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16.3.17

Alain+Guiraudie+Staying+Vertical+Rester+Vertical+w

Chamam-lhe provocador, e não é por menos. Os filmes de Alain Guiraudie apostam na naturalidade das coisas, inclusive no natural estado em que a sexualidade é traduzida no ecrã. Apresentando agora, Staying Vertical (Rester Vertical), o seu mais recente trabalho que chegou aos cinemas portugueses, conserva tudo o que esperávamos da sua arte. Aquela, que se pode considerar a arte de provocar. Através do seu novo filme, o Cinematograficamente Falando … tenta desmistificar o homem por detrás da obra.

 

Novamente se verifica em Staying Vertical, existe um certo "eu" cómico nestas tramas?

 

Penso que o humor é muito importante. O porquê de importante? Porque por vezes gosto de rir, e uma boa gargalhada traz uma certa ligeireza ao tom dramático e até mesmo trágico. O humor fundido com o drama, é um equilíbrio que procuro com o intuito de interligar as pessoas aos enredos.

 

A sua filmografia é dotada por inúmeros elementos naturais que por si residem como uma imagem de marca. Estamos a referir os exemplos da água, o rio e outros sistemas fluviais.

 

A Natureza faz-me sonhar. Aprecio ter um certo cinema sensorial, e para tal uso elementos para o transmitirem, tais como a água, o céu, arvores e o vento. Sobretudo o vento, até porque sigo uma das indicações de Orson Welles: "o cinema é o vento e as arvores". Sou um fascinado pelo Mundo e pela Natureza em particular, cresci rodeado desta, aliás em vim do campo, por isso o meu "cinematográfico" possui um certo magnetismo com este meio ambiente. Não sei se conseguiria filmar um filme numa metrópole.

 

Como consegue consolidar esses elementos naturais com a vertente cinematográfica, sobretudo no contexto visual?

 

Para mim é difícil definir o conceito visual apropriado, porque é igualmente complicado traduzir a grandiloquência da natureza neste filme. Para isso gosto de trabalhar com a luz natural e o Sol é a melhor electricidade do Cinema. Neste filme aprendi que também a Lua consegue funcionar da mesma maneira que o Sol. Foi a minha primeira vez que utilizei o luar para iluminar os meus planos e a meu veredicto é que o brilho desta possui um certo encanto. Um encanto dignamente místico.

 

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Luz natural?

 

Sim, em todas as sequências exteriores, utilizei somente luz natural. Com a tecnologia é possível reproduzir tal efeito, mas esta é demasiado recente, por isso optei por restringir-me ao luar.

 

Outras das suas marcas autorais. À semelhança de O Desconhecido no Lago (L’ Inconnu du Lac), este Staying Vertical respeita um certo signo, onde reside algures uma criatura de que as nossas personagens temem. No caso do filme anterior, fora o siluro, neste são, evidentemente, os lobos. Estes "papões" funcionam como metáforas para algo?

 

Não é necessariamente uma metáfora, não é a representação do "papão" nos lobos em Staying Vertical nem a misteriosa criatura do L’ Inconnu du Lac, mas isso pode muito bem ser induzido consoante a nossa própria interpretação. É possível olharmos para os lobos, assim como o "peixe-gato", como um medo colectivo, eles existem e as suas auras encontram-se ligadas a fábulas e outras histórias do arco-da-velha, ou até mesmo bíblicas. Sinceramente, olho para estas criaturas e revejo-as num confronto entre a entidade real e as lendas que se encontram ligadas.

 

Neste Staying Vertical, o Alain derrubar as "paredes" que separavam a fantasia e a realidade.

 

Exacto, gosto de pensar que o cinema nasceu de algo muito concreto, realista e que aos poucos consegue entregar-nos um efeito mais próprio da fábula, da mitologia e até da fantasia. Tal como os lobos, voltando ao assunto anterior, que possuem esse poder lendário por detrás, então porque não combinar esses dois terrenos numa simbiótica combinação. Sinceramente, o cinema que detesto é aquele que se foca e que por fim se prende na realidade, e o que exibe é nada mais que isso.

 

E o conteúdo sexual? O seu cinema é característico por uma naturalidade nesse ramo.

 

Primeiramente, era algo que tentava fugir. Só que nos últimos anos reflecti a importância de exibir ou não exibir esse conteúdo sexual. Porque haveria de não mostrar a naturalidade dessa temática? Perguntava a mim próprio. Se é algo importante para as nossas vidas, porque não mostrá-la no ecrã.

 

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O que pretende com essa procura?

 

Uma nova linguagem sexual. Por exemplo, quando filmamos, procuramos novas áreas para explorar e no Cinema estamos bem atrás da literatura, na questão de como devemos mostrar a sexualidade.

 

Para si, existe alguma diferença entre o filmar essa nova linguagem sexual e a pornografia? Qual a linha que separa esses dois universos?

 

De momento é me difícil definir uma fronteira para mim mesmo. O grande obstáculo para mim é realmente encontrar actores que possam levar do início ao fim as referidas cenas, sem ser ao uso da simulação. Mas penso que se pode filmar tudo, a questão deverá ser como a filmar. A abordagem no centro de tudo. Mas respondendo directamente à pergunta, a grande diferença entre a pornografia e o aceitável está nos "point-of-views". Na má pornografia, principalmente, a câmara encontra-se em ângulos impossíveis e na distância. No cinema tentamos ter um boa distância, algo que na pornografia, habitualmente, não existe.

 

Então tenta evitar a pornografia?

 

Tento evitar [risos].

 

E quanto às acusações de ser um provocador?

 

Também não tento provocar, mas constantemente questiono o porquê de não poder filmar certas coisas.

 

Como por exemplo, a sequência em que filma um parto real?

 

Tento exprimir o ciclo da vida através da edição. E através dessa tento sobretudo expor algum humor, um senso de divertimento que unicamente se consegue na edição. Nesta cena em particular o que faço é demonstrar directamente, no sentido mais literal, frontalmente o nascimento para o público.

 

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Em matéria de edição, pensa que foi eficaz e perceptível?

 

Sinto que neste filme não fui totalmente bem-sucedido, queria dar uma sensação que estava gradualmente a abandonar a imperatividade da montagem, mas julgo que os espectadores não estão cientes perante isso. Como tal, julgo que Staying Vertical não consegui atingir o objectivo.

 

Falando em cenas, existe a sequência final em que surge por fim os nossos "papões". Como foi filmar essa particular cena? Eles são reais?

 

Foi uma cena complicada. Os lobos, sim, são reais, e devido à dificuldade desta particular sequência, tivemos que utilizar efeitos visuais em pós-produção, até porque a tarefa era perigosíssima, tínhamos lobos de um lado e cordeiros do outro. Então filmamos os animais em separado e os juntamos através da edição.

 

O significado desta particular cena?

 

É um sacrifício aludido aos contornos bíblicos, uma visão utópica de uma coabitação pacifica. A harmonia entre o lobo e o cordeiro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:34
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14.3.17

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No ano passado, num divulgado trailer de Finding Dory, era possível ver duas mulheres com uma criança, imagem essa, que instantaneamente foi deduzida como um casal de lésbicas. A homossexualidade iria por fim entrar no universo Pixar, um prenuncio que suscitou euforia para a comunidade LGBTQ e profecias de destruição moral por parte do leque mais conservador. Até à sua estreia, Finding Dory usufrui deste tipo de publicidade, positiva ou negativa, consoante a perspectiva e ideologia de cada um. O resultado foi, simplesmente, fogo de artificio, as duas personagens nada de relacionado davam a entender. Para algumas publicações e órgãos de comunicação, a oportunidade foi vista como um total desperdício.

