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16.3.17

Alain+Guiraudie+Staying+Vertical+Rester+Vertical+w

Chamam-lhe provocador, e não é por menos. Os filmes de Alain Guiraudie apostam na naturalidade das coisas, inclusive no natural estado em que a sexualidade é traduzida no ecrã. Apresentando agora, Staying Vertical (Rester Vertical), o seu mais recente trabalho que chegou aos cinemas portugueses, conserva tudo o que esperávamos da sua arte. Aquela, que se pode considerar a arte de provocar. Através do seu novo filme, o Cinematograficamente Falando … tenta desmistificar o homem por detrás da obra.

 

Novamente se verifica em Staying Vertical, existe um certo "eu" cómico nestas tramas?

 

Penso que o humor é muito importante. O porquê de importante? Porque por vezes gosto de rir, e uma boa gargalhada traz uma certa ligeireza ao tom dramático e até mesmo trágico. O humor fundido com o drama, é um equilíbrio que procuro com o intuito de interligar as pessoas aos enredos.

 

A sua filmografia é dotada por inúmeros elementos naturais que por si residem como uma imagem de marca. Estamos a referir os exemplos da água, o rio e outros sistemas fluviais.

 

A Natureza faz-me sonhar. Aprecio ter um certo cinema sensorial, e para tal uso elementos para o transmitirem, tais como a água, o céu, arvores e o vento. Sobretudo o vento, até porque sigo uma das indicações de Orson Welles: "o cinema é o vento e as arvores". Sou um fascinado pelo Mundo e pela Natureza em particular, cresci rodeado desta, aliás em vim do campo, por isso o meu "cinematográfico" possui um certo magnetismo com este meio ambiente. Não sei se conseguiria filmar um filme numa metrópole.

 

Como consegue consolidar esses elementos naturais com a vertente cinematográfica, sobretudo no contexto visual?

 

Para mim é difícil definir o conceito visual apropriado, porque é igualmente complicado traduzir a grandiloquência da natureza neste filme. Para isso gosto de trabalhar com a luz natural e o Sol é a melhor electricidade do Cinema. Neste filme aprendi que também a Lua consegue funcionar da mesma maneira que o Sol. Foi a minha primeira vez que utilizei o luar para iluminar os meus planos e a meu veredicto é que o brilho desta possui um certo encanto. Um encanto dignamente místico.

 

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Luz natural?

 

Sim, em todas as sequências exteriores, utilizei somente luz natural. Com a tecnologia é possível reproduzir tal efeito, mas esta é demasiado recente, por isso optei por restringir-me ao luar.

 

Outras das suas marcas autorais. À semelhança de O Desconhecido no Lago (L’ Inconnu du Lac), este Staying Vertical respeita um certo signo, onde reside algures uma criatura de que as nossas personagens temem. No caso do filme anterior, fora o siluro, neste são, evidentemente, os lobos. Estes "papões" funcionam como metáforas para algo?

 

Não é necessariamente uma metáfora, não é a representação do "papão" nos lobos em Staying Vertical nem a misteriosa criatura do L’ Inconnu du Lac, mas isso pode muito bem ser induzido consoante a nossa própria interpretação. É possível olharmos para os lobos, assim como o "peixe-gato", como um medo colectivo, eles existem e as suas auras encontram-se ligadas a fábulas e outras histórias do arco-da-velha, ou até mesmo bíblicas. Sinceramente, olho para estas criaturas e revejo-as num confronto entre a entidade real e as lendas que se encontram ligadas.

 

Neste Staying Vertical, o Alain derrubar as "paredes" que separavam a fantasia e a realidade.

 

Exacto, gosto de pensar que o cinema nasceu de algo muito concreto, realista e que aos poucos consegue entregar-nos um efeito mais próprio da fábula, da mitologia e até da fantasia. Tal como os lobos, voltando ao assunto anterior, que possuem esse poder lendário por detrás, então porque não combinar esses dois terrenos numa simbiótica combinação. Sinceramente, o cinema que detesto é aquele que se foca e que por fim se prende na realidade, e o que exibe é nada mais que isso.

 

E o conteúdo sexual? O seu cinema é característico por uma naturalidade nesse ramo.

 

Primeiramente, era algo que tentava fugir. Só que nos últimos anos reflecti a importância de exibir ou não exibir esse conteúdo sexual. Porque haveria de não mostrar a naturalidade dessa temática? Perguntava a mim próprio. Se é algo importante para as nossas vidas, porque não mostrá-la no ecrã.

 

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O que pretende com essa procura?

 

Uma nova linguagem sexual. Por exemplo, quando filmamos, procuramos novas áreas para explorar e no Cinema estamos bem atrás da literatura, na questão de como devemos mostrar a sexualidade.

 

Para si, existe alguma diferença entre o filmar essa nova linguagem sexual e a pornografia? Qual a linha que separa esses dois universos?

 

De momento é me difícil definir uma fronteira para mim mesmo. O grande obstáculo para mim é realmente encontrar actores que possam levar do início ao fim as referidas cenas, sem ser ao uso da simulação. Mas penso que se pode filmar tudo, a questão deverá ser como a filmar. A abordagem no centro de tudo. Mas respondendo directamente à pergunta, a grande diferença entre a pornografia e o aceitável está nos "point-of-views". Na má pornografia, principalmente, a câmara encontra-se em ângulos impossíveis e na distância. No cinema tentamos ter um boa distância, algo que na pornografia, habitualmente, não existe.

 

Então tenta evitar a pornografia?

 

Tento evitar [risos].

 

E quanto às acusações de ser um provocador?

 

Também não tento provocar, mas constantemente questiono o porquê de não poder filmar certas coisas.

 

Como por exemplo, a sequência em que filma um parto real?

 

Tento exprimir o ciclo da vida através da edição. E através dessa tento sobretudo expor algum humor, um senso de divertimento que unicamente se consegue na edição. Nesta cena em particular o que faço é demonstrar directamente, no sentido mais literal, frontalmente o nascimento para o público.

 

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Em matéria de edição, pensa que foi eficaz e perceptível?

 

Sinto que neste filme não fui totalmente bem-sucedido, queria dar uma sensação que estava gradualmente a abandonar a imperatividade da montagem, mas julgo que os espectadores não estão cientes perante isso. Como tal, julgo que Staying Vertical não consegui atingir o objectivo.

 

Falando em cenas, existe a sequência final em que surge por fim os nossos "papões". Como foi filmar essa particular cena? Eles são reais?

 

Foi uma cena complicada. Os lobos, sim, são reais, e devido à dificuldade desta particular sequência, tivemos que utilizar efeitos visuais em pós-produção, até porque a tarefa era perigosíssima, tínhamos lobos de um lado e cordeiros do outro. Então filmamos os animais em separado e os juntamos através da edição.

 

O significado desta particular cena?

 

É um sacrifício aludido aos contornos bíblicos, uma visão utópica de uma coabitação pacifica. A harmonia entre o lobo e o cordeiro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:34
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14.3.17

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Há dois anos atrás, na secção Un Certain Regard do Festival de Cannes, um filme croata emocionou o público com uma abordagem criativa e romântica do conflito dos Balcãs. É um enredo que prolonga-se por mais de trinta anos, jogando-se com encarnações e momentos dignamente shakespearianos. Esse filme foi Zvizdan, por cá sob o título de Sol de Chumbo, que acabaria por vencer o prémio de Júri de tal secção.

 

O Cinematograficamente Falando … falou na altura com Dalibor Matanic, o realizador assumidamente optimista que parece figurar-se numa nova e ascendente geração que promete fazer um cinema activista, mas sobretudo de carácter urgente e moralista.

 

Ao ver o seu filme temos a sensação que o Dalibor é um homem romântico.

 

Sim, mas penso que se deveria antes dizer que sou um optimista. Neste assunto é o meu ponto de vista, a minha posição e o filme sou eu, é tudo aquilo que vejo à minha volta. A minha família sempre me disse: "que as pessoas metem em primeiro lugar as suas energias mais negativas, como o ódio, ao invés de outros sentimentos como o amor e o afecto".

 

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Como nasceu a ideia para este filme?

 

Curiosamente, a ideia veio da minha avó. Cresci com ela e ela foi para mim um poço de amor incondicional, mas à medida que ia ficando mais velha começou a repetir o mesmo conselho "por favor arranja uma rapariga que não seja sérvia". Isto é absurdo, alguém que te dá todo o amor na tua vida e ao mesmo tempo é capaz de interditá-lo. Isso fez-me pensar no porquê que estas boas pessoas estão infectadas com este elemento de ódio, ou por vezes, presas. Por isso, este filme funciona como um "gatilho" de resposta a esses sentimentos, e demonstrar como é possível apostar no oposto.

 

Digamos que este é um filme activista?

 

Sim, mas no filme tentei ser gentil na temática, mesmo assim poderá suscitar algumas reacções negativas para algumas pessoas com ideias fundamentadas. Para além da gentileza, tentei transparecer uma certa disposição, como um espelho, que reflecte-as e que as confronta com o seu próprio reflexo.

 

Mas porquê este formato: 3 histórias, 3 décadas diferentes e 2 actores?

 

Queria transmitir às audiências uma precaução de que o destino é sempre o mesmo, uma sensação de ciclo repetitivo e foi com esse intuito que utilizei os mesmos actores para personagens diferentes. Porém, com esse processo tentei esclarecer um ciclo onde as cargas negativas vão-se esmorecendo conforme o destino.

 

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Como preparou os seus actores para um ciclo repetitivo, e ao mesmo tempo divergente, de papeis?

 

Eu não sou do tipo que gosta de explicar tudo, a maneira como se deve agir, o sorriso, o olhar. Nada disso. O que pretendia aqui era pequenos ou até pormenores invisíveis entre personagens. Trabalhamos muito e por muito tempo para poder encontra estes pequenos itens que nos levam a diferenciar personagens, não pretendia diferenças discrepantes entre elas, queria transmitir a sensação que apesar de diferentes e de viverem em décadas distantes, estas eram unidas, como algo hereditário, a um só ser, aquela energia continua. As minhas personagens possuem uma ideia que habita dentro delas, não exibindo-as como parte da sua estética. Algo comparado ao subconsciente.

 

Estes eram os atores com quem inicialmente pensou em trabalhar? Como os escolheu?

 

Tenho orgulho de ter no meu elenco Tihana, o qual considero ser uma das melhores actrizes croata da sua geração. Já nos conhecíamos há anos e por isso a adaptação foi tranquila. Claro que tive que executar um casting para as personagens mais velhas e sobretudo para o protagonista masculino. Foi então que encontrei Goran Markovic, que foi perfeito para o papel.

 

Muita da imprensa afirma que o seu filme poderá se tornar no mais influente e conhecido filme croata. O que sente acerca destas afirmações?

 

Sou pacifico em relação a isso [risos], quando estava a filmar o filme, depositei nele alguns dos meus sentimentos e em Cannes apercebi-me que essa energia está de certa forma estampada nele. Mas não é só as referências croatas, julgo que todo o leste precisa de filmes como estes. Um cinema que aborda estes mesmos medos, fantasmas e temas. Actualmente, surge entre nós uma geração de jovens com um tamanho ódio instalado no coração, eles odeiam tudo, por isso, é importante que exista este tipo de filmes e que esta mesma geração os veja e, acima de tudo, sejam confrontados por estes.

 

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Em relação ao título. Porquê High Sun (título internacional)?

 

"High Sun" (Sol ascendente) é quando o Sol está no pico, e ele ilumina-nos deixando a nossa sombra saliente no chão, como tal existe uma espécie de reflexão, ou por outras palavras, um confronto entre o iluminado e o fruto dessa iluminação. É como olharmos para nós próprios, mas sob a influência de algo acima da nossa compreensão.

 

Novos projectos?

 

Este Zvizdan será o início de uma trilogia, o qual apelido de a trilogia do Sol. Com esta saga tentarei esclarecer os aspectos sentimentalmente positivos como negativos, um embate entre a Humanidade e as energias negativas que habitam entre nós à séculos. O meu próximo capítulo terá como título "Down Sun", como uma Aurora, o qual tentarei estabelecer sentimentos próximos do luto.   

 

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publicado por Hugo Gomes às 16:55
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7.3.17

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Foto: Mafalda Martins

 

Mariana Ximenes começou aos 17 anos no circuito das novelas, e desde então tem apostando numa abrangente carreira, quer televisiva, quer cinematográfica. Em alturas do FESTin, a actriz esteve presente na capital portuguesa para apresentar duas obras distintas. A primeira, A Prova de Coragem, a sua experiência na produção, e o segundo, a cumplicidade com um dos nomes maiores do cinema autoral brasileiro, Ruy Guerra, em Quase Memória. O Cinematograficamente Falando … falou sobre a criatividade no seu trabalho como profissional, e as obras que chegarão com algum entusiasmo ao público português.

 

Esta é a sua primeira vez em Lisboa?

 

Não, já estive mais vezes aqui em Lisboa, inclusive duas semanas em rodagem da longa-metragem de um realizador brasileiro maravilhoso e que fez História no Cinema, Cácá Diegues. O filme era O Grande Circo Místico, uma co-produção do Brasil, França e Portugal, contando com uma equipa maioritariamente portuguesa.

 

A Mariana é sobretudo uma "cara" conhecida das novelas da Globo, e esta sua faceta cinematográfica é praticamente desconhecida, por exemplo, para público português. Acredita que existe uma certa linguagem no pequeno ecrã que não existe, ou simplesmente não assiste, no grande ecrã?

 

Quando a Globo começou a produzir filmes, esse diálogo entre cinema e televisão se tornou cada vez maior. Mas por exemplo, começou a série Super Max, uma produção televisiva concretizada totalmente com uma equipa ditamente cinematográfica, ou seja, temos televisão sob moldes cinematográficos. Até um cameraman francês tivemos, este que usufrui do método "shoulder rigs", uma técnica não muito vulgar em produções televisivas.

 

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Sim, cada vez mais se debate entre Cinema e televisão, e sobretudo nos Festivais de Cinema (e como é bom vocês terem um festival de língua portuguesa) que proporcionam uma abertura maior para os filmes brasileiros.

 

Referindo ao FESTin, a Mariana encontra-se presente para apresentar dois filmes, inclusive a sua co-produção A Prova de Coragem. Quer falar-nos sobre essa experiência na produção?

 

Comecei a ser produtora para poder realizar os projectos que sempre sonhara fazer. Mas quanto ao A Prova de Coragem, na verdade, não é um projecto meu, nem sequer foi idealizado por mim, é sim fruto de Roberto Gervitz, e a adaptação de um livro dum escritor gaúcho chamado Daniel Galera. O livro chama-se "Mãos de Cavalo", o filme era para ter o mesmo título, mas foi decidido intitulá-lo de A Prova de Coragem. Apesar de gostar do título original, porque simplesmente funciona como uma metáfora à coragem.

 

O filme aborda o drama da mulher contemporânea, que é o de ser mãe e conciliar com a carreira profissional, além de retratar o relacionamento e as dificuldades que existem numa relação de hoje em dia. Para este filme, cujo tema central é o montanhismo, tive que aprender a escalar, frequentei um curso e subi o Monte Babilónia, que fica no Rio. Foi um experiência fascinante, agora posso sim afirmar, que amo escalar.

 

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Em A Prova de Coragem, nós filmamos em locais bastante belos como a serra gaúcha. Da mesma forma que a minha personagem gosta de escalar, também tem uma paixão por fotografia, o que tem um certo relacionamento comigo, porque também tenho um curso de fotografia [risos].

 

Mas como nasceu essa decisão de virar-se para a produção?

 

Sou uma mulher que já fez mais de 20 filmes. Adoro fazer cinema ... simplesmente adoro, e por causa disso comecei a produzir. A minha carreira enquanto produtora já conta com mais de 4 filmes, dois deles como produtora associada. No caso de O Prova de Coragem, sou produtora associada, e gostei de envolver-me nesse processo de criação, porque agregamos elenco, equipa, todos aqueles que sempre quisemos trabalhar. Tenho esse encantamento pela envolvência nos meus projectos, como se diz, gosto de "meter mãos à obra".

 

Iremos ver num futuro próximo, uma Mariana Ximenes como realizadora?

 

Dirigir? Assim sozinha? Não tenho vontade, não. Sinto o desejo, e cada vez mais, de participar no processo criativo e o olhar de cada pessoa, tanto do director de fotografia, o de cinematografia, caracterização, figurino, de outro actor. Adoro o jogo, o de contracenar, assim como o de ambientes, o de criar espaços. Digo que sou bastante curiosa.

 

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Director de fotografia? Está disposta a experimentar o cargo de direcção fotográfica?

 

Director de fotografia? [risos]. Não sei se vou ser porque é um cargo muito difícil. Sou mais sentida na criação de diálogos e o que me interessa mesmo são os processos criativos.

 

Em relação ao segundo filme do FESTin, Quase Memória. Como foi trabalhar com o "lendário" realizador Ruy Guerra?

 

Uma aula. Diariamente. Não só uma aula de cinema, mas de vida. Ruy Guerra tem 80 anos e mesmo assim, possui muita energia. Para perceberes, nós filmávamos de madrugada.

 

De madrugada?

 

Sim, 12 horas de madrugada, no frio de Minas Gerais e ele estava ali, firme e forte. Foi um procedimento muito intenso. Aceitei o papel para ficar perto dele, é lindo de ver, ele com mais de 80 anos, filmando, fazendo o seu Cinema.

