retrato das fragilidades humanas, aqui consentidas nos seus próprios sentimentos, que na ausência destes somos sujeitos a metamorfoses animalescas (literalmente representado), vitimas de algo mais antigo que o tempo, mas fora do primitivismo arcaico.

 

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Este "body horror" intimista, povoado por criaturas inexpressivas, é o lugar onde a humanidade torna-se no derradeiro macguffin. Parece cliché insinuar que são as emoções que nos distinguem do resto destas monstruosidades "lovecraftianas", o descrito nosso auge da cadeia evolutiva. Contudo, é na abordagem que Evolução consiste no portento da "história da carochinha", o qual os sentimentos, matéria esotérica aqui exposta, servem como vinganças pessoais na confrontação de um negro desconhecido, e simultaneamente, é com eles, como é demonstrado metaforicamente na imagem da estrela-do-mar, a nossa regeneração. 

 

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Por vezes sonhamos em ser melhores, influenciarmos por um sonho de Ícarus, as pretensões de ser uma espécie de superioridade acima de qualquer factor natural. Todavia, esquecemo-nos que essa nossa fraqueza sentida, converte-se na ancora que nos impede de atingir tamanho degrau. Trata-se daquilo (novamente pisando na mesma lengalenga),  que nos diferencia do resto das "bestas".

 

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Lucile Hadzihalilovic fez um filme sobre a Humanidade, sobre o estado dela e o caminho a percorrer, tudo instalado em território fantástico, dilacerando na incógnita desses mares desconhecidos. Evolução é isso, um conto que nos causa arrepios pela sua frieza narrativa, envolvida numa composição sonora e um visual deslumbrante. Este é dos filmes mais intrigantes do ano, nisso tenho a certeza, como também o mais prodigioso da mente de Lovecraft, sem assumir-se como peça adaptada.

 

Filme visualizado no 13º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Lucile Hadzihalilovic / Int.: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:23
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30.4.16

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Por entre a realidade filmada em jeito documental e a encenação não como um dispositivo fictício, mas antes uma ferramenta para compreender esse mesmo veio de veracidade, Olmo e a Gaivota [ler crítica] é um dos filmes mais fascinantes a chegar aos nossos cinemas este ano. As autoras desta obra, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob, falaram com o Cinematograficamente Falando … sobre esta colaboração não voluntária que resultou numa catarse sobre o cinema propriamente dito, sem limitações a géneros nem estilos. No seio de Olmo e a Gaivota esconde-se ainda temáticas a merecer da nossa consideração, algumas delas fazendo parte da luta de Petra, os direitos das mulheres e a soberania destas pelo seu próprio corpo.

                                                     

 

Começo com a pergunta mais básica, como surgiu este projecto?

 

Petra Costa: Este projecto surgiu através do Dox Lab, num festival da Dinamarca. Todo os anos são convidados dez realizadores não-europeus para co-dirigir com dez europeus. Eu fui convidada para trabalhar com a Lea, tinha até um certo interesse no cinema dinamarquês e queria conhecer um pouco mais sobre ele. Tínhamos uma semana para decidir que tipo de filme iríamos conceber, mesmo antes de conhecer-nos pessoalmente. Vim com dez ideias que tinha guardado desde então, uma delas era a documentação de um dia na vida de uma mulher onde nada acontece, mas que tudo acontece na sua cabeça. Entretanto, a Lea sugeriu: "e que tal pegasse-mos numa mulher real". Ela estava mais interessada em fazer documentário e no meu caso, ficção. Ela queria ir para a Amazónia e eu para Dinamarca.

 

"Sim, vamos pegar numa mulher real, mas se for actriz, pegaríamos na vida real dela, e eu conheço uma actriz". A actriz que falava era Olivia Corsini, que estava no momento a fazer uma turneê no Brasil através da companhia teatral francesa Theatre du Soleil e que tinha visto o meu primeiro filme [Elena]. Ela havia sugerido fazer um filme comigo, então falei-lhe da ideia. A Lea gostou. Fizemos uma reunião através do Skype com Olivia que demonstrou automaticamente interesse. Todavia, ela disse "estou grávida", e foi aí que decidimos alargar um dia para nove meses.

 

Lea Glob: Foi um convite através do CPH:Dox, a escolha seguiu do comité do festival, por isso não tivemos decisão nenhuma com a formação deste par. Enquanto isso, eu tinha visto Elena, e encontrei similaridades com a minha curta [Mødet med min far Kasper Højhat], ambos falavam de histórias pessoais que tinham como temática o suicídio. Esse era o primeiro filme da Petra, e no meu caso, tinha acabado de formar na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca, eu sou europeia, ela não, por isso julgo que quem decidiu esta dupla encontrou uma espécie de ligação, algo em comum.

 

 

O facto de trabalhar com uma actriz, seria a melhor forma de trabalhar ambos os lados, o lado ficcional e o lado verídico, neste caso documental?

 

 

LG: Absolutamente, tal era essencial. Aliás ela era bastante dada a trabalhar desta maneira, isso nota-se ao longo do filme. Ao trabalhar com actores assim tornaríamos realizadores mais livres e chegaríamos facilmente à intensidade do material.

 

PC: Na grande maioria dos documentários, uma das grandes questões é ter acesso ao personagem e a questão dos limites, se está ou não a invadir a vida daquela pessoa, ou se está usando ela num filme que supostamente poderá não ser tratada da forma como ela pretende. Mas a grande vantagem de trabalhar com um actor é que o desejo é recíproco, ela não quer contar uma história, ela quer ser usada, porque essa é a sua profissão, o seu desejo, a de estar ao serviço de uma história nem que para isso tenha que usar o corpo e a mente. Mas quando a história é na realidade a vida dela, o ângulo inverte mas continua no âmbito do desejo.

 

 

No caso de Petra, visto que já conta com duas longas-metragens, Elena e Olmo e a Gaivota, existe uma palavra que caracteriza esse seu cinema - intimidade. Enquanto que em Elena, o espectador sentia-se incomodado por invadir a sua intimidade, neste filme, estamos a invadir a intimidade de uma actriz, o qual em certas sequências Olivia pede mesmo para parar. Como sente em invadir a intimidade de outras pessoas?