 

Um ano depois, não propriamente no seio Pixar, mas nos estúdios Disney, o anúncio de por fim, uma personagem gay neste Universo, levantou, igualmente, muitos festejos como também reacções espontaneamente negativas em relação à nova versão de The Beauty and the Beast (A Bela e o Monstro). Desde a boicotes, censuras em cinemas de Alabama (sim, territórios norte-americanos!), alterações da classificação etária em território russo, adiamentos na estreia em alguns países como a Malásia, de forma a conseguir cortar a respectiva sequência, ou seja, o Mundo ficou de pantanas ao ter conhecimento numa persistência homossexual nas produções dirigidas a famílias.

 

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Será isto uma ameaça real aos velhos valores morais, ou tudo se deve ao facto de vivermos num Mundo cada vez mais governado pelo populismo e por mentalidades arcaicas? Que perigo encontraremos numa personagem destas num filme orquestrado para uma vasta gama de audiências? Caros leitores, antes de mais, não existe qualquer perigo nisto. Mais uma vez, a oportunidade foi desaproveitada, a dita cena "homossexual" é vista por breves segundos e utilizado como um veículo cómico (quantas comédias é que utilizam a homossexualidade como gag e são devidamente aceites em sociedade conservadoras?), provavelmente de forma a não prejudicar o frame-to-frame que o filme ousa em assumir-se. O veredicto é que até nesta vertente de ser avant-garde do cinema familiar, A Bela e o Monstro converte-se igualmente conservador e reservado nesta matéria.

 

Sendo assim, a Disney provou ser capaz para tocar no tema, e sem precisar de grandes anúncios, veja-se por exemplo na chuva de beijos num segmento da série infanto-juvenil Star Vs the Forces of Evil (ver abaixo), que sim, passou na televisão e não usufrui de igual mediatismo.  

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:08
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Há dois anos atrás, na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, um filme croata emocionou o público com uma abordagem criativa e romântica do conflito dos Balcãs. É um enredo que prolonga-se por mais de trinta anos, jogando-se com encarnações e momentos dignamente shakespearianos. Esse filme foi Zvizdan, por cá sob o título de Sol de Chumbo, que acabaria por vencer o prémio de Júri de tal secção.

 

O Cinematograficamente Falando … falou na altura com Dalibor Matanic, o realizador assumidamente optimista que parece figurar-se numa nova e ascendente geração que promete fazer um cinema activista, mas sobretudo de carácter urgente e moralista.

 

Ao ver o seu filme temos a sensação que o Dalibor é um homem romântico.

 

Sim, mas penso que se deveria antes dizer que sou um optimista. Neste assunto é o meu ponto de vista, a minha posição e o filme sou eu, é tudo aquilo que vejo à minha volta. A minha família sempre me disse: "que as pessoas metem em primeiro lugar as suas energias mais negativas, como o ódio, ao invés de outros sentimentos como o amor e o afecto".

 

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Como nasceu a ideia para este filme?

 

Curiosamente, a ideia veio da minha avó. Cresci com ela e ela foi para mim um poço de amor incondicional, mas à medida que ia ficando mais velha começou a repetir o mesmo conselho "por favor arranja uma rapariga que não seja sérvia". Isto é absurdo, alguém que te dá todo o amor na tua vida e ao mesmo tempo é capaz de interditá-lo. Isso fez-me pensar no porquê que estas boas pessoas estão infectadas com este elemento de ódio, ou por vezes, presas. Por isso, este filme funciona como um "gatilho" de resposta a esses sentimentos, e demonstrar como é possível apostar no oposto.

 

Digamos que este é um filme activista?

 

Sim, mas no filme tentei ser gentil na temática, mesmo assim poderá suscitar algumas reacções negativas para algumas pessoas com ideias fundamentadas. Para além da gentileza, tentei transparecer uma certa disposição, como um espelho, que reflecte-as e que as confronta com o seu próprio reflexo.

 

Mas porquê este formato: 3 histórias, 3 décadas diferentes e 2 actores?

 

Queria transmitir às audiências uma precaução de que o destino é sempre o mesmo, uma sensação de ciclo repetitivo e foi com esse intuito que utilizei os mesmos actores para personagens diferentes. Porém, com esse processo tentei esclarecer um ciclo onde as cargas negativas vão-se esmorecendo conforme o destino.

 

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Como preparou os seus actores para um ciclo repetitivo, e ao mesmo tempo divergente, de papeis?

 

Eu não sou do tipo que gosta de explicar tudo, a maneira como se deve agir, o sorriso, o olhar. Nada disso. O que pretendia aqui era pequenos ou até pormenores invisíveis entre personagens. Trabalhamos muito e por muito tempo para poder encontra estes pequenos itens que nos levam a diferenciar personagens, não pretendia diferenças discrepantes entre elas, queria transmitir a sensação que apesar de diferentes e de viverem em décadas distantes, estas eram unidas, como algo hereditário, a um só ser, aquela energia continua. As minhas personagens possuem uma ideia que habita dentro delas, não exibindo-as como parte da sua estética. Algo comparado ao subconsciente.

 

Estes eram os atores com quem inicialmente pensou em trabalhar? Como os escolheu?

 

Tenho orgulho de ter no meu elenco Tihana, o qual considero ser uma das melhores actrizes croata da sua geração. Já nos conhecíamos há anos e por isso a adaptação foi tranquila. Claro que tive que executar um casting para as personagens mais velhas e sobretudo para o protagonista masculino. Foi então que encontrei Goran Markovic, que foi perfeito para o papel.

 

Muita da imprensa afirma que o seu filme poderá se tornar no mais influente e conhecido filme croata. O que sente acerca destas afirmações?

 

Sou pacifico em relação a isso [risos], quando estava a filmar o filme, depositei nele alguns dos meus sentimentos e em Cannes apercebi-me que essa energia está de certa forma estampada nele. Mas não é só as referências croatas, julgo que todo o leste precisa de filmes como estes. Um cinema que aborda estes mesmos medos, fantasmas e temas. Actualmente, surge entre nós uma geração de jovens com um tamanho ódio instalado no coração, eles odeiam tudo, por isso, é importante que exista este tipo de filmes e que esta mesma geração os veja e, acima de tudo, sejam confrontados por estes.

 

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Em relação ao título. Porquê High Sun (título internacional)?

 

"High Sun" (Sol ascendente) é quando o Sol está no pico, e ele ilumina-nos deixando a nossa sombra saliente no chão, como tal existe uma espécie de reflexão, ou por outras palavras, um confronto entre o iluminado e o fruto dessa iluminação. É como olharmos para nós próprios, mas sob a influência de algo acima da nossa compreensão.

 

Novos projectos?

 

Este Zvizdan será o início de uma trilogia, o qual apelido de a trilogia do Sol. Com esta saga tentarei esclarecer os aspectos sentimentalmente positivos como negativos, um embate entre a Humanidade e as energias negativas que habitam entre nós à séculos. O meu próximo capítulo terá como título "Down Sun", como uma Aurora, o qual tentarei estabelecer sentimentos próximos do luto.   

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:55
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3.3.17

Land+Moon+Mal+De+Pierres+Red+Carpet+Arrivals+YJR6e

O "amour fou" (amor louco) de Marion Cottilard levou-a a ser uma das principais candidatas ao prémio de Melhor Interpretação feminina no Festival de Cannes de 2016. Apesar de não ter vencido, a mais requisitada actriz francesa do momento, ofereceu-nos uma personagem fascinante, perdida num romance, algures entre o sacrilégio e o sagrado, acidentalmente estampada na realidade e na fantasia. Para dirigir uma actriz deste calibre foi preciso uma outra actriz, Nicole Garcia, vindo da velha guarda do Cinema "gaulês". Uma interprete que descobriu um outro amor para além da representação, a paixão da realização e do desdobramento das personagens que parecem ganhar vida no grande ecrã. O Cinematograficamente Falando … falou com a mulher por detrás de Mal de Pierres, a adaptação do bestseller de Milena Agus, um desafio às próprias convenções do romance estabelecido.