 

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Ruy Guerra estava ausente do Cinema por mais de 10 anos, a Mariana, de certa parte, faz parte desse seu regresso.

 

Sim, esteve fora por mais de uma década, que nem o Roberto Gervitz, o realizador do Prova de Coragem. Ele também estava 10 anos sem fazer um filme.

 

Fazer cinema é muito difícil, o de conseguir investimento e recursos para fazer um filme, não é tarefa fácil. Por isso, é louvável que um realizador tão renomado como o Ruy consiga investimento para poder filmar. Também me interessa projectos alternativos, como Super Max, por exemplo, que é uma experimentação. Gosto de ousadia, de experimentar, quando apostamos em projectos diferentes temos prosperidades de ampliar os olhares. Pode-se acertar como se pode errar, mas o risco está lá. O meu objectivo é aprender com o processo, como exercício de fazer.

 

Então, esta é a sua face mais autoral. Mas dentro da produção brasileira podemos encontrar obras de gostos diferentes, quer o mainstream da Globo, até ao cinema mais independente e autoral, como o do Ruy Guerra. O que a faz interessar-se por ambos os lados?

 

Menciono que A Prova de Coragem, assim como o Quase Memória são dois projectos diferentes e até estou querendo trazer os meus outros filmes para cá [risos]. Para termos a possibilidade de discutir isso mesmo, a diversidade da produção no Brasil. E isso é de valor, diversificar mais para podermos experimentar. Acrescento que Super Max, também, em certo jeito, é uma experimentação da Globo. Como já havia referido, sou completamente interessada nessas experiências, qual seja o lado que se possa experimentar. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:57
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3.3.17

Land+Moon+Mal+De+Pierres+Red+Carpet+Arrivals+YJR6e

O "amour fou" (amor louco) de Marion Cottilard levou-a a ser uma das principais candidatas ao prémio de Melhor Interpretação feminina no Festival de Cannes de 2016. Apesar de não ter vencido, a mais requisitada actriz francesa do momento, ofereceu-nos uma personagem fascinante, perdida num romance, algures entre o sacrilégio e o sagrado, acidentalmente estampada na realidade e na fantasia. Para dirigir uma actriz deste calibre foi preciso uma outra actriz, Nicole Garcia, vindo da velha guarda do Cinema "gaulês". Uma interprete que descobriu um outro amor para além da representação, a paixão da realização e do desdobramento das personagens que parecem ganhar vida no grande ecrã. O Cinematograficamente Falando … falou com a mulher por detrás de Mal de Pierres, a adaptação do bestseller de Milena Agus, um desafio às próprias convenções do romance estabelecido.

 

Porquê a escolha do livro de Milena Agus? O que fascinou nesta obra para a adaptá-la?

 

Sinceramente não sei. Quando comecei a ler o livro, apenas o fiz com o prazer da leitura e não no intuito de procurar o meu próximo filme. Foi recomendado por um amigo meu, aclamando que seria obrigatório "ler este livro de 2006". Então fiz, comecei a folheá-lo no Aeroporto de Paris e o terminei durante o meu voo para Marselha. Admirada com esta experiência, corri logo em busca dos direitos da obra. Queria adaptá-lo para o grande ecrã e queria ser eu a fazê-lo.

 

Havia algo neste livro que me dizia muito, provavelmente o facto da protagonista ser uma mulher que pensa que todos os outros a recusam, cuja mãe constantemente a apelida de "louca", chegando a fechá-la num hospital psiquiátrico e tudo. Mas no fundo, é uma mulher forte e selvagem, e essas características assustavam as restantes pessoas. Porém, mantinha uma certa fragilidade. Porque ela procurava algo sexual e sagrado. Para ela, como para mim, encontram-se no mesmo patamar [risos].

 

Mas ela conhece que tais oposições existem no seu todo, porque depara com tais descrições na literatura, nos livros que lê, assim como na vida.

 

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Marion Cottilard foi a sua primeira escolha para o papel? Imaginava-a como a protagonista de Mal de Pierres?

 

Determinada a adaptar o bestseller, mentalizei-me que teria que ter a melhor actriz para começar. Teria que ser capaz de encarnar este mistério, algo que a própria ainda não havia explorado ainda, possuir um certo carácter indomável e ser, sobretudo, dura. Não cair no erro da melancolia e da doçura, até porque existe na personagem um desejo ardente que a mantêm forte. Então imaginei Marion Cottilard. E o resultado está à vista, ela conseguiu captar isto que referi nela, assim como muito mais. Um toque de sensibilidade humana. Vi nela a fazer algo idêntico como fizera na sua interpretação de Edith Piaf [La Vie en Rose], que fora um desempenho magistral por parte dela.

 

Acredita, que como realizadora, encontra-se melhor em cada filme?

 

Sim, acredito, assim como acreditava que no meu filme anterior, Un Beau Dimanche, também estaria a aperfeiçoar-me. Estou a melhorar no contexto da direcção, assim como na maneira de contar uma história.

 

Nicole Garcia começou como actriz, mas agora parece ter abandonado o cargo para dedicar-se com mais tempo à realização. Deseja voltar a actuar?

 

Continuo a ser uma actriz, mas como dedico demasiado tempo na realização, o qual não sobra muito para a actuação. Mas continuo a ser uma actriz.

 

Ainda como actriz, trabalhou com alguns dos mais influentes realizadores do cinema francês, tais como Renais, Rivette, Tavernier ou Lelouch. Aprendeu alguma coisa com eles acerca da realização, ou seguiu algum conselho destes para esta arte?

Não. Porque quando era actriz, era o tempo todo somente actriz. Não tinha o desejo de seguir a realização. Aliás, nunca passava pela cabeça que um dia seria realizadora, nada disso. Tudo começou quando filmava uma curta-metragem, durante as minhas férias. Bem, mais um filme caseiro, uma pequena brincadeira, mas quando comecei a editar este pequeno filme, tive então a revelação. Foi na edição que me fez gostar do trabalho de realização. E foi quando estreei a minha curta em Cannes, senti-me determinada em elaborar a minha primeira longa-metragem.

 

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Mas voltando à questão inicial, nunca recebi nenhum conselho, nem nunca aprendi com nenhum dos realizadores pelo qual eu trabalhei anteriormente. Tudo nasceu do meu instinto.

 

E como dirige os seus actores? Utiliza a sua experiência como atriz para os coordenar?

 

Apenas dirijo os meus actores nas duas primeiras semanas, falo com eles, dou-lhe conselhos, exponho aquilo que pretendo da personagem, mas depois o desenvolvimento nasce deles. Não me intrometo na sua actuação, nem tento controlar à risca a fluidez da personagem, esta tem que ser livre, portanto, porquê colocar travões. Até porque o meu objectivo é sempre contratar (muito) bons actores para os meus filmes. Pessoas capazes de dar vida às personagens que imagino.

 

Em relação a novos projectos?

O meu próximo filme será uma história contemporânea decorrida nos anos 50, e que remeterá o amor entre dois homens, mas não o tipo de amor "romanesco", mas sim de natureza mais negra e provavelmente com ligação a um homicídio. 

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:10
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1.3.17

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O FESTin comemora hoje (1 de Março) o especial número 8. Oito anos de existência, em uma oitava edição que prolongará até oitos dias no Cinema São Jorge, recheado com o melhor de um cinema falado na língua portuguesa, a ponte cultural de oito países separados por milhas, oceanos e História. Um signo a merecer a atenção do mais vasto público, dos cinéfilos em geral, e dos curiosos que tem a oportunidade de encontrar neste evento cultural uma cinematografia rica e igualmente pouco conhecida no nosso país. Referimos ao cinema brasileiro, uma produção diversificada que luta por um espaço na memória e mercado português.

O cinema brasileiro como "espinha dorsal"

 

Para Roni Nunes,  programador do FESTin, a derradeira luta está em trazer uma mostra plena de um cinema que "passa por uma fase excelente, como se viu com nove longas-metragens selecionadas para a Berlinale." O curador entende que com a qualidade do cinema brasileiro actual, era óbvio que não haveria "razões para não termos uma grande programação. Está na hora de mudar a imagem do cinema brasileiro em Portugal, que é muito associado às telenovelas, algo que não faz qualquer sentido, ou então a “Tropa de Elite” e “Cidade de Deus” – que são excelentes filmes mas que, obviamente, estão longe de ser representativos do cinema do país."

 

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Sim, Brasil será o país predominante do FESTin, e nele encontraremos uma "mão cheia" de estreias, tais como pernambucano Big Jato, o muito antecipado Comeback, a desforra de um pistoleiro de terceira idade e a loucura boémia dos anos 60 em Br 716, que segundo Roni Nunes, representam uma pequena fatia do melhor se produz nos dias de hoje, possuindo "uma magnífica característica, a possibilidade de agradar cinéfilos e espectadores casuais". O certame arrancará com a exibição de O Outro Lado do Paraíso, de Andre Ristum, um relato emocionado do Brasil em plena metamorfose político-social dos anos 60.



Para acompanhar as obras, o FESTin terá imensos convidados de honra, entre realizadores e actores, equipa de produção e técnicos, presenças exaustivas que prometem estabelecer uma ligação com o público. Entre as esperadas vindas, contaremos com a presença de Mariana Ximenes, que segundo Roni Nunes é "mais do que um rosto conhecido das telenovelas, ela é uma artista que tem investido muito em cinema de autor no Brasil." A actriz apresentará duas obras do seu currículo, ambas em Competição. Quase Memória, dirigido por Ruy Guerra, um ícone do Cinema Novo do Brasil, e Prova de Coragem, que também co-produz.


"O que mudou na programação foi que enveredamos definitivamente por um caminho mais autoral e desafiante na competição – a ponto de poder dizer que, em termos de quantidade, diversidade e, principalmente, qualidade, temos a melhor montra de cinema brasileiro de Portugal." proclama o programador.

 

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Lisboa, menina e moça, a capital Ibero-Americana

 

FESTin encerrará a edição com Elis, um retrato biográfico da cantora Elis Regina, uma das maiores da terra da Ordem e do Progresso. A escolha deste filme de Hugo Prata, protagonizado por "uma das revelações do ano passado" Andreia Horta (que estará presente), não foi ao acaso, a cinebiografia de uma das mulheres mais ícones do Brasil é servida de comemoração ao Dia Mundial da Mulher.

 

O feminino, por sua vez, será tema importante em toda a programação do FESTin, quer pela Lisboa Capital Ibero-Americana que escolheu o festival como o evento cultural oficial desta temática, preenchido por mesas redondas, debates, actividades paralelas e claro, mais mostras de filmes. "Em termos de filmes um dos destaques é a mostra dedicada à Margarida Gil, que terá cinco dos seus principais trabalhos (“Rosa Negra”, “O Anjo da Guarda”, “Adriana”, “O Fantasma de Novais” e “Paixão” exibidos" sugeriu o programador.

 

Ainda com a Lisboa Capital Ibero-Americana, "o FESTin dará a conhecer, numa parceria com o Instituto Cervantes, a obra do realizador cubano Titón, que será representa pela sua ex-mulher e uma figura icónico do seu país, Mirta Ibarra."

 

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Duas grandes apostas em português de Pessoa

 

Comparativamente ao cinema brasileiro, Portugal é de uma produção mais pequena, mas não é por isso que deixará de estar representado nesta oitava edição do FESTin. O festival vai contar com duas antestreias lisboetas, "dois excelentes exemplares de cinema português", afirma Roni Nunes. Integrados na Competição e vincadamente lusitanos estão Uma Vida à Espera, o regresso de "um realizador experiente na televisão, Sérgio Graciano, investindo num registo completamente diferente, onde Miguel Borges vive um sem-abrigo", e A Floresta das Almas Perdidas, de José Pedro Lopes, "uma bela mistura de cinema de género, neste caso o terror, com arthouse – tendo como ponto de partida uma floresta conhecida por ser um lugar procurado pelos suicidas".

 

Em contrapartida e questionado sobre a produção dos outros seis filmes de língua portuguesa que compõem este octógono cinematográfico, o programador referiu que "o cinema africano em língua portuguesa tem sido muito difícil de encontrar e as nossas solicitações nem sempre são atendidas com celeridade. Alguns destes países não têm indústria, outras aparecem com projectos de forma intermitente. E há países importantes na lusofonia onde a cultura é mesmo um alvo a abater. Ainda assim temos alguns projectos nas secções de curta-metragem e documentário"

 

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publicado por Hugo Gomes às 09:34
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8.2.17

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Jonathan Rosenbaum, um dos maiores e mais importantes críticos de cinema da atualidade, está em Lisboa esta semana, a apresentar na Cinemateca Portuguesa uma retrospetiva dedicada ao cineasta alemão Erich von Stroheim.

 

O Cinematograficamente Falando …,em conjunto com o crítico Duarte Mata do site C7nema, tiveram o privilégio de o entrevistar na mesma instituição, numa conversa que envolve não só o realizador, como também a importância de se ser um crítico de cinema, a falta de diversidade de filmes estrangeiros no EUA, um pouco de cinema português e, obviamente, os filmes predilectos de Rosenbaum.

 

Como descobriu e qual a sua opinião sobre o trabalho de von Stroheim?

 

Vi primeiro o Greed - Aves de Rapina (1924) em Nova Iorque quando andava na faculdade, juntamente com o Foolish Wives (1922). Sobre o que me interessa nele, antes de ser crítico, escrevi muita ficção, contos e romances que nunca chegaram a ser publicados. E foram essas qualidades novelísticas que me apelaram nele.

 

Qual julga ser a importância de von Stroheim no cinema?

 

Ele percebe as pessoas melhor que outros realizadores. Há uma grandecomplexidade emocional e ainda uma enorme densidade humana nos filmes dele.

 

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Em 2012, para a Sight & Sound, nomeou Greed - Aves de Rapina como o maior filme de sempre. Quer fundamentar o porquê desta sua decisão?

 

Não me lembro, já fiz essa sondagem imensas vezes em tempos diferentes. Mas uma coisa que já disse sobre o filme e que acho que faz parte do seu sucesso, é que as personagens não existem só dentro dos planos, mas também entre eles. Que vivem fora do filme e que até é possível conhecê-los, o que é muito invulgar.

 

Como crê que um filme deva ser apreciado? Muitas pessoas avaliam um filme pela história e pelo argumento, mas e quanto à mise-en-scène?

 

Não acho que devam existir regras. Acho que um filme deve ditar diferentes possibilidades para diferentes pessoas. Mas não creio que haja uma lista única que queira impor enquanto crítico. Um filme é algo muito complexo. Alguns mais complexos e interessantes que outros, é certo, mas recuso-me a dizer porque é que as pessoas devem ir ao cinema. Cada filme deve sugerir diferentes critérios se for bom. E é isso que é interessante na crítica de cinema, ter de se mudar os próprios critérios em relação ao que o filme faz, ao invés de se ter uns antes de vê-lo. Às vezes os melhores filmes são aqueles que te forçam a rever os teus critérios.

 

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E que acha do sistema de parte da crítica em dizer apenas que um filme é “bom” (“thumbs up”) ou “mau” (“thumbs down”)?

 

Isso tem a ver com as políticas de mercado, não com a arte. É sobre dinheiro e consumo, nada mais que isso.

 

Qual a diferença que vê agora nos críticos de cinema norte-americanos relativamente a quando trabalhava no Chicago Reader?

 

Não tenho a sensação de um desenvolvimento ou mudança porque ainda só passaram 9 anos desde que deixei o Chicago Reader. A diferença principal é que conheço cada vez menos críticos a trabalharem profissionalmente, isto é, a serem pagos pelo que fazem nos jornais. Mas não acho que tenha de haver uma correlação entre as pessoas serem pagas ou não, tal como não acho que seja relevanteterem ou deixarem de ter formações académicas. Às vezes as pessoas que mais sabem sobre filmes não são pagas nem têm formações. Quando se fala de alguém ser um profissional, não acho que isso seja genuíno, não aceito as regras que dizem. Acho que há menos pessoas a escrevem numa base regular para ter dinheiro, mas ainda assim há um grande interesse em escrever. E, de alguma maneira, há mais pessoas interessadas agora em escrever sobre cinema. E depois há a crítica em formato de ensaios audiovisuais que tem vindo cada vez mais a ser aperfeiçoada, como é o caso do Kevin B. Lee.

 

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É bastante crítico do sistema de Hollywood e da falta de filmes estrangeiros nos EUA. Como se pode descobrir estes filmes e como explica esta falta de diversidade?

 

Eu descubro-os quando vou a festivais. Mas acho que este problema tem a ver com as pessoas que têm o controlo fílmico e não a audiência. A audiência só conhece aquilo que lhes está a ser oferecido. Quando dizem “a audiência detesta alguns géneros de filmes” parece-me idiota porque a maioria dela nem sequer ouviu falar deles. Não os estão a rejeitar. E, por outro lado, há géneros que se revelaram grandes sucessos comerciais como The Schindler's List (1993) ou o Dance With Wolves (1990). Nem a própria audiência sabe o quer! Mas sabemos o que os produtores e distribuidores gostam e é a isso que estamos presos, infelizmente. Mas a Internet tem vindo a mudar isso, temos muitos mais filmes disponíveis, tanto do passado como do presente, nacional ou estrangeiro.