 

PC: É um pouco mais que isso, porque é justamente nessas questões que estou a falar, quando é a sua própria intimidade vai da vontade, não existe um limite imposto. Mas essa tensão foi frutífera, é como estivéssemos constantemente a jogar aquele jogo de cordas onde cada um puxa para o seu lado. Nós tentamos chegar um pouco mais fundo na intimidade dela, e ela, com clareza, deixava, depois há um momento em que colocamos visivelmente as nossas interacções com ela. Nesse aspecto, tratou-se de revelar esse limite - as portas  - como as do banheiro que se fecham, neste caso conseguimos estar do lado dentro do banheiro (risos).

 

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Em Olmo e a Gaivota, o que é que poderemos considerar ficção e documentário?

 

LG: Não existe resposta para isso (risos), nem sei se consigo responder correctamente a isso. Julgo que é a mais bela parte do filme, porque incentiva os espectadores, mas não se trata de um jogo do que é falso ou real. Diria antes que é uma "onda" de interacção, sim diria antes isso, e como tal gosto do filme por causa disso, porque faz-me sentir que fizemos algo certo naquilo.

 

PC: Sim, essa é a questão que motiva o filme, que analisa todas as cenas, é como fizéssemos um filme hermafrodita, qual seria a parte masculina, qual seria a feminina. O filme é precisamente a tensão entre os dois géneros.

 

 

Quais as grandes influências para a condução deste filme?

 

LG: O teatro, assim como a peça de Anton Tcheknov, que foram bastantes importantes para o tom do filme.

 

PC: Primeiramente o teatro, Olivia integrava o Theatre du Soleil, por isso temos registos dos seus ensaios e encenações. Temos ainda influências do cinema francês, não da Nouvelle Vague, mas da facção Rive Gauche, como Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda, que usualmente abordam as questões da identidade, da memória, mais do feminino. O livro de Virgina Woolf, Miss Dalloway, que foi para nós essencialmente um guia, visto que era para ser um dia na vida de uma mulher, mas que fez com que olhássemos para a vida de Olivia através da moldura desse livro.  

 

 

No final, Olmo e a Gaivota resultou num retrato de um romance. Uma romance entre dois actores, marido e mulher que teriam que lidar com o maior dos fardos. O filme captou esse amor na sua integral forma, relembro da sequência musical [Mi Sono Innamirato di Te], por exemplo. Tal factor [o romance] já estava prescrito na ideia ou foi uma oportunidade que surgiu durante o processo?

 

LG: Diria que foram os dois casos. Visto que temos uma história sobre gravidez e era normal termos um amor, uma relação amorosa, que poderíamos aprofundar. Bem, eu penso que sou a pessoa mais romântica da "equipa" (risos) o que fez também abordar esse tópico.

 

É bom sentir o amor, e existe bastante neste filme. Petra também mencionou que tal transmitia uma empatia entre os dois, não apenas como marido e mulher, mas também como actores, o que permitiu-nos segui-los, o qual tornaram uma relação gentil. Eles são gentis juntos, e isso foi bom. Quanto às canções, como também muitos outros gestos, surgiram através deles. Foram tudo ideias deles.

 

PC: Sim, penso que isso está muito presente na sua relação. Talvez tenhamos provocado mais o outro sentido, do que mostrar mais amor. O amor surgiu naturalmente, assim como demonstraram as "fracturas" desse relacionamento.

 

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Quanto a novos projectos? Regressarão como equipa ou separadamente?

 

LG: Bem, ambas temos novas ideias, mas serão em separado. Não temos ideia de regressar a esta colaboração, quer dizer, se Petra pedir estarei disponível, assim vice-versa. As portas estão abertas e continuarão assim. Neste momento, estou a preparar um filme sobre a sexualidade, a interpretação de mulheres através de memórias erradicadas, como elas procedem a esse encontro.

 

PC: Estou a trabalhar num filme ficcional que decorre nos anos 80, no Brasil, sob o ponto-de-vista de uma jovem rapariga, focando na maneira como ela interage com a diferença de classes e politicas. Também estou a trabalhar num documentário sobre a crise politica brasileira.

 

 

Para Petra, gostaria de falar sobre a sua campanha "O Meu Corpo, as Minhas Regras"?

 

PC: Sim. Surgiu quando o nosso filme ganhou o Prémio de Melhor Documentário no Festival do Rio. Fiz um discurso em que dedicava o prémio a todas as mulheres, para que nenhuma sofresse de machismo no Brasil, desde a presidenta até à doméstica, e que todas tivesse a soberania sobre o próprio corpo, seja para mergulhar numa gravidez como a nossa personagem, com todos os direitos para isso, ou fosse para interromper, como já é legal na França e EUA há mais de quarenta anos.

 

Nessa noite fui dormir feliz, até porque tinha ganho um prémio (risos) e feito um discurso. Na manhã seguinte, acordo com uma invasão de milhares de comentários muito agressivos na minha pagina de Facebook, "sua abortista, você deveria morrer, é pena que a tua mãe te teve, fecha a perna, sua vagabunda", um machismo que nunca tinha encontrado, pelo menos a este nível. O que demonstra um ódio crescente que o Brasil tem experimentando.

 

Então através disto fiz um vídeo, pelo qual já tinha vontade de fazer, que tratasse das questões do filme que não estão claramente abordadas nela, que é a falta de interpretação de mulheres no cinema, a questão do corpo e do próprio aborto. Tinha alguns actores que tinham visto o filme e que tinha gostado, e então sugeri a ideia, eles gostaram e prosseguimos com a iniciativa. A ideia era pegar no figurino de Olivia, mulheres e homens engravidando até para colocar na mente das pessoas o que aconteceria se o sexo masculino pudesse mesmo engravidar. No Brasil, muitos colocavam a hipótese se o homem engravidasse o aborto já teria sido legalizado há muitos séculos.

 

O vídeo surgiu disso, brincar com todas essas questões e ele viralizou, teve umas 14 milhões de visualizações e partilhas em diferentes páginas de Facebook. Acabou por virar uma "onda", que fora a primeira "onda" feminista de grande impacto no Brasil. O país teve um movimento feminista nos anos 60 e 70, mas foram bastante reprimidos. Ou seja, eles afirmaram menos do que desafirmaram, virou quase "xingamento", só em Novembro do ano passado é que ser feminista deixou de ser "xingamento" no Brasil.

