Data
Título
Take
7.3.17

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Foto: Mafalda Martins

 

Mariana Ximenes começou aos 17 anos no circuito das novelas, e desde então tem apostando numa abrangente carreira, quer televisiva, quer cinematográfica. Em alturas do FESTin, a actriz esteve presente na capital portuguesa para apresentar duas obras distintas. A primeira, A Prova de Coragem, a sua experiência na produção, e o segundo, a cumplicidade com um dos nomes maiores do cinema autoral brasileiro, Ruy Guerra, em Quase Memória. O Cinematograficamente Falando … falou sobre a criatividade no seu trabalho como profissional, e as obras que chegarão com algum entusiasmo ao público português.

 

Esta é a sua primeira vez em Lisboa?

 

Não, já estive mais vezes aqui em Lisboa, inclusive duas semanas em rodagem da longa-metragem de um realizador brasileiro maravilhoso e que fez História no Cinema, Cácá Diegues. O filme era O Grande Circo Místico, uma co-produção do Brasil, França e Portugal, contando com uma equipa maioritariamente portuguesa.

 

A Mariana é sobretudo uma "cara" conhecida das novelas da Globo, e esta sua faceta cinematográfica é praticamente desconhecida, por exemplo, para público português. Acredita que existe uma certa linguagem no pequeno ecrã que não existe, ou simplesmente não assiste, no grande ecrã?

 

Quando a Globo começou a produzir filmes, esse diálogo entre cinema e televisão se tornou cada vez maior. Mas por exemplo, começou a série Super Max, uma produção televisiva concretizada totalmente com uma equipa ditamente cinematográfica, ou seja, temos televisão sob moldes cinematográficos. Até um cameraman francês tivemos, este que usufrui do método "shoulder rigs", uma técnica não muito vulgar em produções televisivas.

 

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Sim, cada vez mais se debate entre Cinema e televisão, e sobretudo nos Festivais de Cinema (e como é bom vocês terem um festival de língua portuguesa) que proporcionam uma abertura maior para os filmes brasileiros.

 

Referindo ao FESTin, a Mariana encontra-se presente para apresentar dois filmes, inclusive a sua co-produção A Prova de Coragem. Quer falar-nos sobre essa experiência na produção?

 

Comecei a ser produtora para poder realizar os projectos que sempre sonhara fazer. Mas quanto ao A Prova de Coragem, na verdade, não é um projecto meu, nem sequer foi idealizado por mim, é sim fruto de Roberto Gervitz, e a adaptação de um livro dum escritor gaúcho chamado Daniel Galera. O livro chama-se "Mãos de Cavalo", o filme era para ter o mesmo título, mas foi decidido intitulá-lo de A Prova de Coragem. Apesar de gostar do título original, porque simplesmente funciona como uma metáfora à coragem.

 

O filme aborda o drama da mulher contemporânea, que é o de ser mãe e conciliar com a carreira profissional, além de retratar o relacionamento e as dificuldades que existem numa relação de hoje em dia. Para este filme, cujo tema central é o montanhismo, tive que aprender a escalar, frequentei um curso e subi o Monte Babilónia, que fica no Rio. Foi um experiência fascinante, agora posso sim afirmar, que amo escalar.

 

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Em A Prova de Coragem, nós filmamos em locais bastante belos como a serra gaúcha. Da mesma forma que a minha personagem gosta de escalar, também tem uma paixão por fotografia, o que tem um certo relacionamento comigo, porque também tenho um curso de fotografia [risos].

 

Mas como nasceu essa decisão de virar-se para a produção?

 

Sou uma mulher que já fez mais de 20 filmes. Adoro fazer cinema ... simplesmente adoro, e por causa disso comecei a produzir. A minha carreira enquanto produtora já conta com mais de 4 filmes, dois deles como produtora associada. No caso de O Prova de Coragem, sou produtora associada, e gostei de envolver-me nesse processo de criação, porque agregamos elenco, equipa, todos aqueles que sempre quisemos trabalhar. Tenho esse encantamento pela envolvência nos meus projectos, como se diz, gosto de "meter mãos à obra".

 

Iremos ver num futuro próximo, uma Mariana Ximenes como realizadora?

 

Dirigir? Assim sozinha? Não tenho vontade, não. Sinto o desejo, e cada vez mais, de participar no processo criativo e o olhar de cada pessoa, tanto do director de fotografia, o de cinematografia, caracterização, figurino, de outro actor. Adoro o jogo, o de contracenar, assim como o de ambientes, o de criar espaços. Digo que sou bastante curiosa.

 

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Director de fotografia? Está disposta a experimentar o cargo de direcção fotográfica?

 

Director de fotografia? [risos]. Não sei se vou ser porque é um cargo muito difícil. Sou mais sentida na criação de diálogos e o que me interessa mesmo são os processos criativos.

 

Em relação ao segundo filme do FESTin, Quase Memória. Como foi trabalhar com o "lendário" realizador Ruy Guerra?

 

Uma aula. Diariamente. Não só uma aula de cinema, mas de vida. Ruy Guerra tem 80 anos e mesmo assim, possui muita energia. Para perceberes, nós filmávamos de madrugada.

 

De madrugada?

 

Sim, 12 horas de madrugada, no frio de Minas Gerais e ele estava ali, firme e forte. Foi um procedimento muito intenso. Aceitei o papel para ficar perto dele, é lindo de ver, ele com mais de 80 anos, filmando, fazendo o seu Cinema.

 

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Ruy Guerra estava ausente do Cinema por mais de 10 anos, a Mariana, de certa parte, faz parte desse seu regresso.

 

Sim, esteve fora por mais de uma década, que nem o Roberto Gervitz, o realizador do Prova de Coragem. Ele também estava 10 anos sem fazer um filme.

 

Fazer cinema é muito difícil, o de conseguir investimento e recursos para fazer um filme, não é tarefa fácil. Por isso, é louvável que um realizador tão renomado como o Ruy consiga investimento para poder filmar. Também me interessa projectos alternativos, como Super Max, por exemplo, que é uma experimentação. Gosto de ousadia, de experimentar, quando apostamos em projectos diferentes temos prosperidades de ampliar os olhares. Pode-se acertar como se pode errar, mas o risco está lá. O meu objectivo é aprender com o processo, como exercício de fazer.

 

Então, esta é a sua face mais autoral. Mas dentro da produção brasileira podemos encontrar obras de gostos diferentes, quer o mainstream da Globo, até ao cinema mais independente e autoral, como o do Ruy Guerra. O que a faz interessar-se por ambos os lados?

 

Menciono que A Prova de Coragem, assim como o Quase Memória são dois projectos diferentes e até estou querendo trazer os meus outros filmes para cá [risos]. Para termos a possibilidade de discutir isso mesmo, a diversidade da produção no Brasil. E isso é de valor, diversificar mais para podermos experimentar. Acrescento que Super Max, também, em certo jeito, é uma experimentação da Globo. Como já havia referido, sou completamente interessada nessas experiências, qual seja o lado que se possa experimentar. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:57
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1.3.17

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O FESTin comemora hoje (1 de Março) o especial número 8. Oito anos de existência, em uma oitava edição que prolongará até oitos dias no Cinema São Jorge, recheado com o melhor de um cinema falado na língua portuguesa, a ponte cultural de oito países separados por milhas, oceanos e História. Um signo a merecer a atenção do mais vasto público, dos cinéfilos em geral, e dos curiosos que tem a oportunidade de encontrar neste evento cultural uma cinematografia rica e igualmente pouco conhecida no nosso país. Referimos ao cinema brasileiro, uma produção diversificada que luta por um espaço na memória e mercado português.