 

Já que falamos na Internet, hoje em dia a maioria dos filmes são vistos nela. Acha que usá-la como sistema de distribuição é útil, nem que seja para ver os filmes estrangeiros que referiu, ou que se trata apenas de pirataria e deve acabar?

 

Não acho que a pirataria seja má. Acho que é a única maneira de manter algumas culturas fílmicas vivas. Não faço streaming porque escrevo uma coluna sobre DVDs e, portanto, não sinto a necessidade disso. Raramente vi um filme no computador e, portanto, acho difícil julgar porque não faço parte dessa cultura. Mas é-me difícil ver quando me mandam links do Vimeo e assim porque aquilo pára e arranca. Prefiro ser um pouco antiquado nesse sentido. Mas não tenho nada contra quem o faz.

 

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Há muitos jovens a escreverem críticas na Internet. Alguns pensam que estão a matar a atividade da crítica cinematográfica.

 

Há mais críticas do que havia antes, boas e más. Mas dizer que estão a destruí-la é treta. Isso tem a ver com essa falsa ideia do que é o profissionalismo contra o que não é, que eu não acredito. O único problema tem a ver com a escolha de que filmes ver, que advém de que críticas ler, o que torna difícil a navegação.

 

Qual a sua opinião sobre o sistema de pontuações do IMDB e Rotten Tomatoes?

 

Não os uso. Só se ocasionalmente quiser ter acesso a uma crítica. Mas isso tem a ver com desporto, médias e essas coisas. Para mim esses sites estão a transformar o cinema num desporto, o que não me interessa.

 

Li numa entrevista que deu aos Les Inrocks onde dizia que o cinema de autor de Ford e Hawks já não consegue existir no sistema de Hollywood. Que crê que mudou?

 

Os estúdios. São estas entidades fixas com os mesmos produtores epessoal, é uma instituição inteira que está a trabalhar sempre com as mesmas facilidades. É óbvio que há uma perda enorme no cinema por causa disso.

 

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É bastante crítico na forma como o capitalismo define o sistema de distribuição americana. Sugere alguma alternativa?

 

Gosto da ideia de mercado de nicho, que é outra ideia capitalista que acho mais dócil. Há a ideia errada de quantas mais pessoas gostarem de um filme, melhor. Prefiro a ideia dos gostos das minorias e não julgar os filmes pelos países de onde vêm. Quando trabalhava para o Chicago Reader, a minha audiência media-se pelo número de pessoas que liam esse jornal. Mas no meu website (http://www.jonathanrosenbaum.net/), que consulto diariamente,são mais importantes as pessoas que me leem à volta do mundo inteiro. E vejo que há mais indivíduos a verem o meu site fora dos EUA do que dentro deles, o que me agrada bastante. A ideia de que os meus leitores são internacionais é muito importante para mim.

 

Sei que é fã de algum do cinema português. Que vê nele que esteja em falta noutros países?

 

Não penso no cinema português como entidade porque não sei o suficiente dele. Mas para mim o que tem de especial chama-se Manoel de Oliveira e Pedro Costa. A grande maneira de descrever o que o Oliveira ofereceu ao cinema é uma fúria sobre a civilização. A civilização e o seu passado, presente e futuro, o que vai para além do cinema. Quanto ao Pedro Costa, é um bom exemplo de um cineasta que, para além do seu lado poético, é também um crítico. Mesmo que ele não o seja diretamente, sinto que aprendi imenso enquanto crítico de cinema a ver os filmes dele.Evidentemente que há outros filmes portugueses de que gostei, mas não consigo generalizar nem em vê-los em termos nacionalísticos.

 

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Quem considera ser os maiores críticos de cinema no momento?

 

Dos que conheço, Shiguéhiko Hasumi que escreveu o melhor livro existente sobre o Ozu (Yasujiro Ozu)que, infelizmente, não existe em inglês, mas só em francês. Também gosto muito do Adrian Martin e do Raymond Bellour. A Murielle Joudet que escreve no Trafic e fez artigos muito entusiasmantes sobre a Bette Davies e o James L. Brooks. E o Ignatiy Vishnevetsky que escreve para um jornal humorístico chamado The Onion.

 

Quem considera os maiores cineastas vivos?

 

Béla Tarr, Pedro Costa, Godard (obviamente) e Kira Muratova. Dentro dos EUA, o Richard Linklater, o Albert Brooks parece que já não faz mais filmes, mas, se fizesse, inclui-lo-ia, o Jim Jarmusch e o Michael Snow. Tenho a certeza que há outros, mas estes são os que me vêm à cabeça agora.

 

Sei que já se cruzou com alguns dos grandes mestres do cinema como Godard, Tati, Nicholas Ray ou Orson Welles. Que encontro foi-lhe mais marcante e recorda com mais afeição?

 

O Orson Welles porque foi uma figura muito importante para mim. Andava em Paris e escrevi-lhe uma carta sem saber se alguma vez teria resposta. E depois fui convidado a almoçar com ele, o que foi memorável porque só falámos dos filmes dele. (Risos)

 

Qual é o seu filme favorito?

 

Tenho 3 que, de vez em quando, vou revendo. O primeiro é Playtime (1967) de Tati, o Gertrud (1964) e o Ordet (1955), ambos de Dreyer. A cada nova vez que os vejo, ensinam-me mais sobre o mundo e, consecutivamente, do cinema. O Playtime ensinou-me, literalmente, a viver em cidades e a lidar, de uma forma criativa, com o excesso de informação. O Gertrud é sobre as pessoas não serem capazes de assumirem compromissos, tanto num sentido negativo como positivo. E o Ordet é mais complicado. Eu não sou crente e acho que o Dreyer também não era, mas ao mesmo tempo admiro a forma como falada fé e não só no sentido religioso do termo.

 

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publicado por Hugo Gomes às 18:49
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26.1.17

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Diz-se que do mar veio a Vida. Apesar disso, a vida tende em não desconectar do Mar. Estas são as Amas, uma comunidade de mulheres que vivem, sobrevivem e morrem em prol do "grande horizonte azul". Uma tradição nipónica de séculos que encontra-se a passos de conhecer a sua extinção, mas antes disso, Cláudia Varejão partiu numa aventura a um Oriente desconhecido para captar o quotidiano destas “sereias” vivas e registá-las na "imortalidade" do Cinema. Assim nasce Ama-san [ler crítica], o documentário vencedor da Competição Nacional do Doclisboa 2016, um retrato etnográfico de uma cultura em risco de sucumbir na nossa contemporaneidade, mas não do nosso imaginário. O Cinematograficamente Falando … falou com Cláudia Varejão sobre as mulheres que a fizeram apaixonar e da preservação das tradições, pelo qual é urgente salvar.

 

Onde encontrou estas mulheres? Como surgiu o seu interesse por esta comunidade?

 

Tudo começou com uma referência num livro de poesia. Na altura, julguei que fosse uma figura de estilo, esta ligação das mulheres com o mar, encarei mesmo como personagens ficcionadas. Fiquei muito curiosa, o poema, o qual não recordo, referia as mulheres como Amas. A palavra Ama, o significado em português, o que ela representava, levantou-me tamanha curiosidade.

 

Como tal pesquisei, e deparei-me com uma tradição à beira de extinção. Durante a minha investigação, fui ao encontro de uma vasta gama de fotos dos anos 50, todas elas sob uma imagem muito sexualizada. Nuas, propriamente ditas. Ao longo dos anos, apercebi-me que elas foram ficando mais “tapadas”. Mas o que mais fascinou-me foi que a faixa etária era acima dos 50.

 

Foi assim que nasceu este súbito interesse. Esta “descoberta” foi gerada através de um acto muito espontâneo. A leitura de um poema.

 

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De certa forma, a Cláudia prometeu sereias …

 

Mas não deixam de ser sereias. Elas são encantadoras. O trabalho delas é perigoso, todos os anos morrem mulheres no fundo do mar, ficam presas nas rochas, porém, as imagens dos seus mergulhos parecem pacificas. Na verdade, são manobras perigosas. Por isso, diria antes que elas são uma espécie de “sereias ninjas”.

 

Estas mulheres são apresentadas no seu filme como mulheres devota ao seu tradicionalismo. Contudo, deparamos o uso de fatos de mergulho, somente cobertos por um fino véu. Tréguas entre a herança e a modernidade. De certa forma, estas mulheres tendem em tecer um certo paralelismo com o Japão, um país moderno, mas igualmente tradicional.  

 

É inevitável. Quando alguém visita o Oriente, o Japão particularmente, depara-se com uma simbiose entre um lado mais tradicional, manual, preservado, hereditário e a contemporaneidade, a tecnologia que substitui o Homem em muitas das suas tarefas. As Amas também representam isso, porque imenso da sua arte foi alterada ao longo dos anos. A tecnologia do mergulho mudou constantemente.

 

Uma coisa muito simples, elas não mergulham todos os dias, só quando o mar permite. A Natureza tem vida própria e dita quando é que está disponível. Normalmente as Amas mais velhas, sabiam através do estado do mar, das estrelas, da lua, se iriam ou não mergulhar no dia seguinte.

 

Curiosamente no filme, existe uma Ama mais nova, com os seus 40 anos, que tem um IPhone, e que verifica nas suas aplicações, o estado do mar.

 

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Em comparação com o Japão, não acha que os portugueses não têm a tendência de preservação o seu lado tradicionalista?

 

Não o vejo como um mal português, mas antes um mal geral. O problema é a época histórica que vivemos. O desejo de avançar e descobrir cada vez mais, e a tecnologia tem um peso forte nas nossas vidas, trazendo um certo esquecimento donde nós viemos e como as coisas atingem sem o auxilio da mesma. Por isso, não é um mal português, até porque temos uma tendência de seguir um fluxo bastante avançado.

 

O Japão vive o mesmo problema. A grande diferença é que o país é muito tradicional, por isso é inevitável encontrar ainda um vasto leque de tradições. Culturalmente, e até espiritualmente, para um japonês é muito importante preservar uma série de tradições. Para eles, quem não tiver uma tradição é como fosse um ser humano inapto, pouco preparado para a vida. 

 

A Cláudia também mergulhou com elas, de forma a captar aquelas imagens?

 

Debaixo de água? Não. Foram feitas por um director de fotografia japonês, Masakazu Akagi.

 

Tem medo do mar?

 

Não. Pelo contrário, tenho uma ligação muito forte com o mar, só que não faço mergulho. Ele teve que operar a câmara com uma garrafa de oxigénio, e eu sou incapaz de fazer isso.

 

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Numa entrevista ao jornal Público, referiu o caso das mulheres de Caxinas como o mais próximos que temos das Amas.

 

Nós temos pouca tradição das mulheres serem pescadoras. No Norte, zona de Vila do Conde, Caxinas, algumas mulheres pescam, e o próprio comportamento das “caxineiras” é muito efusivo, expansivas. As Amas também o são, apesar da sua delicadeza, vivem em comunidade fechadas, muito ligadas entre si e muito expansivas em comunicar.

 

E o facto de ambas serem matriarcais?

 

Sim, também. Tendo que no Japão, inicialmente neste trabalho, só poderia ser Ama quem tivesse na família, uma mãe ou uma avó fosse mergulhadora. Era um oficio que herdava. Hoje em dia, como há poucas mulheres a mergulhar, basta que tenha o mínimo de interesse para começar esta vida. Antigamente, as Amas eram realmente matriarcais. Porque tratava-se de uma tradição passada por geração a geração.

 

O que realmente procura nos seus filmes?

 

Algo não muito concreto de responder, mas essencialmente procuro um grupo de pessoas, e nesse mesmo, busco a diversidade. O ser humano interessa-me muito, esta panóplia de termos vidas tão diferentes e geneticamente sermos tão idênticos. Interessa-me isso. Para além, dos relacionamentos entre si, sobretudo em grupos ou seios familiares.

 

A Cláudia Varejão irá fazer parte do júri do próximo Córtex, nesse caso o que irá procurar por entre a selecção oficial?

 

Há partida em não vou procurar nada, é diferente que a jornada pessoal. Quando vejo cinema, procuro essencialmente que o filme, tal como o realizador, seja livre. Porque se o trabalho é livre, esta aproxima-se da identidade do autor. Mas isso é difícil de encontrar, visto que na vida geral temos vários “layers”, camadas, e tal não somos totalmente livres.

 

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Existe uma série de elementos que nos são incutidos, tal como a nossa educação que nos impede de realmente usufruir a nossa liberdade. A Arte existe nesse contexto, a de ser livre, e quanto mais livre, mais libertadora é para quem o vê.

 

Em relação às suas buscas, qual destes dois elementos valoriza mais, o conteúdo ou a forma?

 

Sempre os dois juntos. É inevitável para quem vê uma forma cria um conteúdo, uma leitura. Mesmo que quando não existe uma intenção. Quem vê, cria uma narrativa. Nunca estão dissociados, a forma do conteúdo.

 

Mantém contacto com as Amas?

 

Continuo [risos]. Como não falamos a mesma língua, trocamos imagens em mms semanalmente.

 

As imagens continua a ser uma linguagem universal.

 

Completamente. Repara, a forma que traz conteúdo em si, mas o que eu comunico é através de uma imagem, e dentro dessa mesma imagem existe uma mensagem, uma leitura possível.

 

Sabendo que Ama-san foi um projecto de vários anos, tem mais algum em mente?

 

Estou dentro de um, que parece seguir o mesmo caminho do anterior em termos de longevidade. Neste caso, os motivos são outros.

 

Não porque seja filmado longe - vai ser rodado em Portugal - mas pelo facto de ser um filme sobre pessoas, um determinado grupo destas e sobre o encontro que desencadeará. Sei exactamente aquilo que procuro, só vai demorar tempo a encontrá-las.

 

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publicado por Hugo Gomes às 17:16
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6.1.17

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Antes de ser presidente, era escritor e foi a sua paixão pela escrita que fez Manuel Teixeira Gomes lançar-se no anonimato, viajar para uma Argélia colonialista e escrever a sua mais concretizada obra-prima. Esse pedaço de História esquecida fascinou Paulo Filipe Monteiro, actor e argumentista, e através da imagem de Teixeira Gomes lança-se na aventura da sua primeira realização. Mas o anonimato não mora aqui, e o Cinematograficamente Falando … testemunhou essa autoria.

 

Sabendo que esta é a sua primeira longa-metragem, o porquê de Manuel Teixeira Gomes? O que lhe fascinou?

 

Fascinou-me em primeiro lugar este gesto desmesurado dele de largar tudo, a presidência, a sua vida elegante, a sua colecção de arte, e partir no primeiro barco a sair de Lisboa. Isso, no geral, foi o que primeiramente me fascinou. À medida que ia pesquisando, aprofundando esta história, encontrei outros factores interessantes na sua vida, uma delas foi o facto de ter sido um caso único no Mundo, o de um escritor de literatura erótica a chegar à presidência de uma Nação. O sensualismo da sua obra, assim como a proclamação das suas raízes, algarvias com ligação ancestral à cultura árabe, a sua paixão pelo Magred [região noroeste da África] que vem em contraponto com a actual demonização do Islão, o seu percurso como Presidente, que foi bastante importante, tendo sido uma figura politica reformista que lutou contra a especulação da banca, a crise financeira (tema actual).

 

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Como funcionou o casting? Porquê Sinde Filipe na pele de Manuel Teixeira Gomes?

 

Para além de ser também actor, conhecer os meus colegas, e gostar de dirigi-los, faço apostas e pelos vistos, ganhei as todas. A nível de interpretação, Sinde Filipe está alto, e eu queria apostar numa nova linguagem, uma nova dimensão, um novo estilo. Com Zeus vão ver actores que por exemplo, toda a gente conhece das novelas ou dos palcos de teatro, duma outra maneira.

 

Paulo Filipe Monteiro é também o argumentista de Zeus, tentou evitar a esquematização das biopics convencionais?

 

Pois, eu já escrevi sete longas -metragens, para outros. Aqui, o que consistia era o desejo de fazer um filme em três blocos, como The Hours ou até Magnólia. Zeus presta-se a esses mesmos blocos. O bloco da presidência, escuro e claustrofóbico, em contraponto com o da Argélia, bastante solar e luminoso, e ainda, o romance de Maria Adelaide, que ele escreveu aos 77 anos no seu "quartinho" de hotel. Portanto, o filme vai saltando entre os três e penso que os espectadores vão gostar disso.

 

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Manuel Teixeira Gomes é um homem interessado quer na politica, quer no meio artístico. Como foi consolidar esses dois "mundos" que parecem antagonizar um ao outro?

 

 

Ter um homem na política que é um escritor, para além de mais, ser um esteta, um interessado em artes plásticas, na pintura, um coleccionador de arte, faz com que se acha um casamento natural, mais fácil em relação à Arte. Se tivéssemos um presidente, ou até mesmo um primeiro ministro assim, teríamos uma grande afinidade entre a politica e o meio artístico.

 

Zeus apresenta uma época pouco retratada no cinema português, e até mesmo um pouco esquecida dos nossos manuais de História. Com a cada vez mais adesão ao período salazarista em relação a adaptações cinematográficas, acha importante explorar outros episódios da nossa própria História?

 

Sim, se repararmos no cinema dos EUA, eles tem menos História, mas a exploram até à exaustão. Quantos filmes existem sobre o Vietname? Nós temos menos filmes históricos, provavelmente por serem de produção cara, e difícil em termos de recursos reconstruir essa visão de época, mas nós temos muito material para explorar, para filmes. Não pensem que vou ser a fazê-los, eu não me vou especializar em filmes de época [risos]. Fiz este, mas o próximo projecto que tenho na cabeça é absolutamente contemporâneo.

