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4.4.17

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O Indielisboa'17 vai apresentar uma das maiores competições de produções portuguesas no seu historial enquanto festival. Serão no total mais de 6 longas-metragens (5 delas em estreia mundial) e 18 curtas-metragens, com especial atenção à remessa lusitana de Berlim incluindo o galardoado Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante. A contrário de muitas edições anteriores, esta mostra de cinema falado na Língua de Camões será maioritariamente obras de ficção.

 

Amor, Amor de Jorge Cramez será um dos destacados na selecção portuguesa, não só pela sua presença na competição nacional mas também pela sua hipótese na grande competição internacional. "Desde 2013 que não tínhamos um filme português em competição", revelou Mafalda Melo, uma das programadoras do festival, que ainda confessa ter visto mais de "2.000 filmes desde o fecho da última edição", com o propósito de apresentar durante 3 a 14 de Maio, uma programação onde os filmes funcionam de forma conjunta. O tema encontrado nesta mostra, segundo Melo, foi a raridade. "Estes filmes são raros, e raros encontrá-los".

 

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Enquanto que a Competição Internacional é feita por inúmeras primeiras longas-metragens e nomes em ascensão, é na secção Silvestre que encontraremos alguns veteranos e confirmações. Nas propostas é evidente o regresso de Jean-Gabriel Périot [ler entrevista], que após o ciclo dedicado na edição passada, possui um novo filme (Lumières d'été). Alex Ross Perry, célebre pelo aclamado Queen of Earth, marca presença com Golden Exits, protagonizado por Emily Browning, o romeno Radu Jude com Inimi Cicatrizes, Lea Glob afasta-se de Petra Costa [ler entrevista] e reúne com Mette Carla Albrechtsen para nos entregar Venus, e ainda, a obra póstuma de Michael Glawogger (falecido em 2014), o documentário Untitled, com o apoio de Monika Willi.

 

Na secção Silvestre, em foco está a dupla Gusztáv Hámos e Katja Pratschke, ele húngaro, ela alemã, que apostaram em inúmeros ensaios com base no vídeo e nos filmes-espelhos (num formato de instalação dentro de um filme. Quantos aos Heróis Independentes (como já havíamos noticiado aqui), Jem Cohen e Paul Vecchiali marcarão posição. A presença de ambos está acima de tudo confirmadíssima.

 

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A IndieMusic não poderia faltar, com documentários sobre a banda Oasis (Oasis: Supersonic, Mat Whitecross) e o Frank Zappa (Eat that Question - Frank Zappa in His Own Words, de Thorsten Schütte), e ainda, com especial atenção, Tokyo Idols, de Kyoke Miyaki, um mergulho pelo mundo das girls band e cantoras pops japonesas, jovens que despoletam fenómenos de popularidade que levam a consequências obsessivas.

 

O Indiejunior mantêm-se e como Mafalda Melo salientou a importância deste espaço, o de revelar filmes alternativos aos meus pequenos, uma variação do seu gosto cinematográfico. "Estamos a formar novos públicos, novos cinéfilos e novos adultos". No Director's Cut existe um especial destaque à memória de Andrzej Zulawski, motivado pela reposição da sua obra de 1988, On the Silver Globe.

 

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Miguel Valverde, também programador e director do festival, recomendou a obra de Luís Filipe Rocha, Rosas de Ermera, uma viagem pelas memórias do músico e activista Zeca Afonso. O filme será exibido em sessão especial. Por fim, A Boca do Inferno, a ainda "verde" secção", uma apresentação de obras de género e de carácter ainda mais alternativo e ousado, onde se destaca este ano a entrada do novo trabalho de Ben Wheatley (Free Fire) e o mediático Raw (Grave), o filme de canibalismo de Julia Ducournau, que tem feito manchetes por onde fora exibido, desde as desmaios a saídas repentinas dos espectadores na sala.

 

A 14ª edição do Indielisboa arrancará com o filme de Teresa Villaverde, Colo, que esteve em competição no Berlinale deste ano. O festival dará o seu pontapé de saída com o documentário de Raoul Peck, I Am Not Your Negro. O carinhosamente apelidado Indie acontecerá no Cinema São Jorge, Cinema Ideal, Cinemateca Portuguesa Museu do Cinema, Cineteatro Capitólio e a Culturgest. Esta última tem sido parceira do festival desde 2008, porém, Miguel Lobo Antunes, administrador do centro cultural irá reforma-se, saído do seu cargo e deixando esta cumplicidade me aberto em futuras edições.

 

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A programação completa poderá ser vista aqui

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:04
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30.3.17

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Colo, o novo filme de Teresa Villaverde que se encontrou presente na Competição do último Festival de Berlim, terá as honras de abrir o 14º Indielisboa. Recordamos que a obra é descrita como um retrato realista de uma família no limiar da pobreza.

 

O festival de cinema independente de Lisboa decorrerá entre 3 a 14 de Maio,  tendo ainda revelado o seu filme de encerramento, I Am Not Your Negro, um documentário de Raoul Peck sobre a luta pelos direitos civis nos EUA. O filme contou com uma nomeação ao Óscar de Melhor Documentário.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:15
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21.3.17

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Paul Vecchiali, realizador e produtor francês conhecido pela sua irreverência, e Jem Cohen, prolifero cineasta norte-americano, serão homenageados na próxima edição do IndieLisboa na categoria de Heróis Independentes.

O primeiro contará com uma longa retrospectiva a ser projetada na Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema. Tal será composta por algumas das suas mais importantes obras, incluindo o seu mais recente trabalho, Le Cancre, que fora exibido no Festival de Cannes em 2015, numa Sessão Especial. Conhecido pelo carácter provocador e a sua natureza polivalente, para além de realizador e produtor (destaca-se a sua colaboração com os primeiros anos de Jean Eustache), Vecchiali contribui com alguns, mas importantes artigos, para a Cahiers du Cinema.

Em relação a Jem Cohen, o Indielisboa sempre manteve uma relação intima e atenta para com a obra deste artista que conta com mais de 70 trabalhos, desde longas a curtas, instalações e fotografias, todos eles marcados por uma veia indie, que o festival tem vindo apoiar desde os primórdios da sua existência.

Indielisboa chegará a partir do dia 3 de Maio, prolongando-se até 14 do mesmo mês.
 
 
 

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publicado por Hugo Gomes às 16:32
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1.5.16

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Mesmo com a suas cinco horas de duração, Jia, conquistou o júri principal da 13ª edição do Indielisboa, tendo sido laureado com Grande Prémio da Cidade de Lisboa, o filme de Shumin Liu tem sido referenciado durante o certame como um possível sucessor de "A Viagem de Tóquio", de Yasujiro Ozu.

 

 

Enquanto isso, Kate Plays Christine, de Robert Greene, consolou-se com o Prémio Especial de Júri, e na Competição Nacional, Treblinka, de Sérgio Tréfaut, foi o grande vencedor.

 

 

 

PALMARÉS INDIELISBOA 2016

 

Grande Prémio de Longa Metragem Cidade de Lisboa
Jia/The Family, Shumin Liu (Austrália, China)

 

Prémio Especial do Júri Canais TV & Séries
Kate Plays Christine, Robert Greene (EUA)

 

Grande Prémio de Curta Metragem
Nueva Vida, Kiro Russo (Argentina, Bolívia)

 

 

Menções Especiais
Animação

Velodrool, Sander Joon (Estónia)

 

Documentário
La impresión de una Guerra, Camilo Restrepo (Colômbia, França)

 

Ficção
Another City, Lan Pham Ngol (Vietname)

 

Prémio Allianz – Ingreme para Melhor Longa Metragem Portuguesa
Treblinka, Sérgio Tréfaut (Portugal)



Nescafé Dolce Gusto – Ingreme para Melhor Curta Metragem Portuguesa
The Hunchback, Gabriel Abrantes, Ben Rivers (Portugal, França)

 

Prémio Novo Talento Fnac – Curta Metragem
Campo de Víboras, Cristèle Alves Meira (Portugal)

 

Menção Honrosa
Viktoria, Mónica Lima (Alemanha, Portugal)

 

Prémio FCSH/NOVA para Melhor Filme na secção Novíssimos
Maxamba, Suzanne Barnard, Sofia Borges (Portugal, EUA)

 

Prémio RTP para Longa Metragem na Secção Silvestre
Eva no duerme, Pablo Agüero (França)

 

Prémio FIPRESCI (Primeiras Obras)
Short Stay, Ted Fendt (EUA)

 

Prémio Format Court (Silvestre Curtas)
World of Tomorrow, Don Hertzfeldt (EUA)

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Ascensão, Pedro Peralta, Portugal

Menção Honrosa

Jean-Claude, Jorge Vaz Gomes (Portugal)

 

Prémio IndieJúnior Árvore da Vida
Le nouveau, Rudi Rosenberg (France)

 

Prémio Amnistia Internacional
Flotel Europa, Vladimir Tomic (Dinamarca, Sérvia)

 

Menção Honrosa
Balada de Um Batráquio, Leonor Teles (Portugal)

 

Prémio Culturgest Universidades
Flotel Europa, Vladimir Tomic (Dinamarca, Sérvia)

Prémio Culturgest Escolas
Le gouffre, Vincent Le Port (França)

 

 

Júri do Público


Prémio Longa Metragem
Le nouveau, Rudi Rosenberg (França)

Prémio IndieMusic Schweppes
Sonita, Rokhsareh G. Maghami (Alemanha, Suíça, Irão)

Prémio Curta Metragem Merrell
Small Talk, Even Hafnor, Lisa Brooke Hansen (Noruega)

Prémio IndieJúnior Trinaranjus
The Short Story of a Fox and a Mouse, Camille Chaix, Hugo Jean, Juliette Jourdan, Marie Pillier, Kevin Roger (França)

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:06
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A superioridade humana das "Coisas Selvagens"!

 

Até podia ser a adaptação de um conto qualquer de H.P. Lovecraft. Podia, mas não o é. E permitam-me que o diga, esta não-adaptação é mais lovecrafteana que as próprios conversões do legado do escritor norte-americano, ponto. A francesa Lucile Hadzihalilovic, colaboradora de Gaspar Noé, regressa ao seu cinema de sugestão, o terror é mero elemento do desconhecido, esse, abraçado pelas profundezas oceânicas e deslumbrado por um simbolismo utópicos, indo directamente dos mitos gregos das Amazonas até às lendas "atlântidas".