O cinema brasileiro como "espinha dorsal"

 

Para Roni Nunes,  programador do FESTin, a derradeira luta está em trazer uma mostra plena de um cinema que "passa por uma fase excelente, como se viu com nove longas-metragens selecionadas para a Berlinale." O curador entende que com a qualidade do cinema brasileiro actual, era óbvio que não haveria "razões para não termos uma grande programação. Está na hora de mudar a imagem do cinema brasileiro em Portugal, que é muito associado às telenovelas, algo que não faz qualquer sentido, ou então a “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” – que são excelentes filmes mas que, obviamente, estão longe de ser representativos do cinema do país."

 

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Sim, Brasil será o país predominante do FESTin, e nele encontraremos uma "mão cheia" de estreias, tais como pernambucano Big Jato, o muito antecipado Comeback, a desforra de um pistoleiro de terceira idade e a loucura boémia dos anos 60 em Br 716, que segundo Roni Nunes, representam uma pequena fatia do melhor se produz nos dias de hoje, possuindo "uma magnífica característica, a possibilidade de agradar cinéfilos e espectadores casuais". O certame arrancará com a exibição de O Outro Lado do Paraíso, de Andre Ristum, um relato emocionado do Brasil em plena metamorfose político-social dos anos 60.



Para acompanhar as obras, o FESTin terá imensos convidados de honra, entre realizadores e actores, equipa de produção e técnicos, presenças exaustivas que prometem estabelecer uma ligação com o público. Entre as esperadas vindas, contaremos com a presença de Mariana Ximenes, que segundo Roni Nunes é "mais do que um rosto conhecido das telenovelas, ela é uma artista que tem investido muito em cinema de autor no Brasil." A actriz apresentará duas obras do seu currículo, ambas em Competição. Quase Memória, dirigido por Ruy Guerra, um ícone do Cinema Novo do Brasil, e Prova de Coragem, que também co-produz.


"O que mudou na programação foi que enveredamos definitivamente por um caminho mais autoral e desafiante na competição – a ponto de poder dizer que, em termos de quantidade, diversidade e, principalmente, qualidade, temos a melhor montra de cinema brasileiro de Portugal." proclama o programador.

 

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Lisboa, menina e moça, a capital Ibero-Americana

 

FESTin encerrará a edição com Elis, um retrato biográfico da cantora Elis Regina, uma das maiores da terra da Ordem e do Progresso. A escolha deste filme de Hugo Prata, protagonizado por "uma das revelações do ano passado" Andreia Horta (que estará presente), não foi ao acaso, a cinebiografia de uma das mulheres mais ícones do Brasil é servida de comemoração ao Dia Mundial da Mulher.

 

O feminino, por sua vez, será tema importante em toda a programação do FESTin, quer pela Lisboa Capital Ibero-Americana que escolheu o festival como o evento cultural oficial desta temática, preenchido por mesas redondas, debates, actividades paralelas e claro, mais mostras de filmes. "Em termos de filmes um dos destaques é a mostra dedicada à Margarida Gil, que terá cinco dos seus principais trabalhos (“Rosa Negra”, “O Anjo da Guarda”, “Adriana”, “O Fantasma de Novais” e “Paixão” exibidos" sugeriu o programador.

 

Ainda com a Lisboa Capital Ibero-Americana, "o FESTin dará a conhecer, numa parceria com o Instituto Cervantes, a obra do realizador cubano Titón, que será representa pela sua ex-mulher e uma figura icónico do seu país, Mirta Ibarra."

 

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Duas grandes apostas em português de Pessoa

 

Comparativamente ao cinema brasileiro, Portugal é de uma produção mais pequena, mas não é por isso que deixará de estar representado nesta oitava edição do FESTin. O festival vai contar com duas antestreias lisboetas, "dois excelentes exemplares de cinema português", afirma Roni Nunes. Integrados na Competição e vincadamente lusitanos estão Uma Vida à Espera, o regresso de "um realizador experiente na televisão, Sérgio Graciano, investindo num registo completamente diferente, onde Miguel Borges vive um sem-abrigo", e A Floresta das Almas Perdidas, de José Pedro Lopes, "uma bela mistura de cinema de género, neste caso o terror, com arthouse – tendo como ponto de partida uma floresta conhecida por ser um lugar procurado pelos suicidas".

 

Em contrapartida e questionado sobre a produção dos outros seis filmes de língua portuguesa que compõem este octógono cinematográfico, o programador referiu que "o cinema africano em língua portuguesa tem sido muito difícil de encontrar e as nossas solicitações nem sempre são atendidas com celeridade. Alguns destes países não têm indústria, outras aparecem com projectos de forma intermitente. E há países importantes na lusofonia onde a cultura é mesmo um alvo a abater. Ainda assim temos alguns projectos nas secções de curta-metragem e documentário"

 

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publicado por Hugo Gomes às 09:34
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8.2.17

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O 8º FESTIn: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, regressa a Lisboa já no próximo mês de Março, entre os dias 1 a 8, convocando uma mostra inteiramente falada em português, com convidados especiais e a Mulher com tema central.  

 

Serão mais de 70 filmes, uma selecção lusófona que arranca com O Outro Lado do Paraíso, a obra de Andre Ristum, e encerra com Elis, a cinebiografia da cantora brasileira Elis Regina dirigido por Hugo Prata, e cuja protagonista, Andréia Horta, marcará presença no festival.   Outra presença destacada neste oitavo ano é a da actriz Mariana Ximenes, "cara" conhecida pelas inúmeras telenovelas da Globo, que vem demonstrar ao público português, através do FESTin, a sua faceta mais cinematográfica. A actriz apresentará dois filmes em competição, Prova de Coragem, de Roberto Gervitz, e Quase Memória, do lendário cineasta brasileiro Ruy Guerra.     

 

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O FESTin contará ainda com duas antestreias portuguesas, o novo trabalho de Sérgio Graciano (Assim Assim), Uma Vida à Espera, e a primeira longa-metragem de José Pedro Lopes, A Floresta das Almas Perdidas, uma obra de contornos fantásticos e de terror, sobre duas figuras que penetram num local comum entre os suicidas. Outros filmes seleccionados a merecer atenção são o documentário Curumim, de Marcos Prado, que causou certo impacto no Festival de Berlim do ano passado, a de um brasileiro condenado à morte por tráfico de drogas na Indonésia, e o regresso de Cláudio Assis (vencedor do prémio de Melhor Filme do FESTin em 2011 com Febre do Rato), com o road movie Big Jato.  

 

O FESTin é ainda um dos eventos culturais seleccionados para fazer parte da Lisboa Capital Ibero-americana de Cultura. Entre as diversas actividades no Cinema São Jorge, estão previstas debates, mesas redondas, masterclasses e sessões especiais de cinema. Neste último ponto, há que realçar a mostra especial do realizador cubano Titón (alcunha de Tomás Gutiérrez Alea), falecido em 1996. A sua viúva e protagonista de algum dos seus filmes, Mirtha Ibarra, estará presente. A actriz foi responsável pelo documentário Titón – de Habana a Guantanamera, que também será exibido. Ainda, a homenagem à cineasta portuguesa Margarida Gil, onde a sua carreira será condensada e discutida no Cinema São Jorge.  

 

Para mais informação sobre a programação, ver aqui

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:38
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7.5.16

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E tudo o tempo levou!

 

Nos primeiros momentos, a morte toma o seu lugar na inospitalidade do cenário. Aí o tempo parou, mas as histórias entrelaçadas neste funeral anónimo florescem: a vida, seja ela qual, continua, seguindo o seu caminho entre os grãos que descem vagarosamente na sinistrada ampulheta. Nessas primeiras sequências é possível perceber o interesse do realizador Camilo Cavalcante em não ligar-se a estados temporais mas sim a crónicas desencontradas, enredos que encontram refúgio numa aldeia que, por sua vez, encontra-se "congelada" no referido tempo.