 

Porquê a escolha do livro de Milena Agus? O que fascinou nesta obra para a adaptá-la?

 

Sinceramente não sei. Quando comecei a ler o livro, apenas o fiz com o prazer da leitura e não no intuito de procurar o meu próximo filme. Foi recomendado por um amigo meu, aclamando que seria obrigatório "ler este livro de 2006". Então fiz, comecei a folheá-lo no Aeroporto de Paris e o terminei durante o meu voo para Marselha. Admirada com esta experiência, corri logo em busca dos direitos da obra. Queria adaptá-lo para o grande ecrã e queria ser eu a fazê-lo.

 

Havia algo neste livro que me dizia muito, provavelmente o facto da protagonista ser uma mulher que pensa que todos os outros a recusam, cuja mãe constantemente a apelida de "louca", chegando a fechá-la num hospital psiquiátrico e tudo. Mas no fundo, é uma mulher forte e selvagem, e essas características assustavam as restantes pessoas. Porém, mantinha uma certa fragilidade. Porque ela procurava algo sexual e sagrado. Para ela, como para mim, encontram-se no mesmo patamar [risos].

 

Mas ela conhece que tais oposições existem no seu todo, porque depara com tais descrições na literatura, nos livros que lê, assim como na vida.

 

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Marion Cottilard foi a sua primeira escolha para o papel? Imaginava-a como a protagonista de Mal de Pierres?

 

Determinada a adaptar o bestseller, mentalizei-me que teria que ter a melhor actriz para começar. Teria que ser capaz de encarnar este mistério, algo que a própria ainda não havia explorado ainda, possuir um certo carácter indomável e ser, sobretudo, dura. Não cair no erro da melancolia e da doçura, até porque existe na personagem um desejo ardente que a mantêm forte. Então imaginei Marion Cottilard. E o resultado está à vista, ela conseguiu captar isto que referi nela, assim como muito mais. Um toque de sensibilidade humana. Vi nela a fazer algo idêntico como fizera na sua interpretação de Edith Piaf [La Vie en Rose], que fora um desempenho magistral por parte dela.

 

Acredita, que como realizadora, encontra-se melhor em cada filme?

 

Sim, acredito, assim como acreditava que no meu filme anterior, Un Beau Dimanche, também estaria a aperfeiçoar-me. Estou a melhorar no contexto da direcção, assim como na maneira de contar uma história.

 

Nicole Garcia começou como actriz, mas agora parece ter abandonado o cargo para dedicar-se com mais tempo à realização. Deseja voltar a actuar?

 

Continuo a ser uma actriz, mas como dedico demasiado tempo na realização, o qual não sobra muito para a actuação. Mas continuo a ser uma actriz.

 

Ainda como actriz, trabalhou com alguns dos mais influentes realizadores do cinema francês, tais como Renais, Rivette, Tavernier ou Lelouch. Aprendeu alguma coisa com eles acerca da realização, ou seguiu algum conselho destes para esta arte?

Não. Porque quando era actriz, era o tempo todo somente actriz. Não tinha o desejo de seguir a realização. Aliás, nunca passava pela cabeça que um dia seria realizadora, nada disso. Tudo começou quando filmava uma curta-metragem, durante as minhas férias. Bem, mais um filme caseiro, uma pequena brincadeira, mas quando comecei a editar este pequeno filme, tive então a revelação. Foi na edição que me fez gostar do trabalho de realização. E foi quando estreei a minha curta em Cannes, senti-me determinada em elaborar a minha primeira longa-metragem.

 

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Mas voltando à questão inicial, nunca recebi nenhum conselho, nem nunca aprendi com nenhum dos realizadores pelo qual eu trabalhei anteriormente. Tudo nasceu do meu instinto.

 

E como dirige os seus actores? Utiliza a sua experiência como atriz para os coordenar?

 

Apenas dirijo os meus actores nas duas primeiras semanas, falo com eles, dou-lhe conselhos, exponho aquilo que pretendo da personagem, mas depois o desenvolvimento nasce deles. Não me intrometo na sua actuação, nem tento controlar à risca a fluidez da personagem, esta tem que ser livre, portanto, porquê colocar travões. Até porque o meu objectivo é sempre contratar (muito) bons actores para os meus filmes. Pessoas capazes de dar vida às personagens que imagino.

 

Em relação a novos projectos?

O meu próximo filme será uma história contemporânea decorrida nos anos 50, e que remeterá o amor entre dois homens, mas não o tipo de amor "romanesco", mas sim de natureza mais negra e provavelmente com ligação a um homicídio. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:10
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8.2.17

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Já não tardava as notícias de um remake. Toni Erdmann, de Maren Ade, um dos fortes candidatos ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, vai contar com uma versão americana.


Versão, essa, que contará com Jack Nicholson como protagonista, marcando o regresso do actor, que se encontrava ausente dos grandes ecrãs há mais de sete anos. Segundo a Variety, Nicholson é um grande fã do filme de Maren Ade, tendo abordado um responsável da Paramount Pictures para adquirir os direitos da obra. Ao lado do actor, contaremos ainda com a presença da actriz Kristin Wiig (Ghostbusters).


Toni Erdmann, apresentado em Competição na última edição do Festival de Cannes, centra na história de Ines (Sandra Hüller) uma mulher de negócios de uma grande empresa alemã sediada em Bucareste, que é surpreendida pelo pai (Peter Simonischek), ausente após vários anos, que tem a persistente missão de lhe fazer feliz. Para isso cria um personagem: Toni Erdmann.


Estreia no dia 16 de Fevereiro, com distribuição da Alambique.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 02:10
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19.1.17

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A nona aparição de Hugh Jackman como o anti-herói da Marvel, Wolverine, recebe um novo trailer e sob o aviso de … red band.

 

Realizado por James Mangold, que não é um novato nas aventuras do mutante Logan (como é assim intitulado) segue um velho “Wolverine” que exilia-se na fronteira mexicana, mas que regressa ao activo após o encontro com um novo mutante.

 

Logan terá estreia mundial no próximo Festival de Berlim, em Fora de Competição. Em Portugal chegará no dia 2 de Março.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:21
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10.1.17

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Um dos filmes mais aclamados de 2016, e um dos fortes candidatos ao Óscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, Toni Erdmann, poderá contar com um remake norte-americano.

 

Por enquanto, a notícia de uma nova versão é somente especulação, mas uma previsão tendo em conta a maneira como Hollywood trabalha actualmente. A realizadora desta comédia dramática de 3 horas, Maren Ade, falou para a Bild, garantindo que uma refilmagem de Hollywood não afectaria de todo a sua visão original, chegando mesmo a sugerir uma versão mais curta e regida à pura comédia.

 

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Ade referiu ainda que "não serei eu a fazê-lo. Estou imensamente feliz pelo meu filme, pelo qual demorei cerca de 5 anos e meio a escrevê-lo".

 

Toni Erdmann, apresentado em Competição na última edição do Festival de Cannes, centra na história de Ines (Sandra Hüller) uma mulher de negócios de uma grande empresa alemã sediada em Bucareste, que é surpreendida pelo pai (Peter Simonischek), ausente após vários anos, que tem a persistente missão de lhe fazer feliz. Para isso cria um personagem: Toni Erdmann.

 

Estreia no dia 16 de Fevereiro, com distribuição da Alambique.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 22:05
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6.1.17

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Antes de ser presidente, era escritor e foi a sua paixão pela escrita que fez Manuel Teixeira Gomes lançar-se no anonimato, viajar para uma Argélia colonialista e escrever a sua mais concretizada obra-prima. Esse pedaço de História esquecida fascinou Paulo Filipe Monteiro, actor e argumentista, e através da imagem de Teixeira Gomes lança-se na aventura da sua primeira realização. Mas o anonimato não mora aqui, e o Cinematograficamente Falando … testemunhou essa autoria.