 

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Quer falar mais sobre esse novo filme?

 

É um projecto que tenho na minha mente, veremos se tem financiamento, e é previsto ser um filme bem contemporâneo, moderno, experimental, prometo "rasgar".

 

Para além de realizador, Paulo Filipe Monteiro é actor. O facto de ter sido um interprete o ajuda na direcção do seu próprio elenco?

 

O facto de ser actor permite-me compreender os actores, como tocá-los, chegar a eles, como conseguir deles certas coisas, ou seja, esses dois mundos complementam.

 

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publicado por Hugo Gomes às 14:18
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Zeus, a primeira longa-metragem de Paulo Filipe Monteiro, apresenta-nos a história real de um escritor ascendido a Presidente da República, que passado dois anos de mandato vira as costas ao máximo cargo para viver no anonimato numa Argélia colonial. Esta é a biografia de Manuel Teixeira Gomes, um homem, actualmente, esquecido da memória dos portugueses, que encontra nova vida na interpretação de Sinde Filipe. Cinematograficamente Falando … falou com o veterano actor, um dos mais queridos da sua arte, demonstrando o quanto sabe sobre esta desafiante personagem.

 

O que lhe interessou em Manuel Teixeira Gomes?

 

Manuel Teixeira Gomes interessou-me por vários factores, como cidadão, exemplar devo dizer, como diplomata, como presidente, mas sobretudo pelo seu lado de escritor. Esse seu lado é grande, pelo que deve ser lido, e irá ser lido.

 

Mas actualmente a obra de Teixeira Gomes encontra-se um "pouco" esquecida.

 

Não, muito esquecida, é por isso que este filme é importante. Para trazer à memória dos portugueses esta personalidade tão rica e de grande relevância literária.

 

Fez pesquisa sobre a personalidade ao integrar o elenco de Zeus?

 

Obviamente que fiz uma pesquisa sobre a personagem. Contudo, devo dizer que já tinha conhecido desta importante figura, mas foi durante a pesquisa e a sua encarnação que tentei descobrir mais e mais sobre Manuel Teixeira Gomes. Tentei impregnar a personagem, espero ter feito justiça.

 

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Ao longo da rodagem, descobriu algo de novo em Manuel Teixeira Gomes que não havia encontrado durante o seu processo de pesquisa?

 

Não lhe consigo dizer, tenho a noção de que as biografias que li fora devidamente esclarecedoras e clarificadoras quanto à sua personalidade. Não senti, de todo, que ao longo filme tenha feito alguns importantes descobertas. Julgo que não tenho acrescentado muito sobre a sua figura.

 

O período que Manuel Teixeira Gomes integra, é um período esquecido entre os portugueses. Até mesmo nos manuais de História. Acha importante explorar no cinema esta subestimada época? Visto que exploramos em demasia o período salazarista.

 

Da mesma forma como referi a figura de Teixeira Gomes, este filme também tem o dever de trazer à memória dos portugueses esta fatia de História pouco falada, os primeiros passos da República em Portugal. E claro, Manuel Teixeira Gomes é uma personagem, que em muitos aspectos, precisa de ser redescoberto e revalorizado nos dias de hoje. Precisamos tirá-lo da sombra.

 

Manuel Teixeira Gomes foi um homem dividido entre o seu lado artístico - a escrita - com a sua politica. Qual destes lados vingou-se na nossa História? Segundo a sua opinião.

 

 

Como escritor. Ele quando esteve na presidência não escreveu muito, aliás ser Presidente sobrepôs-se bastante à escrita. Foi como fizesse uma pausa nessa sua vertente artística, felizmente foram só dois anos. Porque a politica não o invalidou de ser o grande escritor, pelo qual deve ser reconhecido.

 

Ele sempre foi um escritor, acima de politico, mesmo na sua fase de diplomata, Teixeira Gomes não desistiu de escrever. Apenas parou temporariamente essa sua arte durante o seu cargo presidencial.

 

Novos projectos?

 

Apenas teatro, foi trabalhar numa peça que fora feita por Villaret há muitos anos, Esta Noite Choveu Prata.

 

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publicado por Hugo Gomes às 00:19
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10.12.16

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Para muitos um documentário, para Catarina Mourão foi o embarque de uma demanda à descoberta das suas raízes, a procura por aquele homem que se figurava no álbum de família e que todos apontavam como seu avô. A Toca do Lobo, mais do que um registo pessoal da herança, é uma viagem por um Portugal cada vez mais distante, reduzido às memórias e aos "mitos" que alimentam essa "Fantasia Lusitana". A realizadora falou com o Cinematograficamente Falando … no âmbito do lançamento em DVD deste documentário que nos remete sobretudo a nós próprios.

 

Em que preciso momento apercebeu-se da urgência de registar esta sua investigação?

 

Foi, sem dúvida, a partir do momento em que vi um arquivo da RTP com o meu avô, em que ele mostra uma estranha colecção que diz querer oferecer a uma futura neta imaginada de nome Catarina. Eu nunca conheci o meu avô e quando esse programa foi filmado eu nem sequer existia. Achei que esse filme era um pedido dele para eu fazer este filme.

 

Em a Toca do Lobo, ao aproximar-se da história do seu avô, mapeia um Portugal de outros tempos, um país diferente, quer de costumes e mentalidades, assim como politicamente e socialmente. Como encara este "país" que Tomás de Figueiredo vivia?

 

Uso as palavras da minha mãe “Era um país fechado num colete de forças” cheio de regras, tabus e proibidos.

 

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"Se aquilo que não sabemos fosse medido a quilómetros". Estaria disposta a recontinuar extensivamente esta mesma sua jornada ao encontro do passado da sua família?

 

Sim, há muitas pontas soltas e histórias para descobrir. Inevitavelmente hei-de voltar a esta aventura.

 

Desde a produção até à estreia do filme em sala, conseguiu, por fim, entrar na habitação de Casares?

 

Ainda não consegui. Talvez um dia. E quem sabe farei outro filme.

 

Em relação à construção deste documentário, e visto o tema ser pessoal, como foi pensá-lo e moldá-lo de forma a ser emocionalmente perceptível para um vasto público?

 

É uma tarefa de constante aproximação e recuo, como diz um amigo meu é tudo uma questão de distância focal.

 

O que pode dizer sobre novos projectos?

 

Apenas posso dizer que iremos para a praia, a preto e branco e a cores, a praia do século XX.

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:42
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7.12.16

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"Olha, lá vai o rapaz dos Gremlins", Zach Galligan pode não ter tido a carreira mais brilhante, mas orgulha-se de ter um êxito, um culto ainda hoje revisto e celebrado - Gremlins. O Cinematograficamente Falando … falou com o actor durante a sua passagem em Portugal, na apresentação de uma sessão especial do famoso filme de 1984 no Espaço Nimas e no evento de cultura pop, Comic Con Portugal.

 

Mais de 30 anos passaram desde a estreia de Gremlins, e o filme continua a gerar um certo culto e sucesso entre gerações. Consegue explicar o porquê deste filme ainda ser relembrado ao fim de tantos anos?

 

Penso que o principal motivo do sucesso é simplesmente porque Gizmo é uma personagem fofa e adorável, e todos parecem adorá-lo. Mas Gremlins não se resume a Gizmo. É também um filme que apela a diferentes grupos de pessoas, até porque a noção de seguir e quebrar regras é um conceito universal que as audiências sempre se interessaram, muito mais quando são jovens, que não gostam de regras, ou simplesmente não entendem a sua existência.

 

Em Gremlins, ao quebrá-las trazemos o caos e a destruição, por isso é imperativo sermos correctos. Temos que respeitar as regras. Gremlins é, no fundo, um filme moralista, e todos nós gostamos de filmes desse género.

 

Depois há a noção de que uma criatura tão amigável como Gizmo, tenha a possibilidade de se tornar em algo tão maléfico. Os seres humanos sentem-se dessa maneira, podem ser boas pessoas, mas dentro delas existe aquela possibilidade de revelar um lado negro e destrutivo. Tudo é possível no ser humano, no nosso intimo temos a coabitação da luz e trevas, o yin e yang.

 

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Seria possível recriar o original Gremlins na actualidade?

 

O filme parece, nos dias de hoje, um pouco inocente e julgo que a inocência não tem grande papel na sociedade actual. Cada vez mais evitamos a inocência, seja ela através da internet, das redes sociais, smarthphones, nas mensagens, [risos] vermos pornografia com somente nove anos de idade. Por isso não sei se esse tipo de inocência teria lugar hoje, e se teria passaria por algo bobo e deslocado, ou, na melhor das hipóteses, seria como no caso da série Stranger Things, cuja inocências nos faz desejar regressar a esse período de produção, onde tudo parecia menos complexo e menos complicado.

 

E como foi o seu casting?

 

A directora de casting, Susan Arnold, deu-me uma cena de audição,  a de um rapaz a propor um encontro a uma rapariga. Nada de relacionado com os Gremlins, era um cena que poderia pertencer a qualquer filme. Por isso aceitei.

 

No dia seguinte conheci o produtor, era para me encontrar com Joe Dante, mas este estava de “plane sick” (com doença de avião), por outras palavras, não gostava de voar. Ou seja, estava mesmo doente [risos]. O produtor gostou daquilo que fiz e combinou comigo para aparecer depois no âmbito de contracenar com uma actriz. O propósito era existir uma química entre ambos.

 

Esperei por uma resposta, e como estava de férias, voei até Florida e nesse mesmo dia soube da aprovação. Nunca mais esqueci desse dia [risos]. Tive que esperar pelo dia seguinte para voar de volta. Depois tive que assinar um contrato, sem ao menos ter lido o guião. Foi algo assustador, ter que assinar para um filme, do qual não sabemos nada, mas tive que confiar, visto ser uma produção de Spielberg. Então assinei e li, por fim, o argumento “top secret”. 

 

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Foi aí que apercebeu que iria entrar num filme sobre pequenos monstros.

Exacto [risos].

 

Numa Hollywood tecnológica como aquela em que vivemos, muitos dos actores tem que contracenar com um fundo verde, que no entanto servirá como palco para criaturas CGI. Mas em Gremlins, Zach contracenou com animatrónicos. Era uma tarefa difícil interpretar lado-a-lado com criaturas mecanizadas?

 

Algo que um actor dever ter, é muita imaginação. Faz parte do nosso trabalho. Imaginem a actriz “fulana tal”, o qual não conhecemos de lado nenhum, a interpretar a minha mulher num filme. Teria que fazer cenas intimas com ela, como por exemplo, segurar-lhe a mão, beijá-la ou a dizê-la que a amo, e na realidade, não passa de uma desconhecida para mim. Existe muita artificialidade na actuação, seja com uma “criatura” ou com uma pessoa que não conhecemos.

 

Mas quanto à criatura - Gizmo - esta era bastante credível, fazia sons mecânicos, movimentava-se como um animal, parecia estar vivo. Podia até mesmo improvisar com ele. Por exemplo, ao tocar-lhe o nariz, ele reagia. Ou seja, não foi praticamente difícil acreditar que Gizmo era real, até porque os efeitos era totalmente convincentes.

 

Então, nos dias de hoje, com a “expansão” do CGI, o trabalho de actor torna-se muito mais difícil?

 

Sim, completamente, porque simplesmente não temos nada à nossa frente, somos dependentes da nossa imaginação o tempo todo. Temos que improvisar uma criatura à nossa frente, nuvens, um cenário, o quer que seja, termos que imaginar ao invés de simplesmente reagir com algo. Sim, bastante mais difícil.

 

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Como considera a sua carreira fora dos Gremlins?

 

A minha carreira fora dos Gremlins tem sido quase idêntica a de muitos actores. Temos sucessos, o vazio, altos e baixos, trabalho durante 5 a 6 anos, depois já não temos, as pessoas acabam por nos esquecerem e de um momento para o outro, nos redescobrem.

 

Muitos neste ramo tem uma carreira ditada por alguns altos e baixos, períodos de pouca e alta actividade. Relembro o caso de Jackie Earle Haley, que nos anos 70 fez êxito com The Bad New Bears (Que se Lixe a Taça) e Breaking Away (Os Quatro da Vida Airada), depois desapareceu, regressando com The Little Children (Pecados Íntimos) e depois A Nightmare on Elm Street. É uma carreira de vaivém, cuja ausência é sucedida a um período de redescoberta e idem, idem.

 

Somos o “hot topic” do momento, de seguida já não o somos. O que devemos fazer é não ficar aborrecido com este fenómeno e pensar que provavelmente temos versões melhores de nós próprios. Julgo que uma versão quarentona é boa, mas um “eu” cinquentão é melhor, e provavelmente, um sexagenário meu seja bem melhor que estes que referi.

 

Tenho uma expressão, o qual utilizo nas minhas aulas de actuação, a carreira de um actor é uma maratona e não um sprint. É uma longa caminhada, e só sentiremos realizados ou devidamente reconhecidos quando chegamos ao fim, um pouco antes de desistirmos na área.

 

Contudo, tenho o privilégio de dar aulas quando não estou a actuar, por isso, não passo pela experiência de servir mesas ou arranjar pequenos trabalhos para poder sobreviver. Como vês, estou nos 52 anos e tenho-me safado bem.

 

Não fica ofendido, nem sequer desapontado que até à data seja conhecido somente como o actor dos Gremlins?

 

Não. Na minha conta de Twitter eu tenho como “Gremlin’s Guy”, sou o actor dos Gremlins! “Olha, lá vai o rapaz dos Gremlins!” Houve tempos em que tal aclamação aborrecia-me profundamente, mas longo encarei o seguinte: ou somos famosos por algo ou somos famosos por nada, e ser famoso pelo filme dos Gremlins não é absolutamente mau.

 

Tenho um actor amigo, o qual não posso dizer o nome, que tem uma carreira brilhante. Certo dia, estava a observar a sua vasta colecção de filmes em que participou, e eu exclamei “Uau, quem me dera ter uma carreira como a tua, ter trabalhado com estes actores fantásticos e com estes realizadores de topo”, logo ele respondeu “pois é, mas tu tiveste um hit”. Ou seja, eu tive um sucesso, muitos actores tem uma carreira estável e nunca conseguem isso. Dou graças por ter um hit e ser relembrado por isso.

 

Ouve-se falar de um terceiro Gremlins, ou até de um remake. O que pode dizer sobre isto?

 

Não há remake, isso não irá acontecer. Mas sim, haverá um terceiro filme. Será um projecto novo, provavelmente bastante parecido com o espírito de Jurassic World e de Force Awakens. Um update, e se forem astutos trarão velhas personagens, assim como a criação de algumas novas. Será um pouco, como trazer o melhor de dois mundos.

 

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publicado por Hugo Gomes às 23:53
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23.11.16

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Premiado com o Prémio de Realização na 69ª edição do Festival de Cannes, Cristian Mungiu apresenta Bacalaureat (O Exame), a sua última obra que remexe novamente em consciências morais e em fantasmas do regime de Ceauseascu. O filme, novamente rígido na sua natureza replicada de realismo, chega às nossas salas após uma passagem pelo Lisbon & Estoril Film Festival. O Cinematograficamente Falando … teve o prazer de falar com um dos grandes nomes da chamada Nova Vaga do Cinema Romeno.

 

Como surgiu o argumento deste O Exame?

 

Foi uma combinação de vários temas. Durante algum tempo estava determinado em fazer um filme sobre o "envelhecimento", aquele que só acontece quando olhamos para trás e apercebemos que esse mesmo passado não nos agrada, assim encaramos o futuro com outro objectivo. Na altura, não encontrei automaticamente a história certa.

 

Em simultâneo, reflectia sobre a paternidade, a educação, nas minhas crianças e foi então que me surgia em mente, questões como: "o que posso dizer aos meus filhos sobre a sociedade que vivemos? Qual o tipo de futuro que queremos para elas e pode ser proporcionado?" Depois, procurei a melhor forma de expor a sociedade actual, uma relação que compromete-se através de uma sociedade corrosiva. Todos estes temas borbulhavam na minha cabeça, a partir daí decidi combiná-las num só filme, porém, como não tinha a narrativa nem a temática escolhida, peguei no meu computador e lancei-me numa pesquisa por inúmeros artigos de acontecimentos que marcaram a nossa sociedade nos últimos 5 anos.

 

Foram notícias, jornais, revistas, o qual rabisquei, cortei e colei, até conseguir criar um argumento que falasse de todos esses problemas sociais e que tivesse uma certa ligação real, mas que não fosse totalmente baseado em factos verídicos. Como tal nasceu O Exame, um filme que fala sobre o futuro, o crescimento e as nossas próprias decisões.

 

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Bacalaureat

 

É possível educar as nossas crianças com uma educação diferente daquela que obtivemos?

 

Não sei, foi graças a essa questão, pelo qual, eu fiz este filme. Através desse dilema tentei fazer com que O Exame me respondesse. Será possível que o Mundo mude através de uma nova geração, sabendo que essa mesma é educada pelos mesmos ideais e valores de uma geração anterior? Sinceramente, não sei. Só sei que tal não é racional, para o Mundo realmente mudar, era preciso que essa nova geração afastasse dos seus antecessores, teria que haver um espaço ininterrupto que pudesse quebrar a corrente. Quando falo nisto, não digo que devemos negligenciar os nossos filhos, não, teríamos que sim educá-las consoante o mais adequado para uma eventual mudança, e não para o que achamos correcto. Obviamente que com isto não quero afirmar que sou um mau pai, porque uma coisa é fazer da maneira mais racional possível, a outra é comprometer as nossas ligações emocionais com as pessoas que mais amamos.