 

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A História da Eternidade é uma parábola a esse mesmo tempo, que destrói tudo e ao mesmo tempo faz renascer nova vida. É nessa vida depois da morte que o filme interage em mais um "conto de faroeste" disfarçado que, em união com o recente Boi Néon (de Gabriel Mascaro), não oculta a rebeldia aos parâmetros estabelecidos da masculinidade. O ambiente religioso e conservador é apenas "sol de pouca dura", até porque o enredo tem tanto de perverso como de mágico, confiando cegamente na sugestão, na memória, para expelir uma teia de infinidades. Entre espaços é ouvido Fala, cantado por Ney Matogrosso, a confirmar a pureza das artes performativas em consolidação com o másculo do seu teor indisciplinado. A sequência imergida nesta musicalidade invoca outro tributo quanto à narrativa desta história intemporal - o primitivismo - a ligação tenra entre Homem e a Natureza, entre o moderno civilizado e o folclore digno de um ancestral druida.

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Camilo Cavalcante, mesmo sob a "cartada" de sugestões, não engana o espectador perante os seus conseguíveis truques de magia, os planos completamente panorâmicos que rodopiam as suas personagens desmascarando ilusões que, no entretanto, poderiam ser impostas e induzidas. A História da Eternidade remete todo esse jogo de misticismo, onde no final, no calor do conflito que cerca entre o grupo de personagens, é novamente o tempo, que é posto em prática, funcionando numa só vez, para apagar o irreversível e embarcar as personagens numa nova oportunidade.

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Sim, é tudo uma questão do tempo, que voa ou opta pela imobilidade. Porém, conforme seja o seu "movimento", o cinema continua a ser feito. Reflectindo sobre esses espaços temporais que tão importantes foram para a evolução de uma arte. Simplesmente mágico!

 

Filme visualizado na 7ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Camilo Cavalcante / Int.: Marcelia Cartaxo, Leonardo França, Débora Ingrid

 

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9/10

publicado por Hugo Gomes às 01:45
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5.5.16

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Sem comentários, o título diz tudo!

 

Lembro perfeitamente de assistir à trupe composta por Lauren Bacall, Betty Grable e Marilyn Monroe alugarem um apartamento em Manhattan, a fim de embarcarem numa demanda em busca de um marido milionário que pudesse providenciar uma vida isente de sacrifícios e possível a excessos. Esse filme, How to Marry a Millionaire, de Jean Negulesco, estreava há 62 anos atrás, num mundo onde a mulher de sucesso ainda era vista como um dedicada esposa e dona-de-casa. E quem fala desse filme, refere também às enésimas produções que no entretanto estreava nessa década, como antes e depois dela.

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Mas os anos passaram, neste momento uma réplica desse How to Marry a Millionaire seria um filme perigoso, sexista e provido de incapazes personagens femininas. Nos tempos actuais, pedimos mulheres de carácter, detentoras de personalidade e sobretudo, determinação. No caso de sociedades ultra-conservadoras, todos nós solicitamos a crítica como a especiaria das eventuais narrativas. Nesse aspecto, quem não se lembra de Mustang? A obra onde cinco raparigas turcas tentam desafiar destinos traçados por matrimónios arranjados numa comunidade "governada" por homens.

 

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Contudo, no caso de Cartas de Amor são Ridículas (título inspirado num poema de Álvaro de Campos, heterónimo do poeta português Fernando Pessoa) não existe sequer uma tentativa de sátira (visto tratar-se de uma comédia de costumes), mas sim uma cumplicidade descarada da realizadora e argumentista, Alvarina Souza e Silva, aos ideais misóginos que o filme não tem vergonha de expor. Tudo corre muito mal aqui, um cruzamento entre Orgulho e Preconceito e Cyrano que resulta na patética tentativa de branquear o matrimónio como a mais pura das etapas humanas, mesmo quando a violação é aqui sugerida, porém, ofuscada simplesmente pela ideia de um casamento como uma garantia de sobrevivência.

 

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São doutrinas parolas, ultra-conservadoras do século passado e ainda a religião novamente a apresentar culpas no cartórios que tornam esta "filme" ofensivo e desprovido de qualquer denúncia social ou algo do género. Não, simplesmente é um "faz-de-conta" de que tudo aquilo apresentado é correctíssimo e que a mulher não possui qualquer tipo de voz em todo este cenário. Agora, passando para o resto, porque um filme não deve ser apenas construído com base numa crença, Cartas de Amores são Ridículas serve ainda outras ofensas em termos técnicos, interpretativos e argumentativos.

 

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A primeira, evidencia a urgência de oferecer um tripé à realizadora nas suas fracassadas tentativas de steadycam, leccioná-la a uma rápida introdução quanto à edição e a necessidade do tempo nas passagens entre planos e, por fim, demonstrar como é indecente apresentar um produto sem qualquer brilho quer fotográfico ou de sonoplastia. No segundo ponto, os atores são automáticos sob as suas pele de "bonecos" ocos, pseudo-emocionais e motivados por uma argumento (terceiro ponto) sem noção de construção quanto às personagens, nem a inserção do conflito dramático. Por último, devemos consolar Fernando Pessoa, que imensas reviravoltas deve ter efectuado na sua tumba perante à utilização indevida dos seus poemas. Tudo ao serviço de tamanha dose de amadorismo. Resumidamente, eis um filme ridículo e não as supostas cartas de amor. Enfim!

 

Filme de abertura da 9ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Alvarina Souza e Silva / Int.: Roberto Bonfim, Carolina Oliveira, Sandra Barsotti

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 01:21
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3.5.16

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O FESTin prepara mais uma edição repleta de cinema afluente de língua portuguesa. Nesta 7ª estadia no já habitual Cinema São Jorge, o festival apresentará uma mostra composta por 74 filmes, incluindo longas e curtas-metragens ficcionais e documentais, e um rico leque de trabalhos realizados por mulheres. Entre as novidades deste ano conta-se com a recém-criada secção FESTin Arte, que visa o lado mais experimental e alternativo do cinema lusófono. O festival decorre entre 4 e 11 de Maio.

 

O certame arrancará com a estreia As Cartas de Amor são Ridículas, de Alvarina Sousa e Silva, cujo título é inspirado num poema de Fernando Pessoa e que centra na história de um pai e cinco filhas, todas elas com nomes de flores e com idades recomendáveis para casar. Na competição destaca-se ainda o thriller de vingança, Mundo Cão, que marca o regresso de Marcos Jorge, o mesmo realizador de Estômago, considerado como um dos filmes surpresas de 2007, Zenaida, o drama cabo-verdiano de Alexis Tsafas e Yannis Fotou sobre uma mulher que torna-se vitima de uma rede de tráfico de humanos e ainda Ausência, de Chico Teixeira, com estreia mundial na secção Panorama do Festival de Berlim.

 

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Quanto aos documentário, muitos serão os temas abordados pelas seis longas-metragens presentes na respectiva competição. Nas recomendações surge Touro, de Larissa Figueiredo, a viagem da actriz portuguesa Joana de Verona à Ilha de Lençóis, situado no litoral norte do Brasil, em busca dos rasto mitológicos de D. Sebastião. Estreado em Roterdão e com passagem em Locarno, Touro poderá ser encarado como um herdeiro do cinema docuficcional de Miguel Gomes visto que, segundo a realizadora, o cineasta português foi o seu mentor. A arte como cura terapêutica de Olhar de Nise, de Jorge Oliveira e Pedro Zoca, o drama da deportação em Deportados, de Paulo Cabral, e a focada realidade do interior das penitenciárias brasileiras em Central, de Tatiana Seger e Renato Dorneles, são outras recomendações a terem em conta na secção documental.