 

Sabendo que esta é a sua primeira longa-metragem, o porquê de Manuel Teixeira Gomes? O que lhe fascinou?

 

Fascinou-me em primeiro lugar este gesto desmesurado dele de largar tudo, a presidência, a sua vida elegante, a sua colecção de arte, e partir no primeiro barco a sair de Lisboa. Isso, no geral, foi o que primeiramente me fascinou. À medida que ia pesquisando, aprofundando esta história, encontrei outros factores interessantes na sua vida, uma delas foi o facto de ter sido um caso único no Mundo, o de um escritor de literatura erótica a chegar à presidência de uma Nação. O sensualismo da sua obra, assim como a proclamação das suas raízes, algarvias com ligação ancestral à cultura árabe, a sua paixão pelo Magred [região noroeste da África] que vem em contraponto com a actual demonização do Islão, o seu percurso como Presidente, que foi bastante importante, tendo sido uma figura politica reformista que lutou contra a especulação da banca, a crise financeira (tema actual).

 

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Como funcionou o casting? Porquê Sinde Filipe na pele de Manuel Teixeira Gomes?

 

Para além de ser também actor, conhecer os meus colegas, e gostar de dirigi-los, faço apostas e pelos vistos, ganhei as todas. A nível de interpretação, Sinde Filipe está alto, e eu queria apostar numa nova linguagem, uma nova dimensão, um novo estilo. Com Zeus vão ver actores que por exemplo, toda a gente conhece das novelas ou dos palcos de teatro, duma outra maneira.

 

Paulo Filipe Monteiro é também o argumentista de Zeus, tentou evitar a esquematização das biopics convencionais?

 

Pois, eu já escrevi sete longas -metragens, para outros. Aqui, o que consistia era o desejo de fazer um filme em três blocos, como The Hours ou até Magnólia. Zeus presta-se a esses mesmos blocos. O bloco da presidência, escuro e claustrofóbico, em contraponto com o da Argélia, bastante solar e luminoso, e ainda, o romance de Maria Adelaide, que ele escreveu aos 77 anos no seu "quartinho" de hotel. Portanto, o filme vai saltando entre os três e penso que os espectadores vão gostar disso.

 

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Manuel Teixeira Gomes é um homem interessado quer na politica, quer no meio artístico. Como foi consolidar esses dois "mundos" que parecem antagonizar um ao outro?

 

 

Ter um homem na política que é um escritor, para além de mais, ser um esteta, um interessado em artes plásticas, na pintura, um coleccionador de arte, faz com que se acha um casamento natural, mais fácil em relação à Arte. Se tivéssemos um presidente, ou até mesmo um primeiro ministro assim, teríamos uma grande afinidade entre a politica e o meio artístico.

 

Zeus apresenta uma época pouco retratada no cinema português, e até mesmo um pouco esquecida dos nossos manuais de História. Com a cada vez mais adesão ao período salazarista em relação a adaptações cinematográficas, acha importante explorar outros episódios da nossa própria História?

 

Sim, se repararmos no cinema dos EUA, eles tem menos História, mas a exploram até à exaustão. Quantos filmes existem sobre o Vietname? Nós temos menos filmes históricos, provavelmente por serem de produção cara, e difícil em termos de recursos reconstruir essa visão de época, mas nós temos muito material para explorar, para filmes. Não pensem que vou ser a fazê-los, eu não me vou especializar em filmes de época [risos]. Fiz este, mas o próximo projecto que tenho na cabeça é absolutamente contemporâneo.

 

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Quer falar mais sobre esse novo filme?

 

É um projecto que tenho na minha mente, veremos se tem financiamento, e é previsto ser um filme bem contemporâneo, moderno, experimental, prometo "rasgar".

 

Para além de realizador, Paulo Filipe Monteiro é actor. O facto de ter sido um interprete o ajuda na direcção do seu próprio elenco?

 

O facto de ser actor permite-me compreender os actores, como tocá-los, chegar a eles, como conseguir deles certas coisas, ou seja, esses dois mundos complementam.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:18
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Zeus, a primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro, apresenta-nos a história real de um escritor ascendido a Presidente da República, que passado dois anos de mandato vira as costas ao máximo cargo para viver no anonimato numa Argélia colonial. Esta é a biografia de Manuel Teixeira Gomes, um homem, actualmente, esquecido da memória dos portugueses, que encontra nova vida na interpretação de Sinde Filipe. Cinematograficamente Falando … falou com o veterano actor, um dos mais queridos da sua arte, demonstrando o quanto sabe sobre esta desafiante personagem.

 

O que lhe interessou em Manuel Teixeira Gomes?

 

Manuel Teixeira Gomes interessou-me por vários factores, como cidadão, exemplar devo dizer, como diplomata, como presidente, mas sobretudo pelo seu lado de escritor. Esse seu lado é grande, pelo que deve ser lido, e irá ser lido.

 

Mas actualmente a obra de Teixeira Gomes encontra-se um "pouco" esquecida.

 

Não, muito esquecida, é por isso que este filme é importante. Para trazer à memória dos portugueses esta personalidade tão rica e de grande relevância literária.

 

Fez pesquisa sobre a personalidade ao integrar o elenco de Zeus?

 

Obviamente que fiz uma pesquisa sobre a personagem. Contudo, devo dizer que já tinha conhecido desta importante figura, mas foi durante a pesquisa e a sua encarnação que tentei descobrir mais e mais sobre Manuel Teixeira Gomes. Tentei impregnar a personagem, espero ter feito justiça.

 

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Ao longo da rodagem, descobriu algo de novo em Manuel Teixeira Gomes que não havia encontrado durante o seu processo de pesquisa?

 

Não lhe consigo dizer, tenho a noção de que as biografias que li fora devidamente esclarecedoras e clarificadoras quanto à sua personalidade. Não senti, de todo, que ao longo filme tenha feito alguns importantes descobertas. Julgo que não tenho acrescentado muito sobre a sua figura.

 

O período que Manuel Teixeira Gomes integra, é um período esquecido entre os portugueses. Até mesmo nos manuais de História. Acha importante explorar no cinema esta subestimada época? Visto que exploramos em demasia o período salazarista.

 

Da mesma forma como referi a figura de Teixeira Gomes, este filme também tem o dever de trazer à memória dos portugueses esta fatia de História pouco falada, os primeiros passos da República em Portugal. E claro, Manuel Teixeira Gomes é uma personagem, que em muitos aspectos, precisa de ser redescoberto e revalorizado nos dias de hoje. Precisamos tirá-lo da sombra.

 

Manuel Teixeira Gomes foi um homem dividido entre o seu lado artístico - a escrita - com a sua politica. Qual destes lados vingou-se na nossa História? Segundo a sua opinião.

 

 

Como escritor. Ele quando esteve na presidência não escreveu muito, aliás ser Presidente sobrepôs-se bastante à escrita. Foi como fizesse uma pausa nessa sua vertente artística, felizmente foram só dois anos. Porque a politica não o invalidou de ser o grande escritor, pelo qual deve ser reconhecido.

 

Ele sempre foi um escritor, acima de politico, mesmo na sua fase de diplomata, Teixeira Gomes não desistiu de escrever. Apenas parou temporariamente essa sua arte durante o seu cargo presidencial.

 

Novos projectos?

 

Apenas teatro, foi trabalhar numa peça que fora feita por Villaret há muitos anos, Esta Noite Choveu Prata.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:19
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14.12.16

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Afinal, o nosso vilão tem um gémeo, que decide, por fim, ressurgir das sombras. O Gru, O Maldisposto e o seu exército de Minions vão regressar em 2017.

 

O novo filme será dirigido por Kyle Balda e Pierre Coffin e contará com as vozes de Steve Carell, Kristen Wiig, Russel Brand e Trey Parker (criador de South Park), este último como o novo vilão, Balthazar Bratt.