 

Penso também que fiz este filme sobre as pessoas que são incapazes de lidar com as situações de forma racional, que se deixam levar pelas emoções. Até porque não somos personagens, somos seres humanos que dificilmente acreditamos ou questionamos aquilo que nos acontece em vida.

 

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Adrian Titieni, Maria-Victoria Dragus e Cristian Mingu

 

O Exame, é no geral, uma reflexão sobre os limites da paternidade?

 

Sim, pode ser um filme sobre os limites da paternidade, sabendo que com a paternidade surgem vários dilemas, muitos deles, não com as respostas correctas. Sabes, por vezes é fácil, enquanto pais, causar danos às nossas crianças, mesmo que isso não seja totalmente intencional, como o encarar a sabedoria como algo hereditário, que passe de geração a geração. É evidente que mesmo com a educação atenta dos nossos pais, praticamos as nossas próprias decisões e cometemos os nossos próprios erros, mas é ao tornar-nos pais que afrontamos a ideia de que podemos realmente moldar os nosso filhos consoante a nossa "educação", ou seja, acabamos por cometer os mesmos erros que os nosso pais, e assim sucessivamente. É uma corrente.  

 

Educamos as nossas crianças tendo como base a educação que os nossos pais nos deram, chegando mesmo a afirmar as mesmas afirmações que os nossos progenitores proclamaram certo dia. Pensamos "nem acredito que estou a dizer isto?". Obviamente, que também pensas como seria bom que as coisas acontecem desta maneira, mas ao mesmo tempo sabemos que não vai seguir o previsto.

 

Se nós estamos a preparar as crianças para a vida real, temos que parar com o habitual discurso moralista de "não mentir", "não roubar", "não trair", "não pisar os outros", esses moldes de doutrinas são, de certa maneira, vistas como ideais de um "falhado nesta sociedade", por outro lado, ensiná-las a ser lutadoras poderia, de certa forma, alterar essa mesma. Mas isso cabe a nós decidir, quais são os verdadeiros limites da paternidade. Conforme seja a nossa decisão, andamos de "mãos dadas" com as alterações da nossa sociedade.

 

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Bacalaureat

 

Em O Exame, ficamos com a sensação de que a corrupção, por mais pequena e involuntária que seja, é um acto profundamente natural do Homem moderno.

 

Para responder a essas questões, eu cito inúmeras vezes a realidade, sem necessariamente julgá-la, nem explicá-la por demasiadas palavras. Mas julgo que essa corrupção é muitas vezes confundida com o compromisso, uma espécie de mecanismo de sobrevivência, uma adaptação aos obstáculos que nos surgem, mas ao mesmo tempo, quando somos pais, temos que carregar este "fardo". É essa a diferença do mundo idealista, aquele, pelo qual, preparamos a nossa criança, e o mundo real.

 

O filme tenta investigar aos poucos esta relação, gradualmente aborda as causas da complexidade deste fenómeno [corrupção], que é algo tão fácil de julgar. O Exame diz que nem tudo isto é errado, até porque quando queremos ajudar alguém ou até mesmo combater um regime, praticamos estes actos "imorais", no entanto, os encaramos como uma espécie de luta, até porque as nossas intenções são boas. Nos dias de hoje, o regime já não é mais o inimigo número um, ao invés disso, nós é que nos tornamos a grande ameaça. Nós é que redefinimos os limites da nossa consciência moral.

 

De regresso à sua questão, julgo que as pessoas encontram-se desapontadas devido à dificuldade, ou quase impossibilidade, de mudar algo. As coisas são o que são, e é preciso imensa energia para uma pequena mudança. Quanto à mudança total, é quase "o impossível", que é apenas resolvida com soluções colectivas. O filme refere bastantes essas divergências entre decisões individuais, aquelas que fazemos para nós ou para a nossa família. A imigração é um bom exemplo sobre soluções individuais. Todavia, é necessário existir as ditas soluções colectivas, se não, o "barco" naufraga.

 

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Cristian Mingu

 

O Exame entra em paralelismo com um êxito seu, 4 Months, 3 Weeks and 2 Days onde um especifico evento abala e altera toda a personagem. É este o seu modo de narrar as suas histórias, pegar em acontecimentos que drasticamente marcam as suas personagens?

 

Não sabemos o que vai acontecer a estas personagens após o desfecho do filme. Quem sabe? Sim, eu pego em eventos drásticos que as suas personagens vivem, mas se estas vão mudar a conta disso, sinceramente, não sei responder. Julgo que isso não acontece muito na vida real e penso que nós próprios não mudamos assim tanto, mas é com as experiências que aprendemos algo. Algo sobre a vida, sobre si mesmo, sobre a situação, sobre a sociedade, até mesmo de integração. Mas julgo que tal não nos altera em longo termo, ao invés disso, algo morre em nós, perdemos algo muito próximo, e compreendemos que vivemos uma vida, e ta evento poderá ser importante, mas que só durará 3 dias, e depois regressas à tua vida.

 

Por isso, não sei realmente o que vai acontecer a estas personagens, mas o espectador deve entender que eu falo sobre as suas respectivas vidas reais. Por vezes, chegamos a entender o que vivemos através de vidas encenadas no grande ecrã.  

 

No final das sessões dos meus filmes, mais concretamente nos QaA, ouço imensas experiências vividas pelos espectadores. Ou seja, eles, de certa maneira, identificam-se com o que está retratado. É por essas e por outras que existe o Cinema.

 

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 4 Months, 3 Weeks and 2 Months

 

Então é, em derivação dessa aproximação, o motivo pelo qual os seus filmes deverem muito ao realismo?

 

 

Faço esse estilo, porque é a minha definição de Cinema. Porque acredito que o Cinema pode ajudar, não só, a conhecermo-nos, mas também a entender os outros, as nossas vidas, o nosso redor, e para isso temos que praticar um Cinema mais vinculado no realismo, apesar da vida real não ser tão espectacular, nem entusiasmante.

 

E ao seguir esse mesmo estilo, temos que ponderar alguns artifícios bem valiosos no Cinema, um dos exemplos é a edição. Na vida real não há edição, por isso, o meu Cinema tem que possuir o menor uso desse mesmo artificio, toda a cena deve ser filmada num só take. Outro exemplo é a música, não existe bandas sonoras na vida real, tal não poderá existir no meu Cinema. O que tento fazer é captar a emoção através da situação, é uma tarefa árdua, eu sei, sem a utilização desses artifícios, mas é sim que pretendo continuar a fazer Cinema.

 

As edições rápidas, as músicas que entram e saem, as cenas de acção, são tudo factores sedutores. Principalmente para quem deseja fazer entretenimento. Para os meus filmes que falam sobre as vida das pessoas, não pode existir esses meios de manipulação. Para tal, tenho que abdicar desses mesmos artifícios narrativos.

 

Por vezes eu sinto que os meus filmes adquirem um certo padrão de thriller, mas isso é a forma com que sinto em relação à vida. As pessoas estão cada vez mais stressadas, angustiados e decepcionadas.  

 

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Bacalaureat

 

É complicado filmar tudo num só take?

 

Por onde devo começar. Primeiro analiso e escolho a luz, abordo a cena e tento ver qual o ângulo que a filmar, atesto através da perspectiva que anseio contar esta determinada acção. Penso num cenário, durante a escrita, e procuro algo que corresponda ao imaginado. Se não encontro, construo-o. Obviamente que aquilo que imaginas não se aproxima da realidade, mas enquanto não houver mais nada a fazer, adaptas.

 

Depois trazes a equipa técnica, que trazem equipamentos de variados tamanhos e feitos. O Cinema é um processo bastante técnico que parece criativo. A partir daqui, posicionamos todos nos seus devidos lugares, apontamos a câmara para o ângulo desejado, e os actores decoram os seus diálogos e gestos em cenas de 10 a 15 minutos, pelo qual devem efectuar na perfeição. Todo este processo, só numa cena, demora … deixa lá ver … 20 a 40 takes.

 

É cansativo, complicado e no final do dia sentimos absolutamente exaustos, mas igualmente realizados. Todos os dias acabo por falar com cada um dos membros da minha equipa, encorajando-os para mais um round ou reparando certos pormenores. Todo os dias é uma luta, se não conseguimos filmar mais que uma cena num dia, tudo bem, alteramos o  cronograma, e recomeçamos no dia seguinte. Eu consigo fazer isto, até porque sou o produtor dos meus próprios filmes, o que me dá o direito de usufruir esta liberdade.

 

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Tales from the Golden Age

 

Quanto a novos projectos?

 

Não falo sobre novos projectos, porque nunca tenho novos projectos. Penso demasiadas vezes nos meus filmes, naquilo que fiz bem, no que correu não tão lindamente, no que foi importante referir ou o que precisa ser referido. Mas também penso nas pessoas, mais concretamente naquilo que as deprime, que as deixa angustiadas. Tento compreender as suas naturezas, as suas causas, e em consequência disso, por vezes, acabo de encontrar o filme certo, o ritmo certo e a história certa.

 

Muitos pensam que tudo se resume a direcção, mas para mim o mais relevante é o argumento. Procuro sempre o tópico, o tema e como o abordar, e como deve ser abordado.

 

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Beyond the Hills

 


publicado por Hugo Gomes às 20:36
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5.11.16

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Considerado por muitos, uma das mulheres mais belas do Cinema, Monica Bellucci é uma das presenças de honra deste 10ª Lisbon & Estoril Film Festival. Na sua passagem pelo mediático festival lisboeta, a actriz foi convidada a escolher um filme para apresentar nesta programação, a sua decisão caiu em Málena, o filme de Giuseppe Tornatore o qual interpretava uma mulher que desperta sexualmente um jovem. A representação da musa feminina que leva “bambinos” à fase adulta, é para Bellucci um dos papeis cruciais da sua carreira.

 

Málena foi “importante para o meu processo de trabalho como actriz”, argumenta Bellucci perante a questão da escolha deste filme, “Impulsionou a minha carreira internacional. Enquanto atores, procuramos sempre algo, mas nunca sabemos ao certo o que procuramos. Hoje vejo melhor o que estava a procurar e penso que tenha encontrado na minha experiência em Málena. Existiu aqui algo no meu processo de trabalho.

 

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Julgo o que procurava e que acabei por encontrar neste filme foi o poder da feminidade e isso sempre reflectiu na escolha dos meus papeis, pretendia personagens com feminidade, frágeis e igualmente fortes.” Ainda sobre Málena, Bellucci situou o filme e o entusiasmo geral suscitado na altura da sua estreia [no ano 2000] com a indústria cinematográfica italiana, “Sempre tivemos nomes importantes no nossa cinematografia: Sicca, Vischonti, Fellini, mas depois isso perdeu-se, e nesse período interessou-me trabalhar com realizadores de outras nacionalidades, desde a americanos, franceses e até sérvios (risos). Málena, por outro lado, demonstrou que o cinema italiano ainda pode ter visualização global na actualidade”. 

 

Mas Málena não será o único filme presente no Festival com a participação da actriz, em estreia nacional vamos ser presenteados com On the Milky Road, a sua colaboração com o sérvio realizador Emir Kusturica, também em retrospectiva neste evento. Bellucci afirmou que o seu processo de trabalho no filme de Tornatore tem “uma continuidade com On a Milky Road”.

 

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No filme de Kusturica, a actriz é novamente uma atracção amorosa, mas desta vez para um leiteiro interpretado pelo próprio realizador. “Fiquei maravilhada com o seu talento. Emir Kusturica é um talentoso artista, é realizador, músico, compositor, actor, é um poeta interior, mesmo com a sua aparência algo rude.”Em relação à linguagem, visto que Bellucci fala sérvio em On a Milky Road, a actriz referiu o apoio que teve durante a rodagem, salientado que inicialmente tinha medo de apostar numa língua tão desconhecida para si. “Foi difícil de inicio. Não sabia o que fazer.

 

A actriz, com a sua invejável beleza aos 52 anos, falou com os jornalistas sobre a relevância da beleza nas actrizes, e visto que essa opressão estética esteja a mudar na indústria, “As novas formas de amar uma mulher e actriz. Devemos passar da beleza exterior para a beleza interior.” Sobre o seu confronto com um eventual envelhecimento, Bellucci referiu que “muitas actrizes são belas, mas há que aceitar que a beleza jovial facilmente desaparece e quando isso acontecer temos que aceitar um outro tipo de beleza. A beleza muda e o envelhecimento é por si, belo, e as interpretações vem da alma e não da aparência.

 

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Como não podia deixar de ser, as questões sobre Portugal e a sua adaptação à capital lisboeta. “A primeira vez que estive em Portugal foi há 14 anos, e automaticamente fiquei apaixonada pelo país, sobretudo pela cidade de Lisboa. Quando fui convidada a fazer um anúncio aqui, mentalizei-me do seguinte, ‘um dia vou comprar uma casa aqui’, e assim foi.” Quanto ao cinema português, revela que “estou na fase de descobrir, mas obviamente, que um dia, se tiver oportunidade, irei integrar um filme português.

 

Monica Bellucci irá fazer parte do elenco da série Mozart in a Jungle, ao lado de Gael Garcia Bernal, sobre o papel da televisão nos dias de hoje, a actriz reconhece o crescimento e a diversidade da aposta, “actualmente, como actriz posso interpretar grandes papeis na televisão, e mesmo assim não ter barreiras para o cinema”. Mas em contradição, diz que a televisão tem limitações e que nunca tirará lugar à Sétima Arte, “acredito que no Cinema, as imagens sobrepõem às palavras. As imagens falam por si.”

 

Mas existe algo certo no futuro de Monica Bellucci, é que a nossa diva do Cinema nunca apostará na realização, palavras suas. “Neste momento tenho um projecto onde serei actriz e produtora, nunca chegarei a realizadora, é uma área que sinceramente não tenho qualificações, nem interesse.”.

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:30
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3.11.16

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As atrocidades cometidas durante a Segunda Guerra Mundial geram, por si, mil e umas histórias de horrores, intrigas passadas que poderão reflectir no nosso presente e futuro. Anne Fontaine, uma das mais populares realizadoras francesas, falou-nos do seu mais recente olhar a esse período de medo, em particular a uma história que envolve freiras, violações e tropas invasoras, um episódio ocorrido em pleno século XX, que mais parece ter saído das Idade das Trevas. A realizadora de êxitos como Coco Avant Chanel e o Mon Pire Cauchemar conversou com o Cinematograficamente Falando … sobre os ecos desta história passada no presente que vivemos, sobre a sua carreira e o gosto de filmar sem desfecho à vista.

 

Como descobriu ou donde surgiu esta história?

É uma história baseada em factos reais, sobre uma médica francesa que no seu diário relatou a situação vivida por estas freiras polacas, restringidas ao seu convento, grávidas, frutos de violações por parte das tropas soviéticas. Esta mesma história chegou a mim através de alguns produtores franceses que encontraram-na e pensaram logo em mim para transcrevê-la para o grande ecrã. Depois de ter aceitado, arranquei numa investigação histórica, aprofundei o tema desta história, uma aventura humana forte, intensa, sobre a fé, da esperança e da maternidade. Temas complexos que me fizeram crer estar capaz de transformá-lo num filme dramaticamente forte e emocional.

 

Encontramos em Les Innocentes, um breve resumo às "agressões" vividas pela Polónia durante a Segunda Guerra Mundial, visto que foi dos países mais fustigados desse período?

A Polónia foi completamente invadida e devastada durante a Guerra. Foi um país esquecido, este episódio de violações com freiras aconteceu em mais do que uma região na Polónia, muitas delas sucederam durante as invasões alemãs, e aí, muitas foram mortas. Foram ocorrências que muita da nova geração polaca não acreditava que tenha acontecido, e alarmantemente não há muito tempo. Este tipo de situações ainda hoje acontece, graças ao fanatismo que se vive em muitos países, muitos deles vivendo as suas próprias guerras. As violações são ainda consideradas uma arma de guerra muito usado nestes mesmos países.

 

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Ou seja realizou esta história a pensar na actualidade?

De que maneira podemos comportar, falar, se acreditamos em Deus ou não. Como se pode fazer uma acção comuna numa situação de "bullying" como esta? Quando fui ao Vaticano, mostrar o filme, uma pessoa muito próxima do Papa dirigiu a mim considerando que este era um filme aterrador para a Igreja. Ver este tipo de situações, que aconteceram, no ecrã e ter o conhecimento de que este tipo de violência encontra-se presente nos nossos dias. Mais de milhares de monges e freiras estavam em choque, não só porque o filme fala deles, obviamente, mas por esta ocorrência ter marcado espaço na Polónia e ainda hoje existir em diferentes regiões. Eles estavam a chorar no final do visionamento.

 

Mas apesar disso, este é um filme que de certa forma rebela contra as estruturas hierárquicas religiosas.

Foi a transgressão de uma Ordem que permitiu a ajuda neste filme, sim. Num convento como aquele, não se poderia fazer algo sem primeiro consultar a Madre Superior. Felizmente, esta freira sob esta arriscada decisão vai mudar o destino das outras devotas através de um acto de desobediência. Les Innocentes é também um filme sobre a transgressão positiva, ao viver ou deparar com situações como esta, deve-se sobretudo desobedecer, e agir da forma humanamente mais correcta.