 

Quanto ao FESTin Arte, que segundo a organização foi criado para servir de espaço para “propostas estimulantes e fora do circuito convencional”, serão apresentados três filmes que tão bem esboçam a experimentalidade e criatividade do cinema em geral. O filme Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, de Petrus Cariry, o confronto emocional de uma mulher ao lidar com a anunciada morte do seu pai, inaugura esta nova secção.

 

Mesmo com a homenagem ao 20 anos de CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), o FESTin terá uma programação com predominância brasileira, muito graças à Mostra de Cinema Brasileiro, que nesta edição salientará a chamada Nova Geração. Um leque de obras distribuídos em variados géneros e alguns deles improváveis na historia do festival como thriller sobrenatural, A Floresta Que Se Move, de Vinícius Coimbra.

 

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Ver Também

FESTin 2016: Fernando Pessoa inspira filme de abertura!

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:28
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12.4.16

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De 4 a 11 de Maio, no já habitual espaço do Cinema São Jorge, decorrerá mais uma edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa, cuja programação foi hoje divulgado em conferência de imprensa no Hotel Florida, em Lisboa. Esta 7ª edição, tem como principal novidade o FESTin Arte, uma secção dedicada a um cinema mais alternativo e experimental.

 

Contando com mais de 74 filmes, desde curtas a longas-metragens, a selecção arrancará com As Cartas de Amor são Ridículas, um trabalho de Alvarina Sousa e Silva inspirado num poema de Fernando Pessoa e que centra na história de um pai e cinco filhas, todas elas com nomes de flores e com idades recomendáveis para casar. Uma comédia dramática que abrirá a Competição de Longas, composta por 15 filmes incluindo o cabo-verdiano Zenaida, de Alexis Tsafas e Yannis Fotou, sobre uma jovem mulher "acorrentada" ao tráfico humano, e a co-produção luso-brasileira, História de Alice, dirigido por Oswaldo Caldeira, onde um realizador brasileiro procura as suas raízes portuguesas.

 

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Quanto à secção competitiva de documentários, destaca-se Touro, a obra de Larissa Figueiredo. Estreado no festival de Rotterdão, esta é uma das propostas mais aliciantes do certame, tratando-se numa viagem da actriz portuguesa Joana de Verona à Ilha de Lençóis, situado no litoral norte do Brasil, em busca dos rasto mitológicos de D. Sebastião. No Olhar de Nise, o documentário de Jorge Oliveira e Pedro Moca, a arte é servida como terapia a doentes do foro psicológico.  

 

Ainda uma Homenagem aos 20 anos da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), uma mostra diversificada de produções oriundas dos países abrangidos pela dita colectividade, e as já tradicionais Mostra Festinha (dedicado ao mais novos), Competição de Curtas-Metragens, a Mostra de Inclusão Social e FESTin + (um ciclo de cinema dedicado à terceira idade).

 

Ver programação completa aqui

 

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publicado por Hugo Gomes às 20:00
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19.4.15

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Quando o cinema é um jogo para alguns!

 

Prisão e mulheres no cinema já são por si temas de exploitation, temas, esses que foram muito popular nos anos 60 e que conseguiram perdurar até aos dias de hoje graças a alguns exemplares. Mas em Jogo de Xadrez, a primeira longa-metragem de Luis Antonio Pereira, a temática algo trash desses mesmos produtos é aqui invocada de forma involuntária.

 

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O que reside nesta fita protagonizada por Priscila Fantin (popular em Portugal devido ao trabalho em inúmeras novelas da Globo) é somente uma caricatura do termo. Depois é o enredo que desenvolve a partir de pedagogias e morais dignas de telenovela que entrelaçam com a denuncia "à la direitos humanos" sob bonecos unidimensionais. Aliás, chamar disto "bonecos" é pouco, basta evidenciar o leque de pseudo-personagens que nunca saem do registo de estereotipo e maniqueísmo, munidos por diálogos tão risíveis e pueris como o próprio argumento (também ele da autoria do realizador).

 

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Parece que Luis Antonio Pereira encontra-se mais interessado em mimetizar um mundo de faz-de-conta do que resolver elaborar um quadro credível povoado por personagens respiráveis. Infelizmente, nem os mínimos foram requisitados pois a realização é pura mediocridade e isente de ênfase dramática, que era seu dever evocar para benefício do seu conjunto de bonecos. Sim, existe aqui qualquer coisa de penoso em assistir um desperdício tão prolongando de material.

 

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Felizmente, parece que os envolvidos aperceberam de imediato o "potencial" da obra e não excederam o filme para além dos 60 minutos de duração. Até esse curto tempo enfraquece o enredo e os devidos personagens, todos eles encabeçados por atores mal direccionados. O que resta nisto tudo, segundo o realizador, é a denuncia social. Porém, esse mesmo não ostenta seriedade porque simplesmente o anexo não apela a tal atitude. Para um filme destes, a prisão perpétua era pouco.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luis Antonio Pereira / Int.: Priscila Fantin, Carla Marins, Antonio Calloni

 

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2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:11
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15.4.15

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O último filme de Marcelo Galvão, A Despedida (ler crítica), foi considerado pelo júri da 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Cinema Português, como Melhor Longa-Metragem da Competição, curiosamente o anterior filme do realizador (Os Colegas) venceu o Prémio de Público no mesmo Festival, 2 anos atrás. Enquanto isso, o Prémio de Melhor Realizador seguiu para José Eduardo Belmonte, que apresentou um vertiginoso olhar para uma das perigosas favelas do Rio Janeiro, no filme Alemão, também vencedor da menção honrosa.

 

No campo dos desempenhos, o amargo adeus de Nelson Xavier conquistou o júri em A Despedida (Melhor Actor) e a enclausurada Priscila Fantin foi a vencedora do campo feminino (Melhor Actriz). Destaque também para o português Lura (ler crítica), de Luís Brás, que foi eleito pelo público como Melhor Longa-Metragem e Setenta (ler crítica), de Emília Silveira, como Melhor Documentário.

 

Depois dos anúncios dos palmarés, seguiu-se a projecção da cinebiografia do escritor brasileiro Paulo Coelho, Não Pare Na Pista.

 

 

FICÇÃO – Longas-metragens

 

Melhor Longa-Metragem: A Despedida

Menção Honrosa: Alemão

Melhor Actor: Nelson Xavier (A Despedida)

Melhor Actriz: Priscila Fantin (Jogo de Xadrez)

Melhor Realizador: José Eduardo Belmonte (Alemão)

Melhor Longa-Metragem eleita pelo Público: Lura (de Luís Brás)

 

 

FICÇÃO – Curtas-Metragens

 

Melhor Filme: Urbanos (de Alessandra Nilo)

Menção Honrosa: Balança (de Rui Falcão)

Menção Honrosa: O Mal e a Aldeia (de David Serôdio e Diogo Lima)

Melhor Curta-Metragem eleita pelo Público (ex-aequo): A Boneca e o Silêncio (Carol Rodrigues)

Melhor Curta-Metragem eleita pelo Público (ex-aequo): O Mal e a Aldeia (de David Seródio e Diogo Lima)

 

 

DOCUMENTÁRIOS

 

Melhor Documentário: Setenta (de Emília Silveira)

Menção Honrosa: Sem Pena (de Eugenio Puppo)

Menção Honrosa: Qitupo, Hoyé (de Chico Carneiro e Rogério Manjate)

Melhor Documentário eleito pelo Público: Água para Tabatô (de Paulo Carneiro)

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:05
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15.4.15

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Isente de ar!

 

Chris (Marisol Ribeiro) é uma jovem que sofre de apneia do sono, por outras palavras, dormir é um risco para a rapariga visto que a insuficiência respiratória é frequente. Para prevenir esses tormentos da noite, Chris penetra num mundo de drogas, sexo e álcool, tornando todo os dias numa festa interminável.