 

Nos cinemas portuguesas a 29 de Junho.

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:49
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23.11.16

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Premiado com o Prémio de Realização na 69ª edição do Festival de Cannes, Cristian Mungiu apresenta Bacalaureat (O Exame), a sua última obra que remexe novamente em consciências morais e em fantasmas do regime de Ceauseascu. O filme, novamente rígido na sua natureza replicada de realismo, chega às nossas salas após uma passagem pelo Lisbon & Estoril Film Festival. O Cinematograficamente Falando … teve o prazer de falar com um dos grandes nomes da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno.

 

Como surgiu o argumento deste O Exame?

 

Foi uma combinação de vários temas. Durante algum tempo estava determinado em fazer um filme sobre o "envelhecimento", aquele que só acontece quando olhamos para trás e apercebemos que esse mesmo passado não nos agrada, assim encaramos o futuro com outro objectivo. Na altura, não encontrei automaticamente a história certa.

 

Em simultâneo, reflectia sobre a paternidade, a educação, nas minhas crianças e foi então que me surgia em mente, questões como: "o que posso dizer aos meus filhos sobre a sociedade que vivemos? Qual o tipo de futuro que queremos para elas e pode ser proporcionado?" Depois, procurei a melhor forma de expor a sociedade actual, uma relação que compromete-se através de uma sociedade corrosiva. Todos estes temas borbulhavam na minha cabeça, a partir daí decidi combiná-las num só filme, porém, como não tinha a narrativa nem a temática escolhida, peguei no meu computador e lancei-me numa pesquisa por inúmeros artigos de acontecimentos que marcaram a nossa sociedade nos últimos 5 anos.

 

Foram notícias, jornais, revistas, o qual rabisquei, cortei e colei, até conseguir criar um argumento que falasse de todos esses problemas sociais e que tivesse uma certa ligação real, mas que não fosse totalmente baseado em factos verídicos. Como tal nasceu O Exame, um filme que fala sobre o futuro, o crescimento e as nossas próprias decisões.

 

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Bacalaureat

 

É possível educar as nossas crianças com uma educação diferente daquela que obtivemos?

 

Não sei, foi graças a essa questão, pelo qual, eu fiz este filme. Através desse dilema tentei fazer com que O Exame me respondesse. Será possível que o Mundo mude através de uma nova geração, sabendo que essa mesma é educada pelos mesmos ideais e valores de uma geração anterior? Sinceramente, não sei. Só sei que tal não é racional, para o Mundo realmente mudar, era preciso que essa nova geração afastasse dos seus antecessores, teria que haver um espaço ininterrupto que pudesse quebrar a corrente. Quando falo nisto, não digo que devemos negligenciar os nossos filhos, não, teríamos que sim educá-las consoante o mais adequado para uma eventual mudança, e não para o que achamos correcto. Obviamente que com isto não quero afirmar que sou um mau pai, porque uma coisa é fazer da maneira mais racional possível, a outra é comprometer as nossas ligações emocionais com as pessoas que mais amamos.

 

Penso também que fiz este filme sobre as pessoas que são incapazes de lidar com as situações de forma racional, que se deixam levar pelas emoções. Até porque não somos personagens, somos seres humanos que dificilmente acreditamos ou questionamos aquilo que nos acontece em vida.

 

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Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus e Cristian Mingu

 

O Exame, é no geral, uma reflexão sobre os limites da paternidade?

 

Sim, pode ser um filme sobre os limites da paternidade, sabendo que com a paternidade surgem vários dilemas, muitos deles, não com as respostas correctas. Sabes, por vezes é fácil, enquanto pais, causar danos às nossas crianças, mesmo que isso não seja totalmente intencional, como o encarar a sabedoria como algo hereditário, que passe de geração a geração. É evidente que mesmo com a educação atenta dos nossos pais, praticamos as nossas próprias decisões e cometemos os nossos próprios erros, mas é ao tornar-nos pais que afrontamos a ideia de que podemos realmente moldar os nosso filhos consoante a nossa "educação", ou seja, acabamos por cometer os mesmos erros que os nosso pais, e assim sucessivamente. É uma corrente.  

 

Educamos as nossas crianças tendo como base a educação que os nossos pais nos deram, chegando mesmo a afirmar as mesmas afirmações que os nossos progenitores proclamaram certo dia. Pensamos "nem acredito que estou a dizer isto?". Obviamente, que também pensas como seria bom que as coisas acontecem desta maneira, mas ao mesmo tempo sabemos que não vai seguir o previsto.

 

Se nós estamos a preparar as crianças para a vida real, temos que parar com o habitual discurso moralista de "não mentir", "não roubar", "não trair", "não pisar os outros", esses moldes de doutrinas são, de certa maneira, vistas como ideais de um "falhado nesta sociedade", por outro lado, ensiná-las a ser lutadoras poderia, de certa forma, alterar essa mesma. Mas isso cabe a nós decidir, quais são os verdadeiros limites da paternidade. Conforme seja a nossa decisão, andamos de "mãos dadas" com as alterações da nossa sociedade.

 

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Bacalaureat

 

Em O Exame, ficamos com a sensação de que a corrupção, por mais pequena e involuntária que seja, é um acto profundamente natural do Homem moderno.

 

Para responder a essas questões, eu cito inúmeras vezes a realidade, sem necessariamente julgá-la, nem explicá-la por demasiadas palavras. Mas julgo que essa corrupção é muitas vezes confundida com o compromisso, uma espécie de mecanismo de sobrevivência, uma adaptação aos obstáculos que nos surgem, mas ao mesmo tempo, quando somos pais, temos que carregar este "fardo". É essa a diferença do mundo idealista, aquele, pelo qual, preparamos a nossa criança, e o mundo real.

 

O filme tenta investigar aos poucos esta relação, gradualmente aborda as causas da complexidade deste fenómeno [corrupção], que é algo tão fácil de julgar. O Exame diz que nem tudo isto é errado, até porque quando queremos ajudar alguém ou até mesmo combater um regime, praticamos estes actos "imorais", no entanto, os encaramos como uma espécie de luta, até porque as nossas intenções são boas. Nos dias de hoje, o regime já não é mais o inimigo número um, ao invés disso, nós é que nos tornamos a grande ameaça. Nós é que redefinimos os limites da nossa consciência moral.

 

De regresso à sua questão, julgo que as pessoas encontram-se desapontadas devido à dificuldade, ou quase impossibilidade, de mudar algo. As coisas são o que são, e é preciso imensa energia para uma pequena mudança. Quanto à mudança total, é quase "o impossível", que é apenas resolvida com soluções colectivas. O filme refere bastantes essas divergências entre decisões individuais, aquelas que fazemos para nós ou para a nossa família. A imigração é um bom exemplo sobre soluções individuais. Todavia, é necessário existir as ditas soluções colectivas, se não, o "barco" naufraga.

 

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Cristian Mingu

 

O Exame entra em paralelismo com um êxito seu, 4 Months, 3 Weeks and 2 Days onde um especifico evento abala e altera toda a personagem. É este o seu modo de narrar as suas histórias, pegar em acontecimentos que drasticamente marcam as suas personagens?

 

Não sabemos o que vai acontecer a estas personagens após o desfecho do filme. Quem sabe? Sim, eu pego em eventos drásticos que as suas personagens vivem, mas se estas vão mudar a conta disso, sinceramente, não sei responder. Julgo que isso não acontece muito na vida real e penso que nós próprios não mudamos assim tanto, mas é com as experiências que aprendemos algo. Algo sobre a vida, sobre si mesmo, sobre a situação, sobre a sociedade, até mesmo de integração. Mas julgo que tal não nos altera em longo termo, ao invés disso, algo morre em nós, perdemos algo muito próximo, e compreendemos que vivemos uma vida, e ta evento poderá ser importante, mas que só durará 3 dias, e depois regressas à tua vida.