 

Tudo também foi possível porque temos um forte antagonista que é Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que é um dos políticos mais machistas que o Brasil presenciou, e também um dos corruptos, o qual vem retrocedendo diversas pautas que foram conquistados pelas mulheres.

 

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O que está a tentar dizer que o Brasil é no fundo um país conservador?

 

É um país contraditório, para muitos é a terra do samba, da mulher "pelada", do homem cordial, da igualdade racial, mas isso é falso de certa forma, essas contradições é como estivessem enterradas por ali. Somos um país que comemora a democracia, mas na realidade ela é uma fina camada de papel, que por baixo vai sendo corroída por ratos. Esses mesmos ratos, comeram, comeram, até que quebraram a coluna vertebral, e os ratos estão agora expostos, mas na verdade eles sempre estiveram ali. Talvez seja do facto do Brasil nunca ter tido uma Guerra Civil como os EUA ou uma grande luta pela independência. Nunca houve esse embate de ideais.

 

Hoje assistimos a um país sob uma Guerra Civil retardada, uma parte, esclavagista, machista, oligarca e conservadora contra uma outra porção que luta pelos direitos humanos.    

      

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:44
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28.4.16

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O "furacão" Macaigne, como é assim apelidado pela imprensa, esteve em Portugal por alturas do Indielisboa. O festival lisboeta dedicou-lhe uma retrospectiva sobre o seu incansável trabalho como actor, produtor e realizador, e salientou o seu tremendo contributo para com as novas gerações que actualmente surgem no cinema francês. O Cinematograficamente Falando … falou com este "Herói Independente".

 

É a sua primeira vez em Lisboa?

Sim, esta é a minha primeira vez. Tenho andado por aí a ver a cidade e Lisboa é realmente um local bonito … e bastante louco.

 

Como se sente ao saber que um festival lhe dedica uma retrospetiva?

Como eu me sinto? Bem, é bastante estranho porque eu não me sinto assim tão velho.

 

Acredita que as retrospetivas são para "velhos"?

Não nesse sentido, eu acredito que quando um festival dedica-te uma retrospectiva, é sinal de que algo precisa de mudar na tua carreira, ou seja, a partir daqui devo fazer algo diferente.

 

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E ao saber que o festival dedicou-lhe uma retrospectiva em conjunto com a de Paul Verhoeven?

Bem, faz-me sentir bem pior em relação à velhice (risos). Agora a sério, é uma honra estar lado a lado com este cineasta, como homenageados num festival.

 

Em Éden, de Mia Hansen-Løve, o Vincent interpreta uma personagem que a certa altura aclama o "infame" Showgirls, de Verhoeven, como uma obra-prima. Já viu o filme e partilha a mesma opinião da sua personagem?

Sim, eu vi o filme, mas posso dizer que não concordo com a palavra "obra-prima". Essa frase é exclusiva da minha personagem, não partilho essa opinião.

 

Em 2013, com três filmes em competição no Festival de Cannes, consideraram-no numa espécie de revelação do cinema francês, um novo "Depardieu" para ser mais específico. Foi, de certa maneira, nessa altura que se tornou numa presença habitual da mesma cinematografia. O que lhe fez interessar repentinamente pelo cinema?

Quanto à minha presença em Cannes, não foi bem isso que aconteceu. Apenas entrei em três filmes que porventura conseguiram integrar a selecção de Cannes, não fui nenhuma revelação como a imprensa apelidou. Todos os anos existe sempre um actor ou uma actriz que entra em mais do que um filme em Cannes e pronto, temos a revelação do ano. Quanto ao meu interesse no cinema, não foi algo que nasceu de repente, já possuía esse interesse há muitos anos, desde os meus tempos no Conservatório Nacional, apenas não havia ainda encontrado o melhor momento para fazer parte da indústria.

 

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Um dos seus trabalhos mais recentes foi na produção Les Deux Amis, no qual foi dirigido e contracenou com Louis Garrel. É bem verdade que vocês já se conheciam? Como foi trabalhar com Garrel como realizador?

Eu conhecia Louis Garrel desde os tempos do Conservatório Nacional, participamos em algumas peças juntos e desde então tornámo-nos amigos. Entretanto entrei na sua curta de La Règle de Trois e a coisa até correu bastante bem. Algum tempo depois convidou-me para integrar o elenco da sua primeira longa-metragem, Les Deux Amis, e obviamente aceitei. Louis tem muito talento e divertidas ideias fixas. Mesmo tendo sido o seu primeiro grande filme, soube perfeitamente lidar com todo o tipo de situações que poderia prejudicar qualquer "novato". Digamos que o cinema está no seu gene.

 

Já que refere o Conservatório Nacional, para si qual é o mais desafiante, o teatro ou o cinema? Qual deles prefere?

São dois "palcos" completamente diferentes. No teatro, o espectador vê o presente e o actor representa o momento. No cinema, é uma questão de memória, o espectador vê uma interpretação ultrapassada, apenas gravada. Ao contrário do teatro, o cinema mexe no passado das coisas. Outro exemplo é quando adoptamos uma personagem no teatro e esta tem tendência a alterar-se em cada sessão, existe um improviso evidente. No cinema, a personagem é trabalhada e depois de filmada é tudo aquilo que está exposto e pronto.

 

Voltando ao ponto da imprensa, esta refere-lhe que de certa maneira está a levar o cinema francês para uma Nova Vaga. Concorda?

Não me considero como tal, por vezes a imprensa exagera nos títulos e nas descrições. Apenas gosto de representar e estou aberto para qualquer proposta, seja cinema de autor ou filmes de alto orçamento. Aliás, eu entrei recentemente em Les Innocentes, de Anne Fontaine, que é um filme grande.

 

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O que tem a dizer sobre o estado actual do cinema francês?

É uma indústria muito diversificada, são vários os filmes gerados por ano, penso que sejam mais de mil, não tenho a certeza. É muito difícil avaliar qualquer tipo de estado.

 

Quanto a novos projetos?

Neste momento encontro-me em plenas filmagens de Les Philosophes, um filme de Guilhem Amesland, e estarei no elenco de La Loi de la Jungle, que foi rodado na Amazónia e é escrito e realizado por Antonin Peretjako que é o mesmo de La Fille du 14 Juillet (A Rapariga de 14 de Julho).