 

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Apneia afigura-se no mesmo registo de Bling Ring, de Sofia Coppola, e do subvalorizado Spring Breakers, de Harmony Korine, na dissecação de uma geração niilista e "acorrentada" a vínculos de futilidade e luxúria. Mas ao contrário dos exemplos acima referidos, o filme de Maurício Eça peca pela sua constante falta de carácter e de primazia em abordar tais assuntos. Para além disso, o filme assume-se como um conto com fins morais, onde o conjunto de personagens não são mais que mero protótipos novelescos com evidentes fobias em devotarem-se como "figuras vazias" num cenário propício. Os atores fazem o que podem perante esse sacrilégio de "bonecos" sistematizados por lugares-comuns da TV, ou sob outras tendências, como a expansão das webséries, visto que esse formato não fomenta intrigas complexas para benefício do seu público-alvo (impaciente e exaustivamente consumidor).

 

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Já que falamos de webséries, é curioso que muitos trabalhos ostentam um rigor técnico mais apresentável que este Apneia. A sua estrutura de planificação é académica o suficiente para não salientar nenhuma prova de vivacidade no ramo da direcção, para além de mudança de planos injustificáveis que atrapalham, e muito, a visualização do espectador. Mesmo tendo temáticas joviais e debates sociais pelo meio, Apneia não revela esse instinto inconsequente nem essa força vital, o que existe aqui é somente um amontoado pastiche, povoado por personagens desequilibradas repletas de conflitos pessoais resolvidos num ápice, sem nunca ter espaço para ecoarem na narrativa.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTIn: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Mauricio Eça / Int.: Fernando Alves Pinto, Thaila Ayala, Maria Fernanda Cândido, Fernando Alves Pinto, Gustavo Duque

 

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3/10

publicado por Hugo Gomes às 20:13
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O último caso! Quando o Cinema é pessoal e maduro!

 

Depois da ingenuidade vinculada ao amor pelo cinema na "road trip" Os Colegas, Marcelo Galvão aposta desta vez num retrato da ausência dessa mesma inocência, aqui perdida porque o tempo assim o quis. Tal como o titulo refere, todo o filme é uma amarga despedida sob a ilusão de um doce adeus. Baseado em factos verídicos, esta é a história de Almirante (Nelson Xavier), um idoso que certo dia acorda com uma nova energia, uma premonição de que os últimos momentos na Terra estão para vir. Com essa mesma energia, decide envergar por um conjunto de últimos actos, entre os quais fazer amor com a mulher da sua vida (Juliana Paes), a qual é 40 anos mais nova.

 

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Os primeiros 15 minutos de película revelam uma força esquecida na História do Cinema. Nunca um filme foi tão fiel em abordar a decadência humana, esboçando em episódicas superações pessoais que resumem a acção e o conflito da narrativa. A liderar esse realismo, o actor Nelson Xavier é um pedestre credível, munido de uma força de acting verdadeiramente genial. Esse desempenho é subtil e reconfortante para com o espectador, como se o preparasse para uma derradeira redenção. Como alicerce da sua interpretação, Juliana Paes é invadida pela tal subtileza, numa prestação doce e sensualmente frígida (apesar de tudo). Os momentos em que partilham o ecrã revelam uma cumplicidade arrebatadora e inseparavelmente melancólica.

 

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A realização de Marcelo Galvão frisa esse realismo comportamental, ao mesmo tempo que detém uma câmara receosa em encarar os seus atores frontalmente, como se isso transmitisse um atalho aos "braços" da morte. "O problema não é ser velho, mas sim o de ter sido jovem", expressa Almirante, justificando a sua disfarçada saudade pelos tempos de juventude e salientando a sua vontade de vida, que se encontra de momento refém de um escasso prazo de validade. A demonstrar que é possível fazer um grande filme sob um protagonista da terceira idade, compondo a simplicidade e a conivência entre câmara e actor. Imperdível e jovial!

 

Filme visualizado no FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Marcelo Galvão / Int.: Nelson Xavier, Juliana Paes, Amélia Bittencourt

 

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10/10

publicado por Hugo Gomes às 00:00
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12.4.15
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Isolado!

 

Lura é a história de náufragos voluntários, reféns dos fantasmas do passado, eremitas que se tornam cúmplices da solidão. Manuel (Filipe Vargas) é o dito náufrago, não numa ilha, mas de uma casa abandonada que comporta como um pedaço relevante do seu passado, o qual o persegue incessantemente, sendo a sua única forma de luta e reconstrução dos laços corrompidos. Luís Brás compõe aqui a sua primeira longa-metragem, um objecto pessoal que assenta no expressionismo das imagens e na linguagem corporal das suas sequências. Além disso, é um risco cinematográfico onde é possível ver o desenvolvimento do realizador, que a olhos vistos passa de um mero académico a um poeta visual com infinita abordagem.

 

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Trata-se de um filme que recorre várias vezes às influências do fantástico. Tal como no clássico de Robert Wise, The Haunting (1963), a casa de Lura expõe um magnetismo assombroso, uma personalidade transversal e fortemente pesada que se sente na personagem. Mas essa força espiritual não se encontra no respectivo imóvel. Luís Brás herda a força expressiva das mãos e gestos de um M, de Fritz Lang, e, graças a tal, cria uma das sequências mais fantasmagóricas do cinema português recente. Para além do cenário, da atmosfera conseguida e toques metafísicos aludidos às diversas realidades, Lura é um portento técnico. Nesses termos, vale a pena salientar a fotografia de Leandro Ferrão (com acentuados toques de loucura) e a sonoplastia envolvente por João P. Nunes.

 

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Lura funciona como uma revelação do cinema português e uma determinação de crescimento pessoal acompanhado por um afecto fraterno à arte de fazer cinema. Mas não deveríamos tecer tantos elogios a Luís Brás, até porque muito trabalho deve ser feito, nomeadamente em encontrar um elo entre a expressão fílmica e a credibilidade dos actos (diria que a loucura assenta demasiado cedo no seu protagonista). Por enquanto, uma coisa é certa. Lura é hipnótico e como primeira obra, tenebrosamente bela.

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Luís Brás / Int.: Filipe Vargas, Ana Padrão, Rita Martins

 

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7/10

publicado por Hugo Gomes às 18:07
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11.4.15

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Os violentos e a estrada!

 

Há qualquer coisa de Bonnie & Clyde neste novo filme de Gustavo Galvão, uma obra que traduz os códigos da road trip para a demanda ao ser selvagem presente em cada um de nós. Tal como diria o escritor de ficção Louis L'Amour"O caminho é o que importa, e não o seu fim", citação que poderia ser muito bem arrancada do coração indomável deste Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa, onde as suas personagens nada revelam sobre os seus juízos passados nem nos objectivos por concretizar. O que interessa aqui é o trilho que os leva a lado nenhum.

 

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Porém, não julguem estar perante um extenso vazio. Há muito por onde olhar nesta Dose Violenta. O filme não condiciona esse olhar, mas incentiva o espectador a procurar por entre as irónicas camadas das personagens, sempre rodeadas pela violência dos seus pensamentos e induzidas a um mundo politicamente incorrecto pela renuncia aos vínculos morais. Há que salientar a forma como Gustavo Galvão renega as padronizações religiosas. Todas as personagens são corrompidas e os milagres da autoria de Jesus são outros para além daqueles com contornos bíblicos. Depois existe a fuga interminável ao capitalismo, denunciado constantemente por uma das mais ricas personagens -  e sobretudo mais lyncheana - deste universo (Marat Descartes).