 

Por isso, não sei realmente o que vai acontecer a estas personagens, mas o espectador deve entender que eu falo sobre as suas respectivas vidas reais. Por vezes, chegamos a entender o que vivemos através de vidas encenadas no grande ecrã.  

 

No final das sessões dos meus filmes, mais concretamente nos QaA, ouço imensas experiências vividas pelos espectadores. Ou seja, eles, de certa maneira, identificam-se com o que está retratado. É por essas e por outras que existe o Cinema.

 

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 4 Months, 3 Weeks and 2 Months

 

Então é, em derivação dessa aproximação, o motivo pelo qual os seus filmes deverem muito ao realismo?

 

 

Faço esse estilo, porque é a minha definição de Cinema. Porque acredito que o Cinema pode ajudar, não só, a conhecermo-nos, mas também a entender os outros, as nossas vidas, o nosso redor, e para isso temos que praticar um Cinema mais vinculado no realismo, apesar da vida real não ser tão espectacular, nem entusiasmante.

 

E ao seguir esse mesmo estilo, temos que ponderar alguns artifícios bem valiosos no Cinema, um dos exemplos é a edição. Na vida real não há edição, por isso, o meu Cinema tem que possuir o menor uso desse mesmo artificio, toda a cena deve ser filmada num só take. Outro exemplo é a música, não existe bandas sonoras na vida real, tal não poderá existir no meu Cinema. O que tento fazer é captar a emoção através da situação, é uma tarefa árdua, eu sei, sem a utilização desses artifícios, mas é sim que pretendo continuar a fazer Cinema.

 

As edições rápidas, as músicas que entram e saem, as cenas de acção, são tudo factores sedutores. Principalmente para quem deseja fazer entretenimento. Para os meus filmes que falam sobre as vida das pessoas, não pode existir esses meios de manipulação. Para tal, tenho que abdicar desses mesmos artifícios narrativos.

 

Por vezes eu sinto que os meus filmes adquirem um certo padrão de thriller, mas isso é a forma com que sinto em relação à vida. As pessoas estão cada vez mais stressadas, angustiados e decepcionadas.  

 

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Bacalaureat

 

É complicado filmar tudo num só take?

 

Por onde devo começar. Primeiro analiso e escolho a luz, abordo a cena e tento ver qual o ângulo que a filmar, atesto através da perspectiva que anseio contar esta determinada acção. Penso num cenário, durante a escrita, e procuro algo que corresponda ao imaginado. Se não encontro, construo-o. Obviamente que aquilo que imaginas não se aproxima da realidade, mas enquanto não houver mais nada a fazer, adaptas.

 

Depois trazes a equipa técnica, que trazem equipamentos de variados tamanhos e feitos. O Cinema é um processo bastante técnico que parece criativo. A partir daqui, posicionamos todos nos seus devidos lugares, apontamos a câmara para o ângulo desejado, e os actores decoram os seus diálogos e gestos em cenas de 10 a 15 minutos, pelo qual devem efectuar na perfeição. Todo este processo, só numa cena, demora … deixa lá ver … 20 a 40 takes.

 

É cansativo, complicado e no final do dia sentimos absolutamente exaustos, mas igualmente realizados. Todos os dias acabo por falar com cada um dos membros da minha equipa, encorajando-os para mais um round ou reparando certos pormenores. Todo os dias é uma luta, se não conseguimos filmar mais que uma cena num dia, tudo bem, alteramos o  cronograma, e recomeçamos no dia seguinte. Eu consigo fazer isto, até porque sou o produtor dos meus próprios filmes, o que me dá o direito de usufruir esta liberdade.

 

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Tales from the Golden Age

 

Quanto a novos projectos?

 

Não falo sobre novos projectos, porque nunca tenho novos projectos. Penso demasiadas vezes nos meus filmes, naquilo que fiz bem, no que correu não tão lindamente, no que foi importante referir ou o que precisa ser referido. Mas também penso nas pessoas, mais concretamente naquilo que as deprime, que as deixa angustiadas. Tento compreender as suas naturezas, as suas causas, e em consequência disso, por vezes, acabo de encontrar o filme certo, o ritmo certo e a história certa.

 

Muitos pensam que tudo se resume a direcção, mas para mim o mais relevante é o argumento. Procuro sempre o tópico, o tema e como o abordar, e como deve ser abordado.

 

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Beyond the Hills

 


publicado por Hugo Gomes às 20:36
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21.11.16

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Eis que é revelado o primeiro teaser trailer de Cars 3 (Carros 3), aquela que será a próxima produção da Disney / Pixar a estrear nas nossas salas em 2017.

 

Com direcção de Brian Fee, que fora um dos artistas gráficos da saga animada, esta terceira aventura de Lightning McQueen leva-nos ao regresso do herói às pistas de corrida, após o afastamento em consequência de uma competitiva e nova geração de corredores.

 

Estreia prevista para 15 de Junho de 2017 nos cinemas portugueses 

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:48
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17.11.16

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Chega a Portugal uma plataforma Video on Demand (VoD) dedicada ao cinema independente e de autor, o Filmin, que nos presenteia com um catálogo composto por mais 500 filmes, divididos em inúmeras secções como Novidade, Clássicos e até Cinema Português. Uma alternativa para a fraca aposta de cinema alternativo nas nossas salas, onde parece não terem lugar no circuito comercial mais tradicional, o Filmin espera conseguir converter-se num dos importantes focos para os cinéfilos em Portugal.

 

Para acompanhar o lançamento desta plataforma, o Cinematograficamente Falando … enumerou 10 propostas para usufruir no nosso Filmin. São secções, ciclos, filmes e autores a não perder.

 

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Jim Jarmusch

 

Uma colecção dos primeiros anos do realizador norte-americano, um dos mais prestigiados do cinema independente, estará à disposição do espectador. Entre os quais destacamos Para Além do Paraíso (Strangers on Paradise, 1984), a resistência de dois imigrantes húngaros em Nova Iorque,  e O Comboio Misterioso (The Mistery Train, 1988), uma comédia contada em três partes.

 

 

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Ettore Scola

 

 

Um ano depois da sua sincera homenagem a Federico Fellini em Que Estranho Chamar-se Fellini, o considerado "realizador menor" do cinema clássico italiano nos deixa com tamanha mágoa. Filmin apresentará alguns dos seus filmes mais célebres, para demonstrar de uma vez por todas que Scola nada tem de merecedor para o sufixo de "menor". Entre as recomendações, temos o poético O Baile (Le Bal, 1983) e a comédia de costumes ao extremo, Feios, Porcos e Maus (Brutti Sporchi e Cattivi, 1976).

 

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Luchino Viscontti

 

O pai do "neo-realismo" italiano. Os primeiros anos de Visconti marcarão presença no catalogo, com óbvias recomendações de Obsessão (Obsessione, 1943), considerado o inaugurador do seu estilo, Noites Brancas (Le Notti Bianche, 1957), contando com um grande desempenho do sempre carismático Marcello Mastroianni,Sentimento (Senso, 1954), que fora um dos filmes predilectos de João Bénard da Costa.

 

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Shirin

 

Um ensaio intenso no território do "fora-de-campo", onde catorze actrizes iranianas e a francesa Juliette Bincoche visualizam uma encenação teatral de Khosrow e Shirin, um poema persa do século XII. Neste filme de Abbas Kiarostami, o foco do olhar destas mulheres é invisível para o espectador, as suas faces "iluminam" esta narrativa reinventada e desconstruída através da percepção de outros.

 

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Tangerine

 

Uma das propostas indies mais faladas dos últimos tempos. Tangerine, de Sean Baker, segue duas transexuais que partem numa vingança pessoal nas ruas de Los Angeles. Filmado integralmente por um Iphone, uma das surpresas vindas do Festival de Sundance.