 

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Nesta fábula negra, somos levados a uma ilha remota habitada somente por mulheres e as suas respectivas crianças, todos eles rapazes. No seio dessa comunidade encontramos Nicolas (o estreante e revelação Max Brebant), que tal como todos os habitantes desta ilha, possui uma forte ligação ao mar. Um dia descobre um corpo de um menino nas profundezas e é a partir desse incidente, que Nicolas apercebe-se que algo estranho e inumano acontece diariamente no seu lar, longe dos seus olhos, mas muito perto do seu corpo.

 

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Hadzihalilovic transforma o silêncio em algo ensurdecedor, incomodo como um "tentáculo" que nos leva para um mundo de possibilidades, porém, mortiferamente convidativo. Evolution (Evolução) funciona num retrato das fragilidades humanas, aqui consentidas nos seus próprios sentimentos, que na ausência destes somos sujeitos a metamorfoses animalescas (literalmente representado), vitimas de algo mais antigo que o tempo, mas fora do primitivismo arcaico.

 

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Este "body horror" intimista, povoado por criaturas inexpressivas, é o lugar onde a humanidade torna-se no derradeiro macguffin. Parece cliché insinuar que são as emoções que nos distinguem do resto destas monstruosidades "lovecraftianas", o descrito nosso auge da cadeia evolutiva. Contudo, é na abordagem que Evolução consiste no portento da "história da carochinha", o qual os sentimentos, matéria esotérica aqui exposta, servem como vinganças pessoais na confrontação de um negro desconhecido, e simultaneamente, é com eles, como é demonstrado metaforicamente na imagem da estrela-do-mar, a nossa regeneração. 

 

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Por vezes sonhamos em ser melhores, influenciarmos por um sonho de Ícarus, as pretensões de ser uma espécie de superioridade acima de qualquer factor natural. Todavia, esquecemo-nos que essa nossa fraqueza sentida, converte-se na ancora que nos impede de atingir tamanho degrau. Trata-se daquilo (novamente pisando na mesma lengalenga),  que nos diferencia do resto das "bestas".

 

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Lucile Hadzihalilovic fez um filme sobre a Humanidade, sobre o estado dela e o caminho a percorrer, tudo instalado em território fantástico, dilacerando na incógnita desses mares desconhecidos. Evolução é isso, um conto que nos causa arrepios pela sua frieza narrativa, envolvida numa composição sonora e um visual deslumbrante. Este é dos filmes mais intrigantes do ano, nisso tenho a certeza, como também o mais prodigioso da mente de Lovecraft, sem assumir-se como peça adaptada.

 

Filme visualizado no 13º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Lucile Hadzihalilovic / Int.: Max Brebant, Roxane Duran, Julie-Marie Parmentier

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 01:23
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30.4.16

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Por entre a realidade filmada em jeito documental e a encenação não como um dispositivo fictício, mas antes uma ferramenta para compreender esse mesmo veio de veracidade, Olmo e a Gaivota [ler crítica] é um dos filmes mais fascinantes a chegar aos nossos cinemas este ano. As autoras desta obra, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob, falaram com o Cinematograficamente Falando … sobre esta colaboração não voluntária que resultou numa catarse sobre o cinema propriamente dito, sem limitações a géneros nem estilos. No seio de Olmo e a Gaivota esconde-se ainda temáticas a merecer da nossa consideração, algumas delas fazendo parte da luta de Petra, os direitos das mulheres e a soberania destas pelo seu próprio corpo.

                                                     

 

Começo com a pergunta mais básica, como surgiu este projecto?

 

Petra Costa: Este projecto surgiu através do Dox Lab, num festival da Dinamarca. Todo os anos são convidados dez realizadores não-europeus para co-dirigir com dez europeus. Eu fui convidada para trabalhar com a Lea, tinha até um certo interesse no cinema dinamarquês e queria conhecer um pouco mais sobre ele. Tínhamos uma semana para decidir que tipo de filme iríamos conceber, mesmo antes de conhecer-nos pessoalmente. Vim com dez ideias que tinha guardado desde então, uma delas era a documentação de um dia na vida de uma mulher onde nada acontece, mas que tudo acontece na sua cabeça. Entretanto, a Lea sugeriu: "e que tal pegasse-mos numa mulher real". Ela estava mais interessada em fazer documentário e no meu caso, ficção. Ela queria ir para a Amazónia e eu para Dinamarca.

 

"Sim, vamos pegar numa mulher real, mas se for actriz, pegaríamos na vida real dela, e eu conheço uma actriz". A actriz que falava era Olivia Corsini, que estava no momento a fazer uma turneê no Brasil através da companhia teatral francesa Theatre du Soleil e que tinha visto o meu primeiro filme [Elena]. Ela havia sugerido fazer um filme comigo, então falei-lhe da ideia. A Lea gostou. Fizemos uma reunião através do Skype com Olivia que demonstrou automaticamente interesse. Todavia, ela disse "estou grávida", e foi aí que decidimos alargar um dia para nove meses.

 

Lea Glob: Foi um convite através do CPH:Dox, a escolha seguiu do comité do festival, por isso não tivemos decisão nenhuma com a formação deste par. Enquanto isso, eu tinha visto Elena, e encontrei similaridades com a minha curta [Mødet med min far Kasper Højhat], ambos falavam de histórias pessoais que tinham como temática o suicídio. Esse era o primeiro filme da Petra, e no meu caso, tinha acabado de formar na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca, eu sou europeia, ela não, por isso julgo que quem decidiu esta dupla encontrou uma espécie de ligação, algo em comum.

 

 

O facto de trabalhar com uma actriz, seria a melhor forma de trabalhar ambos os lados, o lado ficcional e o lado verídico, neste caso documental?

 

 

LG: Absolutamente, tal era essencial. Aliás ela era bastante dada a trabalhar desta maneira, isso nota-se ao longo do filme. Ao trabalhar com actores assim tornaríamos realizadores mais livres e chegaríamos facilmente à intensidade do material.

 

PC: Na grande maioria dos documentários, uma das grandes questões é ter acesso ao personagem e a questão dos limites, se está ou não a invadir a vida daquela pessoa, ou se está usando ela num filme que supostamente poderá não ser tratada da forma como ela pretende. Mas a grande vantagem de trabalhar com um actor é que o desejo é recíproco, ela não quer contar uma história, ela quer ser usada, porque essa é a sua profissão, o seu desejo, a de estar ao serviço de uma história nem que para isso tenha que usar o corpo e a mente. Mas quando a história é na realidade a vida dela, o ângulo inverte mas continua no âmbito do desejo.

 

 

No caso de Petra, visto que já conta com duas longas-metragens, Elena e Olmo e a Gaivota, existe uma palavra que caracteriza esse seu cinema - intimidade. Enquanto que em Elena, o espectador sentia-se incomodado por invadir a sua intimidade, neste filme, estamos a invadir a intimidade de uma actriz, o qual em certas sequências Olivia pede mesmo para parar. Como sente em invadir a intimidade de outras pessoas?

 

PC: É um pouco mais que isso, porque é justamente nessas questões que estou a falar, quando é a sua própria intimidade vai da vontade, não existe um limite imposto. Mas essa tensão foi frutífera, é como estivéssemos constantemente a jogar aquele jogo de cordas onde cada um puxa para o seu lado. Nós tentamos chegar um pouco mais fundo na intimidade dela, e ela, com clareza, deixava, depois há um momento em que colocamos visivelmente as nossas interacções com ela. Nesse aspecto, tratou-se de revelar esse limite - as portas  - como as do banheiro que se fecham, neste caso conseguimos estar do lado dentro do banheiro (risos).

 

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Em Olmo e a Gaivota, o que é que poderemos considerar ficção e documentário?

 

LG: Não existe resposta para isso (risos), nem sei se consigo responder correctamente a isso. Julgo que é a mais bela parte do filme, porque incentiva os espectadores, mas não se trata de um jogo do que é falso ou real. Diria antes que é uma "onda" de interacção, sim diria antes isso, e como tal gosto do filme por causa disso, porque faz-me sentir que fizemos algo certo naquilo.

 

PC: Sim, essa é a questão que motiva o filme, que analisa todas as cenas, é como fizéssemos um filme hermafrodita, qual seria a parte masculina, qual seria a feminina. O filme é precisamente a tensão entre os dois géneros.

 

 

Quais as grandes influências para a condução deste filme?

 

LG: O teatro, assim como a peça de Anton Tcheknov, que foram bastantes importantes para o tom do filme.

 

PC: Primeiramente o teatro, Olivia integrava o Theatre du Soleil, por isso temos registos dos seus ensaios e encenações. Temos ainda influências do cinema francês, não da Nouvelle Vague, mas da facção Rive Gauche, como Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda, que usualmente abordam as questões da identidade, da memória, mais do feminino. O livro de Virgina Woolf, Miss Dalloway, que foi para nós essencialmente um guia, visto que era para ser um dia na vida de uma mulher, mas que fez com que olhássemos para a vida de Olivia através da moldura desse livro.  

 

 

No final, Olmo e a Gaivota resultou num retrato de um romance. Uma romance entre dois actores, marido e mulher que teriam que lidar com o maior dos fardos. O filme captou esse amor na sua integral forma, relembro da sequência musical [Mi Sono Innamirato di Te], por exemplo. Tal factor [o romance] já estava prescrito na ideia ou foi uma oportunidade que surgiu durante o processo?

 

LG: Diria que foram os dois casos. Visto que temos uma história sobre gravidez e era normal termos um amor, uma relação amorosa, que poderíamos aprofundar. Bem, eu penso que sou a pessoa mais romântica da "equipa" (risos) o que fez também abordar esse tópico.

 

É bom sentir o amor, e existe bastante neste filme. Petra também mencionou que tal transmitia uma empatia entre os dois, não apenas como marido e mulher, mas também como actores, o que permitiu-nos segui-los, o qual tornaram uma relação gentil. Eles são gentis juntos, e isso foi bom. Quanto às canções, como também muitos outros gestos, surgiram através deles. Foram tudo ideias deles.