 

Existe a possibilidade desse último filme estar em algum festival?

Julgo que não, La Loi de la Jungle tem estreia marcada para Julho.

 

Gostaria de regressar a Cannes?

Sinceramente, Cannes é um óptimo festival para filmes, mas para mim é muita confusão, uma pessoa não consegue desfrutar aquilo direito. Prefiro festivais mais pequenos como este aqui. Uma pessoa pode ver filmes, conviver, fazer turismo com a maior das tranquilidades e isso é precioso.

 

Se recebesse algum convite para Hollywood, aceitaria?

Claro que sim, mas duvido que me convidem até porque tenho grande dificuldade em falar inglês.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:54
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25.4.16

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Une Jeunesse Allemande foi um dos filmes mais elogiados da passada edição do Indielisboa, um relato inteiramente composto por imagens de arquivo que demonstra a ascensão da Facção do Exército Vermelho, fundando por Andreas Baader e Ulrike Meinhof. Jean-Gabriel Périot foi o mentor dessa estrutura documental e agora é uma das figuras centrais da edição deste ano do mesmo festival que o havia acolhido. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador que tem demonstrado um intenso trabalho a nível de pesquisa, funcionado em prol da "mãe" de todas as questões - Porquê que lutamos?

 

 

É a sua primeira vez em Portugal?

Não, é a minha terceira vez.

 

Como se sente ao saber que um festival de cinema dedica a uma secção especialmente para si?

Posso dizer que fico feliz por ver um festival a passar os meus filmes. Digamos que quando um festival decide dedicar-me uma retrospectiva e criar uma espécie de "relação" comigo é no mínimo … estranho. 

 

O seu trabalho é quase exclusivamente à base do found footage, mas a questão é como surgem as suas ideias? Olha para uma imagem e elas "falam" consigo?

Tirando algumas exceções, a ideia nunca vem das imagens, e sim dos livros. Quando interesso-me por um assunto começo por ler bastante, investigo, pesquiso e só depois da ideia formada é que dirijo-me para os arquivos, ou seja, já existe filme antes das imagens. Só houve um que fugiu à regra, "Eût-elle été criminelle...", o qual eu segui primeiramente aos arquivos. Mas tirando isso, eu começo por inteirar-me num tópico e só depois é que surge o meu "assalto" aos arquivos.

 

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Os seus filmes têm uma forte componente política, por norma eles abordam a luta contra qualquer coisa. Esta sua vontade de demonstrar a insurreição, o combate, a manifestação, surgiu em algum ponto da sua vida, ou simplesmente você é um rebelde que odeia autoridades?

Na verdade, eu realmente odeio autoridades! (risos)

 

Mas por alguma razão?

Apenas não percebo porque é que algumas pessoas pretendem ser superiores, esse é um verdadeiro problema da autoridade. Por exemplo, eu sou um realizador, por isso poderia superiorizar-me perante os outros, mas para conseguir criar ou manter uma relação com os eles devo manter ao mesmo nível e não assumir como uma autoridade. O mesmo se passa com os políticos ou os chefes de estado, ninguém é superior a ninguém. Mas sei muito bem que precisamos de organização, porém, precisamos ainda mais de partilhá-la. Não cabe a uma pessoa decidir o destino de todos os outros.

 

E foi então que começou a fazer filmes sobre a luta contra a autoridade de qualquer forma?

Nem sempre isso se aplica aos meus filmes. Mas, por exemplo, mesmo quando deparamos com a resistência, a luta assim por dizer, questionamo-nos do "porquê que as pessoas lutam". Penso que é uma questão de energia.

 

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Então é essa a questão que procura nos seus filmes, o porquê de nós lutarmos?

Sim, é essa a questão que procuro. Por vezes, quando lutamos, libertamos muita energia e essa mesma energia quebra as nossas rotinas de vida. O universo não é perfeito, mas penso que encontramos o nosso lugar como ser humano enquanto resistimos a algo.

 

No caso da sua longa-metragem, Une Jeunesse Allemande, acredita ter feito um manifesto?

Não, pois penso que quando fazemos um referido manifesto o fazemos de maneira positiva. Se fizesse um manifesto comunista, por exemplo, seria algo do género "nós mudaremos o Mundo, mas ele teria que ser assim". Une Jeunesse Allemande é mais um filme sobre História a ser feita. Assistirmos a tantas pessoas falharem que é como um completo conjunto de fracassos. Nada muda. Julgo que neste filme é mais uma questão "do que fazer" e não "do que recusar". Tudo resume-se a uma invocação de resistência.

 

Referiu numa entrevista que prefere partilhar os seus filmes aos alcances de todos, mas no caso Une Jeunesse Allemande não funcionou bem assim. Quer explicar o porquê dessa decisão?

Simplesmente não tem a ver comigo, mas sim com a produção. Porque o cinema é arte e também indústria, e para faze-lo é preciso dinheiro, então arranjei quem o financiasse e esses mesmos produtores querem o seu dinheiro de volta. É assim que funciona, trata-se de um produto, não se pode divulgar gratuitamente na internet, essas pessoas [produtores] querem a sua "fatia". Obviamente que para mim, enquanto realizador, é preferível partilhar os meus filmes de maneira que todos pudessem vê-los.

 

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Foi curioso referir o seu filme como produto, por norma os realizadores evitam esse mesmo adjectivo.

O problema do cinema é que ela é uma indústria. Politico, autoral, etc, faz tudo parte da indústria. Como eu fiz muitos filmes sem dinheiro, os festivais sempre foram importantes para a divulgação dos meus filmes, exceto, obviamente, a internet. Mas quando iniciei não havia internet e mesmo assim ela não é suficiente. Por exemplo, eu próprio não gosto de ver filmes na internet, prefiro ir a um cinema ou até mesmo ter um DVD. Mas como realizador preciso de ir a todo o lado. É um preço a pagar para quem deseja fazer filmes.

 

E quanto a novos projectos?

Vou apostar num filme de ficção acerca de Hiroxima.

 

Ficção? Quer falar melhor sobre esse projecto?