 

Tendo em conta que a Festa do Cinema Francês dedicou-lhe este ano uma retrospetiva da sua carreira, tal evento não a faz pensar sobre a sua obra e vida profissional?

Sinceramente, não penso nada em relação a retrospectivas. Neste momento, só me interessa o meu novo filme. Até porque, estava a terminar há uma semana atrás o meu mais recente filme, o qual estava a rodar aqui, em Portugal. Por isso, não tenho a tendência em pensar muito na minha carreira. Também tive uma retrospectiva da minha obra no Vietname, o que foi estranho para mim, porque na altura era a única mulher realizadora naquele país. Agora, uma retrospectiva em Portugal … é engraçado, mas não sei o que quer dizer!

 

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Eu trabalho com a fragilidade, apesar da minha experiência, não trabalho pelo seguro. Procuro constantemente novas histórias, novos temas com que possa transportá-los para o grande ecrã. Muitos vem ter comigo e confrontam-me "mas tu já tens mais de 15 filmes e em tão pouco tempo". Para fazer um filme, como deve calcular, ocupa muito tempo. Por isso, para mim, se o significado destas retrospectivas é dizerem-me que tenho que pensar, ou repensar, na minha carreira, simplesmente não acredito. Eu não funciono assim, nem é isso que sinto.

 

Começou a sua carreira como actriz, mas afinal donde surgiu essa paixão de "passar" para o outro lado da câmara? Ser a realizadora que é hoje?

Não fui uma boa actriz, por isso não fiquei muito tempo nas actuações (risos). Julgo que é a experiência de viver através da mente de outra pessoa, da face de outra pessoa, sentimentos que não podemos expressar nós próprios. É aproveitar a nossa imaginação, mais do que na vida real, que por vezes não é tão intensa assim. A realização é como tentar capturar e trabalhar a alma humana, o mistério dos Homens, o que escondem, o que está por detrás. É algo interessante e antropológico também, trabalhar com as complexidades humanas no grande ecrã. Estas mesmas não "vivem" num papel, por isso cabe a nós, realizadores, dar-lhes vida. São estes os motivos que me fazem ligar a esta, o qual não considero um mero trabalho, mas sim, maneira de viver.

 

A sua carreira é variada em filmes e géneros. Como é que escolhe o próximo género a trabalhar?

Sou instintiva, eu faço um filme contra o meu anterior, ou seja, passo para um verdadeiramente negro e depois vou trabalhar num filme mais "light". Obviamente, que escolho cuidadosamente os meus filmes, tento comprometer-me a uma ambiguidade sexual de pessoas que estão perante situações ou sentimentos que não conseguem controlar. O que gosto mesmo é de nunca fazer o mesmo filme ou estilo que já tivesse experimentado. Gosto de descobrir diferentes formas de como fazer um filme. Quando vemos o Coco Chanel ou Two Mothers, apercebemos de interligações entre as obras, estão todos conectados, principalmente na maneira como eu trato as personagens. Mas claro, Les Innocentes é uma obra bastante distante de Two Mothers, por exemplo, mas são todas histórias acerca de mulheres.

 

Em relação a esse novo filme que terminou de rodar em Portugal. O que pode dizer sobre ele?

O meu novo filme intitula-se de Marvin, uma semi-biografia que acompanhará um pequeno rapaz dos seus 12 aos 24, oriunda de uma família xenófoba e racista, que reinventa a sua vida de forma radical. A história deste rapaz, uma personagem moderna, termina em Portugal (risos).

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:15
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13.10.16

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A propósito do seu mais recente filme, O Cinema, Manoel de Oliveira e Eu, o Cinematograficamente Falando …, com a colaboração do jornalista Duarte Mata do site C7nema, entrevistou João Botelho (Os MaiasUm Adeus Português), o realizador por trás da homenagem ao que é considerado o maior dos cineastas portugueses. De histórias atrevidas aos dias que sucederam à sua morte, Botelho fala da amizade de longos anos que manteve com o Mestre, bem como o que o levou a seguir a carreira de cinema.

 

O senhor abandonou os estudos de Engenharia Mecânica em Coimbra para ingressar na Escola Superior de Teatro e Cinema. O que o levou a trocar o Binómio de Newton pelo cinematógrafo dos Lumiére?

 

(Risos) Eu acho que o que muda a vida das pessoas são catástrofes, acontecimentos. Tive a sorte de apanhar o 25 de Abril. Não pensava em fazer filmes. Começou com as Praxes de Coimbra, uns “chatos do carago”. Não deixavam sair às 6 da tarde, rapavam os cabelos, batiam e não sei quê. Eu fugia daquilo e ia ver um filme todas as noites. Comecei a ver tudo e depois fiquei viciado. O meu pai não tinha dinheiro e eu ia à boleia pela Europa, entrava à socapa em fábricas e restaurantes e gastava o dinheiro todo na Cinemateca em Paris. Via 6 filmes por dia. Quando se acabava o dinheiro, vinha com as camionetas dos emigrantes para baixo. Fiquei viciado no cinema. Em Coimbra tive um Cineclube, quando fui para o Porto encontrei mais pessoas como eu. Víamos 10 vezes o mesmo filme e debatíamo-los. E depois, estava a acabar o curso de Engenharia e andava a dar aulas, quando se deu o 25 de Abril. Então disse, “Que se lixe a Engenharia, vou mas é para Cinema.”. Fui para a Escola de Cinema em Lisboa muito tarde, tinha 25 anos e os meus colegas 20. Era um período de agitação.

 

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Entretanto, eu e uns amigos fizemos uma revista chamada “M”, onde o primeiro volume era dedicado ao Manoel de Oliveira. Nesta altura, ele andava numa aflição para acabar o Amor de Perdição (1979) na Tobis, com a equipa já farta dele e do filme. Aparecemos por lá e a partir daí ficámos amigos. Ele adorava falar de cinema. Podia ser um vaidoso em público, mas à mesa do café era brilhante. Pegava num papel e num lápis e desenhava os planos, eram lições de cinema para toda a vida. E depois começou-me a dar conselhos. Não como discípulo, mas como alguém que gosta de cinema. Nunca me disse “Veja os meus filmes e cite-me”, mas apenas “Faça aquilo em que acreditar.”; “Não ceda a ninguém. Ceda para arranjar dinheiro, ceda para vender o filme, mas quando filmar, nunca ceda!”. Foram lições de estética e ética que me marcaram para sempre. “Se não há dinheiro para filmar a carruagem, filma a roda. Mas filma bem a roda.”; “O cinema não são as histórias, mas a maneira de as filmar.”; “Recusa o realismo, mostra que isto é tudo mentira.”; “A verdade é o que as pessoas sentem quando vêm a mentira.”. A minha verdadeira escola foram as conversas de café com o Oliveira.

 

Apesar disso, aprendi muito na Escola de Cinema durante 3 semanas, com o Jacques Aumont (antigo crítico dos Cahiers du Cinema e autor do livro O Cinema e a Encenação, editado pela Texto & Grafia) que nos levou para a mesa de montagem, onde falámos da linha geral do Eisenstein, os planos, as diagonais, as linhas de força e a elipse. Começámos a ter práticas-teóricas com técnicos de sons para hipotéticos filmes, onde construíamos histórias só com sons, em que ninguém falava e só se ouviam ruídos. Contar narrativas doutra maneira. Tive a sorte de apanhar momentos febris neste país. Eu nunca tive um emprego, só dei aulas durante 3 meses, o que é um luxo! O Oliveira sofreu mais do que eu, apesar de ser 10 vezes mais rico. Não tive um intervalo de 12 anos entre o primeiro e segundo filme, nem de 15 entre o segundo e o terceiro, como ele. Ele deixou muitos filmes para trás. E tive o privilégio de passar pelas transformações todas deste país: a Revolução dos Costumes, o 25 de Abril, vivi no Salazar, no Marcelo Caetano, tive sorte! Hoje em dia o que acontece aqui é de um consumo individual. Não vemos os jovens a queixarem-se por coisas colectivas, mas sim para não pagarem propinas para beber mais uns copos (Risos).

 

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Mas é verdade, não há aquele radicalismo do colectivo e as pessoas foram transformadas em consumidores individuais. Há miúdos brilhantes, mas esse saber do brilhantismo não é transmitido. E é terrível, porque é uma coisa de fechamento e não de abertura. O cinema contemporâneo, apesar de haver coisas brilhantes, é infanto-juvenil. O que domina, não quer dizer que haja outros. Antes íamos ao cinema e víamos 10 vezes o mesmo filme e discutíamos o cinema, às vezes um plano durante uma semana. Hoje não, quando gostam dizem “É giro” e vão a outro. Há 3000 planos e não se vê nenhum, há 5000 efeitos sonoros e não se ouve nada. Come-se, bebe-se… Os gajos da Lusomundo ganham 7€ por bilhete: 2€ para o exibidor, 2€ para o distribuidor e não sei que mais. Mas com a Coca-Cola ganham 7€! E na pipoca! Portanto, querem filmes onde se possa comer e beber. É o que é. Há mais cinema hoje nas séries americanas. Bons argumentistas, bons atores, porque os adultos deixaram de sair. 90% das pessoas que ocupam as salas de cinema no mundo inteiro são miúdos de 4 anos com que os pais vêem desenhos animados, até aos 17/18. Depois disso já não vêem. Descarregam-nos, vão às televisões, aos computadores…

 

Mas não acha que as séries estão num estilo pré-formatado?

 

Não é bem. A 1ª série do True Detective tem boas ideias de cinema ou mil episódios d’Os Sopranos, onde não se passava absolutamente nada e tinha belos planos gerais ou mesmo o Mad MenTêm ideias mais perto do cinema no modo de narrar, no plano, nas luzes, sombras e composição. Não estou a querer dizer que é um cinema revolucionário ou vanguardista, mas é melhor que os filmes que passam. Costumo dizer que o Oliveira levou o cinema todo para o Céu e deixou cá a porcaria dos filmes. O que domina neles hoje são os temas, as situações, o escândalo, mas não é o Cinema. Não há nenhum filme hoje que contenha a qualidade dos do Hitchcock, do Ford ou do Renoir. Hoje há cineastas americanos notáveis, mas já nem exibem, vão logo para a Netflix ou para sítios com condições precárias ou para a televisão.

 

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Em Portugal mostram-se filmes portugueses e americanos, em Espanha filmes espanhóis e americanos, em França filmes franceses e americanos. Há uns que ainda conseguem ser exibidos, mas a maioria vemos nas Festas do Cinema Francês, Italiano, Brasileiro. Os americanos dominam os mercados todos. Vão tentar agora enfrentar a única indústria que lhes faz frente, que é Bollywood: conseguiram um acordo com o governo indiano para dobrar os filmes em hindu, porque 90% das pessoas que vão ao cinema na Índia são analfabetos, que é para dominar aquele mercado também. Porque há milhões de pessoas lá a irem ao cinema. Eles fazem filmes tão caros que precisam do mundo inteiro. Não digo que não são divertidos, mas esmagam o resto. Costumo dizer que foi o Jaws (1975), que é um bom filme, que abriu aquela bocarra e engoliu as minorias todas. Foi aí que se percebeu que era necessário fazer outro tipo de filmes.

 

Quando eu andava na casa dos 20, via mais filmes europeus que americanos: Fellini, Rossellini, Visconti, Godard, Truffaut… vinham para aqui para as salas! Hoje não há isso. Foi criada uma crise enorme, vieram os jovens das universidades e criaram o entretenimento. E fechou-se o ciclo. O cinema começou a ser mostrado em feiras, como uma atracção de circo, e acabou nos centros comerciais, como uma atracção de circo! Quantas salas há em Lisboa? Há o Ideal que tem pouca gente e o Nimas. O resto está tudo nos centros comerciais, onde se mostram os filmes em que se come e bebe, porque rendem mais.

 

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E depois há esta noção de que o sucesso está em quem aparece nos jornais ou na televisão. Dizem “Ah, eu vi-o na televisão.” Mas nunca viram os filmes. Como o caso da Revista Caras e do Oliveira (onde ganhou 4 Globos de Ouro, atribuídos por um sistema de votação dos leitores da revista). Um dos Globos que recebeu teve 200.000 votos, mas o filme só fez 8.000 espectadores! Premiaram-no porque era o gajo mais velho da Terra a filmar, não pelas obras.

 

Ele teve o privilégio de iniciar com 70 anos uma carreira fulgurante. E dizia sempre que ia ser o último filme. Com o Memórias e Confissões é um caso engraçado. Eu vi-o na altura e era completamente diferente do que é hoje. Acabava com aquele plano dele na Tobis a dizer “O cinema acabou e eu acabei.”. Mas depois foi apanhado por um produtor francês que lhe produziu dois filmes muito caros, o Meu Caso (1986) e O Sapato de Cetim (1985). E voltou a ter reconhecimento. E com isso mudou-o, passou a ser optimista e a acabar com ele a escrever um guião e a falar dos filhos. Porque já não era o último filme, passou a ser um do meio.

 

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E quem é que gere neste momento o seu legado?

 

Ninguém. Porque aquela maneira filmar dele é única, não se pode transmitir. Mas há uma data de miúdos bons que filmam bem. E têm ideias. Como o novo do Pedro Peralta, ele é honesto, é aquilo em que ele acredita, é o que ele soube fazer melhor. As curtas do Salaviza são boas. Há coisas do Miguel Gomes que gosto muito. Ainda há esta vontade de fazer diferente. Acho que ainda há espaço para isso em Portugal porque não há mercado.

 

O cinema comercial português perde mais dinheiro que o não-comercial. E não só porque é mais caro. Para se pagar um filme português é preciso ter-se 3 milhões de espectadores. Um filme custa 1,5 milhões de euros. Porque o que vai para o produtor é cerca de 10% da receita. Portanto, não brinquem comigo. Se querem esta luta, vamos ver quanto custa e quanto é que rende. Não há nenhum filme português rentável! Nem as comédias dos anos 40, nenhum se pagou, foi tudo subsidiado pelo Estado! Nunca se pagaram, só agora com as reedições, as cassetes… Qual é o interesse cultural em ouvir “Ó Evaristo, tens cá disto?” ou “Chapéus há muitos, seu palerma!”? Aquilo não era Cinema, só Revista filmada. Eram todos iguais, sempre as mesmas histórias onde quem se portava bem era premiado: a criada casava-se com o patrão se portasse bem, o tipo pobre casava-se com a rica se portasse bem, a tia aparecia e deixava uma herança…. Tudo envolvendo a pequena burguesia salazariana a ser filmada. Só o Cottinelli Telmo (A Canção de Lisboa) era interessante porque era arquitecto, mas o resto era tudo treta. Naquela altura havia o Stroheim, o Renoir, o Sternberg e nós a fazer O Leão da Estrela! Agora é pior, que são remakes!

 

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Que achou da atenção que os média deram ao Manoel de Oliveira quando ele morreu?

 

Portugal costuma sempre premiar os mortos. Em vida é mais difícil. O Oliveira é um caso raro de longevidade e resistência. E tinha um grande erotismo. No Gebo e a Sombra (2012) ele ia morrendo de vaidade. O meu filho era assistente e foi buscá-lo a um hotel. Depois, foram buscar “as meninas”, uma tinha 79 (Claudia Cardinale) e a outra 84 (Jeanne Moreau). O Oliveira recusou, dessa vez, tomar medicamentos que precisava para urinar, para elas não o acharem velho. E foi para o hospital com uma retenção de líquidos. E outra vez virou-se para a Cardinale em Guimarães e disse “O que é que vai fazer esta noite?”. E a Claudia respondeu “Ó Manoel, vou dormir!” “Não sei se vai conseguir!”. Ele tinha 100 anos! Portanto, tinha uma pulsão de vida inacreditável. E costumava dizer-me que tinha de estar sempre a filmar, senão morria. E ele queria filmar e filmar e filmar… Mas as pessoas viam poucos filmes dele e só o conheciam pela longevidade. O Vou Para Casa (2001) foi um êxito comercial em França, até mesmo nos Estados Unidos. Mas não foi um êxito em Portugal. As pessoas diziam que viam, mas não viam.

 

Qual foi o primeiro filme de Oliveira que viu e qual foi a impressão que lhe causou?

 

O Acto da Primavera (1963) e marcou-me para sempre. Filme que o Jean-Marie Straub saiu do cinema a gritar. E depois percebi porquê. O Oliveira, apesar do tema ser religioso, tinha antecipado o modo como o Straub queria filmar. Filmava com temas políticos e era a mesma atitude: a matéria da alma, o físico das coisas, a representação denunciada. Eram aqueles planos secos que o Straub procurava. Depois assisti às filmagens do Amor de Perdição, mais ou menos na mesma altura. Havia um festival fantástico em Portugal que era o Festival da Figueira que trazia os melhores cineastas, o Syberberg, o Kramer, os tipos da Cahiers du Cinema, o Straub, imensa gente veio cá e era notável. Depois aquilo foi destruído, começaram a meter-se em compromissos e a trazer filmes de todo o lado, não pagavam e não havia dinheiro, mas o início foi brilhante, um dos grandes festivais que havia para quem gostava de cinema. Não era o bordel de Cannes, mas era bom.