 

PC: Sim, penso que isso está muito presente na sua relação. Talvez tenhamos provocado mais o outro sentido, do que mostrar mais amor. O amor surgiu naturalmente, assim como demonstraram as "fracturas" desse relacionamento.

 

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Quanto a novos projectos? Regressarão como equipa ou separadamente?

 

LG: Bem, ambas temos novas ideias, mas serão em separado. Não temos ideia de regressar a esta colaboração, quer dizer, se Petra pedir estarei disponível, assim vice-versa. As portas estão abertas e continuarão assim. Neste momento, estou a preparar um filme sobre a sexualidade, a interpretação de mulheres através de memórias erradicadas, como elas procedem a esse encontro.

 

PC: Estou a trabalhar num filme ficcional que decorre nos anos 80, no Brasil, sob o ponto-de-vista de uma jovem rapariga, focando na maneira como ela interage com a diferença de classes e politicas. Também estou a trabalhar num documentário sobre a crise politica brasileira.

 

 

Para Petra, gostaria de falar sobre a sua campanha "O Meu Corpo, as Minhas Regras"?

 

PC: Sim. Surgiu quando o nosso filme ganhou o Prémio de Melhor Documentário no Festival do Rio. Fiz um discurso em que dedicava o prémio a todas as mulheres, para que nenhuma sofresse de machismo no Brasil, desde a presidenta até à doméstica, e que todas tivesse a soberania sobre o próprio corpo, seja para mergulhar numa gravidez como a nossa personagem, com todos os direitos para isso, ou fosse para interromper, como já é legal na França e EUA há mais de quarenta anos.

 

Nessa noite fui dormir feliz, até porque tinha ganho um prémio (risos) e feito um discurso. Na manhã seguinte, acordo com uma invasão de milhares de comentários muito agressivos na minha pagina de Facebook, "sua abortista, você deveria morrer, é pena que a tua mãe te teve, fecha a perna, sua vagabunda", um machismo que nunca tinha encontrado, pelo menos a este nível. O que demonstra um ódio crescente que o Brasil tem experimentando.

 

Então através disto fiz um vídeo, pelo qual já tinha vontade de fazer, que tratasse das questões do filme que não estão claramente abordadas nela, que é a falta de interpretação de mulheres no cinema, a questão do corpo e do próprio aborto. Tinha alguns actores que tinham visto o filme e que tinha gostado, e então sugeri a ideia, eles gostaram e prosseguimos com a iniciativa. A ideia era pegar no figurino de Olivia, mulheres e homens engravidando até para colocar na mente das pessoas o que aconteceria se o sexo masculino pudesse mesmo engravidar. No Brasil, muitos colocavam a hipótese se o homem engravidasse o aborto já teria sido legalizado há muitos séculos.

 

O vídeo surgiu disso, brincar com todas essas questões e ele viralizou, teve umas 14 milhões de visualizações e partilhas em diferentes páginas de Facebook. Acabou por virar uma "onda", que fora a primeira "onda" feminista de grande impacto no Brasil. O país teve um movimento feminista nos anos 60 e 70, mas foram bastante reprimidos. Ou seja, eles afirmaram menos do que desafirmaram, virou quase "xingamento", só em Novembro do ano passado é que ser feminista deixou de ser "xingamento" no Brasil.

 

Tudo também foi possível porque temos um forte antagonista que é Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que é um dos políticos mais machistas que o Brasil presenciou, e também um dos corruptos, o qual vem retrocedendo diversas pautas que foram conquistados pelas mulheres.

 

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O que está a tentar dizer que o Brasil é no fundo um país conservador?

 

É um país contraditório, para muitos é a terra do samba, da mulher "pelada", do homem cordial, da igualdade racial, mas isso é falso de certa forma, essas contradições é como estivessem enterradas por ali. Somos um país que comemora a democracia, mas na realidade ela é uma fina camada de papel, que por baixo vai sendo corroída por ratos. Esses mesmos ratos, comeram, comeram, até que quebraram a coluna vertebral, e os ratos estão agora expostos, mas na verdade eles sempre estiveram ali. Talvez seja do facto do Brasil nunca ter tido uma Guerra Civil como os EUA ou uma grande luta pela independência. Nunca houve esse embate de ideais.

 

Hoje assistimos a um país sob uma Guerra Civil retardada, uma parte, esclavagista, machista, oligarca e conservadora contra uma outra porção que luta pelos direitos humanos.    

      

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:44
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28.4.16

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O "furacão" Macaigne, como é assim apelidado pela imprensa, esteve em Portugal por alturas do Indielisboa. O festival lisboeta dedicou-lhe uma retrospectiva sobre o seu incansável trabalho como actor, produtor e realizador, e salientou o seu tremendo contributo para com as novas gerações que actualmente surgem no cinema francês. O Cinematograficamente Falando … falou com este "Herói Independente".

 

É a sua primeira vez em Lisboa?

Sim, esta é a minha primeira vez. Tenho andado por aí a ver a cidade e Lisboa é realmente um local bonito … e bastante louco.

 

Como se sente ao saber que um festival lhe dedica uma retrospetiva?

Como eu me sinto? Bem, é bastante estranho porque eu não me sinto assim tão velho.

 

Acredita que as retrospetivas são para "velhos"?

Não nesse sentido, eu acredito que quando um festival dedica-te uma retrospectiva, é sinal de que algo precisa de mudar na tua carreira, ou seja, a partir daqui devo fazer algo diferente.

 

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E ao saber que o festival dedicou-lhe uma retrospectiva em conjunto com a de Paul Verhoeven?

Bem, faz-me sentir bem pior em relação à velhice (risos). Agora a sério, é uma honra estar lado a lado com este cineasta, como homenageados num festival.

 

Em Éden, de Mia Hansen-Løve, o Vincent interpreta uma personagem que a certa altura aclama o "infame" Showgirls, de Verhoeven, como uma obra-prima. Já viu o filme e partilha a mesma opinião da sua personagem?

Sim, eu vi o filme, mas posso dizer que não concordo com a palavra "obra-prima". Essa frase é exclusiva da minha personagem, não partilho essa opinião.

 

Em 2013, com três filmes em competição no Festival de Cannes, consideraram-no numa espécie de revelação do cinema francês, um novo "Depardieu" para ser mais específico. Foi, de certa maneira, nessa altura que se tornou numa presença habitual da mesma cinematografia. O que lhe fez interessar repentinamente pelo cinema?

Quanto à minha presença em Cannes, não foi bem isso que aconteceu. Apenas entrei em três filmes que porventura conseguiram integrar a selecção de Cannes, não fui nenhuma revelação como a imprensa apelidou. Todos os anos existe sempre um actor ou uma actriz que entra em mais do que um filme em Cannes e pronto, temos a revelação do ano. Quanto ao meu interesse no cinema, não foi algo que nasceu de repente, já possuía esse interesse há muitos anos, desde os meus tempos no Conservatório Nacional, apenas não havia ainda encontrado o melhor momento para fazer parte da indústria.

 

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Um dos seus trabalhos mais recentes foi na produção Les Deux Amis, no qual foi dirigido e contracenou com Louis Garrel. É bem verdade que vocês já se conheciam? Como foi trabalhar com Garrel como realizador?

Eu conhecia Louis Garrel desde os tempos do Conservatório Nacional, participamos em algumas peças juntos e desde então tornámo-nos amigos. Entretanto entrei na sua curta de La Règle de Trois e a coisa até correu bastante bem. Algum tempo depois convidou-me para integrar o elenco da sua primeira longa-metragem, Les Deux Amis, e obviamente aceitei. Louis tem muito talento e divertidas ideias fixas. Mesmo tendo sido o seu primeiro grande filme, soube perfeitamente lidar com todo o tipo de situações que poderia prejudicar qualquer "novato". Digamos que o cinema está no seu gene.

 

Já que refere o Conservatório Nacional, para si qual é o mais desafiante, o teatro ou o cinema? Qual deles prefere?

São dois "palcos" completamente diferentes. No teatro, o espectador vê o presente e o actor representa o momento. No cinema, é uma questão de memória, o espectador vê uma interpretação ultrapassada, apenas gravada. Ao contrário do teatro, o cinema mexe no passado das coisas. Outro exemplo é quando adoptamos uma personagem no teatro e esta tem tendência a alterar-se em cada sessão, existe um improviso evidente. No cinema, a personagem é trabalhada e depois de filmada é tudo aquilo que está exposto e pronto.

 

Voltando ao ponto da imprensa, esta refere-lhe que de certa maneira está a levar o cinema francês para uma Nova Vaga. Concorda?

Não me considero como tal, por vezes a imprensa exagera nos títulos e nas descrições. Apenas gosto de representar e estou aberto para qualquer proposta, seja cinema de autor ou filmes de alto orçamento. Aliás, eu entrei recentemente em Les Innocentes, de Anne Fontaine, que é um filme grande.

 

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O que tem a dizer sobre o estado actual do cinema francês?

É uma indústria muito diversificada, são vários os filmes gerados por ano, penso que sejam mais de mil, não tenho a certeza. É muito difícil avaliar qualquer tipo de estado.

 

Quanto a novos projetos?

Neste momento encontro-me em plenas filmagens de Les Philosophes, um filme de Guilhem Amesland, e estarei no elenco de La Loi de la Jungle, que foi rodado na Amazónia e é escrito e realizado por Antonin Peretjako que é o mesmo de La Fille du 14 Juillet (A Rapariga de 14 de Julho).

 

Existe a possibilidade desse último filme estar em algum festival?

Julgo que não, La Loi de la Jungle tem estreia marcada para Julho.

 

Gostaria de regressar a Cannes?

Sinceramente, Cannes é um óptimo festival para filmes, mas para mim é muita confusão, uma pessoa não consegue desfrutar aquilo direito. Prefiro festivais mais pequenos como este aqui. Uma pessoa pode ver filmes, conviver, fazer turismo com a maior das tranquilidades e isso é precioso.

 

Se recebesse algum convite para Hollywood, aceitaria?