De certa maneira será uma metáfora sobre o que Hiroxima "aprendeu". Passei algum tempo na cidade, em preparações para o meu 200,000 Phantoms, ouvi os seus habitantes, os sobreviventes da catástrofe, os testemunhos. Com tal experiência senti-me mais livre, o facto de ter em minha posse este tipo de História e o conhecimento gerado por este. Uma História preciosa, e igualmente frágil, porque os sobreviventes tentam lutar para serem felizes, mesmo tendo em conta tudo aquilo que passaram. Ou seja, terem a possibilidade de serem felizes, combatendo tudo aquilo que poderá destruir o mundo. Este filme trará não uma questão política, mas sim de como lidamos com o tempo. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:06
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24.4.16

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Depois de ter silenciado Cannes duas vezes, uma em 2002 com Irréversible e em 2009 com Enter the Void, Gaspar Noé voltou a fazer das suas em terras francesas com Love, uma história de amor, sexo e obsessão o qual prometeu alterar para sempre a maneira de encenar sexualmente no grande ecrã. Depois de uma estreia mediática no Festival, Love chega por fim a Portugal no âmbito do Indielisboa, o Cinematograficamente Falando … teve a oportunidade de falar com o realizador argentino radicado na França, numa conversa descontraída que disseca a sua obra, aborda uma vida que o cineasta pode nunca mais reaver, e o seu trabalho com "caras" desconhecidas.

 

 

Como foi concluir o seu "projecto de sonho"?

 

Foi um dos meus projectos de sonho. Eu escrevi o primeiro rascunho do guião após escrever o Enter the Void e depois de escrever uma curta sinopse do Irréversible. Como não consegui arranjar financiamento para o Enter the Void após a minha primeira longa-metragem, então optei por um projecto de baixo-orçamento que pudesse filmar e produzir em Paris. Escrevi um rascunho deste filme, que na altura intitulava-se por Danger, e conheci o Vincent Cassell num clube o qual perguntou-me o que estava a preparar. Disse-lhe que estava a espera de financiamento para o Enter the Void, mas que encontrava-se a preparar uma história de amor, bastante erótica, em Paris, e que estava interessado em que a Monica Bellucci entrasse.

 

Então encontrei-me com produtores que anunciaram que tinham o dinheiro para este projecto com Vincent Cassell e Monica Bellucci, e foi então que apercebi-me de que a maneira que pretendia filmar poderia comprometer o trabalho destes atores. Mas apresentei na mesma a minha ideia e eles simplesmente disseram “Não”. Foi então que sugeri, como estava livre nesse verão e o produtor também, fazer um outro projecto rápido e foi assim que concretizei o Irreversível. Nós o fizemos e tornou-se num grande êxito, desde então fiquei com a esperança de improvisar o projecto, mas entretanto o meu outro projecto foi aceite. É que depois do Irreversível, tive o desejo de filmar o Enter the Void.

 

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Depois de estrear o Enter the Void, avancei com este filme, porque eu sempre havia dedicado a este projecto, que era algo tão próximo de mim, tão próximo da minha própria vida. Mesmo que não fosse uma autobiografia, era como fosse a vida que os meus amigos tinham e na qual estava integrado. A vida dos 25 anos, com festas, noites, drogas, o amor desesperado, aquela maneira estranha dos fracassos, o qual tornaram este projecto muito afectivo. 

 

 

Foi então que optou por actores desconhecidos para Love? Como os escolheu?

 

Há pessoas que tem carisma e outras não. Quando nós dirigimos atores descobrimos que alguns tem maior aptidão para decorar as deixas, lembrar longos diálogos, outros tens talentos interpretativos, facilmente choram, outros desempenham uma personagem desenvolvidas por eles. Mas quando descobrimos pessoas carismáticas, não precisamos de atores… basta que tenham boas capacidades de improvisação, visto que eu faço muita edição. Depois de Vincent Cassell e Monica Bellucci terem recusado, decidi apostar em rostos desconhecidos. No entanto, apesar de ter uma grande admiração por bons actores, também gosto de ver em filmes, caras que não conheço, visto que trazem consigo algo novo.

 

 

Isso tem a haver com o facto de não associarmos essas caras com outras personagens?

 

Sim, mas atenção, eu não conseguiria fazer o Irréversible sem a Monica e o Vincent, porém, não poderia ser radical com eles devido às suas respectivas carreiras e sucessos anteriores. Neste caso, para um filme destes, pretendia atores mais jovens, e que não estivessem ligados a filmes anteriores.

 

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Por exemplo, quando eu vejo o filme The Dreamers, a representação de Michael Pitt é perfeita. No entanto eu não poderia tê-lo no meu filme, porque o espectador iria associar de imediato com The Dreamers ou outros dos seus anteriores filmes, e o mesmo iria acontecer com a rapariga. Para além disso, o actor está demasiado velho para o papel. Quando comecei os castings, a minha grande preocupação era encontrar um rapaz ou uma rapariga que se sentissem confortáveis com os “corpos de outra pessoa” … e com a sua nudez. Para muitos atores profissionais, este papel poderia ser considerado como um risco, por causas dos seus planos de carreira, fãs e o facto de se exporem desta maneira.

 

Para estes casos, as pessoas estão sempre mais alertas. Além do mais, é mais fácil para um homem mostrar o seu pénis, erecto ou não erecto, do que uma mulher expor-se em situações sexuais. Tudo isto porque vivemos num mundo dominado por homens, onde um pai não se iria importar que este tipo de papéis fossem vistos pelos seus próprios filhos. No caso da mulher, no mundo em que vivemos, ela facilmente seria julgada.

 

 

Como preparou-os para as cenas sexuais?

 

A ideia principal é que os atores fossem tangíveis, ousados e que soubessem o tipo de filme que estavam a fazer. Teriam que conhecer o tema e para isso debatíamos muito. Pedi aos atores para terem em conta, nestas cenas, que não se poderiam depilar, visto que para mim era esteticamente não-natural e eu pretendia algo vintage. Fico sempre chocado com esta nova moda das raparigas depilarem as suas “partes baixas” … acho feio! Para alguns homens é excitante mas para mim a depilação pertence à indústria pornográfica e não à vida real.

 

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Mas não pretendia fazer um filme pornográfico?

 

Não, eu estava simplesmente à procura de algo real. Não queria copiar nenhum dos filmes, nem sequências eróticas que tivesse visto, muito menos cenas explícitas que são tudo menos eróticas, mas sim reproduzir a maneira como beijamos e fazemos sexo quando estamos apaixonados por alguém.