 

Mas aquele que mais gosto, de longe, é o Amor de Perdição. Uma vez perguntei-lhe porque é que ele levou à letra o texto todo. E ele disse-me “Pega num livro do Camilo, vira ao contrário e não cai nada, não há nada para deitar fora.” E o artifício, o papelão… Se uma pessoa perceber que aquilo é papelão, depois vai às lágrimas no fim. Na ópera a mesma coisa. O importante não são os atores porque é o Texto a matéria das coisas. E depois o Oliveira não fazia campos/contracampos. Fazia planos. Punha um ator a olhar para um lado e o outro para outro. Dizia que estavam a falar para um público, que era teatro. É um desafio para o cinema! Assume-se o engano e depois mente-se, mente-se, mente-se, até se chegar à verdade. O Francisca (1981) já acho um pouco redondo. Mas o Amor de Perdição é cru. E depois adoro a versão de 7 horas de O Sapato de Cetim. Aquilo diz-nos que quer crescer e pede-nos para o deixarmos ir. É uma alucinação.

 

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publicado por Hugo Gomes às 15:45
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Apesar daquilo que muitos julgam, Eric Cantona não é novo na área da interpretação. O anterior jogador do Manchester United já contracenou com Cate Blanchett e Vincent Cassel no épico Elizabeth, em 1998, assim como já foi dirigido por Ken Loach em Looking for Eric, onze anos depois. Agora, interpretando Antoine, um sensível escritor em busca da sua inspiração, nesta comédia de "naufrágios humanos", Cantona confirma a sua aptidão para a arte do desempenho, algo, que o próprio garantiu, sempre o havia fascinado.

 

Cinematograficamente Falando … falou com o ex-jogador, como também com Sébastien Betbeder, o jovem realizador que o dirige em Marie et Les Naufrages, um comédia dramática onde um bando personagens sem nada a perder, decidem reencontrar-se a si próprios numa ilha remota. Um filme apresentado na 17ª Festa do Cinema Francês

 

Como é que surgiu a ideia deste projecto?

 

Sébastien Betbeder: Quando escrevi o projecto tinha um "mundo de ideias" e, simplesmente, não queria recusar qualquer uma. Criei um argumento extremamente longo, que continha 250 páginas e muito barroco. Foi então que senti a necessidade de reescrever e substituir por outras palavras mais densas no filme. Quis fazer algo extremamente literário.

 

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Vi muitos detalhes e passei muito tempo a regressar à história principal. Queria um filme acolhedor, convidativo. Era essa a ideia inicial. Depois disso, queria fazer uma história de amor e de aventura, extremamente moderno, que falasse da época que se vive em França e da geração de jovens que resistem pela prática artística, em particular. Música, literatura, a cultura em geral.

 

No seu filme temos uma selecção de personagens que procuram algo que sentem falta e estão ligados por essa sensação de vazio. Como construiu as suas personagens?

 

SB: Sim, podemos falar desse vazio. Lidamos com personagens que chegaram à plenitude das suas existências e cada um procura soluções para viver melhor e, com efeito, o amor é uma delas neste conjunto masculino. Porém, não interpretam tudo da mesma maneira. A personagem do Siméon, muito apaixonada, está, com efeito, numa jornada em busca do seu propósito na vida, enquanto que a de Antoine é bastante diferente, tem qualquer coisa de muito forte, mentalmente. É hipersensível às "ondas" (visto que a dada altura não pode estar perto de telemóveis), revê o seu coração nelas e crê no romance.

 

Os media norte-americanos descrevem-no como a coisa mais próxima de Sundance em França. É essa a sua influência, o cinema indie norte-americano?

 

SB: Eu sei que é um pouco pejorativo dizer isto, mas venho de um cinema influenciado pela Nova Vaga, particularmente de um cineasta bastante importante para mim que é o Alan Resnais, com aquela vontade de fabricar cada filme em Paris.

 

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Mas também sou influenciado por autores norte-americanos, principalmente pelo género mumblecore, porque têm a capacidade de dizer coisas muito sérias sobre o mundo através da comédia e da fragilidade de sujeito, particularmente os jovens, que são um pouco frágeis como os deste filme. Nesse sentido, as principais influências é o cinema de Noah Baumbach, o dos irmãos Duplass e até mesmo as comédias de Judd Apatow e Wes Anderson.

 

E como foi trabalhar com o Cantona?

 

SB: No princípio, a personagem de Antoine era muito jovem, com a idade de Siméon [interpretado por Pierre Rochefort, filho do veterano actor Jean Rochefort] e eu procurava um actor capaz de suster, até ao final do filme, algo entre uma emoção à flor da pele e a comédia. Fiz um casting, mas não encontrei ninguém à altura. Então repensei na personagem, falei com o Eric e ele mostrou-me no plateau que conseguia trazer esse traço particular, que era ir do riso a algo mais emocional e melancólico. Após ver o filme e estar em entrevistas com o Eric, creio que ele é um actor que deu à personagem aquilo que eu tinha esboçado. E é evidente que percebeu o argumento.

 

(Para o Eric) Como veio a ideia de se tornar actor?

 

Sempre o fiz. Sempre fui apaixonado pela profissão, mas também pelo futebol. Comecei no futebol, mas sempre soube que um dia poderia interpretar com outros atores, fosse no teatro ou por detrás das câmaras. Onde? Não importa. E hoje é assim, o passado decidiu. Esperei, fiz outras coisas, mas quando estamos apaixonados por algo e temos a possibilidade de fazê-lo, não é um trabalho como os outros, é amor.

 

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Como descreve a sua personagem?

 

Éric Cantona: Sensível, um escritor que adapta a realidade para credibilizar a história, captando cada situação. Ele é hipersensível às "ondas", mas as "ondas" são o amor. E creio que acaba por funcionar no sentido metafórico.

 

Já fez dois filmes como realizador. Planeia fazer mais?

 

EC: São tudo formas de expressão. Fiz um documentário e uma curta-metragem. Escolho a história, os atores, a luz, os cenários, o guarda-roupa. Sou apegado à estética, mas também à profundidade, ao sentimento. Mas ainda não tenho mais nenhum filme na cabeça.

 

Vive agora em Lisboa. Espera aparecer em filmes portugueses?

 

EC: (Risos) Sim, eu gostava. Eu tenho fama como actor. Mas não só em cinema, também em teatro. Estou agora num filme croata. Em Portugal, preferia aprender português e fazer teatro. Assim seria mais excitante.

 

E quanto a projectos novos?

 

SB: Vem aí uma nova longa-metragem que se passa na França e uma curta que decorre num apartamento em Itália.

 

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*especial agradecimento a Duarte Mata, do site C7nema, pela tradução

 

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publicado por Hugo Gomes às 12:48
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1.9.16

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Tudo começou com correspondência. As cartas escritas pelo jovem alferes António Lobo Antunes para a sua primeira mulher, tornaram-se com o passar dos anos mais do que um romance de longa-distância, num olhar intimista e desesperante duma realidade deslocada, porém, certa para muitos dos jovens portugueses de 68. As Cartas da Guerra ganharam notoriedade como livro, desvendando um escritor em busca de si mesmo no mais austero dos cenários, agora é convertido num filme com tamanha dimensão politica e sobretudo existencialista. Ivo Ferreira foi o mentor deste bélico português onde a verdadeira guerra reside no interior de cada ser. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador sobre a sua terceira longa-metragem, um "parto" difícil que resultou num filme impar da nossa cinematografia.

 

 

Gostaria antes de mais, perguntar o porquê de António Lobo Antunes e o porquê deste livro concretamente?

 

 

O porquê deste livro? Bem, porque quando o li tive a consciência que estava perante de material fortíssimo, quer em termos históricos (é em todo o caso um documento), topográficos, estamos a falar de um melhores escritores de sempre da Língua Portuguesa … e do Mundo, e é composto por uma magnifica história de amor. Não consigo responder exactamente o porquê de António Lobo Antunes e deste mesmo livro, mas é fantástico este acumular de cartas, organizadas pelas suas filhas, tende em conta que eram cartas guardadas pelo autor enquanto alferes miliciano. Cartas que trocava com a sua mulher, que na altura estava grávida da primeira filha. Ainda mais fantástico é a forma como ele olha e descreve as pessoas em seu redor, esses homens que estão a sair do seu país, "empurrados" totalmente para aquela guerra absurda e fora de tempo. 

 

Fala-se de complicações na produção. O filme demorou bastante tempo a ser concretizado, por algum motivo?

 

Houve complicações porque o Estado faliu e o ICA não tinha dinheiro. Época, Guerra e África são três componentes que afastam qualquer produtor entusiasmado, e quando começou-se a construir a parte financeira do projecto, a parte portuguesa não estava concretizada, isso não só bloqueou o filme, como também repugnou a tentativa de co-produção. Porque Cartas da Guerra era por si um filme com interesse em ser internacionalizado. Mais tarde quando veio o dinheiro tivemos a consciência que se íamos filmar em África iríamos gastar todo o dinheiro do "bolo", logo na rodagem. Estávamos todos falidos, então lancei-me numa jogada arriscada - e se eu terminar o filme?

 

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Um facto é que iniciamos a rodagem em Abril, começamos a montar de imediato, fomos a Veneza, pelo qual fomos seleccionados pelo European Gap-Financing Market para participamos num fórum, e em dois dias conseguimos financiamento para o resto do filme. O filme demorou muito tempo, sim, mas não foi porque andamos a "empatar", não sei se é recorde mundial, mas desde o momento em que começou a rodagem até à Competição em Berlim, foi bastante rápido.

 

Em Berlim, Cartas da Guerra foi constantemente apontado como um dos potenciais candidatos ao Urso de Ouro. Como se sentiu perante tais aclamações?

 

Só facto de estar em competição num dos melhores festivais do Mundo já é fantástico, não com isto seja falta de ambição mas é por si um motivo para estar satisfeito com o filme.

 

É verdade que os actores foram submetidos a uma "recruta de preparação"?

 

 

Algo que temos que ter em conta, visto que vamos ter actores a desempenhar soldados num cenário de Guerra, é garantir que os actores tenham ou conheçam formação militar. Muitos dos actores já nem se lembravam dos seus tempos militares, outros nem sequer foram à tropa, então teria que haver rigor nesta encenação. Os actores teriam que, por exemplo, saber como pegar uma arma ou até mesmo subir um Unimog [designação de uma série de caminhões off-road produzida pela Mercedes-Benz, utilizados sobretudo em serviço militar]. Aliás, as primeiras imagens dos nossos actores fardados e munidos com a G3 a tentarem subir pela primeira vez um Unimog, era realmente um filme muito cómico. Eles também teriam que experienciar a "pressão", nesse aspecto os Comandos foram "simpáticos", não para os recrutas como é óbvio, porque era preciso que eles sentissem a violência, quer física e psicológica, como preparação para uma eventual guerra.

 

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As Forças Armadas Portuguesas tiveram um importante papel na rodagem do filme?

 

Sim, portuguesas como também angolanas. Tivemos sobretudo um apoio imenso das Forças Armadas Angolanas. Esta ajuda não foi preciosa, nem dispensável, foi completamente impossível fazer este filme sem o apoio deles. Eles proporcionaram-nos tudo, desde logística a armamento. Falamos também em helicópteros, Unimog, Kamazes que foram emprestados pelo exército para transportar mais de 40 toneladas de material para a construção do aquartelamento. Nós construímos aquilo do meio do nada, tivemos até que reconstruir a ponte que dava acesso ao aquartelamento.

 

No fundo, o Ivo Ferreira filmou um filme de guerra, cuja guerra está ausente.

 

Ausente no pensamento deles. Aquilo é uma guerra pouco convencional, é a guerra do "toque e foge", os aquartelamentos estavam perdidos no meio do nada, supostamente eram posições estratégicas, uma estratégia um pouco questionável portanto, eles estavam a tentar defender a Zâmbia. Aquilo é que era o quotidiano daqueles soldados, o afastamento, o isolamento, era essas as verdadeiras guerra daqueles homens. No filme, os inimigos são eles próprios. 

 

Em determinada cena, enquanto os soldados se limpam numa casa de banho de campanha é possível visualizar um retrato de Salazar numa pia. Tal imagem é uma provocação ou somente uma demonstração do desgaste psicológico e da consciência politica destes homens após meses no aquartelamento?

 

Os soldados estavam a viver uma altura difícil. Encontravam-se a lutar numa guerra moribunda, uma guerra falida, uma guerra "estúpida" fora de época, simplesmente porque a ditadura não permitiu uma fácil descolonização. Aliás, em 68 (o ano em que decorre o filme) não havia qualquer motivo para persistir em colónias, a Guerra da Argélia já terminou há anos.  Essa imagem só esclarece a segunda fase desta estadia, o facto dos soldados encararem o fascismo, essa ditadura, como o verdadeiro inimigo. Obviamente que mais para a frente o inimigo acaba por ser eles próprios, ou seja, o pensamento deles passa a ser "e se sobrevivermos". 

 

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Uma natureza entre os soldados, algo que está descrito no filme, é que estes sonham regressas à vida civil, porém, não sabem concretamente o que fazer com esse retorno.

 

 

O que sei, é que os suicídios ocorridos durante esse período, não aconteciam durante a Guerra propriamente dita, mas sim, no regresso a casa. Estes aconteciam antes de voltarem a Portugal, derivado ao facto deles terem mudado tanto, mas tanto, que não sabiam mais como receber a dita "vida normal". Por isso sim, esse é o grande drama da personagem principal.

 

Mas nesse drama é também acrescentado, como refere o próprio Lobo Antunes, com um aparecimento de uma consciência politica.

 

 

Sim, ele próprio diz isso nas suas cartas: "O meu instinto conservador e comodista tem evoluído muito, e o ponteiro desloca-se, dia a dia, para a esquerda: não posso continuar a viver como o tenho feito até aqui.” Essa consciência politica também foi alimentada com o constante contacto com um Capitão, que foi o Capitão Ernesto Melo Antunes, que no filme é o seu parceiro de xadrez.

 

Quanto a novos projectos?

 

Vou começar a filmar uma nova longa ainda este ano, na China-Macau, intitulado de "Hotel Império", uma co-produção portuguesa com actores portugueses e chineses.

 

Também, estou a preparar um outro trabalho, um filme pesado com um orçamento de igual adjectivo, sobre um tema idêntico a este da Guerra Colonial. Este filme, que terá data para 2018, será sobre as FP25, as Forças Populares 25 de Abril, uma organização terrorista portuguesa.

 

Perguntam-me constantemente, "mas para quê? Se os que lá tiveram, os que viveram isso não querem falar sobre o assunto, porque raio você quer ?"

 

Como nasceu essa necessidade de falar daquilo que ninguém quer falar? Acredita que temas como este [Guerra Colonial] devem ser abordados para as novas gerações, por exemplo?

 

 

Sou fascinado por buracos negros, baús fechados e quartos privados e se sinto que há um assunto interdito, tabu, quero mais que tudo "falar" sobre ele. É muito estranho como é que na nossa História recente, os nossos livros de História passam do Estado Novo com duas ou três imagens, tocamos na Guerra Colonial com duas ou três linhas, passamos por uns indivíduos com cravos nas mãos e pronto chegamos a uma bandeira azul e umas estrelas. É estranho como uma tragédia do século XX não é falada, nem estudada. Claro, é olhando o passado que poderemos preparar o futuro.

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:40
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13.7.16

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Provavelmente o actor mais empenhado no projecto "A Trilogias dos Clássicos". Miguel Guilherme esteve presente desde o início com O Pátio das Cantigas, e lançou-se à comédia futebolística que fora O Leão da Estrela, sempre a "vestir" as personagens anteriormente interpretadas por António Silva. Segundo ele, este A Canção de Lisboa é a grande despedida da iniciativa que levou mais de 800 mil portugueses ao cinema. O Cinematograficamente Falando … falou com o actor sobre a sua experiência no projecto e os motivos que o fizeram permanecer na trilogia.

 

 

Como descreve a experiência que foi trabalhar nesta trilogia?

 

Foi uma experiência divertida, e no fundo como são três filmes, eles fazem parte da mesma experiência. Agora que terminei a trilogia, vejo-os somente como um projecto. Como já havia mencionado, diverti, mas também trabalhei muito, visto que o tempo de rodagem entre cada um dos filmes era muito curto. Conheci excelentes pessoas, entre as quais muitas que gostei de trabalhar, nomeadamente os dois realizadores, que antes da trilogia só tinha ouvido falar deles e nunca trabalhei directamente, falo de Leonel Vieira e Pedro Varela. Reencontrei alguns actores que não via algum tempo, outros com quem nunca trabalhei, mas que sempre apetecera trabalhar. Basicamente, correu bem.

 

 

Quanto às suas personagens interpretadas ao longo da trilogia, tentou de certa forma evitar ser um "cosplay" de António Silva? Uma imitação?

 

Não, fui fazendo conforme os argumentos e os filmes, é claro. Há um, o qual não imito o António Silva, mas tento aproximar, que foi o Pátio das Cantigas. Depois, nos outros dois, afasto-me gradualmente da sombra do António Silva, e tento encontrar o ritmo de cada personagem, de cada filme, e dos respectivos argumentos.

 

 

Considera algum motivo para o sucesso desta trilogia? Será a nostalgia, ou existe alguma fórmula vencedora?