 

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Cartas da Guerra

 

Ivo M. Ferreira concentra nas cartas escritas por António Lobo Antunes durante a sua missão na Guerra Colonial, para criar um filme bélico onde a verdadeira guerra dá-se no intimo do seu protagonista. Um dos grandes trunfos do cinema português recente.

 

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The Raid

 

O mais electrizante filme de acção dos últimos anos é indonésio. The Raid: A Redenção parte de uma intriga simples e bastante minimalista para "crescer" como um "best of" do cinema de acção. Tiroteios, artes marciais, explosões e muita adrenalina, ingredientes principais para compor este prato pleno.

 

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Trilogia As Mil e uma Noites

 

O épico de Miguel Gomes estará presente no Filmin. Baseado num famoso livro persa, As Mil e uma Noites espelha um país sob um tremendo sufoco, onde tapetes voadores e sereias coabitam com políticos corruptos e juízas chorosas.

 

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Béla Tarr

 

A pérola do cinema húngaro, e adepto do tempo, não condensado, mas preservado em película, possui toda a sua filmografia no Filmin. Desde o seu derradeiro O Cavalo de Turim (The Turin Horse, 2011), passando pelo muito longo, mas primoroso, Tango de Satanás (Satántango, 1994) até à sua estreia, O Ninho Familiar (Családi tűzfészek, 1977), onde demonstrava um realizador sob forte vibração politica.

 

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A Regra do Jogo (La Règle du Jeu)

Datado de 1939, Jean Renoir exibe ao Mundo a sua façanha como crítico da alta sociedade francesa, nesta ácida comédia que cresceu lado-a-lado com o Cinema. Considerado por muitos como um dos melhores trabalhos cinematográficos de sempre, o Filmin dá-nos a hipótese de redescobrir ou descobrir este grande feito da Sétima Arte.

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:55
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4.11.16

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O soldado pacifista contado por Mel Gibson arrancará o 10º Lisbon & Estoril Film Festival, uma edição que apesar de destacar as últimas e aclamadas produções vinda dos maiores festivais internacionais tem como principal foco uma extensa homenagem ao franco-suíço Jean-Luc Godard. Um dos grandes impulsores da Nouvelle Vague, um amante incondicional do Cinema, pronto para construí-lo e desconstruí-lo, tem aqui a sua carreira de 60 anos condensada em somente 10 dias.

 

Mas por enquanto, o primeiro passo do festival se dará com a antestreia de Hacksaw Ridge, a história verídica de Desmond Doss, um jovem que fora recrutado para combater na Segunda Guerra Mundial, mas que sempre recusara matar ou até mesmo pegar numa arma. No final da guerra, foi condecorado inúmeras vezes por gestos de bravura e de sacrifício humano devido às suas extraordinárias tarefas como médico em pleno cenário bélico.

 

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Mel Gibson regressa a direcção, dez anos depois de Apocalypto. Acusado diversas vezes de ser explicitamente violento, o realizador decide abordar uma história de um homem ligado à paz, um homem ligado à paz, quer espiritualmente, quer fisicamente, mesmo que o filme recorra sob fortes tons bélico. Andrew Garfield (The Social Network, The Amazing Sipder-Man) foi o escolhido para interpretar Doss, numa prestação que se adivinha chegar às nomeações aos Óscares, assim como o próprio filme que tem sido encarado como a reconciliação de Gibson a Hollywood.

 

Hacksaw Ridge tem estreia prevista para dia 10 de Novembro nos cinemas portugueses.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:10
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3.11.16

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As atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial geram, por si, mil e umas histórias de horrores, intrigas passadas que poderão reflectir no nosso presente e futuro. Anne Fontaine, uma das mais populares realizadoras francesas, falou-nos do seu mais recente olhar a esse período de medo, em particular a uma história que envolve freiras, violações e tropas invasoras, um episódio ocorrido em pleno século XX, que mais parece ter saído das Idade das Trevas. A realizadora de êxitos como Coco Avant Chanel e o Mon Pire Cauchemar conversou com o Cinematograficamente Falando … sobre os ecos desta história passada no presente que vivemos, sobre a sua carreira e o gosto de filmar sem desfecho à vista.

 

Como descobriu ou donde surgiu esta história?

É uma história baseada em factos reais, sobre uma médica francesa que no seu diário relatou a situação vivida por estas freiras polacas, restringidas ao seu convento, grávidas, frutos de violações por parte das tropas soviéticas. Esta mesma história chegou a mim através de alguns produtores franceses que encontraram-na e pensaram logo em mim para transcrevê-la para o grande ecrã. Depois de ter aceitado, arranquei numa investigação histórica, aprofundei o tema desta história, uma aventura humana forte, intensa, sobre a fé, da esperança e da maternidade. Temas complexos que me fizeram crer estar capaz de transformá-lo num filme dramaticamente forte e emocional.

 

Encontramos em Les Innocentes, um breve resumo às "agressões" vividas pela Polónia durante a Segunda Guerra Mundial, visto que foi dos países mais fustigados desse período?

A Polónia foi completamente invadida e devastada durante a Guerra. Foi um país esquecido, este episódio de violações com freiras aconteceu em mais do que uma região na Polónia, muitas delas sucederam durante as invasões alemãs, e aí, muitas foram mortas. Foram ocorrências que muita da nova geração polaca não acreditava que tenha acontecido, e alarmantemente não há muito tempo. Este tipo de situações ainda hoje acontece, graças ao fanatismo que se vive em muitos países, muitos deles vivendo as suas próprias guerras. As violações são ainda consideradas uma arma de guerra muito usado nestes mesmos países.

 

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Ou seja realizou esta história a pensar na actualidade?

De que maneira podemos comportar, falar, se acreditamos em Deus ou não. Como se pode fazer uma acção comuna numa situação de "bullying" como esta? Quando fui ao Vaticano, mostrar o filme, uma pessoa muito próxima do Papa dirigiu a mim considerando que este era um filme aterrador para a Igreja. Ver este tipo de situações, que aconteceram, no ecrã e ter o conhecimento de que este tipo de violência encontra-se presente nos nossos dias. Mais de milhares de monges e freiras estavam em choque, não só porque o filme fala deles, obviamente, mas por esta ocorrência ter marcado espaço na Polónia e ainda hoje existir em diferentes regiões. Eles estavam a chorar no final do visionamento.

 

Mas apesar disso, este é um filme que de certa forma rebela contra as estruturas hierárquicas religiosas.

Foi a transgressão de uma Ordem que permitiu a ajuda neste filme, sim. Num convento como aquele, não se poderia fazer algo sem primeiro consultar a Madre Superior. Felizmente, esta freira sob esta arriscada decisão vai mudar o destino das outras devotas através de um acto de desobediência. Les Innocentes é também um filme sobre a transgressão positiva, ao viver ou deparar com situações como esta, deve-se sobretudo desobedecer, e agir da forma humanamente mais correcta.

 

Tendo em conta que a Festa do Cinema Francês dedicou-lhe este ano uma retrospetiva da sua carreira, tal evento não a faz pensar sobre a sua obra e vida profissional?

Sinceramente, não penso nada em relação a retrospectivas. Neste momento, só me interessa o meu novo filme. Até porque, estava a terminar há uma semana atrás o meu mais recente filme, o qual estava a rodar aqui, em Portugal. Por isso, não tenho a tendência em pensar muito na minha carreira. Também tive uma retrospectiva da minha obra no Vietname, o que foi estranho para mim, porque na altura era a única mulher realizadora naquele país. Agora, uma retrospectiva em Portugal … é engraçado, mas não sei o que quer dizer!

 

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Eu trabalho com a fragilidade, apesar da minha experiência, não trabalho pelo seguro. Procuro constantemente novas histórias, novos temas com que possa transportá-los para o grande ecrã. Muitos vem ter comigo e confrontam-me "mas tu já tens mais de 15 filmes e em tão pouco tempo". Para fazer um filme, como deve calcular, ocupa muito tempo. Por isso, para mim, se o significado destas retrospectivas é dizerem-me que tenho que pensar, ou repensar, na minha carreira, simplesmente não acredito. Eu não funciono assim, nem é isso que sinto.