 

 

Como surgiu o 3D para este filme?

 

Eu já tirava fotos em 3D, tinha uma câmara própria para o efeito. Numa altura difícil, na qual a minha mãe estava a morrer, eu tirei várias fotos com essa câmara para ter a possibilidade de recordar dela. Via essas fotografias num pequeno monitor.

 

Eu recebi um subsídio em França, através do Centro Nacional de Cinema (CNC), para ajudar a desenvolver novas tecnologias. Um mês depois de começar a filmar, pensei em usufruir do subsídio, mas não o pude fazer, porque teria que aguardar mais quatro meses antes de avançar no projecto. Mas como estava a filmar há já a um mês, eles colocaram o meu projecto no topo da “pilha”, duas semanas depois começamos a filmar com tais câmaras [3D]. Tive imensa sorte em participar neste tipo de indústria.

 

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Ao filmar em 3D, não tornei este projecto mais caro mas ficou incluindo na categoria dos filmes de “grande orçamento”. Para além disso, o filmamos em 5 semanas.

 

 

Automaticamente associamos Love a si. Não pelo seu nome aparecer nos créditos, mas sim por ser um filme imenso de referências das suas anteriores obras. Cheio de easter eggs.

 

Mais uma vez, este filme não é uma autobiografia mas sim o retrato de uma vida que eu e os meus amigos conhecemos. São esses os elementos do filme. Tentei filmar o jovem actor como um irmão mais novo tratasse, um tipo que estuda cinema, fez uma curta-metragem e que não sabe se vingará na indústria. A personagem é um rapaz fixe, descontraído, mas um verdadeiro fracasso, como um amigo fracassado.

 

 

Na sua carreira, existe uma frase que o persegue - O tempo destrói tudo - e Love não é excepção.

 

Sim, o tempo apaga tudo, mas penso que isto é mais a memória apaga o passado e como a vida consegue destruir os teus ideais. Como pequenos acidentes podem alterar os seus projectos de vida. Por exemplo, no filme, quando o protagonista engravida a rapariga, trata-se de um acidente, duma quebra. Aliás, são os acidentes que mudam o percurso das personagens nos meus filmes.

 

 

E quanto a novos projectos?

 

Não sei exactamente aquilo que eu vou fazer, mas estou a pensar em diferentes projectos.

 

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Quer falar sobre esses projectos?

 

Simplesmente, porque de momento não estou a preparar nenhum filme. Mas estou a considerar projectos diferentes.

 

 

Radiante por ver o seu filme a circular depois da mostra de Cannes?

 

Eu mudei um pouco, penso que agora a duração esteja com menos um minuto, visto que retirei três minutos do filme e acrescentei dois no final e mudei algumas músicas. O filme actualmente está mais perfeito do que a versão vista em Cannes, cuja música era provisória assim como os créditos. Que não estavam concluídos.

 

 

Então digamos que é um director's cut?

 

Sinceramente, eu não estava à espera que estivesse pronto para o Festival de Cannes, porque em meados de Fevereiro, o filme ainda estava a ser filmado. A meio de Abril, antes de anunciar os restantes filmes seleccionados para o festival, perguntaram-me se eu queria estar na Sessão da Meia-Noite de Cannes, aceitei mas antes advertir que o filme não estava completo. Faltavam três semanas para o início do festival, contudo, consegui terminar a tempo, foi o maior stress da minha vida.

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:32
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Néon é o novo preto!

 

Boi Neon tem diversas vezes a noção de que a beleza pode ser fabricada mesmo sobre chapa zinco. Tal como é possível assistir a certo momento nesta obra de Gabriel Mascaro, um boi pintado sobre cores neons, conseguindo-se tornar-se no ponto alto de um rodeo decadente. Ou seja, o belo pode ser procurado e interpolado nos mais inóspitos cenários, mesmo quando o conto em si, beleza real nada traz. Tal como Domésticas, o anterior trabalho de Mascaro, o foco é novamente a "mão-de-obra", indivíduos sujeitos ao bem-estar dos outros, completando serviços que ninguém sonha ter como um derradeiro destino.

 

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As donas de casa são substituídas pelos "Reis do Gado", e por detrás dessa luxuosa visão de paisagens verdejantes e bovinos ruminando calmamente, existe um mundo algures entre a "podridão" e a escravatura do novo século. Porém, Boi Neon é mais que um alerta político-social, longe do filme-denúncia de teor propagandista, é um ensaio da natureza intrínseca da masculinidade, e como esta pode ser invertida num mundo onde os homens preocupam com as futilidades do seu aspecto e com os sonhos mantidos de estilismos e outros acessórios associados ao feminino. Nesse mesmo universo, mantido com algum humor screewball e mordaz, as mulheres são seres dominantes, activas que fazem dos homens meros objectos de prazer sexual, ou serventes de manda, como gado que estará aí por nascer.

 

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É um exotismo não visto num Brasil fora do mercado das novelas e de muitas favela movies que contamina indústrias cinematográficas com um realismo modelizado para com o que convém. Este é o Brasil desconhecido, inóspito de elegância, cuja beleza está presente a quem procura e Boi Neon é o filme certo para "entrar" nessa honestidade estética, a "belezura" de papelão, tingida e infringida de maneira crua e suja. Um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, sem medo para transgredir o politicamente correcto, ou por outras palavras, o conservacionismo.  

 

Filme visualizado no 13º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Gabriel Mascaro / Int.: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Josinaldo Alves

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 13:16
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20.4.16

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18.4.16

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Dentro de dias arrancará a 13ª edição do Indielisboa, um festival que nos últimos anos tem-se assumido como um dos mais influentes festivais portugueses e não só. Neste novo ano, a mostra de cinema independente irá continuar a focar nas últimas novidades do panorama cinematográfico, assim como nos seus heróis. Nesse aspecto, o próximo Indielisboa terá como destaque a completa retrospectiva do realizador holandês Paul Verhoeven, irreverente como poucos e lúdico como alguns. O Cinematograficamente Falando … falou com o director e programador, Nuno Sena, sobre programação e as mais recentes novidades da mesma, começando curiosamente por salientar este "autor interessante do cinema contemporâneo".