 

Não faço ideia. Acho que não existe um só motivo, mas sim com vários. Principalmente, a nostalgia é importante, o facto de ser cómico também ajuda, os actores que o compõem e até o próprio argumento. Tudo isso contribui para o sucesso ou não, de um filme, ou de uma peça. Neste caso, não só propriamente a melhor pessoa para analisar o porquê que as "coisas" tem sucesso ou não. O que eu quero acima de tudo é que as pessoas gostam, divertem-se e de facto, que tenha sucesso, mas isso são esperanças. Pode acontecer como pode não acontecer.

 

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Se a trilogia prolonga-se, estaria decidido em "embarcar" em mais um filme?

 

Sim, há um clássico que gostava muito, o qual é bastante engraçado, que foi O Pai Tirano. Também não há muitos mais, no fundo resume-se a quatro ou cinco filmes pertencentes da chamada Idade do Ouro da Comédia Portuguesa, depois as "coisas" descambaram. Mas O Pai Tirano é um filme muito teatral, visto que aborda o teatro, e teria todo o gosto de fazer o filme. Entretanto, eu não sei porquê, não foi possível avançar com ele. Mas uma trilogia é uma trilogia, e pelo que percebo as "coisas" vão ficar encerradas.

 

 

Quanto a novos projectos?

 

Tenho alguns em televisão, porém, não posso falar muito deles porque ainda não estão definidos. Em 2017, para além da televisão vou ter uma peça de teatro, mas ainda não encontrei encenador, não existe datas, nada ainda. Só posso dizer que é uma peça muito interessante, é de origem francesa, que eu gostaria que alguém encenasse e que levasse à cena.  

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 21:57
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O Cinematograficamente Falando … falou com o actor César Mourão sobre mais um capítulo da chamada "Trilogia dos Clássicos", desta vez, e novamente como Vasco Santana, em A Canção de Lisboa. Nesta conversa descontraída, Mourão falou sobre o legado do actor que tem "encarnado" no grande ecrã em dois filmes e a sua experiência na comédia e nesta nova versão do clássico dos clássicos portugueses.

 

 

É a segunda vez que desempenha um papel anteriormente interpretado por Vasco Santana. Sente que de certa forma tem sido responsável por carregar o legado do actor?

 

É impossível ser Vasco Santana, porque simplesmente Vasco Santana é Vasco Santana e ponto final. Apenas faço o trabalho que me pedem da melhor forma possível, é um orgulho interpretar uma personagem já fora desempenhada por Vasco Santana, mas não pode haver comparação. Até porque são duas "coisas" completamente distintas. Se me perguntarem se adorava ter o reconhecimento que o Vasco Santana teve, claro que adorava, mas isso requer muito trabalho, empatia com o público e também sorte.

 

 

Então quer dizer que evitou ao máximo "imitar" Vasco Santana?

 

Sim, a ideia, aliás, era exactamente essa. O objectivo não era fazer uma comparação, não o de imitar Vasco Santana, portanto, foi completamente fugir a esse conceito.

 

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Os filmes como o clássico Canção de Lisboa são ainda hoje vistos como exemplares respeitados da comédia portuguesa. É difícil fazer comédia em Portugal?

 

Penso que a comédia em Portugal é bem aceite pelo público. O público gosta da comédia, não só em Portugal, mas como também no resto do Mundo. Atenção, eu sou um actor e não um comediante, trabalho, sim, com  a comédia e felizmente tenho conseguido viver com ela. O que é fantástico, porque é sinal de que o público compra bilhete para ir ver-nos ao teatro ao cinema, ou seja o público quer realmente ver-nos.

 

 

O facto de declarar como um actor e não um comediante, significa que aceitaria fazer, por exemplo, um papel dramático, ou algo fora daquilo que o público está habituado a vê-lo?

 

Claro, adorava. Como já havia referido sou um actor, não um comediante. A minha formação é de actor, por isso apreciaria interpretar qualquer papel em qualquer registo. Por exemplo, em A Canção de Lisboa, existem leves toques de algo mais romântico, mais sério, principalmente nas minhas cenas com a Alice [personagem de Luana Martau]. Mas em Portugal, por vezes, ficamos rotulados com uma determinada característica ou interpretação. Mas como actor, cá estou eu para aceitar os desafios.

 

 

Para si, qual é a fórmula de sucesso desta trilogia? Sabendo que o sucesso em A Canção de Lisboa ainda é uma incógnita?

 

Modéstia à parte, acho que este também vai ser um sucesso. Agora, quanto ao êxito, este é resultado de um verdadeiro trabalho por detrás, da dedicação, e tal pode ser verificado neste filme. A Canção de Lisboa é um filme sério, digno, que respeita sobretudo o público-alvo, o público que realmente pretendemos atingir. Não é um filme pretensioso, nada disso. É apenas um filme bem escrito, com dedicação e empenho, esse é sim, o segredo do sucesso. O resto é o público gostar ou não.

 

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Se a trilogia prolongasse para mais um ou outro filme e se esse filme contasse uma personagem anteriormente interpretada por Vasco Santana, aceitaria participá-la?

 

Adoraria, desde que o roteiro ou guião fosse do meu agrado, e tudo o que estivesse à volta também for do meu agrado. Obviamente, que fosse também bem tratado. Portanto, desde que eu gosto, porque não …

 

 

Quanto a novos projectos?

 

Não tenho. Mas atenção, é por opção. Tenho a Commedia a La Carte, o qual será para o resto da vida, ainda tenho esperanças de começar um espectáculo no Teatro da Trindade. Os meus projectos são feitos no imediato, é aqui que eu estou, é aqui que eu vou, fazendo sempre "coisas" novas. Convites? É esperar por eles e ver o que daí sai.

 

 

 

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publicado por Hugo Gomes às 13:31
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30.4.16

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Por entre a realidade filmada em jeito documental e a encenação não como um dispositivo fictício, mas antes uma ferramenta para compreender esse mesmo veio de veracidade, Olmo e a Gaivota [ler crítica] é um dos filmes mais fascinantes a chegar aos nossos cinemas este ano. As autoras desta obra, a brasileira Petra Costa e a dinamarquesa Lea Glob, falaram com o Cinematograficamente Falando … sobre esta colaboração não voluntária que resultou numa catarse sobre o cinema propriamente dito, sem limitações a géneros nem estilos. No seio de Olmo e a Gaivota esconde-se ainda temáticas a merecer da nossa consideração, algumas delas fazendo parte da luta de Petra, os direitos das mulheres e a soberania destas pelo seu próprio corpo.

                                                     

 

Começo com a pergunta mais básica, como surgiu este projecto?

 

Petra Costa: Este projecto surgiu através do Dox Lab, num festival da Dinamarca. Todo os anos são convidados dez realizadores não-europeus para co-dirigir com dez europeus. Eu fui convidada para trabalhar com a Lea, tinha até um certo interesse no cinema dinamarquês e queria conhecer um pouco mais sobre ele. Tínhamos uma semana para decidir que tipo de filme iríamos conceber, mesmo antes de conhecer-nos pessoalmente. Vim com dez ideias que tinha guardado desde então, uma delas era a documentação de um dia na vida de uma mulher onde nada acontece, mas que tudo acontece na sua cabeça. Entretanto, a Lea sugeriu: "e que tal pegasse-mos numa mulher real". Ela estava mais interessada em fazer documentário e no meu caso, ficção. Ela queria ir para a Amazónia e eu para Dinamarca.

 

"Sim, vamos pegar numa mulher real, mas se for actriz, pegaríamos na vida real dela, e eu conheço uma actriz". A actriz que falava era Olivia Corsini, que estava no momento a fazer uma turneê no Brasil através da companhia teatral francesa Theatre du Soleil e que tinha visto o meu primeiro filme [Elena]. Ela havia sugerido fazer um filme comigo, então falei-lhe da ideia. A Lea gostou. Fizemos uma reunião através do Skype com Olivia que demonstrou automaticamente interesse. Todavia, ela disse "estou grávida", e foi aí que decidimos alargar um dia para nove meses.

 

Lea Glob: Foi um convite através do CPH:Dox, a escolha seguiu do comité do festival, por isso não tivemos decisão nenhuma com a formação deste par. Enquanto isso, eu tinha visto Elena, e encontrei similaridades com a minha curta [Mødet med min far Kasper Højhat], ambos falavam de histórias pessoais que tinham como temática o suicídio. Esse era o primeiro filme da Petra, e no meu caso, tinha acabado de formar na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca, eu sou europeia, ela não, por isso julgo que quem decidiu esta dupla encontrou uma espécie de ligação, algo em comum.

 

 

O facto de trabalhar com uma actriz, seria a melhor forma de trabalhar ambos os lados, o lado ficcional e o lado verídico, neste caso documental?

 

 

LG: Absolutamente, tal era essencial. Aliás ela era bastante dada a trabalhar desta maneira, isso nota-se ao longo do filme. Ao trabalhar com actores assim tornaríamos realizadores mais livres e chegaríamos facilmente à intensidade do material.

 

PC: Na grande maioria dos documentários, uma das grandes questões é ter acesso ao personagem e a questão dos limites, se está ou não a invadir a vida daquela pessoa, ou se está usando ela num filme que supostamente poderá não ser tratada da forma como ela pretende. Mas a grande vantagem de trabalhar com um actor é que o desejo é recíproco, ela não quer contar uma história, ela quer ser usada, porque essa é a sua profissão, o seu desejo, a de estar ao serviço de uma história nem que para isso tenha que usar o corpo e a mente. Mas quando a história é na realidade a vida dela, o ângulo inverte mas continua no âmbito do desejo.

 

 

No caso de Petra, visto que já conta com duas longas-metragens, Elena e Olmo e a Gaivota, existe uma palavra que caracteriza esse seu cinema - intimidade. Enquanto que em Elena, o espectador sentia-se incomodado por invadir a sua intimidade, neste filme, estamos a invadir a intimidade de uma actriz, o qual em certas sequências Olivia pede mesmo para parar. Como sente em invadir a intimidade de outras pessoas?

 

PC: É um pouco mais que isso, porque é justamente nessas questões que estou a falar, quando é a sua própria intimidade vai da vontade, não existe um limite imposto. Mas essa tensão foi frutífera, é como estivéssemos constantemente a jogar aquele jogo de cordas onde cada um puxa para o seu lado. Nós tentamos chegar um pouco mais fundo na intimidade dela, e ela, com clareza, deixava, depois há um momento em que colocamos visivelmente as nossas interacções com ela. Nesse aspecto, tratou-se de revelar esse limite - as portas  - como as do banheiro que se fecham, neste caso conseguimos estar do lado dentro do banheiro (risos).

 

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Em Olmo e a Gaivota, o que é que poderemos considerar ficção e documentário?

 

LG: Não existe resposta para isso (risos), nem sei se consigo responder correctamente a isso. Julgo que é a mais bela parte do filme, porque incentiva os espectadores, mas não se trata de um jogo do que é falso ou real. Diria antes que é uma "onda" de interacção, sim diria antes isso, e como tal gosto do filme por causa disso, porque faz-me sentir que fizemos algo certo naquilo.

 

PC: Sim, essa é a questão que motiva o filme, que analisa todas as cenas, é como fizéssemos um filme hermafrodita, qual seria a parte masculina, qual seria a feminina. O filme é precisamente a tensão entre os dois géneros.

 

 

Quais as grandes influências para a condução deste filme?

 

LG: O teatro, assim como a peça de Anton Tcheknov, que foram bastantes importantes para o tom do filme.

 

PC: Primeiramente o teatro, Olivia integrava o Theatre du Soleil, por isso temos registos dos seus ensaios e encenações. Temos ainda influências do cinema francês, não da Nouvelle Vague, mas da facção Rive Gauche, como Chris Marker, Alain Resnais e Agnès Varda, que usualmente abordam as questões da identidade, da memória, mais do feminino. O livro de Virgina Woolf, Miss Dalloway, que foi para nós essencialmente um guia, visto que era para ser um dia na vida de uma mulher, mas que fez com que olhássemos para a vida de Olivia através da moldura desse livro.  

 

 

No final, Olmo e a Gaivota resultou num retrato de um romance. Uma romance entre dois actores, marido e mulher que teriam que lidar com o maior dos fardos. O filme captou esse amor na sua integral forma, relembro da sequência musical [Mi Sono Innamirato di Te], por exemplo. Tal factor [o romance] já estava prescrito na ideia ou foi uma oportunidade que surgiu durante o processo?

 

LG: Diria que foram os dois casos. Visto que temos uma história sobre gravidez e era normal termos um amor, uma relação amorosa, que poderíamos aprofundar. Bem, eu penso que sou a pessoa mais romântica da "equipa" (risos) o que fez também abordar esse tópico.

 

É bom sentir o amor, e existe bastante neste filme. Petra também mencionou que tal transmitia uma empatia entre os dois, não apenas como marido e mulher, mas também como actores, o que permitiu-nos segui-los, o qual tornaram uma relação gentil. Eles são gentis juntos, e isso foi bom. Quanto às canções, como também muitos outros gestos, surgiram através deles. Foram tudo ideias deles.

 

PC: Sim, penso que isso está muito presente na sua relação. Talvez tenhamos provocado mais o outro sentido, do que mostrar mais amor. O amor surgiu naturalmente, assim como demonstraram as "fracturas" desse relacionamento.

 

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Quanto a novos projectos? Regressarão como equipa ou separadamente?

 

LG: Bem, ambas temos novas ideias, mas serão em separado. Não temos ideia de regressar a esta colaboração, quer dizer, se Petra pedir estarei disponível, assim vice-versa. As portas estão abertas e continuarão assim. Neste momento, estou a preparar um filme sobre a sexualidade, a interpretação de mulheres através de memórias erradicadas, como elas procedem a esse encontro.

 

PC: Estou a trabalhar num filme ficcional que decorre nos anos 80, no Brasil, sob o ponto-de-vista de uma jovem rapariga, focando na maneira como ela interage com a diferença de classes e politicas. Também estou a trabalhar num documentário sobre a crise politica brasileira.

 

 

Para Petra, gostaria de falar sobre a sua campanha "O Meu Corpo, as Minhas Regras"?

 

PC: Sim. Surgiu quando o nosso filme ganhou o Prémio de Melhor Documentário no Festival do Rio. Fiz um discurso em que dedicava o prémio a todas as mulheres, para que nenhuma sofresse de machismo no Brasil, desde a presidenta até à doméstica, e que todas tivesse a soberania sobre o próprio corpo, seja para mergulhar numa gravidez como a nossa personagem, com todos os direitos para isso, ou fosse para interromper, como já é legal na França e EUA há mais de quarenta anos.

 

Nessa noite fui dormir feliz, até porque tinha ganho um prémio (risos) e feito um discurso. Na manhã seguinte, acordo com uma invasão de milhares de comentários muito agressivos na minha pagina de Facebook, "sua abortista, você deveria morrer, é pena que a tua mãe te teve, fecha a perna, sua vagabunda", um machismo que nunca tinha encontrado, pelo menos a este nível. O que demonstra um ódio crescente que o Brasil tem experimentando.

 

Então através disto fiz um vídeo, pelo qual já tinha vontade de fazer, que tratasse das questões do filme que não estão claramente abordadas nela, que é a falta de interpretação de mulheres no cinema, a questão do corpo e do próprio aborto. Tinha alguns actores que tinham visto o filme e que tinha gostado, e então sugeri a ideia, eles gostaram e prosseguimos com a iniciativa. A ideia era pegar no figurino de Olivia, mulheres e homens engravidando até para colocar na mente das pessoas o que aconteceria se o sexo masculino pudesse mesmo engravidar. No Brasil, muitos colocavam a hipótese se o homem engravidasse o aborto já teria sido legalizado há muitos séculos.

 

O vídeo surgiu disso, brincar com todas essas questões e ele viralizou, teve umas 14 milhões de visualizações e partilhas em diferentes páginas de Facebook. Acabou por virar uma "onda", que fora a primeira "onda" feminista de grande impacto no Brasil. O país teve um movimento feminista nos anos 60 e 70, mas foram bastante reprimidos. Ou seja, eles afirmaram menos do que desafirmaram, virou quase "xingamento", só em Novembro do ano passado é que ser feminista deixou de ser "xingamento" no Brasil.

 

Tudo também foi possível porque temos um forte antagonista que é Eduardo Cunha, presidente da Câmara, que é um dos políticos mais machistas que o Brasil presenciou, e também um dos corruptos, o qual vem retrocedendo diversas pautas que foram conquistados pelas mulheres.

 

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O que está a tentar dizer que o Brasil é no fundo um país conservador?

 

É um país contraditório, para muitos é a terra do samba, da mulher "pelada", do homem cordial, da igualdade racial, mas isso é falso de certa forma, essas contradições é como estivessem enterradas por ali. Somos um país que comemora a democracia, mas na realidade ela é uma fina camada de papel, que por baixo vai sendo corroída por ratos. Esses mesmos ratos, comeram, comeram, até que quebraram a coluna vertebral, e os ratos estão agora expostos, mas na verdade eles sempre estiveram ali. Talvez seja do facto do Brasil nunca ter tido uma Guerra Civil como os EUA ou uma grande luta pela independência. Nunca houve esse embate de ideais.

 

Hoje assistimos a um país sob uma Guerra Civil retardada, uma parte, esclavagista, machista, oligarca e conservadora contra uma outra porção que luta pelos direitos humanos.    

      

 

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publicado por Hugo Gomes às 19:44
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