Claro que sim, mas duvido que me convidem até porque tenho grande dificuldade em falar inglês.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:54
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25.4.16

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Une Jeunesse Allemande foi um dos filmes mais elogiados da passada edição do Indielisboa, um relato inteiramente composto por imagens de arquivo que demonstra a ascensão da Facção do Exército Vermelho, fundando por Andreas Baader e Ulrike Meinhof. Jean-Gabriel Périot foi o mentor dessa estrutura documental e agora é uma das figuras centrais da edição deste ano do mesmo festival que o havia acolhido. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador que tem demonstrado um intenso trabalho a nível de pesquisa, funcionado em prol da "mãe" de todas as questões - Porquê que lutamos?

 

 

É a sua primeira vez em Portugal?

Não, é a minha terceira vez.

 

Como se sente ao saber que um festival de cinema dedica a uma secção especialmente para si?

Posso dizer que fico feliz por ver um festival a passar os meus filmes. Digamos que quando um festival decide dedicar-me uma retrospectiva e criar uma espécie de "relação" comigo é no mínimo … estranho. 

 

O seu trabalho é quase exclusivamente à base do found footage, mas a questão é como surgem as suas ideias? Olha para uma imagem e elas "falam" consigo?

Tirando algumas exceções, a ideia nunca vem das imagens, e sim dos livros. Quando interesso-me por um assunto começo por ler bastante, investigo, pesquiso e só depois da ideia formada é que dirijo-me para os arquivos, ou seja, já existe filme antes das imagens. Só houve um que fugiu à regra, "Eût-elle été criminelle...", o qual eu segui primeiramente aos arquivos. Mas tirando isso, eu começo por inteirar-me num tópico e só depois é que surge o meu "assalto" aos arquivos.

 

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Os seus filmes têm uma forte componente política, por norma eles abordam a luta contra qualquer coisa. Esta sua vontade de demonstrar a insurreição, o combate, a manifestação, surgiu em algum ponto da sua vida, ou simplesmente você é um rebelde que odeia autoridades?

Na verdade, eu realmente odeio autoridades! (risos)

 

Mas por alguma razão?

Apenas não percebo porque é que algumas pessoas pretendem ser superiores, esse é um verdadeiro problema da autoridade. Por exemplo, eu sou um realizador, por isso poderia superiorizar-me perante os outros, mas para conseguir criar ou manter uma relação com os eles devo manter ao mesmo nível e não assumir como uma autoridade. O mesmo se passa com os políticos ou os chefes de estado, ninguém é superior a ninguém. Mas sei muito bem que precisamos de organização, porém, precisamos ainda mais de partilhá-la. Não cabe a uma pessoa decidir o destino de todos os outros.

 

E foi então que começou a fazer filmes sobre a luta contra a autoridade de qualquer forma?

Nem sempre isso se aplica aos meus filmes. Mas, por exemplo, mesmo quando deparamos com a resistência, a luta assim por dizer, questionamo-nos do "porquê que as pessoas lutam". Penso que é uma questão de energia.

 

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Então é essa a questão que procura nos seus filmes, o porquê de nós lutarmos?

Sim, é essa a questão que procuro. Por vezes, quando lutamos, libertamos muita energia e essa mesma energia quebra as nossas rotinas de vida. O universo não é perfeito, mas penso que encontramos o nosso lugar como ser humano enquanto resistimos a algo.

 

No caso da sua longa-metragem, Une Jeunesse Allemande, acredita ter feito um manifesto?

Não, pois penso que quando fazemos um referido manifesto o fazemos de maneira positiva. Se fizesse um manifesto comunista, por exemplo, seria algo do género "nós mudaremos o Mundo, mas ele teria que ser assim". Une Jeunesse Allemande é mais um filme sobre História a ser feita. Assistirmos a tantas pessoas falharem que é como um completo conjunto de fracassos. Nada muda. Julgo que neste filme é mais uma questão "do que fazer" e não "do que recusar". Tudo resume-se a uma invocação de resistência.

 

Referiu numa entrevista que prefere partilhar os seus filmes aos alcances de todos, mas no caso Une Jeunesse Allemande não funcionou bem assim. Quer explicar o porquê dessa decisão?

Simplesmente não tem a ver comigo, mas sim com a produção. Porque o cinema é arte e também indústria, e para faze-lo é preciso dinheiro, então arranjei quem o financiasse e esses mesmos produtores querem o seu dinheiro de volta. É assim que funciona, trata-se de um produto, não se pode divulgar gratuitamente na internet, essas pessoas [produtores] querem a sua "fatia". Obviamente que para mim, enquanto realizador, é preferível partilhar os meus filmes de maneira que todos pudessem vê-los.

 

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Foi curioso referir o seu filme como produto, por norma os realizadores evitam esse mesmo adjectivo.

O problema do cinema é que ela é uma indústria. Politico, autoral, etc, faz tudo parte da indústria. Como eu fiz muitos filmes sem dinheiro, os festivais sempre foram importantes para a divulgação dos meus filmes, exceto, obviamente, a internet. Mas quando iniciei não havia internet e mesmo assim ela não é suficiente. Por exemplo, eu próprio não gosto de ver filmes na internet, prefiro ir a um cinema ou até mesmo ter um DVD. Mas como realizador preciso de ir a todo o lado. É um preço a pagar para quem deseja fazer filmes.

 

E quanto a novos projectos?

Vou apostar num filme de ficção acerca de Hiroxima.

 

Ficção? Quer falar melhor sobre esse projecto?

De certa maneira será uma metáfora sobre o que Hiroxima "aprendeu". Passei algum tempo na cidade, em preparações para o meu 200,000 Phantoms, ouvi os seus habitantes, os sobreviventes da catástrofe, os testemunhos. Com tal experiência senti-me mais livre, o facto de ter em minha posse este tipo de História e o conhecimento gerado por este. Uma História preciosa, e igualmente frágil, porque os sobreviventes tentam lutar para serem felizes, mesmo tendo em conta tudo aquilo que passaram. Ou seja, terem a possibilidade de serem felizes, combatendo tudo aquilo que poderá destruir o mundo. Este filme trará não uma questão política, mas sim de como lidamos com o tempo. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:06
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24.4.16

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Depois de ter silenciado Cannes duas vezes, uma em 2002 com Irréversible e em 2009 com Enter the Void, Gaspar Noé voltou a fazer das suas em terras francesas com Love, uma história de amor, sexo e obsessão o qual prometeu alterar para sempre a maneira de encenar sexualmente no grande ecrã. Depois de uma estreia mediática no Festival, Love chega por fim a Portugal no âmbito do Indielisboa, o Cinematograficamente Falando … teve a oportunidade de falar com o realizador argentino radicado na França, numa conversa descontraída que disseca a sua obra, aborda uma vida que o cineasta pode nunca mais reaver, e o seu trabalho com "caras" desconhecidas.

 

 

Como foi concluir o seu "projecto de sonho"?

 

Foi um dos meus projectos de sonho. Eu escrevi o primeiro rascunho do guião após escrever o Enter the Void e depois de escrever uma curta sinopse do Irréversible. Como não consegui arranjar financiamento para o Enter the Void após a minha primeira longa-metragem, então optei por um projecto de baixo-orçamento que pudesse filmar e produzir em Paris. Escrevi um rascunho deste filme, que na altura intitulava-se por Danger, e conheci o Vincent Cassell num clube o qual perguntou-me o que estava a preparar. Disse-lhe que estava a espera de financiamento para o Enter the Void, mas que encontrava-se a preparar uma história de amor, bastante erótica, em Paris, e que estava interessado em que a Monica Bellucci entrasse.

 

Então encontrei-me com produtores que anunciaram que tinham o dinheiro para este projecto com Vincent Cassell e Monica Bellucci, e foi então que apercebi-me de que a maneira que pretendia filmar poderia comprometer o trabalho destes atores. Mas apresentei na mesma a minha ideia e eles simplesmente disseram “Não”. Foi então que sugeri, como estava livre nesse verão e o produtor também, fazer um outro projecto rápido e foi assim que concretizei o Irreversível. Nós o fizemos e tornou-se num grande êxito, desde então fiquei com a esperança de improvisar o projecto, mas entretanto o meu outro projecto foi aceite. É que depois do Irreversível, tive o desejo de filmar o Enter the Void.

 

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Depois de estrear o Enter the Void, avancei com este filme, porque eu sempre havia dedicado a este projecto, que era algo tão próximo de mim, tão próximo da minha própria vida. Mesmo que não fosse uma autobiografia, era como fosse a vida que os meus amigos tinham e na qual estava integrado. A vida dos 25 anos, com festas, noites, drogas, o amor desesperado, aquela maneira estranha dos fracassos, o qual tornaram este projecto muito afectivo. 

 

 

Foi então que optou por actores desconhecidos para Love? Como os escolheu?

 

Há pessoas que tem carisma e outras não. Quando nós dirigimos atores descobrimos que alguns tem maior aptidão para decorar as deixas, lembrar longos diálogos, outros tens talentos interpretativos, facilmente choram, outros desempenham uma personagem desenvolvidas por eles. Mas quando descobrimos pessoas carismáticas, não precisamos de atores… basta que tenham boas capacidades de improvisação, visto que eu faço muita edição. Depois de Vincent Cassell e Monica Bellucci terem recusado, decidi apostar em rostos desconhecidos. No entanto, apesar de ter uma grande admiração por bons actores, também gosto de ver em filmes, caras que não conheço, visto que trazem consigo algo novo.

 

 

Isso tem a haver com o facto de não associarmos essas caras com outras personagens?

 

Sim, mas atenção, eu não conseguiria fazer o Irréversible sem a Monica e o Vincent, porém, não poderia ser radical com eles devido às suas respectivas carreiras e sucessos anteriores. Neste caso, para um filme destes, pretendia atores mais jovens, e que não estivessem ligados a filmes anteriores.

 

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Por exemplo, quando eu vejo o filme The Dreamers, a representação de Michael Pitt é perfeita. No entanto eu não poderia tê-lo no meu filme, porque o espectador iria associar de imediato com The Dreamers ou outros dos seus anteriores filmes, e o mesmo iria acontecer com a rapariga. Para além disso, o actor está demasiado velho para o papel. Quando comecei os castings, a minha grande preocupação era encontrar um rapaz ou uma rapariga que se sentissem confortáveis com os “corpos de outra pessoa” … e com a sua nudez. Para muitos atores profissionais, este papel poderia ser considerado como um risco, por causas dos seus planos de carreira, fãs e o facto de se exporem desta maneira.