 

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É a vontade de regressar ao estado selvagem; de cortar os elos da domesticação social que o Homem parece prender. No registo de irreverência, Gustavo Galvão constrói uma fita machista, mas não no sentido ordinário da palavra. Este um hino à camaradagem masculina e à libertinagem que todos assumem de pulmões cheios. E quando falamos de masculinidade, é bom frisar que Uma Dose Violenta de Qualquer Coisa não se estabelece pelo corriqueiro estereótipo, preferindo antes a sugestão e o desconhecido. Aliás, essa é a grande força motora das suas personagens singulares. Pena é que a banda sonora voluntariamente improvisada não acompanhe simbolicamente e atmosfericamente esta viagem "a lado nenhum".

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Gustavo Galvão / Int.: Vinícius Ferreira, Marat Descartes, Leonardo Medeiros

 

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8/10

publicado por Hugo Gomes às 20:08
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10.4.15
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Memórias valiosas, documentário falhado!

 

Existe muito por onde investigar sobre a Ditadura Militar brasileira, muitas histórias a serem reveladas e pormenores que não podem ser esquecidos. Mas nem sempre as intenções levam a melhor sobre uma panóplia de memórias e lutas desvanecidas. Há que saber investir na narração, muito mais quando falamos no cinema documental. Setenta soaria no papel como uma proposta cativante e corajosa, uma reflexão solene dos acontecimentos decorridos no Brasil, mas também no Chile (passando pelo seu negro 11 de Setembro), na década de 70 e a resistência vista como fantasmas peregrinos torturados numa sociedade que os renuncia a olhos vistos.

 

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Mas o que resultou nesta produção de Cavi Borges, apoiada pela Globo, foi mera linguagem televisiva sem um pingo de cinema enquanto revitalizador de fórmulas. Emília Silveira, também ela sobrevivente do negro período que o filme aborda, tem aqui uma obra pessoal, isso ninguém nega, mas Setenta é uma consequência da sua experiência como repórter da Globo, sem conhecimento algum de como se expressar em géneros cinematográficos. Nesse sentido falta sobretudo dinamismo da temática e sofisticação do seu registo narrativo, algo que não fosse somente uma intercalação de testemunhos e imagens de arquivo. Setenta é acanhado na sua garra e nunca em momento algum consegue fazer sobressair as histórias que tão bem encontrou. Ao invés, a sensação de desperdício é descomunal.

 

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É pena visto que o material reunido daria mais do que um filme, provavelmente mais de 18 filmes, cada um deles traduzindo a trama de um sobrevivente que tão bem merecia um reduto só seu. Segundo um desses "heróis", viver no Brasil daquela época era exactamente o mesmo que "fazer um churrasco num paiol de munição com cerveja e cachaça". Infelizmente, tal nunca é verdadeiramente transmitido aqui. Eis um retrato que merecia mais ... muito mais!

 

Filme visualizado na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Emília Silveira

 

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4/10

publicado por Hugo Gomes às 13:19
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9.4.15

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Sem passado, não há futuro!

 

Livremente baseado num livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa, O Vendedor de Passados vai ao encontro de Vicente (Lázaro Ramos), um homem perito em construir o passado a todos aqueles que ambicionam um novo presente. Esta sua "profissão", cujo trabalho é altamente requisitado por um vasta gama de pessoas, funciona como uma espécie de refúgio de um homem confrontado numa extensa crise existencial. Crise que será acentuada com a vinda de uma nova cliente (Alinne Moraes), uma misteriosa mulher que pede a Vicente o improvável.

 

Lázara Ramos e Alinne Moraes - O Vendedor de Pass

 

É evidente a identificação de todos os elementos da intriga no contexto social de Angola, onde a acção do romance literário decorre, aludindo a um país inserido numa intensa busca pelo seu próprio passado, mas ditado por uma crise identitária e por prolongadas conturbações étnicas. Com a transferência do enredo para o quotidiano brasileiro, todo esse simbolismo altera-se ou simplesmente perde-se pelo caminho, sobrando apenas mensagens subliminares e um humanismo que se concentra em explorar o protagonista, Vicente, o Homem sem Passado mas perito em concebe-los.

 

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O Vendedor de Passados recorre constantemente aos desempenhos (novamente Lázaro Ramos a carregar o filme) para emanar toda a emocionalidade num panorama que se comporta como irónico e crítico, mas nunca transcendente. Lula Buarque de Hollanda tem ainda outra perturbação, o de concretizar uma fita visualmente prazenteira para o espectador, negando o existencialismo que os poderia afastar. Assim, temos uma obra leviana, regida por valores de produção dignos do selo que carrega - a Rede Globo - com demonstrações de pós-produção sofisticados ou, na pior das hipóteses, uma esterilização estética.

 

Lázara Ramos e Alinne Moraes - O Vendedor de Pass

 

Pelo meio, o realizador, assim como a argumentista (Isabel Muniz), tentam incutir referências cinematográficas (de Nuovo Cinema Paradiso aos evidentes excertos de From Here to Eternity) como prazeres escondidos para cinéfilos equivocados, mesmo que estes marcos nada acrescentem à narrativa. O Vendedor de Passados é, em diversos sentidos, um filme burlão, prometendo mundos e fundos, mas dando-nos um catálogo. Somente um catálogo bonito e descritivo. "Você acredita em tudo o que lhe dizem!"

 

Filme de abertura da 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

Real.: Lula Buarque de Hollanda / Int.: Lázaro Ramos, Alinne Moraes, Mayana Neiva, Odilon Wagner

 

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5/10

publicado por Hugo Gomes às 13:46
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8.4.15

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Arranca nesta Quarta-feira (dia 8 de Abril) a sexta edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa, o qual volta a apresentar uma mostra delicada e culturalmente diversificada de filmes, cujo elo de ligação é a sua língua. Apostando cada vez mais em alargar a sua programação e tornar mais desafiante toda esta aventura cinematográfica, Adriana Niemeyer, directora artística, falou com o Cinematograficamente Falando …, apresentando as mais recentes adições e destaques de um festival que soma e segue.

 

 

Diversificar uma mostra cinematográfica

 

A divulgação é uma das apostas do FESTin, não apenas referente à sua programação e à selecção de filmes, mas também da língua e da cinematografia rara e por vezes demasiado limitada de muitos países, nomeadamente os africanos afluentes do português. Adriana Niemeyer salientou as dificuldades que há em construir uma programação rica e diversificada, tarefa que nem sempre é das mais gratas, visto que os países abrangidos na CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa) não possuem iguais níveis de produção: "A produção de filmes [nos países africanos] é muito curta, ou porque não existe ainda uma educação cinematográfica ou porque, por vezes, a produção local é muito pobre.". Face a isto, o Brasil é o país predominante nos filmes apresentados pelo FESTin: "70 ou 80% dos filmes são do Brasil, não conseguimos subir mais a quota nos outros países (...) em comparação com os países africanos".

 

Dentro da situação de escassez produtiva, encontramos também Portugal. Apesar das dificuldades em conseguir representar o dito panorama cinematográfico, visto que «temos festivais mais conhecidos que o nosso, nós acabamos obviamente de perder para eles, não digo os melhores, mas os realizadores conhecidos que estão há mais tempo integrados nesses festivais, o que é compreensível», revela Niemeyer, que ainda acrescenta que "a nossa inscrição também é perto de Cannes". A concorrência com os outros festivais faz com «a quota de filmes portugueses seja bastante reduzida, por isso apostamos mais no cinema de autor». Contudo, mesmo as regras são importantes na selecção dos filmes, como o "não seleccionar filmes que já passaram em Lisboa, assim, vários ficam automaticamente de fora. Não pedimos um filme inédito em Portugal, mas se o filme passou por salas em Lisboa, não tem como aceitar, é injusto para outros participantes.".