 

 

Uma programação sob o signo de Paul Verhoeven e de Vincent Macaigne

 

A homenagem e retrospectiva integral do cineasta holandês "fora um parto iniciado já há algum tempo", afirmou o director. Sena acrescentou ainda que com um filme seu na programação de Cannes, este conjunto de 17 sessões (16 de longas e uma sessão composta por todas as suas curtas) poderá ser visto como um "momento perfeito para revisitar o autor".

 

Garantindo que esta proposta só fora reproduzida "até à data pela Cinemateca Francesa", Paul Verhoeven será, no Indielisboa, fruto de uma "reavaliação crítica". Sabendo que fora um cineasta que obteve uma "grande popularidade" e que caiu no esquecimento em consequência do seu flop americano, Showgirls, um filme que é actualmente discutido e até mesmo defendido por grandes nomes do Cinema como o recém-falecido cineasta e crítico Jacques Rivette e a anterior Herói Independente do Indielisboa, Mia Hansen-Løve.

 

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O grande público, porventura, reconhecerá o realizador graças aos seus populares trabalhos em Robocop (1987) e Basic Instinct (1992). O Cinematograficamente Falando … recomenda ainda ao leitor uma espreitadela à sua fase holandesa, com Turkish Delight (1973) e Flesh + Blood (1985) como prioridades e ainda o regresso a esse seu país natal com o conto de espionagem ambientado na Segunda Guerra Mundial, Zwartboek (2006).

 

Ao contrário de Verhoeven, do qual não necessita de apresentações, Vincent Macaigne, um jovem actor, encenador de teatro, argumentista e realizador (tendo já assinado dois filmes), é um "talento enorme que necessitava ser apresentado ao público português". Com mais de 40 anos e uma carreira composta por pouco mais de 30 filmes, Macaigne "foi apadrinhado por uma série de jovens realizadores franceses". Porém, o actor também apadrinhou jovens "talentos que ele próprio considera fazer parte de uma família, uma comunidade que está a mexer no actual cinema francês", como por exemplo o actor Louis Garrel, que estreia por detrás das câmaras com Les Deux Amis, filme que se encontra integrado nesta retrospectiva.

 

Nuno Sena acredita na importância deste Herói Independente, e a urgência deste ciclo entre o público, visto que Macaigne "será, ou se não é, um dos maiores actores franceses contemporâneos". O Indielisboa orgulha-se de trazer o actor a Lisboa, que para além das suas intervenções durante os filmes, irá apresentar e coordenar uma conferência com um "titulo no mínimo provocatório" - Por uma Política dos Actores - onde visará de que maneira um "actor e um autor podem coincidir na criatividade do cinema". Segundo Sena, "ele é um actor, não deixando com isso de ser um co-autor dos filmes que entra. A sua influência sobre os filmes que participa está muito longe de cotar a questão da representação, mas sente-se que existe uma energia transbordante que acaba por influenciar em diversos aspectos a criação de um filme".

 

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Um festival em crescimento

 

Desde da sua primeira edição em 2004, o Indielisboa  tem vindo a crescer gradualmente, e o resultado nota-se naquilo que é hoje apresentado. Nuno Sena relembrou que no seu primeiro ano, o festival contou com cerca de 500 filmes inscritos, tendo sido 100 seleccionados. Na altura, "o Indie era um festival pequeno, contando com apenas três salas.". O ritmo de crescimento estabilizou por volta dos 4 ou 5 anos (com uma selecção que rondava os 240/250 filmes). Para o director, esta 13ª edição é consideravelmente maior na sua mostra, muito derivado aos segmentos especiais de curtas.

 

Quanto aos critérios de selecção, ao contrário do que se imagina, não existe uma "fórmula ou guia para o seleccionador do Indielisboa, o que há é um conjunto de pessoas que tem uma proximidade e afinidade na sua visão de cinema. Mas também alguma diversidade". Nuno Sena ainda referiu o processo de selecção como "uma comitiva de consenso para o que parece mais importante, mais incontornável e que se identifique com o projecto, que é essencialmente à volta de uma ideia do cinema primeiramente renovado."

 

"Acreditamos que o cinema ainda tem coisas novas para oferecer", aposta o director que adianta ainda que essas "propostas podem basear-se no passado do cinema, mas trazer algo de novo."

 

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Os desafios do Cinema Português, a constante batalha!

 

Uma das principais preocupações do Indielisboa é a selecção nacional. Porém, Nuno Sena adiantou que tal tarefa já fora mais difícil, relembrando os tempos quase austeros de 2004 e salientando que a vinda do digital facilitou "muitas economias de produção". Actualmente, o "leque de escolhas é meramente mais alargado", contando com quase 40 filmes seleccionados de 100 inscrições, correspondentes a curtas e a longas-metragens.

 

Para o director, existem dois tipos de produções que poderemos encontrar na programação do Indielisboa: o de orçamento baixo onde "a vontade de fazer cinema" é erguida, como os filmes de escola ingressados na secção Novíssimos, e as produções de maior ambição como Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, que será o filme protagonista do dia 25 de Abril.

 

"O Indie é um espaço de cinema, em que todos eles devem possuir uma forte identidade dos seus autores", acerta Sena, "trazendo qualquer coisa, enquanto as suas premissas formais e estéticas fazem-nos acreditar para além de uma receita ou fórmula. Escolher cinema português é mais delicado, porque envolve que o festival funcione, para alguns realizadores, como uma primeira montra do seu trabalho. Podendo mesmo contribuir para que esses filmes tenham uma carreira nacional e internacional mais forte."

 

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O veterano cineasta português, João Botelho, marcará presença nas salas do Indie com um intimo tributo cinematográfico a um dos mestres do Cinema Nacional e Mundial, Manoel de Oliveira, que nos deixou no ano passado. Um filme concretizado com dedicação, mas infelizmente sob grande pesar, por um homem que deve a sua arte a este "pai" do nosso cinema. O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, é uma das recomendações do Cinematograficamente Falando ...

 

 

 

A música continua presente no Indie!

 

Como é habitual o coração do Festival continua sob acordes musicais com a secção Indiemusic. Este ano as grandes novidades destacam-se em Sonita, de  Rokhsareh Ghaem Maghami, que venceu dois importantes prémios em Sundance (de Júri e Público da secção World Cinema). Uma co-produção iraniana, suíça e alemã que vai ao encontro da jovem Sonita, uma imigrante ilegal afegã que vive nos subúrbios da cidade de Teerão e que sonha ser a futura "Rihanna", porém, a família, ultra-conservadora, tem outros planos para a rapariga.