 

Para estes casos, as pessoas estão sempre mais alertas. Além do mais, é mais fácil para um homem mostrar o seu pénis, erecto ou não erecto, do que uma mulher expor-se em situações sexuais. Tudo isto porque vivemos num mundo dominado por homens, onde um pai não se iria importar que este tipo de papéis fossem vistos pelos seus próprios filhos. No caso da mulher, no mundo em que vivemos, ela facilmente seria julgada.

 

 

Como preparou-os para as cenas sexuais?

 

A ideia principal é que os atores fossem tangíveis, ousados e que soubessem o tipo de filme que estavam a fazer. Teriam que conhecer o tema e para isso debatíamos muito. Pedi aos atores para terem em conta, nestas cenas, que não se poderiam depilar, visto que para mim era esteticamente não-natural e eu pretendia algo vintage. Fico sempre chocado com esta nova moda das raparigas depilarem as suas “partes baixas” … acho feio! Para alguns homens é excitante mas para mim a depilação pertence à indústria pornográfica e não à vida real.

 

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Mas não pretendia fazer um filme pornográfico?

 

Não, eu estava simplesmente à procura de algo real. Não queria copiar nenhum dos filmes, nem sequências eróticas que tivesse visto, muito menos cenas explícitas que são tudo menos eróticas, mas sim reproduzir a maneira como beijamos e fazemos sexo quando estamos apaixonados por alguém.

 

 

Como surgiu o 3D para este filme?

 

Eu já tirava fotos em 3D, tinha uma câmara própria para o efeito. Numa altura difícil, na qual a minha mãe estava a morrer, eu tirei várias fotos com essa câmara para ter a possibilidade de recordar dela. Via essas fotografias num pequeno monitor.

 

Eu recebi um subsídio em França, através do Centro Nacional de Cinema (CNC), para ajudar a desenvolver novas tecnologias. Um mês depois de começar a filmar, pensei em usufruir do subsídio, mas não o pude fazer, porque teria que aguardar mais quatro meses antes de avançar no projecto. Mas como estava a filmar há já a um mês, eles colocaram o meu projecto no topo da “pilha”, duas semanas depois começamos a filmar com tais câmaras [3D]. Tive imensa sorte em participar neste tipo de indústria.

 

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Ao filmar em 3D, não tornei este projecto mais caro mas ficou incluindo na categoria dos filmes de “grande orçamento”. Para além disso, o filmamos em 5 semanas.

 

 

Automaticamente associamos Love a si. Não pelo seu nome aparecer nos créditos, mas sim por ser um filme imenso de referências das suas anteriores obras. Cheio de easter eggs.

 

Mais uma vez, este filme não é uma autobiografia mas sim o retrato de uma vida que eu e os meus amigos conhecemos. São esses os elementos do filme. Tentei filmar o jovem actor como um irmão mais novo tratasse, um tipo que estuda cinema, fez uma curta-metragem e que não sabe se vingará na indústria. A personagem é um rapaz fixe, descontraído, mas um verdadeiro fracasso, como um amigo fracassado.

 

 

Na sua carreira, existe uma frase que o persegue - O tempo destrói tudo - e Love não é excepção.

 

Sim, o tempo apaga tudo, mas penso que isto é mais a memória apaga o passado e como a vida consegue destruir os teus ideais. Como pequenos acidentes podem alterar os seus projectos de vida. Por exemplo, no filme, quando o protagonista engravida a rapariga, trata-se de um acidente, duma quebra. Aliás, são os acidentes que mudam o percurso das personagens nos meus filmes.

 

 

E quanto a novos projectos?

 

Não sei exactamente aquilo que eu vou fazer, mas estou a pensar em diferentes projectos.

 

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Quer falar sobre esses projectos?

 

Simplesmente, porque de momento não estou a preparar nenhum filme. Mas estou a considerar projectos diferentes.

 

 

Radiante por ver o seu filme a circular depois da mostra de Cannes?

 

Eu mudei um pouco, penso que agora a duração esteja com menos um minuto, visto que retirei três minutos do filme e acrescentei dois no final e mudei algumas músicas. O filme actualmente está mais perfeito do que a versão vista em Cannes, cuja música era provisória assim como os créditos. Que não estavam concluídos.

 

 

Então digamos que é um director's cut?

 

Sinceramente, eu não estava à espera que estivesse pronto para o Festival de Cannes, porque em meados de Fevereiro, o filme ainda estava a ser filmado. A meio de Abril, antes de anunciar os restantes filmes seleccionados para o festival, perguntaram-me se eu queria estar na Sessão da Meia-Noite de Cannes, aceitei mas antes advertir que o filme não estava completo. Faltavam três semanas para o início do festival, contudo, consegui terminar a tempo, foi o maior stress da minha vida.

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:32
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23.4.16
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Néon é o novo preto!

 

Boi Neon tem diversas vezes a noção de que a beleza pode ser fabricada mesmo sobre chapa zinco. Tal como é possível assistir a certo momento nesta obra de Gabriel Mascaro, um boi pintado sobre cores neons, conseguindo-se tornar-se no ponto alto de um rodeo decadente. Ou seja, o belo pode ser procurado e interpolado nos mais inóspitos cenários, mesmo quando o conto em si, beleza real nada traz. Tal como Domésticas, o anterior trabalho de Mascaro, o foco é novamente a "mão-de-obra", indivíduos sujeitos ao bem-estar dos outros, completando serviços que ninguém sonha ter como um derradeiro destino.

 

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As donas de casa são substituídas pelos "Reis do Gado", e por detrás dessa luxuosa visão de paisagens verdejantes e bovinos ruminando calmamente, existe um mundo algures entre a "podridão" e a escravatura do novo século. Porém, Boi Neon é mais que um alerta político-social, longe do filme-denúncia de teor propagandista, é um ensaio da natureza intrínseca da masculinidade, e como esta pode ser invertida num mundo onde os homens preocupam com as futilidades do seu aspecto e com os sonhos mantidos de estilismos e outros acessórios associados ao feminino. Nesse mesmo universo, mantido com algum humor screewball e mordaz, as mulheres são seres dominantes, activas que fazem dos homens meros objectos de prazer sexual, ou serventes de manda, como gado que estará aí por nascer.

 

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É um exotismo não visto num Brasil fora do mercado das novelas e de muitas favela movies que contamina indústrias cinematográficas com um realismo modelizado para com o que convém. Este é o Brasil desconhecido, inóspito de elegância, cuja beleza está presente a quem procura e Boi Neon é o filme certo para "entrar" nessa honestidade estética, a "belezura" de papelão, tingida e infringida de maneira crua e suja. Um dos grandes filmes brasileiros dos últimos anos, sem medo para transgredir o politicamente correcto, ou por outras palavras, o conservacionismo.  

 

Filme visualizado no 13º Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente

 

Real.: Gabriel Mascaro / Int.: Juliano Cazarré, Maeve Jinkings, Josinaldo Alves

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 13:16
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20.4.16

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Ver mais sobre o Indielisboa 2016

"Um programa cheio", é o promete o director do Indielisboa!

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publicado por Hugo Gomes às 15:11
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18.4.16

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Dentro de dias arrancará a 13ª edição do Indielisboa, um festival que nos últimos anos tem-se assumido como um dos mais influentes festivais portugueses e não só. Neste novo ano, a mostra de cinema independente irá continuar a focar nas últimas novidades do panorama cinematográfico, assim como nos seus heróis. Nesse aspecto, o próximo Indielisboa terá como destaque a completa retrospectiva do realizador holandês Paul Verhoeven, irreverente como poucos e lúdico como alguns. O Cinematograficamente Falando … falou com o director e programador, Nuno Sena, sobre programação e as mais recentes novidades da mesma, começando curiosamente por salientar este "autor interessante do cinema contemporâneo".

 

 

Uma programação sob o signo de Paul Verhoeven e de Vincent Macaigne

 

A homenagem e retrospectiva integral do cineasta holandês "fora um parto iniciado já há algum tempo", afirmou o director. Sena acrescentou ainda que com um filme seu na programação de Cannes, este conjunto de 17 sessões (16 de longas e uma sessão composta por todas as suas curtas) poderá ser visto como um "momento perfeito para revisitar o autor".

 

Garantindo que esta proposta só fora reproduzida "até à data pela Cinemateca Francesa", Paul Verhoeven será, no Indielisboa, fruto de uma "reavaliação crítica". Sabendo que fora um cineasta que obteve uma "grande popularidade" e que caiu no esquecimento em consequência do seu flop americano, Showgirls, um filme que é actualmente discutido e até mesmo defendido por grandes nomes do Cinema como o recém-falecido cineasta e crítico Jacques Rivette e a anterior Herói Independente do Indielisboa, Mia Hansen-Løve.

 

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O grande público, porventura, reconhecerá o realizador graças aos seus populares trabalhos em Robocop (1987) e Basic Instinct (1992). O Cinematograficamente Falando … recomenda ainda ao leitor uma espreitadela à sua fase holandesa, com Turkish Delight (1973) e Flesh + Blood (1985) como prioridades e ainda o regresso a esse seu país natal com o conto de espionagem ambientado na Segunda Guerra Mundial, Zwartboek (2006).

 

Ao contrário de Verhoeven, do qual não necessita de apresentações, Vincent Macaigne, um jovem actor, encenador de teatro, argumentista e realizador (tendo já assinado dois filmes), é um "talento enorme que necessitava ser apresentado ao público português". Com mais de 40 anos e uma carreira composta por pouco mais de 30 filmes, Macaigne "foi apadrinhado por uma série de jovens realizadores franceses". Porém, o actor também apadrinhou jovens "talentos que ele próprio considera fazer parte de uma família, uma comunidade que está a mexer no actual cinema francês", como por exemplo o actor Louis Garrel, que estreia por detrás das câmaras com Les Deux Amis, filme que se encontra integrado nesta retrospectiva.