 

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A homenagem a Timor-Leste, incentivando uma futura produção

 

Como é habitual todos os anos, o FESTin homenageia um país diferente da CPLP, cabendo a honra deste ano  em Timor-Leste, um anfitrião que infelizmente não terá nenhum filme de sua produção representado na programação. Não por decisão da organização do FESTin, mas pelas dificuldades de produção cinematográfica do país, que vai desde o muito escasso até ao nulo. "Mas nem é por isso que podemos deixar de o homenagear" frisa Niemeyer, enquanto destaca o tributo programado ao país com os documentários Guerra e um Pouco de Paz, sobre o líder revolucionário José Ramos Horta, e Fraternuras, sobre questões identitárias e sociais de um país num documentário que «foi feito por uma portuguesa [Maria João Coutinho] que também vai comandar uma mesa sobre Timor". Mesa, essa, "Timor, Janela Aberta", que segundo a directora, «interrogará a dita lusofonia de Timor».

 

«Homenagear Timor é uma maneira de mostrar que estamos pendentes deles, que queremos que eles participem, e que nos ajudarão a dar a conhecer», explica Adriana Niemeyer, revelando de seguida que «inclusivé, nós fomos convidados para ir para Timor durante as comemorações dos 500 anos desde a chegada dos portugueses a Timor, que decorrerá à partida no dia 31 de Outubro. Será uma semana festiva e o Festin foi convidado para ir às comemorações (...) o Instituto Camões juntamente com a Fundação Oriente vão-nos levar às comemorações». O intuito desta visita é muito mais abrangente do que se pode imaginar: «em Timor vamos tentar fazer oficinas de cinema (...) botar uma sementinha num lugar, quem sabe, daqui a uns anos poderá começar produzir eles mesmos alguma coisa.» Para além disso, «o cinema é uma maneira fácil de poder entrar com a língua portuguesa nas escolas, com os filmes infantis, com as pessoas, para que o português torne-se numa língua mais audível.»

 

 

Um espaço documental cada vez mais rigoroso

 

Dentro da programação, Adriana Niemeyer destaca a selecção de documentários e a sua já habitual maratona: «este ano, o que me surpreende é a qualidade», e deixa para o Cinematograficamente Falando … algumas recomendações, como «um excelente documentário moçambicano [Quitupo, Hoyé!, de Chico Carneiro e Rogério Manjante]" sobre a descoberta de uma reserva de gás natural na bacia do Rio Rovuma, e "Yetu [realizado por Ulika Franco], todo um trabalho de pesquisa da música angolana, um trabalho perdido há anos, um documento de uma importância histórica. Ajuda a buscar pelas raízes dos países de Língua Portuguesa". Em relação a este panorama de documentários lusos, ainda referiu a difícil escolha que foi em optar pelos respectivos produtos cinematográficos.

 

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Uma nova secção

 

Para além da competição de longas e curtas-metragens, o FESTin Social, que "é sempre uma marca do FESTin" e o Festinha, secção direccionada aos mais pequenos, o FESTin arrisca este em lançar FESTin +, "que é dedicada a pessoas da terceira idade. Uma secção dedicada a eles, assim como uma oficina dedicada e eles". Esta que é, segundo as palavras de Niemeyer, a "aposta mais arriscada (...) a tentativa do ano", tem como principal objectivo levar ao cinema um público "acostumado a ver televisão", e contrariar assim, o senso comum que a sociedade possui do sénior, porque ao contrário do que é constantemente referido, "hoje em dia uma pessoa de 65 anos é uma pessoa muito activa". "Portugal é um país com um envelhecimento acentuado, acima dos 60 anos, mas que tem pouca oferta, em contra-partida tem muita coisa para crianças e tem poucas crianças". A razão para esta aposta é simples: "o Cinema não tem idade, tal como o Manoel de Oliveira, você pode fazer cinema a vida inteira".

 

 

A chegada de Cavi Borges

 

Cavi Borges, "o maior, mais jovem e mais arriscado produtor de cinema no Brasil", estará pela primeira vez presente no FESTin, não apenas para apresentar duas das suas obras mais recentes, Setenta, um revisitar a um dos mais marcantes episódios do Chile nos anos 70, e Um Filme Francês, sobre a produção de um filme guiado por influências da Nouvelle Vague, mas como uma confirmação de um selo de confiança entre o cineasta carioca com o festival. Segundo Adriana Niemeyer, a contribuição de Cavi Borges vem "desde que começou o FESTin", e que a sua presença está em praticamente tudo que o festival faz: "tudo tem o dedinho dele".

 

 

Paulo Coelho a fechar o FESTin

 

O filme de encerramento, Não Pare na Pista, de Daniel Augusto, somos remetidos a uma cinebiografia do célebre escritor brasileiro Paulo Coelho. "Depois de Shakespeare, é o autor mais traduzido do Mundo", explica Niemeyer, ao mesmo tempo que revela as razões da escolha do filme como última sessão do FESTin: "Goste-se ou não, Paulo Coelho não é indiferente para ninguém. Aliás, a vida de Paulo Coelho é capaz de ser mais interessante que os livros. O filme mostra a trajectória dele, que também pode ser considerado um exemplo de vida, já que levou com tantos nãos e mesmo assim continuou a lutar". Como veredicto, "é um filme dinâmico e divertido sobre uma figura incompreendida."

 

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publicado por Hugo Gomes às 08:32
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4.4.15

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Cinematograficamente Falando … em parceira com o FESTin: Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa tem para oferecer cinco convites duplos para sessão de abertura da 6º edição do FESTin, o qual será projectado o filme O Vendedor de Passados, de Lula Buarque de Hollanda  (ver trailer do filme aqui), a realizar no dia 8 de Abril pelas 21h30 no Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira).

 

Para o conseguir basta enviar ser um dos primeiros a enviar um e-mail com o assunto (Passatempo O Vendedor de Passados) para o endereço hugogomes9665@sapo.pt, seguido pelo nome, numero de telefone e numero de Cartão de Cidadão / BI  e a resposta correcta da seguinte pergunta:

 

                                                                                                                                 

O actor Lázaro Ramos esteve recentemente nomeado para o Prémio Sophia de Melhor Actor Principal em que filme ?

 

  1. Os Gatos Não Têm Vertigens
  2. O Grande Kilapy
  3. A Vida Invisível

 

 

NOTA

*os vencedores serão notificados por via e-mail

*os convites devem ser levantados até uma hora antes do inicio da sessão. 

* o passatempo terminará às 12h00 do dia 8 de Abril

 


publicado por Hugo Gomes às 20:34
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30.3.15

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Lázaro Ramos confirma a sua presença na 6ª edição do FESTin: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa (8 a 15 de Abril), o qual apresentará a sessão de abertura, que será marcado pela projecção do filme O Vendedor de Passados. O actor brasileiro desempenha o papel de um homem que ganha a vida "fabricando" passados para quem decide um novo presente.

 

Na mesma sessão estará presente José Agualusa, o escritor angolano do homónimo livro que serviu de base para o filme dirigido por Lula Buarque de Hollanda.

 

Recordamos ainda que Lázaro Ramos encontra-se actualmente nomeado a um Sophia, prémios atribuídos pela Academia Portuguesa de Cinema, na categoria de Melhor Actor, graças ao seu desempenho em O Grande Kilapy, de Zezé Gamboa (que reúne um total de 12 nomeação aos respectivos prémios), curiosamente foi o filme de abertura da 4ª edição do FESTin, em 2013.

 

 

 

Ler Críticas Relacionadas

O Grande Kilapy (2012)

 

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FESTin 2015: Timor-Leste, Rede Globo e Paulo Coelho!

Os Gatos Não Têm Vertigens lidera nomeações dos Sophia!