 

Miss Sharon Jones, da conceituada documentarista norte-americana Barbara Kopple, é o retrato de uma luta pela sobrevivência da vocalista Sharon Jones, a tardia rainha do R&B da banda The Dap-King. Conta-se ainda o regresso de Amy Berg (Deliver us From Evil) num encontro com outra rainha, desta vez a do rock and roll, em Janis: The Little Girl Blue.

 

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A Boca do Inferno, mais um ano de vida!

 

A mais recente novidade do Indielisboa demonstra, neste segundo ano de longevidade, fortes sinais de vitalidade. Uma secção nascida através da frustração dos seus programadores que se deparavam com alguns filmes que não encaixavam no já formado programa. Para Nuno Sena, "são filmes que jogam contra as expectativas do espectador, filmes provocatórios, da maneira como quebram ou desconstroem géneros cinematográficos."

 

Outra razão para a criação do Boca do Inferno derivou do desejo de trazer a tradição das sessões de culto da meia-noite, presentes em inúmeros festivais mundiais, entre os quais Toronto, que trazem consigo um rol de cinema de género, ou de terror. A etapa do Indielisboa, foi em apostar nessas ditas fórmulas e colocar a sua "marca Indie".

 

Segundo o director, com este espaço é possível "trabalhar registos que não são pactuáveis em outras secções do festival. Não deixando de ser filmes que sabotam, reconstroem ou reformulam questões genéricas. No caso deste ano, não se espera evidentemente que um festival passe filmes pornográficos, mas Love de Gaspar Noé trabalha esse tabu do cinema mainstream que é a representação do sexo e do explicito no ecrã. É um filme que encaixa perfeitamente nesta secção [Boca do Inferno]."

 

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Entre as novidades deste ano conta-se uma sessão especial que vem ressuscitar uma tradição lisboeta que no entanto desaparecera. Trata-se das maratonas cinematográficas. Na Boca do Inferno está agendado um ciclo contínuo que arranca às onze da noite, terminando às seis da manhã, aproveitando o espaço convidativo e particular do Cinema Ideal para um esperado ambiente de festa. Durante esta alusão, Nuno Sena relembrou as maratonas anuais dos Cinema Quarteto na década de 80 e a atmosfera festiva que na altura acomodava centenas de cinéfilos. 

 

O diário filmado La Californie, de Charles Redon, foi uma das recomendações deixadas pelo director neste espaço. Neste filme, o realizador regista a sua história e a sua vida íntima ao lado da sua mulher, Mathilde Froustey (que é bailarina). Trata-se de uma obra em que o "espectador desconfia sempre do que está a ver e o diário filmado transforma-se, a dado passo, em qualquer outra coisa. Uma ficção com a biografia do realizador", reafirma Nuno Sena.

 

 

Os convidados

 

"A presença do mais esperado de todos ainda está em aberto", garantiu-nos Nuno Sena em relação a Paul Verhoeven. A sua eventual vinda a Lisboa poderá coincidir com as preparações do seu próximo filme, Elle, que estará em competição no tão aguardado Festival de Cannes. Porém, Vincent Macaigne está confirmado, assim como Jean-Gabriel Périot que conquistou o público da edição anterior do Indie com a sua longa-metragem, Une Jeunesse Allemande.

 

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Périot será alvo de retrospectiva na secção Foco Silvestre, com objectivo de demonstrar ao espectador mais desatento que este realizador "não nasceu ontem", compilando os seus anteriores trabalhos e as curtas que tão bem evidenciam o seu modus operantis. A sua árdua tarefa em vasculhar o found footage com o intuito de "mostrar imagens do passado para iluminar o presente."

 

Para Nuno Sena, o cinema de Périot desencadeia o debate quanto às "condições político-sociais da sociedade contemporânea a partir das imagens registadas do passado".

 

O director ainda revelou ao Cinematograficamente Falando … a confirmação de Petra Costa, a documentarista brasileira que tem triunfado com a sua ambição de unir o documentário e a ficção em prol do extremo intimismo. O Olmo e a Gaivota, a sua nova obra, que fora apresentado pela primeira vez no passado Festival de Locarno, aposta num drama docuficcional e experimentalista duma actriz, que após uma inesperada gravidez, encara-se com a desintegração da sua carreira artística. Costa irá apresentar o filme em Portugal (que já conta com estreia comercial), ao lado da sua co-realizadora Lea Globb e dos protagonistas, assim como a criança que motivou a criação deste filme.

 

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A 13ª edição do IndieLisboa, realiza-se entre 20 de Abril e 1 de Maio na Culturgest, na Cinemateca Portuguesa, Cinema São Jorge e Cinema Ideal.

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:59
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22.3.16

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A terceira longa-metragem de Ivo M. Ferreira, Cartas da Guerra, será apresentado no Indielisboa por alturas das comemorações do 25 de Abril. O elogiado filme português que arrecadou aplausos no último Festival de Berlim é umas das 300 obras que integrarão a programação do próximo Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa.

 

Como abertura e encerramento, os anteriores Heróis Independentes, Whit Stillman e Mia Hansen-Løve encarregarão de tais honras. O primeiro com Love & Friendship apresentado em Sundance e o segundo com L'Avenir com Isabelle Hupert, vencedor do Prémio de Melhor Realização do Festival de Berlim. Por sua vez, na pele dos Heróis Independentes deste ano estarão Paul Verhoeven, o cineasta por detrás de obras como Basic Instinct e Robocop, e o actor francês Vicent Macaigne.

 

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Outras revelações da programação é a continuação da secção Boca do Inferno, onde serão exibidos filmes mais negros e experimentais, que terão lugar no Cinema Ideal. The Lobster, o último trabalho de Yorgos Lanthimos, será por fim apresentado em Portugal através dessa mesma secção.  Destaque ainda para a segunda  longa-metragem da documentarista brasileira Petra Costa, Olmo e a Gaivota, presente na Competição do Festival.

 

A 13ª edição do IndieLisboa, que realiza-se entre 20 de Abril e 1 de Maio na Culturgest, na Cinemateca Portuguesa, Cinema São Jorge e Cinema Ideal.

 

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