 

Nuno Sena acredita na importância deste Herói Independente, e a urgência deste ciclo entre o público, visto que Macaigne "será, ou se não é, um dos maiores actores franceses contemporâneos". O Indielisboa orgulha-se de trazer o actor a Lisboa, que para além das suas intervenções durante os filmes, irá apresentar e coordenar uma conferência com um "titulo no mínimo provocatório" - Por uma Política dos Actores - onde visará de que maneira um "actor e um autor podem coincidir na criatividade do cinema". Segundo Sena, "ele é um actor, não deixando com isso de ser um co-autor dos filmes que entra. A sua influência sobre os filmes que participa está muito longe de cotar a questão da representação, mas sente-se que existe uma energia transbordante que acaba por influenciar em diversos aspectos a criação de um filme".

 

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Um festival em crescimento

 

Desde da sua primeira edição em 2004, o Indielisboa  tem vindo a crescer gradualmente, e o resultado nota-se naquilo que é hoje apresentado. Nuno Sena relembrou que no seu primeiro ano, o festival contou com cerca de 500 filmes inscritos, tendo sido 100 seleccionados. Na altura, "o Indie era um festival pequeno, contando com apenas três salas.". O ritmo de crescimento estabilizou por volta dos 4 ou 5 anos (com uma selecção que rondava os 240/250 filmes). Para o director, esta 13ª edição é consideravelmente maior na sua mostra, muito derivado aos segmentos especiais de curtas.

 

Quanto aos critérios de selecção, ao contrário do que se imagina, não existe uma "fórmula ou guia para o seleccionador do Indielisboa, o que há é um conjunto de pessoas que tem uma proximidade e afinidade na sua visão de cinema. Mas também alguma diversidade". Nuno Sena ainda referiu o processo de selecção como "uma comitiva de consenso para o que parece mais importante, mais incontornável e que se identifique com o projecto, que é essencialmente à volta de uma ideia do cinema primeiramente renovado."

 

"Acreditamos que o cinema ainda tem coisas novas para oferecer", aposta o director que adianta ainda que essas "propostas podem basear-se no passado do cinema, mas trazer algo de novo."

 

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Os desafios do Cinema Português, a constante batalha!

 

Uma das principais preocupações do Indielisboa é a selecção nacional. Porém, Nuno Sena adiantou que tal tarefa já fora mais difícil, relembrando os tempos quase austeros de 2004 e salientando que a vinda do digital facilitou "muitas economias de produção". Actualmente, o "leque de escolhas é meramente mais alargado", contando com quase 40 filmes seleccionados de 100 inscrições, correspondentes a curtas e a longas-metragens.

 

Para o director, existem dois tipos de produções que poderemos encontrar na programação do Indielisboa: o de orçamento baixo onde "a vontade de fazer cinema" é erguida, como os filmes de escola ingressados na secção Novíssimos, e as produções de maior ambição como Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, que será o filme protagonista do dia 25 de Abril.

 

"O Indie é um espaço de cinema, em que todos eles devem possuir uma forte identidade dos seus autores", acerta Sena, "trazendo qualquer coisa, enquanto as suas premissas formais e estéticas fazem-nos acreditar para além de uma receita ou fórmula. Escolher cinema português é mais delicado, porque envolve que o festival funcione, para alguns realizadores, como uma primeira montra do seu trabalho. Podendo mesmo contribuir para que esses filmes tenham uma carreira nacional e internacional mais forte."

 

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O veterano cineasta português, João Botelho, marcará presença nas salas do Indie com um intimo tributo cinematográfico a um dos mestres do Cinema Nacional e Mundial, Manoel de Oliveira, que nos deixou no ano passado. Um filme concretizado com dedicação, mas infelizmente sob grande pesar, por um homem que deve a sua arte a este "pai" do nosso cinema. O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, é uma das recomendações do Cinematograficamente Falando ...

 

 

 

A música continua presente no Indie!

 

Como é habitual o coração do Festival continua sob acordes musicais com a secção Indiemusic. Este ano as grandes novidades destacam-se em Sonita, de  Rokhsareh Ghaem Maghami, que venceu dois importantes prémios em Sundance (de Júri e Público da secção World Cinema). Uma co-produção iraniana, suíça e alemã que vai ao encontro da jovem Sonita, uma imigrante ilegal afegã que vive nos subúrbios da cidade de Teerão e que sonha ser a futura "Rihanna", porém, a família, ultra-conservadora, tem outros planos para a rapariga.

 

Miss Sharon Jones, da conceituada documentarista norte-americana Barbara Kopple, é o retrato de uma luta pela sobrevivência da vocalista Sharon Jones, a tardia rainha do R&B da banda The Dap-King. Conta-se ainda o regresso de Amy Berg (Deliver us From Evil) num encontro com outra rainha, desta vez a do rock and roll, em Janis: The Little Girl Blue.

 

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A Boca do Inferno, mais um ano de vida!

 

A mais recente novidade do Indielisboa demonstra, neste segundo ano de longevidade, fortes sinais de vitalidade. Uma secção nascida através da frustração dos seus programadores que se deparavam com alguns filmes que não encaixavam no já formado programa. Para Nuno Sena, "são filmes que jogam contra as expectativas do espectador, filmes provocatórios, da maneira como quebram ou desconstroem géneros cinematográficos."

 

Outra razão para a criação do Boca do Inferno derivou do desejo de trazer a tradição das sessões de culto da meia-noite, presentes em inúmeros festivais mundiais, entre os quais Toronto, que trazem consigo um rol de cinema de género, ou de terror. A etapa do Indielisboa, foi em apostar nessas ditas fórmulas e colocar a sua "marca Indie".

 

Segundo o director, com este espaço é possível "trabalhar registos que não são pactuáveis em outras secções do festival. Não deixando de ser filmes que sabotam, reconstroem ou reformulam questões genéricas. No caso deste ano, não se espera evidentemente que um festival passe filmes pornográficos, mas Love de Gaspar Noé trabalha esse tabu do cinema mainstream que é a representação do sexo e do explicito no ecrã. É um filme que encaixa perfeitamente nesta secção [Boca do Inferno]."

 

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Entre as novidades deste ano conta-se uma sessão especial que vem ressuscitar uma tradição lisboeta que no entanto desaparecera. Trata-se das maratonas cinematográficas. Na Boca do Inferno está agendado um ciclo contínuo que arranca às onze da noite, terminando às seis da manhã, aproveitando o espaço convidativo e particular do Cinema Ideal para um esperado ambiente de festa. Durante esta alusão, Nuno Sena relembrou as maratonas anuais dos Cinema Quarteto na década de 80 e a atmosfera festiva que na altura acomodava centenas de cinéfilos. 

 

O diário filmado La Californie, de Charles Redon, foi uma das recomendações deixadas pelo director neste espaço. Neste filme, o realizador regista a sua história e a sua vida íntima ao lado da sua mulher, Mathilde Froustey (que é bailarina). Trata-se de uma obra em que o "espectador desconfia sempre do que está a ver e o diário filmado transforma-se, a dado passo, em qualquer outra coisa. Uma ficção com a biografia do realizador", reafirma Nuno Sena.

 

 

Os convidados

 

"A presença do mais esperado de todos ainda está em aberto", garantiu-nos Nuno Sena em relação a Paul Verhoeven. A sua eventual vinda a Lisboa poderá coincidir com as preparações do seu próximo filme, Elle, que estará em competição no tão aguardado Festival de Cannes. Porém, Vincent Macaigne está confirmado, assim como Jean-Gabriel Périot que conquistou o público da edição anterior do Indie com a sua longa-metragem, Une Jeunesse Allemande.

 

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Périot será alvo de retrospectiva na secção Foco Silvestre, com objectivo de demonstrar ao espectador mais desatento que este realizador "não nasceu ontem", compilando os seus anteriores trabalhos e as curtas que tão bem evidenciam o seu modus operantis. A sua árdua tarefa em vasculhar o found footage com o intuito de "mostrar imagens do passado para iluminar o presente."

 

Para Nuno Sena, o cinema de Périot desencadeia o debate quanto às "condições político-sociais da sociedade contemporânea a partir das imagens registadas do passado".

 

O director ainda revelou ao Cinematograficamente Falando … a confirmação de Petra Costa, a documentarista brasileira que tem triunfado com a sua ambição de unir o documentário e a ficção em prol do extremo intimismo. O Olmo e a Gaivota, a sua nova obra, que fora apresentado pela primeira vez no passado Festival de Locarno, aposta num drama docuficcional e experimentalista duma actriz, que após uma inesperada gravidez, encara-se com a desintegração da sua carreira artística. Costa irá apresentar o filme em Portugal (que já conta com estreia comercial), ao lado da sua co-realizadora Lea Globb e dos protagonistas, assim como a criança que motivou a criação deste filme.

 

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A 13ª edição do IndieLisboa, realiza-se entre 20 de Abril e 1 de Maio na Culturgest, na Cinemateca Portuguesa, Cinema São Jorge e Cinema Ideal.

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:59
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22.3.16

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A terceira longa-metragem de Ivo M. Ferreira, Cartas da Guerra, será apresentado no Indielisboa por alturas das comemorações do 25 de Abril. O elogiado filme português que arrecadou aplausos no último Festival de Berlim é umas das 300 obras que integrarão a programação do próximo Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa.

 

Como abertura e encerramento, os anteriores Heróis Independentes, Whit Stillman e Mia Hansen-Løve encarregarão de tais honras. O primeiro com Love & Friendship apresentado em Sundance e o segundo com L'Avenir com Isabelle Hupert, vencedor do Prémio de Melhor Realização do Festival de Berlim. Por sua vez, na pele dos Heróis Independentes deste ano estarão Paul Verhoeven, o cineasta por detrás de obras como Basic Instinct e Robocop, e o actor francês Vicent Macaigne.

 

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Outras revelações da programação é a continuação da secção Boca do Inferno, onde serão exibidos filmes mais negros e experimentais, que terão lugar no Cinema Ideal. The Lobster, o último trabalho de Yorgos Lanthimos, será por fim apresentado em Portugal através dessa mesma secção.  Destaque ainda para a segunda  longa-metragem da documentarista brasileira Petra Costa, Olmo e a Gaivota, presente na Competição do Festival.