 

Começou a sua carreira como actriz, mas afinal donde surgiu essa paixão de "passar" para o outro lado da câmara? Ser a realizadora que é hoje?

Não fui uma boa actriz, por isso não fiquei muito tempo nas actuações (risos). Julgo que é a experiência de viver através da mente de outra pessoa, da face de outra pessoa, sentimentos que não podemos expressar nós próprios. É aproveitar a nossa imaginação, mais do que na vida real, que por vezes não é tão intensa assim. A realização é como tentar capturar e trabalhar a alma humana, o mistério dos Homens, o que escondem, o que está por detrás. É algo interessante e antropológico também, trabalhar com as complexidades humanas no grande ecrã. Estas mesmas não "vivem" num papel, por isso cabe a nós, realizadores, dar-lhes vida. São estes os motivos que me fazem ligar a esta, o qual não considero um mero trabalho, mas sim, maneira de viver.

 

A sua carreira é variada em filmes e géneros. Como é que escolhe o próximo género a trabalhar?

Sou instintiva, eu faço um filme contra o meu anterior, ou seja, passo para um verdadeiramente negro e depois vou trabalhar num filme mais "light". Obviamente, que escolho cuidadosamente os meus filmes, tento comprometer-me a uma ambiguidade sexual de pessoas que estão perante situações ou sentimentos que não conseguem controlar. O que gosto mesmo é de nunca fazer o mesmo filme ou estilo que já tivesse experimentado. Gosto de descobrir diferentes formas de como fazer um filme. Quando vemos o Coco Chanel ou Two Mothers, apercebemos de interligações entre as obras, estão todos conectados, principalmente na maneira como eu trato as personagens. Mas claro, Les Innocentes é uma obra bastante distante de Two Mothers, por exemplo, mas são todas histórias acerca de mulheres.

 

Em relação a esse novo filme que terminou de rodar em Portugal. O que pode dizer sobre ele?

O meu novo filme intitula-se de Marvin, uma semi-biografia que acompanhará um pequeno rapaz dos seus 12 aos 24, oriunda de uma família xenófoba e racista, que reinventa a sua vida de forma radical. A história deste rapaz, uma personagem moderna, termina em Portugal (risos).

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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2.11.16

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Johnny Depp vai integrar o elenco da sequela de Fantastic Beasts and Where to Find Them (Monstros Fantásticos & Onde Encontrá-los), o spin-off da saga Harry Potter. De momento não pormenores quanto ao seu papel. Com argumento da própria J.K. Rowling, o filme contará com realização de  David Yates.

 

O enredo seguirá a personagem Newton Artemis Fido Scamander (Eddie Redmayne, The Theory of Everything [ler crítica]), um autor ficcional que procura e cataloga seres fantásticos, anteriormente retidas no imaginário de cada um.  Fantastic Beasts and Where to Find Them (Monstros Fantásticos & Onde Encontrá-los) decorrerá 70 anos antes da saga Harry Potter. 

 

Katherine Waterson (Inherent Vice [ler crítica]), Ezra Miller, Colin Farrell, Samantha Morton, Gemma Chan (The Double [ler crítica]), Dan Fogler, Jon Voight, Ron Perlman e Carmen Ejogo (Selma [ler crítica]) também encontram-se no elenco.

 

O primeiro filme desta nova saga tem estreia prevista para 17 de Novembro no nosso país. 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:12
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27.10.16

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O monstro de J.A. Bayona terá o privilégio de abrir a nova edição do Cine Fiesta, a Mostra de Cinema Espanhol, que se prolongará até dia 30 de Outubro nos UCI Cinema - EL Corte Inglês. O antecipado A Monster Calls (Sete Minutos Depois da Meia-Noite) é apenas o "pontapé de saída" para mais uma selecção de grande êxitos do cinema espanhol recente.

 

Entre eles, podemos contar com Toro, de Kike Maíllo, onde o actor Luís Tosar demonstra mais uma vez que é um dos grandes protagonistas do thriller de acção espanhol. O drama épico Palmeras en la Nieve (Palmeiras das Neves), de Fernando González Molina, com  Adriana Ugarte (uma das estrelas de Julieta, de Almodóvar) no papel principal e ainda as comédias, Corpo de Elite, de Joaquín Mazón, e Ocho apellidos Catalanes (Namoro à Espanhola: Aventura na Catalunha), de Emilio Martínez Lázaro, sequela do estrondoso sucesso de bilheteira Ocho apellidos Vascos (Namoro à Espanhola), são alguns dos filmes a não perder nesta mostra "muy hermosa".

 

Para mais informação sobre a programação e compra de bilhetes, ver aqui.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:53
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8.10.16

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Keanu Reeves está de volta à acção com John Wick: Chapter 2 (À Prova de Bala), a sequela do inesperado êxito de 2014. O trailer já se encontra disponível para visualização. 

 

Recordamos que no primeiro John Wick, que teve a realização de Chad Stahelski e David Leitch [duplos de Reeves em Matrix], seguimos um assassino contratado (Keanu Reeves) na "reforma" cujos instintos letais ressurgem após lhe ser roubado um Ford Mustang de 1969 e de, no processo, terem assassinado o seu cão (que tinha sido uma oferta da sua falecida esposa). Wick parte então em busca do culpado, encontrando algumas dificuldades devido ao facto do pai do criminoso ser um poderoso mafioso.

 

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Laurence Fishburne, Ruby Rose, Peter Stormare, Common, Bridget Moynahan, Ian McShane, John Leguizamo e David Patrick Kelly completam o elenco.

 

John Wick: Chapter 2 chega aos cinemas portugueses em Fevereiro de 2017.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:16
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13.9.16

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Foi revelado o primeiro  trailer de Fifty Shades Darker (As Cinquenta Sombras Mais Negras), a sequela do êxito de 2015 baseado no livro romântico erótico de E.L. James (presente na produção como argumentista e produtora). James Foley encontra-se na realização.

 

Dakota Johnson e Jamie Dornan mantêm-se no elenco, enquanto isso, poderemos contar com as presenças de Kim Basinger, Marcia Gay Harden, Hugh Dancy e Rita Ora. Fifty Shades Darker leva-nos de volta à relação BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo), com o casal a lidar com demónios anteriores e antigas paixões.

 

Estreia prevista para Fevereiro de 2017.

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:15
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Cartas da Guerra, a terceira longa-metragem de Ivo Ferreira, foi elegido pela Academia Portuguesa das Artes e Ciências Cinematográficas para representar Portugal na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, nos Óscares e na categoria de melhor filme ibero-americano, nos Prémios Goya, atribuídos pela Academia Espanhola.

 

Trata-se  da adaptação do romance de António Lobo Antunes - "D'Este Viver Aqui Neste Papel Descripto, Cartas da Guerra" - que se resume a um retrato apaixonado e ao mesmo tempo intimista da desolação causada pela Guerra Colonial, a Leste de Angola. O filme conta com os desempenhos de Miguel Nunes, Margarida-Vila Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Simão Cayatte e Isac Graça, e produção de O Som e a Fúria, a mesma do elogiado Tabu, de Miguel Gomes.

 

Falando em Miguel Gomes, vale a pena salientar que o candidato do ano passado foi o segundo volume de As Mil e Uma Noites: O Desolado.

 

 

Ver Também

Falando com Ivo Ferreira, o realizador de Cartas da Guerra

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:10
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10/10 - Magnífico
9/10 - Imprescindível
8/10 - Bom
7/10 - Interessante
6/10 - Razoável
5/10 - Medíocre
4/10 - Muito Fraco
3/10 - Mau
2/10 - Péssimo
1/10 - De Fugir
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