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:01
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22.3.15

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O FESTin -  Festival Itinerante em Língua Portuguesa vai regressar ao Cinema São Jorge, Lisboa, já no próximo mês de Abril, mais concretamente entre os dias 8 a 15, enchendo o Cinema São Jorge com mais de 85 produções provenientes dos noves países que compõem a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

 

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Esta 6ª edição terá como país homenageado, Timor-Leste, o qual em sua honra será providenciado um debate, "Timor, Janela Aberta", que servirá como um olhar ao "horizonte" deste país em plena evolução, e a exibição de dois filmes, Fraternuras e o documentário Guerra e um Pouco de Paz, que segue a vida do líder revolucionário e Prémio Nobel da Paz, José Ramos Horta. Seguindo os passos da edição anterior, o FESTin continuará com a iniciativa do país convidado, sendo assim, a Argentina é o novo anfitrião, sucedendo a França da 5ª edição. Entre os filmes que correspondem a secção, destaca-se El Crítico, o sucesso argentino que nos remete à homónima profissão que tem tecido certo amores e muito mais ódios.

 

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A actriz Valéria Carvalho será a apresentadora do festival que abrirá com a produção brasileira Vendedor de Passados, de Lula Buarque de Hollanda. Baseado num livro do escritor angolano José Eduardo Agualusa, o filme protagonizado por Lázaro Ramos e Alinne Moraes nos remete a um homem especializado em construir passados para que os seus clientes possam viver um presente devido. Como encerramento, o escritor Paulo Coelho, conhecido no nosso país como autor dos sucessos de O Alquimista e Veronica Decide Morrer, será alvo de um controversa biografia, Não Pare na Pista: A Melhor História de Paulo Coelho, com o actor Júlio Andrade na pele do celebre escritor.  

 

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Uma novidade nesta nova edição do FESTin é a Homenagem à Rede Globo, o famoso estúdio brasileiro não é apenas a "fábrica de novelas" pelo qual é categorizado em Portugal, mas sim uma pretensiosa rede de produções cinematográficas, todas elas descritas com um profissionalismo técnico e produtivo. Na programação deste curioso olhar pelo mundo da Globo Filmes, está agendado  o debate “Cinema x Televisão" que terá como participantes o director da respectiva produtora, Edson Pimentel, o director da sede portuguesa, Ricardo Pereira, o apresentador de televisão da RTP Mário Augusto, produtor e realizador brasileiro Cavi Borges e por fim o director da distribuidora Cinemundo, Nuno Gonçalves.

 

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Os mais novos, assim como os mais velhos terão lugar na programação do FESTin. Os primeiros poderão beneficiar com o Festinha, uma selecção cuidada de longas e curtas metragens, enquanto que para a terceira idade é dirigido o FESTin sem Idade, onde serão apresentadas quatro curtas-metragens que tem como temática, questões emocionais que ditam a realidade dos idosos. Como é habitual as sessões de Competição, quer de longas e curtas-metragens, quer de ficções ou de documentários, e a Mostra de Inclusão Social se manterão.

 

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Por último e não menos importante, a presença de duas longas-metragens portuguesas na programação. Lura, de Luís Brás, a história de um homem que tenta fugir, sem êxito, do seu passado, e Porta 21, do realizador de Além de Ti (que teve estreia na 3ª edição do FESTin), João Marco, uma obra de contornos de film noir.

 

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24.4.14

Um pecado no Cinema Português!

 

Encontra-se de momento a surgir uma nova vaga de cineastas. Cineastas esses, que pretendem assumir um papel de messias na exigência do público português e segundo os seus "bravos" bramidos, resgatar o cinema nacional da escuridão dos elitistas e puristas "intelectuais". Não os vejo com bons olhos, confesso. A questão aqui não é o aparecimento de sangue novo na industria (ou arte, como quiserem chamar), é o facto desta "juventude" não levar consigo a bagagem necessária para ser um cineasta. Pior, chegam mesmo a ignorar as raízes. É triste saber que o cinema português é deixado ao abandono, atacado e renegado vezes sem conta por uma geração que se diz rebelde, mas que quando chega a hora da verdade consegue resultados meramente lastimáveis e inaptos. Mas para compreender o que quero dizer deveremos seguir para a génese do problema, a falta de educação no campo da 7ª Arte (há cada vez mais alunos a ir para cursos de cinema que não vêm filmes e se vêem ficam-se pelo comercial norte-americano sob fórmulas), a ausência de exigência pessoal e a perda da veia artística. Aliás, estamos num país que cada vez salienta e aponta arte como um bem exclusivo para snobs ou presunçosos intelectuais.

 

 

Sob esse gesto, o de apontar, criticar e acima de tudo abjurar as origens cinematográficas é uma tendência cada vez mais comum nestes "novos" cineastas, que parecem não fazer cinema, mas sim videos para mais tarde serem publicados na internet. Não sei se este é o caso do realizador Luís Diogo, mas Pecado Fatal é isso, um embuste. Vende-se como algo irreverente, "um filme português para quem não gosta de cinema português" para depois "esbarrar" na maior das fragilidades do nosso cinema: a falta de vontade, principalmente em soltar-se das amarras académicas, ou seja, de seguir uma esquematização de planos agendados, implantados, sem que haja algum rasgo de desveneração a esse processo mecânico ou uma visão original. O que vemos aqui é algo semelhante ao que acontece a um mero estudante a realizar um enésimo exercício académico e sob a constante avaliação dos professores. Por outras palavras, o filme não possui a versatilidade de um cinema que o seu marketing tenta descaradamente vender. Ao invés, assistimos às aplicação das matrizes ensinadas e revistas em cursos e licenciaturas de cinema. Não existe um "outside the box", existe sim a reprodução dos modelos primários e de influências televisivas, o seguir do livro de instruções da planificação para que nos últimos 20 minutos tudo ceda à câmara tremida e nervosa (felizmente com o efeito necessário no espectador, mas não nesse sentido).

 


Sim, poderá haver a desculpa de que Pecado Fatal é um filme de baixo-orçamento, o qual o realizador pagou inteiramente do seu bolso. Isso sim é um feito louvável que demonstra ousadia na industria, mas nada justifique que o cinema em questão seja por via do amadorismo. Como consequência, temos um argumento (escrito pelo próprio) que não é mais que uma colagem incoerente e involuntariamente risível de diversas intrigas novelescas e a acrescentar a isso há ainda uma incapacidade de gerir uma narrativa e acentuar uma carga dramática. Aliás, falando em ênfase dramática, o filme de Luís Diogo parece forçadamente inserir um conflito interno dos seus personagens, sem que com isso transpareça nos desempenhos dos seus actores, vazios e unidimensionais, como os seus respectivos personagens, com Sara Barros Leitão a tornar-se na rainha do "overacting" (aqui provando que Luís Diogo chega a ser melhor realizador do que diretor de actores). Por fim, este filme de embaraços é ainda recheado de diálogos infelizes, sem naturalidade e de uma abordagem brusca e demasiado gratuita, com os atores sem a energia necessária para os proferirem.

 

 

Em Pecado Fatal não existe aqui algo que se possa chamar verdadeiramente de cinema. É um exercício académico que não faz jus à sua frase propagandista de "(...) para quem não gosta de cinema português". Podemos até revoltar-nos com os autores conformistas à espera dos subsídios e dos filmes "para amigos", mas não é com este género de obras que combateremos isso. Aliás, são produtos como estes que me fazem temer pela próxima geração de cineastas, mas isso é outra conversa."Toda a gente julga toda a gente"

 

Filme visualizado no FESTin 2014: Festival de Cinema Itinerante de Língua Portuguesa

 

 

Real.: Luis Diogo / Int.: Sara Barros Leitão, Miguel Meira, João Guimarães

 

 

2/10

publicado por Hugo Gomes às 21:18
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