 

A 13ª edição do IndieLisboa, que realiza-se entre 20 de Abril e 1 de Maio na Culturgest, na Cinemateca Portuguesa, Cinema São Jorge e Cinema Ideal.

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:19
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3.3.16

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O cineasta holandês Paul Verhoeven será um dos homenageados na próxima edição do Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa, que decorrerá no dia 20 de Abril a 1 de Maio.

 

O realizador por detrás dos célebres Basic Instinct (Instinto Fatal), Robocop e o cada vez mais discutido Show Girls, integrará a secção Heróis Independentes. Esta retrospectiva que incluirá as suas obras mais badaladas, como as mais recentes (o ainda inédito em Portugal, Steekspel) e as suas curtas-metragens, terá colaboração com a Cinemateca-Portuguesa Museu do Cinema.

 

A programação completa do Indielisboa apenas será revelada a partir do dia 22 de Março, no site oficial.

 


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publicado por Hugo Gomes às 19:18
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13.11.15

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Louis Garrel às voltas do ménage francês!

 

Se tivéssemos que avaliar atores como raças caninas, então difícil seria negar a existência de pedigree em Louis Garrel, o filho do cineasta Philipe Garrel, o neto do actor Maurice Garrel e ainda afilhado do também actor Jean-Pierre Léaud (o imortalizado Antoine Doinel dos Les Quatre Cents Coups, de Truffaut). Porém, não estamos aqui a discutir a arvore genealógica do protagonista de The Dreamers, mas sim confirmar a sua experiência, ou a possibilidade desta, captada na sua própria faceta artística. Talvez seja esse contacto directo com o Cinema, um dos motivos para avançar da interpretação para a realização de uma primeira longa-metragem.

 

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Estampá-lo com a expressão "tal pai, tal filho" é visto como uma pura hipocrisia para ambos os lados. Não só Louis difere das influências supostamente recebidas pelo seu progenitor, como demonstra uma jovialidade mais hiperactiva e simultaneamente, e contrário do que poderia imaginar, "acorrentada" aos velhos costumes da cinematográfica francesa. Aliás, como o próprio havia salientado numa visita a Lisboa, é previsível apelidar o seu filme como um filme francês na sua ingénua forma.

 

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Les Deux Amis resulta na enésima abordagem do ménage-à-trois francês, um conjunto de relações afectivas (romance e "bromance") que chocam neste composto triângulo isósceles, onde o terceiro elemento (Golshifteh Farahani), de natureza misteriosa, tem como propósito perturbar uma já vincada amizade masculina.  A desmistificação dos três estarolas sem pingo de slapstick, mas que encontram o comic relief no embaraço - na humilhação das suas personagens - apresentam uma espontânea vontade de destacar num mundo firmado pelas rotinas agendadas. Esse mesmo trio "quebram o gelo" de alguma forma, vivendo o dia como fosse o último das suas respectivas vidas. Les Deux Amis é também um retrato sobre a maturidade, por vezes precoces em contraste com um período globalizado e recheado de medos interiores. Aqui, as personagens masculinas são "bébés grandes", seres inadaptados a responsabilizar dos mais cruciais actos, e ela, dotado por um propósito quase "disnesco" de procurar algo mais na limitações do seu quotidiano.

 

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Escrito a meias com o seu amigo Christophe Honoré e co-protagonizado com outro amigo seu, Vincent Macaigne, o realizador Louis Garrel providencia dos elementos mais estereotipados do cinema francês para recriar uma interpretação intima a esses mesmos códigos. De tal maneira que este Les Deux Amis funciona como uma prolongada reinterpretação do êxito de The Dreamers: Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci, o qual também protagonizou um tão famoso ménage-à-trois. "Queria fazer amor com este filme", disse o próprio realizador / actor quanto aos desejos desta sua estreia na direcção - concretizar uma obra intima - um prazer seu que possa ser partilhado pelos demais.

 

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Até certo ponto, Louis tem razão, o cinema não tem que ser um entretenimento de massas pensado e automatizado por produtores para preencher uma faixa ou classe etária, mas sim, um pedaço de nós (cineastas) com o deleite de ser distribuído para um terceiro elemento: o espectador. Nesse ponto de vista, Louis Garrel aprendeu com o seu pai, mesmo que o seu cinema não traga nada de novo por estas "bandas".

 

Filme visualizado no Lisbon & Estoril Film Festival 2015

 

Real.: Louis Garrel / Int.: Vincent Macaigne, Louis Garrel, Golshifteh Farahani

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 01:00
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19.8.15

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No seio da "tempestade"!

 

Depois de ter partilhado a sua dor através de um tributo intimo à sua falecida irmã, Petra Costa decide explorar as crises existenciais de uma actriz promissora, Olivia, cuja vida se altera drasticamente após a descoberta da sua gravidez. Tal como a sua primeira longa-metragem , Elena [ler crítica], Costa regressa ao estilo inconformado do documentário, numa reinvenção com pé assente na ficção e outro no limiar da realidade e da manipulação cinematográfica. Poderíamos salientar que em Olmo e a Gaivota somos remetidos à estranheza, a bizarria da forma narrativa e através disso a uma viagem directa para  sentido vital da sua protagonista / vitima. Enquanto que em Elena o espectador sentia incomodo por penetrar em territórios tão pessoais da autora, nesta nova longa-metragem (em colaboração com Lea Glob) temos a tendência de julgá-la pela persistência de entranhar na vida, ainda a ser "escrita", da sua actriz, mesmo que esta demonstre por várias ocasiões as fronteiras impenetráveis e proibidas do seu ser.

 

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Um exercício narrativo que tem sido várias vezes comparado com os triunfos literários atingidos por Virginia Woolf (Mrs. Dalloway). A obra assenta num diversificado registo tão distinto da autora, que se comporta como uma entidade divina no preciso momento em que chega a transformar a sua própria realidade, como se esta fosse barro maleável pronto para uma exibição. É uma peça de arte, se assim acreditarmos, que reúne a perfomance artística em conjugação com uma veia teatral forte (a protagonista é uma actriz de teatro em plena encenação de A Gaivota, de Anton Tcheknov, logo é evidente essa matriz) com a complexidade literária; a experimentação dos pensamentos da sua "heroína" como conduta narrativa a reter. Aliás, ela é o leme, enquanto as realizadoras adquirem um papel de almirantes em alto-mar.

 

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Os medos da maternidade, a cedência às trivialidades do quotidiano e os sonhos desfeitos em prol do ciclo que a vida suscita, são pontos de reflexão que Olivia contrai , sujeita às intervenções das suas respectivas "patroas", agora ditadoras do seu dia-a-dia. Uma luta assinalada como se uma gaivota resistisse à tempestade. Olivia é essa gaivota (alusão ao filme), contando com Serge, o seu "olmo", a árvore medicinal que contrabalança a sua alma enclausurada. Uma história de amor atormentada, mas rica em momentos românticos que salientam o seu "quê" de realidade, e tal é testemunhado logo nos primeiros minutos, onde Serge recita com tanta afeição Mi Sono Innamirato di Te (Luigi Tenco).

 

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Ocasionalmente belo e narrativamente utópico, Olmo e a Gaivota é uma peça-mestre na maleabilidade narrativa, e mostra como Petra Costa poderá tornar-se mais que somente uma promessa: uma poeta visual. Apesar de tudo, e infelizmente, não é o turbilhão de emoções que Elena fora, essa ainda (um pouco) desconhecida pérola do género documental.

 

Filme visualizado no âmbito da 68ª edição do Festival de Locarno

 

Real.: Petra Costa, Lea Globb / Int.: Olivia Corsini, Serge Nicolai, Pancho Garcia Aguirre

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 16:33
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22.5.15
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O Amor, segundo Noé!

 

Love é um plano antigo, um projecto de sonho que ousa em desafiar as próprias convenções do cinema, politicamente aceite, e resgatar muito do teor, agora reduzido à industria pornográfica, ao serviço do storytelling. Esta ideia permaneceu em Gaspar Noé anos antes do trabalho que o consagrou como um dos mais irreverentes e controversos cineastas do nosso tempo - Irréversible [ler crítica] - sendo que uma proposta de protagonizar, o que o realizador apelida de "sexo com sentimento", seguiu primeiramente aos actores Vincent Cassell e Monica Bellucci, numa altura em que ambos constituíam um casal e que tal factor atribuiria à eventual perfomance uma intimidade requisitada. Porém, a dupla recusou, tendo Love ficado residido ao limbo cinematográfico.

 

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Limbo, esse, que fora retirado recentemente, mas antes Noé havia experimentado novas formas narrativas e estéticas com o não muito consensual Enter the Void [ler crítica]. A proposta de uma trip narcótica em mistura com o esoterismo tibetano serviu de objecto de estudo e incentivo para o avanço deste projecto (agora protagonizado por desconhecidos, talvez os únicos que aceitaram tal excentricidade ou estratégica executada para que o espectador não identifique as caras desta "relação" com outros trabalhos) que se revelou muito pessoal. Love arranca com uma amostra daquilo que havia sido prometido enquanto produto choque, o que se resumiria vulgarmente de filme pornográfico em 3D. O sexo parece real, de certa forma sujo e "ordinário", afastando-se de qualquer indicio de encenação, neste caso Gaspar Noé consegue o seu "quê" de atenção e superar o limites estéticos estabelecidos pelo cinema erótico.

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Mas, Love apresenta mais do que simplesmente exploração a foro sexual e do muito publicitado ménage-a-trois, o filme funciona como um romance vincado em memórias autobiográficas, sim, leram bem, uma biografia complementada sob uma liberdade criativa e ficcional em concordância com toda uma colecção de fetiches que operam num júbilo masturbatório, para ele e não para o espectador. Noé acaba por abordar a sua veia mais romântica, entregue numa bandeja de perversão para "inglês ver", até que por fim essa mesma capa dissipa e a lamechice extrema é realçada e desmesurada no seu requinte visual.

 

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Temos uma estética retirada através dos estudos feitos por Enter the Void - as suas concepções aqui reaproveitadas em prol de uma nova trama, e a narrativa enxertada por falsas elipses e malabarismo temporal - aliás, tais referências autorais são assumidas com os inúmeros easter eggs que acompanham o regresso ao passado de Murphy (Karl Glusman), um homem que viveu intensamente uma paixão, cuja ruptura é ainda tida como um dos seus maiores arrependimentos. Electra, nome dessa sua "Vénus", é novamente ouvida após uma tremenda ausência, abrindo "portas" para emoções e recordações não sentidas há muito tempo.

 

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Gaspar Noé interage com a lei de Murphy ("qualquer coisa que possa correr mal, ocorrerá mal, no pior momento possível") para basear nesta matriz que vai ao reencontro do seu pessimismo e arrependimento - o tempo destrói tudo de Irréversible - o não retorno emocional e físico das suas personagens e a aura fantasmagórica que permanece no final da sessão. No final, somos todos criaturas taradas por experiências, apenas submetidas a uma derradeira fragilidade, é que sabemos, ou julgamos saber, amar. 

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Gaspar Noé / Int.: Aomi Muyock, Karl Glusman, Klara Kristin

 

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6/10

publicado por Hugo Gomes às 13:35
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15.5.15

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Os complexos amorosos da lagosta!

 

Não há mal nenhum em estranhar, até porque essa parece ser a atitude certa para uma obra como este The Lobster (A Lagosta), a nova criação do cineasta grego Yorgos Lanthimos, que se dispõe como uma fria sátira do quão burocráticos se tornaram os compromissos afectivos e a relevância impar que o estatuto social adquiriu na nossa sociedade. Obviamente, em toda essa crítica, na forma de uma prolongada metáfora distópica, o bizarro faz definitivamente parte da experiência, sendo incutido um surrealismo e um non sense nos desempenhos, todos eles aludindo a um alvo social, ou, neste caso, a um conjunto deles.

 

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A mente por trás do bizarro Canino, essa hipérbole da distorção social perpetrada pelos sistemas totalitaristas, tem ao seu dispor um elenco internacional que conta com as presenças de Colin Farrell, Rachel Weisz, Lea Seydoux e até Ben Whishaw. Apesar disso, Lanthimos não arredou o pé quanto à sua excentricidade e revelou-se um arquitecto niilista, onde um mundo não identificável é a sua maior obra de arte. Neste mundo ser solteiro é um crime, uma marginalidade onde os recém-solteiros apenas possuem um de dois objectivos da vida: ou arranjam um par, ou transformam-se num animal. Um pouco com Huxley e o seu Admirável Mundo Novo, aqui encontramos uma sociedade que coloca o sexo como o tópico mais natural e trivial de sempre, e nele reside a grande combustão para o quotidiano de qualquer um.

 

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Dividido em dois actos evidentes, The Lobster tenta colidir com os dois lados da mesma moeda. Em consequência disso, é dada uma profundidade, apesar de não parecer, a essa mesma distopia. Lanthimos contraiu uma linguagem influenciada pelo cinema inibido norte-americano, como o de Wes Anderson, tão presente nos desempenhos e personagens caricatas, assim como os diálogos que estão algures entre o delicioso e o surreal. Sim, eis uma viagem pelo sobrenatural das distopias, uma complexa crítica à essência sexual humana que, como animal monogâmico ou simplesmente solitário, define a sua estrutura social e matrimonial. Já os animais, mais que um dispositivo narrativo, comportam-se aqui como signos, como a própria lagosta, que possui um papel fundamental e simbólico.

 

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Nisto, muitas ideias poderão ser retiradas daqui, visto que Lanthimos dá espaço para ambiguidades e paradoxos. Porém, gosto de pensar como Orson Welles: "Nós nascemos sozinhos, vivemos sozinhos e morremos sozinhos. Somente através do amor e das amizades é que podemos criar a ilusão, durante um momento, de que não estamos sozinhos". Tal citação enquadra-se na perfeição na sequência final, sugestivamente dolorosa mas que sublinha com acidez o seu ponto de vista.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Yorgos Lanthimos / Int.: Colin Farrell, Rachel Weisz, Lea Seydoux, Ben Whishaw, John C. Reilly, Jessica Barden, Michael Smiley

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 12:59
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14.5.15

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A suspeita é coisa de vizinho!

 

A Nova Vaga Romena é dotada pelo realismo rígido e de algumas melancolias. Radu Muntean (Tuesday, After Christmas) consegue através dessa característica do seu cinema construir um anti-thriller, uma obra alicerçada por dilemas de culpa e insuspeita. Em Un Etaj Mai Jos (One Floor Below) seguimos Patrascu (Teodor Corban), um homem comum, pai de família, acomodado com a sua vida, trabalho e amigos, cuja curiosidade o leva a territórios psicologicamente perturbados. Certo dia, Patrascu ouve uma discussão da vizinha do andar de baixo e, para poder acompanhar os pormenores dessa valente discussão entre uma jovem rapariga e o seu amante, também ele um vizinho, é apanhado a escutar por detrás da porta. No dia seguinte, a mesma vizinha aparece morta, a polícia investiga e o suicídio é a causa mais provável. Porém, para Patrascu o evento é um claro homicídio, e a suspeita do eventual culpado surge na sua mente. Apesar de decidido a continuar com a sua vida, Patrascu vê-se perseguido pelo alegado homicida.

 

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One Floor Below contrai um sentimento anti-climax em toda a sua execução, a começar por uma câmara que segue fielmente o seu protagonista, onde esse efeito (que funciona como uma rêmora num tubarão) não limita o olhar do espectador quanto ao desenrolar da intriga, mas finca sobretudo o realismo das suas sequências. O resultado é feliz nessa transmissão de credibilidade. O protagonista, Teodor Corban, demonstra firmeza no seu desempenho, o esboço de um homem comum, transparente quanto às suas emoções e dimensão psicológica, funcionando como uma personagem que não nos importamos de seguir nesta jornada ao andar de baixo. Quanto à sua aventura propriamente dita, Radu Muntean tece uma intriga em constante confronto com os seus dilemas, quase referenciando o cinema de Hitchcock sob o vínculo da culpa.

 

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Mas a questão da autodestruição derivada por um silencio criminoso revela as suas fraquezas enquanto produto independente. One Floor Below possui na sua carta alguns valores de ouro quanto à entrega do enredo, a dissipação do climax como uma opção direccionada ao debate fora do filme e a sua ambiguidade afiada. Contudo, o filme está demasiado preso ao seu clubismo estilístico, com um realismo exaustivamente reforçado pela sua própria frigidez. Ainda assim, não deixa de ser uma curiosa experiência.

 

Filme visualizado na 68ª edição do Festival de Cannes

 

Real.: Radu Muntean / Int.: Teodor Corban, Constantin Dita, Ionut Bora, Liviu Cheloiu, Calin Chirila

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 21:15
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3.5.15

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O romano Aferim!, de Radu Jude, foi o grande vencedor da 12ª edição do Indielisboa: Festival Internacional de Cinema Independente, o qual foi consagrado com dois prémios: Grande Prémio de Longa-metragem Cidade de Lisboa (Competição Internacional) e o Prémio de Distribuição Canais TVCine & Séries (atribuído pelo júri de Site / Blogs, que contou com a participação de João Miranda do site C7nema).

 

Enquanto isso, End of Summer, de Jóhann Jóhannsson, triunfou na competição internacional de curtas-metragens, Fora da Vida, de Filipa Reis e João Miller Guerra, na competição nacional de curtas e Os Olhos de André, de António Borges Correia, foi consagrado com o Prémio Allianz – Digimaster para Melhor Longa Metragem Portuguesa.

 

Destaque ainda para Before We Go, de Jorge León, premiado com o Prémio FIPRESCI.

 

 

Grande Prémio de Longa-metragem "Cidade De Lisboa"

Aferim!, de Radu Jude

 
Grande Prémio de Curta-metragem Airbnb
End of Summer, de Jóhann Jóhannsson

 

Menções Especiais
Animação:  Of a Forest, de Katarzyna Melnyk
Documentário: Shipwreck, de Morgan Knibbe
Ficção:Guy Moquet, de Demis Herenger

 

Prémio Allianz – Digimaster para Melhor Longa-metragem Portuguesa
Os Olhos de André, de António Borges Correia

 

Prémio Nescafé Dolce Gusto – Pixel Bunker para Melhor Curta-metragem Portuguesa
Fora da Vida, de Filipa Reis e João Miller Guerra

 

Prémio Novo Talento FNAC – Curta-metragem
A Trama e o Círculo, de Francisco Queimadela e Mariana Caló

 

Prémio Restart para Melhor Filme na secção Novíssimos
A Rapariga de Berlim, de Bruno de Freitas Leal

 

Prémio Canais TVCine & Séries (Sites/Blogs)
Aferim!, de Radu Jude

 

Menção Especial (Sites/Blogs)

Koza, de Ivan Ostrochovský

 

Prémio FIPRESCI (Silvestre Longas)
Before We Go, de Jorge León

  

Prémio Format Court (Silvestre Curtas)
The Mad Half Hour, de Leonardo Brzezicki

 

Prémio Árvore da Vida para Filme Português
Os Olhos de André, de António Borges Correia

 

Menção Especial Arvore da Vida
Para Lá do Marão, de José Manuel Fernandes

 

Prémio IndieJúnior Árvore da Vida
Historia de un oso, de Gabriel Osorio

 
Prémio Amnistia Internacional
O Medo à Espreita, de Marta Pessoa


Menção Especial (Amnistia Internacional)
Shipwreck, de Morgan Knibbe

 

Prémio TAP para Longa-metragem Portuguesa de Ficção
Os Olhos de André, de António Borges Correia


Prémio TAP para Documentário Português de Longa-metragem
Rabo de Peixe (Director's Cut), de Joaquim Pinto e Nuno Leonel

 

Prémio SIC Universidades
Ming of Harlem: Twenty One Storeys in The Air, de Phillip Warnell

  

Prémio Culturgest Escolas
A Trama e o Círculo, de Francisco Queimadela e Mariana Caló

  

Prémio do Público para Longa-metragem Fox Movies
A Toca do Lobo, de Catarina Mourão


Prémio do Público para Curta-metragem Merrell
In Waking Hours, de Katrien Vanagt e Sarah Vanagt


Prémio do Público IndieJúnior
A Lua e o Lobo, de Patrick Delage e Toma Leroux

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:40
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